O SINAL-DA-CRUZ

NO INÍCIO DA LITURGIA

 

Certa ocasião: era uma manhã de domingo, viajando pelo Estado de Santa Catarina, resolvi ligar o rádio do carro. Sintonizei-o com uma emissora, prestes a transmitir uma missa. Escuto o canto de entrada e, em seguida, a voz do padre que abre a celebração com estas palavras: “Irmãos e irmãs, invoquemos a Santíssima Trindade, rezando: Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo”.

 

INVOCAÇÃO À SANTÍSSIMA TRINDADE?

 

Fiquei intrigado com aquele convite: ”Invoquemos a Santíssima Trindade...”. De lá para cá, prestei atenção e percebi que há outros padres (e outros ministros) que também fazem a mesma coisa. Interpretam o sinal-da-cruz no início da Liturgia como uma “invocação à Santíssima Trindade”. E a pergunta que me vem à cabeça é: Será que se trata realmente de uma invocação à Santíssima Trindade?

Comecemos pela palavra “invocar”. Segundo o Dicionário Aurélio, “invocar” significa: “Implorar a proteção ou auxílio de, fazer súplicas a, chamar em seu socorro, pedir, rogar, suplicar; alegar em seu favor, recorrer a, evocar, conjurar”. Assim sendo, não parece que, ao fazer o sinal-da-cruz no início da Liturgia, se esteja invocando a Santíssima Trindade. Esta ação ritual, com os dizeres que a acompanham, não contém, nem sugere, nenhuma “invocação” à Trindade. Talvez se faça alguma confusão entre a palavra “invocar” e a palavra “evocar” (no sentido de trazer à lembrança)...

No n. 50 da nova Instrução Geral sobre o Missal Romano se diz: “Executado o canto de entrada, o sacerdote, de pé junto à cadeira, junto com toda a assembléia faz o sinal-da-cruz...”. Como se vê, não se fala nada de “invocação à Santíssima Trindade”. Simplesmente diz: “junto com toda a assembléia faz o sinal-da-cruz”.

 

O SENTIDO DO SINAL-DA-CRUZ...

 

Mas qual seria, então, o sentido do sinal-da-cruz no início da Liturgia? Para responder a esta pergunta, antes de tudo é preciso ver essa ação litúrgica como integrada no contexto dos ritos iniciais da celebração, com sua finalidade bem precisa, indicada no n. 46 da referida Instrução Geral, a saber: “fazer com que os fiéis, reunindo-se em assembléia, constituam uma comunhão e se disponham para ouvir atentamente a palavra de Deus e celebrar dignamente a Eucaristia”.
Portanto, a finalidade dos ritos iniciais é, em outras palavras, fazer com que os fiéis, sentindo-se assembléia litúrgica, façam a experiência de estarem em comunhão de fé e amor (entre si e, juntos, com Deus: Trindade santa) e, assim, se sintam bem dispostos a ouvir “atentamente” a Palavra e celebrar “dignamente” a Eucaristia.

E o sinal-da-cruz, neste contexto? É a primeira ação litúrgica, pela qual, (digamos assim) se “abre a sessão”, ou então, se constitui “oficialmente” a assembléia. É como se a pessoa que preside dissesse assim: “Em nome da Trindade santa (Pai, e Filho e Espírito Santo) declaro (declaramos) constituída esta assembléia litúrgica”. E toda a assembléia expressa o seu assentimento, dizendo: “Amém” (assim seja, aprovado!). Assim, junto com a saudação presidencial subseqüente e a resposta do povo, se expressa (como diz a Instrução geral) “o mistério da Igreja reunida” (n. 50). No fundo, o que se quer dizer é isso: “A partir desse instante, está constituída a assembléia litúrgica: Quem nos reúne em comunhão de fé e amor para ouvir a Palavra e celebrar a Eucaristia é o Deus comunhão (Pai, e Filho e Espírito Santo), e mais ninguém. Neste Deus comunhão (por pura graça d’Ele) todos nós estamos em comunhão, formando um só corpo místico para celebrar a divina Liturgia, na qual somos ‘tocados’ pelo seu amor misericordioso em todos os âmbitos do nosso ser”.

 

NO “JOGO” DA LITURGIA, TOCADOS PELO AMOR DE CRISTO

 

Por isso, proclamando que quem nos reúne é a Trindade santa, nós tocamos o nosso corpo em forma de cruz. Esse “toque” tem um sentido muito profundo. Pelo mistério pascal (cruz e ressurreição) fomos (e somos) “tocados” pelo amor da Trindade. E, para completar, vejam o que o monge beneditino Anselm Grün, escritor e místico moderno, alemão, escreve sobre o sinal-da-cruz no início da Liturgia eucarística:

“Ao traçar sobre si mesmos o sinal-da-cruz, os participantes ‘entram-no-jogo’, se convertem em atores do ‘jogo-visão’ (teatro). Já no primeiro século, os cristãos se marcavam com a cruz. Ao fazê-lo, é como se talhassem ou gravassem em todo o seu ser o amor com que Jesus Cristo nos amou até o fim, morrendo por nós na cruz. (Ao traçar sobre nós a cruz) nós a burilamos em toda a amplitude do corpo: sobre a fronte (os pensamentos), no baixo ventre (a vitalidade, a sexualidade), sobre o ombro esquerdo (o inconsciente, o feminino, o coração), sobre o ombro esquerdo (o consciente, o masculino, o agir). Ao fazer o sinal-da-cruz, asseguramos e antecipamos aquilo que celebramos na Eucaristia: que seremos tocados pelo amor de Cristo e que nada em nós fica excluído deste amor. Na Eucaristia, Jesus Cristo imprime o seu amor salvador e libertador em todos os âmbitos de nosso corpo e de nossa alma, para que tudo em nós espelhe sua luz e seu amor” (La Eucaristía como obra de teatro, como “teatro-visão” e “teatro-jogo”, Cuadernos Monásticos n. 147, 2003, p. 439-440).

 

CONCLUINDO

 

Portanto, fica claro que o sinal-da-cruz no início da Liturgia não tem nada a ver com “invocação” à Santíssima Trindade. Não há necessidade nenhuma de querer “invocá-la”, pelo simples fato de ser Ela que, primeiro, por gratuita iniciativa sua, já nos convoca e nos reúne em assembléia para, em comunhão de fé e amor, ouvirmos “atentamente” a Palavra e celebrarmos “dignamente” a Eucaristia. Ela que nos reúne para sermos “tocados” pela presença viva do Senhor, na Palavra e no Sacramento.

 

Por Frei José Ariovaldo da Silva, OFM