DROGAS: UM MAL-ESTAR NA CULTURA CONTEMPORÂNEA

Freud e as drogas

Antes de adentrarmos o tema do consumo de drogas e suas relações com a sociedade contemporânea, gostaria de relembrar a radical transformação por que passaram a opinião e o julgamento do próprio Freud a esse respeito: mais especificamente, em relação ao consumo de cocaína. Na penúltima década do século XIX, Freud investigou o potencial terapêutico da cocaína. Aquilo que se iniciou como um moderado interesse intelectual por um assunto, análogo ao que usualmente se encontra em boa parte dos trabalhos científicos, transformou-se rapidamente em um evidente entusiasmo pela droga, tanto como cientista, quanto como seu consumidor habitual. Isso chegou a ponto de ele vir a considerá-la uma "droga mágica", com prescrições que abrangiam da indigestão e do catarro gástrico à depressão e melancolia.

Além de consumi-la regularmente, recomendava-a a amigos e à própria noiva, Martha Bernays, "a fim de fortalecê-la e dar um tom vermelho às maçãs do seu rosto". E preparou publicações sobre a cocaína nas quais, se concordarmos com a opinião de Ernest Jones, encontraremos "uma notável combinação de objetividade com um calor pessoal - como se ele estivesse em relação amorosa com o próprio conteúdo da coisa."

Uma carta para Martha Bernays, de 1884, na época em que preparava uma publicação sobre os efeitos terapêuticos da cocaína, deixa transparente a excitação que o invadia:

"Ai de ti, minha Princesa, quando eu aí chegar. Beijar-te-ei até que voltes a ter as tuas cores rosadas, e alimentar-te-ei até que estejas roliça. E se te mostrares rebelde, hás de ver quem é o mais forte - uma gentil senhorita que não come o bastante ou um grande brutamontes selvagem que traz cocaína no seu corpo. Durante minha última depressão grave tornei a valer-me de cocaína e uma pequena dose levou-me às alturas e de maneira maravilhosa. No momento encontro-me ocupado em colecionar a literatura necessária a um canto de louvor a essa mágica substância."

Usava expressões pouco utilizadas em trabalhos científicos, como "a excitação mais deslumbrante" e, em vez de "doses", referia-se à administração de "oferendas"; e acusava acaloradamente de "calúnias" as contestações de suas opiniões favoráveis a respeito da droga. 

Sabemos que Freud teve que recuar em relação a essa opinião favorável sobre a cocaína e conhecemos as drásticas conseqüências do seu engano para os seus próprios clientes e para o seu amigo íntimo Ernst von Fleischl - Marxow, que o encheram de culpa e remorsos e lhe renderam graves censuras das comunidades médica e científica, na época. E sabemos também da intensidade dessa culpa, pela freqüência com que compareceu ao conteúdo latente dos sonhos de Freud, entre os quais o "sonho da injeção de Irma" e o "sonho da monografia botânica".

Compare-se, além disso, a sua opinião inicialmente favorável sobre a cocaína, na década de 1880, com a posição a respeito das drogas que ele vai assumir posteriormente, conforme se pode constatar em "O mal-estar na cultura" , de 1930 . Vamos relembrar algumas opiniões de Freud, nesse texto, sobre o sofrimento, suas origens e os meios pelos quais os seres humanos os enfrentam e também sobre as drogas, de modo a podermos balizar alguns pontos importantes que auxiliem a análise das relações entre o consumo de drogas e aspectos da cultura e da sociedade contemporâneas.

Segundo Freud, a vida é árdua demais para nós e nos proporciona muitos sofrimentos e decepções, além de exigir-nos tarefas impossíveis. Para suportá-la, os indivíduos lançam mão de três tipos de medidas:

satisfações substitutivas, como a Arte, que se revelam psiquicamente eficazes, devido ao papel da fantasia na vida mental;

derivativos poderosos, como o é a própria atividade científica, que nos fazem extrair luz de nossa própria desgraça;

substâncias tóxicas, que influenciam nossos corpos e nos tornam insensíveis aos nossos sentimentos. 

O lugar da religião, nessa lista, é considerado posteriormente. Mas ele se relaciona com a questão do propósito da vida humana. Esse propósito, enquanto evidenciado pelas ações dos indivíduos, consiste em obter felicidade, o que os orienta na direção de dois objetivos fundamentais:

ausência de sofrimentos e de desprazer;

experiência de intensos sentimentos de prazer.

Poder-se-ia imaginar, em um primeiro momento, que Freud estaria, aqui, alinhando-se com um "hedonismo" ou "utilitarismo" do tipo que, no século XVIII, foi propugnado pelo filósofo inglês Jeremy Bentham: um dos principais esteios ideológicos da cosmovisão burguesa e capitalista. Porém, acredito que essa conclusão incorreria no equívoco de confundir a proposição de metas ideais, a serem empregadas como guias de condução da existência (como é o caso das propostas de Bentham), com a postulação de processos básicos subjacentes aos eventos da vida psíquica dos seres humanos (subjacentes, inclusive, às ações e atividades orientadas por valores e ideais), como é o caso do "princípio de prazer", a que Freud alude, neste caso.

O propósito da vida humana rege-se, então, pelo "princípio de prazer", ainda que ele não tenha possibilidade alguma de ser executado, já que todas as normas do universo mostram-se-lhe contrárias: "a intenção de que o homem seja ‘feliz’ não se acha incluída no plano da ‘Criação’." A felicidade em sentido restrito - satisfação de desejos represados em alto grau - só é possível enquanto manifestação episódica. E a infelicidade, muito mais freqüente, vem-nos de três direções:

o nosso próprio corpo, condenado à decadência e dissolução;

o mundo externo material, que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas;

a sociedade e a cultura.

Não é à toa que, com tantas possibilidades de sofrimento, a maioria dos indivíduos (não os drogados) tenha moderado as suas reivindicações de felicidade e as tenha posto sob vigência do mais modesto "princípio de realidade". Este coloca a eliminação do sofrimento em primeiro lugar, à frente da obtenção de prazer. 

Freud passa, então, a considerar algumas das diferentes vias pelas quais buscamos evitar os sofrimentos e alcançar a felicidade:

a aniquilação dos nossos próprios desejos, por meio de alguma prática de ascese espiritual;

a reorientação dos objetivos das pulsões para evitar frustrações. É este o caso das sublimações, como ocorre, por exemplo, na produção de obras de arte. O trabalho pode classificar-se aqui, quando não constituir apenas um meio de garantir a satisfação de necessidades;

o distanciamento da realidade, por meio da fruição de obras de arte;

o ‘abandono’ da realidade, por meio da loucura;

a busca de ‘objetos de amor’, para os quais dirigir a pulsão libidinal.

Sem pretender esgotar todas as vias, ele reflete que a escolha individual pela particular combinação de que quantidade de pulsão dirigir para cada uma dessas alternativas depende da especificidade de cada sujeito e da singularidade da interação entre constituição psíquica e circunstâncias do ambiente e da história de cada um. Mas vamos considerar, ainda, duas outras vias explicitadas por Freud, fundamentais para o tema que percorremos:

a deformação do mundo real, por meio de um delírio de massa, como no caso das religiões. Aqui, paga-se o preço da intimidação da inteligência e do infantilismo psicológico;

a mais grosseira, porém a mais eficaz: uma droga. A droga tanto aumenta o prazer, quanto diminui a sensibilidade ao desprazer. E oferece-se como um meio de atingir um alto grau de independência do mundo externo e da realidade, proporcionando um refúgio em um mundo próprio.

Para completar a nossa rememoração desse valioso texto freudiano, vamos lembrar três aspectos que ele destaca sobre o consumo de drogas:

o valor que vários indivíduos e sociedades conferem à droga, reservando-lhe um lugar permanente na economia libidinal;

o desperdício de uma grande quota de energia com a droga, que poderia ser empregada no aperfeiçoamento do destino humano;

o fato de a independência da realidade e o refúgio no mundo interior, por meio da droga, poder constituir-se em perigo e possibilidade de danos.

Drogas e religião: dois sintomas do mal-estar na cultura

A partir dessas proposições freudianas, podemos agora prosseguir tentando empreender algumas reflexões adicionais, que as tomem por base ou ponto de partida. Como vimos, Freud propõe diferentes modos dos seres humanos lidarem com o "mal-estar" do homem civilizado. E entre essas diferentes maneiras, acredito que o ‘senso comum’ estabeleceria uma distinção de valor. Em um extremo, provavelmente se colocaria a aniquilação do desejo pela ascese e a renúncia a toda e qualquer forma de prazer. No outro extremo, provavelmente se disporia a entrega irrestrita ao prazer, como bem a poderia exemplificar a adição às drogas. E entre ambos seria inserida a moderação e contenção definida pela busca de boas relações objetais (com uma relativa estabilidade de vínculos, mas com possibilidades de deslocamentos e substituições ao longo da vida), combinada com sublimações significativas e com a fruição de prazeres estéticos e artísticos. A virtude, consequentemente, estaria localizada no centro desse eixo orientado segundo o "princípio de prazer".

Sabemos que para a Psicanálise, contudo, a situação apresenta-se bem mais complexa do que a mostrada por esta configuração oferecida pelo senso comum; pelo menos para uma psicanálise não ideológica, que não insira em suas formulações teóricas, de modo insidioso e dissimulado, os valores da cultura exteriores ao seu próprio campo. E a primeira evidência de que a situação é mais complicada do que pode aparentar em uma visão mais aprofundada é a dificuldade de se inserir a religião, de modo inequívoco, nesse eixo orientado. Deveria ela ser alinhada à renúncia aos prazeres ? Ou estaria mais próxima, quem sabe, da temperança representada pela combinação de boas relações de objeto com sublimações e fruições comedidas de obras de arte; afinal, os cidadãos ordeiros, pacatos e normais não costumam ser crentes fiéis ? Por que, então, Freud praticamente alinhou a religião com as drogas, aos considerá-las uma espécie de delírio destinado a deformar o mundo real ? Seriam apenas ataques apressados e infundados, à fé, da parte de um ateu de má vontade ? Veremos que não se trata apenas de superficialidade da crítica freudiana.

O primeiro ponto para refletirmos a respeito das articulações entre o consumo de drogas e as religiões é o fato, observado não raramente, de uma religião surgir muitas vezes em substituição ao vício do uso de uma droga, na vida de um indivíduo. Diversas religiões ou entidades que nelas se apoiam propõem-se a "salvar" os "perdidos pelas drogas" e, ao que parece, isso às vezes de fato ocorre. Há, inclusive, grupos de auto-ajuda mantidos por instituições religiosas ou a elas vinculados.

O segundo ponto a ser pensado é o fato de que as drogas são, muitas vezes, consumidas como parte dos próprios atos e rituais religiosos. Em muitas sociedades e culturas, encontram-se momentos socialmente construídos e legitimados, em que os estados alterados de consciência são valorizados. E, em várias dessas culturas, uma droga é utilizada como instrumento para atingi-los. É esse o caso, por exemplo, de inúmeras sociedades primitivas, que possuíam rituais nos quais uma droga era a via para a aproximação com divindades e para a busca de experiências transcendentais. Vários exemplos podem ser oferecidos:

o uso do haxixe por seitas muçulmanas do Oriente Médio, no século XII;

o consumo do cipó alucinógeno ayahuasca ("cipó das almas", no dialeto quíchua), por nações indígenas da Amazônia, há centenas de anos;

a utilização do cacto peiote (Lophophora williamsii), em rituais de índios da região do México, também há séculos atrás.

Mas não é só no passado que as drogas foram empregadas em cerimônias religiosas ou místicas. Na América do Norte, por exemplo, a Igreja Nativa Americana obteve a legalização do cacto peiote (de onde se extrai a mescalina), para uso em seus rituais. E, no Brasil, a ayahuasca é ainda hoje utilizada em duas religiões caboclas: o Santo Daime e a União do Vegetal (UDV); esta última, criada em Rondônia pelo seringueiro baiano José Gabriel da Costa. E tudo isso, se não quisermos recorrer ao exemplo mais conhecido da utilização da cachaça nas cerimônias do candomblé!

Como vemos, podem ser encontradas formas diversas de ligação entre religião e consumo de drogas, nas culturas.

Ainda que muitos prefiram conceptualizar a própria droga como um objeto (tema que não pretendo aprofundar), é inegável que a droga participa de um processo, que, quase sempre, envolve evidentes mudanças nas relações de objeto de quem a consome. Poderíamos dizer que elas se aproximam mais de escolhas narcísicas, ou, então, que a libido do drogado parece retroagir para organizações mais narcísicas (ou até mesmo auto-eróticas), ao invés de dirigir-se para organizações mais marcadas pela castração simbólica e pelas regras da cultura. Talvez alguns prefiram caracterizar o drogado como buscando ‘relações duais narcísicas’, imerso que está na ‘dialética do ser’, ao invés de percorrendo a rota da busca de ‘insígnias fálicas’ na cultura, segundo os preceitos da ‘dialética do ter’.

Quaisquer que sejam os conceitos psicanalíticos empregados para descrever a organização libidinal do toxicômano, acredito que uma conceptualização freudiana consistente do processo pelo qual ele abandona o vício, a partir de uma conversão religiosa, teria de recorrer, necessariamente, à noção de ‘substituição de sintomas’:

"A felicidade, no sentido reduzido em que a reconhecemos como possível, constitui um problema da economia da libido do indivíduo. Não existe uma regra de ouro que se aplique a todos: todo homem tem de descobrir por si mesmo de que modo específico ele pode ser salvo. Todos os tipos de diferentes fatores operarão a fim de dirigir sua escolha. (...) Uma pessoa nascida com uma constituição instintiva especialmente desfavorável e que não tenha experimentado corretamente a transformação e a redisposição de seus componentes libidinais indispensáveis às realizações posteriores, achará difícil obter felicidade em sua situação externa, em especial se vier a se defrontar com tarefas de certa dificuldade. Como uma última técnica de vida, que pelo menos lhe trará satisfações substitutivas, é-lhe oferecida a fuga para a enfermidade neurótica, fuga que geralmente efetua quando ainda é jovem. O homem que, em anos posteriores, vê sua busca da felicidade resultar em nada ainda pode encontrar consolo no prazer oriundo da intoxicação crônica, ou então se empenhar na desesperada tentativa de rebelião que se observa na psicose.

A religião restringe esse jogo de escolha e adaptação, desde que impõe igualmente a todos o seu próprio caminho para a aquisição da felicidade e da proteção contra o sofrimento. Sua técnica consiste em depreciar o valor da vida e deformar o quadro do mundo real de maneira delirante – maneira que pressupõe uma intimidação da inteligência. A esse preço, por fixá-las à força num estado de infantilismo psicológico e por arrastá-las a um delírio de massa, a religião consegue poupar a muitas pessoas uma neurose individual. Dificilmente, porém, algo mais.

O trecho é especialmente conveniente para esclarecer as opiniões de Freud a respeito das drogas, da religião e das ligações entre elas, além da origem comum que se pode encontrar, em ambos os casos, na busca de modos de se lidar com o sofrimento e o prazer. Freud é claro em suas posições: o gozo absoluto é impossível e somente doses moderadas de prazer oferecem-se como viáveis. A busca dessa felicidade moderada apresenta-se-nos como um desafio considerável: cada um de nós tem que encontrar, por si próprio, o seu caminho particular, que conduza à meta desejada. Alguns fracassarão nesse trajeto e, como alternativa de prazer, recorrerão a trilhas substitutas: a neurose, a psicose ou a toxicomania; ou, ainda, à religião, que oferece os seus delírios coletivos (os seus sintomas grupais ‘prêt-a-porter’), que podem ser empregados em substituição à elaboração de sintomas individuais.

É claro que essa visão sintética das alternativas bem ou mal sucedidas de busca de prazer e de alívio para o sofrimento ainda deixa em aberto inúmeras questões importantes. Por exemplo: será que combina com a própria evolução do conhecimento freudiano, em particular, e com o desenvolvimento da teorização psicanalítica, de um modo geral, a distinção radical entre indivíduos "com uma constituição pulsional especialmente desfavorável", fadados ao desenvolvimento de uma neurose, de um lado, e indivíduos completamente ‘sadios’ e ‘psiquicamente normais’, de outro ? Só os primeiros estariam destinados à elaboração de sintomas ? E as semelhanças e diferenças entre ‘normais’, neuróticos, psicóticos, drogados e religiosos, de que ordem seriam ? Será que essas condições constituem, todas elas, vias em direção aos mesmos objetivos: a tal "felicidade no sentido reduzido" ? Todas produzem seus sintomas ? Da mesma maneira ? Ou podem ser destacadas diferenças essenciais entre esses distintos caminhos que o texto freudiano teve a lembrança de explicitar ?

O próprio Freud parece nos alertar para a necessidade de elaborações teóricas mais complexas a respeito do assunto, na nota de rodapé que acrescentou ao trecho citado, na reimpressão de 1931 de Das Unbehagen in der Kultur:

"Sinto-me impelido a apontar pelo menos uma das lacunas que foram deixadas no relato acima fornecido. Nenhum exame das possibilidades de felicidade humana deveria deixar de levar em consideração a relação entre narcisismo e libido objetal. Precisamos saber o que significa para a economia da libido, ser essencialmente autodependente"

Drogas, castração simbólica, perversão e leis da sociedade

Teremos que adentrar um pouco mais detidamente nessa questão da economia libidinal dos toxicômanos, à medida em que tentarmos progredir em nossa compreensão do tema da drogadição. Antes disso, porém, é importante lembrar que nem todo consumo de drogas deve ser enquadrado na condição mórbida para a qual se criou uma profusão de denominações: drogadição, dependência, vício ou toxicomania.

Os efeitos neurofisiológicos que as drogas provocam, até que são relativamente uniformes, nos diferentes indivíduos. E as alterações afetivas e perceptuais decorrentes do seu consumo, ainda que mais variáveis - alguns indivíduos, mais do que outros, apreciam esses efeitos e deles extraem mais prazer - também não parecem responder pelas diferenças radicais que tornam apenas alguns, e não outros, toxicômanos ou drogaditos. É apenas no caso de alguns indivíduos que a droga vem a alterar suas existências de modo tão radical - transformando dramaticamente as suas relações com o mundo, com os outros e consigo mesmo – que a sua condição deve ser chamada de toxicomania ou drogadição. Esses indivíduos têm profundamente alteradas todas as suas relações, quando se encontram sob o efeito da droga, e buscam renovar contínua e incessantemente esses modos alterados de se relacionar com seus objetos. Deveríamos dizer que é por isso e para isso que eles se drogam. E, mesmo quando se drogam solitários e permanecem na ausência de outras pessoas, as relações que fantasiam nessas ocasiões são distintas das que surgem na ausência da droga.

Alerte-se que não está se propondo nenhum tipo de padronização ou homogeneização rígidas da vida fantasmática ou das relações objetais dos indivíduos drogaditos: em cada caso, elas são singulares. Porém, no caso de cada indivíduo, existem as fantasias que só a droga permite-lhe, de modo pleno, reencenar.

Considerando-se agora a questão do uso legitimado ou não de drogas, observe-se que, conforme foi lembrado, praticamente todas as sociedades prescrevem algum tipo de uso autorizado de drogas. Estaríamos, aqui, perto da inexistência de sintomas, como parecem pretender, nesses casos, as culturas ? Ou deveríamos, de modo diverso, propor a conceptualização desses eventos como sendo da ordem dos sintomas sociais ou coletivos ? Como já vimos, Freud analisou a questão das construções coletivas - por exemplo, as religiões - como obras destinadas a proteger os membros das sociedades de certas condições de sofrimento:

o desamparo (Hilflosigkeit);

a culpabilidade fundamental;

a falta de provisões narcísicas.

E ele viu certa analogia entre elas e as drogas socialmente autorizadas:

"Que o efeito das consolações religiosas pode ser assemelhado ao de um narcótico é fato bem ilustrado pelo que está acontecendo nos Estados Unidos. (...) [Lá estão tentando, agora,] privar o povo de todos os estimulantes, intoxicantes e outras substâncias produtoras de prazer, e, em vez delas, a título de compensação, empanturram-no de devoção. Trata-se de outro experimento sobre cujo resultado não precisamos sentir-nos curiosos"

Porém, permanece de pé a necessidade de se considerar a distinção entre os usos socialmente autorizados e os não socialmente autorizados de drogas, assim como as relações entre o consumo delas e as leis.

Note-se que os que consomem drogas não autorizadas transgridem as leis da sociedade. Mas isso não significa que eles estejam, necessariamente, descompromissados psiquicamente com toda e qualquer lei, código ou norma social. Também não quer dizer que possamos conceptualizá-los como indivíduos mergulhados em um narcisismo puro e completo, que os isolasse radicalmente de qualquer influência da cultura e da incidência da castração simbólica. Sem deixar de reconhecer o valor heurístico de proposições como as de que a perda da função do amor dos toxicômanos "nos parece uma forma de substituir a função simbólica do Nome-do-Pai" , ou de que "ao invés de entrarem na relação edípica enfrentando o pai, eles entram num inferno próprio" , devemos admitir a possibilidade da existência de leis regendo a vida dos drogados.

Isso não deve ser considerado surpreendente, já que temos ciência de que existem códigos, princípios e leis que circulam na vida psíquica e social de indivíduos pertencentes a subgrupos que transgridem as leis vigentes na sociedade mais ampla. Seriam essas leis mais brandas ou frágeis ? Lembro-lhes a tortura e a punição a que são submetidos os estupradores e assassinos de crianças, no interior dos presídios, por parte dos demais sentenciados. Ademais, lei do código penal não é a mesma coisa que lei da castração; e a relação entre elas não é simples nem direta.

É verdade que os conceitos de estrutura perversa e de auto-erotismo oferecem instrumentos teóricos importantes para a abordagem da toxicomania. Marcos Baptista, em seu artigo "A intocável natureza da toxicomania" , propõe que o toxicômano usaria a droga para obter um gozo (uma abolição transitória da existência, que, embora temporária, revelaria, em seu fundo, a busca da morte), que não passaria pelo corpo do Outro, mas pelo próprio corpo: um gozo "sob a rubrica do auto-erotismo". O objeto do toxicômano não seria da ordem do semblante e "(…) se ele visa o outro enquanto corpo, vê-se que este objeto só pode ser real." A estrutura do sintoma da toxicomania seria a perversão, mesmo sendo uma perversão um tanto especial, na medida em que o objeto não seria representativo: ele viria para negar o falo. Consequentemente, a toxicomania não seria um sintoma, por não apresentar a função metafórica que a Psicanálise lhe atribui: o enunciado "eu sou um drogado" não substituiria o significante da função paterna. Nas palavras de Hugo Freda, a toxicomania poderia ser definida "(…) como uma prática que não produz um saber, o que a diferencia[ria] do sintoma."

Embora a consideração da drogadição pela ótica da perversão e do auto-erotismo circunscreva aspectos importantes encontrados na economia pulsional e no enlaçamento social dos toxicômanos, devo questionar o emprego dessas noções como conceitos absolutos, que possam enquadrar, em todos os casos, de modo unívoco e perfeito, o fenômeno em questão. Acredito que seja algo inevitável, em se tratando da Psicanálise, a abordagem de cada acontecimento sempre pela vertente de sua especificidade e singularidade. Neste sentido, mesmo sem negar a utilidade das concepções de estruturas clínicas, convém lembrar que cada drogadito é único, seja em suas fantasias, seja na constituição da sua subjetividade, no seu enlaçamento social, nos sintomas que constrói e nos processos que para isso emprega. Conforme pretendo argumentar a seguir, seria questionável abordar-se a drogadição como um fenômeno invariável em sua nocividade e sempre idêntico do ponto de vista da sua estrutura clínica.

Capitalismo, ideal de consumo e toxicomania

Veja-se que a maneira pela qual as drogas estão disseminadas e enraizadas na estrutura e organização da sociedade mostra que elas não constituem, de modo algum, um problema exclusivamente individual ou apenas clínico. O tráfico é uma das organizações econômicas que mais movimenta capitais no planeta e a escala da economia das drogas só é ultrapassada, talvez, pela economia da energia e das telecomunicações.

Em 1988, a Organização das Nações Unidas (ONU) informava que o volume anual do comércio internacional das drogas chegava a 300 bilhões de dólares e representava 10 % de todo o comércio mundial. E, nos últimos 15 anos, a reciclagem do dinheiro sujo do comércio das drogas injetou na economia legal uma quantia aproximada de 2 trilhões de dólares. Isso eqüivale à impagável dívida pública exterior de todos os países ditos em processo de desenvolvimento, somada à dos países do leste europeu. Não existe nenhum negócio no planeta que ofereça taxas de lucro comparáveis às do negócio das drogas: do produtor de matéria-prima, até a venda no varejo em uma capital de um país industrializado, o preço da cocaína aumenta 100 vezes e o da heroína até 1000 vezes. Não é à toa que, de 1991 para cá, de 70% a 80% dos bancos russos tenham sido criados pelo crime organizado.

A organização do tráfico de drogas constitui uma rede que envolve uma infinidade de indivíduos, nas mais diversas atividades: produção, distribuição, contatos, segurança, ‘lavagem de dinheiro’ etc. Sabemos que ela se infiltra nas polícias, nos executivos, nos legislativos e nos judiciários dos Estados. Países inteiros estão sob sua influência. Pode ser considerada, hoje, uma das maiores e mais potentes redes de instituições do planeta. Portanto, se o toxicômano encontra-se, em boa parte das vezes, à margem da lei escrita nos códigos penais, de modo algum ele pode ser considerado uma exceção ou um enigma para a lógica que rege a sociedade capitalista:

"Nesta mesma lógica, pode-se dizer que o toxicômano capta o que está nas entrelinhas do discurso dominante, tornando-se, do ponto de vista manifesto, o anti-herói, e do ponto de vista latente, o herói da nossa sociedade. Depende somente do ângulo no qual ele está sendo observado. Como nos alerta Melman , a sociedade capitalista sustenta como ideal o consumo, e ignora que é o toxicômano que o realiza plenamente"

A fidelidade do drogadito ao seu objeto de consumo mostra, na sua forma mais pura e radical, a adesão a uma relação com o mundo fundamentada na busca de realização da existência pela via do consumo:

"O toxicômano representa de alguma maneira, o ideal do discurso capitalista, um sujeito que consome a mesma coisa durante anos, a tal ponto que de sua prática, ele se torna aquele que sustenta um modo de pensar: ‘o homem moderno"

E, se o estilo existencial do drogadito não pode ser considerado incoerente com a lógica do capitalismo, muito menos o poderia ser a racionalidade subjacente ao negócio que lhe fornece o seu produto - a produção e o comércio das drogas - como podemos depreender das análises de Karl Marx: 

"O capital foge dos tumultos e das disputas, ele é tímido por natureza. Isso é verdadeiro, mas não é toda a verdade. O capital detesta a falta de lucro, ou um lucro muito limitado, tanto quanto a natureza tem horror ao vácuo. Se o lucro for conveniente, o capital se torna corajoso; com 10% assegurado, vai a qualquer lugar; com 20%, se acalora; com 50%, torna-se temerário; com 100%, esmaga sob os seus pés todas as leis humanas; com 300%, não há crime que não ouse cometer, mesmo arriscando o patíbulo. Quando a desordem e a discórdia trazem lucros, ele encoraja a ambas. Querem uma prova ? Eis o contrabando e o tráfico negreiro.

Não é surpreendente, portanto, que para muitos indivíduos, atualmente, a droga seja "(…) utilizada como tentativa de inscrição de uma identidade." Ainda que o consumo de drogas não esteja, de modo algum, limitado às camadas mais pobres, é importante considerar que, em um sistema de organização social, econômica e política como o brasileiro, determinados segmentos da população têm, na droga e na criminalidade, algumas das suas raras possibilidades de ascensão social e de busca de apropriação de insígnias fálicas. Criam-se grupos ou comunidades de indivíduos, ligados por elos de identificação que são constituídos a partir do consumo ou tráfico de drogas.

Uma orientanda minha – María de La Paz Guarderas Albuja – trabalhou em 1997 e 1998 com um grupo de adolescentes de uma favela situada na divisa de Osasco com São Paulo. Nessa favela, vários grupos de jovens do sexo masculino formavam-se e estabeleciam seus vínculos sociais e suas identificações a partir do tipo de ligação que mantinham com as drogas, com a criminalidade e com as leis. Os "malandrex" usavam "drogas pesadas", como o crack, e eventualmente cometiam atos de delinqüência e pequenos roubos. Os "gansters", nas palavras de um membro do próprio grupo, eram " (...) mais sossegados e tranqüilos, fuma[va]m maconha e fica[va]m vagabundeando. " E os "gamsters" eram uma quadrilha organizada, que realizava grandes roubos, como assaltos a bancos, e dominava o tráfico de drogas na favela.

O chefe dos "gamgsters" era chamado "Dono da Favela" e estabelecia leis que vigiam no interior da mesma, além de encarregar-se, ele e seu grupo, de fazer com que elas fossem cumpridas. Diziam os jovens de um grupo de "gangsters", que ele defendia os moradores contra bandidos de outras favelas e também contra policiais. Como exemplo dessa atuação como ‘justiceiro’, mencionaram o fato recente de ele ter se incumbido da tortura de alguns jovens estupradores pertencentes ao grupo dos "malandrex". Seus ‘feitos’ eram relatados com evidente admiração pelos jovens "gangsters", indicando que ele constituía um modelo de identificação para esses adolescentes.

Uma confirmação dessa ligação é fornecida pelo fato de que, após o assassinato do "Dono da Favela", no final de 1997, talvez por policiais, os "gangsters" brigaram entre si e desfizeram o grupo. Além disso, não mais compareceram às reuniões com a autora do trabalho, que, como estagiária do curso de Psicologia, realizava atividades na favela voltadas à promoção de saúde, buscando, através de experiências e atividades grupais, possibilitar a conscientização dos indivíduos a respeito de si próprios, de suas condições e histórias de vida e de suas perspectivas de futuro; e isto, considerando-se as determinações histórica e social em que se encontravam inseridos. Esse fato sugeriu que a própria relação transferencial com ela tivesse sido abalada, a partir do desaparecimento do ídolo, cujas façanhas tinham tanto prazer em narrar.

Tudo isso nos leva a supor a existência de fantasias coletivas subjacentes aos ideais desse grupo de adolescentes, que permitiam que cada um deles aí engatassse as suas fantasias individuais, para encená-las imaginariamente e atuá-las, ao mesmo tempo em que, juntos, atuavam e punham em cena as fantasias coletivas que pareciam compartilhar. E é mais do que razoável supor, também, que as drogas e as transgressões às leis do código penal constituíam pontos de apoio para a atuação dessas fantasias e para a formação de laços sociais entre esses jovens. As drogas e a transgressão eram insígnias fálicas que eles ostentavam com orgulho, tal como a prática de ‘surfar’ trens e ônibus. Isso ficava evidente, por exemplo: no entusiasmo e animação com que contavam os embates armados entre policiais e traficantes; na satisfação que demonstram ao exibir para as estagiárias de psicologia o "Pico" (o lugar da favela que reservavam para o consumo de drogas); e nas operações de demarcação de território com o símbolo do grupo.

Será que o modo de funcionamento psíquico desses adolescentes, com seu consumo de drogas, suas transgressões às leis do código penal, suas fantasias individuais e coletivas e seus ideais, ficaria inteiramente compreendido a partir do conceito de perversão como estrutura clínica individual ? E será que, afinal de contas, poderíamos estabelecer distinções radicais entre, de um lado, suas fantasias coletivas, seus ideais e o seu modo de funcionamento psíquico e, de outro, os que podem ser encontrados na população mais ampla? Mesmo quando essa população possa eleger e ter, como ídolos, políticos que montam suas propagandas políticas a partir de chistes, cujo conteúdo manifesto ou ‘dito’ insinua um conteúdo latente ou ‘não dito’ que lembra a todos que eles roubam o erário público?

A razão da toxicomania vir assumindo essa condição de catástrofe de proporções epidêmicas tem uma íntima ligação com as condições do capitalismo. O sofrimento do indivíduo no capitalismo contemporâneo deriva-se do fato de que, sendo cada vez menos rigidamente vinculado a ideais e identificações únicos e absolutos, emanados do social, que possam conferir significado à sua existência, ele se vê lançado em uma busca solitária, individual e incessante de elaboração e escolha de ideais e identificações. Nessa busca, por trás de uma enganosa multiplicidade que lhe dá uma falsa impressão de liberdade de escolha, o que se observa é um estreitamento progressivo dos horizontes, que atrela o indivíduo à procura de identificações por meio da via única constituída pela posse e consumo de bens materiais. Os objetos de consumo, que na verdade são bens materiais apenas na aparência, posto que, de fato, constituem signos, têm que ser modificados vertiginosamente, de modo a atender aos interesses econômicos do capital. Este, necessita de um mercado de consumidores cada vez mais ávidos por novos e diferentes produtos, que possam ser consumidos de modo contínuo e ininterrupto, estimulando um desejo que se renova em ritmo alucinante. Como conseqüência, qualquer ideal ou identificação não diretamente ligado ao consumo de bens, como é o caso dos vinculados à valorização de uma verdadeira expansão e legítima diversificação dos modos de vida, de relacionamento e de ser dos humanos, tem que desaparecer.

Capitalismo, exclusão social, criminalidade e drogas

Parece-me inequívoca a existência de uma correlação entre o recurso à droga e a inviabilidade de identificações, na cultura, que forneçam uma suficiente e relativamente estável provisão narcísica. Isso é uma característica da sociedade chamada "pós-moderna", que, como alguns argumentam, nem mesmo chegou a ser moderna, na medida em que nunca realizou, de fato, os ideais que prometeu. A droga, na modernidade, é como uma ponta de cigarro em um capinzal seco: o desastre alastra-se rapidamente e faz grande estrago. E isso não ocorre à toa: "a toxicomania é o paradigma do que é a tendência do mundo no que diz respeito às relações sujeito-objeto." Como foi lembrado anteriormente, quase toda cultura reserva lugares e momentos para o consumo de drogas. O que faz a diferença, em termos de intensidade, freqüência e do modo de consumo de drogas no capitalismo, é o fato de acontecer em uma cultura fundamentada no imperativo do consumo. "Constata-se que sempre houve uso de drogas, em todas as sociedades e em todos os tempos, mas não em um mercado estruturado que coloca como imperativo: ‘Consuma!’, ‘Goze!’, ‘Faça-se!’

Quando, às mencionadas circunstâncias do capitalismo moderno, acrescentam-se a pobreza e a miséria que proliferam nos países de menor desenvolvimento econômico, as conseqüências são funestas:

"Em se tratando do Brasil e dos demais países chamados ‘emergentes’ (expressão essa que busca apenas encobrir a tendência econômica real que os capitais financeiros globalizados nos têm forçado a seguir) a globalização em ritmo forçado tem produzido uma macabra combinação de um adicional de repressão dos desejos e de alienação dos sujeitos, nos moldes do aparato usual de violência simbólica da modernidade e do capitalismo neoliberal, com formas arcaicas de violência física (no sentido literal do termo), mais características de períodos históricos anteriores ao próprio capitalismo"

Aí, como propõe Marta Conte, "(...) o traficante acaba ocupando um lugar de suplência da função paterna." Em outubro de 1998, um indivíduo chamado Celso Luiz Rodrigues, conhecido como "Celsinho da Vila Vintém", que cumpria pena de 18 anos de prisão por tráfico de drogas e roubo, no presídio Bangu 1, no Rio de Janeiro, fugiu da prisão; ao que tudo indica, com a cumplicidade de agentes penitenciários. A fuga foi comemorada por moradores das localidades de Bangu, Padre Miguel e Realengo, que festejaram, com fogos de artifício e churrascadas, pagodes e bailes ‘funk’, a volta do traficante à liberdade.

"Em retribuição às homenagens, Celsinho, 36, o ‘Robin Hood da zona oeste’ carioca, distribuiu cestas básicas para as famílias pobres e brinquedos para as crianças, além de financiar os churrascos.

Já no fim-de-semana, o retorno de Celsinho começou a ser festejado. Nos clubes Cassino Bangu e Grêmio Recreativo Padre Miguel, milhares de jovens dançavam em bailes que saudavam a fuga. Na saída dos clubes, as ‘galeras’ circularam pelos bairros festejando a fuga do líder.

Na favela Vila Vintém – reduto de Celsinho em Padre Miguel -, fogos de artifício estouravam entre rajadas de balas de fuzis, para alegria da multidão que comia churrasco e ouvia grupos de pagodes para comemorar a fuga.

Na segunda, Celsinho retribuiu. Na Vila Vintém, foram distribuídas 5000 cestas de alimentos. As crianças receberam bolas, bonecas e armas de plástico."

Não é surpreendente que bandidos e traficantes poderosos e temidos venham a tornar-se membros estimados de populações excluídas do sistema e que possam, inclusive, ocupar essa posição de pretensos filantropos protetores da comunidade e alçar-se à condição de modelos de identificação para os jovens. Na medida em que são negadas a estes últimos outras possibilidades de enlaçamento ao social, que não lhes reservem apenas a condição de humilhados e desvalidos, quase lhes restam, como modo de escapar desse destino, apenas as drogas e o crime. Um adolescente de 17 anos, morador do Jardim Ângela (São Paulo – SP), disse, em entrevista à Folha de São Paulo, que ganhou "respeito" no bairro "na base da bala": "Já tenho um poder naquele bairro, criei um nome matando."

Aliás, evidencia-se como um curioso e mórbido paradoxo o fato de que os lugares sociais de bandido e de policial possam apresentar-se como modelos de identificação que se alternam e se intercambiam, na perspectiva destes jovens. E o mais sinistro é que não se mostram como alternativas opostas, no que concerne à posição em relação à lei escrita nos códigos. Um dos rapazes do grupo de adolescentes que participou da mencionada pesquisa realizada em uma favela de São Paulo "(...) disse que queria ser policial para fazer com outros o que tinham feito com eles. Ele afirmou que seria policial num lugar onde não o conhecessem. Assim, ele bateria nos rapazes de outras favelas."

E não se deve pensar que se trate de completo desconhecimento ou de distorção ingênua da posição e atuação policiais. Esses mesmos jovens relataram episódios evidenciando que o abuso de autoridade e a transgressão à lei, por parte de policiais, não são exceções raras:

"Em outro encontro, ainda, contaram que eles tinham apanhado dos policiais. Disseram que eles tinham ido no [sic] ‘Pico’ (lugar onde eles costumam fumar maconha) e que chegaram alguns policiais de carro, desceram e começaram a revistá-los. Um deles jogou um baseado para trás, na frente do policial. Nesse momento, os policiais arrancaram seus distintivos e bateram nos rapazes. Eles foram ameaçados e os policiais falaram que fariam ‘roleta russa’ com um deles. Afirmaram que ficaram com muito medo. Na sua fala, demonstravam estar revoltados"

É claro que ainda restariam, para esses jovens, pelo menos duas outras formas de enlaçamento social. A primeira delas, aliás, está se disseminando rápida e assustadoramente e, infelizmente, parece ser percebida por muitos como uma solução, mais do que como um novo problema: o que, de fato, ela constitui. Refiro-me à vinculação rígida a valores e ideais de períodos históricos anteriores, como é o caso dos fundamentalismos religiosos e dos conservadorismos de toda espécie, a cujo renascimento e crescimento vertiginosos estamos assistindo. A segunda – esta sim, desejável – teria sua implementação dependente de esforços conjuntos e concentrados dos que têm uma noção correta e consistente do agravamento crescente dos problemas sociais contemporâneos e, além disso, reúnem motivação cívica suficiente para se engajarem na busca de soluções para eles. Ela implicaria em trabalhar na direção de que esses jovens possam vir a confrontar os espúrios ideais, modelos de identificação e modos de vida do capitalismo, com propostas de elaboração de novos códigos e leis e de formas de organização social, econômica e política diferentes das que se encontram vigentes. Propostas, essas, que elejam o resgate da continuidade do processo histórico da humanidade, como modo de enlaçamento social e de constituição das subjetividades; e que se apoiem em ideais diferentes do mero usufruto e posse de bens e produtos de consumo.

Para finalizar, quero dividir com vocês uma produção fantasmática elaborada em conjunto por esse grupo de adolescentes: uma história criada coletivamente e representada com bonecos igualmente criados por eles:

"Era uma vez um rapaz, que junto com alguns amigos e amigas foram [sic] passear na represa.

Mas, aconteceu que este rapaz começou a se afogar na água. Nesse desespero um dos seus amigos tirou ele da água e com seu sopro devolveu-lhe a vida.

De repente apareceu um fantasma, todos ficaram muito assustados. Eles se perguntavam o que fazer e, como as mulheres davam as soluções, foram perguntar para elas. Uma delas falou: ‘corre, corre’. Eles correram mas o fantasma continuava aí. Resolveram então pedir a opinião da sábia para ver o que fazer. Ela falou: ‘fiquem calmos, fantasmas não existem’. Mas o fantasma continuava lá.

O fantasma provocava muito medo neles, mas não sabiam o que fazer, nem como resolver o problema. Um deles acendeu então um cachimbo de crack. O fantasma começou a fumar junto com eles, sem saber que isso mais tarde causaria problemas.

Se escutou [sic], então, de longe um barulho de polícia, e o fantasma se escondeu. Quando a polícia chegou, encontrou um dos meninos fumando crack. O policial decidiu voltar para buscar reforços.

Sabendo que se fumava crack naquele lugar, chegou o delegado; ele obrigou o fantasma e o menino a ajoelharam-se e pedirem desculpas pelo que estavam fazendo. Além disso, tiveram que prometer que nuca mais iriam fumar crack.

Quando o delegado foi embora, eles continuaram fumando, fumando, fumando e de tanto fumar, o cara morreu.

E o fantasma, que naquele momento também estava fumando, ficou triste e, a partir desse momento, prometeu para si mesmo que nunca mais fumaria crack.

Primeiro final: Daí o fantasma se regenerou, ficou bonzinho, abriu um orfanato e tirou os meninos viciados que fumavam crack da rua e todos viveram felizes.

Segundo final: Os meninos que fumavam crack se jogaram no fogo, viraram fantasmas e foram para o céu. O crack fica e quem fuma vai."

Raul Albino Pacheco Filho

Coordenador do Núcleo de Pesquisa Psicanálise e Sociedade do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo