RESSACA: ENGOV OU COLHER DE AZEITE?

Você vai beber mesmo nos próximos dias. Pudera. Passadas as confraternizações de fim de ano com amigos e colegas de trabalho, o almoço e a ceia de Natal, está chegando o reveillon. Logo, nada mais legítimo do que se preocupar com a ressaca, o horror do dia seguinte. Cefaléia, fadiga, aumento da sensibilidade à luz e ao ruído, dores musculares, boca seca, vermelhidão dos olhos, tontura, náusea, vômitos e diarréia são sintomas usuais para quem exagerou um pouco na dose. Pesquisa feita nos EUA na década de 1990 revelou que 75% dos que consumiam bebidas alcoólicas já haviam experimentado o desprazer da ressaca ao menos uma vez na vida. Não é à toa que tanto aumenta, nesta época do ano, a procura por receitas que garantam acordar são e salvo depois das celebrações.

 

A propósito, qual ou quais destas cinco receitas difundidas pelo Brasil afora são capazes de evitar a ressaca?

 

· Tomar um Engov antes e outro depois de uma comemoração, como sugere a propaganda?

 

· Ingerir uma colher de azeite antes de beber?

 

· “Forrar” o estômago?

 

· Alternar bebidas alcoólicas com o consumo de água-de-coco, mineral ou sucos?

 

· Tomar bastante refrigerante?

Acetaldeído, o grande vilão

Atenção: Engov não é passaporte para beber sem problemas. “É propaganda enganosa, ele não impede a intoxicação pelo álcool”, alerta a biomédica e professora Maria Lúcia Formigoni, coordenadora da Unidade de Dependência de Drogas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O pior, constata a especialista, é que a falsa promessa de proteção leva alguns a abusar da bebida e, portanto, a correr outros riscos.

 

O Engov é apenas um medicamento para aliviar especialmente a dor de cabeça, o sintoma número 1 da ressaca. Funciona tal qual um comprimido de analgésico. Tanto que o ácido acetilsalicílico, a popular aspirina, é o seu principal componente. Os outros três são: hidróxido de alumínio – antiácido; mepiramina – anti-histamínico, que reduz enjôos e vômitos; e cafeína – estimulante do sistema nervoso central, que diminui o torpor. Ou seja, o famoso remédio age somente sobre alguns dos sintomas causados pelo excesso de álcool, diminuindo-os, mas não evita a intoxicação nem a ressaca. Tomá-lo por antecipação é como recorrer a analgésico, antiácido ou antiemético ao desconfiar de que terá dor de cabeça, acidez gástrica ou náusea. Só isso.

 

E as outras receitas citadas acima? As quatro – você vai descobrir mais à frente por quê – podem ajudar a evitar a chamada fase pós-intoxicação pelo álcool. “Só que o grande responsável pelos sintomas do dia seguinte não é o álcool propriamente dito, mas o acetaldeído, um metabólito dele”, informa o gastroenterologista e professor Aytan Sipahi, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Em pequenas doses, o álcool deixa a maioria das pessoas mais relaxadas, alegres e descontraídas, pois estimula determinadas áreas do cérebro. No entanto, à medida que seu nível sobe no sangue, atinge outras regiões do sistema nervoso central, diminuindo o funcionamento delas. Afinal, uma vez ingerido, o álcool segue para estômago e intestino. Aqui, é absorvido e lançado na corrente sangüínea. Por meio então da circulação, atinge o corpo inteiro – inclusive o cérebro. No fígado, porém, o álcool é progressivamente transformado em outra substância - o supertóxico acetaldeído.

 

Em português claro: se você bebeu até de madrugada e acordou sentindo-se um trapo, o maior culpado pelos sintomas desagradáveis é o acetaldeído acumulado no sangue. Nosso organismo é capaz de eliminar uma dose de álcool por hora, ou seja, 40 gramas da substância ativa das bebidas. Isso equivale ao consumo de uma latinha de cerveja ou de uma taça de vinho (150 a 180 ml) ou de uma dose de uísque daquelas de dosímetro de boate (40 a 45 ml). Cuidado, porém: mesmo depois que você pára de beber, o acetalteído continua circulando no organismo por um certo tempo. E é claro que, quanto maior for o consumo de álcool, maior será o acúmulo de acetaldeído e, conseqüentemente, pior a ressaca.

 

“De fato, a intensidade da ressaca depende muito da quantidade de acetaldeído no sangue, que, por sua vez, depende da quantidade de álcool consumida e da velocidade da ingestão”, salienta Maria Lúcia Formigoni. No entanto, há pessoas que, mesmo ingerindo baixas doses, sofrem com o problema, pois são mais sensíveis à ação do álcool. O mesmo acontece àquelas com lesão no fígado.

Acorde bem no dia seguinte

O ideal, portanto, é tentar evitar a ressaca. A receita básica é diminuir o acúmulo de acetaldeído. Imagine uma caixa-d’água especial. Para enchê-la, basta abrir uma torneira; para esvaziá-la, o único recurso é uma canequinha. Pois bem, a caixa-d’água equivale ao nosso sistema de metabolização do álcool; a torneira, à via de entrada dele no organismo; o conteúdo a ser tirado com canequinha, ao acetaldeído. Ao abrir demais a torneira, a caixa atinge rapidamente o seu limite, mesmo que continue o trabalho de esvaziamento. Não há como acelerar a eliminação do álcool, que tem velocidade fixa. A “água” então se amontoa, causando estragos na “caixa”. “Por isso, o único jeito de prevenir a ressaca é vigiar mesmo o acetaldeído”, frisa a professora Maria Lúcia Formigoni. “Esse cuidado permite ainda que você beba de maneira mais adequada.”

Você pode diminuir acúmulo do vilão das seguintes maneiras:

 

· “Forrar” o estômago antes de beber – Pode ser com uma comida gostosa ou até com a tal colher de azeite, segundo Maria Lúcia. O importante é ter alimento lá dentro para competir com o álcool na hora da absorção. Isso tornaria a assimilação mais lenta, diminuindo por tabela a produção de acetaldeído.

 

· Beber aos poucos – O maior espaçamento entre os drinques faz a metabolização do álcool ocorrer também de forma paulatina. Em conseqüência, a fabricação de acetaldeído é igualmente mais vagarosa, o que dá tempo ao organismo para eliminá-lo em maior quantidade, evitando assim o acúmulo.

 

· Hidratar-se bem, alternando o consumo de bebidas alcoólicas com o de não alcoólicas – O álcool inibe a ação de um hormônio chamado antidiurético. Por isso, aumenta a produção de urina, facilitando a desidratação e a maior concentração de acetaldeído no corpo. É fundamental, então, ingerir mais líquidos do que habitualmente. O consellho vale principalmente para quem prefere vinho ou destilados como uísque e pinga. Você pode beber água-de-coco, água mineral, sucos ou até refrigerantes. Ao consumir mais líquidos é como se você tomasse uma bebida mais diluída. E bebida mais diluída significa menor concentração de acetaldeído.

 

· Respeitar o seu limite – Peso, tolerância e sexo são variáveis importantes para determinar o limite de cada pessoa. Uma forma prática e infalível de saber o seu limite: quando você planeja dizer uma palavra, mas diz outra, está na hora de dar um tempo no drinque. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera como de baixo risco beber até duas doses de álcool por ocasião se você for homem; se for mulher, uma dose. O cálculo é para uma pessoa de 70 quilos.

 

As mulheres, aliás, são efetivamente mais suscetíveis aos efeitos do álcool. Por duas razões. Primeira: não têm um pouco da enzima álcool desidrogenase no estômago, o que ajuda a metabolizar o álcool, como acontece aos homens. As mulheres só possuem essa enzima no fígado. Segunda: mesmo as magras, têm proporcionalmente mais gordura e menos água do que os homens no organismo. E como o álcool se distribui pela porção de água, ele se concentra mais fortemente no organismo das mulheres.

Coisas que aumentam o risco

Portanto, beber rapidamente, de estômago vazio, de maneira concentrada num curto período, é a “receita” perfeita para aumentar o risco de ressaca no dia seguinte. E misturar bebidas? Na verdade, ao experimentar várias bebidas, a pessoa perde a conta do quanto está bebendo e eventualmente migra para bebidas mais fortes. Resultado: consome mais álcool do que o habitual, acumula mais acetaldeído e, claro, aumenta o risco de ressaca.

 

No entanto, estudos recentes indicam que o tipo de bebida também influi no desprazer do dia seguinte. As bebidas escuras, como vinho, tequila, licores, uísque e conhaque, aumentam a freqüência e a intensidade da ressaca. Já as claras, como rum, vodca e gim, tendem a causar menos efeitos. A explicação não está só no teor alcoólico, mas também na presença de substâncias processadas na fabricação das bebidas.

 

Tomados todas as precauções, o que fazer se a ressaca inevitavelmente ocorrer no dia seguinte? A receita do doutor Aytan Sipahi: repousar e tomar bastante líquido. Em caso de dor de cabeça, pode-se recorrer a um analgésico. Se a azia atacar, recorra a algum medicamento que iniba a produção de ácido no estômago, como lansoprazol. “E não dirija enquanto o desconforto permanecer”, alerta Aytan Sipahi. A ressaca piora os reflexos, a concentração e a capacidade visual, aumentando o risco de acidentes. As companhias americanas de aviação, por exemplo, proíbem os pilotos de voar se tiverem bebido até 24 horas antes. A interdição vale para os veículos que circulam no chão: de ressaca, não saia dirigindo carro ou moto em hipótese alguma. Vá de táxi ou de carona.

Conceição Lemes