RESGATAR A UTOPIA

"Quanto mais o homem é oprimido, mais a resistência à opressão é capaz de suscitar utopias que vêm reforçar a solidariedade ameaçada (Henri de Ternay).”

 

Depois dos anos rebeldes, que caracterizaram os anos 60 e 70, com intensos movimentos estudantis, grandes marchas pela paz, luta contra regimes autoritários, a década de 80 trouxe um imobilismo social. A virada conservadora se deu na política com a eleição de Ronald Reagan nos Estados Unidos, em 1979, e de Margaret Tatcher na Inglaterra, em 1980. No campo da economia, foi marcada pela implantação do ajuste neoliberal, levado à frente pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) e Banco Mundial. Dentro da Igreja, o marco da virada foi a perseguição cerrada do Magistério sobre a Teologia da Libertação e seus pensadores, com o conseqüente enfraquecimento das CEBs e dos movimentos sociais.

Toda essa realidade levou ao enfraquecimento da utopia e da imaginação social para buscar o novo e jogar-se na aventura daqueles que não se conformam com as estruturas deste mundo e buscam algo mais. Para solidificar essa virada, veio a derrocada do socialismo real em 1989, simbolizada pela queda do muro de Berlim.

 

O sonho não acabou

Para espanto dos defensores do status quo, o sonho não acabou. Tal como Fênix, renascendo das cinzas, a utopia foi ganhando corpo e sendo resgatada pelos movimentos sociais. Começou violenta, com manifestações anti-globalização, mas foi se tornando sempre mais racional e propositiva. O lema Um outro mundo é possível passou a fazer parte do imaginário popular. Desde o primeiro Fórum Mundial em Porto Alegre, uma onda de entusiasmo reacendeu a esperança espezinhada.

Na linguagem corrente, utopia é o irrealizável. Refere-se a um quadro ideal, a um estado perfeito, a uma sociedade puramente imaginária. No entanto não é bem assim. A utopia é realidade ainda não concretizada, mas que pode ser concretizada. É realidade germinal. É projeto pensado e desejado que ainda não compareceu ao mundo existente, mas pode converter-se em fenômeno histórico. É realidade que ainda não ocupa seu espaço, mas poderá ocupá-lo ao tornar-se topia através da práxis humana.

Na reflexão da Doutrina Social da Igreja, é Paulo VI quem apela para a importância das utopias. Ele afirma que “esta forma de crítica da sociedade existente provoca muitas vezes a imaginação prospectiva para, ao mesmo tempo, perceber no presente o possível ignorado, que aí se acha inscrito, e para orientar no sentido de um futuro novo” (Octogesima Adveniens, 37).

 

É tempo de construir o novo

Diante de nós, abre-se um novo milênio, como um vasto oceano a ser navegado, como nos convida o papa João Paulo II na Novo Millennio Ineunte (NMI, 58). Avancemos para águas mais profundas (Lc 5,6)! O Brasil apostou no novo. Não podemos perder o trem da história. É hora de dar nossa parcela de contribuição para a concretização de um projeto de sociedade longamente sonhado e ardorosamente buscado. Como cristãos, não podemos ficar fora dessa luta. O tempo é agora. O tempo se chama hoje (Hb 3,13).

De Monteiro Lobato (SP),

Pe. Antonio Aparecido Alves

Mestre em Doutrina social da igreja

 

Artigo retirado da Edição 83 – pág. 41