USO  NOCIVO  DE  SUBSTÂNCIAS  EM  IDOSOS

Há muito pouco acerca do consumo de álcool e drogas entre os idosos na literatura internacional e ainda menos no Brasil. O presente estudo revisou mais de cem artigos sobre o tema, com o intuito investigar os fatores de risco para o uso nocivo de álcool e drogas entre idosos, os transtornos psiquiátricos mais associados (comorbidades) e os métodos diagnósticos e de tratamento disponíveis.

Álcool

O artigo aponta que o hábito de beber diminui com o avançar da idade. Cerca de 5% dos indivíduos acima de sessenta e cinco fazem uso nocivo ou são dependentes de álcool. Em média, 10% dos idosos consomem álcool acima dos padrões determinados pela Organização Mundial da Saúde (dois cálices de vinho ou duas latas de cerveja ou duas doses de destilado ao dia).

Os dependentes de álcool podem ser divididos em dois grupos: "início precoce" e "início tardio". O primeiro grupo já apresentava dependência de álcool anteriormente à chegada da velhice. Este grupo tende a beber abusivamente, apresentar histórico de tratamentos anterior, desempenho social comprometido e menor suporte social. O segundo, desenvolveu dependência durante a velhice. Há alguns motivos para o aparecimento tardio:

[1] a piora do desempenho físico e cognitivo, naturais da senescência, tornando os indivíduos mais suscetíveis aos efeitos do álcool, mesmo que o padrão de consumo se mantenha estável;
[2] o surgimento de complicações clínicas tornando o organismo mais debilitado e vulnerável aos efeitos do álcool e

[3] o aumento do consumo nesse período, associado a perdas e outros eventos estressantes (aposentadoria, morte de entes queridos, surgimento de debilidades físicas ou psíquicas). Esse grupo tende a apresentar um quadro de dependência desenvolvido a partir de momentos de crise. Geralmente encontram suporte social familiar e entre amigos. Há relatos de depressão e com maior freqüência procuram esconder o problema.

As causa mortis mais associadas ao consumo de álcool entre os idosos são a cirrose, o câncer de boca, esôfago, faringe, pulmão, fígado (mama na mulher) e trauma. Tais complicações são semelhantes às encontradas entre usuários mais jovens. No entanto, os idosos estão propensos a estas a partir de doses de álcool mais baixas.

As doenças gastro-intestinais e do fígado são as mais comuns entre os usuários de álcool idosos. A esofagite, gastrite e úlceras de estômago são mais freqüentes em usuários mais velhos. Em idosos que também utilizam medicamentos capazes danificar a parede do estômago (como a aspirina), o risco de complicações é ainda maior. Além disso, o consumo pesado de álcool na terceira idade está diretamente associado à diarréia crônica (má absorção de nutrientes) e à pancreatite aguda e crônica.

O consumo pesado de álcool na terceira idade aumenta em quase duas vezes o risco de doenças coronarianas, em especial nas mulheres. Quase um terço das doenças da musculatura cardíaca (cardiomiopatias) entre idosos são causas pelo consumo excessivo de álcool. Já os efeitos sobre a pressão arterial podem aparecer mesmo com o consumo reduzido da substância.

Quanto ao sistema nervoso, o uso abusivo de álcool aumenta o risco de acidentes vasculares cerebrais (derrames). Além disso, ocasiona ou piora quadros de demência e provoca neuropatias periféricas, caracterizadas por anestesia parcial dos pés, com sensação de formigamento e queimação, bem como perda da força muscular e câimbras.

Cerca da metade das quedas sofridas por idosos que procuram auxílio médico está relacionada ao consumo de álcool. A desnutrição também aparece com mais facilidade entre estes indivíduos. O álcool ainda aumenta o risco de complicações sanguíneas (redução de plaquetas ou prejuízo na formação de glóbulos vermelhos) e hidro-eletrolíticas (redução dos níveis sanguíneos de sódio, potássio e magnésio). Entre as complicações psiquiátricas diretamente relacionadas ao consumo de álcool estão a depressão e o suicídio.

A síndrome de abstinência do álcool, assim como o delirium tremens, guarda algumas diferenças em relação aos pacientes mais jovens. Entre os idosos, a síndrome de abstinência pode ser manifestar tardiamente (1 - 3 dias após a última dose ingerida). Ao invés dos tremores, a confusão é o principal sinal. Quadros alucinatórios são predominantemente táteis e visuais, podendo durar meses após a resolução da síndrome. O delirium tremens, que habitualmente se inicia por volta do segundo dia de abstinência entre os mais jovens, pode ser esperado entre o segundo e o décimo dia de abstinência entre os idosos. Doenças de base como diabetes, hipertensão, epilepsia, doenças coronarianas, demência, além de outras, podem tornar o quadro de abstinência (e seu manejo clínico) ainda mais delicado.

Qualquer proposta terapêutica para estes indivíduos deve incluir entre os seus objetivos a melhora do estado clínico geral, o tratamento ou estabilização de doenças crônicas pré-existentes e a reinserção social.

 Drogas  ilícitas

Há poucas publicações sobre o consumo de drogas ilícitas entre idosos. Entre os usuários de heroína, o uso endovenoso, associado à AIDS e a hepatite C, compromete seriamente a chegadas destes indivíduos à terceira idade. Entre os usuários de metadona, os dados são imprecisos e impedem qualquer conclusão. O artigo não fala sobre o consumo de cocaína e maconha entre tais indivíduos, mesmo porque o uso difundido de tais substâncias apareceu com mais força nos últimos vinte anos.

 Drogas  prescritas

Cerca de um quarto dos idosos utilizam algum medicamento psiquiátrico. As causas mais comuns são insônia, dor crônica, ansiedade e depressão. As principais complicações estão relacionadas aos efeitos colaterais destas medicações sobre doenças pré-existentes ou a interações medicamentosas. No entanto, a dependência a alguns medicamentos prescritos não deve ser esquecida.

Os benzodiazepínicos (calmantes) são utilizados com maior freqüência e dose entre os indivíduos mais velhos. Eles são prescritos sem necessidade e erroneamente em muitos idosos deprimidos, que se beneficiariam apenas com antidepressivos. O uso de calmantes aumenta o risco de quedas e de acidentes automobilísticos. O surgimento de prejuízos cognitivos, entre estes a memória, está diretamente relacionado ao uso crônico desta substância.

Os opiáceos são utilizados para o tratamento da dor crônica, em especial aquelas refratárias a outras abordagens, cuja intensidade compromete seriamente o funcionamento do indivíduo. Quando o paciente é bem orientado, não possui antecedentes de dependência de opiáceos ou álcool e recebe uma dose adequada, o risco de uso abusivo ou dependência torna-se improvável.

O uso nocivo e a dependência de álcool e drogas entre idosos são pouco diagnosticados entre os idosos. Há necessidade de sensibilizar os profissionais da saúde para esse problema. Intervenções que utilizam a motivação para a mudança (ao invés de ameaças e confronto) são as mais indicadas e podem ser aplicadas por profissionais em todos os níveis de atendimento. O tratamento deve ser individualizado, contemplando as carências clínicas e sociais apresentadas por tais indivíduos.

Michael Fingerhood - Johns Hopkins Bayview Medical Center, Baltimore, Maryland

Journal of the American Geriatrics Society