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EVANGELIZAÇÃO  NO  PRESENTE  E  NO  FUTURO  DA  AMÉRICA  LATINA

CONCLUSÕES DA III CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO

 

APRESENTAÇÃO

À Conferência de Puebla, como se sabe, precederam dois anos de preparação com a ativa e generosa participação de todas as Igrejas da América Latina.

Houve, efetivamente, uma campanha de fervorosa oração, um processo de consulta e de contribuições principalmente das Conferências Episcopais, sistematizados no Documento de Trabalho. Este serviu como instrumento de estudo e orientação.

Tivemos a graça da presença pessoal do Sucessor de Pedro, o Papa João Paulo II. Sua palavra, na histórica visita à América Latina, especialmente a dirigida aos participantes da III Conferência, na homilia durante a concelebração na Basílica de Guadalupe, na homilia no Seminário de Puebla e sobretudo no discurso inaugural, foi precioso critério, estímulo e orientação para nossas deliberações. Por isso, se publica integralmente no presente volume.

Em razão da extensão do tema, rico e dinamizador, da III Conferência, tornava-se necessário estabelecer prioridades e uma adequada articulação entre os diversos pontos que deram origem às 21 comissões de trabalho, em torno de núcleos ou grandes unidades com os temas correspondentes. Este sistema de trabalho, complementado por contribuições em plenários e semiplenários que garantiam a maior participação (de bispas, presbíteros, diáconos, religiosos, leigos, membros convidados e peritos), foi aprovado por unanimidade no início de nossa assembléia.

O conteúdo dos núcleos e temas não pretende ser um tratado sistemático de teologia dogmática ou pastoral. Isso foi expressamente descartado. Procurou-se considerar aspectos de maior incidência na evangelização, colocando-nas numa perspectiva definida de pastores.

Muito embora a Conferência de Puebla, com seu acervo de contribuições e a intensidade de seu trabalho, se resuma neste Documento, ela é acima de tudo um espírito: o espírito de uma Igreja que se projeta com renovado vigor ao serviço de nossos povos cuja realização há de seguir o chamado de vida e transformação de quem colocou seu tabernáculo no coração de nossa própria história.

A Conferência de Puebla é além disso princípio de uma nova etapa no processo de nossa vida eclesial na América Latina. O Santo Padre assim a considera, ao afirmar que ela é "um grande passo avante", em sua carta de 23 de março de 1979.

Estas páginas têm a força de uma nova missão a que Cristo nos envia: "Ide e pregai o Evangelho a todos os povos" (Ml 16,15).

Estas orientações devem interessar profundamente a nossa pastoral. Há de desencadear um processo de assimilação e interiorização de seu conteúdo, em todos os níveis, para levá-lo à prática. Será necessário aprofundá-lo na oração è no discernimento espiritual. Neste caminho, as Conferências Episcopais têm sua clara responsabilidade: são elas sobretudo que deverão traduzir e concretizar, de acordo com suas circunstâncias, suas possibilidades e os mecanismos apropriados, estas diretrizes. Também é tarefa das Igrejas particulares, e nelas das paróquias, dos movimentos apostólicos, das comunidades eclesiais de base e, enfim, de todas as nossas comunidades, fazer que Puebla, Puebla em peso, se volte para a vida com toda a sua carga evangelizadora.

Além disso, Puebla é um espírito de comunhão e participação que, à maneira de uma linha de orientação, apareceu nos documentos preparatórios e animou as jornadas da Conferência. Neles dizíamos:

"A linha teológico-pastoral, na Documento de Trabalho, aparece configurada por dois pólos complementares: a comunhão e a participação (co-participação)".

"Mediante a evangelização plena, importa restaurar e aprofundar a comunhão com Deus e, como elemento também essencial, a comunhão entre os homens. De modo que o homem, ao viver a filiação em ,fraternidade, seja imagem viva de Deus dentro da Igreja e do mundo, em sua qualidade de sujeito ativo da história."

"Comunhão com Deus, na f é, na oração, na vida sacramental. Comunhão com os irmãos nas diversas dimensões de nossa existência. Comunhão na Igreja, entre os episcopados e com o Santo Padre. Comunhão nas comunidades cristãs. Comunhão de reconciliação e de serviço. Comunhão que é raiz e motor de evangelização. Comunhão com nossos povos."

"Participação na Igreja, em todos os seus níveis e tarefas. Participação na sociedade, em seus diferentes setores; nas ações da América Latina; em seu necessário processo de integração, com atitude de constante diálogo. Deus é amor, família, comunhão; é fonte de participação em todo o seu mistério trinitário e na manifestação de sua nova revelação com os homens pela filiação e destes entre si, pela fraternidade" (Documento de Trabalho, Apresentação, 3.3).

A III Conferência se distinguiu pela concórdia de vontades em torno de seu tema e do conteúdo coerente de seu Documento final. Com efeito, foi aprovado por 179 placet e 1 voto em branco.

Apesar da conveniência de umas articulação maior do Documento que evitasse repetições, numerosas num trabalho desenvolvido fundamentalmente em comissões, preferiu-se por razão de objetividade, não suprimir tais repetições. A assembléia, com efeito, não teve oportunidade de levar a cabo essa árdua e delicada tarefa.

Fez-se o possível para se indicar a referênc2a a passagens em que os determinados temas são tratados especialmente.

A revisão do teto limitou-se quase exclusivamente a aspectos meramente redacionais. Para isso levaram-se em conta numerosas correções e indicações das comissões de trabalho, bem como a lista de erratas elaborada pelas mesmas. Além disso, se realizou um trabalho paciente de confronto de citações, recorrendo-se às fontes respectivas. Algumas ligeiras modificações foram aprovadas pelo Santo Padre.

Tudo o que expressamos constitui nossa esperança e a isso nos comprometemos diante de Maria, que acreditou e se pôs a caminho pressurosa, para anunciar a Boa Nova que palpitava em suas entranhas.

PRESIDÊNCIA

Card. Sebastião Baggio

 Prefeito da Sagrada Congregação para os Bispos

presidente da Comissão Pontifícia para a América Latina - CAL

cardeal Aloísio Lorscheider

arcebispo de Fortaleza, Brasil - presidente da CNBB

presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano CELAM

mons. Ernesto Corripio Ahumada

Arcebispo do México - secretário geral

- Mons. Alfonso López Trujillo

Arcebispo Coadjutor de Medellin - Colômbia

Secretário geral do CELAM

 

MENSAGEM  AOS  POVOS  DA  AMÉRICA  LATINA

Nossa palavra: palavra de fé, de esperança e amor

1. De Medellin a Puebla dez anos se passaram, Na verdade, com a II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, inaugurada solenemente pelo Santo Padre o Papa Paulo VI, de feliz memória, abriu-se, no seio da Igreja da América Latina, um novo período de sua vida.

Sobre o nosso Continente, marcado com o sinal da esperança cristã e super-onerado de problemas, "Deus difundiu uma luz imensa que resplandece no rosto rejuvenescido de sua Igreja" (Apresentação dos Documentos de Medellin).

Em Puebla de los Angeles reuniu-se a III Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, para reconsiderar os temas debatidos anteriormente e assumir compromissos novos, sob a inspiração do Evangelho de Cristo.

Esteve conosco na abertura dos trabalhos, no meio de solicitudes pastorais que nos comoveram profundamente, o Pastor Universal de nossa Igreja, S. Santidade o Papa João Paulo II. Suas palavras iluminadas traçaram linhas amplas e profundas para nossos estudos e deliberações, em espírito de comunhão eclesial.

Alimentados pela força e pela sabedoria do Espírito Santo e colocados sob a proteção maternal de Maria Santíssima, Senhora de Guadalupe, com dedicação, humildade e confiança, estamos chegando ao fim de nossa tarefa ingente. Não podemos sair de Puebla para nossas Igrejas particulares sem dirigir uma palavra de fé, de esperança e de amor ao Povo de Deus da América Latina e que seja extensiva a todas as nações do mundo.

Antes de tudo, queremos identificar-nos: somos Pastores da Igreja Católica e Apostólica, que nasceu do coração de Jesus Cristo, o Filho do Deus vivo.

Nossa interpelação e pedido de perdão

2. Nossa primeira pergunta, neste colóquio pastoral, diante da consciência coletiva é a seguinte: - Vivemos de fato o Evangelho de Cristo em nosso Continente?

Esta interpelação, que dirigimos aos cristãos, também pode ser analisada por todos aqueles que não participam de nossa fé.

O cristianismo, que traz consigo a originalidade do amor, nem sempre é praticado em sua integridade nem mesmo por nós cristãos. É certo que existe grande heroísmo oculto, muita santidade silenciosa, muitos e maravilhosos gestos de sacrifício. Contudo, reconhecemos que ainda estamos longe de viver tudo o que pregamos. Por todas as nossas faltas e limitações pedimos perdão, também nós pastores, a Deus e a nossos irmãos de fé e de humanidade.

Queremos não só ajudar os outros a se converter, mas também converter-nos, nós próprios, juntamente com eles, de tal modo que nossas dioceses, paróquias, instituições, comunidades e congregações religiosas, longe de serem obstáculo sejam um incentivo para que se viva o Evangelho.

Lançando um olhar sobre nosso mundo latino-americano, com que espetáculo deparamos? Não se faz mister aprofundar o exame. A verdade é que aumenta, cada dia mais, a distância entre os muitos que têm pouco e os poucos que têm muito. Estão ameaçados os valores de nossa cultura. Estão sendo violados os direitos fundamentais do ser humano.

As grandes realizações que se levam a cabo em favor do homem não chegam a resolver, de maneira adequada, os problemas que nos desafiam.

A nossa contribuição

3. Mas o que é que temos para oferecer-vos no meio das graves e complexas questões do nosso tempo? De que modo podemos colaborar para o bem-estar dos nossos povos latino-americanos, quando uns persistem em manter a qualquer preço os seus privilégios, outros se sentem abatidos e os demais promovem gestões para a própria sobrevivência e a clara afirmação de seus direitos?

Queridos irmãos, mais uma vez queremos declarar que, ao tratar de problemas sociais, econômicos e políticos, não o fazemos como mestres da matéria ou cientistas, mas sim, em perspectiva pastoral, como intérpretes dos nossos povos, confidentes de seus anseios, sobretudo os dos mais humildes, que são a grande maioria da sociedade latino-americana.

O que é que temos para oferecer-vos? Como Pedro, diante do pedido que lhe foi dirigido pelo paralítico, à porta do templo, vos declaramos, ao considerar a grandeza dos desafios estruturais de nossa realidade: Não temos ouro nem prata para vos dar, mas damo-vos o que temos: Em nome de

Jesus Cristo Nazareno, levantai-vos e andai. E o doente se ergueu e proclamou as maravilhas do Senhor.

Aqui, a pobreza de Pedro se faz riqueza e a riqueza de Pedro se chama Jesus de Nazaré, morto e ressuscitado e sempre presente, por seu Espírito Divino, no Colégio Apostólico e nas incipientes comunidades que se formaram debaixo da sua direção. Jesus cura o doente. O poder de Deus exige dos homens o máximo de esforço para que surja e dê fruto sua obra de amor, através de todos os meios disponíveis: forças do espírito, conquistas da ciência e das técnicas, em favor do homem.

O que é que temos para vos oferecer? João Paulo II, no discurso inaugural do seu pontificado, responde-nos, de maneira incisiva e admirável, apresentando Cristo como resposta de salvação universal: "Não temais, abri de par em par as portas a Cristo! Abri ao seu poder salvador as portas dos Estados, dos sistemas econômicos e políticos, dos extensos campos da cultura. da civilização e do desenvolvimento" (João Paulo II, Homilia na Inauguração de seu Pontificado, 22.10.78).

É aí, para nós, que reside a potencialidade das sementes de libertação do homem latino-americano, a nossa esperança de poder construir, dia a dia, a realidade do nosso autêntico destino. E assim o homem deste Continente, objeto de nossas preocupações pastorais, tem para a Igreja um significado essencial, porque Jesus Cristo assumiu a humanidade e sua condição real. com exceção do pecado. E. ao fazê-1o, associou, ele em pessoa, a vocação imanente e transcendente de todos os homens.

O homem que luta, sofre e às vezes fica exasperado, não desanima nunca e quer acima de tudo

viver o sentido pleno de sua filiação divina. Por isso é importante que seus direitos sejam reconhecidos; que sua vida não seja uma espécie de abominação: que a natureza, obra de Deus, não seja devastada contra as suas legítimas aspirações.

O homem exige, pela força dos argumentos mais evidentes, a supressão da violência física e moral, dos abusos do poder, das manipulações do dinheiro, dos excessos do sexo; exige, numa palavra, que se cumpram os preceitos do Senhor, porque o que afeta a dignidade do homem fere, de algum modo, o próprio Deus. "Tudo é vosso; vós sois de Cristo e Cristo é de Deus" (1 Cor 3,21-23 ) .

O que nos interessa, como pastores, é a proclamação integral da verdade sobre Jesus Cristo, sobre a natureza e a missão da Igreja, sobre a dignidade e a desatinação do homem.

Nossa mensagem, por isso mesmo, se sente iluminada de esperança. As dificuldades que encontramos, os desequilíbrios que assinalamos não significam sinais de pessimismo. O contexto sócio-cultural em que vivemos é tão contraditório, em sua concepção e modo de atuar, que não só contribui para a escassez dos bens materiais nas casas dos mais pobres, mas também - o que é mais grave - tende a tirar-lhes sua maior riqueza, que é Deus. A comprovação dessa realidade nos leva a exortar a todos os membros conscientes da sociedade a que revejam seus projetos e, por outro lado, nos impõe o dever sagrado de lutar pela conservação e aprofundamento do sentido de Deus na consciência do povo. Como Abrão, lutamos e lutaremos contra toda a esperança, isto é, nunca deixaremos de esperar na graça e no poder de Deus, que estabeleceu com seu povo a Aliança inquebrantável, apesar das nossas prevaricações.

E comovedor sentir-se na alma do povo a riqueza espiritual transbordante de fé, de esperança. e amor. Neste sentido a América Latina é um exemplo para os outros continentes e amanhã poderá ampliar sua sublime vocação missionária para além das próprias fronteiras.

Por isso mesmo, sursum corda! Ao alto os corações, queridos irmãos da América Latina, porque o Evangelho que pregamos é uma Boa Nova tão magnífica que converte e transforma os esquemas mentais e afetivos, uma vez que chega a comunicar a grandeza da desatinação do homem, prefigurada em Jesus Cristo Ressuscitado.

Nossas preocupações pastorais a respeito dos homens mais humildes, impregnadas de humano realismo, não incluem qualquer intenção de excluir de nosso pensamento e de nosso coração a outros representantes do quadro social em que vivemos. São antes advertências, sérias e oportunas para que não se alarguem as distâncias, não se multipliquem os pecados, não se afaste o Espírito de Deus da família latino-americana.

Cremos que a revisão do comportamento religioso e moral dos homens deve refletir-se na esfera do processo político e econômico de nossos países; por isso convidamos a todos, sem distinção de classes, a que aceitem e assumam a causa dos pobres, como se estivessem assumindo e aceitando sua própria causa, a própria causa de Jesus Cristo. "Tudo o que fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos a mim o fizestes" (Ml 25,40).

O episcopado latino-americano

4. Irmãos, não vos impressioneis com as notícias de que o episcopado está dividido. Há diferenças de mentalidade e de opinião, mas vivemos, na verdade, o princípio da colegialidade; completando nos uns aos outros, segundo as capacidades dadas por Deus. Só assim é que poderemos enfrentar o grande desafio da evangelização no presente e no futuro da América Latina.

Sua Santidade o Papa João Paulo II apontou em seu discurso inaugural três prioridades pastorais: a família, a juventude e as vocações.

A família

5. Convidamos, pois, com especial carinho, a família da América Latina a tomar o seu lugar no coração de Cristo e a transformar-se cada vez mais em ambiente privilegiado de evangelização, de respeito à vida e ao amor comunitário.

A juventude

6. Convidamos de coração os jovens a vencer os obstáculos que ameaçam seu direito de participação, consciente e responsável, na construção de um mundo melhor. Não lhes desejamos a ausência pecaminosa na mesa da vida nem a triste capitulação ante os imperativos do prazer, do indiferentismo ou da solidão voluntária e improdutiva. Já passou a hora do protesto, traduzido em formas exóticas ou através de exaltações intempestivas. Tendes uma capacidade imensa. Chegou o momento da reflexão e da aceitação plena do desafio de viver, em plenitude. os valores essenciais do autêntico humanismo integral.

Os agentes de pastoral

7. Com palavras afetuosas e confiantes saudamos aos abnegados agentes de pastoral de nossas Igrejas particulares, sem distinguir as categorias a que pertençam. Exortando-vos a continuar vossos trabalhos em favor do Evangelho, concitamo-vos a desenvolver um esforço crescente em prol da pastoral das vocações, onde se incluem os ministérios que se confiam aos leigos em razão de seu batismo e de sua confirmação. A Igreja precisa de mais sacerdotes diocesanos e religiosos, quanto possível sábios e santos para o ministério da Palavra e da Eucaristia e para a maior eficácia do apostolado religioso e social. E necessita de leigos que tenham consciência da missão que lhes cabe no interior da Igreja e na construção da cidade secular.

Os homens de boa vontade e a civilização do amor 8. Queremos dirigir-nos, agora, a todos os homens de boa vontade e a quantos exercem cargos ou desempenham funções nos mais variados campos da cultura, da ciência, da política, da educação, do trabalho, dos meios de comunicação social e da arte.

Convidamo-vos a serdes construtores abnegados da "Civilização do Amor", segundo a brilhante visão de Paulo VI, a qual se inspira na palavra, na vida e na plena doação de Cristo e se baseia na justiça. na verdade e na liberdade. Estamos seguros de obter assim vossa resposta aos imperativos da hora presente e à tão ambicionada paz interna e social, no âmbito das pessoas, famílias, países, continentes e até do universo inteiro.

Desejamos explicitar o sentido orgânico da civilização do amor, nesta hora difícil mas cheia de esperança da América Latina.

O que é que nos impõe o mandamento do amor?

O amor cristão ultrapassa as categorias de todos os regimes e sistemas, porque traz consigo a força insuperável do Mistério Pascal, o valor do sofrimento da cruz e as marcas da vitória e da ressurreição. 0 amor gera a felicidade da comunhão e inspira os critérios da participação.

A justiça, como se sabe, é um direito sagrado de todos os homens, conferido pelo próprio Deus. Está enxertada na própria essência da mensagem evangélica. A verdade, esclarecida pela fé, é fonte perene de discernimento para nosso comportamento ético. Exprime as formas autênticas de uma vida digna. A liberdade é um dom precioso de Deus, conseqüência de nossa condição humana e fator indispensável de progresso para os povos.

A civilização do amor repudia a violência, o egoísmo, o esbanjamento, a exploração e os desatinos morais. À primeira vista, parece uma expressão falha da energia que é necessária para que se enfrentem os graves problemas de nossa época. Entretanto, nós vos garantimos: não existe palavra mais forte do que esta no dicionário dos cristãos. Identifica-se com a própria força de Cristo. Quem não crê no amor também não crê naquele que disse: "Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros como eu vos tenho amado" (Jo 15,12).

A civilização do amor propõe a todos a riqueza evangélica da reconciliação nacional e internacional. Não existe gesto mais sublime do que o perdão. Quem não sabe perdoar não será perdoado.

Na balança das reponsabilidades comuns é preciso colocar muita renúncia e solidariedade para o correto equilíbrio das relações humanas. A meditação desta verdade levaria nossos países a reverem seu comportamento com relação aos expatriados com sua seqüela de problemas, de acordo com o bem comum, em caridade e sem detrimento da justiça. Existem em nosso continente inúmeras famílias traumatizadas.

A civilização do amor condena as divisões absolutas e as muralhas psicológicas que separam violentamente os homens, as instituições e as comunidades internacionais. Por isso defende ardorosamente a tese da integração da América Latina. Na unidade e na variedade há elementos de valor continental que merecem ser apreciados e aprofundados, muito mais do que os simples interesses nacionais. Convém recordar a nossos países da América Latina a urgente necessidade de se conservar e incrementar o patrimônio continental da paz, porque seria, de fato, uma tremenda responsabilidade histórica o rompimento dos laços da amizade latino-americana, quando temos a convicção de que existem recursos jurídicos e morais para a solução dos nossos problemas de interesse comum.

A civilização do amor rejeita a sujeição e a dependência tão prejudiciais à dignidade da América Latina. Não aceitamos ser satélites de nenhum país do mundo nem tampouco das ideologias que lhe são peculiares. É fraternalmente que queremos viver com todos, porque repudiamos os nacionalismos acanhados e irredutíveis. Já é tempo de que a América Latina faça esta advertência aos países desenvolvidos: não permitiremos que nos imobilizem, que ponham obstáculos ao nosso progresso, que nos explorem; ao contrário, é mister que nos ajudem, com grandeza de alma, a vencer as barreiras do nosso subdesenvolvimento, respeitando nossa cultura, nossos princípios, nossa soberania, nossa identidade, nossos recursos naturais. Neste espírito cresceremos unidos como irmãos e membros da mesma família universal.

Outro ponto que nos faz estremecer as entranhas e o coração é a corrida armamentista, que não cessa de fabricar instrumentos de morte. Ela implica a dolorosa ambigüidade de confundir o direito à defesa nacional com ambições desmedidas e ilícitas. Tal corrida não tem capacidade de construir a paz.

Terminando nossa mensagem convidamos, com respeito e confiança, a todos os responsáveis pela ordem política e social a que meditem nestas reflexões, tiradas de nossa experiência, filhas de nossa sensibilidade pastoral.

Acreditai: desejamos a Paz e, para alcançá-la, é preciso eliminar os elementos que provocam as tensões entre o ter e o poder, entre o ser e suas mais justas aspirações. Trabalhar pela justiça, pela verdade, pelo amor e pela liberdade, dentro dos parâmetros da comunhão e da participação, é trabalhar pela paz universal.

Palavra de conclusão

9. Em Medellin, terminamos nossa mensagem com esta afirmação: "Temos fé em Deus, nos homens, nos valores, no futuro da América Latina". Em Puebla, retomando a mesma profissão de fé, divina e humana, proclamamos:

Deus está presente e vivo, por Jesus Cristo libertador, no coração da América Latina. Cremos no poder do Evangelho.

Cremos na eficácia do valor evangélico da comunhão e da participação para gerar criatividade, promover experiências e novos projetos pastorais.

Cremos na graça e no poder do Senhor Jesus que penetra a vida e nos impele para a conversão e a solidariedade.

Cremos na esperança que alimenta e fortalece o homem em sua caminhada para Deus, nosso Pai.

Cremos na civilização do amor.

Que Nossa Senhora de Guadalupe, Padroeira da América Latina, nos acompanhe, solícita como sempre, nesta peregrinação de Paz.

 

PRIMEIRA  PARTE - VISÃO  PASTORAL  DA  REALIDADE  LATINO-AMERICANA

O objetivo desta visão histórica é:

SITUAR nossa evangelização em continuidade com a que foi realizada nos últimos cinco séculos e cujos fundamentos ainda perduram, depois de ter dado origem a um radical substrato católico na AL. Este substrato se revigorou ainda mais depois do Concílio Vaticano II e da II Conferência geral do Episcopado celebrada em Medellin, com a consciência, cada vez mais clara e mais profunda, que tem a Igreja de sua missão fundamental: a evangelização.

EXAMINAR, com visão de pastores, alguns aspectos do atual contexto sócio-cultural em que a Igreja realiza sua missão e, outrossim, a realidade pastoral que hoje se apresenta à evangelização, com suas projeções para o futuro.

CONTEÚDO

Título I. Visão histórica: os grandes momentos da Evangelização na AL.

Título II. Visão pastoral do contexto sócio-cultural.

Título III. Realidade pastoral da AL, hoje.

Título IV . Tendências atuais e evangelização no futuro.

 

CAPÍTULO I - VISÃO HISTÓRICA DA REALIDADE - LATINO-AMERICANA

Os grandes momentos da evangelização na América Latina

A Igreja recebeu a missão de levar aos homens a Boa Nova. Para realizar eficazmente esta missão, a Igreja sente a necessidade de conhecer o povo latino-americano em seu contexto histórico, com suas variadas circunstâncias. É mister que este povo continue a ser evangelizado como herdeiro de um passado, como protagonista do presente, como construtor de um futuro, como peregrino em busca do Reino definitivo.

A evangelização é a missão própria da Igreja. A história da Igreja é, fundamentalmente, a história da evangelização de um povo que vive em constante gestação, nasce e se enxerta na existência secular das nações. A Igreja, ao encarnar-se, contribui vitalmente para o nascimento das nacionalidades e imprime-lhes profundamente um caráter particular. A evangelização está nas origens deste Novo Mundo que é a AL. A Igreja faz-se presença nas raízes e na atualidade do Continente. Quer servir, dentro do quadro da realização de sua missão própria, ao melhor porvir dos povos latina-americanos, à sua libertação e crescimento em todas as dimensões da vida. Medellin já lembrava as palavras de Paulo VI sobre a vocação da AL: "Unificar, em uma síntese nova e genial, o antigo e o moderno, o espiritual e o temporal, o que os outros nos legaram e nossa própria originalidade" (Med. intr. 1) .

A AL forjou, na confluência, por vezes dolorosa, das mais diversas raças e culturas, uma nova mestiçagem de etnias e formas de existências e pensa mento que permitiu a gestação de uma neva raça, depois de vencidas as duras separações que precederam.

A geração de um povo e de uma cultura é sempre dramática: luzes e sombras a envolvem. A evangelização, como tarefa humana, está submetida às vicissitudes da história, mas busca sempre transfigurá-las com o fogo do Espírito, no caminho de Jesus Cristo, centro e sentido da história universal e da de todos e cada um dos homens. Sob o aguilhão das contradições e dilacerações dos tempos da colonização e no meio de um agigantado processo de dominações e culturas ainda não encerrado, a evangelização constituinte da AL é um dos capítulos relevantes da história da Igreja. Em face de dificuldades tão desmedidas quanto inéditas, ela respondeu com uma capacidade criadora cujo alento sustenta viva a religiosidade popular da maioria de nossos povos.

Nosso radical substrato católico, com suas formas vitais de religiosidade vigente, foi estabelecido e dinamizado por uma imensa legião missionária de bispos, religiosos e leigos. Em primeiro plano, temos as realizações de nossos santos, como Turíbio de Mogrovejo, Rosa de Lima, Martinho de Porres, Pedro Claver, Luís Beltran e outros. Ensinam-nos todos que, superadas as debilidades e a covardia dos homens que os cercavam e às vezes os perseguiam, o Evangelho, em sua plenitude de graça e de amor, foi e pode ser vivido na AL como sinal da grandeza espiritual e da verdade de Deus.

Intrépidos lutadores em prol da justiça e evangelizadores da paz como Antônio de Montesinos, Bartolomeu de Ias Casas, João de Zumárraga, Vasco de Quiroga, João dal Valle, Julião Garcés, José de Anchieta, Manuel da Nóbrega e tantos outros que defenderam os índios perante os conquistadores e encomenderos até com a própria morte, como o bispo Antônio Valdivieso, demonstram, com a evidência dos fatos, como a Igreja faz a promoção da dignidade e da liberdade do homem latino-americano. Esta realidade foi reconhecida com gratidão pelo Santo Padre João Paulo II, ao pisar pela primeira vez as terras do Novo Mundo, quando se referiu "àqueles religiosos que vieram anunciar Cristo Salvador, defender a dignidade dos indígenas, proclamar seus direitos invioláveis, favorecer sua promoção integral, ensinar aos habitantes do Novo Mundo a fraternidade que teriam de viver como homens e como filhos de um mesmo Deus que é o Senhor e Pai" (João Paulo II, Discurso em sua chegada a S. Domingos, AAS LXXI p. 154, 25-1-1979 ) .

A obra evangelizadora da Igreja da AL é o resultado do esforço unânime de missionários de todo o povo de Deus. Aí estão as incontáveis iniciativas de caridade, assistência, educação e, de modo exemplar as originais sínteses de evangelização e promoçâo humana das missôes franciscanas, agostinianas, dominicanas, jesuíticas, mercedárias e outras. Aí estão a generosidade e o sacrifício evangélico de muitos cristãos, em que, por sua abnegação e oração, a mulher teve papel essencial. Aí está a criatividade na pedagogia da fé - a vasta rede de recursos que conjugava todas as artes, desde a música, o canto e a dança, até à arquitetura, à pintura e ao teatro. Toda esta capacidade pastoral está associada a um momento de grande reflexão teológica e a uma dinâmica intelectual que dá vida e impulso a universidades, escolas, dicionários, gramáticas, catecismos em diversas línguas indígenas e aos mais significativos relatos históricos sobre as origens de nossos povos. E está. associada igualmente a uma extraordinária proliferação de confrarias e ìrmandades de leigos que chegam a ser a alma e a espinha dorsal da vida religiosa dos crentes e a fonte remota, mas fecunda, dos atuais movimentos comunitários da Igreja latino-americana.

É certo que a Igreja, em seu labor apostólico, teve de suportar o peso dos desfalecimentos, das alianças com os poderes da terra, de uma visão pastoral incompleta e da força destruidora do pecado: mas não é menos certo - e forçoso é reconhecê-1o! - que a evangelização que transforma a AL no "Continente da Esperança" tem sido muito mais poderosa do que as sombras que lamentavelmente a acompanharam no interior do contexto histórico onde lhe coube viver. Para nós, cristãos de hoje, isto será um desafio, a fim de sabermos estar à altura do melhor de nossa história e de termos a capacidade de responder aos desafios deste nosso tempo latino-americano, com fidelidade criadora.

Aquela fase da evangelização, tão decisiva na formação da AL, após um ciclo de estabilização, cansaço e rotina, foi seguida pelas grandes crises do século XIX e dos começos do nosso. Estas provocavam perseguições e grandes amarguras na Igreja, que esteve submetida a enormes incertezas e a conflitos que a abalaram até aos fundamentos. Superando esta prova tão dura, ela conseguiu, com potente esforço, reconstruir-se e sobreviver. Hoje em dia, sobretudo a partir do Concílio Vaticano II, a Igreja se foi renovando, pouco a pouco com autêntico dinamismo evangelizador e captando as necessidades e as esperanças dos povos latino-americanas. A energia que convocou seus bispos a Lima, ao México, à cidade do Salvador na Bahia e a Roma manifesta-se ativa nas Conferências do Episcopado Latino-Americano do Rio de Janeiro e de Medellin, que ativaram as suas energias e a prepararam para os desafios do futuro.

Sobretudo a partir de Medellin, tem conseguido a Igreja uma nítida consciência de sua missão e tem-se aberto com lealdade ao diálogo. Por isso vem perscrutando os sinais dos tempos e está generosamente disposta a evangelizar, a fim de contribuir para a construção de uma sociedade nova, mais justa e mais fraterna, que é uma clamorosa exigência dos nossos povos. Deste modo, a tradição e o progresso, que antes pareciam antagônicos na AL, enfrentando-se mutuamente, conjugam-se hoje em busca de uma nova síntese, que irmane as possibilidades do porvir com as energias que provêm de nossas raízes comuns. Destarte, neste vasto movimento de renovação que inaugura uma época nova, no meio dos desafios recentes, retomamos nós, pastores, a tradição secular dos bispos do Continente e nos preparamos para levar, com esperança e fortaleza, a mensagem da salvação evangélica a todos os homens, preferentemente aos mais pobres e esquecidos.

Através de uma rica experiência histórica, cheia de luzes e de sombras, a grande missão da Igreja tem sido seu compromisso na fé com o homem da AL: para sua salvação eterna, para sua superação espiritual e plena realização humana.

Movidos pela inspiração que vem dessa grande missão de ontem, queremos aproximar-nos, com olhos e coração de pastores e cristãos, da realidade do homem latino-americano de hoje, para interpretá-lo e compreendê-lo, a fim de analisarmos nossa missão pastoral partindo desta mesma realidade.

Discurso inaugural de João Paulo II
Homilia de João Paulo II na Basílica N.S. de Guadalupe
Homilia de João Paulo II no estádio de Puebla
Alocução introdutória aos trabalhos
Leitura do documento a partir da opção preferencial pelos pobres