O  "DÍZIMO"   E   A   IGREJA

NOS  PRIMÓRDIOS

A Igreja está preferindo o uso do "dízimo" em lugar da "espórtula", do latim "sportula", que significa cesto. Os Israelitas entregavam ao sacerdote as primícias num cesto e no altar: "...tomarás as primícias de todos os frutos que recolheres do solo que Iahweh teu Deus te dará e, colocando-as num cesto, irás ao lugar que Iahweh teu Deus houver escolhido para aí fazer habitar o seu nome. Virás ao sacerdote... O sacerdote receberá o cesto da tua mão, colocá-lo-á diante do altar de Iahweh... e te prostrarás diante de Iahweh teu Deus" (Dt. 26,2-11). 

O fato de ser exigida a entrega “ao sacerdote, no lugar que Iahweh teu Deus houver escolhi-do para aí habitar o seu nome”, que “colocá-lo-á diante do altar” (Dt. 26,2-4), e “te prostrarás diante de Iahweh teu Deus” (Dt 26,11), deixa claro que se trata de culto com ritual próprio (Dt 26,1-11). Tem um sentido profundamente religioso que nos escapou. Esse uso passou para o Cristianismo, motivo porque, no Ofertório da Missa, o “Lava-Mãos” e a “Oração sobre as Oferendas”, são como que resquícios ou vestígios do manuseio do cesto pelo sacerdote. Eram oferendas espontâneas e voluntárias (2Cor. 9,7), inexistindo no Novo Testamento qualquer manifestação a respeito do “dízimo” seja aconselhando-o, seja condenando-o. Cristo referiu-se a ele algumas vezes e somente quanto ao seu uso entre os judeus (Lc. 11,42, par.; 18,12). Mas, determinou que “o trabalhador tem direito ao seu salário” (Mt. 10,9-10), seguido por São Paulo (1 Cor 9,13-14). Com o tempo as pri-mícias foram substituídas por dinheiro e receberam o nome de espórtula, e assim existem até hoje em alguns lugares. O uso desta denominação exigia sempre a explicação de que não era “pagamento”, mas uma oferta que se fazia e que Jesus determinara que o sacerdote “deveria viver do altar”. Acontece, porém, que, apesar das explicações dadas, a circulação de dinheiro na Igreja sempre trouxe clima não muito salutar.

HOJE

Até bem pouco tempo o Quinto Mandamento da Igreja determinava: "Pagar o dízimo segundo o costume." 

A expressão "segundo o costume" caracteriza bem que a denominação "dízimo" permaneceu em uso, mas o que se ofertava era a espórtula, e em dinheiro. Criou-se uma espécie de "taxa" para o cerimonial litúrgico, e a simples referência ao nome "dízimo" nos leva a perceber a continuidade do sistema israelita. E a delimitação "segundo o costume" não mais o fixa nos dez por cento tradicionais, a décima parte, como era na origem. Essa denominação passou a soar como pagamento ou retribuição por um serviço ou benefício prestado, o que se torna muito constrangedor, pois o Sacramento não tem preço ou valor monetário que lhe corresponda. Também não é serviço que se presta que deva ser pago, não é comércio ou troca, "toma-lá-dá-cá".

Grave é o fiel perder o sentido da sua participação religiosa e desempenhar o papel meramente passivo. Torna-se “mero assistente”, o “pagante”, “o dono da festa”, “detentor de direitos, podendo exigir o que queira, mesmo em detrimento das necessidades espirituais da comunidade eclesial”. Não participando do ato, tudo lhe é místico e mágico, mais supersticioso que cristão. Pior que tudo é a indiferença e frieza ao ritual litúrgico, como se nada significasse, sentido-se até mesmo aliviado ao terminar. É que, com o desenrolar da História, e por causa de várias transformações havidas, bem como incompreensões e perseguições, os fundamentos teológicos das oferendas, e dentre elas do "dízimo", se perderam. Hoje, ocorrendo o mesmo fenômeno de esvaziamento com alguns Sacramentos, a Igreja passou a exigir cursos até mesmo dos pais e padrinhos de Batismo, Matrimônio, Crisma, numa espécie de reciclagem, como se diz atualmente, para a retomada dos conhecimentos religiosos esquecidos. Quando ao "dízimo", vigora o recém-promulgado Catecismo da Igreja Católica, 2.ª parte do n.º 2043, do Texto Latino (cfr. a publicação portuguesa), segundo a qual: "O quinto preceito (= contribuir para as despesas do culto e para a sustentação do clero segundo os legítimos usos e costumes e as determinações da Igreja), aponta aos fiéis a obrigação de, conforme as suas possibilidades, "prover às necessidades da Igreja, de forma que ela possa dispor do necessário para o culto divino, para as obras apostólicas e de caridade e para a honesta sustentação dos seus ministros".

(Editora Gráfica de Coimbra, tradução do texto latino oficial; destaques propositais)

Este dispositivo dá à oferenda uma dimensão não mais limitada seja na quantidade, seja nos usos e costumes. Sua dinâmica obrigatória é conforme a consciência eclesial de cada fiel e a equação: "conforme as possibilidades de cada fiel e conforme as necessidades da Igreja". As "necessidades da Igreja" são dimensionadas genericamente em o "necessário para o culto divino, para as obras apostólicas e de caridade e para a honesta sustentação dos seus ministros". Com isto, abre os mais amplos horizontes e com dinâmicas expressões, que escapam ao então ultrapassado e impróprio termo "dízimo", a "décima parte". Necessariamente se impõe um novo nome e mais apropriado: usaremos aqui oferendas.

 

AS   OFERENDAS   E   A RELIGIÃO   ISRAELITA

É de César Cantu a frase: "Povo que não conhece a sua história é navegante que navega sem rumo".

Quando se perde o liame da história da instituição cai-se na rotina e se desliga do sentido original. O rito perde o princípio que lhe serviu de fundamento e coesão estrutural, passa-se então a seguir a “letra que mata” e não o “espírito que vivifica” (2Cor 3,6). Impõe-se por isso a pesquisa no Antigo Testamento da instituição das oferendas entre os israelitas. Para isto teremos de registrar fatos conhecidos correndo o risco da prolixidade. Mas, para não ocasionar saltos no raciocínio preferimos correr o risco. Registramos o que já é do conhecimento geral para manter o seqüência do pensa-mento e a coerência das conclusões.

O que atualmente entendemos como religião tinha o nome de aliança entre os israelitas. Aliança de exclusiva iniciativa de Deus, contraída inicialmente com Absacrifício (Gn 12,8b; 26,25; 28,17-22), centro gravitacional do culto desde então. De Jacó veio o Povo de Israel, formado pelas doze tribos oriundas de seus doze filhos. Moisés confirma e repete essa Aliança com o Povo de Israel no Monte Sinai, selando-a também com o sacrifício (Gn 24,1-8), que se torna o centro essencial dela, e o seu culto significava e atualizava a união de Deus com todo e cada um do então já Povo de Iahweh. Institui-se o sacerdócio, pois onde não há sacerdócio não há sacrifício e onde não há sacrifício não há sacerdócio (Hb 8,3): Iahweh após a Páscoa institui o sacerdócio de Aarão (Ex 28-29).

AS   OFERENDAS   E   O   "DÍZIMO"

Não se pode confundir o Dízimo dos Israelitas com o mencionado em Gn 14,20 ou Gn 28,22, nem com o de outros povos, praticados em reconhecimento por algum benefício recebido. Aquele, o Dízimo dos Israelitas, é a entrega a uma parte da Tribo de Levi da parcela que lhe coube como herança na Terra Prometida (Nm 18,20-24), já que não recebeu uma parte da terra objeto da conquista a que teria direito. Também, a outra parte da mesma tribo, a Casa de Aarão, que também não tivera herança, recebia em seu lugar outras oferendas (Nm 18,1-19). Os levitas, assim chamados os que recebiam o dízimo, também o entregavam à Casa de Aarão (Nm 18,25-29), ramo principal dos mesmos levitas. Pode-se dizer que a Casa de Aarão detinha o sacerdócio pleno (Ex 28-29) e os demais levitas exerciam o sacerdócio auxiliar, entregues à Casa de Aarão em lugar dos primogênitos (Nm 3-8, "os doados"). A Bíblia esclarece assim que o dízimo é uma das oferendas, e que ambas significam ou representam a porção de herança da Terra Prometida devida à Tribo de Levi, (Nm 11-18) separada para o exercício perene do sacerdócio: a herança que lhes coube é o próprio Deus, significado no que Lhe é destinado no sacrifício:

"Iahweh disse a Aarão: 'Não terás herança alguma na terra deles e nenhuma parte haverá para ti no meio deles. Eu sou a tua parte e a tua herança no meio dos Filhos de Israel" (Nm. 18,20)

"...os levitas não possuirão herança alguma no meio dos Filhos de Israel, visto que são os dízimos que os Filhos de Israel separam para Iahweh, que eu dou por herança..." (Nm. 18,23-24)

"Eis o que te pertencerá das coisas santíssimas, das oferendas apresentadas: todas as oferendas que me restituírem os Filhos de Israel, a título de oblação, de sacrifício pelo pecado e de sacrifício de reparação; são coisas santíssimas que te pertencerão..." (Nm. 18,9).

Facilmente se percebe que as oferendas, dentre elas o dízimo, não eram pagamento nem donativo nem contribuição nem qualquer outro nome do que se dá gratuitamente, mas eram a herança da Tribo de Levi. Por isso a décima parte, o dízimo, em virtude das doze tribos, deduzida a deles, cada uma lhes entregava um décimo, recebiam com justiça o seu quinhão, completando-se a sua parte com as "cidades que cada tribo lhe daria em proporção com o seu quinhão" (Nm 35,1-8). Hoje não existe essa situação na Igreja, não havendo motivo para se falar em "dízimo ou décima parte". Por isso colocamos no título a palavra "dízimo" entre aspas. Também dízimo não se confunde com espórtula, esta significando as primícias que se entregava num cesto, como acima transcrito: são coisas distintas, pois a primícia é outra forma de oferenda. Dessa maneira, em vez de trabalharem a terra para a própria manutenção, trabalhariam "na seara do Senhor", a serviço de Deus. Não lhes era um pagamento, mas um direito advindo da eleição de que foram alvo: "separados" por Iahweh para o exercício do sacerdócio, centro gravitacional do Culto da Aliança (Ex 24,1-8). Sendo Iahweh o dono de toda a terra, dava Tribo de Levi a função do sacerdócio e todas as oferendas que Lhe eram destinadas e Lhe pertenciam (Ex 24,8, "...imolaram a Iahweh..."). Dessa maneira, torna-se a Tribo de Levi o ponto de convergência de toda a atividade material e espiritual dos israelitas: a comunidade do Povo de Iahweh unida pela Aliança e em obediência a Sua Vontade, em torno do Altar.

Além das primícias e dízimos muitas eram as oferendas destinadas a Iahweh, tais como os primogênitos das vacas e ovelhas (Ex. 22,29), a oblação (Lv. 2), as vítimas (ou hóstias) dos sacrifícios (Lv. 1-7; Nm 18), das quais algumas partes eram entregues aos sacerdotes. Essas oferendas não substituíam nem dispensavam o dever de cada um doar espontaneamente ofertas para a construção do templo; para o santuário e para as vestimentas para o sacerdócio (Ex 25,2...; 35,5...; 39,43); o siclo do santuário, a que cada um, sem distinção de classe, estava obrigado (Ex. 30,11-16; Mt. 17,24); os dons voluntários ou votivos (Dt. 12,11; Mc. 12,41) etc.. Uma não dispensa a outra, pois cada uma tem uma destinação e um objetivo adequado.

 

O SENTIDO RELIGIOSO DA OFERENDA

A Bíblia, por si mesma, não revela em uma simples leitura toda a sua dimensão cultural. Tendo sido escrita para os israelitas do tempo, seus condicionamentos culturais não necessitavam esclarecimentos, vividos que eram por todos. Para melhor se compreender isto basta um exemplo: imagine-se um escritor brasileiro descrevendo uma situação confusa de hoje, que use a expressão "'embananou' o 'meio de campo'". Para nós, culturalmente condicionados ao uso da expressão "embananou" e pelo "futebol", fácil é a compreensão do que quisera dizer o escritor. Mas, para um simples leitor daqui a quatro mil anos, que desconheça o "embananar", ser-lhe-á impossível, se não fizer uma análise mais profunda de nossa cultura, e relacionar a expressão com o efeito da "banana" e com as regras do "futebol". Da mesma forma, a Bíblia está repleta de narrações desse tipo, culturalmente condicionadas ao tempo em que foram escritas, exigindo análise mais atenta para se compreendê-las. Acontece o mesmo quando se busca compreender sentido religioso ou a teologia das oferendas na cultura israelita.  

 

Inicialmente é de se recordar, para um melhor raciocínio, a prática sistemática da entrega da herança da Tribo de Levi, que se constituía das oferendas para a casa de Aarão, o sacerdócio pleno, e dos dízimos para os demais levitas, o sacerdócio auxiliar. Tratando-se de entrega ao próprio Deus (cfr. abaixo: "...oferece o pão do teu Deus"), desfrutavam de uma importância espiritual e sagrada, equivalente à representação vicária de Iahweh entre as demais tribos, que se traduzia em profundo respeito e veneração em virtude da santidade sacerdotal: "...o sacerdote é consagrado a seu Deus. Tu o tratarás como santo, pois oferece o pão do teu Deus. Será santo para ti, pois eu sou santo, eu, Iahweh, que vos santifico" (Lv. 21,7c-8). 

Formava-se então, em torno do sacerdócio, verdadeira comunidade espiritual e mística das tribos israelitas, unindo, material e espiritualmente, todos e cada um de todas as tribos, uns com os outros, entre si e com os sacerdotes, e por meio destes com o próprio Iahweh. Além daquela já mencionada entrega das primícias em um cesto (Dt 26,2-4), há ainda outra prática sistemática culturalmente condicionada, quando se determina que se deve "comer" as oferendas:

"Não poderás comer em tuas cidades o dízimo do teu trigo, do teu vinho novo e do teu óleo, nem os primogênitos das tuas vacas e ovelhas, nem algo dos sacrifícios votivos que hajas prometido, ou dos teus sacrifícios espontâneos, ou ainda dons da tua mão, tu os comerás diante de Iahweh teu Deus, somente no lugar que Iahweh, teu Deus, houver escolhido, tu, teu filho, tua filha..." (Dt. 12,17-18; leia-se também Dt. 12,11-12; 14,22-26). 

A seguir literalmente esta perícope, o israelita que fosse entregar as primícias, o dízimo, os primogênitos, em suma, as oferendas, teria que "comê-las' no lugar escolhido por Iahweh Deus", nada entregando à Tribo dos Levitas da herança que lhe pertencia. Mas, o israelita de então compreendeu facilmente que Deus usara os termos do Ritual do Sacrifício. As oferendas destinada a Deus, deveriam ser consagradas ou santificadas no altar pelo sacerdote. Delas "comeriam" o ofertante e sua família, o sacerdote e "o próprio Deus": "Em relação a Iahweh vosso Deus... buscá-lo-eis somente no lugar... escolhido... para ai colocar o seu nome e fazê-lo habitar. Levareis para lá vossos holocaustos e vossos sacrifícios, vossos dízimos e os dons de vossas mãos, vossos sacrifícios votivos e vossos sacrifícios espontâneos, os primogênitos das vossas vacas e das vossas ovelhas. E comereis lá, diante de Iahweh vosso Deus, ...vós e vossas famílias..." (Dt 12,4-7). 

É São Paulo quem esclarece com maior objetividade o sentido da manducação das oferendas, quando afirma: "...os que comem as vítimas consagradas não estão em comunhão com o altar?" (1Cor 10,18). 

E Jesus confirma tudo isso quando, referindo-se ao Altar, diz: "Cegos! Que é maior, a oferta ou o altar que santifica a oferta?" (Mt 23,19)

Ora, desde a Aliança do Sinai o sacrifício se torna o centro gravitacional do culto israelita, tendo sido até mesmo concluída com a aspersão de sangue no Altar e no Povo (Ex. 24,4b-8). Nele as oferendas são "o pão do teu Deus" (Lv. 21,8), santificadas no Altar, e "comendo-as", entra-se em comunhão com Iahweh. Então, não é outro o sentido religioso das oferendas, ou a sua teologia: Por meio delas, "comendo-as" num sacrifício, entra-se em comunhão com Iahweh.