SANTIDADE: A IGREJA SANTA E PECADORA

Ainda na primeira metade do nosso século, quando o movimento da juventude católica levou a Igreja a ser experienciada de uma forma inteiramente nova como comunidade dos fiéis, a experiência da santidade e da "glória" da Igreja esteve, para muitos cristãos, no primeiro plano de sua relação com ela. I.F. Görres fala-lhes de coração ao escrever sobre aquele tempo: "Pudemos, por uma hora, olhar para a Igreja em sua glória... as sombras e as manchas eram, com efeito, conhecidas por todos com tristeza e aborrecimento, mas não valia mais a pena descrevê-las; a glória, porém, foi surpreendente e atraente, e não se podia enaltecê-la suficientemente". Manifestamente não causava muita dificuldade pôr em relação as palavras dd Efésios (Ef 5,25s) não só com a Igreja consumada escatologicamente mas tamhém com a Igreja experimentada no presente: "Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, para torná-la pura na água e pela palavra. Ele quer assim fazer aparecer diante de si a Igreja gloriosa, sem manchas, sem rugas e sem outros defeitos; ela deve ser santa e imaculada (sancta et immaculata)".

Em conexão com a mudança social geral das relações de muitos fiéis com a Igreja em meados da década de 60, que coincidiu com a época da primeira fase da recepção do Vaticano II e de sua visão renovada da Igreja como "povo peregrinante de Deus", entrou para o segundo plano a infrangível alegria pela Igreja "santa". Em vez disso, com a nova percepção da sacramentalidade da Igreja, ou seja, do significado teológico do lado humano-simbólico da Igreja, emergiu também uma consciência muito mais forte da pecaminosidade da Igreja. Sem negar o perigo, ligado a isso e muito freqüente, de uma febre exagerada de crítica destituída de qualquer compreensão realista, vamos nos prender a justificação fundamental dessa maneira de ver. A Igreja é - em perspectiva teológica - não apenas a Igreja santificada por Jesus Cristo, mas também a Igreja que se tornou pecadora por nós pecadores.

O Concílio Vaticano II expressa este estado de coisas com cuidado: "Mas enquanto Cristo, "santo, inocente, imaculado" (Hb. 7,26), não conheceu o pecado (cf. 2 Cor. 5,21), mas veio para expiar apenas o pecado do povo (cf. Hb. 2,17), a Igreja, reunindo em seu próprio seio os pecadores, ao mesmo tempo santa e sempre na necessidade de purificar-se, busca sem cessar a penitência e a renovação" (LG 8). Os "pecadores do povo" tornam o povo de Deus, a Igreja, um povo pecador, sempre necessitado de contínua penitência e renovação.

 

1. OS PECADOS DOS INDIVÍDUOS E A IGREJA PECADORA

 

Para entender em que sentido podemos falar de uma Igreja pecadora, recorramos à nossa imagem sistemática de Igreja da primeira parte (desta obra), ou seja, ao conceito teológico de Igreja como "communio" sanctorum (A V 2) e a sua tradução socio-filosófica (B III 2) como "espaço de vida comunicativo da fé". Nas duas vezes chegamos ao resultado de que a Igreja deve-se entender ao mesmo tempo como Igreja para os indivíduos e Igreja constituída dos fiéis individuais; ou seja, que ela é a Igreja prévia aos indivíduos como dom de Cristo e do seu Espírito, "Igreja que os santifica" na palavra e no sacramento, e também "Igreja dos santos" que se edifica a partir dos indivíduos assim santificados. Enquanto "nós" dos fiéis, a Igreja representa, portanto, também a forma de expressão comum, marcada pelos fiéis individuais, de sua fé pessoal.

Visto, porém, que os fiéis (com a exceção de Cristo e de Maria, a mãe de Deus) são ao mesmo tempo pecadores, ou seja, pessoas que não se entregam inteiramente ao amor de Deus manifestado em Cristo e à sua vontade salvífica, apesar do sim fundamental pronunciado no batismo e na fé, fecham-se parcialmente a ele e não se deixam conduzir ao pleno desdobramento na vida de fé, esperança e amor, essa fé deficiente dos pecadores também marca a configuração comum de sua fé, ou seja, a Igreja; ela abaixa, no todo, o "nível" de sua santidade. Donde o pecado não é apenas uma realidade na Igreja na medida em que os indivíduos são pecadores, mas também uma realidade da Igreja mesma na medida em que, como comunidade dos pecadores, ela não existe incólume acima das pessoas concretas, mas é desfigurada por seus pecados. Por isso muitos padres da Igreja puderam chamar com razão a Igreja de "pecadora".

O pecado do indivíduo e a pecaminosidade da Igreja têm obviamente estrutura formal diversa: o indivíduo é o sujeito pessoal, a origem do pecado; este nasce de sua liberdade e de seu agir responsável. A Igreja, por sua vez, é forma social objetivada desta fé prejudicada pelos pecados dos indivíduos; Aparece nela o "resultado" social do pecado dos sujeitos individuais.

Ora, esse lado da Igreja relativo ao sujeito (Igreja constituída dos pecadores individuais) não se pode separar (mas apenas distinguir!) do seu outro lado; ou seja, que ela - a partir de Cristo, sua origem pessoal, e de Maria, sua imagem original personificada - constitui o dom prévio santo e "objetivo" da salvação em prol dos indivíduos. Em unidade "sem mistura e inseparável", isto é, sacramental (ver anteriormente), a Igreja concretamente existente sempre representa ao mesmo tempo os dois aspectos. Por isso, o seu tornar-se pecadora com base nos pecados dos individuos afeta também sua dimensão como fundamento prévio de possibilitação da fé; ou seja, mesmo seus dados prévios mais santos, a palavra e o sacramento, não pairam sem risco acima dos homens pecadores, mas se vêem também marcados por estes (quer destinatários quer administradores). Neste sentido, também o espaço de vida pré-dado (o "onde") da fé pode por sua vez tornar-se para os indivíduos base para o pecado pessoal, ou seja, na forma de uma estrutura possibilitadora, que provoca ou fortalece o pecado. Se a Igreja, enquanto o "nós" dos fiéis, não pode existir separada de maneira hipostasiada dos fiéis individuais, resulta inevitavelmente essa influência recíproca entre o dado prévio "objetivo" e a apropriação "subjetiva" da fé comum; e, com efeito, não só no campo da santidade (ver anteriormente), mas também no campo do pecado.

Por exemplo, essa "pecaminosidade estrutural" da Igreja manifesta-se quando uma mediocridade e saciedade geral atenua quase "a priori" para número cada vez maior de fiéis todo apelo radical do Evangelho que visa penetrar nas raízes da existência de fé; ou quando uma Igreja ou uma comunidade se fecha num "meio" intra-eclesial e aí se dissolve numa auto-satisfação institucional de tal forma que não está mais aberta realmente para as necessidades dos homens dentro e fora da Igreja; ou quando a pregação da palavra se degenera em doutrinação inimiga da liberdade, a administração dos sacramentos (por exemplo, do sacramento da penitência) se torna exercício subliminar do poder sobre as consciências, e a diaconia se torna cuidado rotineiro etc. Em toda parte aí a Igreja se torna "Igreja pecadora", que por sua vez pode ser para os indivíduos ocasião e impulso para o pecado. Por isso ela própria como Igreja (e não só cada indivíduo nela) deve orar diariamente por perdão e renovação (como, por exemplo, no Pai nosso, na confissão das culpas na eucaristia, em diversas orações da santa missa, nas preces comunitárias).

 

2. A SANTIDADE INDESTRUTÍVEL DA IGREJA

 

Quando falamos de Igreja santa e pecadora, esse "e" não significa absolutamente uma adição de duas propriedades contraditórias da Igreja que estejam, no entanto, no mesmo nível "ontológico". Ao contrário, onde a Igreja, nos fiéis individuais e em sua constituição social, oferece espaço à ação santificante do Espírito Santo, surgem sua natureza verdadeira, sua vocação e sua missão dadas por Deus como Igreja "santa". Onde, pelo contrário, ela se fecha a esse Espírito Santo, tornando-se assim pecadora, nela se manifesta "somente" a contradição (que permanece, com eleito, intra-historicamente, mas desarmada "em princípio" por Cristo e por isso no fundo impotente) dos homens (como indivíduos e como comunidade) contra sua santidade operada pelo Espírito. Por isso a Igreja não é absolutamente - como frisa com rãzào K. Rahner - o "puro paradoxo de uma unidade de pecado constatável e graça oculta". Sua identidade teológica própria está antes no fato de que ela representa a resposta visível, configurada pelo Espírito Santo conforme Filho Jesus Cristo, à auto-comunicação definitiva de Deus na história de que ela em todos os seus desempenhos fundamentais participa - acolhendo, respondendo e seguindo - do amor incondicionalmente salvífico de Jesus Cristo para com o Pai e para com os homens, e, por isso, é mantida por ele em sua santidade de maneira indestrutível. Ainda que a contradição pecaminosa da Igreja possa às vezes desfigurar esta sua identidade (mesmo para muitos fiéis) até o ponto de se tornar irreconhecível, a fé mantém a confiança de que o pecado (tanto intra-historicamente como no fim dos tempos) jamais ganhará supremacia sobre a obra do Espírito Santo na Igreja e não poderá destruir a comunidade santa de Deus.

Essa última certeza salvífica refere-se, porém, apenas à Igreja como todo, e não a cada indivíduo ou a grupos individuais nela. Quanto aos indivíduos, permanece, a partir de nós, aberta a questão da salvação ou não - salvação definitiva, uma vez que seu pecado pode separá-los definitivamente de Deus -, o que todavia não esperamos para ninguém. Que isso não vale de maneira igual na Igreja fica claro ainda uma vez mais pelo fato de ela ser mais que a soma de seus membros pecadores, a saber, o povo de Deus renovado irrevogavelmente por Jesus, o corpo de Cristo configurado indissoluvelmente com ele, o sacramento da "communio" de Deus unido pelo Espírito Santo inseparavelmente. Se a questão da salvação ficasse para a Igreja como um todo tão aberta quanto para os indivíduos, que se inserem nessa Igreja com intensidade muito diversa ou também podem abandoná-la inteiramente, eliminar-se-ia o especifico da aliança nova e definitiva que Deus fez com o seu povo (e por meio dele com todos os homens). Pois neste caso mesmo essa aliança poderia ser rompida e destruída pelo pecado do povo de Deus. Isso, porém significaria que o mal venceria, de modo retroativo, o Cristo crucificado e ressuscitado e o Reino de Deus que nele irrompeu definitivamente. Toda a mensagem do Novo Testamento acerca da salvação escatológica de Deus, isto é, manifestada definitivamente, perderia com isso o seu caráter de verdade e credibilidade. Mas porque a força santificante de Deus, ou seja, o seu Espírito Santo permanece presente na Igreja (cf. Jo l4,16-18; l6,7-l5; Mt 16,l8; 28,2O; Rm 8,34-39 etc.), podemos ter a confiança de que o pecado do povo de Deus não pode mais invalidar a vontade salvífica incondicional de Deus.

Essa confiança acha seus pontos de apoio confiáveis primariamente nos santos, que tornam indubitavelmente transparente o amor de Deus. Isso vale sobretudo para Maria, o "cerne santo" da Igreja (H. U. v. Balthasar). Nela, a serva do Senhor sem pecado e incondicionalmente fiel, a fé vê o símbolo real original da Igreja indestrutivelmente santa. Essa santidade da Igreja, fundamentada pessoalmente em Maria e em toda a "communio sactorum", age também na estrutura sacramental-objetiva da Igreja: tanto a pregação da palavra de Deus (regulada eclesialmente) como a administração dos sacramentos valem para a fé como sinal insofismável de que o Espírito Santo conserva a Igreja definitivamente na verdade da fé e na santidade do amor. Pois enquanto essas realizações são ainda reconhecíveis de alguma maneira como sinal de Cristo e de sua Igreja, e assim são aceitos pelos homens, eles conservam sua força mediadora de salvação, que também não pode ser destruída pela pecaminosidade, por maior que seja do pregador e do ouvinte, do administrador e do destinatário.

Nesta simultaneidade de santidade e pecaminosidade, simultaneidade em última análise de peso desigual, na Igreja, manifesta-se a participação especial da Igreja na cruz e ressurreição de Jesus. Assim como no Senhor crucificado se faz visível a força do pecado com suas consequências sofrimento e morte), mas que também a um só tempo foi suportada e vencida, assim também a Igreja surgida da cruz (ver acima) é chamada a experimentar em si mesma a contradição do pecado, precisamente do seu próprio pecado, contra a vontade salvífica de Deus, a suportá-la no sofrimento e confiar-se humildemente à misericórdia indulgente e salvadora de Deus. A pecaminosidade da Igreja é uma das marcas do povo peregrino de Deus, que só pode carregar o "tesouro" na santidade em meio à história em "vasos de barro".

De mais a mais, a consciência vigilante de ser a Igreja do Crucificado por causa do pecado e como tal Ressuscitado por Deus constitui um eficaz corretivo contra uma compreensão triunfalista da Igreja, que com demasiada certeza de salvação gostaria de esquecer o caráter da Igreja de ser sinal sacramental identificando-a apressadamente com a realidade salvífica que nela aparece. Escreve com razão Hans Urs von Balthasar:

    "Quem haveria de qualificar a Igreja real, que é tão real e multicolorida quanto a antiga Jerusalém, fazendo dela uma pura grandeza escatológica que estaria de uma vez para sempre além de todas as vicissitudes, de todos os naufrágios paulinos (At. 27)..., quem haveria de limitá-la a suas estruturas concedidas e garantidas pelo alto, separando-a assim de toda historicidade autêntica, de... toda fé, esperança e amor? O 'sujeito' que se poderia identificar com garantias sem reveses não existe nem 'na Igreja' nem 'como Igreja'. Pois a 'Igreja' não pode ser salva e garantida em nenhum outro lugar senão na cruz do seu Senhor (e não em si mesma). E, quando se reconhece como fruto da cruz..., ela jamais se reconhece de outra forma senão caminhando na penitência rumo a essa cruz"

3. REPRESENTAÇÃO: SOLIDARIEDADE NA SALVAÇÃO

 

Podemos considerar neste contexto um pouco mais aquela dimensão da Igreja que constitui com certeza o seu mistério mais profundo e consolador como "communio sanctorum", a saber, o fato de os fiéis poderem existir vicariamente pelos outros. Apresentemos antes um texto muito claro de Martinho Lutero, ainda da época em que era católico:

    "Esta é a comunhão dos santos da qual nos orgulhamos... Não é bom que fiquemos aqui onde todos os membros sofrem quando um membro sofre, e, se um é glorificado, todos também se alegram? Quando, pois, sofro, não sofro sozinho, mas comigo sofre Cristo e sofrem todos os cristãos; assim como diz o Senhor: 'Quem vos tocar, tocará a menina de meus olhos'. Portanto, minha carga outros a carregam; a força deles é minha força. A fé da Igreja vem em auxílio da minha fé, a castidade de outros ampara minha tentação de luxúria, o jejum de outros torna-se-me um ganho, a prece de outros preocupa-se comigo. Posso assim verdadeiramente me gloriar nos bens dos outros como dos meus próprios; e são de verdade meus, com eles me deleito e me alegro também. Ainda que eu seja desonrado e sujo, aqueles que eu amo e a que presto reverência são belos e agraciados. Com esse amor faço meus não só seus bens, mas tamhém eles mesmos, e, assim, chega à honra, em virtude de sua honra, minha desonra; por força de sua abundância sacia-se minha necessidade, e, em virtude de seus méritos, curam-se meus pecados. Quem, pois, haveria de se desesperar por seus pecados? Quem não se alegraria em seus castigos, se carrega seus pecados e castigos, ou, ao menos, não sozinho, uma vez que tantos santos filhos de Deus e o próprio Cristo estão a seu lado? Essa coisa tão grandiosa acontece na comunhão dos santos e na Igreja de Cristo. Quem, no entanto, não crê que isso acontece é descrente que negou a Cristo e a Igreja. Mesmo que não se sinta assim, todavia, acontece; e quem afinal não o sente? Se não te desesperas e não perdes a paciência, onde esta o motivo? Em tua virtude? Com certeza, na verdade não, mas na comunhão dos santos. Que outra coisa quer dizer crer que a Igreja é santa a não ser crer que ela é a comunhão dos santos? Com quem os santos têm comunhão? Com os bons e os maus, tudo pertence a todos, como o sacramento do altar o expressa simbolicamente no pão e no vinho: somos designados aí pelo Apóstolo como um só corpo, um só pão e uma só bebida. O que outrem sofre, sofro e suporto eu, o que lhe ocorre de bom, ocorre a mim. Assim também Cristo diz, o que se faz aos pequeninos a ele se faz. Quem recebe a menor partícula do sacramento do altar recebe com certeza pão. Quem despreza essa pequena partícula despreza o pão como tal.

    Assim quando sentimos dores, quando sofremos, quando morremos, volte-se nosso olhar para isso. Cremos firmemente e nos convençamos de que não somos nós ou nós sozinhos que sentimos dores e sofrimentos, mas é Cristo e a Igreja que conosco também suportam dores, sofrem, morrem. Cristo quis que o nosso caminho de morte, de que todo homem tem pavor, não fosse solitário, mas que percorrêssemos, acompanhados de toda a Igreja, o caminho da paixão e da morte, e que a Igreja sofresse aí mais do que nós próprios..."

Esse texto deixa claro o que quer dizer "representação" no contexto eclesiológico: os membros todos da "communio" são responsáveis uns pelos outros até no campo mais pessoal de sua vida e morte, sua alegria e sofrimento, sua santidade e pecaminosidade; carregam-se mutuamente e são mutuamente carregados. A igual originalidade da fé pessoal e da fé comunitária e até mesmo o "possuir em comum no campo mais pessoal" abrangem o núcleo existencial no qual o homem ouve o apelo de Deus e o acolhe na fé para sua salvação, onde, todavia, sempre é de novo tentado pelo pecado da incredulidade. Assim, o encontro singular é insubstituível de todo indivíduo com Deus realiza-se, já sempre no "ambiente" comunitário dos que vivem "de corpo e alma" na "communio" do amor entre Pai e Filho, isto é, no Espírito Santo; cujo eu cada vez mais "se põe a caminho" e "se relativiza", pela força deste Espírito relacional, rumo aos outros e em prol dos outros.

A eucaristia é o evento central em que acontece essa transposição do "ser para os outros" trinitário para o "ser para os outros" eclesial. Ela torna presente a doação da vida de Jesus "por vós e por todos", na qual o Inocente tomou sobre si representativamente a violência e a distância de Deus imanentes ao pecado, para, com sua não-violência e proximidade de Deus, suportá-las até não mais poder, e assim atingi-las em suas raízes e desarmá-las. Na celebração eucarística da memória, o Espírito Santo assume os fiéis nesta ação libertadora e reconciliadora de Jesus; nela se lhes faculta abandonar o seu "ser-para-si" pecador e assimilar a forma de Jesus de "ser-para-os-outros" (2 Cor. 5,14s; Rm. 14,7). Na medida em que as pessoas deixam acontecer em si essa ação libertadora do Espírito Santo, elas se tornam realmente conformes (à sua maneira finita) à figura do Filho que aí se ilumina, pura abertura ao amor do Pai e doação sem reservas aos homens. Assim a comunidade que celebra comunitariamente participa do "pelos outros" do Deus trino, podendo realizar esse "pelos outros" também no nível inter-humano-eclesial precisamente como comunidade do corpo de Cristo, comunidade formada pelo entretecimento mútuo dos seus membros, pela responsabilidade de uns pelos outros e pela capacidade de uns levarem os outros.

Essa mútua ligação solidária na salvação pode ser expressa concretamente de diversas maneiras: na prece de intercessão pelos vivos e mortos, no alívio recíproco e perceptível em toda penúria, na aceitação espontânea do sofrimento (cf. Teresa de Lisieux e Carlos de Foucauld) para suportar no próprio corpo "pelo corpo de Cristo, a Igreja" e seus membros o que "falta à Paixão de Cristo" (Cl. 1,24; cf. Rm. 9,3 e Ex 32,32); na obediência a uma vocação doada pelo Espírito que renuncia a realização dos próprios desejos em benefício dos outros etc. Quanto mais se incorpora este agir no contexto de uma espiritualidade da "communio" e do "pelos outros", tanto mais se pode fugir da tentação de uma mística do sofrimento salvífico-individualista ou inimiga da vida que atribui ao sofrimento "em si" uma qualidade salvífica.

Medard Kehl - A Igreja: uma eclesiologia católica - Editora: Loyola
Texto retirado das páginas 361 a 368. Notas omitidas