DEPENDÊNCIA DE DROGAS: TEORIAS DA EXPLICAÇÃO

1. Texto Inspirador

O texto A Loucura das Causas, capítulo de um livro escrito por Ridley1, é um questionamento sobre as várias causas da esquizofrenia. O autor argumenta que de tempo em tempo surge uma nova hipótese para esse transtorno. Torna-se a hipótese da moda, provoca mudanças na abordagem terapêutica e depois cai no esquecimento. O esquecimento ocorre à medida que os possíveis benefícios para controlar o transtorno não são atingidos conforme supunha a teoria, ao mesmo tempo em que aparece uma nova explicação. Ao apresentar as diversas explicações já elaboradas para a compreensão da esquizofrenia, como a mãe esquizofrenogênica, a genética, neurotransmissores, problemas do desenvolvimento, vírus e dieta; a proposta de Ridley é criar confusão com toda idéia de causa. Ainda, conforme a ciência chega mais próximo de compreender essa psicose, mais obscurece a distinção entre causa e sintomas.

A leitura desse texto nos remeteu à reflexão sobre a dependência de substâncias psicoativas. Ou seja, uma discussão entre o trabalho clínico e as explicações científicas sobre as causas da questão. A dialética da teoria com a prática e vice-versa, possibilita o redimensionamento, isto é, o passo novo de uma e de outra, conforme a citação de Dutra com base nas idéias de Boyd (1981):

"Segundo Boyd, há uma relação dialética entre mundo e mente, isto é, entre o nosso conhecimento de mundo e ele próprio, de tal sorte que a realidade sempre corrige aquilo que pensamos a seu respeito. Boyd diz que tal relação é dialética porque, de um lado, o conhecimento que temos em determinado momento é o guia que possuímos para realizarmos novas descobertas sobre o mundo e, portanto, para ampliarmos nosso saber sobre ele. Mas, de outro lado, essas novas descobertas vão provocar ajustes no nosso conhecimento já estabelecido, vão corrigir antigos erros e torná-lo, pois, mais próximo da realidade, refletindo-a de maneira mais fiel e exata."2

2. Nem Todos os Cisnes são Brancos

Um dos métodos utilizados pela ciência é o indutivo. O cientista, no seu campo de investigação, observa e percebe padrões e regularidades a partir dos quais formula uma teoria ou hipótese sobre os fenômenos observados, de tal modo que sua formulação explique e preveja fenômenos semelhantes.

Um zoólogo, por exemplo, ao observar um lago constata que todos os cisnes são brancos. Formula a hipótese de que todos os cisnes são brancos. Cada vez que ele observa um cisne branco, sua teoria ganha mais crédito. Entretanto, com base nos conceitos de Popper, o zoólogo teria que observar todos os cisnes do mundo para confirmar sua hipótese, pois se existir um cisne preto, sua hipótese é falsa, mesmo que encontre milhares e milhares de cisnes brancos. Desse modo, a corroboração de uma teoria nada mais é que um relato de seu desempenho nos testes pelos quais passou. Portanto, a corroboração não é um argumento a favor da verdade da teoria, bem como não permite fazer projeções futuras de sua atuação. Em outras palavras, uma boa teoria, com base em postulados simples, deverá descrever uma gama de fenômenos e fará previsões que podem ser testadas. Testar a teoria é verificar se as previsões concordam com as observações. Se as previsões estão de acordo com as observações, a teoria apenas sobreviveu ao teste, embora nunca se possa provar que ela seja verdadeira ou esteja correta. Se as observações não confirmam as previsões, a teoria deve ser descartada ou modificada (Popper, 1975)3.

Para Popper, o zoólogo, ao invés de procurar cisnes brancos para confirmar sua teoria, deveria procurar um cisne preto, porque o que dá suporte a uma teoria científica não são os dados e mais dados que a confirmam, mas o fato de resistir às tentativas de refutação. Portanto, teorias ou hipóteses científicas são explicações provisórias, isto é, se sustentam enquanto ausentes provas em contrário4.

No período de 1993-2001 foram identificados e atendidos no programa de tratamento da Clínica Mirante do Instituto Bairral de Psiquiatria em Itapira, Estado de São Paulo, cinco casos que iniciaram o uso de cocaína aspirada ou fumada, o crack, e posteriormente tornaram-se dependentes a partir da quarta década de vida, ou seja, depois dos 30 anos de idade5.

O estudo desses cinco casos chamou a atenção em dois aspectos. Primeiro, o fato de iniciarem o uso de da droga a partir da quarta década de vida, pois o trabalho clínico e os estudos epidemiológicos apontam que o início do uso de cocaína geralmente ocorre na segunda ou na terceira década de vida. Na prática há a idéia geral ou o consenso de que a droga é um problema exclusivo da adolescência. Segundo, em nenhum dos casos foram detectados antecedentes pessoais de algum transtorno psiquiátrico ou uso ocasional, uso freqüente ou uso nocivo de alguma substância psicoativa, exceto tabaco, na vida. Diferentes, portanto, de outros casos, já mais freqüentes, com antecedentes psiquiátricos pessoais que começaram a usar determinada substância psicoativa após os 30 anos. Ou de casos com história de uso recreacional, ou de abuso ou dependência de drogas na adolescência que, depois de vários anos de interrupção do consumo da droga, reiniciaram o uso a partir da quarta ou quinta década de vida.

Os cinco casos estavam estruturados em termos de atividade ocupacional e mantinham relacionamento estável na comunidade onde viviam até o surgimento dos problemas decorrentes do uso da droga. Dois conviviam com a família constituída e três passavam por problemas conjugais (crise ou separação). Também, três casos tinham antecedentes familiares de transtorno psiquiátrico como alcoolismo e outras drogas e transtorno mental. Mas, por que não iniciaram o uso de droga na adolescência, já que esses antecedentes supunham um ambiente propício para tal?

Os estudos epidemiológicos apontam que as primeiras experiências com drogas de abuso e o início de transtornos conseqüentes ocorrem na adolescência e no adulto jovem. As condições neurais da adolescência configuram biologicamente um período de vulnerabilidade para experimentar drogas de abuso 6. A generalização de que o início do uso de drogas ocorre na adolescência é, entretanto, refutada por esses casos e é essa refutação que impede que se incorra na falácia de afirmação do conseqüente.

Além de considerar que essas pessoas iniciaram o uso da cocaína crack porque passaram a conviver com pessoas dependentes de drogas, o estudo desses casos despertou para um posicionamento mais crítico para a questão das causas da dependência de substâncias psicoativas.

3. O Desenho do Vaso

Na aula de Desenho a professora põe um vaso de 30 cm. sobre a mesa. Orienta os alunos sobre alguns procedimentos da técnica e pede que todos desenhem o vaso. A visão que os alunos das carteiras que estão dispostas frente à mesa desenham o vaso de forma diferente dos alunos que estão nas carteiras laterais; mas, nenhum aluno, é evidente, pode desenhar a parte de trás do vaso, pois está fora do campo de visão de todos. O mesmo vaso é desenhado de ângulos diferentes. O mesmo objeto é representado de acordo com a localização e o campo de observação de cada aluno. Assim, cada desenho registra um determinado ângulo do vaso, mas nenhum dos desenhos dá uma representação da totalidade do vaso.

O estudo de um determinado objeto depende do campo de visão, isto é, do referencial teórico e do método conseqüente. Essa tradição na ciência teve início com Descartes no século XVII que propôs que o mundo é composto de partes ou peças e que para serem compreendidas devem ser analisadas uma a uma, bem como as relações causais entre elas7.

O mundo cartesiano visto à semelhança de um máquina possibilitou, e tem possibilitado, um grande avanço na ciência e na tecnologia. A especialização surgiu conforme os objetos de estudo foram sendo decompostos cada vez mais em partes cada vez menores, tornando praticamente inviável o conhecimento do todo integrado. Desse modo, o método cartesiano impõe a si mesmo um limite: se se aprofunda uma determinada área do saber, as demais, mesmo aquelas que têm alguma relação entre si, são obrigatoriamente excluídas.

Qualquer referencial teórico e seu método conseqüente apresentam limites intrínsecos na busca do conhecimento, e esta é uma das características da especialização. Além disso, uma teoria e um método de pesquisa não significam que determinado objeto de conhecimento seja de fato de determinada forma, mas significam como esse objeto é conhecido, já que a verdade em ciência é apenas um ideal.

Há uma outra questão que está relacionada com o que expusemos até agora. O objeto de estudo de uma área da ciência é diferente de outra.

Por exemplo, eventos físicos e químicos são iguais em qualquer lugar do planeta. Um átomo é, em qualquer lugar, um átomo, assim como é o ácido sulfúrico, a luz. Sobre eles é possível construir leis universais. A complicação começa quando o objeto da ciência são os seres vivos, principalmente o homem. De acordo com Alves8,

"Nas ciências físicas só existe a normalidade. Não se observam casos de um raio de luz, um átomo, um ácido enfermos. Quando surge a vida, entretanto, parece que a natureza começa a brincar de compor. (...) O mundo humano, por isso mesmo, não é parte da natureza, da mesma forma como nossa roupa não é um prolongamento natural da pele. O mundo da cultura é uma invenção. Dentro dele os indivíduos adquirem a máxima variação. E a variação é tão grande que eles podem mesmo decidir ser diferentes do que são.

"Isso não ocorre no nível biológico. Não há casos de revoluções entre colônias de samambaias, decididas a se transformar em roseiras. Nem casos de girassóis que tivessem cometido suicídio. Os indivíduos, ao contrário, se caracterizam por este fato trágico e grandioso: sua decisão de ser diferentes do que são. Isso os torna dolorosa e maravilhosamente particulares, neuróticos e sofredores, capazes de criar a arte, de amar, de se sacrificar, de fazer revoluções e se entregar às causas mais loucas, de cometer suicídio."

Todo desenho de pesquisa, a priori, determina qual aspecto do objeto será conhecido, ou seja, desenha ou representa um aspecto da realidade. Uma pesquisa, por exemplo, com referencial na biologia molecular encontrará respostas (ou mais perguntas) somente no seu estrito campo de estudo. Outra apoiada em uma escola sociológica irá encontrar respostas pertinentes ao seu campo, contudo nada apresentará no que diz respeito à biologia molecular.

Qualquer área da ciência tem limitações decorrentes do próprio referencial teórico e metodológico. Uma outra característica da especialização é, cada vez mais, estreitar os limites do objeto de conhecimento. Isso, ao mesmo tempo em que verticaliza o conhecimento, distancia da amplitude horizontal do saber. Quando se trata então de estudar indivíduos, portanto, frente a uma rica diversificação ou variação, o conhecimento específico ou vertical apresenta respostas que nem sempre podem ser generalizadas para a horizontalidade desse conhecimento.

De maneira mais incisiva Lewontin9 expressa o mesmo pensamento:

"A ciência, como a praticamos, resolve os problemas para os quais seus métodos e conceitos são adequados e os cientistas bem-sucedidos logo aprendem a formular somente problemas que apresentam boa probabilidade de ser resolvidos."

Da Costa (1997) divide as ciências em formais (lógicas e matemáticas) e fatuais, reais ou empíricas (todas as outras que não as lógicas e as matemáticas). As ciências formais independem da experiência, pois nelas o conhecimento é forte. Já as ciências fatuais não prescindem da experiência porque atingem um conhecimento fraco ou quase-verdades por não alcançarem conclusões absolutas:

"(...) nas ciências empíricas, ocupamo-nos da quase-verdade (ou verdade pragmática) que, sob condições específicas, coincide com a verdade correspondencial. O conhecimento é, por conseguinte, crença na quase-verdade de proposições, devidamente justificada. Entre outros motivos, pelo fato da ciência real não se chegar a conclusões absolutas e definitivas, a justificação a que se chega só pode ser, teoricamente, fraca." 10

Desse modo, as conclusões que chegam as diversas ciências empíricas não são definitivas ou absolutas. Além disso, a especialização, cada vez mais acentuada, torna ainda mais relativos seus resultados quando confrontados com outras áreas da ciência.

Após essas considerações, afirmamos que os estudos das causas da dependência de álcool e de outras drogas desenham teorias próprias que na prática é impossível afirmar de maneira conclusiva qual teoria explica de fato a causa da dependência.

Atualmente, a dependência de drogas é vista como um fenômeno biopsicossocial, uma tentativa de unificar quatro modelos de explicação para o problema: o modelo de doença, o de comportamento aprendido, o psicanalítico e os modelos familiares (teoria da doença familiar, teoria familiar sistêmica, teoria comportamental). Um componente biológico herdado por si só não explica a complexidade do problema. Fatores psicológicos, sociais, culturais, espirituais têm também papel importante na causa, curso e resultados do problema11.

4. Ingredientes da Dependência de Drogas?

4.1. O Pais

Estudos apresentam algumas características comuns encontradas em famílias de indivíduos dependentes de álcool e outras drogas: dependência de drogas em múltiplas gerações; perda parental pelo divórcio, morte, abandono, encarceramento; superproteção ou excesso de controle geralmente da mãe (simbiose), pai distante, ausente ou paraengajado, frio; filho desafiador, engajado com companheiros, mas que permanece até a idade adulta dependente dos pais 12. É importante salientar que essas características são comuns, o que significa que não são absolutas ou a regra determinante.

Os pais, ao descobrirem que um filho ou filha adolescente consome determinada droga ilícita, sentem-se profundamente culpados. Questionam a si mesmos: "Onde erramos?" Contudo, essa culpa ou esse questionamento não aparece quando se trata de uma droga lícita, como por exemplo, o álcool. O álcool, como todas as outras drogas legalizadas (tabaco, anorexígenos, tranqüilizantes, anabolizantes), possui o mesmo poder de atração das drogas ilícitas, mas não possui a mesma força de censura.

Muitos pais são inadvertidamente levados à falsa percepção, engendrada pela ideologia do consumo, de que para ser bons pais devem dar tudo materialmente aos filhos, às vezes à custa de muitos sacrifícios. Mesmo dando materialmente tudo aos filhos, as questões mais interiores do crescimento pessoal são deixadas num segundo plano. Há uma inversão de valores que somente é percebida quando aflora um problema como o de dependência de drogas, gravidez na adolescência ou envolvimento em condutas anti-sociais. Os pais nem sempre são culpados por darem de tudo materialmente aos filhos. Observa-se que pais de poucos recursos materiais também sentem culpa por não poder dar de tudo ou dar o melhor materialmente aos filhos. Apenas são ludibriados pela ideologia consumista e não conseguem compreender que são peças desse jogo ideológico.

Já observamos famílias constituídas por pais e quatro filhos na qual apenas um dos filhos tem problema devido ao uso de droga, onde os demais estão caminhando normalmente na vida. Mesmo assim, nesse caso, os pais se sentem culpados. Há de salientar que, embora frutos do mesmo casal, cada filho tem seu jeito próprio de ser.

Há famílias em que os três filhos do casal estão envolvidos com drogas, sem história de consumo de substâncias psicoativas por parte desses pais. Há pais que consomem abusivamente álcool e outras drogas, mas cujos filhos estão fora desse problema. Pelo contrário, são esses filhos que cobram mudanças dos pais e os socorrem nos momentos de crises de intoxicação aguda.

Há pais que consomem drogas na frente dos filhos. Há nessas famílias uma cultura das drogas ilícitas, geralmente maconha. Nesse caso, essa droga é considerada um produto "natural" e não uma droga química. Utiliza-se um discurso de roupagem científica, no sentido de afirmar que a maconha tem componentes medicinais e é utilizada para controle de sintomas de algumas doenças. Quando um filho inicia o uso de uma droga, não provoca alarde, nem a culpa desses pais, pois é uma conduta dentro dos parâmetros da cultura que permeia essas famílias.

Quando referimos à família, a idéia que vem a respeito é platônica, quer dizer, pensamos sempre numa família constituída por pais e seus filhos que convivem num mesmo espaço. Mas na prática não é bem assim. Há filhos que convivem com o pai e a madrasta; filhos que convivem com a mãe e o padrasto; há mães, por exemplo, que têm três filhos, mas cada filho é de um pai diferente com o qual a mãe conviveu por um tempo e agora está grávida do quarto companheiro. A prática clínica mostra que a dependência de drogas tem uma enorme variação nas famílias. A dependência de drogas pode ocorrer na filha ou no filho mais velho, no do meio, no mais novo; no filho de pais separados ou na filha ou no filho adotado.

É evidente que há pais, e não são poucos, preocupados com o desenvolvimento interior dos filhos. Há filhos que são bem criados em valores éticos, morais e religiosos e que até certa idade tinham um discurso contrário às drogas, mas que entre os 22 e 25 anos tornaram-se usuários de drogas. Há pais que são tomados de surpresa ao descobrirem que o filho ou filha está consumindo droga, embora, até a descoberta, nada de diferente foi observado no seu comportamento ou no seu relacionamento. Há pais que pouco ligam para os filhos, e estes, por incrível que pareçam, mantêm-se distantes das drogas.

De modo geral, os pais, mesmo aqueles que são consumidores de álcool ou outras drogas, não querem ter um filho ou uma filha dependente de drogas. O discurso, quando existe, é sempre no sentido de alertar sobre o problema.

Assim, há uma variação também no modo dos pais educarem os filhos. Pais que são mais rígidos quanto a determinados valores, normas, horários, etc. Pais mais flexíveis; pais permissivos; pais psicologicamente ausentes e mães neuroticamente presentes. Quase sempre a esposa é responsabilizada pelo cônjuge quando o filho ou filha apresenta problema com drogas. Essa cobrança é proporcionalmente maior quando o pai é psicologicamente ausente. Num mecanismo de atuação o pai absolve-se, nega sua omissão, justificando que delegou e confiou exclusivamente à mãe a missão de educar o filho.

Apesar das múltiplas possibilidades de escolhas que a sociedade ocidental apresenta para o indivíduo, a convivência com os familiares de origem, com os quais passamos boa parte da vida, está fora dessas possibilidades. Pais não escolhem seus filhos, e estes não escolhem seus pais. Os pais podem receber bem ou podem receber mal os filhos que geram. Os filhos também não têm escolha, pois terão que aprender a conviver com os pais. Se o ambiente social pode ser considerado um teste de múltiplas escolhas, o nascer numa família é um teste de apenas duas alternativas. A vida em família é um aprendizado contínuo que envolve a natureza do pai, a da mãe, a natureza de cada filho herdada dos pais e o ambiente ou estilo de criação dado pelos pais.

A partir de 1950 os psicólogos passaram a enfatizar o papel da socialização na formação da personalidade, embora os resultados dos estudos nessa direção não evidenciassem fortes correlações entre estilo de criação e a personalidade das crianças. Com isso, prenderam-se aos pressupostos behavioristas ou aos freudianos para justificar a importância exclusiva do ambiente na formação da personalidade. Ou seja, os filhos são modelados pelos pais por recompensa ou punição, ou que os problemas das pessoas se originaram na infância, colocados ali por seus pais. Assim, para a teoria da socialização, diferentes estilos de criação determinam diferentes personalidades dos filhos. Por exemplo, lar calmo, crianças felizes; crianças espancadas, crianças hostis; crianças amadas, crianças boas; pais neuróticos produzem filhos neuróticos; pais serenos, filhos serenos; pais abusivos produzem filhos abusivos 13.

Entretanto, a teoria da socialização, ou numa linguagem mais simples "filho de peixe, peixinho é" não distingue causa de efeito. Ridley aponta o artigo "Where is the child’s environment? A group socialisation theory of development" de Judith Rich Harris, publicado na Psychological Review, em 1995, no qual demonstra que os pais não têm efeito importante, a longo prazo, sobre o desenvolvimento da personalidade dos filhos. Para Harris, a socialização é algo que os filhos conseguem sozinhos. O pressuposto dos teóricos da socialização de causa-efeito, isto é, de "pais para filhos", com freqüência são efeitos de "filhos para pais"14:

"Os sociólogos tendem a dizer que um bom relacionamento com os pais ‘tem um efeito protetor’ na manutenção dos filhos longe das drogas. Eles têm uma propensão muito menor em dizer que os filhos que se drogam não se dão bem com os pais. (...) Os pais tratam seus filhos de formas diferentes de acordo com a personalidade dos filhos." 15

Terrie Moffitt e Avshalom Caspi16 selecionaram 442 jovens nascidos entre 1972-1973 em Dunedin, Nova Zelândia, de cor branca e do mesmo nível sócio-econômico. Entre eles haviam 8% que foram, de alguma forma, severamente maltratados e 28% que provavelmente, também de alguma forma, foram maltratados. Os autores dividiram os jovens de acordo com as diferenças de um gene específico chamado monoamina oxidase A ou MAOA, comparando-os posteriormente com a maneira como os jovens foram criados.

Os jovens com o gene MAOA de alta atividade eram praticamente imunes aos maus-tratos. Aqueles com baixa atividade e que haviam recebido maus-tratos na infância eram muito anti-sociais e tiveram problemas com a escola e a lei, comportamento violento ou criminoso. Jovens com baixa atividade do gene MAOA, mas que não tinham histórico de maus-tratos, eram ligeiramente menos anti-sociais do que a média:

"E outras palavras, parece que não é o bastante ter sofrido maus-tratos, você deve também ter o gene de baixa atividade; ou não é suficiente ter o gene de baixa atividade, você deve ter sido maltratado. (...) Deixa claro que um genótipo ‘ruim’ não é uma sentença; também é necessário um ambiente ruim. Da mesma forma, um ambiente ‘ruim’ não é uma sentença; é necessário um genótipo ‘ruim’."17

Isso não significa que os pais devam deixar os filhos à deriva, soltos. Significa, sim, que cada pessoa é diferente de outra. Essas diferenças necessitam ter espaço para o diálogo e devem ser direcionadas para metas construtivas. Muitos pais modelam seus filhos, mas não é incomum observarmos pais que são completamente modelados pelos filhos.

4.2. A Hereditariedade

Os estudos sobre hereditariedade e drogas realizados até aqui enfocam mais a questão do alcoolismo. Filhos de pais alcoolistas apresentam maior risco para o alcoolismo e uso de outras drogas do que os filhos de pais que não bebem. O risco é aumentado quando o ambiente é facilitador ao consumo de alcoólicos. Evidências para os fatores genéticos na vulnerabilidade do alcoolismo têm como base os estudos de gêmeos e de adoções. A taxa de concordância do consumo de álcool é maior entre gêmeos monozigóticos (idênticos) do que entre gêmeos dizigóticos (fraternos)18.

Ridley argumenta que

"A genética do comportamento é uma simples questão de medir o grau de similaridade entre gêmeos idênticos, o quanto diferem dos fraternos, e como ficam gêmeos idênticos e fraternos quando são adotados separadamente por diferentes famílias. O resultado é uma estimativa de ‘herdabilidade’ de qualquer característica. A herdabilidade é um conceito traiçoeiro, muito mal compreendido. Para começar, é uma media da população, sem significado para qualquer indivíduo... (...) Além disso, a herdabilidade pode medir apenas a variação, e não números absolutos."19

Fraga e colaboradores concluíram que os gêmeos monozigóticos nascem com seqüências de DNA idênticas. Entretanto, as influências do ambiente no decorrer da vida fazem com que esses genes sejam expressos de formas diferentes em cada um. Uma explicação é que as marcas epigenéticas se perdem à medida que a pessoa envelhece, e essa perda é aleatória, isto é, ocorre de forma diferente em cada indivíduo. Outra explicação é que as experiências pessoais e os dados do ambiente, inclusive de agentes tóxicos como o tabaco, influem no genoma, ativando ou desativando genes, ou seja, mudando a expressão gênica 20.

Quanto à adoção, os estudos têm mostrado taxas maiores de alcoolismo entre filhos de pais alcoolistas criados desde o nascimento por pais que não eram alcoolistas. Entretanto, até um terço dos etilistas não apresenta uma história familiar do problema 21.

A mídia expressa de forma sensacionalista sobre a Era do Genoma, dando a entender que a causa de qualquer comportamento está nos genes, apesar de explicitamente seus pesquisadores descartarem um absoluto determinismo genético. Há uma corrida na busca e na descoberta do gene específico para cada comportamento e, especialmente, para cada transtorno. Uma vez descoberto, pode ser corrigido, alterado ou substituído a fim de evitar no futuro o problema. Será que vivemos a ditadura dos genes?

Existem muitas condições humanas patológicas que podem ser consideradas conseqüências de uma causa genética como, por exemplo, a fibrose cística, a distrofia muscular de Deuchenne e a coréia de Huntington que afetam indivíduos que carregam o gene mutante. São transtornos raros de 1 em 2.300 nascimentos para a fibrose cística, 1 em 3.000 para a distrofia muscular de Deuchenne e 1 para 10.000 para a coréia de Huntington. Outras condições ocorrem em maior freqüência em algumas populações e são mais sensíveis aos efeitos ambientais, como por exemplo, a anemia falciforme entre os africanos ocidentais e seus descendentes que sofrem graves efeitos quando apenas expostos em condições de estresse físico 22.

Esse modelo, um gene específico determinando um comportamento ou um transtorno correspondente é que estimulou pesquisas na área com experimentos repetidos em testes independentes. Por questões práticas, a Drosophila foi uma das escolhidas como objeto experimental por excelência. Entretanto, por exemplo, "os genes para o tamanho das asas", após uma série de gerações, em cada experimento independente, apareciam em localizações cromossômicas diferentes 23. Lewontin refere que,

"O equivalente moderno desses experimentos seria a tentativa de localizar os genes para condições mentais como a esquizofrenia ou a síndrome bipolar mediante a observação de como esses fenótipos passam de geração a geração, junto com marcadores cromossômicos conhecidos. Os resultados são igualmente inconsistentes. Na longa linha de ancestrais de uma família, o ‘gene para a síndrome bipolar’ será efetivamente localizado em um cromossomo, e em outra família aparecerá em um cromossomo diferente." 24

Assim, comumente genética e ambiente são colocados de lados opostos, mas natureza e criação não é um contraste entre o fixo e o mutável, respectivamente 25.

Ridley 20 apresenta sete definições de gene, identificadas ao longo da história da biologia. Sua escolha é a definição de gene de John Tooby e Leda Cosmides por integrar as seis anteriores (definição dawkinista, de transmitir o teste de sobrevivência através das gerações; arquivo mendeliano; uma criação de proteínas de Watson-Crick; um dispositivo do desenvolvimento de Jacob-Monod; um doador de saúde de Garrod e um pangene de DeVries) e acrescentar que o gene é um dispositivo para obter informação do ambiente:

"Os genes são deterministazinhos implacáveis, agitando mensagens completamente previsíveis. Mas por causa da forma como seus promotores ativam e desativam em resposta a instruções externas, os genes estão muito longe de terem ações fixas. Em vez disso, eles são dispositivos para obter informação do ambiente. A cada minuto, a cada segundo, muda o padrão de genes que é expresso em seu cérebro, com freqüência em resposta direta ou indireta a acontecimentos fora de seu corpo. Os genes são mecanismos da experiência." 26

"Um gene é um conjunto de instruções para fazer uma molécula de proteína." 27 O uso repetido de uma substância psicoativa ativa e desativa genes alterando a expressão gênica, relacionado à síntese protéica. Estudo com ratos mostrou que a produção da proteína denominada ativador tecidual plasminogênio (tPA), proteína relacionada com receptores cerebrais que tem importante papel nos processos de aprendizagem, foi aumentada pelo consumo de álcool a longo prazo 28. A exposição crônica à cocaína e outras drogas de abuso como a anfetamina, morfina, nicotina e fenciclidina altera de forma persistente os fatores de transcrição da proteína delta-FosB, que pode mediar alguma plasticidade neural e comportamental 29.

É necessário também considerar que geneticamente o metabolismo pode determinar se um organismo é mais tolerante ou mais sensível à ação de certas drogas. Por exemplo, a variação genética existente em alguns grupos asiáticos na atividade das enzimas que metabolizam o álcool para álcool desidrogenase (ADH) e aldeído desidrogenase (ALDH), resulta em altos níveis de acetaldeído, quando do consumo de álcool, causando rubor. Isso exerce uma inibição ou diminuição do uso do álcool. A prevalência do alcoolismo é menor entre grupos asiáticos que entre os brancos 30. Indivíduos sensíveis ao álcool, com o uso contínuo e gradativo, podem tornar-se tolerantes. Indivíduos tolerantes podem tornar-se sensíveis, haja vista que conforme envelhecem, alcoolistas ou não, apresentam sensibilidade à maioria dos depressores cerebrais, o que reflete na metabolização do álcool no fígado, na diminuição dos líquidos corporais e aumento da gordura, fenômeno descrito como tolerância invertida31. Evidentemente, essa vulnerabilidade apenas pode ser constatada se houver contato entre o indivíduo e o álcool, entre o organismo e o ambiente.

O secular debate de que o comportamento humano é produto exclusivo dos genes (natureza) ou produto exclusivo do ambiente (criação) não tem mais sentido. Os 30.000 genes que compõe o Genoma Humano, um número menor para os 100.000 estimados inicialmente no estudo de Venter e colaboradores, não significa um peso maior ao ambiente como determinante de todo o comportamento humano. Os trinta mil genes também não podem ser considerados um número pequeno, pois cada um deles em duas variedades (ativo e inativo) produz um número bem maior. Se menos genes podem sugerir mais autonomia pessoal ou livre arbítrio, insetos como a mosca-da-fruta é mais livre que os indivíduos 32.

Os genes influenciam o comportamento e este influencia os genes, quer dizer, uma relação recíproca entre organismo e ambiente. Nessa interação genes-ambiente devem ser incluídos a seqüência temporal do ambiente e eventos aleatórios de interações moleculares nas células, de difícil controle para a ciência, que atuam sobre o organismo no curso de seu desenvolvimento 33.

4.3. O Consumismo34

Pela mídia, especialmente a TV, somos manipulados e condicionados a consumir um sem número de produtos. Somos condicionados a buscar cada vez mais uma vida de prazer voltada para o consumo e satisfação de nossa animalidade: comer, beber, vestir, conforto, luxo, etc.

As crianças e os jovens são os alvos preferidos na criação de novas necessidades pela mídia. Sem muita iniciativa ou sem muito estímulo para entender o que é a TV e o que visa a propaganda, passam a querer de tudo que é apresentado, desenvolvendo uma hipersensibilidade ao prazer. A "necessidade" de querer todo novo produto lançado pela mídia é uma tentativa de buscar novas e imediatas satisfações. Mal obtém o produto, ele já perde o seu encanto. É o que Lorenz denominou de neofilia, a afinidade doentia ou irresistível para tudo que aparece como novidade35.

Os pais, fazendo inadvertidamente o jogo da ideologia36, acabam se percebendo como bons pais ou que estão dando uma prova de amor aos filhos, dando-lhes tudo materialmente.

É evidente que as pessoas de poucos recursos materiais – boa parte da população – são também multisolicitadas a consumir. Não podendo atender os apelos do consumo, mas sendo também neofílicas pelo jogo ideológico, se percebem desvalorizadas ao nível do desejo de ter pela falência do poder ter. Nesse caso, o mínimo prazer é sentido como intenso. Conforme a capacidade de sentir prazer é desgastada pelo hábito, o limiar para suportar adversidades diminui, ou seja, a hipersensibilidade ao prazer implica na intolerância ao desagrado. Ambos os terrenos são férteis para a doutrinação de massas.

Nero, na Roma Antiga, mandava dar pão e circo ao povo como forma de anestesiar a consciência. Hoje é oferecida a TV como vitrine, não só de uma gama de produtos de consumo, mas também de controle ideológico por parte dos grandes grupos econômicos e do governo, o qual é representativo das elites dominantes. Os grandes grupos econômicos e o governo são os dois maiores clientes da mídia.

A televisão é uma forma de diversão passiva porque não permite ao telespectador questionar coisa alguma. Como ouviu Aldoux Huxley de um fabricante de cosméticos de que essa indústria não vende somente lanolina, mas, sobretudo, a esperança de uma pele mais bonita e jovem. O preço que cobram pela lanolina é barato, porém o da esperança é muito caro37.

A neofilia é o distúrbio social por excelência de nosso tempo. Nem é preciso detalhar a tentação que sentimos de querer comprar tudo quando entramos em uma loja de departamentos. Somos condicionados a tornarmos dependentes, ou seja, adictos a um número assustador de produtos. Temos, assim, em nosso meio, uma profusão de adictos a roupas, livros, aparelhos eletrônicos, etc. Dessa forma, falamos, comemos, vestimos, somos pensados e agidos de acordo com o que determina a mídia. A rigor, segundo os desejos do poder econômico.

Vivemos numa sociedade onde o valor é possuir, ter posses de coisas, objetos e pessoas. O indivíduo é classificado, ratificando a sociedade de classes que vivemos, pela marca de sua roupa, pelo cargo que ocupa, pelo carro que tem, pela tipo de musica que ouve, pelo número de pessoas que dirige. O mais sábio e experiente do lar perdeu seu lugar de líder para aquele que tem maior poder financeiro. Vivemos uma sociedade, enfim, que prioriza o ter ao invés do ser, que transforma o indivíduo num instrumento de ganhos materiais.Essa situação impele à competição entre os semelhantes, que vai desde a manipulação sutil até as formas manifestas de violência. A tentativa é sempre de levar vantagem sobre o outro, desde a manipulação interpessoal até os lobbies das grandes das grandes empresas.

Ter é ser tornou-se o valor da sociedade consumista. Se antes o dinheiro era um meio, hoje ele é um fim em si mesmo. É o valor dessa competição entre os semelhantes, que se manifesta em tudo àquilo que podemos comprar ou obter. E se não podemos ter algo de momento, já que a ideologia não facilita o aprendizado de adiar prazer, os organizadores da sociedade de consumo nos oferecem em suaves e intermináveis prestações.

Na sociedade os objetos passam a ter um valor maior que o humano. O homem é, então, valorizado pelo que tem e com isso vive como ser coisificado. Para identificar-se com o meio, ele precisa sempre ter, e cada vez mais. E isso ocorre com as pessoas de todas as classes sociais, pois a ideologia do consumo requer que o indivíduo esteja distante ou solitário de si mesmo, embotado no pensar, fazendo todos a pensarem iguais para que o comportamento de consumir seja uma ação reflexa.

Por exemplo, os aglomerados de barracos, que já são integrantes do cenário da maioria das grandes e médias cidades brasileiras, revelam uma das mais claras contradições da sociedade de consumo. Nesses barracos, sem as mínimas condições de moradia digna, pode-se encontrar televisor, geladeira, videocassete, fogão a gás, liquidificador, antena parabólica, etc. Não que sejamos contra o fato dessas pessoas possuírem tais objetos. O que questionamos é que boa parte dessas pessoas não tem em seu lar um pouco de leite e uma fruta para liquidificar, alimento para cozinhar ou alimentos perecíveis na geladeira. Que sociedade é esta que estimula e condiciona o consumo, onde a aparência de ter algo é mais importante que o conteúdo?

O que conta mesmo são as aparências. As pessoas são transformadas numa massa onde a individualidade é desvalorizada e perde com isso seu caráter de singularidade. Utilizando uma imagem da fisiologia, o hipotálamo ou as regiões mais antigas do cérebro embota o córtex e as reações são apenas emocionais. Se a principal característica das instituições totais é a mortificação do eu, conforme demonstrou Goffman38, na globalização essa mortificação ocorre pelo fato da pessoa ser transformada em mero sujeito estatístico, como se despojado de vida interior.

A mídia implica controlar as maneiras de pensar, sentir e agir, inculcando sentimentos, idéias, opiniões e atitudes a respeito de determinados fatos ou situações e, ao mesmo tempo, dar uma cultura comum a todos. E esse poder explora também de forma sensacionalista as ocorrências catastróficas, a ponto de uma notícia, que na sua apresentação primeira nos despertou um sentimento de perda ou de solidariedade, aos poucos, conforme vai sendo repetidamente mostrada e explorada, nos torna insensíveis. Esse controle cultural atinge até mesmo a ciência. Mal um pesquisador testa e comprova algumas hipóteses, e se elas confirmam a ideologia, imediatamente são apresentadas pela mídia em forma de valores absolutos ou dogmas.

Vivemos numa sociedade competitiva, consumista e opressora, em que as relações entre as pessoas não são por elas próprias, mas pelos objetos. As relações sociais são norteadas pelos objetos que cada um possui, onde a riqueza material determina as relações. Assim, o semelhante é visto como lucro em vista. Se não favorece o lucro, é descartado, como ocorre na moda do vestuário que muda de tempo em tempo, de acordo com as estações. E "estar na moda" passou a ser o jargão de nossa época.

Somos de tal forma condicionados ao prazer do consumo que afastamos para bem longe a única certeza da vida: a morte. Agimos com se fôssemos eternos e superiores, como se a posse de objetos nos garantisse uma via plena e sem fim. Refletir sobre a morte é tentar trabalhar um limite nosso e, por isso, é angustiante porque é proibido sentir e demonstrar angústia na sociedade de consumo. Temos que conviver sozinhos, com a solidão, e demonstrar que somos felizes com o luxo e o conforto do avanço tecnológico que, a rigor, é apenas aspiração da grande maioria. Em muitos casos, a obesidade é mais um transtorno do espírito do que do corpo: a angústia não é elaborada, mas aliviada temporariamente com a ingestão voraz de alimento. Numa sociedade que estimula o consumo as saídas para as crises são óbvias: consumir e consumir.

A neofilia e a busca desenfreada do prazer estimularam também o desenvolvimento da farmacologia em geral e da psicofarmacologia em particular. Assim, a mídia "receita" indiscriminadamente um arsenal de soluções pela boca para inúmeros distúrbios, como dor de cabeça, falta de memória, nervosismo, depressão, fraqueza, impotência sexual, calvície, etc. Nesse campo há também os lobbies das grandes empresas farmacêuticas que por meio de estratégias discretas fazem seus remédios parecer mais eficazes do que são. Os testes clínicos publicados sobre medicamentos são sempre favoráveis à eficácia do medicamento e, portanto, favorável às essas empresas39.

Berlinguer40 afirmou que quanto mais primitiva é a exploração do capital, como no campo, mais atingidas são as funções mais simples ou biológicas: doenças orgânicas, desnutrição. Quanto mais sofisticada, como na indústria, mais atingidas são as funções evoluídas do sujeito, isto é, as de vida de relação. Numa sociedade competitiva, onde o ritmo da vida é alarmante, onde o organismo deve estar sempre em estado de alerta, exigindo uma hiperfunção do sistema nervoso e hormonal, aparecem as doenças típicas de nosso tempo: enfarto do músculo cardíaco, hipertrofia dos rins, úlcera estomacal, etc., inclusive em organismos jovens. E a maioria dessas doenças está essencialmente ligada a conteúdos psicossociais. Aí, o poder econômico encerra o círculo: produz doenças e produz remédios. E tudo com o intuito exclusivo do lucro.

Essa mesma ideologia de consumo que combate, inclusive pela mídia, o tráfico e o consumo de drogas ilegais, como a maconha, a cocaína, o crack, etc, induz, de forma simultânea, o consumo de drogas legais, como o tabaco, a bebida alcoólica, remédios, vitamínicos, anorexígenos, etc. Para cada tipo de problema, seja dor de cabeça, de estômago, nervosismo, insônia, problemas do fígado, a mídia apresenta e estimula a "medicação" para cada caso. É a hipocrisia da ideologia do consumo em relação às drogas.

Em suma, a sociedade mostra-se acessível ao consumo de drogas lícitas, como o álcool e o tabaco. E a relação ensino-aprendizagem para essas drogas, da geração adulta para geração jovem, se utiliza das vias legais da sociedade como a propaganda e o conseqüente estímulo ao uso, o modelo a partir dos próprios pais usuários e inúmeras formas de lazer que se confundem com o consumo dessas substâncias. Já para as drogas ilícitas, não são raros os conteúdos de programas, de novelas, de filmes, de textos, etc., "sugerirem" uma tolerância ou mesmo instigando o consumo dessas substâncias. Pontos de tráfico de drogas ilícitas são facilmente identificáveis em qualquer cidade, inclusive por pessoas não usuárias.

A sociedade está fundamentada em três eixos: produção, criação de novas necessidades pela mídia e consumo. Tudo é voltado para a matéria, para o ter, para a posse de objetos. Com isso, tende a afastar de seu meio todo aquele que não cumpre ou que é visto como risco à produção e ao consumo, como os idosos, os marginalizados, os que cumpriram pena, os doentes; deixando nas entrelinhas da ideologia a idéia de que normalidade mental é o mesmo que a capacidade de produzir e consumir. Por exemplo, a pessoa pode beber alcoólicos, desde que se mantenha produtivo ou até o limite desse beber não pôr em risco a produção41. O consumismo é semelhante a um continuum. Num extremo está o consumidor do mínimo necessário para sobreviver; no outro as dimensões patológicas desse consumismo: bulimia, anorexia, obesidade, dependência de drogas.

O indivíduo, assim, desde a infância, é levado num crescente jogo, por força da ideologia representada nos primeiros anos pelos pais, de que ter é mais fundamental que ser, tornando-se num consumidor eficaz. Na adolescência, quando há necessidade de recursos internos para o indivíduo qualificar sua identidade, vê-se confuso, vazio e carente. Sua tendência é preencher esse vazio por meio de coisas materiais ou de como aprendeu a lidar até então com suas dificuldades, ou seja, consumindo. Um indivíduo nessa condição está adoecido existencialmente. Três significados interligados explicam essa condição no contexto consumista: primeiro a aparência é percebida como mais fundamental que a essência; segundo, o acreditar que as "soluções" estão sempre no exterior de si mesmo, nos objetos, e, terceiro, conformar com a idéia de que estar bem de vida é o mesmo que estar de bem com a vida42.

Assim, o uso de drogas geralmente aparece nesse período de mudanças e de decisões. Na verdade, a droga nada é ou é um mero objeto. Mas se consumida, o consumidor pode dar a esse objeto um significado mágico porque temporariamente ameniza os conflitos da mudança da infância para a vida adulta. Ao se drogar, o jovem anestesia seu pensar e, com isso, coloca-se à margem do processo histórico pessoal e do coletivo, porque o consumo de drogas inibe a reflexão e induz o comportamento. Ausente, não pode ser produtor de transformações positivas nesses processos, fazendo aí, exatamente, o jogo que os manipuladores querem.

4.4. O Período Crítico

A puberdade e a adolescência constituem um período do desenvolvimento, que se inicia por volta dos 12 anos sem uma idade de término precisa, no qual ocorrem intensas e rápidas modificações biológicas, psicológicas e sociais. A puberdade está mais associada às mudanças físicas, enquanto que a adolescência às mudanças psicossociais. É o meio do caminho entre a infância e a idade adulta, marcado em algumas culturas com ritos de transição ou de passagem.

Nesse período ocorrem mudanças corporais como uma ação mais vigorosa dos hormônios sexuais e do crescimento, da descoberta do sexo e da sexualidade, do nascimento como ser-no-mundo de forma mais assertiva, da busca de um papel social e de profundas pressões nessa maneira de ser e de agir e de constituir um lugar no contexto em que vive. De acordo com Papalia e Olds43, o desenvolvimento da sexualidade na adolescência está associado à busca de novas experiências, a intensos de prazeres físicos, à busca de alívio para as pressões externas, provar a maturidade e acompanhar amigos em atitudes e comportamentos.

É um período de procura de si mesmo ou de uma identidade psicossocial; procura esta composta de esperança, dúvidas e angústias, e que determina instabilidade da auto-estima. Alterna inibição para resolver pequenos problemas do seu cotidiano com condutas de risco e aventura. Tais condutas são emitidas sob uma proteção de onipotência e de indestrutibilidade. Alterna comportamentos egocêntricos com atitudes altruístas, geralmente quando essas atitudes representam a expressão de um grupo de colegas. A adolescência é, portanto, uma época relativamente tumultuada da vida. Período de questionamentos aos valores da família em particular e da sociedade em geral. Período em que há um profundo sentimento de respeito à ideologia dos colegas ou companheiros. Porém, essa é uma visão geral da adolescência.

É um preconceito considerar todo adolescente como pessoa problemática. Nem todos os adolescentes entram em crise quando elaboram a chamada "síndrome da adolescência normal"44, ou seja, muitos adolescentes vivem ou experienciam esse período com naturalidade.

Desse modo, há várias maneiras de adolescer. Há adolescentes que passam por todas as mudanças biológicas, psicológicas e sociais sem alterar de maneira saliente seu modo de ser. Vivem tranqüilos essa etapa, sem grandes problemas ou debates com os pais, escola e sociedade. Outros têm de assumir, em contexto sócio-econômico carente, não raro na puberdade, uma vida de trabalho para colaborar com o orçamento familiar. Outros, ainda, assumem o papel de cabeça da família. Muitos são, assim, cooperantes e responsáveis. Isso significa que para muitos adolescentes a vida adulta chega mais precocemente, em particular para os de famílias de parcos recursos materiais. Também, há adolescentes serenos, seguros e responsáveis nas famílias de maiores condições econômicas.

Há jovens que desde a puberdade sentem uma atração inexplicável para a vida da marginalidade. E isso não é encontrado somente em camadas desfavorecidas economicamente. Há os que se mantêm adolescentes até por volta dos 30 ou 40 anos, dependentes dos pais em todos os sentidos. São pessoas cronologicamente de idade adulta, mas cuja conduta ainda é de adolescente, e, geralmente, são pessoas muito problemáticas. Há adolescentes que durante a semana são responsáveis na escola ou trabalho, mas nos finais de semana expõem-se a riscos e aventuras, incluindo sexo promíscuo e consumo de álcool ou outras drogas.

Além disso, embora não seja exclusivo, é nesse período de transição que ocorrem as primeiras experiências com drogas de abuso, o que torna um problema não só do ponto de vista médico e psicológico, mas uma preocupação em saúde pública. Daí a importância de enfatizar nesse estudo esse período da vida. Para Toscano Jr.45,

"O impacto do consumo de drogas nesta fase da vida, assim como o seu potencial para produzir conseqüências indesejáveis, presentes ou futuras, em diversos níveis, tem sido a preocupação autêntica de pais, professores, profissionais da saúde e da comunidade como um todo, a despeito da abordagem muitas vezes alarmista conduzida pela mídia ao deter-se no problema quase sempre a partir da própria droga, dos seus efeitos nefastos e das cifras que envolvem o trafico, sem considerar os demais fatores inter-relacionados."

Há diferentes teorias que abordam a adolescência e o consumo de drogas. Sem entrar no mérito cientifico de cada abordagem, apresentamos de forma sucinta algumas delas: o álcool, o tabaco e a morfina como sucedâneos da masturbação que é o vício primário (Freud); uso de droga como sintoma substituto às modificações corporais e dificuldades de abertura para com o semelhante (Merlhi); o adolescente recorre às drogas como fuga de uma realidade angustiante e busca para o prazer imediato devido à dissolução de valores e instituições sociais que antes ofereciam segurança (Osório); a droga é uma "patologia dos processos transicionais" (Winnicott); adolescentes buscam nas drogas as respostas pelos problemas nos momentos da crise de identidade (Papalia, Olds); os jovens usam drogas como imitação dos adultos que consomem drogas lícitas para aliviar sua "infelicidade, depressão e pressões cotidianas" (Lennard)46.

Há também, já identificados, fatores de risco para o uso de álcool e de outras drogas na adolescência, os quais podem ser minimizados pela presença e fortalecimento de fatores de proteção, aqueles que diminuem a probabilidade da instalação do problema ou do comportamento adictivo. Fatores de risco e de proteção podem estar presentes no âmbito individual, no familiar, no escolar e no sociocultural47. Conforme Scivoletto e Andrade48, os fatores de risco mais citados na literatura especializada são: uso de drogas pelos pais e amigos; desempenho escolar insatisfatório; relacionamento deficitário com os pais; baixa auto-estima; sintomas depressivos; ausência de normas e regras claras; tolerância do meio às infrações; necessidade de novas experiências e emoções; baixo senso de responsabilidade; pouca religiosidade; antecedentes de eventos estressantes e uso precoce do álcool.

Sem descartar a importância do que foi exposto até aqui sobre a adolescência, queremos acrescentar e considerar sobre um fator de risco intrínseco do adolescente, que faz parte de suas mudanças biológicas e psicológicas e que, evidentemente, tem repercussão sobre o comportamento.

Em 1935 Lorenz observou e descreveu como um filhote de ganso, após ser chocado, fixa a primeira coisa em movimento que encontra e a segue como mãe. Pode ser a própria mãe, um objeto em movimento ou o próprio pesquisador. Essa tendência é inata e ocorre dentro de um determinado período de tempo após o nascimento, tornando-se irreversível. Lorenz descreveu esse processo de imprinting 49.

Lorenz também percebeu diferenças entre uma espécie e outra de aves no imprinting. Se para os filhotes de gansos o imprinting ocorria quando de um objeto em movimento, para os filhotes de patos é o grasnar da pata ou de alguém a imitando no seu chamado50. O imprinting é um processo inato, ocorre somente num determinado período do desenvolvimento do animal e é irreversível51.

Os humanos também passam por períodos críticos e podem fixar um determinado comportamento, semelhante ao imprinting, tornando-se, em alguns casos, irreversível. Por exemplo, a linguagem. Na juventude as pessoas podem mudar facilmente seus sotaques em conformidade com os colegas da própria idade com os quais convivem. Mas, em alguma época entre 15 e 25 anos essa flexibilidade desaparece, ou seja, a partir da perda dessa flexibilidade, se uma pessoa emigrar para outro país, mesmo após muitos anos convivendo com a nova língua, pouco mudará seu sotaque. Há uma capacidade inata de absorver experiência do ambiente, como ocorre no imprinting, mas o ambiente também está presente: deve ter algo em movimento no ambiente para que o filhote de ganso possa seguir e o som do grasnar da pata para os patinhos52.

No entanto, Gilbert Gottlieb (1997) emudeceu patinhos, ainda no ovo, por meio de um processo cirúrgico nas cordas vocais, a fim de avaliar se os patinhos tinham uma preferência inata pelo chamado da própria espécie. A conclusão foi que ainda os patinhos conheciam o chamado correto porque tinham ouvido a própria voz antes do ovo ser chocado, isto é, a resposta ao chamado correto da própria espécie a um estímulo ambiental anterior ao nascimento53.

Quando um filhote sofre imprinting de seus pais ocorrem mudanças de neurônios, formação de sinapses e ativação de genes no intermediate and medial hyperstriatum vental (IMHV) esquerdo. Segundo Brian McCabe e colaboradores (1998), ao examinar cérebros de filhotes que passaram ou não pelo imprinting, observaram que o neurotransmissor ácido gama-aminobutírico (GABA) é liberado das células cerebrais no IMHV esquerdo durante o imprinting, inibindo a estimulação de neurônios próximos, e para depois de 10 horas reduzir a sensibilidade ao GABA O sistema do GABA para amadurecer depende da experiência visual e parece ser estimulado pelo fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF), o qual estimula o crescimento dos neurônios. É provável que o sistema do GABA seja fundamental em todos os tipos de períodos críticos54.

O cérebro não é um órgão pronto ao nascimento. Durante a vida, dependendo de seu próprio desenvolvimento, de sua ação espontânea e das respostas à ação do ambiente, o cérebro amolda sua arquitetura. A mielinização, que possibilita maior rapidez aos impulsos nervosos, começa por volta do sétimo mês de gestação, conclui sua formação de forma parcial por etapas nos vários segmentos cerebrais, mas sua conclusão final, a mielinização do córtex frontal, termina entre 20 e 40 anos. Até o segundo ano de vida pós-natal, os axônios alongam-se e formam dendritos que se arborizam em algumas regiões corticais. Próximo a 50% dos neurônios morrem por apoptose por volta dos três anos de idade, quando o giro pré-frontal atinge sua densidade máxima. E tudo concorrendo para um desenvolvimento neurológico normal. A formação de sinapses, iniciada na 23a. semana de gestação intensifica-se desde o primeiro ano de vida e se estende até a adolescência ou mesmo na idade adulta. Níveis adultos de sinapses são atingidos aos cinco ou seis anos no córtex visual, e no córtex frontal dos 15 aos 18. Assim, funções cognitivas que dependem do córtex pré-frontal, como memória associativa, estratégia, planejamento e flexibilidade cognitiva, desenvolvem até o final da adolescência. Após uma superprodução de sinapses segue-se um processo denominado de poda sináptica, fato que ocorre também na adolescência, resultante de estímulos do meio ambiente, fatores neurotróficos e ação de neurotransmissores como o GABA. Essas mudanças implicam mudanças na expressão gênica, e esse conjunto de fatores constitui a plasticidade neural, base do aprendizado porque define e seleciona as sinapses e suas conexões que moldam habilidades e comportamento55, 56.

O sistema GABA, portanto, está relacionado tanto com imprinting quanto à poda sináptica. Isso chama a atenção pelo fato de que uma das primeiras experiências com droga na adolescência é geralmente com o álcool e a ação do álcool é exatamente no sistema GABA. Por ser o maior sistema inibitório cerebral, o sistema GABA inibe também o sistema glutamatérgico que é o maior sistema estimulante do cérebro. Desse modo, o álcool é uma droga depressora do sistema nervoso central57. O uso de álcool na adolescência, ou seja, dentro do período crítico, pode tornar o cérebro seletivo, inibindo-o a outras aprendizagens, já que ao estimular o sistema GABA este se torna dominante por inibir neurônios ou conexões vizinhas.

Há, então, nessa fase, um "despejo" das idéias, ritos, normas e comportamentos transmitidos pela tradição familiar, constituindo um período crítico no desenvolvimento do jovem, tornando-o vulnerável à doutrinação. Semelhante a abandonar um esqueleto de sustentação, ilustrado como a troca de carapaças ou "mudas" dos caranguejos que precisam se desfazer do exoesqueleto para crescer, mas que no meio desse processo ficam expostos ou vulneráveis aos predadores. Essa fase, embora de vulnerabilidade, é necessária porque oferece também a oportunidade para modificar a herança cultural. Lorenz considerou esse um período crítico para uma fixação semelhante ao imprinting, especialmente quando o jovem se entusiasma por alguma coisa58.

Assim, tal como na ilustração do crescimento do caranguejo, os graus de liberdade para o crescimento, como ocorre do adolescente gostar de sair, estar com colegas, pois está descobrindo mundos novos, o interno e o externo, descobrindo outros valores e novas formas de ver o mundo, e sem a presença dos pais, portanto, diferente da infância, implicam riscos. Esses graus de liberdade para o crescimento ou essa maneira praticamente de viver exposta ao mundo, ao mesmo tempo em que são imprescindíveis para o adolescente alcançar gradativamente a maturidade, são fontes de angústia para os pais.

No geral, todos nós passamos por momentos de maior sensibilidade na vida. Por exemplo, uma desilusão que sofremos ou um momento de alegria intenso pode nos tornar sensíveis, isto é, descrentes de valores que acreditávamos ou expostos pela euforia, respectivamente, e, com isso, tornarmos vulneráveis à doutrinação.

4.5. A Influência do Grupo

Estudos como os de Solomon Asch59 e Stanley Milgram60 sobre conformismo e obediência, respectivamente, comprovaram a influência dos grupos nos indivíduos.

Milgram61, com base nas estratégias e resultados desses estudos, apresentou as diferenças básicas entre conformismo e obediência.

No conformismo não há uma exigência explícita para que a pessoa mude seu julgamento sobre o tamanho das linhas, embora exista pressão. A pressão social não é para que a mudança de julgamento torne o sujeito melhor ou pior que os outros do grupo, mas para que o sujeito se torne ou se sinta igual aos outros. Em outras palavras, visa a homogeneização do comportamento. Depois do experimento, quando questionados, os sujeitos negaram a adesão ao grupo e, atribuíram à própria deficiência quando apontados os erros de julgamento.

No experimento sobre a obediência o pesquisador prescrevia um comportamento ao sujeito (punir com choque elétrico um outro sujeito, que na prática não recebia o choque, mas que o executor acreditava que sim, quando errava determinada tarefa), portanto o executor cumpria uma ordem de alguém de status superior. Assim, a obediência resulta da diferenciação da estrutura social do grupo. Quando indagados sobre o comportamento de punir, os sujeitos renunciavam a qualquer responsabilidade pela ação. Tanto no conformismo quanto na obediência, frente à pressão social, há a abdicação da iniciativa individual.

Dentro do conceito de conformismo, Aronson62 destacou três tipos de respostas à influência social.

A complacência é a mudança de comportamento motivada pelo desejo de ganhar recompensa e evitar punição. O componente mais importante de influência social na complacência é o poder do influenciador dar ou ameaçar recompensa ou punição. O comportamento dura somente ao tempo em que perdura a recompensa ou o castigo.

Um outro tipo de resposta à influência social é a identificação. Na identificação o comportamento do indivíduo é influenciado pelo desejo de agradar o influenciador. O componente mais importante é a atração pela qual o indivíduo se identifica, isto é, o indivíduo quer adotar as mesmas opiniões do outro que é visto como modelo.

Na interioridade é o indivíduo integrar uma crença ao seu sistema de valores, vinda de alguém visto como digno de confiança. A recompensa é intrínseca, diferente, portanto, da complacência e da identificação em que a recompensa é externa. O componente crucial é a credibilidade do influenciador.

Há variáveis que aumentam ou diminuem a conformidade. Quanto mais coeso o grupo, maior a capacidade de influenciar. Depende também dos tipos de pessoas que formam o grupo, das características do líder que rege o grupo. Indivíduos com má impressão de si mesmos são mais vulneráveis à influência do que aqueles que têm a estima em alta63.

Da difusão de opinião à formação de multidões e a obediência aos líderes, enfim, todo fenômeno de pressão social, desde um pequeno grupo sobre o individuo até os fenômenos de massa, pode ser resumida na frase do sociólogo Gabriel Tarde: "O homem social é um sonâmbulo." 64

Para Harris65 tanto o genoma quanto o ambiente têm influência na formação da personalidade, mas considera que o ambiente de colegas é mais influente que o dos pais. As crianças não são aprendizes de adultas, por exemplo, querem ser boas em ser crianças, procurando um grupo de colegas onde possam se diferenciar, colaborar, competir e conformar-se.

Parece que as crianças, embora tendem a conformar-se num grupo, são mais guardiãs dos valores dos pais, já que na infância, os pais, de modo geral, são considerados ídolos ou modelos pelos filhos. Isso começa a mudar na adolescência quando ocorre o "despejo" no período crítico. Os adolescentes, então, estão mais expostos e dispostos a buscar um novo e necessário sentido da existência, necessitam também de buscar novos modelos para a conduta, conformar-se, mas também a diferenciar-se no interior do grupo como indivíduo.

A conformidade é uma característica humana. Os adolescentes parecem os mais ligados à uniformidade, e isso é constatado pela indumentária de um grupo de adolescentes. A conformação começa já com a aparência. E sob a conformidade, cada qual tenta se individualizar. Cada grupo tem o líder, o durão, o espirituoso, o intelectual, o maquinador, o galã. Cada qual se percebe no que é bom e no ambiente desenvolve cada qual suas características. São papéis criados pela natureza via ambiente ou criação. Essa acentuação da individualidade vai-se cristalizando, porém dentro do código do grupo. Quem foge muito dessas conformações, como os excêntricos e os não conformistas, que são ridicularizados ou caem no ostracismo, respectivamente66.

A força de influência do grupo sobre o adolescente é proporcional à abundância ou escassez de recursos psicológicos, positivos ou negativos, que ele tem para elaborar a sua identidade. Por exemplo, se ele é um não conformista e o grupo tende a influir valores considerados negativos, cair no ostracismo ou ser excluído ou desligar-se do grupo é benéfico para esse adolescente. Se o grupo exerce influência de valores positivos, o ostracismo ou exclusão do não conformista é benéfico para o grupo. Se aquele que lidera o grupo o faz de forma positiva, seu papel é de proteção e de coesão do grupo. O mesmo pode-se dizer de um líder com idéias destrutivas. Os adolescentes com escassez de recursos para elaborar sua identidade, por exemplo, insegurança e baixa auto-estima, serão, por assim dizer, beneficiados se a liderança for positiva, mas prejudicados, no sentido de sua formação e individualidade, se ela for negativa.

O adolescente é um dos alvos preferidos da propaganda. O grupo de adolescentes tende a estar na moda. Sobretudo, busca a novidade.

Numa sociedade de consumo que estimula experiências para o novo, e que ao mesmo tempo isso vai ao encontro do desejo de experimentar ou de entusiasmar do adolescente, numa sociedade em que a disponibilidade e o fácil acesso tanto às drogas lícitas quanto as ilícitas é possibilitado em idade cada vez mais precoce, mais dia, menos dia, é provável que a questão droga, concretamente, esteja presente no grupo.

É comum os pais afirmarem que o filho entrou nas drogas por influência das más companhias. É uma forma desses pais reduzirem a culpa e justificarem sua indignação com o filho envolvido com as drogas. Entretanto, é provável que para os pais do colega considerado má companhia, a má companhia é o filho do outro.

A rigor, isso é relativo. Depende do papel que seu filho exerce no grupo, isto é, se ele tem o papel de um líder ou de alguém que tem grande influência sobre os outros no grupo ou, ainda, se seu filho é uma pessoa mais influenciável pelos outros ou mais conformado com os caminhos escolhidos pelo grupo. Depende, então, de seu filho ser alguém no grupo que lidera naturalmente ou determina ordens por ter adquirido prestígio no grupo pela sua condição intelectual, força física ou qualquer outro talento; ou se esse filho apenas é conformado ou obediente para com o grupo para ser aceito, por ser mais passivo, inseguro e, portanto, influenciável.

4.6. A Comorbidade

O uso de drogas pode ser causa, conseqüência ou ocorrer paralelamente a outro transtorno psiquiátrico, ficando difícil, na prática, diferenciar se a comorbidade é resultado do uso regular de drogas, efeitos de seu uso ou sintomas de abstinência. Em epidemiologia, comorbidade é o risco relativo de uma patologia acompanhar outra67.

As principais teorias sobre o tema procuram esclarecer as associações entre o transtorno primário e a comórbida. A primeira delas é que é necessária a presença de um transtorno para causar ou predispor outro, por exemplo, um comportamento anti-social pode causar o uso de drogas ou vice-versa. Uma segunda teoria aponta que ambos os transtornos resultam de uma combinação, genética e fatores de risco intrínsecos e extrínsecos, ou seja, por exemplo, tanto o comportamento social quanto o uso de drogas são conseqüências dessa combinação de fatores. Uma terceira teoria, da automedicação, refere que o uso de substâncias psicoativas é para minimizar ou aliviar sintomas de um transtorno psiquiátrico primário. Por exemplo, o álcool utilizado como ansiolítico, por pessoas ansiosas. Uma quarta explicação é de que o uso de drogas pode levar ao surgimento de um transtorno. Por exemplo, o álcool, depressor do sistema nervoso central, pode desencadear sintomas depressivos e ansiosos. Ou que uma droga despersonalizante pode causar um transtorno psicótico. Enfim, a hereditariedade, mas que não foi suficientemente elucidada na questão68.

Os principais transtornos associados à dependência de drogas são: esquizofrenia, transtornos do humor (depressão e transtorno afetivo bipolar), transtornos ansiosos (agorafobia, transtorno de pânico e transtorno de ansiedade generalizada), transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), transtornos de personalidade (borderline e anti-social), transtornos alimentares (anorexia nervosa, bulimia nervosa)69.

A prática clínica mostra que pacientes tratados em ambulatórios, onde persistiam transtornos associados à dependência, que na maioria das vezes, essas comorbidades se extinguiam quando eram encaminhados e tratados em ambiente protegido.

É possível que no tratamento ambulatorial, quando o paciente é resistente ou simula estar se tratando, um sintoma pode mascarar o outro. É comum, por exemplo, o humor depressivo, a culpa, a ansiedade e a raiva estarem presentes após uma noitada ou um porre de álcool ou cocaína. Quando essas queixas se mantêm no tratamento ambulatorial, a tendência do profissional é trata-las também com medicamentos. Com o tempo ocorre uma miscelânea do consumo das drogas com a medicação, tornando difícil diferenciar quem é quem. Ao ser encaminhado para o ambiente protegido, após um período de desintoxicação, torna-se mais claro o quadro. O paciente encaminhado para a internação por dependência de álcool e/ou outras drogas com outro diagnóstico associado, nem sempre, após certo período de tempo, mantém o quadro da comorbidade.

Essa constatação não é isolada. No tratamento ambulatorial também Kerr-Corrêa e colaboradores70 referiram que

"Inúmeros jovens que pareciam em tudo psicopatas anti-sociais ou borderline no comportamento, mudam completamente ao largar as drogas. Desaparecem diagnósticos de comorbidade – não só transtornos de estresse pós-traumático, depressões e até déficit cognitivos que pareciam irreversíveis."

Desse modo, se um desses transtornos mencionados aparece na vida de uma pessoa como transtorno primário, não deve ser considerado como um decreto de condenação à pessoa para ser um futuro dependente de álcool e/ou outras drogas, especialmente se essa pessoa for criança ou jovem. A presença de um desses transtornos deve ser considerada como um fator de risco ou de vulnerabilidade para uma substância de abuso, principalmente porque o meio que vivemos é facilitador na disponibilidade e no acesso a drogas lícitas e ilícitas.

5. O Indivíduo Dependente de Drogas

O trabalho clínico com dependentes de álcool e/ou outras drogas em ambiente protegido possibilita uma variedade de contatos e intervenções, desde o ingresso do paciente no serviço, geralmente intoxicado pelo consumo de drogas, até sua alta quando está em melhores condições físicas e cognitivas. Nesse processo é possibilitado estabelecer um vínculo terapêutico em contatos individuais e grupais, discutir temáticas pertinentes à problemática da dependência e as suas conseqüências, bem como também estabelecer estratégias de prevenção de recaída e de continuidade do tratamento em ambulatório.

Os cinco casos identificados e citados anteriormente despertaram-nos para uma vigilância maior sobre questões relacionadas às condições internas e externas do paciente por ocasião das primeiras experiências com as drogas. Tornou-se prática de trabalho pesquisar essas questões.

Os pacientes revelam que o início do uso do álcool ou outra droga foi "por curiosidade", "para saber como é que era", "de tanto os colegas falarem resolvi experimentar", "para criar coragem", "para tirar a timidez", "más companhias", "convivência com colegas", "foi uma procura consciente, queria me drogar", "gosto de viver riscos".

De cada dez respostas e suas conseqüentes explicações, apenas um afirma que na época das primeiras experiências com droga estava passando por dificuldades, tais como comportamentos anti-sociais, desatenção e hiperatividade, sexualidade indefinida, depressão, desinteresse pela vida, introversão, separação ou perda de um dos pais, família disfuncional, maltrato na infância e abuso sexual na infância (mais freqüente em dependentes de drogas do sexo feminino). Entretanto, muitos de antemão já inocenta a família, assumindo que o problema era exclusivamente deles. Outros referem que há problemas sérios na família, mas admitem que a procura pela droga não era relacionada com esses problemas. Aqueles que verbalizam ter graves problemas de relacionamento com os pais ou com um dos pais, mesmo após uma séria discussão, ao sair com os colegas aquilo era temporariamente esquecido, deixado de lado. Nove em dez procuraram o álcool ou outra droga principalmente de forma recreativa, convivência grupal ou igualdade no grupo de colegas.

Nossa constatação é de que a maioria dos pacientes, ao experimentar e estabelecer os primeiros contatos com uma droga de abuso, essa escolha ou decisão foi consciente e sem a intenção de fazer o uso para se tornar no futuro um dependente problemático que iria provocar muitos transtornos na sua vida pessoal, familiar, social.

Devemos considerar que embora uma escolha ou uma decisão vise um objetivo, ao mesmo tempo, abre um leque de outras possibilidades. Se uma, entre múltiplas, possibilidade é atingida, mesmo que não tenha sido ela o objetivo previamente estipulado, anula todas as demais possibilidades. Isso quer dizer que no final o que se apresenta ao observador é uma relação entre a escolha e o resultado, isto é, apenas uma relação linear de causa-efeito. Essa condição foi explicada pelo físico Richard Feynman ao questionar o pressuposto básico que cada partícula possui uma única história, a qual também pode ser aplicada a objetos macroscópicos:

"Contudo, no dia-a-dia, parece-nos que os objetos seguem uma única trajetória entre sua origem e seu destino final. Isto está de acordo com a idéia das histórias múltiplas de Feynman, porque, para objetos grandes, sua regra de atribuir números a cada trajetória assegura que todas as trajetórias, exceto uma, anulam-se quando suas atribuições se combinam. Somente uma dentre a infinidade de trajetórias importa no tocante ao movimento dos objetos macroscópicos, e essa trajetória é precisamente aquela que emerge das clássicas leis do movimento de Newton." 71

Já que as primeiras experiências com álcool e outras drogas geralmente se dá na adolescência, é importante considerar que nessa época da vida o adolescente tem a idéia de ser indestrutível e, portanto, auto-suficiente ou onipotente. Com essa característica própria da idade, tem a percepção de que experimentar ou usar algumas vezes uma determinada droga não irá acontecer com ele o que infelizmente aconteceu com outros jovens conhecidos. Nesse caso, ele acredita que o outro que se deu mal, por exemplo, se tornou dependente da droga porque não tomou o devido cuidado ou não soube fazer a coisa de maneira certa. A idéia desse adolescente, geralmente, é usar de vez em quando, de forma recreativa, e quando quiser parar, irá parar.

Em suma, de cada dez pacientes nove começa o uso do álcool ou outras drogas não para resolver problemas ou solucionar conflitos internos ou externos, mas para se divertir, conviver, se distrair, relaxar, encorajar-se.

É importante considerar que o adolescente tem uma outra característica: o mesmo ímpeto que tem para se entusiasmar com algum projeto, tem também para abandoná-lo. Nem tudo que o adolescente começa, ele termina. Muitos projetos que inicia, por exemplo, um curso de língua estrangeira, um curso de violão ou um curso de pintura, chegam a termo mais pela perseverança dos pais cobrarem que a intenção do adolescente em terminá-los.

É provável que a postura de indestrutibilidade ou de onipotência do adolescente, aliada ao comportamento de início-abandono para com projetos ou atividades que se propõe, o iluda quanto a questão das drogas. Como afirmamos, o adolescente que entra em contato e faz os primeiro usos ou experiências com uma droga acha que não irá se tornar dependente, mas sim deixá-la quando quiser (como geralmente faz com outros projetos que inicia). Entretanto, não é isso que ocorre.

Ao experimentar uma droga de abuso (alguns adolescentes não se sentem bem nas primeiras experiências com certas substâncias, por exemplo, maconha, mas insistem porque querem sentir os efeitos prazerosos referidos pelos colegas) é experimentado pelo cérebro um prazer nunca sentido antes. O efeito reforçador da droga faz com que o comportamento de uso torne-se a repetir, aumentando gradativamente a freqüência. Concomitante, outros reforçadores sociais vão se estabelecendo. Quando reforçado, o comportamento tende a se manter.

Isso ocorre porque há evidências que a maioria das drogas de abuso altera os níveis de neurotransmissores como a noropinefrina, serotonina e principalmente a dopamina no sistema de recompensa cerebral, o qual envolve centros de prazer do cérebro primitivo, especialmente o sistema límbico que tem importância para as espécies porque coordena comportamentos fundamentais para a sobrevivência, como fome, sede, reprodução. O sistema de recompensa cerebral está concentrado na região mesolímbica, a partir da área tegumentar ventral no tronco cerebral, passa pelo núcleo acumbente e chega ao córtex pré-frontal. Estímulos ou sensações de prazer e motivação afetam o sistema de recompensa cerebral que está associado ao reforço72.

À medida que o indivíduo usa uma determinada droga, a região mais primitiva do cérebro passa a dominar as áreas corticais, pois o sistema de recompensa cerebral projeta e inunda de dopamina o córtex pré-frontal, área da reflexão e da decisão. Por isso, o uso de drogas inibe o pensamento e induz o comportamento mais impulsivo do que resultante da reflexão, agravado ainda pelo fenômeno da tolerância. Isto é, o cérebro quer sentir o mesmo prazer das primeiras tomadas de droga, porém essa capacidade vai se desgastando formando o hábito e o individuo sente necessidade de aumentar a dosagem e a freqüência do uso da substância.

Nesse estágio, com o sistema de recompensa cerebral exercendo domínio sobre o córtex, o comportamento do usuário torna-se semelhante a um estado de paixão pela droga. O indivíduo vive uma paixão pela droga, para sentir prazer. Diferente de um estágio mais avançado quando o cérebro e conseqüentemente todo o organismo sofrem pela falta da droga no organismo, quando, então, o consumo de droga é para aliviar esse estado de sofrimento.

A paixão ou o amor romântico afeta também o sistema de recompensa cerebral, implicando níveis altos de dopamina ou noropinefrina, ou ambos, e decréscimo dos níveis de serotonina, de tal modo que na paixão estão presentes os três sintomas clássicos da dependência: tolerância, abstinência e recaída73.

A droga, transformada pelo sujeito como objeto de extremo apego, como afirmamos, é semelhante a um estado de paixão, dirigido mais pela emoção do que por comportamentos racionais, já que o sistema de recompensa cerebral embota o córtex.

Tanto para o adolescente apaixonado quanto para o adolescente que está iniciando o uso de droga, discursos contrários no sentido de que o adolescente deve abandonar o objeto da paixão, seja a namorada ou o namorado não aprovado pelos pais, ou, seja o uso de droga, é visto como ameaça de perder o objeto de paixão. A resposta é de mais e mais apego, exatamente porque se sente ameaçado, tal como num estado semelhante ao psicótico, já que esse comportamento é determinado por regiões antigas do cérebro, ligadas ao comportamento emocional.

É um fenômeno que denominamos de síndrome de encantamento. Tanto o adolescente apaixonado quanto aquele que está usando droga vive um período de encantamento pelo objeto. Semelhante ao que ocorre nos contos de fada, quer dizer, o adolescente está com a consciência adormecida ou encantada para o mundo. E durante a síndrome de encantamento, o posicionamento do indivíduo é de não ouvir e não aceitar ajuda. É praticamente uma forma escrava de viver ou igual à época da abolição dos negros, quando muitos deles, adoecidos pela escravidão, após o decreto da Lei Áurea, foram pedir aos senhores para continuar nas senzalas, continuar escravos74.

Isso explica porque um adolescente na tentativa de parar com as drogas ou na tentativa de usar drogas de forma controlada não consegue, e, então, percebe que está dependente, que não consegue mais ficar sem droga. Além de todos os condicionamentos sociais que foram sendo estabelecidos com o uso de droga, é preciso compreender que o cérebro está dependente, isto é, há uma dependência principalmente devida uma alteração do sistema de recompensa cerebral.

Entre o desejo e o esforço de parar com o uso de droga e a percepção da impotência que ele se encontra para essa decisão, e dentro do posicionamento onipotente, o adolescente se vê em conflitos. Como é dissonante aceitar que está dependente, pois isso pode estar violando valores pessoais e sociais, particularmente quando se trata de drogas ilícitas, o que é um fracasso para quem se julga auto-suficiente; essa dissonância cognitiva é reduzida pelo adolescente com o discurso de que o uso de droga é uma opção de vida. O adolescente, a partir daí, para manter-se cognitivamente ajustado com suas crenças, busca respaldo em idéias, opiniões, exemplos, etc. que valorizam o uso da droga. A existência de uma dissonância é psicologicamente incômoda, o que motiva o indivíduo tentar reduzi-la para restabelecer a consonância. Assim, o indivíduo evitará informações ou situações contrárias às drogas, pois podem aumentar a dissonância75.

Mas, mesmo o adolescente reduzindo a dissonância entre o uso de uma droga ilícita e a não aprovação social do uso dessa droga, ele se obriga a criar outras dissonâncias cognitivas. É fato que o jovem pode falar sobre o uso de droga para colegas usuários. Entretanto, para familiares, certos colegas, às vezes a namorada, ele precisa mentir, negar ou dissimular o uso de droga. A consonância é, a cada dissonância, restabelecida de forma utópica. Metaforicamente é como se tivesse que cavar um buraco para obter terra para tapar um buraco anterior. Ao ter a terra para tapar o buraco, concomitantemente, abre outro e assim sucessivamente. Com isso, estabelece uma forma de viver que se divide em duas faces ou mesmo em "duas vidas paralelas". Estudo sobre autoconceito mostra que dependentes de drogas ilícitas apresentam respostas em que o aspecto moral está desvalorizado em comparação com dependentes de álcool. O usuário de alcoólicos pode minimizar o uso, mas não necessita negar ou mentir, pois o álcool é uma droga socialmente aceita76.

6. Causa, Razão e Correlação

Do ponto de vista biológico somos produtos de um longo processo evolutivo. Entretanto, desenvolvemos e somos possuidores de uma cultura e uma tecnologia sofisticada em relação às outras espécies.

Mas, consideremos por ora apenas o ponto de vista biológico.

Cronin (1995) debateu sobre uma das grandes questões da biologia, que tem sido buscar respostas satisfatórias para o altruísmo ou a cooperação na natureza, como ocorre com as abelhas, formigas e outras espécies aparentadas; bem como sobre os ornamentos de certas aves como a calda do pavão, aparentemente mal-adaptada para sobrevivência, e também do faisão Argus macho, cuja plumagem parece ser mais uma obra de arte do que uma obra da natureza. Oskar Heinroth referiu que as asas do Argus macho é o produto mais estúpido da seleção intra-específica77.

De acordo com Cronin78:

"O problema originou-se com a doutrina central do darwinismo clássico: ‘cada instinto e estrutura complexa... [deveria ser] ...útil ao possuidor’; e a seleção natural ‘nunca produzirá nada em que um ser que lhe seja prejudicial, pois a seleção natural age apenas conforme e para o bem de cada um.’"

Para Dawkins79 o que importa para evolução é a função de utilidade, ou seja, o que está sendo maximizado. E, na evolução, o que é maximizado é a sobrevivência do DNA. Não importa quem sofre prejuízo no processo, pois os genes não se importam com nada, não se importam com o sofrimento. A natureza não é cruel, não é caridosa, não é favorável nem contrária ao sofrimento. Assim, o que importa para a natureza é a sobrevivência do DNA. Por exemplo, se a natureza fosse caridosa ela equiparia a gazela de um gene que a tranqüilizasse no momento em que fosse levar uma mordida do predador. E a seleção natural favoreceria um gene desse tipo? "Não, - responde Dawkins – a menos que o ato de tranqüilizar a gazela aumentasse as chances de propagação do gene para as gerações futuras."

O que queremos é levantar algumas questões pertinentes ao homem enquanto ser biológico, embora saibamos que tal análise prescinde outros importantes componentes intrínsecos e extrínsecos. É evidente que fazemos isso por necessidade didática.

Mas sentimos a necessidade de perguntar, por exemplo, qual a vantagem biológica de um indivíduo se drogar, às vezes até a morte quando de uma overdose? Ou, no que biologicamente um indivíduo dependente de alguma droga é favorecido, em termos de maximizar genes?

É claro que são questões difíceis de responder e delicadas de serem mesmo expostas. A biologia, em particular a neurociência, tem acumulado dados que fornecem uma explicação dos mecanismos envolvidos no processo de dependência, por exemplo, as alterações do sistema de recompensa cerebral. Mas qual a vantagem biológica da dependência de droga tornar o mecanismo de recompensa cerebral hipersensível ao prazer e hiposensível ao desprazer? Qual a vantagem para o indivíduo alterar esse sistema, presente praticamente em toda a evolução, portanto um mecanismo que é importante para a sobrevivência? E qual a vantagem para a espécie humana? A dependência de droga seria algo semelhante à calda do pavão e a plumagem do faisão?

Gerald Edelman (1987) denominou de darwinismo neural a conjunção da seleção natural com a neurociência. Basicamente, o genoma não pode especificar totalmente o cérebro e durante o aprendizado são selecionados conjuntos neurais para mapear a experiência. Assim, o sistema neuronal funciona mais de acordo com os princípios ontogenéticos que filogenéticos80. O modelo de Edelman propõe que

"(...) há uma seleção natural ente populações de neurônios que competem entre si para resolver os problemas que se impõem pela circunstância. O cérebro, mais que aprender, selecionaria rapidamente grupamentos de neurônios mais aptos a enfrentar determinados problemas."81

Nesse modelo, a competição entre grupos de neurônios possibilita que grupos mais bem sucedidos criem mapas ou representações eficazes, enquanto que outros grupos definham. Dessa maneira, não há um cérebro padrão, mas cérebros. A diversidade polimorfa do cérebro deve responder à diversidade polimorfa da natureza82.

Na dependência de drogas o sistema de recompensa cerebral alterado e embotando o córtex constituiria uma representação ou mapa eficaz que dominaria outros grupos neuronais?

Embora o modelo de Edelman tenha recebido várias críticas83, é fato observável que o indivíduo dependente de droga vive basicamente na busca e no consumo da substância, "orbitando" a droga à semelhança de um satélite e com prejuízos a outros setores da vida. A droga é transformada pelo indivíduo dependente em centro de sua vida, isto é, um estreitamento de seu repertório comportamental. Lewontin84 expressa que

"Na verdade, adoecer é, precisamente, ficar dominado por uma única cadeia causal. (...) Com efeito, podemos definir ‘normalidade’ como a condição em que nenhum causal único controla o organismo."

Porém, a biologia e a neurociência podem explicar parte do problema. Por isso, é mister considerar a questão por outros ângulos.

Para Casirer85 o homem sofreu uma mudança qualitativa, descobrindo um novo método de adaptar-se ao meio. Além do sistema receptor e do sistema de reação, comum a todas as espécies animais, o homem possui um terceiro: o sistema simbólico. Essa nova aquisição transformou a vida do homem, que passou a não viver numa realidade mais vasta, porém uma nova dimensão de realidade. Não pode ver a realidade face a face à medida que avança com a atividade simbólica. Isso possibilitou se envolver em formas lingüísticas, símbolos míticos, ritos religiosos, imagens, arte, história e ciência. Passou a viver emoções imaginárias, acalentar esperança, ter temores, ilusões e desilusões. No dizer de Epicteto, "O que perturba e alarma o homem não são as coisas, são suas opiniões e fantasias a respeito das coisas." Portanto, o homem deve ser definido como animal symbolicum ao invés de animal rationale. Isso o diferencia de todas as outras espécies animais porque abre um novo caminho, o da civilização.

Freud86 indagou sobre o que os homens expressam em seu comportamento, o que esperam da vida ou o que pretendem alcançar com ela? Ele próprio mostrou que a resposta é inequívoca: os homens aspiram a felicidade, querem ser felizes. Essa aspiração tem dois aspectos: um negativo, evitar o desprazer e a dor; outro positivo, experimentar intensas sensações de prazer. A felicidade se aplica ao segundo aspecto. Contudo, por influência do mundo exterior, o princípio do prazer se transforma num modesto princípio de realidade. Com isso, o homem renuncia à felicidade, para a qual não foi equipado, e procura métodos para atenuar ou evitar o sofrimento. Os três métodos para aliviar o sofrimento são: a neurose, a intoxicação e a psicose. Freud referiu que o mais cruel, porém o mais eficiente meio, é a modificação química ou a intoxicação com entorpecentes.

No contexto freudiano a saúde mental depende de uma relação harmoniosa do indivíduo com o mundo exterior, com um ego capaz de conciliar as demandas do id, do superego e as pressões do mundo externo. O sofrimento resulta se o mundo exterior não oferecer as oportunidades necessárias de realização; ou mesmo que o mundo exterior ofereça essas oportunidades, também haverá sofrimento se houver intenso conflito interior entre as instâncias psíquicas. As neuroses são conseqüências da frustração do instinto sexual pelos obstáculos externos ou conflito interno. A repressão é um dos mecanismos de defesa por meio do qual o indivíduo evita conflitos psicológicos. É uma maneira de evitar, fugir ou fingir em relação à realidade ao afastar da consciência uma demanda que é dolorosa ou difícil de ser satisfeita. Entretanto, a repressão mantém sua energia instintiva e influencia a consciência de forma disfarçada ou substituta: os sintomas. Estes parecem irracionais ao próprio indivíduo que, apesar disso, sente compelido a mostrá-los. E Freud focalizou as repressões decisivas nos primeiros anos de vida, geralmente relacionadas à sexualidade, que podem ser cruciais para o desenvolvimento de um problema psicológico na vida adulta, na qual pode emergir um tipo de caráter, como oral ou anal; uma regressão ou retorno ao estágio ou etapa do desenvolvimento em que ocorreu a gratificação infantil87.

Para Freud a masturbação é o hábito primário, do qual as toxicomanias e o alcoolismo são sucedâneos, ou seja, uma fixação oral.

Nessa perspectiva, Aricó e Bettarello88 afirmam que

"As pessoas com fixação na fase oral apresentam intolerância a frustrações de qualquer espécie, incapacidade para controlar a angústia em nível mais maduro, bem como sintomas e comportamentos que revelam a acentuada dependência. O tóxico possibilita um retorno ao narcisismo primário, quando para a criança só existe ela no mundo e todo o interesse é voltado para si mesma. As drogas, ao criarem estados de exaltação de ego e euforia intensa, criam assim uma espécie de orgasmo ‘farmacotóxico’ que substitui o orgasmo sexual geralmente imerso em algum conflito."

Freud não esgotou o tema, descreveu-o ocasionalmente. Seus seguidores procuraram conceituar o problema de forma mais vertical. Por exemplo, o consumo de álcool foi associado com depressão, pois seria uma forma de fabricar quimicamente a mania, neutralizando esse estado de angústia e sofrimento (Rado). Simbolicamente o álcool representa o leite materno, portanto o álcool seria sucedâneo da mãe (Weijl). Rosenfeld referiu que o dependente de droga está fixado na posição esquizo-paranóide, fase primitiva do psiquismo infantil, conforme estudos de Melanie Klein. A fixação nessa posição é conseqüente da separação hostil da criança do seio materno. Nesse caso, a posição depressiva é atingida parcialmente, resultando numa dissociação entre um objeto persecutório e outro muito idealizado, prejudicando a capacidade do ego aceitar frustrações e a perda do objeto bom. Assim, a droga torna-se um objeto idealizado para eliminar a ansiedade paranóide subjacente a um núcleo psicótico constantemente ameaçador89.

Em suma, Kalina e Kovadloff90 concluem que

"Para o adicto, a droga tem o caráter de uma equação simbólica: não é o que é, mas sim o que ela representa. O toxicômano faz, em conseqüência, uma racionalização (delírio) que o permite conferir à droga um valor mágico, irreversível perante as explicações lógicas, insensível à corroboração externa, imodificável pela experiência, sem consciência de doença e com a qual, em conseqüência, vive em completo acordo. Por isso é que consideramos psicótico o comportamento toxicomaníaco ou drogadictivo."

Na ótica freudiana, portanto, os conteúdos da consciência são determinados por causas individuais e psicológicas inconscientes, o que fica claro na analogia da mente com um iceberg. O que um individuo pensa, sente ou age nada é ao acaso ou acidental porque tudo é explicável por conteúdos mentais reprimidos que determinam nossas escolhas, o que parece implicar na negação do livre-arbítrio. Mas, se na concepção freudiana cada um é produto de sua mente inconsciente, postulado do determinismo psíquico, para Marx também somos produtos cujas causas não são individuais, mas econômicas e sociais. A visão marxista é de que a consciência é determinada pelas condições materiais de vida, além da base econômica determinar a superestrutura ideológica. Em outras palavras, a forma pela qual uma sociedade produz os bens necessários à vida determina sobre a maneira como os indivíduos pensam91.

Na parte sobre consumismo adotamos o conceito de ideologia com base em Marx. É importante considerar que os fatores econômicos são importantes condicionadores de idéias e, conseqüentemente, de comportamentos. A determinação econômica exclusiva é um fato no consumismo patológico. No consumismo patológico está o uso de drogas, onde muitos casos podem ser de origem econômica e social, uma antítese contra o próprio império do consumo. Entretanto, é necessário considerar principalmente que as bases de uma economia são organizadas pelo homem. Elas não surgem do vazio. Sartre92 expressou que

"Se se quiser dar toda a sua complexidade ao pensamento marxista seria preciso dizer que o homem, em período de exploração, é ao mesmo tempo o produto de seu próprio produto e um agente histórico que não pode, em caso algum, passar por um produto. Tal contradição não é cristalizada, é preciso apreendê-la no movimento mesmo da práxis; então, ela esclarecerá a frase de Engels: os homens fazem a sua história sobre a base de condições reais anteriores (entre as quais devem-se contar os caracteres adquiridos, as deformações impostas pelo modo de trabalho e de vida, a alienação, etc.), mas são eles que a fazem e não as condições anteriores: caso contrário, eles seriam os simples veículos de forças inumanas que regeriam, através deles, o mundo social. Certamente, estas condições existem e são elas, apenas elas, que podem fornecer uma direção e uma realidade material às mudanças que se preparam: mas o movimento da práxis humana supera-as conservando-as."

Sartre também discordou quanto ao postulado freudiano do determinismo psíquico inconsciente: o homem é um ser consciente, portanto, livre e sempre diante de escolhas, onde todos os aspectos da vida de um indivíduo são resultantes dessas escolhas, as quais são de responsabilidade exclusiva desse indivíduo93.

O homem é, nada mais, nada menos, aquilo que ele faz de si mesmo, isto é, sua subjetividade, e ao mesmo tempo impossibilitado de transpor os limites de sua subjetividade. O homem tem consciência de que se projeta para o futuro; nada é antes desse projeto, e será apenas o que projetou ser. Assim, o homem escolhe a si mesmo e, ao escolher-se, escolhe todos os homens, dando uma dimensão maior à responsabilidade da escolha, pois ela engaja toda a humanidade. E toda escolha é intencional, ou seja, consciente. E essa profunda responsabilidade é fonte de angústia94.

Sartre denominou de "má-fé" ou "autoengano" toda e qualquer justificativa para nossos atos, uma forma de não assumirmos a responsabilidade por eles:

"A má-fé é a tentativa de escapar à angústia pensando que nossas atitudes e ações são determinadas por nossa situação, nosso caráter, nosso relacionamento com os outros ou nosso papel social – por qualquer coisa que não sejam nossas próprias ações."95

Dessa maneira, se a psicanálise freudiana tenta desvelar as causas ou razões que levam um indivíduo estar dependente de drogas, já a abordagem da psicologia existencial busca a compreensão ou o significado dessa escolha de usar droga:

"Sartre sustenta que, sendo a pessoa uma unidade, em vez de um mero amontoado de desejos ou hábitos sem relação entre si, tem de haver para cada pessoa uma escolha fundamental (o "projeto original"), que confere um significado ou propósito último a cada aspecto particular da sua vida."96

A droga é apenas um objeto. É o sujeito, portador de intenções e desejos, quem dá significado a ela. Assim, o sujeito não é como alguém passivo à mercê da droga, como se ela fosse semelhante a um vírus. A droga não possui poder de atacar ou invadir o sujeito, mas é este quem dá sentido ao objeto droga.

Ainda, é preciso considerar também que o uso de droga é um comportamento aprendido, segundo os princípios do comportamento respondente e do comportamento operante e, evidentemente, dos esquemas de reforçamento. Mas, não na concepção radical de organismo vazio, pois conforme Jean Piaget "Quando um coelho come um repolho não se transforma em repolho: transforma o repolho em coelho."97

De acordo com Hume observamos regularidade na natureza, mas não observamos as leis da natureza. O que observamos é um evento seguir o outro ou eventos diferentes ocorrem ao mesmo tempo em uma certa ordem. Nós adquirimos pela experiência o hábito por observar freqüentemente um evento seguir outro, porém, não observamos um evento causar outro. Desse modo, o fundamento está no hábito e não na razão98. Entretanto, Skinner99 transformou a relação de causa-efeito em uma "relação funcional", onde "causa" vem a ser uma "mudança em uma variável independente" e um "efeito" vem a ser uma "mudança em uma variável independente".

Há uma relação funcional entre o uso de droga e determinados comportamentos conseqüentes.

Isso significa que todos os ingredientes apontados no texto são condições importantes na vida de um indivíduo, mas não podem ser vistos como prescrições imprescindíveis ao uso de droga. Em outras palavras, esses ingredientes não condenam o indivíduo a ser um usuário ou um dependente de droga. Como expomos, são importantes, mas não suficientes. A condição suficiente é o indivíduo usar a droga. Isso é o óbvio. Por mais ingredientes que um indivíduo possua, se ele não tiver contato e não usar a droga, não será um usuário, e, é claro, não será um dependente.

Desse modo, os ingredientes apontados não são causas suficientes do uso de droga, mas sim correlações. Numa ótica freudiana, já que na visão sartreana a utilização de explicações para uma escolha é "má-fé", esses ingredientes podem ser apontados como razões para o uso da droga, pois "a explicação das ações humanas em termos de razões – segundo Stevenson e Haberman100 são – as crenças e os desejos que tornaram racional que o agente fizesse o que fez." Na prática, depois que é constatado o uso de droga, toda correlação ou toda razão, possível e imaginável, transforma-se em justificativa para o problema, quer pelo usuário, quer pelos familiares e até por pesquisadores do problema.

É comum na prática clínica, familiares e usuários sentirem-se aliviados quando se constata, por exemplo, uma comorbidade como depressão ou transtorno bipolar. Isso parece amenizar aparentemente o clima disfuncional criado, embora o paciente esteja recebendo mais um diagnóstico. Entretanto, é um pesadelo, principalmente para os familiares, se essa comorbidade, por exemplo, for esquizofrenia ou um transtorno de conduta. De certa maneira, tanto o dependente quanto os familiares querem saber a causa, ou nas entrelinhas "de quem é a culpa?".

Por isso este artigo referiu sobre os cinco casos que iniciaram o uso de drogas a partir da quarta década de vida. É a partir do uso da droga que pode evoluir um quadro de dependência e apresentar os problemas decorrentes. Nesse mesmo sentido, por exemplo, a observação clínica mostra que naqueles casos onde há uma série de dificuldades de relacionamento na família, antecedentes ao uso da droga, após a superaração dos problemas da dependência, persistem aquelas dificuldades de relacionamento. A causa suficiente para a dependência de droga é usar a droga. Se eliminada essa causa, eliminam-se todos os comportamentos decorrentes, ou seja, elimina-se o efeito. Inclusive, melhora o prognóstico se houver uma comorbidade ou, em algumas situações, ela também é eliminada. Mas, se eliminarmos uma correlação, o efeito (dependência de droga) não é evitado. Este, enfatizamos, só pode ser eliminado se abolida a causa suficiente.

7. Considerações Finais

A sociedade consumista, que estimula o consumo em todos os níveis, onde o acesso às drogas é facilitado cada vez mais em idade precoce, é inevitável, principalmente na idade jovem, e em algumas partes da sociedade ainda na infância, o contato com drogas lícitas e ilícitas.

A grande questão é o indivíduo, criança, jovem ou adulto, estar preparado para esse encontro, para se posicionar de forma construtiva a si e à sociedade. Não se tece um tecido social saudável se as fibras que o compõem não forem fortes. Mas esse posicionamento, essa escolha, necessita de um referencial tanto interno quanto externo, um respaldo onde o indivíduo possa acreditar nas suas possibilidades de sujeito que faz a sua história e, que ao escolher, dá um passo a mais, positivo, na história comum já construída e dada. É aqui que entra o principal antídoto: a informação. A informação no seu sentido pedagógico mais pleno.

Notas

Matt Ridley 2004, cap. 4.

Citado por Luiz Henrique de Araújo Dutra 1998, 37.

Karl Popper 1975, cap. 1.

Citado por Nicholas Fearn 2004, 146.

José Antônio Zago 2002, 196-217.

R. Andrew Chambers et al. 2003, 1041-1052.

René Descartes 1987, especialmente Terceira e Quinta Partes.

Rubem Alves 2002, 107-108.

Richard Lewontin 2002, 77.

Newton C. A. Da Costa 1997, 32 e 61.

Citado por Selma Bordin et al. 2004, 3-5.

Jerome H. Jaffe 1999, 834.

Matt Ridley 2004, 315-317.

Citado por Matt Ridley 2004, 315-317.

Matt Ridley 2004, 317.

Citado por Matt Ridley 2004, 334-337.

Matt Ridley 2004, 336 e 337.

Ibid. 101.

Jerome H. Jaffe 1999, 831-832.

Mario F. Fraga et al. 2005, 10604-10609.

Richard Lewontin 2000, 37 e 71

Id. 2002, 100.

Ibid. 101.

Id. 2000, 37.

Matt Ridley 2004, 307-310.

Ibid. 311.

Ibid. 111.

Pawlak et al 2005, 443-448.

Kelz et al 1999, 272-276.

Jerome H. Jaffe 1999, 832.

Marc A. Schuckit 1999, 840-841.

Matt Ridley 2004, 10-11.

Richard Lewontin 2002, 24.

Essa parte é com base num texto anteriormente publicado: José Antônio Zago. Sociedade de consumo e droga 1999, 93-102.

Konrad Lorenz 1974, 62.

Ideologia é um conjunto lógico e sistemático de idéias, valores e normas de conduta que indicam aos indivíduos o que e como pensar, agir, sentir e valorizar. Sua função é fornecer aos membros da sociedade uma justificativa para as diferenças ali existentes, sem nunca referir que essas diferenças são resultantes da divisão da sociedade em classes. A ideologia é, enfim, a forma através da qual as idéias da classe que domina se tornam ou se pareçam universais, verdadeiras e naturais para todas as classes. A origem da ideologia está na própria divisão da sociedade em classes contraditórias, a partir das divisões na esfera da produção. Cf. Marilena de Souza Chauí 1982, 82-83 e 113.

Citado por Konrad Lorenz 1986, 141.

Erving Goffman 1974, 16 e ss.

Richard Smith, ex-editor de revista médica em entrevista a Reinaldo José Lopes da Folha de S. Paulo em 12 de julho de 2005, sobre a proposta de cancelar toda e qualquer publicação de testes clínicos de medicamentos nos periódicos científicos, devido constatar a influência negativa da indústria farmacêutica sobre as publicações médicas.

Giovanni Berlinguer 1976, 19.

José Antônio Zago 1986, 99.

Id. 1994, 155-158.
       Citado por Edilaine Moraes, Neliana B. Figlie 2004, 326.

Basicamente a síndrome da adolescência normal implica na elaboração saudável de três lutos fundamentais: a) luto pela perda do corpo infantil (base biológica da adolescência que se impõe ao indivíduo); b) luto pelo papel e a identidade infantil (renúncia da dependência e aceitação da responsabilidade); c) luto pelos pais da infância. Arminda Aberastury, Maurício Knobel 1981.

Alfredo Toscano Jr. 2001, 284.

Edilaine Moraes, Neliana B. Figlie 2004, 325-326.

Ibid. 328-329.

Citado por Alfredo Toscano Jr. 2001, 286-287.

Matt Ridley 2004, 194.

Konrad Lorenz 1977, 160-163.

Id. 1965, 34-35.

Matt Ridley 2004, 213.

Citado por Matt Ridley 2004, 196-197.

Matt Ridley 2004, 208-212.

Charles A. Nelson 1999, 42-45.

Sara J. Webb et al. 2001, 147-171.

Citado por Cláudio J. Da Silva, Ronaldo Laranjeira 2004, 23-25.

Konrad Lorenz 1986, 59 e 147.

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Stanley Milgram em entrevista a Richard I. Evans, 1979, 398-409.

Ibid., 400.

Elliot Aronson 1979, 43-49.

Ibid. 37-38

Citado por Solomon Asch 1973, 438.

Citado por Matt Ridley 2004, 321.

Matt Ridley 2004, 322.

Citado por Sérgio D. Seibel, Alfredo Toscano Jr. 2001, 303.

Lillian Ratto, Daniel C. Cordeiro 2004, 170-171.

Ibid., 171-183.

Florence Kerr-Corrêa et al. 1999, 43.

Citado por Stephen Hawking 2001, 83.

Citado por Cláudio J. Da Silva, Ronaldo Laranjeira 2004, 12-29.

Helen Fisher 2004, 56, 182-183.

José Antônio Zago 2001, 61-68.

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José Antônio Zago 2002, 35-48.

Citado por Konrad Lorenz 1974, 43-44.

Citado por Helena Cronin 1995, 360.

Rihard Dawkins 1996, 116.

Citado por Adalberto Tripicchio, Ana Cacília Tripicchio 2003, 187.

Citado por Henrique S. Del Nero 2002, 195.

Entrevista de Edelman a John Horgan 1995, 210.

Por exemplo, as críticas de Francis Crick e Daniel Dennet. Cf. John Horgan 1995, 214-216.

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Citado por Eduardo Kalina, Santiago Kovadloff 1976, 28-33.

Eduardo Kalina, Santiago Kovadloff 1976, 36.

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Leslie Stevenson, David L. Haberman 2005, 253.

Jean-Paul Sartre 1987b, 5 e ss.

Leslie Stevenson, David L. Haberman 2005, 255-256.

Ibid., 263-264.

Citado por Lauro de Oliveira Lima 1973, 88.

Citado por Nicholas Fearn 2004, 87-88.

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José Antônio Zago

Psicólogo do Instituto Bairral de Psiquiatria – Itapira – SP

Mestre em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba