Jogo de Bingo: Uma Epidemia Silenciosa?

Introdução

O que motivou a escrever este artigo foi o fato de uma pessoa, a partir de um encaminhamento médico, procurar ajuda em ambiente protegido de comunidade terapêutica por estar "viciado em jogo de bingo" (sic).

O fato chamou a atenção por duas razões. Primeira: são raros os casos que procuram tratamento em comunidade terapêutica para tratar de jogo patológico. Geralmente esses casos estão relacionados a jogos como o carteado e a sinuca, e quase sempre associados à dependência de alguma substância psicoativa, o que explica a procura de um local para tratamento de dependência de drogas. Segunda, e a mais importante, por tal fato estar relacionado ao jogo de bingo; jogo este recentemente liberado no país.

Jogo patológico é um transtorno psiquiátrico classificado como transtorno do controle dos impulsos, tanto pela CID-10 (1993) quanto pelo DSM-IV (1995).

Numa revisão de literatura, Tavares et al (1999) argumentaram que, embora o jogo patológico tenha sido anteriormente classificado como comportamento compulsivo e, depois, como dependência, ainda necessita de uma melhor caracterização, já que veio ser reconhecido oficialmente como transtorno psiquiátrico somente em 1980 (DSM-III). Com a liberação do bingo e com a discussão sobre a liberação de cassinos para estimular o comércio e o turismo, o jogo patológico, do ponto de vista médico-científico, fundamentado como uma dependência prescindindo de substância psicoativa, é um referencial favorável para pesquisas de fatores extrafarmacológicos que poderão conferir vulnerabilidade à dependência.

No Brasil, a prevalência e o impacto do jogo patológico não são conhecidos. Oliveira (1997), provavelmente o primeiro estudo sistemático de campo com amostra brasileira, constatou que de 171 freqüentadores de casas de apostas (bingo, jockey club e videopôquer), 75 foram diagnosticados como jogadores patológicos, sendo 87,7% do sexo masculino, 50,7% casados, idade média em torno dos 40 anos, 71,6% empregados em tempo integral, 82,3% com 2º Grau ou curso superior, pertencentes à classe média e renda em cerca de 3.500 dólares no câmbio da época (Cf. Tavares et al, 1999).

Assim, um caso de jogo patológico, primeiro de nossa casuística relacionado ao jogo de bingo, recentemente liberado no país, não pode passar desapercebido, mas ser objeto de análise e de preocupação na área da saúde mental.

Caso clínico

Paciente de 58 anos, branco, masculino, natural de São Paulo, SP, procedente do interior do Estado de São Paulo, ensino médio, casado pela segunda vez, católico, aposentado. Atividade anterior: escriturário.

É o mais velho dos três irmãos. Pais falecidos.

Desde a juventude começou a freqüentar locais de jogo de carteado. Com o tempo tornou-se jogador patológico. Por passar boa parte do tempo, depois do trabalho, em mesas de jogo, a esposa o deixou. Não tiveram filhos. Além disso, havia contraído dívidas. Esses fatores mobilizaram os familiares na época a interná-lo em um hospital psiquiátrico para tratar o problema.

Após o tratamento ficou vários anos afastado do jogo. Retomou ao trabalho, acertou sua vida financeira e conheceu uma moça, que viria ser sua atual esposa.

Entretanto, após reorganizar sua vida afetiva, profissional e financeira voltou a freqüentar esporadicamente locais para jogo de carteado, sem problemas aparentes.

Há dois anos, aproximadamente, deixou de jogar o carteado e começou a freqüentar locais de jogo de bingo. No decorrer do tempo, já aposentado, suas idas a esses locais passaram a ser diárias, aumentando gradativamente os períodos de permanência.

Gastava seu salário de aposentado no bingo, fazendo com que a esposa sustentasse casa, o que influiu negativamente no relacionamento do casal.

Ficou endividado e os credores vinham cobrá-lo em casa. Para poder jogar, pedia dinheiro a vizinhos e a qualquer um que passava na rua. Foi várias vezes ameaçado por pequenos credores porque mentia para conseguir dinheiro. Por exemplo, dizia que precisava de dinheiro para levar ao médico a esposa que estava doente. Foi por meio de vizinhos que a esposa descobriu que ele estava pedindo dinheiro para o jogo.

Com a ameaça da esposa abandoná-lo, procurou um médico que lhe receitou benzodiazepínico para controlar a ansiedade e sugeriu o tratamento em ambiente protegido.

Foi admitido no Instituto em meados de 2000. Veio com a esposa e estava aceitando a internação. Disse que precisava de ajuda porque "estava viciado em jogo de bingo" (sic). Queixava de depressão, preocupação excessiva com suas dívidas, insônia e dizia sentir muita ansiedade quando não estava jogando ou quando não tinha dinheiro para jogar. Revelou muita preocupação com a ameaça da separação conjugal.

Relatou também que diariamente, às 14 horas, ia ao bingo porque a primeira rodada era gratuita. No período da tarde o bingo era freqüentado mais por donas de casa, aposentados e desempregados; no período da noite, por pessoas que saíam do trabalho, jovens, pessoas que iam "tentar a sorte" e "jogadores que estavam sempre por ali".

Revelou ainda que em prazo de uma hora chegava a perder cerca de 40 a 50 reais. Achava que com o tempo os responsáveis do bingo aumentavam a velocidade com que as pedras eram cantadas. Antes do término da rodada, os funcionários já "ofereciam" cartelas para a próxima. Na intenção de recuperar o que perdia, continuava no jogo até acabar o dinheiro. Mudava às vezes de locais para "ver se dava sorte". Raramente ganhou.

Não faz uso de substâncias psicoativas. É diabético. Está controlada.

Permaneceu 15 dias na comunidade onde recebeu tratamento psiquiátrico, atendimento psicológico individual e grupal, participou de atividades de terapia ocupacional e de atividades esportivas. Houve remissão da ansiedade e da insônia. Saiu com alta melhorada e orientado a continuar o tratamento em regime ambulatorial (psiquiátrico e psicológico)

Discussão

Uma maior oferta de jogo de aposta, com a instalação de locais de jogo de bingo, onde as rodadas são a preços populares, e a considerar os riscos existentes que podem propiciar vulnerabilidade à dependência, é interessante fazer um paralelo com a cocaína, pois o aumento de sua produção foi um dos fatores importantes no aumento da população usuária e, em conseqüência, dependente.

De acordo com Laranjeira et al (1997) o padrão de consumo de drogas no Brasil tem mudado constantemente e de maneira dramática nos últimos vinte anos. Até o início dos anos oitenta, a cocaína era utilizada por um círculo restrito (pessoas muito ricas ou com ligações no mundo dos negócios e da arte) por sua baixa oferta e alto custo financeiro. Com o implemento das plantações de coca nos países andinos com o objetivo de atingir o mercado americano e com a utilização da rede já existente de distribuição da maconha, o Brasil tornou-se uma passagem importante na rota do tráfico. Assim, parte substancial dessa droga passou a ficar no país ocasionando grande queda no preço.

Isso aumentou, no começo dos anos oitenta e início dos anos noventa, o consumo de cocaína com o predomínio do padrão de uso aspirado e, posteriormente, na forma injetável, determinando que milhares de usuários se infectassem pelo HIV, onde muitos já morreram ou acabaram infectando parceiras e filhos (Laranjeira et al, 1997).

No início dos anos noventa, com o advento da Aids e o conseqüente risco de transmissão do HIV com o uso injetável da cocaína, principalmente em São Paulo, o padrão de uso injetável de cocaína diminuiu sensivelmente e passou a ser fumada na forma de crack, surgindo novo padrão de uso e atingindo um novo tipo de consumidor: pessoas mais jovens e moradoras da periferia das Grandes Cidades (Dunn et al, 1996; Laranjeira et al, 1997).

Se o uso de cocaína era restrito no início dos anos oitenta e se hoje o acesso ao crack aumentou extraordinariamente, quer pela oferta, quer pelo preço, mesmo se tratando de uma substância ilícita, e multiplicando-se as complicações médicas, psicológicas, sociais, jurídicas, etc., decorrentes; do mesmo modo, se antes o acesso a locais de jogos de apostas era restrito à uma certa parcela da população, com a liberação e a proliferação de locais de jogo de bingo, a preços populares, hoje pode estar estimulando um maior número de pessoas, que antes não jogava, a jogar. Em outras palavras, a liberação do bingo pela Lei Zico (Lei 8672/93) e posteriormente pela Lei Pelé (Lei 9615/98) tem possibilitado, cada vez mais, o surgimento de locais de jogo de bingo e, ao mesmo tempo, estimulando um maior número de pessoas a jogar, e que, provavelmente, a maioria delas não teria acesso a esse jogo se fosse proibido. Dado, até então, o caráter endêmico do jogo patológico, isto é, restrito a certos lugares (por exemplo, clubes onde se joga o carteado, jogo de sinuca, casas de apostas clandestinas e locais de corridas de cavalo) e à uma pequena parcela da população, pode-se inferir, nessa lógica, a um provável aumento de jogadores patológicos numa população que, até então, não jogava.

Além disso, por estar liberado, o jogo de bingo alcança hoje uma categoria que se pode dizer similar à uma substância lícita, por exemplo, a bebida alcoólica. São conhecidos os graves transtornos decorrentes do uso dessa droga legalizada, pois, na questão do uso do álcool, entre outras dificuldades de prevenção e de controle (por exemplo, a venda de bebida alcoólica é proibida para menores, mas quem respeita essa lei?), o mais difícil é precisar, em cada indivíduo usuário de etílicos, os limites entre o beber social e o beber problemático. Daí, a bebida alcoólica, como toda substância psicoativa legalizada, ser como "lobo em pele de cordeiro" (Zago, 1996). Dessa maneira, com o bingo liberado, poderá ocorrer uma dificuldade semelhante no sentido de especificar os limites entre o jogo recreativo e o jogo patológico.

A existência de locais de atendimento e ajuda a jogadores patológicos, por exemplo, os JA (Jogadores Anônimos), com base no trabalho dos Alcoólicos Anônimos; o Ambulatório do Jogo Patológico e Outros Transtornos do Impulso (AMJO) do Laboratório de Psicofarmacologia Experimental e Terapêutica Psiquiátrica do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo; e o Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (PROAD), ligado ao Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, demonstra a preocupação com essa patologia que tende a aumentar e, em nossa visão, atingir números epidêmicos.

Dados do AMJO apontaram que dez jogadores de bingo relataram gastar em média 11,2 horas por dia apostando e a metade deles relatou ter passado períodos superiores a 24 horas. Esses jogadores iam de uma casa de bingo para outra na tentativa de recuperar o dinheiro perdido, principalmente em épocas em que eram cobrados de dívidas ou pelo risco de serem descobertos pela família. É importante considerar que Meyer e Fabian (1993) associaram o jogo a uma maior incidência de comportamento criminoso (Cf. Tavares et al, 1999) e num estudo com 4516 indivíduos na faixa etária de 11 a 16 anos, adolescentes-jogadores de loteria relataram um consumo mais significativo de bebida alcoólica, tabaco e outras drogas em relação a adolescentes não-jogadores (Griffiths e Sutherland, 1998).

O caso apresentado mostra a mudança de um tipo de jogo para outro mais acessível e que por ser liberado não provoca tanta culpa. Podemos considerá-lo como caso sentinela. Laranjeira et al (1997) destacaram que em estudos epidemiológicos casos sentinelas podem ser importantes na detecção de epidemias. Dessa forma, este caso de jogo patológico, de um tipo de jogo recentemente liberado, pode ser um sinal de que um novo problema esteja ocorrendo na área da saúde pública.

Contudo, o caso relatado não significa necessariamente um provável aumento, num futuro próximo, da procura para tratamento em ambiente protegido ou ambulatorial para casos semelhantes, pois, no ideário popular, tal como o alcoolista em décadas passadas, o jogador patológico ainda é visto de forma moralista e não como problema individual, quer no aspecto psicológico e médico, social e de saúde pública.

Quando uma pessoa está fazendo uso de uma substância psicoativa, lícita ou ilícita, esse fato pode passar desapercebido de muitos, mas não de todos, já que o consumo dessas substâncias ocasiona alterações observáveis no comportamento. Porém, no jogo patológico, as alterações nem sempre são perceptíveis, ou seja, no jogo de bingo a evolução de jogo recreativo para patológico é de forma silenciosa, podendo comprometer pessoas de vida normal (jovens, adultos, donas de casa, idosos, aposentados empregados, desempregados que deixam de procurar emprego para tentar a sorte, etc.), isto é, indivíduos sem antecedentes de transtornos de conduta.

Enfim, sem entrar aqui na questão dos inúmeros jogos oficiais de loterias já existentes, é importante considerar que o fácil acesso ao  jogo de bingo, tanto em referência ao número crescente de locais de jogo quanto aos preços populares, está inserido numa realidade de contraditórias condições. E parte dessa realidade, que não pode ser ignorada, com possibilidade de estabelecer vínculo com esse jogo, é a óbvia condição que vive certa parcela da população: desemprego, baixa renda, exclusão, falta de expectativas para a melhoria da qualidade de vida, o forte apelo ao consumo, entre outros. Ingredientes que favorecem mais o caminho da alienação do que a construção da cidadania.

José Antônio Zago

Psicólogo do Instituto Bairral de Psiquiatria – Itapira – SP

Mestre em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais - DSM-IV. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.

DUNN, J. et al. Crack cocaine: an increase in use among patients attending clinics in São Paulo: 1990-1993. Substance Use & Misuse, 31 (4): 519-527, 1996.

GRIFFITHS, M., SUTHERLAND, I. Adolescente gambling and drug use. Journal of Community & Applied Social Psychology, 8 (6): 423-427, 1998.

LARANJEIRA, R.; RATTO, L., DUNN, J. Heroína: a próxima epidemia de drogas no Brasil? Jornal Brasileiro de Psiquiatria, 46 (1): 5-7, 1997.

TAVARES, H. et al. Jogadores patológicos, uma revisão: psicopatologia, quadro clínico e tratamento. Revista de Psiquiatria Clínica, 26 (4): 1-14, 1999 (http://www.hcnet.usp.br/revista/index.htlm).

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Classificação de transtornos mentais e de comportamento da CID-10. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.

ZAGO, J.A. Considerações sobre os aspectos psicossociais, clínicos e terapêuticos da drogadição. Informação Psiquiátrica, 15 (4): 145-149, 1996.