FATORES  DE  RISCO  PARA  O  USO  NOCIVO  DE  DROGA

O consumo de drogas começa principalmente na adolescência. O álcool é a substância mais consumida pelos jovens, seguido pelo tabaco, maconha e estimulantes. Esses últimos ganharam destaque nos anos oitenta, com o ressurgimento do consumo da cocaína e o aparecimento do crack, bem como na última década, com a popularização do ecstasy (MDMA). Os solventes são populares principalmente entre os adolescentes mais novos. A partir de uma revisão da literatura científica, o presente artigo investiga o conceito de fator de risco e discute alguns fatores capazes de contribuir para o início do consumo entre os jovens.

Comportamento de risco é um tipo de comportamento que aumenta a possibilidade de uma perda objetiva ou subjetiva. Duas questões derivam desta assertiva: [1] por que tais fatores ocorrem durante a adolescência, ou seja, por que alguns adolescentes se colocam em risco e [2] quais são os fatores de risco específicos para essa faixa etária.

A adolescência é um período de rápido desenvolvimento e sucessão de eventos. Mudanças profundas ganham forma no corpo, na mente, nos relacionamentos e na visão de mundo do adolescente em um curto período de tempo. Por isso, perdas e danos nesse período podem surtir em déficits cristalizados na idade adulta, resistentes a qualquer tentativa posterior de lapidação.

Todo indivíduo possui um temperamento inato, um conjunto de maneiras pelas quais se relaciona com o ambiente ao seu redor. Enquanto alguns adolescentes são cautelosos e pensativos frente ao estresse, outros reagem de modo impulsivo, dramático ou mesmo agressivo. O adolescente não possui ainda a habilidade para prever os riscos de um comportamento habitual. Tal aptidão começa a se manifestar por volta dos doze anos e se torna mais presente a partir dos quinze. Desse modo, adolescentes mais assertivos e agressivos (assim como os mais impulsivos) se envolvem em comportamentos de risco com mais facilidade. Tais comportamentos podem tanto advir, quanto causar trauma e estresse.

O trauma e o estresse podem repercutir negativamente sobre o desenvolvimento cerebral durante a infância e a adolescência. O estresse traumático pode atingir qualquer indivíduo ao longo do seu desenvolvimento. Quando este ocorre cronicamente durante a infância, período de intensas modificações cerebrais, o impacto do estresse severo pode danificar permanentemente a estrutura e o funcionamento cerebral. De fato, o cérebro dos mamíferos foi preparado para ser esculpido pelas primeiras experiências até alcançar sua configuração final. O estresse e os maus-tratos durante a infância são fatores de risco para o desenvolvimento do abuso de substâncias.

A família também influi diretamente, tanto como protetora quanto promotora do consumo de substâncias psicoativas por seus filhos. Famílias compostas por pai e mãe casados são mais protetoras. Famílias extremamente autoritárias ou liberais aumentam o risco de consumo de drogas por seus filhos. Adolescentes de pais consumidores pesados ou dependentes de substâncias psicoativas tendem a adotar o mesmo comportamento. O envolvimento dos filhos no consumo de substâncias dos pais (buscar uma taça para colocar vinho, trazer uma caixa de fósforo para acender o cigarro ou comprar um maço de cigarros no bar) também é considerado um fator de risco proporcionado pela família.

O maior fator familiar de proteção é a conexão entre os pais e os filhos. Tal comportamento é definido pelo sentimento do adolescente que de os pais se importam e estão envolvidos em sua vida. Pais disponíveis e informados das amizades e lugares que seus filhos freqüentam são mais protetores. Pais extremamente liberais, que não oferecem diretrizes ou limites ao comportamento de seus filhos, os colocam em maior risco. Por outro lado, pais autoritários, que 'baixam leis' a revelia das vontades dos filhos e deixam pouco espaço para o desenvolvimento do senso de auto-responsabilidade, também colocam seus filhos em risco. Um meio termo é composto pelos pais autorizadores, isto é, aqueles que oferecem diretrizes claras, e ao mesmo tempo encorajam seus filhos a tomarem certos riscos e exercerem sua liberdade levando em conta o que idade deles comporta. Tais adolescentes, de alguma maneira, estão mais protegidos de comportamentos de risco, incluindo o uso nocivo de substâncias psicoativas.

A comunidade também imprime proteção e riscos ao adolescente. Dentro desta, a escola é o ambiente de maior influência. Adolescentes que se sentem parte da comunidade escolar e recebem expectativas positivas dos pais com relação ao seu sucesso escolar estão mais protegidos contra comportamentos de risco. A comunidade também inclui o trabalho: adolescentes que trabalham mais de vinte horas por semana estão em maior risco. Outra importante instituição comunitária são as religiões. Adolescentes envolvidos em tais instituições estão mais protegidos. Outro fator comunitário de grande ação protetora e promotora de riscos é o grupo de amigos. É do senso comum a idéia de que os filhos podem ser corrompidos pela má influência dos amigos. Na verdade, um grupo de amigos nada mais é do que um conjunto de indivíduos com as mesmas necessidades e desejos. Nesse caso, a aproximação parte mais do adolescente em direção ao grupo do que o contrário. A presença dos pais na amizade dos filhos e o entendimento da natureza das aproximações feitas pelos filhos (ao invés de simplesmente coibi-las ou entendê-las como 'uma fase') são fatores de proteção. Por fim, a mídia, que representa um dos aspectos de maior persuasão comunitária sobre o comportamento dos indivíduos. Associada intrinsecamente com a televisão, ela também inclui os filmes, o videogame, a música e a imprensa. O consumo de substâncias lícitas e ilícitas encontra-se presente nos anúncios comerciais, nos filmes e letras de música. Chega a ser redundante afirmar que os comerciais, que apresentam o álcool e o cigarro como substâncias associadas ao prazer, ao sucesso financeiro e sexual, sem alertar o consumidor acerca de seus riscos, são um importante fator de risco para o uso indiscriminado destas substâncias.

A interação de todos esses fatores, de natureza bio-psico-social, constitui o modelo de risco defendido pelo autor do presente artigo. Para ele, o momento da maturação biológica influencia a capacidade cognitiva, a percepção do mundo e de si, incluindo os valores pessoais. As predisposições biológicas (temperamento e capacidades neurológicas) e os fatores sócio-culturais (status familiar, amizades, escola, comunidade) afetam o desenvolvimento psicológico. Tal interação pode influir positiva ou negativamente sobre a história de consumo de substâncias psicoativas destes indivíduos.

Todo o adolescente é curioso e aceita se expor a riscos com mais facilidade. Quando possui um conhecimento adequado sobre tal risco, maneja bem suas habilidades sociais e sabe o significado positivo e negativo de suas atitudes, haverá pouca chance de adotar comportamentos de alto risco. Por outro lado, a falta ou deficiência em qualquer um destes produz efeito contrário. Por isso, não basta conhecer a substância, ser ponderado e compreender o significado do uso de drogas, se tais caracterísiticas não caminharem juntas e harmoniosamente.

O autor conclui dessa forma que não basta observar ou focalizar apenas um fator de risco, mas sim a adolescência como um todo, utilizando para isso abordagens que valorizem a qualidade de vida e ajudem o adolescente a construí-la a partir de suas  necessidades individuais.

Robert T. Brown - Department of Pediatrics - The Ohio State University (College of Medicine and Public Health) Columbus, Ohio, USA