O  QUE  É  O BEBER  MODERADO?

Definindo dose e níveis de consumo

O homem produz bebidas alcoólicas em grande escala há pelo menos seis mil anos. Acredita-se, porém, que o consumo de frutas fermentadas ocorra desde o período ancestral da humanidade. É igualmente antiga, a noção dos danos potenciais que o consumo inadequado de álcool possa causar ao organismo. Por outro lado, evidências científicas sugerem que o consumo moderado de álcool é benéfico à circulação. Alheios às pesquisas acadêmicas, milhões de indivíduos consomem bebidas alcoólicas durante toda a vida. Muitos afirmam consumi-las 'socialmente' e não sofrerem prejuízos decorrentes desse consumo.

O presente artigo, escrito por Mary Dufour, tenta equacionar, definir de maneira mais clara o que são esses conceitos. Se há um limite benéfico (ou pelo menos não-maléfico), como determiná-lo? Há mais dificuldade nessa proposição do que se imagina: metodologias diversificadas, conceitos sem nitidez e diferenças internacionais de mensuração tornam a empreitada mais complexa do se gostaria.

Dose

Em busca de um norte, a autora começa pela investigação do conceito de dose (drink). É possível utilizar esse termo tanto nos bares, lojas e restaurantes quanto na academia científica. Em ambos, nota-se alguma padronização, mas nunca isenta de particularidades. Se no comércio há doses-padrão, ora reguladas pelos governos, ora com mero intuito referencial ao valor da venda, nos Estados Unidos (e no Brasil), tal referencial pode variar (legalmente) entre os estabelecimentos. É o habitual "chorinho" do uísque, a 'dose caprichada' de pinga ou o 'extra pro santo'. Apenas os fermentados, como a cerveja e o vinho, são vendidos em conteúdos-padrão. Ainda assim, há diferentes tamanhos de latas e garrafas, que variam de região para região. Além disso, as concentrações de cada marca são diferentes. Há cervejas light, convencionais e fortes, o mesmo acontecendo com os vinhos. Desse modo é impossível determinar uma dose de cerveja ou vinho simplesmente a partir de seu invólucro. A vaguidade do termo se potencializa ao adentrar residências. Ali, a dose de vodca, uísque e aguardente são determinadas por cada indivíduo. Impossível qualquer iniciativa padronizadora dentro destes ambientes.

Os pesquisadores também não trabalham consensualmente. Em primeiro lugar, porque as pesquisas com metodologia científica acerca do consumo de álcool pela população são recentes. Em segundo, porque boa parte dos pesquisadores está interessada nos efeitos da substância álcool no organismo e não propriamente dos diversos tipos de bebida. Os esforços padronizadores esbarram em dificuldades aparentemente intransponíveis: diferentes bebidas, com diferentes concentrações, dentro de diferentes invólucros, servidas a partir de diferentes referenciais sócio-culturais.

Uma das soluções encontradas foi a padronização a partir da concentração média para cada bebida quadro 1. Apesar de auxiliar os pesquisadores, determinar uma concentração comum não soluciona a questão totalmente. Os estudos utilizam sistemas métricos diferentes para mensurar a quantidade pura de álcool (mililitros, gramas, onças,...) e as unidades nacionais de álcool são diferentes entre os diversos países. Assim, uma unidade de álcool no Reino Unido é equivalente a oito gramas de álcool, enquanto no Japão, está próxima de vinte gramas.

Quadro 1 Concentrações médias de álcool

Tipo de bebida

Concentração (%)

Cerveja

4,5

Vinho

12,9

Destilados

41,1

Fontes:

Doernberg D, Stinson FS. U.S. Alcohol Epidemiologic Data Reference

 

Manual, Volume 1: U.S. Apparent Consumption of Alcoholic  Beverages Based on

 

State Sales, Taxation, or Receipt Data. Washington, DC: U.S. Government Printing

 

Office, September 1985.

Metodologia

Não bastassem as dificuldades acerca da determinação exata de um conceito de dose, não se possui, tampouco, uma metodologia padronizada para investigá-la junto ao usuário. Isso é válido tanto para o método, quanto para o instrumento (escala) utilizado. Assim, o enfoque metodológico pode estar mais preocupado em utilizar a dose com vistas para a determinação diagnóstica; outras vezes está voltado apenas para a determinação isolada da quantidade; ou ainda apenas para a relação entre dose e complicações psicossociais. Já os instrumentos, podem quantificar a dose a partir da freqüência do consumo, medidas de concentração-freqüência, freqüências graduadas, memória recente do consumo e mensuração diária. Tudo isso produz dados de natureza absolutamente específica, que, se ampliam as abordagens acerca do tema, também impedem comparações estritas.

 Beber  moderado

A autora chama também a atenção para a palavra "moderado". Utilizada principalmente para caracterizar o consumo qualitativamente, define esta condição imprecisamente. No Brasil, o termo "beber socialmente", ou seja, dentro dos padrões aceitáveis, alude ao beber moderado, mas denota tal comportamento de maneira ainda mais imprecisa. O moderado também sofre variações: beber moderadamente numa rave pode ser diferente do moderado em uma reunião extremamente formal. Talvez nesse sentido, o "beber social" seja mais abrangente, pois considera as situações em que o beber mais desregrado é 'socialmente permitido'. De qualquer maneira, a busca por uma clarificação conceitual persiste.

 Uma  definição possível

Frente a impossibilidade de uma uniformização quantitativa que facilitasse o referencial clínico e leigo acerca do consumo moderado de álcool, a autora propõe uma definição baseada na evidência fenomenológica: "o beber moderado é o nível seguro de consumo de álcool, abaixo do qual o ato de beber não está fortemente associado aos seus efeitos negativos". A autora, então, propõe que os critérios da Organização Mundial da Saúde sejam adotados como referências de beber seguro: sete unidades semanais para as mulheres e quatorze unidades semanais para os homens quadro 2. Propõe, ainda a criação de diretrizes do beber seguro (expondo os riscos e benefícios), voltadas para o público leigo e particularizada para a cultura de cada país ou região.

Quadro 2 Unidades de álcool em cada dose de bebida

BEBIDA

VOLUME

CONCENTRAÇÃO

VOLUME

DE ÁLCOOL

(volume x concentração)

GRAMAS

DE ÁLCOOL
(volume de
álcool x 0,8*)

UNIDADES DE

ÁLCOOL

1 U = 10g

VINHO

90ml

12%

11ml

8,8g

0,88

CERVEJA

350ml

5%

17ml

13,6g

1,36

DESTILADOS

50ml

40%

20ml

16g

1,6

(*) A quantidade de álcool em gramas é obtida a partir da multiplicação do volume de álcool contido na bebida pela densidade do álcool (d=0,8).

Mary C. Dufour - National Institute of Alcohol Abuse and Alcoholism (NIAAA) Alcohol Research & Health 1999; 23(1): 5-14.