AD GENTES
DECRETO “AD GENTES” SOBRE A ATIVIDADE MISSIONÁRIA DA IGREJA

Introdução

Paulo bispo, servo dos servos de Deus, juntamente com os Padres Conciliares, para perpétua memória do acontecimento: decreto sobre a atividade missionária da Igreja

Proêmio

1. Enviada por Deus as nações para ser “o sacramento universal da salvação”¹, esforça-se a Igreja por anunciar o Evangelho a todos os homens. Fá-lo a partir das exigências íntimas da própria catolicidade e em obediência a ordem de seu Fundador. ² Os próprios Apóstolos, nos quais esta fundada a Igreja, seguindo os vestígios de Cristo, “pregaram o verbo da verdade e geraram Igrejas”. ³ É dever de seus sucessores perenizar esta obra, para que a “palavra de Deus corra e seja glorificada” (2 Tess 3,1) e seja por toda a terra anunciado e instaurado o Reino de Deus.

¹ Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja Lumen Gentium, 48: AAS 57 (1965), p. 53.

² Cf. Mc 16,15

³ S. Agostinho, Enarr, in Ps. 44,23 (PL 36,508; CChr 38,510).

Na presente situação que condiciona de maneira nova a humanidade, a Igreja, sal da terra e luz do mundo4, é chamada com mais instância a salvar e renovar toda criatura, para que tudo seja restaurado em Cristo, e n’Ele os homens constituam uma só família e um só povo de Deus.

4 Cf. Mt 5,13-14.

Eis por que este Santo Sínodo, enquanto agradece a Deus pelos preclaros feitos realizados graças a generosa aplicação de toda a Igreja, deseja delinear os princípios da atividade missionária e reunir as forças de todos os fiéis, para que o povo de Deus, avançando pela estreita via da cruz, por toda parte difunda o Reino de Cristo que domina e contempla os séculos5, e prepare os caminhos para a Sua chegada.

5 Cf. Ecli 36,19.

CAPÍTULO I: OS PRINCÍPIOS DOUTRINAIS

Desígnio do Pai

2. A Igreja peregrina é por sua natureza missionária. Pois ela se origina da missão do Filho e da missão do Espírito Santo, segundo o desígnio de Deus Pai.6

6 Cf. Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja Lumen Gentium, 1: AAS 57 (1965), pp. 5-6.

Este desígnio provém do “amor fontal” ou da caridade de Deus Pai, que é Princípio sem Princípio e do qual é gerado o Filho e pelo Filho procede o Espírito Santo. Por nímia misericórdia e bondade Sua criou-nos livremente e além disso chamou-nos gratuitamente a comunhão de Sua vida e de Sua glória. Generosamente difundiu do universo, tornar-se-á “tudo em todas as coisas” (1 Cor 15,28), procurando ao mesmo tempo Sua glória e nossa beatitude. Prouve a Deus chamar os homens não só individualmente, sem qualquer conexão mutua, a participação de Sua vida, mas constituí-los num só povo, no qual Seus filhos, antes dispersos, se congregassem num corpo.7

7 Cf. Jo 11,52.

Missão do Filho

3. Este universal plano divino em prol da salvação do gênero humano não se realiza apenas dum modo quase secreto no interior dos homens ou por iniciativas, mesmo que sejam religiosas, nas quais de muitos modos eles procuram a Deus, mesmo as apalpadelas, para ver se O encontram, apesar de não se achar longe de todos nós (cf. At 17,27). Pois tais iniciativas devem ser iluminadas e sanadas, embora por benigna disposição da providência divina possam alguma vez ser consideradas como pedagogia para o Deus verdadeiro ou como preparação evangélica.8 Para estabelecer a paz ou comunhão com Ele e a fraterna sociedade entre os homens pecadores, Deus decretou também entrar na história humana de modo novo e definitivo. Para isso enviou o Filho em nossa carne, a fim de por Ele livrar os homens do poder das trevas e de Satanás9 e n’Ele reconciliar Consigo o mundo.10 A Ele, por Quem também fez o mundo¹¹, constituiu herdeiro de todas as coisas, para n’Ele restaurar tudo.¹²

8 Cf. S. Ireneu, Adv. Haer. III,18,1: “Existindo junto a Deus o Verbo, por quem tudo foi feito e que sempre estivera presente ao gênero humano...”: PG 7,932. Id IV, 6,7: “Desde o início assistindo o Filho a Sua criatura, revela o Pai a todos a quem o Pai quer, e quando e como o quer”: ib. 990; cf. IV. 20,6 e 7 (ib. 1037); Demonstratio n. 34: Patr. Or., XII. 773. Sources Chrét., 62, Paris 1958, p. 87; Clemente Alex., Protrept., 112,1: GCE Clemens I 79; Strom. VI 6,44,1: GCS Clemens II 453; 13.106,3 e 4: ibid. 485. Quanto à própria doutrina cf. Pio XII; Radiomensagem de 31-12-1952: Conc. Vat. II. Const. Dogm. Sobre a Igreja Lumen Gentium, 16: AAS 57 (1965), p. 20. 9 Cf. Col. 1,13: At 10,38. 10 Cf. 2 Cor 5,19. ¹¹ Cf. Heb 1,2; Jo 1,3 e 10; 1 Cor 8,6; Col 1,16. ¹² Cf. Ef 1,10.

 

Jesus Cristo foi enviado ao mundo como verdadeiro mediador entre Deus e os homens. Sendo Deus, n’Ele habita corporalmente toda a plenitude da divindade (Col 2,9). Segundo a natureza humana o novo Adão, cheio de graça e de verdade (Jo 1,14), é feito chefe da nova humanidade. Com o fim de tornar os homens participantes da natureza divina o Filho de Deus fez-se verdadeiro homem. Mais. Ele que era rico tornou-se pobre por nós, para que por Sua pobreza nos enriquecessemos.¹³ O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em redenção por muitos, isto é, por todos.14 Os Santos Padres proclamam constantemente que não foi sanado o que não foi assumido por Cristo.15 Ora, Ele assumiu toda a natureza humana tal qual se encontra em nós, míseros e pobres, exceto o pecado.16 Cristo, santificado pelo Pai e por Ele enviado ao mundo (cf. Jo 10,36), disse de Si mesmo: “O Espírito do Senhor esta sobre mim, eis por que me ungiu, enviou-me a evangelizar os pobres, curar os contritos de coração, pregar aos cativos a libertação e aos cegos restituir a vista” (Lc 4,18); e outra vez: “Veio o Filho do Homem procurar e salvar o que se perdera” (Lc 19,10)

¹³ Cf. 2 Cor 8,9.

14 Cf. Mc 10,45.

15 Cf. S. Atanásio, Ep. A Epícteto, 7: PG 26,1060; S. Cirilo de Jer., Catech., 4,9: PG 33,465; Mário Vitorino, Adv. Arium, 3,3: PL 8,1101; S. Basílio, Epist. 261,2. PG 32,969; S. Gregório Naz., Epist. 101: PG 37.181; S. Greg. Niss., Antirrheticus Adv. Apolin., 17: PG 45,1156; S. Ambrósio, Epist. 48,5: PL 16.1153: S. Agostinho, In Ioan. Ev tr. XXIII,6: PL 35,1585; CCHr 36,236: além disso manifesta assim que o Espírito Santo nos não remiu, visto que não se encarnou: De Agone Christ., S. Fulgêncio, Epist. 17,3,5: PL 65, 454; Ad Trasimundum, III,21: PL 65,284: a tristeza e o temor. 16 Cf. Heb 4,15; 9,28.

 

É aquilo que o Senhor uma vez pregou e n’Ele se efetuou, pela salvação do gênero humano, deve ser proclamado e disseminado até os confins da terra17 a começar por Jerusalém.18 Pois o que uma vez foi realizado pela salvação de todos deve pelo tempo em fora alcançar seu efeito em todos.

17 Cf. At 1,8.

18 Cf. Lc 24,47.

Missão do Espírito Santo

4. Para completar esta obra Cristo enviou o Espírito Santo da parte do Pai, a fim de que interiormente operasse sua obra salutífera e propagasse a Igreja. Não há dúvida de que o Espírito Santo já operava no mundo antes da glorificação de Cristo.19 Mas foi no dia de Pentecostes que Ele desceu sobre os discípulos para permanecer eternamente com eles20; que a Igreja foi publicamente manifestada ante a multidão; que pela pregação se iniciou a difusão do Evangelho entre as nações; que enfim foi prefigurada a união dos povos na catolicidade da fé mediante a Igreja da Nova Aliança que fala todas as línguas, compreende e abraça na caridade todos os idiomas e assim supera a dispersão de Babel.²¹ Como pela descida do Espírito Santo sobre a Virgem Maria fora concedido Cristo e como pelo mesmo Espírito descendo sobre Cristo em oração Ele fora impelido a realização do ministério ²², assim em Pentecostes começaram os “atos dos Apóstolos”. E o próprio Senhor Jesus, antes de livremente dar Sua vida pelo mundo, de tal modo coordenou o ministério apostólico e prometeu o envio do Espírito Santo que ambos sempre e em toda parte estivessem unidos na realização da redenção. ²³ Para todos os tempos o Espírito Santo “unifica a Igreja na comunhão e no ministério, dotando-a com vários dons hierárquicos e carismáticos”.24 Vivifica as instituições eclesiásticas como se fosse sua alma. 25 Instila no coração dos fiéis o mesmo espírito missionário, pelo qual era movido Cristo. Por vezes previne mesmo visivelmente a ação apostólica.26 E de vários modos sem cessar a acompanha e dirige.27

19 Foi o Espírito Santo que falou pelos profetas: Simb Constantinopol. Denz-Schoenmetzer, 150; S. Leão Magno, Sermo 76: PL 54, 405-406: “Quando no dia de Pentecostes o Espírito Santo encheu os discípulos do Senhor, não foi o começo da dádiva, mas acréscimo da liberalidade: pois também os patriarcas e os profetas, os sacerdotes e todos os santos que existiram nos tempos antigos foram fortalecidos com a santificação do mesmo Espírito... embora não tivesse sido a mesma a medida das dádivas”. Também o Sermo 77,1: PL 54, 412; Leão XIII, Enc. Divinum illud: AAS 1897,650-651. Também S. João Crisóstomo, embora insista na novidade da missão do Espírito Santo no dia de Pentecostes: In Eph. C. 4, Hom. 10,1: PG 62,75.

20 Cf. Jo 14,16.

²¹ De Babel e de Pentecostes falam muitas vezes os SS. Padres: Orígenes, in Genesium, c. 1: PG 12,112; S. Gregório Naz., Oratio, 41-16: PG 36,449; S. João Crisóst., Hom. 2 in Pentec., 2: PG 50,467; In Act Apost.: PG 60,44; S. Agostinho, Enn. in Ps. 54,11: PL 36,636. CCHR. 39,664 s; Sermo 271: PL 38, 1245; S. Cirilo de Alex., Giaphyra in Genesium II: PG 69,79; S. Gregório Magno, Hom. in Evang., Lib. 11, Hom. 30,4: PL 76,1222; S. Beda, In Hexaem., lib. III: PL 91,125. Veja-se além disso a imagem no átrio da Basílica de S. Marcos, de Veneza. A Igreja fala todas as línguas, e assim reúne a todos na catolicidade da fé: S. Agostinho, Sermões 266,267,268.269: PL 38,1225-1237; Sermão 175,3: PL 38.946; S. João Crisóst., In Ep. I ad Cor., Hom. 35 PG 61,296; S. Cirilo Alex., Fragm. In Act: PG 74,758; S. Fulgêncio, Sermão 8,2-3: PL 65,743-744. Sobre Pentecostes como consagração dos Apóstolos para a missão, cf. J. A. Cramer, Catena in Acta SS. Apostolorum, Oxford 1838, p. 24 s.

²² Cf. Lc 3,22; 4,1; At 10,38.

²³ Cf. Jo c. 14-17; Paulo VI, Discurso pronunciado no Concílio no dia 14-9-1964: AAS 56 (1964), 807..

24 Cf. Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja Lumen Gentium, 4: AAS 57 (1965), p. 7.

25 S. Agostinho, Sermão 267,4 (PL 38,1231): “Faz o Espírito Santo em toda a Igreja o que faz a alma em todos os membros do corpo”. Cf. Conc. Vat. II, Const; Dogm. Sobre a Igreja Lumen Gentium, 7 ( com a nota 8 ): AAS 57 (1965), p.11.

26 Cf. At 10,44-47; 11, 15; 15,8.

27 Cf. At 4,8; 5,32. 8.26.29.39; 9,31; 10; 11,24; 28; 13,2.4.9; 16.6-7; 20,22-23; 21,11 etc.

Igreja enviada por Cristo

5. O Senhor Jesus desde o início “chamou a Si os que Ele quis, e fez que os doze estivessem com Ele para enviá-los a pregar” (Mc 3,13).28 Assim foram os Apóstolos os germes do novo Israel e ao mesmo tempo a origem da sagrada hierarquia. Depois que por Sua morte e ressurreição completou em Si os mistérios de nossa Salvação e da renovação universal, o Senhor obteve todo o poder29 no céu e na terra. Antes de ser assumido ao céu30 fundou Sua Igreja como o sacramento da salvação. Como Ele mesmo fora enviado pelo Pai³¹ enviou os apóstolos a todo o mundo, mandando-lhes: “Ide, pois, fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a observar tudo quanto vos mandei” (Mt 28,19s). “Ide por todo o mundo, e pregai o Evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não será condenado” (Mc 16,15s). Daí o dever que cabe a Igreja de propagar a fé e a salvação de Cristo. Isto em virtude do expresso mandato transmitido pelos Apóstolos ao Colégio dos Bispos, assistidos pelos Presbíteros, junto com o Sucessor de Pedro e Sumo Pastor da Igreja; e ainda em virtude da vida que Cristo infunde em Seus membros. “Por Ele o corpo todo pelo serviço de cada membro se organiza e se mantém firme e a cada órgão vem assinada a sua função peculiar; e destarte vai o corpo crescendo até chegar ao desenvolvimento completo pela caridade” (cf. Ef 4,16). Obediente ao mandato de Cristo e movida pela graça e caridade do Espírito Santo, a Igreja cumpre sua missão quando em ato pleno se faz presente a todos os homens ou povos, a fim de levá-los a fé, a liberdade e a paz de Cristo, pelo exemplo da vida, pela pregação, pelos sacramentos e demais meios da graça. E assim se lhes abre um caminho desimpedido e seguro a plena participação do mistério de Cristo.

28 Cf. ainda Mt 10,1-42.

29 Cf. Mt 28,18.

30 Cf. At 1,4-8.

³¹ Cf. Jo 20,21.

 

Esta missão no decurso da história continua e desdobra a missão do próprio Cristo, enviado a evangelização os pobres. Eis por que a Igreja impelida pelo Espírito de Cristo deve trilhar a mesma senda de Cristo, isto é, o caminho da pobreza, da obediência, do serviço e da imolação de si até a morte, da qual saiu vencedor por Sua ressurreição. Pois assim na esperança caminharam todos os Apóstolos, e por suas muitas tribulações e paixões completaram o que falta aos sofrimentos de Cristo por Seu Corpo, a Igreja. ³² Muitas vezes foi também semente o sangue dos cristãos. ³³

³² Cf. Col 1,24

³³ Tertuliano, Apologeticum, 50,13: PL 1,534; CChr 1,171.

Atividade missionária

6. Esta obrigação deve ser cumprida pela Ordem dos Bispos presidida pelo Sucessor de Pedro, orando e cooperando toda a Igreja. É uma só e a mesma em toda parte e em qualquer situação, apesar de exercida diversamente conforme as circunstâncias. Por isso as diferenças que se devem reconhecer nesta atividade da Igreja não se deduzem da íntima natureza da mesma missão, mas das condições em que ela se exerce.

Dependem essas condições ou da Igreja ou também dos povos, das sociedades ou dos homens aos quais se dirige a missão. Embora de per si possua a totalidade ou plenitude dos meios de salvação, a Igreja nem sempre nem logo aplica ou pode aplicá-los todos. Mas no esforço de efetivar o desígnio divino percebe um paulatino progresso. E as vezes mesmo após início promissor deve chorar um recuo ou então estaciona num estado de semiplenitude e insuficiência. Quanto aos homens, sociedades e povos, apenas gradualmente os atinge e penetra, e assim os assume na plenitude católica. Por sua vez os atos próprios ou meios aptos devem combinar com qualquer situação ou estado.

Chamam-se comumente “missões” as iniciativas especiais dos arautos do Evangelho que, enviados pela Igreja, vão pelo mundo todo realizando o múnus de pregar o Evangelho e de fundar a própria Igreja entre os povos ou sociedades que ainda não crêem em Cristo. São realizadas pela atividade missionária e em geral exercidas em certos territórios reconhecidos pela Santa Sé. O fim próprio dessa atividade missionária é a evangelização e a fundação da Igreja nos povos ou sociedades onde ainda não está radicada.34 Deste modo de semente que é a palavra de Deus, por todo o mundo surgem as Igrejas particulares autóctones, devidamente organizadas, enriquecidas também de forças próprias e de maturidade. E dotadas de suficiente hierarquia própria unida ao povo fiel, e de meios aptos para uma vivência plenamente cristã, as novas Igrejas colaborem para o bem de toda a Igreja. O principal meio dessa fundação é a pregação do Evangelho de Jesus Cristo. Com o fim de anunciá-lo o Senhor enviou seus discípulos a todo o mundo, para que os homens renascidos pela palavra de Deus35 fossem agregados a Igreja mediante o batismo. Corpo do Verbo Encarnado, ela se nutre e vive da palavra de Deus e do pão eucarístico.36

34 Já S. Tomás de Aquino fala no múnus apostólico de implantar a Igreja: cf. Sent. Lib 1, dist. 16, q. 1, a. 2 ad 2 e ad 4; a. 3 sol.; Suma Teol., la, q. 43, a.7 ad 6; la ilae, q. 106, a. 4 ad 4. Cf. Bento XV, Maximum illud, 30-11-1919: AAS 11 (1919), 445 e 453; Pio XI, Rerum Ecclesiae, 28-2-1926: AAS 18 (1926), 74; Pio XII, 30-4-1939, aos Diretores OO.PP.MM.; id., 24-6-1944, aos Diretores OO.PP.MM.: 36 (1944), 210; outra vez em AAS 42 (1950), 727, e 43 (1951), 508; Id., 29-6-1948, ao clero indigena: AAS 40 (1948), 374; Id., Evangelii Praecones, 2-6-1951: AAS 43 (1951), 507; Id., Fidei Donum, 15-1-1957: AAS 49 (1957), 236. João XXIII, Princeps Pastorum, 28-11-1959: AAS 51 (1959), 835; Paulo VI, Hom. 18-10-1964: AAS 55 (1964), 911. – Tanto os Ss. Pontífices como os Padres e Escolásticos muitas vezes falam na expansão da Igreja: S. Tom. Aqu., Comm. In Matt., 16,28; Leão XIII, Enc. Sancta Dei Civitas: AAS 13 (1880), 241; Bento XV, Enc Maximum illud: AAS 19 (1919), 442; Pio XI, Enc. Rerum Ecclesiae: AAS 18 (1926), 65.

35 Cf. 1 Ped 1, 23.

36 Cf. At 2,42. $$ Nessa atividade missionária da Igreja interferem por vezes várias situações: a do início ou da fundação, a da novidade ou da juventude. Nem mesmo depois disso cessa a ação missionária da Igreja, pois cabe as Igrejas particulares já constituídas o dever de prossegui-la e de pregar o Evangelho a todos os que ainda se achem fora. $ Ademais, por motivos diversos as sociedades entre as quais vive a Igreja não poucas vezes sofrem mudanças radicais, podendo assim surgir condições totalmente novas. Deve então a Igreja ponderar se essas condições exigem de novo sua ação missionária. Além disso podem ocorrer circunstâncias que não possibilitam por algum tempo a proclamação direta e imediata da mensagem evangélica. Nesse caso, com paciência, prudência e ao mesmo tempo grande confiança, os missionários ao menos podem e devem testemunhar a caridade e beneficiência de Cristo, e assim preparar os caminhos ao Senhor e torna-lo de algum modo presente. $ Assim é evidente que a atividade missionária decorre da própria natureza da Igreja. Ela propaga sua fé salvífica. Expande e aperfeiçoa sua unidade católica. Apóia-se em sua apostolicidade. Manifesta o sentimento colegial da Hierarquia. Testemunha, difunde e promove sua santidade. Desta forma a atividade missionária entre as nações se distingue da ação pastoral exercida entre os fiéis e das iniciativas empreendidas para restaurar a unidade dos cristãos. Ambas, porém, estão intimamente ligadas ao esforço missionário da Igreja.37 Com efeito, a divisão dos cristãos prejudica a sagrada causa da pregação do Evangelho a toda criatura38, e a muitos impede o acesso a fé. Por exigência intrínseca da missão todos os batizados são chamados a se reunir num só rebanho. Assim diante dos povos poderão testemunhar unânimemente a Cristo seu Senhor. Ainda que não possam plenamente testemunhar uma só fé, convém sejam ao menos animados de mútua estima e caridade. $ 37 É claro que nesta noção da atividade missionária se incluem também aquelas regiões da América Latina nas quais falta a hierarquia própria ou a madurez da vida cristã ou a suficiente pregação do Evangelho. Mas não depende do Concílio, se de fato são reconhecidos pela Santa Sé como missionárias. Por isso quanto à relação entre o conceito de atividade missionária e certos territórios, adrede se diz que esta atividade “em geral” (plerunque) se exerce em certos territórios reconhecidos pela Santa Sé.

38 Conc. Vat. II, Decr. Sobre o Ecumenismo Unitatis redintegratio, 1: AAS 57 (1965), p. 90.

Razões e necessidade da atividade missionária

7. O motivo dessa atividade missionária está na vontade de Deus, que “quer que todos os homens sejam salvos e venham ao conhecimento da verdade. Porque um é Deus, um também o mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus, que se entregou para redenção de todos” (1 Tim 2,4-5). “É necessário que pela pregação da Igreja todos O reconheçam e a Ele se convertam e pelo Batismo sejam incorporados n’Ele e na Igreja, seu Corpo. Cristo mesmo por sua vez “inculcando com palavras expressas a necessidade da fé e do batismo39, ao mesmo tempo confirmou a necessidade da Igreja, na qual os homens entram pelo batismo como por uma porta. Por isso não podem salvar-se aqueles que, sabendo que a Igreja Católica foi fundada por Deus através de Jesus Cristo como instituição necessária, apesar disto não quiserem nela entrar ou nela preservar”.40 Deus pode por caminhos d’Ele conhecidos levar a fé os homens que sem culpa própria ignoram o Evangelho. Pois sem a fé é impossível agradar-lhe.41 Mesmo assim cabe a Igreja o dever42 e também o direito sagrado de evangelizar. Por isso a atividade missionária hoje como sempre conserva integra sua força e necessidade.

39Cf. Mc 16,16; Jo 3,5.

40 Cf. Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja Lumen Gentium, 14: AAS 57 (1965), p. 18.

41 Cf. Jo 7,17; 8,30 e 44; 8,50; 17,1.

 

Por ela o Corpo Místico de Cristo sem cessar reúne e coordena as forças para seu próprio aumento.42 A caridade impele os membros da Igreja a prosseguirem nesta obra. É neste amor que amam a Deus e desejam comungar com todos os homens nos bens espirituais da vida presente e futura.

Enfim por esta atividade missionária Deus é plenamente glorificado e os homens se beneficiam consciente e plenamente de Sua obra salutar, realizada em Cristo. Assim se cumpre o plano de Deus, a que Cristo se submeteu em amorosa docilidade para a glória do Pai. Este O enviou44 para do gênero humano todo formar o único Povo de Deus, reuni-lo no único corpo de Cristo e coedificá-lo no único templo do Espírito Santo. Tudo isto redunda em fraterna concórdia, anelo íntimo de todos os homens. Desta forma chegara a plena realização o desígnio do Criador, que fez o homem a Sua imagem e semelhança, quando todos que participam da natureza humana, regenerados em Cristo pelo Espírito Santo, contemplando com os mesmos sentimentos a glória de Deus, puderem dizer: “Pai Nosso”.45

44 Cf. Jo 7,18; 8,30 e 44; 8,50; 17,1.

45 Sobre esta sintética idéia veja a doutrina de S. Ireneu sobre a Recapitulação. Cf. também Hipólito. De Antichristo, 3: “Querendo a todos e a todos desejando salvar, querendo assegurar todos os filhos de Deus, e todos os santos chamando a um só homem perfeito...: PG 10,732; GCS Hippolyt 1 2, p. 6; Benedictiones Iacob, 7: T. U., 38,1, lin. 4ss. Origenes, In Ioann. Tom. I, n. 16: “Então os que chegarem a Deus, conhece-l’O-ão por um único ato, guiados por aquele Verbo que esta junto a Deus. Assim todos os filhos serão acuradamente instruídos no conhecimento do Pai, como agora só o Filho O conhece: PG 14,49; GCS Orig. IV, 20; S. Agostinho, De sermone Domini in monte, I, 41; “Amemos o que conosco pode ser levado aqueles reinos onde ninguém diz: Meu Pai, mas todos ao único Deus: Pai nosso”: PL 34, 1250; S. Cirilo Alex., In Ioann I: “Estamos todos em Cristo e n”Ele revive toda comunidade humana. E por isso é que é também chamado o último Adão... Habitou entre nós aquele que por natureza é Filho e Deus; e por isso clamamos em seu Espírito: Abba, Pai! E o Verbo habita em todos num só templo, i, é, aquele que assumiu por nós e de nós, para que tendo a todos consigo, todos num só corpo, como diz Paulo, reconciliasse com o Pai”: PG 73, 161-164.

Atividade missionária na vida e história humanas

8. A atividade missionária relaciona-se também com a própria natureza humana e suas aspirações. Pelo próprio fato de testemunhar a Cristo, a Igreja revela aos homens a verdade de sua condição e de sua vocação integral. Com efeito, Cristo é o princípio e o exemplar de uma humanidade nova a qual todos aspiram, a saber, uma humanidade impregnada de amor fraterno, de sinceridade e de espírito pacífico. Cristo e a Igreja, que d’Ele dá testemunho através da pregação evangélica, transcendem todo particularismo de raça ou nacionalidade. Por isso nenhum homem e nenhuma terra os podem considerar estranhos.46 O próprio Cristo é a verdade e o caminho, que a pregação evangélica abre a todos, quando lhes anuncia aos ouvidos as palavras d’Ele: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15). Mas quem não crê, já está julgado. 47 Pois as palavras de Cristo são ao mesmo tempo de juízo e de vida, de morte e de vida. Só dando morte a vida antiga é que podemos chegar a vida nova. Em primeiro lugar isto se aplica as pessoas mas também ao mesmo tempo com o pecado do homem e com a bênção divina. “Pois todos pecaram e estão privados da glória de Deus” (Rom 3,23). Ninguém por si só e com as próprias forças se liberta do pecado e se eleva acima de si próprio. Ninguém se desprende em definitivo de sua fraqueza, solidão ou servidão. 48 Mas todos necessitam de Cristo exemplar, mestre, libertador, salvador, vivificador. Mesmo na história temporal da humanidade o Evangelho foi de fato fermento de liberdade e de progresso de novo se apresenta como o fermento da fraternidade, da unidade e da paz. Por isso com toda a razão os fiéis celebram a Cristo como “a Expectativa das nações e Salvador delas”.49

46 Bento XV, Maximum illud: AAS 11 (1919), 445: “E visto ser a Igreja de Deus católica, não é estranha a nenhum povo ou nação...” Cf. João XXIII, Enc. Mater et Magistra: “Por direito divino pertence a todos os povos... A Igreja, injetando por assim dizer sua força nas veias dum povo, não é nem se considera como uma instituição qualquer, imposta de fora ao mesmo povo... E por isso tudo o que lhes pareça bom e honesto, confirmam-no e aperfeiçoam-no” (i. é, os que renasceram em Cristo): AAS 53 (1961), 444.

47 Cf. Jo 3.18.

48 Cf. Ireneu. Adv Haer., III.15, n. 3: PG 7.919 “Foram os pregadores da verdade e os apóstolos da liberdade”

49 Breviário Romano. Ant O’ do dia 23 dez.

Caráter escatológico da atividade missionária

9. O tempo da atividade missionária, portanto, situa-se entre a primeira e a última vinda do Senhor. Então dos quatro ventos, como se faz na colheita, será a Igreja reunida no reino de Deus. 50 Por isso antes que chegue o Senhor, deve ser pregado o Evangelho a todas as nações.51

 

50 Cf. Mt 24.31; Didaquê 10,5: Funk I, p. 32.

51 Cf. Mc 13,10.

 

A atividade missionária é nada mais nada menos que a manifestação ou Epifania do plano divino e o seu cumprimento no mundo e em sua história. É nela que Deus realiza publicamente a história da salvação, pela missão. Mediante a palavra da pregação e a celebração dos sacramentos, cujo centro e cimo é a Santíssima Eucaristia, torna presente a Cristo, autor da salvação Liberta dos contágios malignos tudo quanto de verdade e de graça já se achava entre as nações, numa como secreta presença de Deus, e a restitui a Cristo, seu Autor, que derruba o império do diabo e afaste as diversas malícias do pecado. Por isso tudo quanto de bom se encontra semeado no íntimo dos homens ou nos próprios ritos e culturas dos povos, não apenas permanece, mas é sanado, elevado e consumado para glória de Deus, confusão do demônio e felicidade do homem.52 Desta forma a atividade missionária tende a plenitude escatológica.53 Por ela cresce o Povo de Deus até a medida e o tempo que o Pai fixou em Seu poder.54 A este Povo fora dito profeticamente: “Alarga o espaço da tua tenda e estende as peles dos teus tabernáculos! Não te contenhas!” (Is 54,2).55 Ainda por ela aumenta o Corpo místico até a medida da idade da plenitude de Cristo.56 E o templo espiritual, onde se adora a Deus em espírito e verdade57, cresce e se sobreedifica sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, cuja suprema pedra angular é Cristo Jesus (Ef 2,20).

52 Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja Lumen Gentium, 17: AAS 57 (1965), pp. 20-21; S. Agostinho, A Cidade de Deus, 19,17: PL 41,646, Instr. S. C. P. F.: Collectanea I, n. 135, p. 42.

53 Segundo Origenes o Evangelho deve ser pregado antes da consumação deste mundo: Hom. in Luc., XXI: GCS, Orig. IX 136, 21 s; In Math. Comm. Ser., 39: XI 75,25 s; 76,4 s; Hom. in Ierem. III,2: VIII 308,29 s; S. Tomás, Sum. Teot. La llae, q. 106, a. 4, ad 4.

55 Hilário de Poitier, In Ps 14: PL 9,301; Eusébio de Cesaréia. In Isaiam 54,2-3: PG 24,462-463; Cirilo Alexandrino, In Isaiam V.

56 Cf. Ef 4,13. Cap. 54,1-3: PG 70,1193

57 Cf. Jo 4,23.

CAPÍTULO II: A OBRA MISSIONÁRIA COMO TAL

Introdução

10. A Igreja, enviada por Cristo para manifestar e comunicar a caridade de Deus a todos os homens e povos, sabe que ainda lhe resta por realizar uma ingente tarefa missionária. Há dois bilhões de pessoas – este número aumenta dia a dia – que ainda não ou muito pouco ouviram a mensagem evangélica. Trata-se de povos numerosos unidos por estreitos laços culturais e antigas tradições religiosas, interligados por firmes vínculos de relações sociais. Alguns deles seguem uma das grandes religiões, outros desconhecem o próprio Deus, outros enfim expressamente negam Sua existência, chegando não raro a combatê-la. Como Cristo, por Sua encarnação se ligou as condições sociais e culturais dos homens com quem conviveu, assim deve a Igreja inserir-se em todas essas sociedades, para que a todas possa oferecer o mistério da salvação e a vida trazida por Deus.

ART. 1: O TESTEMUNHO CRISTÃO

Testemunho da vida e diálogo

11. É mister que a Igreja se faça presente nessas sociedades por seus filhos que entre elas vivem ou a elas são enviados. Onde quer que vivam, pelo exemplo da vida e pelo testemunho da palavra, devem todos os cristãos manifestar o novo homem que pelo batismo vestiram, e a virtude do Espírito Santo que os revigorou pela confirmação. Assim os outros, vendo as suas boas obras, glorificarão ao Pai¹ e mais perfeitamente compreenderão o autêntico sentido da vida e o vínculo universal da comunhão humana.

¹ Cf. Mt 5,16.

 

Para que eles possam frutuosamente dar esse testemunho de Cristo, liguem-se aos homens com estima caridosa. Reconheçam-se como membros do corpo social em que vivem, e tomem parte na vida cultural e social através das várias relações e ocupações da vida humana. Familiarizem-se com suas tradições nacionais e religiosas. Com alegria e respeito descubram as sementes do Verbo aí ocultas. Também atendam a profunda transformação que se realiza entre os povos. E empenhem-se para que os homens desta época, por demais engolfados na ciência e na técnica do mundo moderno, não se alienem das coisas divinas. Mas antes despertem para um mais ardente desejo da verdade e caridade divinamente reveladas. Cristo mesmo sondou o coração humano e o conduziu a luz divina em um colóquio deveras humano. Da mesma forma Seus discípulos, profundamente impregnados de Seu Espírito, conheçam seus concidadãos e relacionem-se com eles, para que esses mediante um diálogo cheio de sinceridade e paciência venham a conhecer quantas riquezas o munificente Deus prodigalizou aos povos. Ao mesmo tempo a luz do Evangelho procurem iluminar, libertar e submeter essas riquezas ao domínio de Deus Salvador.

Presença da caridade

12. A presença dos cristãos nas sociedades seja animada daquela caridade com a qual nos amou Deus. Ele deseja que também nós nos amemos uns aos outros com a mesma caridade. ²
Com efeito a caridade cristã a todos se estende sem distinção de raça, de condição social ou de religião. Ela não espera vantagem alguma nem gratidão. Foi com amor gratuito que Deus nos amou. Assim também os fiéis por sua caridade mostrem-se solícitos por todos os homens, amando-os naquele mesmo afeto que levou Deus a procurar o homem. A imitação de Cristo que percorria todas as cidades e aldeias, curando toda doença e enfermidade em sinal da vinda do Reino de Deus ³, a Igreja por seus filhos se liga aos homens de qualquer condição e particularmente aos pobres e aflitos, dedicando-se a eles prazerozamente.4 Compartilha de suas alegrias e dores, conhece as aspirações e problemas da vida, e compadece-se deles nas angustias da morte. Em diálogo fraterno deseja responder aos que buscam a paz, oferecendo-lhes a paz e a luz do Evangelho.

² Cf. 1 Jo 4,11.

³ Cf. Mt 9,35 ss; At 10,38.

4 Cf. 2 Cor 12,15.

 

Trabalhem os cristãos e colaborem com todos os outros para estruturar com justiça a vida econômica e social. Com especial empenho dediquem-se a educação das crianças e adolescentes mediante escolas de gêneros diversos. Devem ser estas não apenas consideradas como um meio excelente de formar e promover a juventude cristã, mas também como um serviço de subido valor para os homens, máxime para as nações em vias de desenvolvimento, com o fim de promover a dignidade do homem e preparar condições mais humanas. Ademais associem-se aos esforços dos povos que procuram com afinco melhorar as condições de vida e firmar a paz no mundo, dando combate a fome, a ignorância e as doenças. Em tal atividade queiram os fiéis prestar prudente colaboração as iniciativas de instituições internacionais, das várias comunidades cristãs e também das religiões não-cristãs.

De forma alguma pretende a Igreja imiscuir-se no governo do estado. Não reclama para si nenhuma outra autoridade que a de servir aos homens caridosa e fielmente, ajudada por Deus.5

5 Cf. Mt 20,26; 23,11; cf. Aloc. de Paulo VI, de 21-11-1964, proferida no Concílio: AAS 56 (1964), 1013.

Unindo-se estreitamente aos homens por sua vida e atividade, os discípulos de Cristo almejam oferecer-lhes um autêntico testemunho do Mestre e trabalhar em prol de sua salvação, mesmo onde O não podem anunciar claramente. Não buscam o progresso e a prosperidade meramente material dos outros homens, mas promovem a dignidade e a fraterna união de todos. Ensinam-lhes as verdades religiosas e morais, que Cristo ilustrou com Sua luz. Com isto lhes abrem aos poucos um acesso mais amplo a Deus. Deste modo o amor a Deus e ao próximo ajuda os homens a alcançarem a salvação. Começa a resplandecer o mistério de Cristo, no qual apareceu o novo homem criado segundo Deus6, e no qual se revela a caridade divina.

6 Cf. Ef 4,24.

ART. 2: A PREGAÇÃO DO EVANGELHO E A REUNIÃO DO POVO DE DEUS

Evangelização e conversão

13. Onde quer que Deus abra uma porta a palavra para proclamar o mistério de Cristo7 a todos os homens8, com confiança e sem cessar9 anuncie-se10 O Deus vivo e Aquele que enviou para a salvação de todos, Jesus Cristo.¹¹ Assim os não-cristãos, a quem o Espírito Santo abre o coração ¹², livremente hão de converter-se ao Senhor pela fé e sinceramente aderir Aquele que é “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6). Que satisfaz a todas as suas expectativas espirituais e mesmo as supera infinitamente.

7 Cf. Col 4,3.

8 Cf. Mc 16,15.

9 Cf. At 4,13, 29,31; 9,27,28; 13,46; 14,3; 19,8; 26,26; 28,31, 1 Tess 2,2; 2 Cor 3,12; 7,4; Filip 1,20; Ef 3,12; 6,19-20.

10 Cf. 1 Cor 9,15; Rom 10,14.

¹¹ Cf. 1 Tess 1,9-10; 1 Cor 1,18-21; Gál 1,31, At 14,15-17; 17, 23-31.

¹² Cf. At 16,14.

Deve considerar-se esta conversão como um ponto de partida. Mas basta ao homem para perceber que, após afastá-lo do pecado, Deus o introduz no mistério de Seu amor e o convida a sua íntima amizade em Cristo. Mediante a graça divina o recém-convertido começa a trilhar o caminho espiritual. Já comungado no mistério da morte e da ressurreição pela fé, passa então do velho para o novo homem aperfeiçoado em Cristo.13 Esta passagem, acarretando consigo uma progressiva mudança de mentalidade e de costume, deve manifestar-se com suas conseqüências sociais e paulatinamente desenvolver-se no tempo do catecumenato. O Senhor, em que se crê, é um “sinal de contradição”.14 Por isso, o convertido sofre não poucas vezes rupturas e separações, mas também alegrias, que Deus concede sem medida.15 A Igreja proíbe severamente que alguém seja coagido a abraçar a fé, e que seja induzido ou aliciado por meios importunos. Da mesma forma afirma com vigor este direito: ninguém deve ser afastado da fé por meio de iníquos vexames.16

13 Cf. Col 3,5-10; Ef 4,20-24.

14 Cf. Lc 2,34; Mt 10,34-39.

15 Cf. 1 Tess 1,6.

16 Cf. Conc. Vat. II, Decl. Sobre a Liberdade Religiosa Dignitatis Humanae, nn. 2,4,10; Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo de Hoje Gaudium et Spes, n. 21.

 

Segundo praxe antiquíssima da Igreja investiguem-se os motivos de conversão e se necessário purifiquem-se.

Catecumenato e iniciação cristã

14. Os que de Deus receberam a fé em Cristo mediante a Igreja17, sejam admitidos ao catecumenato, através de cerimônias litúrgicas: O catecumenato não é mera exposição de dogmas e preceitos, mas uma educação de toda a vida cristã e um tirocínio de certa duração, com o fim de unir os discípulos com Cristo seu Mestre. Sejam os catecúmenos convenientemente iniciados no mistério da salvação. Através da prática dos costumes evangélicos e pelos ritos sagrados que se celebram em tempos sucessivos18, sejam introduzidos na vida da fé, da liturgia e da caridade do Povo de Deus.

17 Cf. Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja Lumen Gentium, n. 17: AAS 57 (1965), pp. 20-21.

18 Cf. Conc. Vat. II, Const. sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, nn. 64-65: AAS 56 (1964), p. 117.

 

A seguir, libertados do poder das trevas pelos sacramentos da iniciação cristã19, mortos com Cristo, consepultados e conrressuscitados com Ele20, recebem o Espírito²¹ da adoção de filhos e com todo o Povo de Deus celebram o memorial da morte e da ressurreição do Senhor.

19 Cf. Col 1,13. Desta libertação da servidão do demônio e das trevas, no evangelho, cf. Mt 12,28; Jo 8,44; 12,31 (cf. 1 Jo 3,8; Ef. 2,1 - 2). Na Liturgia do batismo, cf. Ritual Romano.

20 Cf. Rom 6,4-11; Col 2,12-13; 1 Pd. 3,21 - 22; Mc. 16,16.

²¹ Cf. 1 Tes. 3,5 - 7; At. 8,14 - 17.

 

É de desejar uma reformulação da liturgia do tempo quaresmal e pascal que disponha a alma dos catecúmenos para celebrarem o mistério pascal. Nessas solenidades são regenerados em Cristo pelo batismo.

A iniciação cristã no catecumenato não é apenas tarefa dos catequistas e sacerdotes, mas de toda a comunidade dos fiéis, de modo especial, dos padrinhos. Realizem-na de tal sorte que os catecúmenos já desde o início se sintam integrados no Povo de Deus. Uma vez que a vida da Igreja é apostólica, aprendam também os catecúmenos, pelo testemunho da vida e pela profissão da fé, a cooperar ativamente na evangelização e edificação da Igreja.

O novo Código enfim apresente com clareza o estado jurídico dos catecúmenos. Pois já estão unidos a Igreja ²², já pertencem a casa de Cristo ²³ e não raro já levam uma vida de fé, esperança e caridade.

²² Cf. Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja Lumen Gentium, n. 14: AAS 57 (1965), p. 19.

²³ Cf. S. Agostinho, Tract. In Ioann. 11,4: PL 35,1476.

ART. 3: A FORMAÇÃO DA COMUNIDADE CRISTÃ

Formação da comunidade cristã

15. É o Espírito Santo que chama todos os homens a Cristo, pela sementes da Palavra e pela pregação do Evangelho. Também desperta nos corações o obséquio da fé. No seio da fonte batismal gera para uma nova vida os que acreditam em Cristo, reunindo-os num só Povo de Deus: “raça, eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de aquisição” (1 Ped 2,9).24

24 Cf. Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja Lumen Gentium, n. 9: AAS 57 (1965), p. 13.

 

Cooperadores de Deus25, os missionários suscitem associações de fiéis que, caminhando dignamente na sua vocação26, exerçam as funções sacerdotal, profética e régia, que Deus lhes confiou. Destarte a comunidade cristã se torna sinal da presença de Deus no mundo. Pelo sacrifício eucarístico ela passa incessantemente com Cristo ao Pai.27 Bem nutrida pela palavra de Deus28, dá testemunho de Cristo.29 Enfim caminha na caridade e ferve no espírito apostólico.30

25 Cf. 1 Cor 3,9.

26 Cf. Ef 4,1.

27 Cf. Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja Lumen Gentium, nn. 10, 11. 34: AAS 57 (1965), pp. 10-17, 39-40.

28 Cf. Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Revelação Divina Dei Verbum, n. 21: AAS 58 (1966), p. 24.

29 Cf. Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja Lumen Gentium, nn. 12, 35: AAS 57 (1965), pp. 16,40-41.

30 Cf. Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja Lumen Gentium, nn. 23, 36: AAS 57 (1965), pp. 28, 41-42.

 

Já de início deve organizar-se a comunidade cristã de tal sorte que, enquanto possível, possa ela mesma prover as próprias necessidades.

Essa comunidade de cristãos, adornada pela riquezas culturais da própria nação, deite profundas raízes no povo. Floresçam as famílias do espírito evangélico³¹ e sejam assistidas por escolas competentes. Erijam-se associações e grupos mediante os quais o apostolado dos leigos possa impregnar do espírito evangélico toda a sociedade. Resplandeça enfim a caridade entre os católicos de ritos diferentes. ³²

³¹ Cf. Conc.. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja Lumen Gentium, nn. 11, 35, 41: AAS 57 (1965), pp. 15-16, 40-41, 47.

³² Cf. Conc. Vat. II, Decreto sobre as Igrejas Orientais Católicas Orien alium Ecclesiarum, n. 4: AAS 57 (1965), pp. 77-78.

 

Os neófitos também cultivem o espírito ecumênico. Compenetrem-se de que seus irmãos cristãos são discípulos de Cristo, regenerados pelo batismo e participantes de muitíssimas riquezas do povo de Deus. Quanto o permitam as condições religiosas, promova-se a ação ecumênica, mas excluindo qualquer espécie de indiferentismo e confusionismo, bem como de insensata competição. E enquanto possível, numa comum profissão de fé em Deus e em Jesus Cristo diante das nações, e cooperando fraternamente os católicos com os irmãos separados, segundo as normas do Decreto sobre o Ecumenismo. Colaborem sobretudo por causa de Cristo, seu Senhor comum. Que o Seu nome os reuna! Deve empreender-se essa colaboração não apenas entre particulares, mas também, a critério do Ordinário do lugar, entre as Igrejas ou comunidades eclesiais e as suas obras.

Os cristãos de todos os povos reunidos na Igreja “não se distinguem dos outros homens nem pelo regime nem pela língua, nem pelas instituições políticas”. ³³ Por isso vivam para Deus e para Cristo conforme os sadios hábitos de vida de sua nação. Como bons cidadãos cultivem o patriotismo. Mas evitem de todo o racismo e o nacionalismo exacerbado, e provem o amor universal aos homens.

³³ Cf. Epístola ad Diognetum 5: PG 2,1173; cf. Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja Lumen Gentium, n. 38: AAS 57 (1965), p. 43.

 

Para atingir tudo isso tem máxima influência e merecem especial menção os leigos, i. é, os cristãos que incorporados a Cristo pelo batismo vivem no século. Imbuídos do Espírito de Cristo devem eles animar as coisas temporais, por dentro, como um fermento, e organizá-las para que se conformem cada vez mais a Cristo.34

34 Cf. Conc. Vat II, Const. Dogm. Sobre a Igreja Lumen Gentium, n. 32: AAS 57 (1965), p. 38; Decreto sobre o Apostolado dos Leigos Apostolicam Actuositatem, nn. 5-7;

 

Mas ao povo cristão não lhe basta o estar presente e constituído nalguma nação, nem lhe basta exercer o apostolado do exemplo. Esta constituído e acha-se presente para anunciar Cristo aos concidadãos não-cristãos, por palavras e obras, e ajudá-los a recebê-lO plenamente.

Para a fundação da Igreja e incremento da comunidade cristã fazem-se necessários vários ministérios, por vocação divina suscitados dentre a própria assembléia dos fiéis. Devem ser por todos solicitamente fomentados e cultivados. Enumeram-se entre eles os ministérios dos sacerdotes, diáconos e catequistas, e a ação católica. Do mesmo modo os Religiosos e as Religiosas oferecem indispensável cooperação para radicar e corroborar o Reino de Cristo nas almas e dilatá-lo ainda mais, seja pela oração, seja pelo trabalho ativo.

Estabelecimento do clero local

16. Com muita alegria a Igreja rende graças pelo inestimável dom da vocação sacerdotal, que Deus concedeu a tantos jovens nas nações recém-convertidas a Cristo. A Igreja fixa raízes mais firmes em qualquer sociedade quando as várias comunidades de fiéis tem dentre seus membros os próprios ministros da salvação, na ordem dos Bispos, Presbíteros e Diáconos, servindo a seus irmãos. Deste modo as novéis Igrejas hão de paulatinamente adquirir uma estrutura diocesana com clero próprio.

O que este Concílio estatuiu sobre a vocação e a formação sacerdotal seja religiosamente observado onde a Igreja pela primeira vez se estabelece e entre as Igrejas novas. Deve-se dar a máxima importância aquilo que se diz da íntima conexão da formação espiritual com a doutrina e a pastoral, da vida a levar segundo a forma do evangelho, sem consideração da comodidade própria ou familiar, e do cultivo do profundo sentido do mistério da Igreja. Daí aprenderão maravilhosamente a dedicar-se totalmente ao serviço do Corpo de Cristo e a obra do Evangelho, e a aderir como fiéis cooperadores ao próprio bispo, e a oferecer seus préstimos aos irmãos.35

35 Cf. Conc. Vat. II, Decreto sobre a Formação Sacerdotal Optatam Totius, nn. 4, 8, 9.

 

Para conseguir este fim geral toda a formação dos estudantes se ordene sob a luz do mistério da salvação, como se apresenta nas Escrituras. Descubram e vivam este mistério de Cristo e da salvação humana, presente na Liturgia.36

36 Cf. Conc. Vat. II, Const. sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, n. 17: AAS 56 (1964), p. 105.

 

As exigências comuns da formação sacerdotal, como também da pastoral e prática, segundo as normas do Concílio37, adaptem-se ao esforço de ir ao encontro do modo peculiar de pensar e agir do próprio povo. Há que abrir e aguçar as mentes dos educandos, para que bem conheçam e possam julgar a cultura de sua gente. Nas disciplinas filosóficas e teológicas percebam as relações existentes entre as tradições e religiões pátrias e a religião cristã.38 A formação sacerdotal atende ainda as necessidades pastorais da região. Aprendam os estudantes a história, o fim e o método da ação missionária da Igreja, e as específicas condições do próprio povo: sociais, econômicas e culturais. Sejam o diálogo fraterno com os não-cristãos.39 Tudo isso exige que os estudos para o sacerdócio, quanto possível, se conduzam conforme os costumes de cada povo e na convivência com ele.40 Cuidar-se-á enfim de dar formação para uma correta administração eclesiástica, também econômica.

37 Cf. Conc. Vat. II, Decreto sobre a Formação Sacerdotal Optatam Totius, n. 1.

38 Cf. João XXIII, Princeps Pastorum, 28-11-1959: AAS 51.

39 Cf. Conc. Vat. II, Decreto sobre o Ecumenismo Unitatis Redintegratio, n. 4: AAS 57 (1965), pp. 94-96.

40 Cf. João XXIII, Princips Pastorum, 28-11-1959: AAS 51 (1959), P. 842.

 

Além disso sejam escolhidos sacerdotes idôneos, que depois de alguma prática pastoral, completem os estudos superiores nas Universidades, também nas estrangeiras máxime em Roma, e em outros Institutos científicos. Deste modo haverá sacerdotes do clero local, dotados com a devida ciência e competência, a disposição das novas Igrejas, a fim de realizarem tarefas eclesiásticas mais delicadas.

Onde parecer oportuno as Conferências Episcopais, restaure-se a ordem do diaconato como estado permanente de vida, a teor da Constituição De ecclesia.41 Os que desempenharem uma função verdadeiramente diaconal – ou como catequistas pregando a palavra divina, ou em nome do bispo e pároco dirigindo longínquas comunidades cristãs, ou praticando a caridade nas obras de assistência social – será útil corroborá-los e ligá-los mais intimamente ao altar pela imposição das mãos, tradição que nos vem desde os Apóstolos. Destarte desempenharão mais eficazmente o seu ministério, mediante a graça sacramental do diaconato.

41 Cf. Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja Lumen Gentium, n. 29: AAS 57 (1965), p. 36.

Formação dos catequistas

17. Também é digna de louvor aquela falange, tão grandemente benemérita da obra missionária entre os povos, os catequistas, homens ou mulheres, que imbuídos do espírito apostólico, com ingentes esforços trazem singular e indispensável auxílio a expansão da fé e da Igreja.

O ofício dos catequistas assume máxima importância em nossos dias, de clero tão reduzido diante da tarefa de evangelizar tantas multidões e exercer o ministério pastoral. A formação deles, por conseguinte, deve aperfeiçoar-se e acomodar-se ao progresso cultural de modo que, como eficientes cooperadores dos sacerdotes, possam o melhor possível cumprir com o seu ofício, agravado com novas e maiores obrigações.

Multipliquem-se as escolas diocesanas e regionais em que os futuros catequistas cultivem a doutrina católica, principalmente nas matérias bíblica e litúrgica, e também o método catequético e a praxe pastoral. Formem-se segundo os costumes de homens cristãos42, sempre se esforçando por cultivar a piedade e a santidade da vida. Ademais realizem-se reuniões ou cursos em que os catequistas possam renovar-se de tempos em tempos nas disciplinas e artes úteis ao seu ministério, e possam alimentar e revigorar sua vida espiritual. Além disso proporcione-se aos que totalmente se consagram a essa obra um padrão de vida decente e o seguro social mediante justa remuneração.43

42 Cf. João XXIII, Princeps Pastorum, 28-11-1959: AAS 51 (1959), p. 855.

43 Trata-se dos assim chamados “catéchistes à plein temps”, “full-time catechists” (catequistas de tempo integral).

É de desejar que se providencie convenientemente a formação e o sustento dos catequistas por especiais auxílios do S. Dicastério “de Propaganda Fide”. Se parecer necessário e conveniente funde-se uma Obra pró Catequistas.

Ademais as Igrejas reconhecerão de bom grado o generoso trabalho dos catequistas auxiliares, de cujo auxílio necessitarão. Em suas comunidades presidem as orações e transmitem a doutrina. Deve-se cuidar atentamente de sua formação doutrinal e espiritual. É também desejável que, onde parecer oportuno, se confira aos catequistas devidamente formados a missão canônica para celebrar publicamente a ação litúrgica. Destarte junto ao povo com maior autoridade servirão a fé.

Promoção da vida religiosa

18. Desde o período de fundação da Igreja promova-se com zelo a vida religiosa. Esta não apenas traz a atividade missionária auxílios preciosos e indispensáveis, mas por uma consagração mais íntima a Deus, feita na Igreja, também com clareza manifesta e significa a intima natureza da vocação cristã.44

44 Cf. Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja Lumen Gentium, nn. 31, 44: AAS 58 (1965), p. 37,50-51.

 

Os Institutos religiosos que trabalham na fundação da Igreja, compenetrem-se das místicas riquezas com que se assinalou a tradição religiosa da Igreja, e esforcem-se por exprimi-las e transmiti-las de acordo com o engenho e a índole de cada povo Const. atentamente como poderão ser assumidas na vida religiosa cristã as tradições ascéticas e contemplativas, cujas sementes já antes da pregação evangélica Deus alguma vez implantara nas culturas antigas.

Nas novas Igrejas devem cultivar-se as várias formas religiosas para que manifestem os diversos aspectos da missão de Cristo e da vida da Igreja, Consagrem-se as diversas obras pastorais e preparem bem a seus membros para exercê-las. Contudo os Bispos na Conferência cuidem que não se multipliquem as Congregações de idêntico fim apostólico, o que traria prejuízo a vida religiosa e ao apostolado.

Especial menção merecem as várias iniciativas visando estabelecer a vida contemplativa. Por elas, retendo os elementos essenciais da instituição monástica, alguns se esforçam por implantar a riquíssima tradição de sua ordem, outros voltam as formas mais simples do antigo monacato. Procurem todos no entanto uma genuína adaptação as condições locais. Uma vez que a vida contemplativa pertence a plenitude da presença da Igreja, é necessário que se instaure em toda parte entre as novas Igrejas.

CAPÍTULO III: AS IGREJAS PARTICULARES

Progresso das jovens Igrejas

19. A tarefa de fundação da Igreja numa sociedade atinge o alvo certo, quando a comunidade dos fiéis, já enraizada na vida social e até certo ponto conformada com a cultura local, goza de alguma estabilidade e segurança. Dotada dum contigente próprio ainda que insuficiente, de sacerdotes locais, de religiosos e de leigos, possui os meios e instituições necessárias para viver e expandir a vida do povo de Deus, sob a guia do próprio bispo.

Nestas jovens Igrejas a vida cristã do Povo de Deus deve amadurecer em todos os setores. Deve ela ser renovada segundo as normas deste Concílio. As assembléias de fiéis sempre conscientemente se tornam comunidades de fé viva, de liturgia e caridade. Os leigos, através da ação cívica e apostólica, envidam esforços por instaurar a ordem da caridade e da justiça no estado. Oportuna e prudentemente usam dos meios de comunicação social. Por uma vida verdadeiramente cristã as famílias vem a ser as sementeiras do apostolado leigo como também das vocações sacerdotais e religiosas. Enfim a fé é transmitida mediante catequese apropriada, celebrada na liturgia em consonância com o gênio do povo, e através de conveniente legislação canônica regulamentada em usos recomendáveis e costumes locais.

Cada bispo com seu presbitério, sempre mais compenetrados do sentir de Cristo e da Igreja, pensem e vivam em sintonia com a Igreja universal. Permaneça intima a comunhão das novéis Igrejas com a Igreja toda. Unam os elementos tradicionais desta última aos da sua cultura própria, para aumentar a vida do Corpo Místico, num como intercâmbio de forças.¹ Por isso hão de se cultivar os elementos teológicos, psicológicos e humanos capazes de favorecer esse sentimento de comunhão com a Igreja universal.

¹ Cf. João XXIII, Princeps Pastorum, 28-11-1959: AAS 51 (1959), p. 838.

 

Essas Igrejas, muita vez situadas nas regiões mais pobres do mundo, em geral ainda sofrem da mais premente falta de sacerdotes e de recursos materiais. Razão por que muito necessitam que a ininterrupta ação missionária da Igreja inteira forneça aqueles auxílios indispensáveis sobretudo ao crescimento da Igreja local e ao amadurecimento da vida cristã. Também se estenda essa atividade missionária aquelas Igrejas antigas que agora se acham em regressão ou debilidade.

Organizem essas Igrejas um esforço pastoral e trabalhos eficazes a fim de aumentar o número das vocações para o clero diocesano e para os institutos religiosos, para selecioná-las com mais segurança e cultivá-las mais eficazmente ², de modo que aos poucos se tornem autosuficientes e até possam prestar auxílio a outras.

² Cf. Conc. Vat. II, Decreto sobre o Ministério e a Vida dos Presbíteros Prebyteororum Ordinis, n. 11; Decreto sobre a Formação Sacerdotal Optatam Totius, n. 2.

Atividade missionária das Igrejas particulares

20. Deve a Igreja particular representar do modo mais perfeito possível a Igreja universal. Em vista disso considere seriamente que também foi enviada aos que não crêem em Cristo e com ela moram no mesmo território, a fim de ser um sinal a lhes mostrar Cristo, através do testemunho da vida de cada fiel e de toda a comunidade.

Exige-se ademais o ministério da palavra, para que o Evangelho atinja a todos. Importa seja o bispo antes de tudo um arauto da fé que leve novos discípulos a Cristo. ³ Para poder convenientemente cumprir tão excelsa missão, procure compreender profundamente tanto a situação de seu rebanho como as convicções de seus concidadãos a respeito de Deus, nunca esquecendo as transformações introduzidas pela assim chamada urbanização, pelas migrações e pelo indiferentismo religioso.

³ Cf. Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja Lumen Gentium, n. 25: AAS 57 (1965), p. 29.

Nestas Igrejas novas os sacerdotes locais empreendam corajosamente o trabalho de evangelização, cooperando com os missionários estrangeiros. Formem com os mesmos um só presbitério, reunido sob a autoridade do bispo, não só para o pastoreio dos fiéis e para a celebração do culto divino, mas também para a pregação do Evangelho aos de fora. Estejam disponíveis e, dada a ocasião, alegres se ofereçam ao seu bispo para encetar o trabalho missionário em regiões distantes e abandonadas da própria diocese ou em outras dioceses.

Os religiosos, as religiosas e os leigos fervam no mesmo zelo para com os seus concidadãos, principalmente para com os mais pobres.

Providenciem as Conferências Episcopais que, em datas certas, se realizem cursos de renovação bíblica, teológica, espiritual e pastoral, no intuito de fazer o clero adquirir um conhecimento mais completo da ciência teológica e dos métodos pastorais, nesta época de tantas variações e mudanças.

Quanto ao mais, observe-se cuidadosamente tudo aquilo que este Concílio promulgou, principalmente no decreto sobre o Ministério e a Vida dos Sacerdotes.

Para essa obra missionária da Igreja particular chegar a cabo, exigem-se ministros capazes, oportunamente preparados de modo condizente a situação de cada Igreja. Aumentando sempre mais o número de associações humanas, é de suma conveniência que as Conferências Episcopais façam reuniões para combinar como encetar o diálogo com elas. Mas de suceder encontrarem-se em certas regiões sociedades que não podem abraçar a fé católica, acomodando-se-lhe, e isto por causa da forma particular que a Igreja aí assumiu, é de desejar que se tomem providências especiais para tal situação4, até que todos os cristãos se possam congregar numa só comunidade. Caso a Sé Apostólica disponha de missionários para tal fim, chamem- nos os Bispos as duas dioceses ou os recebam de bom grado, favorecendo eficazmente as suas iniciativas.

4 Cf. Decr. Sobre o Ministério e a Vida dos Sacerdotes Presbyterorum Ordinis, n. 10, onde, para facilitar os trabalhos de pastoral especiais aos diversos grupos da sociedade, se prevê a constituição de prelaturas pessoais enquanto o exigir o melhor modo de exercer o apostolado com eficiência.

 

Para que esse zelo missionário floresça entre os compatriotas, muito convém que essas Igrejas novas, mesmo que sofram escassez de clero, o mais cedo possível cooperem com a missão universal da Igreja, enviando elas mesmas missionárias que anunciem o Evangelho por toda a terra. Pois a comunhão com a Igreja universal de certo modo se completara quando elas próprias participarem ativamente do zelo missionário para com todos os povos.

Promoção do apostolado dos leigos

21. A Igreja não se acha deveras consolidada, não vive plenamente, não é um perfeito sinal de Cristo entre os homens, se aí não existe um laicato de verdadeira expressão que trabalhe com a hierarquia. Porque o Evangelho não pode ser fixado na índole, na vida e no trabalho dum povo, sem a ativa presença dos leigos. Por isso desde a fundação da Igreja, tenha-se o máximo cuidado em constituir um laicato cristão maduro.

Os fiéis leigos pertencem plenamente tanto ao Povo de Deus como a sociedade civil. Fazem parte do povo que os viu nascer. Pela educação começaram a participar de seus tesouros culturais. Ligam-se a sua vida por multiformes laços sociais. Cooperam para o seu progresso, no exercício da profissão. Sentem como próprios os seus problemas e se esforçam por solucioná-los. São também de Cristo porque foram regenerados na Igreja pela fé e pelo batismo para, em novidade de vida e obras, serem de Cristo.5 Assim em Cristo tudo será sujeito a Deus e afinal Deus será tudo em todas as coisas.6

5 Cf. 1 Cor 15,23. 6 Cf. 1 Cor 15,28.

 

O principal dever dos homens e das mulheres é dar testemunho de Cristo pelo exemplo e pela palavra, na família, no seu ambiente social e no âmbito da profissão. Importa que neles transpareça o novo homem, criado segundo Deus na justiça e na santidade da verdade.7 Devem manifestar essa vida nova no âmbito da sociedade e da cultura pátrias, segundo as suas tradições nacionais. Devem conhecer essa cultura, purificá-la e conservá-la, desenvolvê-la segundo as recentes situações, e finalmente aperfeiçoá-la em Cristo. Destarte a fé em Cristo e a vida da Igreja já não serão estranhas a sociedade em que vivem, mas começarão a penetrá-la e a transformá-la. Unam-se a seus concidadãos numa caridade sincera, para que em sua vida manifeste a novo vínculo de unidade e solidariedade universal, haurido do mistério de Cristo. Propaguem também a fé de Cristo entre aqueles a que os ligam as relações de vida e a profissão. Essa obrigação tanto mais se impõe quando muitos homens não podem a não ser pelos leigos mais próximos ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. E até se prontifiquem os leigos, se possível, para em mais estreita cooperação com a hierarquia executar uma missão especial de anunciar o Evangelho e transmitir a doutrina cristã, para aumentar o vigor da Igreja nascente.

7 Cf. Ef 4,24.

 

Os ministros da Igreja valorizem o operoso apostolado dos leigos. Formem leigos que, como membros de Cristo, estejam conscientes de sua responsabilidade por todos os homens. Instruam-nos solidamente no mistério de Cristo. Introduzam-nos nos métodos práticos e assistam-nos nas dificuldades, segundo a mente da Constituição sobre a Igreja e o Decreto sobre o Apostolado dos Leigos.

Respeitadas as atribuições e responsabilidades próprias dos pastores e dos leigos, toda a Igreja nova preste um só testemunho vivo e firme de Cristo, a fim de que ela se torne lúcido sinal da salvação que em Cristo nos chegou.

Diversidade na unidade

22. A semente que é a palavra de Deus, germinando em terra boa, irrigada pelo orvalho divino, extrai a seiva, transforma-a e a assimila a si para então dar fruto abundante. De um modo semelhante a economia da Encarnação, as Igrejas novas radicadas em Cristo, e superedificadas sobre o fundamento dos Apóstolos, assumem em admirável intercâmbio todas as riquezas das nações, herança de Cristo.8 Tomam emprestado dos costumes e tradições, do saber e doutrina, das artes e sistemas dos seus povos tudo o que pode contribuir para glorificar o Criador, para ilustrar a graça do Salvador e para ordenar convenientemente a vida cristã.9

8 Cf. Sl 2,8. 9 Cf. Conc. Vat. II, Const. Dogm, sobre a Igreja Lumen Gentium, n. 13: AAS 57 (1965) pp. 17-18.

 

Para conseguir tal objetivo é necessário que se estimule em cada grande território sócio-cultural a pesquisa teológica. Na esteira da tradição da Igreja universal, submetam-se a nova investigação os fatos e as palavras revelados por Deus, consignados nas Sagradas Escrituras e explicados pelos Padres e pelo Magistério da Igreja. Assim mais claramente se perceberá por que caminhos a fé procurar a inteligência. Fé que leva em conta a filosofia adaptar os costumes, os modos de vida e a ordem social aos procedimentos indicados pela revelação divina. Daí se abrirão caminhos para uma mais profunda adaptação em todo o âmbito da vida cristã. Esse modo de agir afastará toda espécie de sincretismo e falso particularismo, acomodará a vida cristã ao modo e índole de qualquer cultura.10 As tradições particulares de cada geração, aclaradas pela luz do Evangelho, virão acrescentar-se a unidade católica. Enfim as recentes Igrejas particulares, ornadas de suas tradições, terão sua posição na comunhão eclesiástica, continuando íntegro o primado da Cátedra de Pedro, que preside a união universal da caridade.¹¹
10 Cf. Alocução de Paulo Vi na canonização dos Ss. Mártires de Uganda, 18-10-194: AAS 56 (1964), p. 908. ¹¹ Cf. Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja Lumen Gentium, n. 13: AAS 57 91965), p. 18.

 

É de desejar e mesmo convém de todo que dentro dos limites de cada grande território sócio-cultural, as conferências episcopais mantenham intima comunicação entre si. Destarte em comum acordo poderão perseguir este objetivo da adaptação.

CAPÍTULO IV: OS MISSIONÁRIOS

Vocação missionária

23. Cada discípulo de Cristo tem sua parte na tarefa de propagar a fé.¹ Mas Cristo, o Senhor, apesar disso sempre chama dentre os discípulos aqueles que Ele mesmo quer, para que estejam com Ele e os envia a pregar aos povos. ² Por isso através do Espírito Santo, que distribui os carismas para a utilidade, como quer ³, inspira a vocação missionária no coração de cada um e suscita Institutos na Igreja4, que aceitem como ofício próprio a tarefa da evangelização, dever de toda a Igreja.

¹ Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja Lumen Gentium, n. 17: AAS (1965), p. 21.

² Cf. Mc 3,13 s.

³ Cf. 1 Cor 12,11.

4 Por “Institutos” se entendem as Ordens, Congregações, Institutos e Associações que trabalham nas Missões.

 

Pode-se dizer marcados por especial vocação os sacerdotes, os religiosos e os leigos, autóctones ou estrangeiros, possuidores de boa índole e dotados de talento e inteligência, que se acham preparados para empreender a obra missionária.5 Enviados pela legítima autoridade, na fé e na obediência, vão aqueles que estão longe de Cristo, segregados para o trabalho a que foram escolhidos6, como ministros do Evangelho “para que a oblação dos gentios seja aceita, santificada pelo Espírito Santo” (Rom 15,16).

5 Cf. Pio XI, Rerum Ecclesiae, 28-2-1926: AAS 18 (1926), pp. 69-71; Pio XII, Saeculo exeunte, 13-6-1940: AAS 32 (1940), p. 256; Evangelii Pracones, 2-6-1952: AAS 43 (1951), p. 506. 6 Cf. At 13,2.

Espiritualidade missionária

24. Quando Deus chama, deve o homem reponder-Lhe de tal modo que, sem mesmo atender a carne e ao sangue7, se ligue de corpo e alma a obra do Evangelho. Mas não pode dar essa resposta sem o estimulo e o rebustecimento do Espírito Santo. Ao ser enviado entra na vida e na missão d’Aquele que “se aniquilou a Si mesmo, tomando a forma de servo” (Filip 2,7). Por isso deve estar preparado a dedicar a vida a sua vocação, a renunciar a si e a tudo o que até então considerou seu, e a “fazer-se tudo para todos”.8

Anunciando o Evangelho entre os povos, com confiança torne conhecido o mistério de Cristo, em cujo nome exerce sua delegação. N’Ele, ousara falar como convém9 e não se envergonhará do escândalo da cruz. Seguindo as pegadas do Seu Mestre, manso e humilde de coração, mostre que o Seu jugo é suave e o peso, leve.10 Por uma vida deveras evangélica¹¹, em muita paciência, em longanimidade, em suavidade, em caridade não fingida¹², dê testemunho a seu Senhor, se necessário, até a efusão do sangue. Deus lhe dará a virtude e a fortaleza para conhecer que a abundância do gozo consiste na intensa experiência da tribulação e da altíssima pobreza.¹³ Deve estar persuadido de que a obediência é a virtude peculiar do ministro de Cristo, que por ela remiu o gênero humano.

9 Cf. Ef 6,19 s; At 4,31;.

10 Cf. Mt 11,29 s.

¹¹ Cf. Bento XV, Maximum illud, 30-11-1919: AAS 11 (1919). Pp. 490-450.

¹² Cf. 2 Cor 6,4 s.

¹³ Cf. 2 Cor 8,2.

 

Os arautos do Evangelho, para não negligenciar a graça que neles está, renovem dia a dia espiritualmente a sua mentalidade.14 Os ordinários e os superiores, em datas marcadas, reunam os missionários para que se robusteçam na esperança da vocação e se renovem no ministério apostólico. Para esse fim devem existir casas apropriadas.

14 Cf. 1 Tim 4,14; Ef 4,23; 2 Cor 4,16.

Formação espiritual e moral

25. Para tão preclara tarefa prepare-se o futuro missionário através de especial formação espiritual e moral.15 Ele deve ser pronto no começar, constante no completar as tarefas, perseverante nas dificuldades, suportando paciente e corajosamente a solidão, a fadiga, o trabalho sem frutos. Com toda a generosidade vá ao encontro dos homens. Aceite de boa mente os trabalhos que lhe confiam. Adapte-se generosamente aos costumes estranhos dos povos e as variáveis condições. Na mútua caridade e na concórdia colabore com os irmãos e com todos os que se dedicam ao mesmo trabalho, para que unidos aos fiéis, a imitação da comunidade apostólica, sejam um só coração e uma só alma.16

15 Cf. Bento XV, Maximum illud, 30-11-1919: AAS 11 (1919) pp. 449-450; Pio XII, Evangelli Praecones, 2-6-1951: AAS 43 (1951), p. 507. – Na formação dos sacerdotes missionários também se leve em conta o que se estabelece no Conc. Vat. II, Decreto sobre a Formação Sacerdotal Optatam Totius.

16 Cf. At 2,42; 4,43.

 

Sejam esforçadamente exercitados e cultivados esses hábitos d’alma já no tempo da formação. Elevados e nutridos pela vida espiritual. Imbuídos de fé viva e de esperança inabalável, seja o missionário um homem de oração. Arda no espírito de fortaleza, amor e sobriedade.17 Aprenda a contentar-se com a sua situação.18 Em espírito de sacrifício leve em si a morte de Jesus, para que a vida de Jesus opere naqueles aos quais é enviado.19 De boa vontade tudo gaste e se desgaste a si mesmo pelo zelo das almas20, para que “todos os dias exercendo o seu ofício, cresça no amor a Deus e ao próximo”.²¹ Deste modo obedecendo com Cristo a vontade do Pai, continuará a Sua missão sob a autoridade hierárquica da Igreja, e cooperará no mistério da salvação.

17 Cf. 2 Tim 1,7.

18 Cf. Filip 4,11.

19 Cf. 2 Cor 4,10 ss.

20 Cf. 2 Cor 12,15 s.

²¹ Cf. Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja Lumen Gentium, n. 41: AAS 57 (1965), p. 46.

Formação doutrinal e apostólica

26. Os enviados a outros povos, como bons ministros de Cristo, sejam alimentados “com as palavras da fé e da boa doutrina” (1 Tim 4,6), que hão de haurir principalmente das Sagradas Escrituras. Nelas hão de perscrutar o mistério de Cristo, do qual serão os arautos e as testemunhas.

Por isso todos os missionários – sacerdotes, irmãos, irmãs, leigos – cada um seja preparado e formado de acordo com a sua condição, para se acharem a altura das exigências do trabalho futuro. ²² Já desde o início a sua formação doutrinal abrace a totalidade da Igreja e a diversidade dos povos. Isto vale acerca de todas as disciplinas que os preparam para o seu ministério. Vale também acerca das outras ciências que lhes subministram um conhecimento geral dos povos, culturas, religiões, com relação ao passado e ao presente. Naturalmente, qualquer um que se vai aproximar dalgum povo deve ter em grande estima seu patrimônio, línguas e costumes. Antes de tudo é preciso que o futuro missionário se aplique aos estudos missiológicos, isto é, que conheça a doutrina e as normas da Igreja a respeito da atividade missionária. Que saiba quais os caminhos percorridos pelos arautos do Evangelho no decurso dos séculos, e também a presente situação das missões e os métodos que hoje se consideram mais eficazes. ²³

²² Cf. Bento XV, Maximum illud, 30-11-1919: AAS 11 (1919), p. 440; Pio XII, Evangelii Praecones, 2-6-1951: AAS 43 (1951), p. 507.

²³ Bento XV, Maximum illud, 30-11-1919: AAS 11 (1919), p. 448; Decreto da S. C. de Propaganda Fide, 20-5-1923: AAS 15 (1923), pp. 369-370; Pio XII, Saeculo exeunte, 2-6-1940: AAS 32 (1940), p. 256; Evangelii Praecones, 2-6-1951: AAS 43 (1951), p. 507; João XXIII, Princeps Pastorum, 28-11-1959: AAS 51 (1959), pp. 843-844.

Toda essa formação deve estar penetrada de solicitude pastoral. Mas ministre-se também uma especial e ordenada formação apostólica, ao mesmo tempo doutrinal e prática.24

24 Conc. Vaticano II. Decreto sobre a Formação Sacerdotal Optatam Totius, nn. 19-21. Cf. ainda a Constituição Apostólica Sedes Sapientiae, com os Estatutos Gerais, 31-5-1956: AAS 48 (1956) pp. 354-365.

Sejam bem instruídos e preparados na Catequese muitos irmãos e irmãs, para que possam colaborar ainda mais no apostolado.

Também os que temporariamente se dedicam a atividade missionária precisam adquirir formação adequada a sua situação.

Completem-se esses vários tipos de formação nos países aos quais os missionários são enviados. Deste modo melhor conhecerão a história, as estruturas sociais, os costumes dos povos. Claramente perceberão a ordem moral, os preceitos religiosos e as convicções que eles se formaram de acordo com suas tradições sagradas sobre Deus, o mundo e o homem.25 Aprendam tão bem as línguas, que pronta e corretamente as possam usar. Assim terão mais fácil acesso a intimidade dos homens.26 Ademais sejam devidamente introduzidos nas necessidades pastorais peculiares.

25 Pio XII, Evangelii Praecones, 2-6-1951: AAS 43 (1951), pp. 523-524. 26 Bento XV, Maximum illud, 30-11-1919: AAS 11 (1919), p. 448; Pio XII, Evangelii Praecones, 2-6-1951: AAS 43 (1951), p. 507.

 

Alguns ainda recebam mais apurada preparação nos institutos missionários, noutras faculdades ou universidades, para mais eficazmente exercerem cargos especiais27 e poderem com o seu conhecimento ajudar aos outros missionários, no desempenho da sua tarefa, que principalmente hoje em dia oferece tantas dificuldades e oportunidades. É sumamente desejável tenham as conferências regionais episcopais muito desses peritos a disposição. Recorram a sua ciência a experiência nas dificuldades do seu cargo. Nem faltem peritos em instrumentos técnicos e de comunicação social, cuja importância todos devem reconhecer.

Os institutos que trabalham nas missões

27. Dificilmente um indivíduo sozinho conseguirá realizar tudo isto, embora seja tudo indispensável a cada missionário. Atesta a experiência que a própria obra missionária não pode ser realizada por um só indivíduo. Por isso a vocação comum reuniu os indivíduos em institutos, nos quais, reunindo as forças, recebem idônea formação e realizam esta obra em nome da Igreja e sob a autoridade da hierarquia. Esses institutos já faz séculos suportaram o peso do dia e do calor, devotando-se ao trabalho missionário integralmente ou em parte. Muitas vezes a Santa Sé lhes confiou a evangelização de vastos territórios, nos quais reuniram um novo povo a Deus, a Igreja local obediente aos seus pastores próprios. Após fundarem Igrejas com o seu suor e mesmo com o próprio sangue, pelo zelo e pela experiência hão de servir em fraterna cooperação seja no trabalho pastoral, seja nas tarefas especiais para o bem comum.

As vezes se encarregarão de trabalhos mais urgentes em prol de toda uma região, por ex., evangelizar grupos ou povos que talvez por motivos especiais ainda não aceitaram a mensagem evangélica ou que até agora lhe resistiram.28

28 Cf. Conc. Vat. II, Decreto sobre o Ministério e a Vida dos Presbíteros Presbyterorum Ordinis, n. 10, onde se trata das dioceses e prelaturas pessoais e outros assuntos afins.

Se necessário, estejam prontos a ajudar e a formar com a sua experiência aqueles que temporariamente se dedicam a atividade missionária.

Por essas razões e porque ainda restam muitos povos para levar a Cristo, continuam sobremodo necessários os institutos.

CAPÍTULO V: A ORGANIZAÇÃO DA ATIVIDADE MISSIONÁRIA

Introdução

28. Tendo recebido dons diferentes¹, os fiéis devem colaborar no Evangelho, cada um conforme sua oportunidade, faculdade, carisma e função. ² Todos os que semeiam e colhem ³, que plantam e regam, convém sejam um só4, para que assim, “trabalhando livre e ordenadamente para o mesmo fim”5, empenhem unanimemente as suas forças na edificação da Igreja.

¹ Cf. Rom 12,6.

² Cf. 1 Cor 3,10.

³ Cf. Jo 4,37.

4 Cf. 1 Cor 3,8.

5 Cf. Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja Lumen Gentium, n. 18: AAS 57 (1965), p. 22.

 

Eis por que os trabalhos dos arautos do Evangelho e os auxílios dos demais cristãos devem de tal forma ser dirigidos e combinados, que “tudo se faça com ordem” (1 Cor 14,40) em todos os campos da atividade e cooperação missionária.

Organização geral

29. O encargo de anunciar por toda parte o Evangelho cabe em primeiro lugar ao Corpo Episcopal.6 Sendo assim, o Sínodo dos Bispos ou “estável Conselho dos bispos para a Igreja toda”7, entre as tarefas de interesse geral8, de particular importância a atividade missionária, o maior e o mais santo dever da Igreja.9

6 Cf. Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja Lumen Gentium, n. 23: AAS 57 (1965), p. 28.

7 Cf. Motu proprio Apostólica Sollicitudo, 15-9-1965: AAS 57 (1965), p. 776.

8 Cf. Paulo VI, Alocução do dia 21-11-1964, feita no Concílio: AAS 56 (1964), p. 1011.

9 Cf. Bento XV, Maximum illud, 30-11-1919: AAS 11 (1919), pp. 39-40.

 

Convém que haja para todas as missões e toda a atividade missionária apenas um Dicastério competente, a saber, o “De Propaganda Fide”, que em toda parte dirija e coordene a própria obra e a cooperação missionárias, salvo contudo o direito das Igrejas Orientais.10

10 Se algumas missões, por motivos especiais, ainda se acham temporariamente sob outros dicastérios, convém que esses se relacionem com a S. Congreg. “de Propaganda Fide”, para que se possa obter um método e norma absolutamente constantes e uniformes na organização e direção de todas as missões.

De muitos modos o Espírito Santo estimula o espírito missionário na Igreja de Deus, e não raro se antecipa a ação daqueles que lhe dirigem a vida. Todavia por sua parte deve também esse Dicastério promover a vocação e a espiritualidade missionária, o zelo e a oração pelas missões, e a respeito dessas últimas ainda apresentar notícias genuínas e adequadas. Suscite os missionários e distribua-os conforme as mais prementes necessidades das regiões. Prepare o plano de ação. Trace normas diretivas e princípios adaptados para a Evangelização. Estimule. Excite e coordene eficaz coleta de subsídios, para distribuí-los conforme o exigirem a necessidade ou utilidade e também a extensão do território, o número dos fiéis e infiéis, obras e instituições, ministros e missionários.

Juntamente com o Secretariado para União dos cristãos, busque os caminhos e meios de estabelecer e ordenar a colaboração fraterna como também a convivência com as iniciativas missionários doutras comunidades cristãs, para que se remova na medida do possível o escândalo da divisão.

Por isso se faz necessário que esse Dicastério seja um instrumento de administração e um órgão de direção dinâmica. Use de métodos científicos e instrumentos adaptados as atuais circunstâncias, isto é, levando em conta a hodierna investigação teológica, metodológica e pastoral-missionária.

Na direção desse Dicastério tenham parte ativa com voto deliberativo representantes escolhidos dentre todos os colaboradores na obra missionária: bispos de todo o orbe, ouvidas as Conferências Episcopais; também moderadores dos Institutos e Obras Pontifícias. Os modos e os métodos serão instituídos pelo Romano Pontífice. Todos esses, convocados em datas certas, exerçam a chefia suprema de toda a obra missionária, sob a autoridade do Sumo Pontífice.

Deve ficar a disposição desse dicastério um grupo permanente de consultores peritos, de provada ciência e experiência. Entre outras coisas lhe caberá coligir informações oportunas sobre a situação local das várias regiões, sobre o modo de pensar dos diversos grupos humanos, sobre os métodos de evangelização a empregar, e também apresentar conclusões cientificamente fundadas em prol da obra e cooperação missionária.

Organização local nas missões

30. Para que no exercício da própria ação missionária se alcancem os fins e os efeitos tenham todos os operários missionários “um só coração e uma só alma” (At 4,32).

Cabe ao bispo, chefe e centro da unidade no apostolado diocesano, promover a atividade missionária, dirigi-la e coordená-la. Sem no entanto excluir e deixar de estimular a espontânea iniciativa dos cooperadores. Todos os missionários, também os religiosos isentos, estão sujeitos ao seu poder nas várias obras relativas ao exercício do santo apostolado.¹¹ Para melhor coordenação o bispo forme, se possível, um conselho pastoral, em que tomem parte clérigos, religiosos e leigos, mediante representantes escolhidos. Cuide além disso que a atividade apostólica não se limite apenas aos já convertidos, mas que se destine uma devida parte de operários e de recursos a evangelização dos não-cristãos.

¹¹ Cf. Conc. Vat. II, Decreto sobre o Múnus Pastoral dos Bispos na Igreja Christus Dominus, n. 35, 4.

Coordenação regional

31. As Conferências Episcopais em assembléia comum tratem as questões de mor peso e os problemas urgentes, sem contudo negligenciar as diferenças locais.¹² Para não se desperdiçar a reduzida quantidade de pessoas e recursos, nem se multiplicarem desnecessariamente as iniciativas, recomenda-se que reunindo as forças, fundem obras úteis ao bem de todos, como, por ex. seminários, escolas superiores e técnicas, centros pastorais, catequéticos, litúrgicos, e também de instrumentos de comunicação social.

¹² Cf. Conc. Vat. II, Decreto sobre o Múnus Pastoral dos Bispos na Igreja Christus Dominus, nn. 36-38.

Empreenda-se a mesma cooperação, conforme a oportunidade, também entre as diversas conferências episcopais.

Organização da atividade dos institutos

32. Convém ainda coordenar as atividades exercidas pelos Institutos ou Associações Eclesiásticas. Todos eles, de qualquer gênero que forem, em tudo o que diz respeito a própria atividade missionária, obedeçam ao ordinário do lugar. Por isso será muito útil que se façam acordos particulares, para regular as relações entre o Ordinário do lugar e o moderador do Instituto.

Quando a um Instituto for confiado um território, o Superior Eclesiástico e o Instituto terão o encargo de orientar tudo para esse fim, com o fito de que a nova comunidade cristã cresça na Igreja local. Oportunamente será entregue a direção do próprio Pastor com seu clero.

Cessando a comissão do território surge nova situação. Então as Conferências dos bispos e os Institutos de comum acordo estabeleçam normas, que regulem as relações entre os ordinários locais e os institutos.¹³ Caberá a Santa Sé delinear os princípios gerais para a realização das reuniões regionais ou também particulares.

¹³ Cf. Conc. Vat. II, Decreto sobre o Múnus Pastoral dos Bispos na Igreja Christus Dominus, n. 35, 5-6.

Certamente os Institutos estarão preparados para continuar o trabalho encetado, colaborando no ministério ordinário da cura d’almas. Mas ao crescer o clero local, providencie-se que os Institutos, enquanto for compatível com seu fim, permaneçam fiéis a própria Diocese, generosamente encarregando-se de trabalhos especiais ou dalguma região nela.

Coordenação entre os institutos

33. Os Institutos que no mesmo território se dedicam a atividade missionária devem procurar caminhos e meios de coordenar os trabalhos. Para isso são de suma utilidade as Conferências de religiosos e as Uniões de religiosas, das quais participem os Institutos do mesmo país ou região. Essas Conferências indaguem o que poderia ser realizado num esforço comum, e se unam intimamente as Conferências Episcopais.

Convém estender tudo isso também a colaboração dos Institutos missionários na pátria. Assim as questões e as iniciativas comuns poderão resolver-se mais facilmente com menos despesas. Por ex., a formação doutrinal dos futuros missionários, os cursos para missionários, e as relações com as autoridades públicas ou órgãos internacionais e supranacionais.

Coordenação entre os institutos científicos

34. O reto e o ordenado exercício da atividade missionária impõe aos operários evangélicos a necessidade duma preparação científica para suas tarefas, principalmente para o diálogo com as religiões e culturas não-cristãs. Para realizá-las precisam de auxílio eficaz. Por isso é de desejar que em favor das missões colaborem entre si generosa e fraternalmente quaisquer institutos científicos que cultivam a missiologia e outras disciplinas ou artes úteis as missões, como etnologia e lingüística, história e ciência das religiões, sociologia, artes pastorais e afins.

CAPÍTULO VI: A COOPERAÇÃO

Introdução

35. Toda a Igreja é missionária e a obra de evangelização, o dever fundamental do Povo de Deus. Eis por que o Santo Sínodo convida todos a profunda renovação interior para, fazendo-se vivamente conscientes da própria responsabilidade na difusão do Evangelho, tomarem o devido lugar na obra missionária entre os povos.

Dever missionário de todo o Povo de Deus

36. Como membros de Cristo vivo, a Ele incorporados e configurados pelo Batismo e também pela Confirmação e a Eucaristia, obrigados se acham todos os fiéis ao dever de cooperar na expansão e dilatação de seu corpo, para levarem quanto antes a plenitude.¹

¹ Cf. Ef 4,13.

 

Convençam-se por isso vivamente todos os filhos da Igreja de sua responsabilidade para com o mundo. Fomentem em si um espírito verdadeiramente católico. Empenhem-se com afinco na obra da evangelização. Contudo saibam todos que seu primeiro e principal dever pela difusão da fé consiste em viver profundamente a vida cristã. Pois seu fervor no serviço de Deus e sua caridade para com os outros trarão novo sopro espiritual a toda a Igreja, que aparecerá como sinal levantado as nações ², “luz do mundo” (Mt 5,14) e “sal da terra” (Mt 5,13). Mais facilmente se tornará eficaz esse testemunho da vida se praticado juntamente com outras confissões cristãs, conforme as normas do Decreto sobre o Ecumenismo. ³

² Cf. Is 11,12.

³ Cf. Conc. Vat. II, Decreto sobre o Ecumenismo Unitatis Redintegratio, n. 12: AAS 57 (1965), p. 99.

Nesse renovado espírito se oferecerão a Deus preces e obras de penitência para que fecunde com sua graça o labor dos missionários. Então, hão de surgir vocações missionárias e aparecerão os recursos de que carecem as missões.

Para que todos os fiéis conheçam perfeitamente a situação atual da Igreja no mundo, e ouçam a voz das multidões gritando: “Ajuda-nos”4, forneçam-se notícias missionárias, também mediante os meios modernos de comunicação social, de forma que, sentindo sua atividade missionária, abram o coração a tão imensas e profundas necessidades dos homens e a elas possam socorrer.

4 Cf. At 16,9.

Deve-se igualmente coordenar as notícias e a cooperação com os órgãos nacionais e internacionais.

Dever missionário das comunidades cristãs

37. Vive o Povo de Deus em comunidades, principalmente diocesanas e paroquiais, e nelas aparece de certo modo visivelmente. Em conseqüência cabe-lhes também testemunhar Cristo diante das nações.

Não pode crescer nas comunidades a graça da renovação, se não dilatar cada uma os espaços da caridade até os confins da terra, cuidando igualmente dos de longe como dos membros próprios.

Assim toda a comunidade reza, coopera e exerce atividade entre os povos por seu filhos que Deus escolhe para esse excelentíssimo ofício.

Contanto que se não negligencie a obra missionária universal, utilíssimo será conservar a união com os missionários oriundos da própria comunidade, ou com alguma paróquia ou diocese das missões. Torna-se assim visível a comunhão entre as comunidades, revertendo isto em edificação mútua.

Dever missionário dos bispos

38. Todos os bispos, como membros do corpo episcopal, sucessor do Colégio dos Apóstolos, foram consagrados não só para uma diocese, mas para a salvação do mundo inteiro. Com Pedro e sob Pedro, primária e imediatamente toca-lhes o mandato de Cristo de pregar o Evangelho a toda criatura.5 Daí surge aquela comunhão e cooperação das Igrejas, hoje tão necessária para prosseguir a obra da evangelização. Graças a essa comunhão, cada Igreja traz a solicitude de todas as outras. Manifestam elas mutuamente as próprias necessidades. Comunicam entre si to é dever de todo o Colégio episcopal.6

5 Cf. Mc 16,15.

6 Cf. Conc. Vat. II, Const. Dogm, sobre a Igreja Lumen Gentium, nn. 23-24: AAS 57 (1965), pp. 27-29.

 

O bispo em sua diocese, com a qual constitui uma só coisa, torna presente e quase visível o espírito e o ardor missionário do Povo de Deus, suscitando, promovendo e dirigindo a obra missionária, de modo que toda a diocese se faz missionária.

Deverá o bispo entre o seu povo, sobretudo entre os enfermos e os aflitos, suscitar amas que de todo o coração ofereçam a Deus orações e obras de penitência pela evangelização do mundo. De bom grado fomente as vocações de jovens e clérigos aos institutos missionários, alegrando-se quando Deus escolher alguns que se dediquem a atividade missionária da Igreja. Estimule e ajude as congregações diocesanas a tomarem a própria parte nas missões. Promova junto aos fiéis as obras dos institutos missionários, e principalmente as Obras Pontifícias Missionárias. A estas Obras por direito se deve dar o primeiro lugar por serem capazes de penetrar os católicos desde a infância dum sentido verdadeiramente universal e missionário, como também de promover eficaz coleta de socorros para o bem de todas as missões, conforme a necessidade de cada uma.7

7 Cf. Bento XV. Maximum illud, 30-11-1919: AAS 11 (1919), pp. 453-454; Pio XI, Rerum Ecclesiae, 28-2-1926: AAS 18 (1926), pp. 71-73; Pio XII, Evangelii Praecones, 2-6-1951: AAS 43 (1951), pp. 525-526; Idem, Fidei donun, 21-4-1957: AAS 49 (1957), p. 241,

Dia a dia cresce a necessidade de operários na vinha do Senhor, e desejam os sacerdotes diocesanos, também eles, sempre mais participar da evangelização do mundo. Por isso o Santo Sínodo ardentemente deseja que os bispos, considerando a gravíssima penúria de sacerdotes – impedimento a evangelização de muitas regiões – enviem as dioceses faltas de clero alguns dos seus melhores sacerdotes. Estes se ofereçam para o trabalho missionário, após a devida preparação e lá, ao menos temporariamente exerçam ministério missionário em espírito de serviço.8

8 Cf. Pio XII, Fidei donum, 21-4-1957: AAS 49 91957), pp. 245-246.

E para que os bispos possam mais eficazmente exercer a atividade missionária em proveito de toda a Igreja convém que as conferências episcopais dirijam os trabalhos relativos a ordenada cooperação da própria região..

Em suas Conferências tratem os bispos a respeito dos sacerdotes do clero diocesano a empregar na evangelização dos povos; de certa taxa proporcional as próprias rendas que cada diocese anualmente deve dar para a obra das missões 9; da direção e organização dos modos e meios de ajudar diretamente as missões; dos institutos missionários e seminários do clero diocesano destinados ao auxílio das missões, fundando-os, se necessário; do fomento de laços mais íntimos entre esses institutos e as dioceses.

9 Conc. Vat. II. Decreto sobre o múnus pastoral dos bispos na Igreja Christus Dominus, n. 6.

Pertence igualmente as Conferências episcopais fundar e promover obras para fraternamente receber e com o devido cuidado pastoral amparar os que, por motivos de trabalho e estudos, emigram das terras de missão. Porque por eles os povos longínquos de certa forma se tornam vizinhos, e as comunidades de há muito cristãs se oferece último ensejo de diálogo com as nações que ainda não ouviram o Evangelho, e de lhe mostrar, no próprio ofício do amor e solidariedade, o autêntico rosto de Cristo.10

10 Cf. Pio XII, Fideu donum, 21-4-1957: AAS 49 (1957), p. 245.

Dever missionário dos presbíteros

39. Os presbíteros representam a pessoa de Cristo e são cooperadores da ordem episcopal, no tríplice dever sagrado que por sua natureza se relaciona com a missão da Igreja.¹¹ Compreendam portanto profundamente que sua vida foi consagrada também para o serviço das missões. Pelo próprio ministério – que consiste principalmente na Eucaristia, a qual conduz a Igreja a perfeição – comungam com Cristo, a Cabeça, e levam outros a essa comunhão. Não podem, diante disto, deixar de sentir o quanto ainda falta para a plenitude do Corpo, e quanto por isso se deve trabalhar para crescer dia a dia. Ordenarão portanto a cura pastoral de modo que sirva a expansão do Evangelho junto aos não-cristãos.

¹¹ Cf. Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja Lumen Gentium, n. 28: AAS 57 (1965), p. 34.

 

Os presbíteros no trabalho pastoral excitarão e conservarão entre os fiéis o zelo pela evangelização do mundo. Nas catequeses e pregações instruí-los-ão sobre o múnus da Igreja de anunciar Cristo aos povos. Esclareçam as famílias cristãs sobre a necessidade e a honra de entre os próprios filhos e filhas cultivar as vocações missionárias. Fomentem o fervor missionário nos jovens das escolas e associações católicas, de modo que deles venham a surgir os futuros arautos do Evangelho. Ensinem os fiéis a rezar pelas missões, nem se envergonhem de lhes pedir esmolas, tornando-se como que mendigos por Cristo e pela salvação das almas.¹²

¹² Cf. Pio XII, Rerum Ecclesiae, 28-2-1926: AAS 28 (1926), p. 72.

 

Os professores dos seminários e das universidades darão a conhecer aos jovens a verdadeira situação do mundo e da Igreja, para que se lhes manifeste a necessidade duma evangelização mais solicita dos não-cristãos e lhes alimente o zelo. E no ensino das disciplinas dogmáticas, bíblicas, morais e históricas realcem os motivos missionários nelas contidos, para que assim se forme nos futuros sacerdotes a consciência missionária.

Dever missionário dos institutos de perfeição

40. Os institutos religiosos de vida contemplativa e ativa até hoje desempenharam e desempenham importantíssimo papel na evangelização do mundo. De bom grado lhes reconhece os méritos o Sacrossanto Sínodo e agradece a Deus por tantos esforços dispendidos pela glória divina e no serviço das almas, e os exorta a prosseguirem sem desfalecimento na obra encetada. Pois eles sabem que a virtude da caridade, que devem por vocação cultivar mais perfeitamente, os impele e obriga a um espírito e trabalho deveras católico.13

13 Cf. Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja Lumen Gentium, n. 44: AAS 57 (1965), p. 50.

 

Os institutos de vida contemplativa com suas orações, obras de penitência e tribulações tem importantíssimo papel na conversão das almas. Pois Deus é quem manda operários a Sua messe, quando se Lhe suplica.14 Abre a alma dos não-cristãos para ouvirem o Evangelho.15 E lhes fecunda nos corações o verbo da salvação.16 Pede-se ainda que esses institutos fundem casas em terras de missões, como muitos já fizeram. Ali vivam de modo adaptado as tradições genuinamente religiosas dos povos, e assim dêem entre is não-cristãos um preclaro testemunho da majestade e do amor divinos, como também da união em Cristo.

14 Cf. Mt 9,38.

15 Cf. At 16,14.

16 Cf. 1 Cor 3,7.

 

Os institutos de vida ativa, com ou sem finalidade estritamente missionária, interroguem-se sinceramente diante de Deus sobre a possibilidade de estender sua atividade para a expansão do reino de Deus entre as nações. Se poderão deixar alguns encargos a outros, para assim empenharem as forças pelas missões. Se esta em suas posses empreender uma atividade missionária, adaptando, se preciso, as Constituições, mas conforme o espírito do fundador. Se os seus membros com todas as forças participam da atividade missionária. Se o seu teor de vida dá testemunho do Evangelho, acomodado a índole e a situação do povo.

Dia a dia surgem na Igreja, por inspiração do Espírito Santo, institutos seculares. Seu trabalho, sob a autoridade do bispo, de muitas formas pode trazer frutos as missões, como um sinal da completa entrega a evangelização do mundo.

Dever missionário dos leigos

41. Cooperam os leigos na obra evangelizadora da Igreja, e ao mesmo tempo como testemunhas e instrumentos vivos participam da sua missão salvífica17, principalmente quando chamados por Deus, são escalados para essa obra pelos bispos.

17 Cf. Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja Lumen Gentium, nn. 33, 35: AAS 57 (1965), pp. 39, 40-41.

 

Nas terras já cristãs, os leigos colaborem na evangelização, fomentando em si e nos outros o conhecimento e o amor das missões, despertando as vocações na própria família, nas associações católicas e nas escolas, oferecendo subsídios de todo gênero, a fim de outros obterem o dom da fé, que eles mesmos de graça receberam.

E nas terras de missões, os leigos, ádvenas ou autóctones, ensinem nas escolas, administrem os bens temporais, colaborem na atividade paroquial e diocesana, fundem e promovam várias formas de apostolado leigo, para poderem os fiéis das novéis Igrejas quanto antes assumir a parte própria na vida da Igreja.18

18 Cf. Pio XUU, Evangelii Praecones, 2-6-1951: AAS 43 (1951), pp. 510-514; João XXIII, Princeps Pastorum, 28-11-1959: AAS 51 (1959), pp. 851-852

Os leigos enfim ofereçam espontânea colaboração econômico-social aos povos em vias de desenvolvimento. Tanto mais é de louvar tal cooperação, quando mais de perto se refere a fundação de instituições que atingem as estruturas fundamentais da vida social, ou se ordenam a formação dos responsáveis pelo estado.

Dignos de especial louvor os leigos que nas universidades ou institutos científicos, por suas investigações históricas ou científico-religiosas promovem o conhecimento dos povos e das religiões, ajudando os arautos do Evangelho e preparando o diálogo com os não-cristãos. Fraternamente colaborem com os membros das sociedades internacionais, tendo sempre diante dos olhos que “no Senhor se fundamenta a edificação da cidade terrena e a Ele se dirige”.19

19 Cf. Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja Lumen Gentium, n. 46: AAS 57 (1965), p. 52.

 

Para se desincumbirem de todos estes deveres necessitam os leigos da competente preparação técnica e espiritual. A qual se lhes deve dar em institutos a isso destinados, para que a sua vida se torne entre os não-cristãos um testemunho de Cristo, segundo a palavra do Apóstolo: “Não sejas objeto de escândalo nem para judeus, nem para gregos, nem para a Igreja de Deus, como eu quero agradar a todos em tudo, não procurando a minha conveniência, porém a de todos, para que se salvem” (1 Cor 10,32-33).

Conclusão

42. Os Padres Conciliares com o romano Pontífice, profundamente compenetrados do dever de difundir o Reino de Deus por toda parte, amorosamente saúdam todos os pregoeiros do Evangelho, principalmente os que pelo nome de Cristo sofrem perseguição e se associam aos seus sofrimentos.20

20 Cf. Pio XII, Evangelii Praecones, 2-6-1951: AAS 43 (1951), p. 527; João XXIII, Princeps Pastorum, 28-11-1959: AAS 51 (1959), p. 864.

 

Como Cristo abrasado de amor para com os homens, ardem também eles no mesmo amor. Cônscios, porém, de que é Deus que faz Seu Reino chegar a esta terra, junto com todos os fiéis cristãos rezam, para que pela intercessão da Virgem Maria Rainha dos Apóstolos, sejam quanto antes as nações levadas ao conhecimento da verdade²¹, e a claridade de Deus, que resplandece na face de Cristo Jesus, pelo Espírito Santo a todos ilumine. ²²

²¹ Cf. 1 Tim 2,4.

²² Cf. 2 Cor 4,6.

Promulgação

Todo o conjunto e cada um dos pontos que foram enunciados neste Decreto agradaram aos Padres do Sacrossanto Concílio.

E Nós, pela Autoridade Apostólica por Cristo a Nós confiada, juntamente com os Veneráveis Padres, no Espírito Santo as aprovamos, decretamos e estatuímos. Ainda ordenamos que o que foi assim determinado em Concílio seja promulgado para a glória de Deus.

Roma, junto de São Pedro, no dia 7 de dezembro de 1963.

Eu Paulo, Bispo da Igreja Católica.

Seguem as assinaturas dos Padres Conciliares.