A PROFISSÃO DE FÉ APOSTÓLICA (1)

1. Creio em Deus, Pai Todo-Poderoso

 

"Ide por todo o mundo e proclamai o Evangelho a toda a criatura" (Mc 16,15). "Ide, pois, e ensinai todas as gentes, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a observar tudo o que vos mandei" (Mt 28,19-20). Eis a missão que Jesus confiou aos seus apóstolos. A mesma que os apóstolos transmitiram aos seus seguidores: a missão da Igreja, hoje. A Igreja testemunha e anuncia para que todos possam crer e esperar, viver e amar como Jesus acreditou e esperou, viveu e amou. Ela guarda a tradição sagrada e protege-a da falsificação e do erro.

A profissão de fé nasceu na Igreja como recapitulação válida da mensagem transmitida pelos apóstolos. Todos aqueles que, por ocasião do seu Batismo, são interrogados sobre a sua fé, confessam com as mesmas palavras a sua pertença a Deus Pai, a Jesus Cristo, seu Filho e ao Espírito Santo.

A profissão de fé (Credo) de todos os cristãos começa pela palavra "Eu". Porque no seio da comunidade, cada pessoa tem a sua própria história com Deus. Ninguém pode dizer "eu" pelo outro.

Quem diz "sim" a Deus deve saber a que se compromete. Por isso, é importante que cada cristão aprenda a conhecer e a compreender o texto fundamental da sua fé.

 

1.1 Eu creio

 

Eu sou uma pessoa e nasci rapaz ou rapariga. Tenho um pai e uma mãe, irmãos, irmãs e familiares. Vivo em sociedade com muitas pessoas, animais e plantas, e com tudo o que cresce na terra.

Os homens podem ver e ouvir, aprender e reter, pensar e fazer projetos. Podem construir casas, domesticar animais, curar doenças, transmitir a vida. Investigam o universo e são capazes de viajar até à lua, atravessar os mares e inventar bombas que destroem a vida sobre a terra. São capazes de observar e estabelecer comparações.

Os homens comunicam, aprendem uns dos outros, necessitam-se mutuamente. O que é difícil torna-se fácil quando há alguém a quem posso dizer: conto contigo; tens boas intenções para comigo. Escuto o que me dizes: confio em ti. Tu ajudas-me sempre a levantar e dás-me esperança. Quero apoiar-me em ti. Acredito em ti.

Um amigo fiel é uma poderosa proteção; quem o encontrou, descobriu um tesouro. (Eclesiástico 6,14)

 

1.2 Creio em Deus

 

As pessoas acreditam em si mesmas. Mas muitas acreditam também em algo que as ultrapassa. Acreditam em Deus. Esperam d'Ele uma resposta que ultrapassa toda a capacidade de conhecimento. Porque estou na terra? Porque temos de morrer? Donde procede a diversidade da vida? Existe uma causa última que dê sentido à vida e também ao sofrimento?

Em todas as épocas e em todos os povos, os homens procuram Deus. Procuram-n'O para aprender d'Ele a compreenderem-se e a compreender o mundo. Todo o homem pode reconhecer a mão eficiente de Deus na ordem diversificada da criação.

As obras são o reflexo d'Aquele que as criou. Existe uma maneira mais direta de encontrar Deus e de estar seguro da sua existência. Testemunham-no os profetas da Primeira Aliança, enviados por Deus. Um mestre da Igreja primitiva escreve: "Muitas vezes e de muitos modos falou Deus a nossos pais, nos tempos antigos, por meio dos profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por meio do Filho" (Hb 1,1).

Os cristãos confiam no testemunho da Bíblia. Acreditamos que Deus escolheu o pequeno povo de Israel, entre todos os povos da terra, para estabelecer com ele uma aliança. Através deste povo, todos os povos da terra aprenderão que Deus existe e que Ele tem um plano para os homens. A história desta aliança divina com Israel encontra-se nos livros do Antigo Testamento.

Através das histórias bíblicas dos encontros, aprendemos a conhecer a Deus. Aprendemos quem é Deus e o que Ele quer do homem ou para o homem.

Moisés pastava o seu rebanho no deserto. Vê então uma sarça ardendo sem se consumir pelo fogo. Ouve a voz que lhe diz: "Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob... Eu bem vi a opressão do meu povo que está no Egito, e ouvi o seu clamor...; conheço, na verdade, os seus sofrimentos" (Ex 3,6-7).

O Deus transcendente e todo-poderoso uniu-Se a esses homens. Sofreu com eles. Através de Moisés quer conduzi-los à liberdade. Moisés estremece, não quer aceitar essa missão. Pede que, do meio do fogo, lhe diga o seu nome. Deus diz-lhe: "Eu sou aquele que é". Não é um nome habitual. Deus está aí para o homem. Deus está aí! E isto é válido para todos os homens e para todos os tempos.

E agora, eis o que diz o Senhor, o que te criou...

Nada temas, porque Eu te resgatei,

e te chamei pelo teu nome; tu és meu.

Se tiveres de atravessar as águas, estarei contigo,

e os rios não te submergirão.

Se caminhares pelo fogo, não te queimarás,

e as chamas não te consumirão.

Porque Eu, o Senhor, sou o teu Deus;

Eu, o Santo de Israel, sou o teu salvador. (Isaías 43,1 - 3)

Job, um homem piedoso que confiou a sua vida a Deus, descobre-O de outra maneira: a desgraça cai sobre ele. Bandos de ladrões roubam-lhe os seus rebanhos e matam os pastores. Os seus filhos, sete varões e três filhas, ficam sepultados sob as ruínas da sua casa, que desabara sobre eles. Ele próprio contrai lepra: o seu corpo cobre-se de chagas. Permanece sentado sobre um monte de cinzas e raspa-se com um caco de telha.

Não é possível que Deus envie tantas desgraças ao piedoso Job! A mulher e os amigos tentam convencê-lo a separar-se de Deus, visto que lhe paga tão mal o bem que Lhe faz. Mas Job está certo disto: se aceitamos de Deus o bem que Ele nos envia, não devemos aceitar também o mal?

Acreditar significa:

  • Confiar em Deus, saber que Ele existe para todos os homens, que Ele os conhece e os ama.

  • Estar certo de que Deus existe para mim, me conhece e me ama.

  • Amar a Deus com todo o meu coração, com todas as minhas forças e com todas as minhas capacidades.

  • Dizer sim a Deus, escutar a sua palavra, fazer a sua vontade.

Numa cidade em ruínas, foi encontrada, na parede dum refúgio, a profissão de fé dum perseguido:

Creio no sol, mesmo quando ele não brilha. Creio no amor, mesmo que não o sinta. Creio em Deus, mesmo quando Ele Se cala.

Conhecimento de Deus: "As faculdades do homem tornam-no capaz de conhecer a existência de um Deus pessoal. Mas para que o homem possa entrar na sua intimidade, Deus quis revelar-Se ao homem e conceder-lhe a graça de poder acolher essa revelação na fé. Contudo, as provações sobre a existência de Deus podem dispor à fé e ajudar a ver que a fé não se opõe à razão humana" (Catecismo da Igreja Católica 35).

Bíblia - Antigo Testamento: Bíblia significa "livro". Designa-se assim o livro que reúne os escritos que a Igreja reconhece como "Sagrada Escritura". A primeira parte, a mais extensa, o Antigo Testamento, contém os livros nos quais o povo de Israel testemunha as grandes obras de Deus e da sua própria história. Contém três partes distintas: A Lei (Pentateuco = os cinco livros de Moisés), os Livros Proféticos, e os "Escritos" (históricos, poéticos e sapienciais). Os escritos do Antigo Testamento foram redigidos durante o milênio que precedeu o nascimento de Jesus. A segunda parte da Bíblia, mais pequena, constitui o "Novo Testamento" (cf. 3.4).

Aliança: A palavra significa o pacto que Deus fez com Noé, com Abraão, e com todo o povo no Monte Sinai. A aliança é para Israel o penhor da eleição. "Eu serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo". Os "Dez Mandamentos" constituem as regras da aliança. Todos os anos, Israel celebra a festa da aliança.
Dado que o Deus fiel concluiu esta aliança, os homens podem confiar n'Ele. Mesmo no meio das maiores adversidades, os homens piedosos não perdem a esperança. Aguardam uma nova aliança que Deus oferecerá ao seu povo. A Igreja proclama Jesus como Messias, Cristo, através do qual Deus realiza essa esperança.

 

1.3 Creio em Deus, Pai Todo-Poderoso

 

Os que crêem falam com Deus. Procuram palavras que exprimam a grandeza de Deus e expliquem que Ele é diferente: Tu és Santo, Tu és Glorioso, Tu és o Altíssimo. Prostram-se a seus pés e adoram-n'O.

Muitos justos, dos quais fala o Antigo Testamento, acreditam que aquele que vir a Deus face a face morrerá necessariamente. Mas o Antigo Testamento conhece homens cujo maior desejo é contemplar o rosto de Deus. São homens que tudo o que desejam é estar com Deus, porque acreditam, com fé, que o homem não pode ser feliz se não está junto de Deus. Acreditam que Deus castiga o pecado, mas sabem igualmente que o seu amor e a sua misericórdia são imensamente maiores do que a sua ira.

Eles dizem: Deus não quer humilhar-nos. Deus não amedronta as pessoas. Ele ama-as e quer ser amado. Ele diz de Si mesmo: "Como uma mãe consola o seu filho, assim Eu vos consolarei" (Is 66,13). E também: "Chamar-Me-ás 'Meu Pai' e não te afastarás de Mim" (Jr 3,19). Um justo que conhece bem a Deus, diz: "Tal como um pai se compadece de seus filhos, assim o senhor Se compadece dos que O temem" (Sl 103,13).

Que Deus nos pareça, por vezes, afastado, estranho e inacessível, faz parte do mistério do seu amor. E também que Ele nos faça sentir que os seus pensamentos e os seus caminhos não são os nossos (cf. Is 55,8).

Quando os poderes do mal prevalecem, Deus pode parecer-nos, por vezes, impotente. E, no entanto, quando sentimos faltar-nos as forças, ainda é válida a palavra que o enviado de Deus dirigiu a Abraão que duvidava - sendo ancião de noventa anos de idade - que fosse possível nascer-lhe um filho: "A Deus nada é impossível". É a mesma palavra que o anjo diz a Maria na Anunciação.

Aos que estão cansados de tanto trabalho, Deus sai ao seu encontro tomando-os nos seus braços. Procura os que estão sós e senta-Se a seu lado, como uma mãe. Enxuga as lágrimas dos que já perderam a esperança. Tranqüiliza os que têm dúvidas. O seu sorriso anima os desencorajados. Nada nem ninguém é capaz de resistir a Deus. O seu braço nunca é demasiado curto para ajudar. É isto principalmente o que queremos dizer quando afirmamos: Deus é todo-poderoso. Todo-poderoso para ajudar, para perdoar e para fazer o bem. Todo o mal é estranho à sua natureza.

O amor de Deus é como uma mão à qual nos podemos agarrar, como um luz que brilha na noite
e nos indica o caminho.

 

2. Creio em Deus..., criador do Céu e da Terra

 

Os homens perguntam admirados: donde vem o mundo? Donde procede esta diversidade da vida? Quem decidiu sobre o curso dos astros que determinam o tempo do Verão e do Inverno, as sementeiras e as colheitas, o dia e a noite? Quem proporcionou a ordem às plantas e aos animais e concedeu a fertilidade à terra? Quem faz brotar a vida no seio das mães? O que é que existiu no princípio e qual será o fim?

Os homens que sofrem, queixam-se: Quem faz estremecer a terra e provoca as inundações? Quem retém as águas para secar a terra? Donde vem a desgraça, a doença, a morte? Donde vem o mal e quem lhe dá o poder de encher o coração humano? Acabará o mal por vencer o bem? Será a morte mais forte que a vida?

Em todo o mundo se ouvem as mesmas interrogações que angustiam os homens. Os mais sábios de entre todos os povos buscam uma resposta. Falam do mistério dos começos, das obras da divindade e da sua história com a humanidade: são os relatos das origens.

Os sacerdotes de Israel, iluminados pelo Espírito de Deus, formulam a sua fé em Deus, "criador do céu e da terra". Esta confissão de fé é tão importante que eles a situam no princípio da Bíblia.

Relatos das origens: Fala-se, por vezes, do "relato da criação" no princípio da Bíblia correndo o risco de interpretar o capítulo inicial do primeiro livro bíblico como a descrição mais ou menos exata dos acontecimentos relatados nesse primeiro capítulo. Quando se diz, por exemplo, que Deus criou o mundo em seis "dias" (fala-se dos seis dias de "trabalho" divino), a palavra "dia" não significa as vinte e quatro horas do dia. A imagem pretende sublinhar que com a criação de Deus, o tempo começa o seu percurso, e também que as diferentes criaturas ficam ligadas umas às outras. O texto que a Bíblia nos transmite não nos diz como é que o universo começou, mas quem é que o fez. O povo de Israel professa neste hino a sua fé em Deus, o qual existia antes do começo e que permanece fiel à sua criação até à sua consumação.

 

2.1 Tudo procede de Deus

 

"No princípio Deus criou o céu e a terra" (Gn 1,1). Com esta frase começa a Bíblia. "No princípio" significa: quando ainda não havia nenhum ser humano na terra, nenhum homem, nenhuma mulher, nenhuma criança, nenhum animal para deixar o seu rasto na floresta e nos campos, nenhum pássaro para cantar, nenhum peixe para nadar nas águas, nenhum raio de sol para anunciar o dia nem a lua a iluminar o céu, nem uma estrela a iluminar a noite, nenhum mar, nem altura nem profundidade, nem direita nem esquerda. No princípio havia Deus: "O seu espírito pairava sobre as águas" (Gn 1,2).

  • Nós dizemos: "Creio em Deus, criador do céu e da terra", e queremos dizer com isto que o mundo e tudo o que ele contém não surgiu de si mesmo nem do acaso, mas surgiu porque Deus assim o quis; sem Ele não haveria vida.

  • Nós dizemos: Ele criou o mundo do "nada": o mais pequeno átomo, a galáxia mais distante. Por isso os homens podem reconhecer o rasto de Deus nas suas criaturas mesmo desconhecendo-O. "Pois, na grandeza e formosura das criaturas podemos ver, por analogia, o seu autor" (Sb 13,5).

Os homens partem à descoberta do seu meio vital, a "Terra". Explicam como a diversidade da vida evoluiu ao longo dos milênios. A nossa imagem do mundo é diferente da imagem bíblica. Acerca dos começos, da causa última da vida, existem várias respostas: nós não acreditamos no acaso, mas sim que o Deus vivo é a causa original de todos os começos.

Através da fé neste Deus, podemos adotar um ponto de vista que nos permita compreender o mundo e a nós mesmos. E porque acreditamos, podemos confiar que o mundo e o homem estão seguros n'Aquele que existia já no princípio.

Deus é cheio de bondade para conosco. O povo de Israel experimentou-o muitas vezes, e cada crente experimenta-o na sua própria vida.

Alguém que refletiu muito, louva a Deus assim: "Tu tens compaixão de todos, pois tudo podes e desvias os olhos dos pecados dos homens, a fim de os levar à conversão. E como subsistiria uma coisa, se Tu a não quisesses? Ou como se conservaria, se não tivesse sido chamada por Ti? Mas Tu poupas a todos, porque todos são teus, ó Senhor, que amas a vida!" (Sabedoria 11,23.25 - 26)

Deus: Pai, Filho e Espírito Santo: Os cristãos louvam Deus-Pai que criou o céu e a terra. Louvamos Jesus Cristo, Filho de Deus, que desde sempre está unido ao Pai, porque é o Verbo (ou a Palavra), pelo qual todas as coisas foram feitas (Jo 1, 1-3). Louvamos o Espírito Santo de Deus, o qual pairava sobre as águas, no princípio (Gn 1,2), que dá a vida e a preserva ao longo dos tempos. Rezamos assim: Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.

Imagem do mundo: Na época em que foram escritos os livros bíblicos, acreditava-se que a terra era um disco redondo suportado por colunas assentes no fundo do mar. Debaixo dela estaria o reino dos mortos: acima dela, a abóbada celeste separando as águas superiores das águas inferiores. A chuva cai de cima sobre a terra seca. "Céu e terra" significa todo o universo.

 

2.2 O homem procede de Deus

 

O homem chegou tardiamente à terra. Os oceanos e os continentes, as plantas e os animais existiam muito antes dele. Israel proclama: No sexto dia, no último dia da sua obra, Deus criou o homem. O homem que vive com as plantas e os animais e que, contudo, é diferente e "bem mais" do que eles. E o que querem dizer-nos os sacerdotes de Israel quando afirmam que Deus criou o homem à sua imagem.

Deus criou o ser humano, homem e mulher, para que sejam companheiros um do outro e se ajudem mutuamente. É no amor de um pelo outro que chegam a ser plenamente humanos. É juntos que transmitem a vida, a sua sabedoria, a sua experiência, o seu amor. Porque o ser humano, homem e mulher, é semelhante a Deus, é capaz de conhecer e amar a Deus, os outros homens e os animais.

O ser humano pode descobrir e investigar a terra, servir-se dela e transformá-la. Mas pode também poluí-la e destruí-la. Considera-se a si mesmo, e com razão, "senhor" da terra. A sua grandeza, porém, não vem dele mesmo. Deus destinou as últimas criaturas para que sejam as primeiras, a fim de cuidarem não só de si mesmas e dos filhos, mas também de tudo o que cresce sobre a terra.

Deus confia ao homem a tarefa de ser companheiro fiel dos animais e das plantas, a fim de que ele proteja e defenda a vida, que não explore a terra, mas a preserve, que proporcione a cada criatura o que ela necessita. O homem e a mulher, conjuntamente, são responsáveis pela terra. O homem e a mulher são ambos semelhantes a Deus.

Senhor, a nossa terra é apenas um pequeno astro no grande universo. Depende de nós fazer dela um planeta cujas criaturas não sejam atormentadas pela guerra, torturadas pela fome e pelo medo, divididas pela absurda separação de raças, de cores e de ideologias.

Concede-nos a coragem e a lucidez de começar já hoje esta tarefa, a fim de que os nossos filhos e os filhos dos nossos filhos possam, um dia, usar com orgulho o nome de homens. (Oração das Nações Unidas)

 

2.3 O bem ou o mal - a vida ou a morte

 

Louvamos a Deus. Ele criou a terra. Toda a vida procede d'Ele. E toda a vida é boa. Assim o acreditamos com fé e, no entanto, experimentamos que no nosso mundo, mesmo dentro de nós, o mal tem muito poder. Em todo o lado podemos encontrar vestígios de Deus e também do mal, mesmo dentro do nosso coração.

Há pessoas que acreditam na existência de dois deuses: um deus bom e um deus mau. Acreditamos, com o povo de Israel, num único Deus. Ele criou toda a vida e quer que as suas criaturas O sirvam em liberdade. Mas elas abusam dessa liberdade e não querem servi-l'O. Israel conta que, entre os anjos que Deus criou para estarem junto d'Ele contemplando a sua glória, alguns rebelaram-se contra o próprio Deus. Não podendo já permanecer junto de Deus, andam pelo mundo dos homens espalhando o mal. Dentre eles, existe um ao qual chamamos "demônio", que procura separar os homens de Deus e arrastá-los para si. S. Pedro aconselha-nos a estarmos atentos às tentações do mal e à fraqueza humana. Por isso diz-nos: "Sede sóbrios, estai vigilantes: o vosso inimigo, o demônio, anda à vossa volta como um leão que ruge, procurando a quem devorar. Resisti-lhe firmes na fé" (1 Pd 5,8-9).

Acreditamos que Deus destruirá as forças do mal, no último Dia, quando Ele fizer acabar o mundo. Então começará uma nova vida, definitiva (cf. Ap 20,7-14).

Mas enquanto decorre o tempo histórico, o mal continua prejudicando os homens. O homem é livre: pode colocar-se do lado de Deus, escutar a sua Palavra e colaborar com Ele. Mas pode também pôr-se do lado do demônio, ser seu interlocutor e fazer mal a si próprio e ao mundo.

A Bíblia conta-nos uma história-chave sobre Adão e Eva, o "primeiro homem". Uma história que se refere a todos os homens, qualquer que seja o momento e o lugar em que vieram ao mundo.

Eva conhece perfeitamente o mandamento de Deus. Sabe que se trata de vida ou morte.

E, contudo, ela escuta a voz do tentador: "ser como Deus", "conhecer o bem e o mal", parece-lhe apetecível. Eva come do fruto da árvore proibida e dá-o também a comer a Adão. Abrem-se-lhes os olhos, reconhecem a sua própria miséria, a sua própria debilidade. Escondem-se de Deus e receiam Aquele que é seu amigo.

Através de Eva, a mãe de todos os viventes, todos os seres humanos participam dessa mesma culpa (o pecado original). Uma dura herança. Os homens estariam perdidos se Deus não os amasse e não lhes permanecesse fiel.

Donde me virá o auxílio? O meu auxílio vem do Senhor, que fez o céu e a terra. Não permitirá que vacilem os teus passos, não dormirá Aquele que te guarda. Não há de dormir nem adormecer Aquele que guarda Israel. O Senhor é quem te guarda, o Senhor está a teu lado, Ele é o teu abrigo. O Senhor te defende de todo o mal, o Senhor vela pela tua vida. Ele te protege quando vais e quando vens, agora e para sempre. (Salmo 121,2-5,7 - 8)

Anjos: seres espirituais que rodeiam o trono de Deus, O louvam e adoram. Eles cumprem a missão divina de proteger e guardar os homens. Por isso são designados por "anjos da guarda" (SI 91,11). Deus envia os seus anjos à terra como mensageiros. Gabriel diz a Maria que ela foi escolhida para ser a Mãe de Jesus. Durante a noite santa, os anjos cantam louvores a Deus nos campos de Belém.

Demônio: A Bíblia aplica ao adversário de Deus muitos nomes que indicam a sua ação maléfica: Satanás, Belzebu, Tentador, Príncipe das Trevas, Pai da Mentira, Príncipe deste Mundo.

Pecado original, falta original: Esta expressão significa a ação continuada daquele pecado que, desde o princípio, pesa sobre a história de Deus com a humanidade. Todos os homens são herdeiros desta falta. "Como conseqüência do pecado original, a natureza humana ficou enfraquecida nas suas forças, sujeita à ignorância, ao sofrimento e ao domínio da morte, e inclinada ao pecado" (Catecismo da Igreja Católica 418).

 

3. E em Jesus Cristo, seu único Filho, Nosso Senhor

 

Quando Jesus atingiu a idade de trinta anos, saiu de Nazaré, a sua aldeia, e foi ao encontro de João Baptista, nas margens do Jordão. Depois, levou uma vida de pregador itinerante nas aldeias e vilas dos arredores do lago de Tiberíades. Começou ali a pregar a Boa Nova de Deus, dizendo: "Completou-se o tempo e está próximo o Reino de Deus. Convertei-vos e acreditai no Evangelho" (Mc 1,14-15). As pessoas que o contatam percebem logo que Ele não é como os outros. Juntam-se à sua volta, querem estar perto. Escutar o que Ele diz e ver o que Ele faz. Admiram-n'O porque Ele fala sobre Deus e a natureza humana de modo distinto dos mestres das sinagogas.

  • Aos que a Ele vêm, Jesus diz: Deus deseja o vosso bem, quer facilitar-vos a vida. Ele não despreza os pobres e quer perdoar o pecado dos que fizeram o mal.

  • Jesus diz: Não temais a Deus; amai-O. Ele deseja uma só coisa: que acrediteis na mensagem que vos trago.

Jesus disse: O Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido. (Lucas 19,10)

João Baptista: filho do sacerdote Zacarias e de sua esposa Isabel que haviam envelhecido sem terem filhos. O anjo Gabriel anuncia a Zacarias, no templo de Jerusalém, o nascimento de um filho que se chamará João - que significa "Deus é clemente". João Baptista é um eleito. Vive no deserto. Aos que a ele vêm, diz: "O Reino dos Céus está próximo, arrependei-vos". Ele batiza no Jordão em arrependimento dos pecados. É o último profeta de Israel, o precursor de Jesus.

Sinagoga: É a casa de oração dos judeus. Naquele tempo os sacrifícios eram oferecidos unicamente no templo de Jerusalém. Mas, em todas as aldeias e vilas, havia lugares de oração: as sinagogas.

 

3.1 Jesus, o Cristo

 

O povo judeu tem uma longa história com Deus. Tem também uma história com a humanidade e, neste contexto, sofreu as provações de qualquer outro pequeno povo que tem vizinhos poderosos. Acabou por ser conquistado e ocupado pelos romanos. Muitos perderam a esperança. E questionavam: Deus esqueceu-nos? A sua aliança já não é válida? Não Se lembra de que, por meio dos profetas, nos prometeu um salvador? Um salvador que nos devolverá a liberdade e a alegria de viver. Que expulsará do nosso país os estrangeiros. Que estimará mais a justiça do que os bens e que as origens sociais. Que restituirá ao povo a sua dignidade humana e aos escravos o seu nome. Que servirá a Deus e nos mostrará como podemos viver honrando a Deus.

  • Nós os cristãos acreditamos e proclamamos: Jesus é esse Cristo, o Messias. Deus enviou-O e ungiu-O com o seu Espírito (cf. Is 61,1; Lc 4,18). Ele é o salvador que Deus havia prometido ao seu povo e a todos os outros. Ele redimirá os pecados do seu povo (cf. Mt 1,21). Ele é Aquele que todos os homens piedosos esperam: o seu nome é Jesus Cristo.

Jesus de Nazaré, na Galiléia: alguém que Deus nos envia

Alguém que vive humanamente

Alguém que defende os "humildes"

Alguém que não receia os "poderosos"

Alguém a quem querem calar.

Ele não oferece resistência, não Se defende, abandona-Se.

Porque Ele sofreu, o sofrimento tem sentido.

Porque Ele confiou, os que duvidam refugiam-se n'Ele.

Porque Ele morreu, nós esperamos, porque Ele ressuscitou, nós bendizemos o Pai e cantamos:
Aleluia!

Jesus: o nome de Jesus (abreviação de Jehoshua, Josué) era bastante corrente em Israel. Significa Deus (Javé) salva. Jesus cumpre a promessa do seu nome: Ele é o salvador, traz a salvação. Eis porque Lhe chamamos Salvador e Redentor.

Cristo: É a tradução grega da palavra hebraica "Messias", "Ungido". Um título atribuído aos reis de Israel. Reis e sacerdotes, ao serem entronizados nos seus cargos, eram ungidos com óleo sagrado, sinal de que tinham o direito de agir em nome de Deus. Quando Israel fala do "Ungido", do "Messias", trata-se do rei que, enviado e protegido por Deus, deverá libertar o povo da dominação romana e reinar em Jerusalém, sobre o trono de David. Os cristãos confessam que Jesus de Nazaré é esse Messias, o Filho de Deus. No Batismo, na Confirmação, na Ordenação, são ungidos com o óleo sagrado, sinal eficaz da sua presença na comunidade de Jesus Cristo.

 

3.2 Jesus Cristo, Filho de Deus

 

Jesus Cristo, o Messias, fala de Deus como mais ninguém o fez, de um modo único: direto e íntimo. Em tudo o que diz ou faz, é um com o Pai. Ele conhece a vontade do Pai. Não necessita dos Livros Sagrados nem de mestres para aprender. Por isso Jesus pode contradizer os doutores da Lei quando estes, em nome de Deus, restringem a liberdade das pessoas que lhes estão confiadas, dificultando-lhes a vida.

Jesus aproxima os homens de Deus e traz Deus aos homens. Cura os doentes ao sábado. Come com os publicanos e não evita os excluídos da sociedade e das cerimônias religiosas. Perdoa em nome de Deus aos que cometeram pecados e encoraja-os a mudar o seu modo de viver.

Muitos homens e mulheres encontram-se com Jesus. Alguns perguntam: Quem é este homem? Um profeta de Deus, talvez? Outros enchem-se de espanto e confiam n'Ele. Outros perguntam com desconfiança: Quem Lhe terá dado tão grande poder? Outros dizem Ele blasfema. Outros, ainda, comentam: Cristo, quando vier, fará milagres maiores do que o que este faz? (Jo 7,31).

Mas todos, qualquer que seja a sua opinião, sentem que o mistério do ser de Jesus está relacionado intimamente com Deus.

Em Israel, quando se queria dizer que uma pessoa estava particularmente unida a Deus, dizia-se: é um "filho de Deus". Ao povo de Israel, por ser o eleito, chamamos-lhe "filho de Deus" (Ex 4,22). Aos reis que governam o povo em representação de Deus, que é o Rei, é-lhes dado no dia da sua entronização e da sua unção, o título honorífico de: "Tu és meu filho" (SI 2,7). Quando dizemos: "Jesus é o Filho de Deus", queremos dizer mais do que isso. Jesus está unido a Deus de um modo muito mais íntimo que o rei ou o povo de Israel. Nada no mundo dos humanos é comparável à relação de Jesus com o Pai. Os evangelistas sublinham este fato quando testemunham que Deus mesmo, em dois momentos cruciais da vida terrestre de Jesus, O proclamou seu "Filho muito amado": por ocasião do seu Batismo no Jordão, antes de Jesus iniciar a sua missão de pregador itinerante, e no Monte da Transfiguração, antes de Jesus subir a Jerusalém para aí sofrer e morrer.

Quando Pedro, o primeiro dos apóstolos, confessa: "Tu és o Cristo. O Filho do Deus vivo" (Mt 16,16), Jesus responde-lhe: "Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne e o sangue que to revelou, mas meu Pai que está nos céus".

Jesus disse a Nicodemos: Deus amou tanto o mundo que lhe deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que acredita n'Ele não se perca, mas tenha a vida eterna. (são João 3,16)

Publicanos: cobram os impostos por conta do ocupante romano, assegurando assim os seus rendimentos. Por vezes exigem em excesso. São desprezados por todos e ninguém deseja relacionar-se com eles.

Filho de Deus: Jesus está unido a Deus de um modo diferente e mais íntimo do que o povo de Israel com os seus reis. Ele é, como dizem os Padres da Igreja, "Deus de Deus, luz de Luz, nascido de Deus, da mesma natureza que o Pai".

Apóstolos: Apóstolo significa "enviado", "mensageiro". Simão Pedro, Tiago e João, os filhos de Zebedeu, André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, o filho de Alfeu, Tadeu, Simão o Cananeu e Judas Iscariotes que O entregou (Mc 3,16-19). Doze homens que Jesus escolheu entre todos os seus discípulos. Pedro é o primeiro dentre eles.

 

3.3 Jesus Cristo, Nosso Senhor

 

O primeiro povo de Deus vive na sua aliança. Os reis reinam em seu nome. É para O glorificar que os sacerdotes oferecem sacrifícios. Os seus mandamentos não são postos em dúvida. Eles são a única lei que obriga a todos, poderosos e humildes. Nas suas orações, os judeus crentes dirigem-se ao seu "Senhor". O nome de Javé, "Eu sou Aquele que sou" ou "Eu sou Aquele que está", é-lhes tão sagrado que eles não o pronunciam nem escrevem, com receio de o profanar. Dão graças a Deus, o "Senhor", que está próximo do seu povo, clemente e misericordioso, e que não exige mais do que ser amado "com todo o coração e com todas as forças".

Quando os cristãos chamam "Senhor" não só a Deus Pai mas também a Jesus Cristo ressuscitado dentre os mortos, confessam que Ele é o Filho de Deus, proclamam ao mesmo tempo a sua confiança e manifestam a sua vontade de estar ao serviço uns dos outros como Jesus lhes pediu, na véspera da sua Paixão:

Vós chamais-Me Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque o sou. Ora, se Eu, o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós vos deveis lavar os pés uns aos outros. (João 13,13 - 14)

Para os primeiros cristãos, confessar Jesus, o Senhor, poderia ter conseqüências fatais, pois os imperadores romanos, os "senhores do mundo", reivindicavam também este título honorífico. Muitos cristãos (os mártires), homens e mulheres, deram a sua vida não se deixando afastar da profissão de fé em Cristo Jesus, único Senhor.

A Igreja de Cristo começa a celebração da Eucaristia pela invocação grega "Kyrie eleison": Senhor, tem piedade. E no Glória, o cântico de louvor, confessa: "Pois só Vós sois o Santo, só Vós o Senhor, só Vós o Altíssimo, Jesus Cristo, com o Espírito Santo na glória de Deus Pai".

Nisto se reconhecem os cristãos: Se confessares com a tua boca: "Jesus é o Senhor", e acreditares no teu coração que Deus O ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. (Romanos 10,9)

 

3.4 A Bíblia: o Novo Testamento

 

O Novo Testamento é a parte da Bíblia (cf. 1.2) que nasceu na Igreja de Cristo. É composto de vinte e sete livros escritos pelos apóstolos, missionários e mestres, entre os anos 50 e 100 depois do nascimento de Cristo. Encontramos nele 21 epístolas (cartas) - 13 de São Paulo dirigidas a diferentes comunidades. Estes livros foram rapidamente considerados uma instrução apostólica normativa para a Igreja.

Os quatro evangelistas (São Mateus, São Marcos, São Lucas e São João) testemunham, cada um a seu modo, os fatos, gestos e palavras de Jesus Cristo, Nosso Senhor, assim como a sua Paixão e Ressurreição. Nos Atos dos Apóstolos, o evangelista São Lucas descreve a história da Igreja primitiva, que se constitui sob a direção de São Pedro em Jerusalém, e o trabalho dos primeiros missionários, em particular São Paulo. O último livro do Novo Testamento, o Apocalipse de São João, contém as imagens proféticas e o anúncio da vitória definitiva de Deus sobre os poderes do mal.

A Bíblia é constituída pelo Antigo e Novo Testamento. A Igreja acredita que o Espírito Santo de Deus preservou do erro os homens que escreveram estes livros e que o seu testemunho é digno de fé, verídico e fiel. Como os autores da Sagrada Escritura redigiram na língua do seu tempo, eles devem ser reinterpretados em cada época, para cada comunidade. Mas como o Espírito Santo de Deus é o garante dessa autenticidade, resultam válidos para todos os tempos. Os escritos bíblicos reconhecidos como verdadeiros e autênticos pela Igreja formam o cânon da Escritura Santa. São lidos na Missa e constituem o fundamento da fé.

Muitos outros milagres realizou ainda Jesus, na presença dos discípulos, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para crerdes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e, crendo, tenhais a vida n'Ele. (João 20,30 - 31)

Apostólico: Os apóstolos transmitem aos seus sucessores, os bispos, o ministério que Jesus mesmo lhes confiou. A cadeia da tradição une-nos aos começos.

Evangelho: "A Santa Mãe igreja defendeu sempre e continua firmemente a defender e com a maior constância, que os quatro Evangelhos, dos quais ela afirma sem hesitar a historicidade, transmitem fielmente o que Jesus, Filho de Deus, durante a sua vida entre os homens, fez realmente e ensinou para a sua salvação eterna, até ao dia em que foi elevado ao céu". (Concílio Vaticano II, Dei Verbum 19).

Espírito Santo: À assistência do Espírito Santo na composição dos livros bíblicos chamamos "inspiração".

Cânon: Significa "regra". Chamamos assim ao conjunto dos textos reconhecidos pela comunidade dos crentes como inspirados. Só estes podem ser lidos durante o culto divino.

 

4. Concebido pelo poder do Espírito Santo, Nasceu da Virgem Maria

 

Nós acreditamos e confessamos que Jesus de Nazaré é o messias, Filho de Deus. Desde todos os tempos Ele vive na glória do Pai. Veio ao mundo, tornando-Se semelhante a nós, manifestação do amor do Pai feita carne. Um amor que ultrapassa tudo o que os homens podem imaginar e dizer.

Os teólogos e os discípulos de Jesus têm, cada um, a sua própria maneira de falar do mistério da encarnação. São João começa o seu Evangelho por um hino a Cristo: "E o Verbo fez-se carne (quer dizer "homem") e habitou entre nós, e nós contemplamos a sua glória." (cf. Jo 1,1-18).

Na epístola aos Filipenses, São Paulo cita um hino batismal que descreve a encarnação do Filho de Deus, Jesus Cristo, como um movimento do "céu" em direção à "terra" (de Deus para os homens) que volta para o "céu": "Ele, de condição divina... Tornou-Se semelhante aos homens... Humilhou-Se e foi obediente até à morte, e morte de cruz! Por isso Deus O exaltou... Para que todos, no céu, na terra e nos abismos, proclamem que Jesus Cristo é o Senhor." (Fil 2,6-11).

Na sua epístola aos Gálatas, São Paulo descreve a "vida de Jesus" numa só frase: "Quando veio a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido duma mulher, nascido sob o domínio da Lei... A fim de nos conferir a adoção filial." (Gal 4,4-5).

São João dirige-se à sua comunidade de maneira ainda mais direta: "Deus enviou o seu Filho único ao mundo, para que vivamos por Ele... E nós contemplamos e testemunhamos que o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo" (1Jo 4,9.14).

Dois dos evangelistas, São Mateus e São Lucas, escolheram uma forma familiar às comunidades para as quais escrevem o seu Evangelho. Contam como Jesus veio ao mundo e o que significa esta vinda para os homens que, segundo a vontade de Deus, desempenham um papel na história do seu Filho. Começam o seu livro pelo "Evangelho da infância" (Mt 1-2, Lc 1-2).

 

4.1 O Filho de Deus vem ao mundo

 

Com o nascimento de Jesus começa uma nova era na história de Deus com os homens. É por isso que o nosso calendário conta os anos "depois de Jesus Cristo". No homem Jesus de Nazaré, é o próprio Deus - como nosso irmão - que vem ao mundo. É por isso que não podemos evocar o seu nascimento sem evocar Deus. São Mateus e São Lucas também não podem relatar o nascimento de Jesus como o de uma criança qualquer. No seu Evangelho, não apenas se narra o que aconteceu, mas também - para dizer plenamente a verdade - o que os acontecimentos significam no projeto divino.

  • São Lucas narra como é que Deus enviou a Nazaré o anjo Gabriel à Virgem Maria. Ele saúda-a assim: "Alegra-te, ó cheia de graça", e diz-lhe que o poder do Espírito de Deus a tornará mãe: "O Espírito Santo virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra" (Lc 1,35).

    São Lucas atesta que Maria diz sim ao projeto de Deus e acredita firmemente que a Deus nada é impossível. Conta como Maria e José se dirigem a Belém e como a cidade do rei David se tornou o lugar do nascimento de Jesus; fala dos pastores, sobre os quais o céu se abriu na noite do cumprimento, do cântico de louvor dos anjos que ecoa sobre a terra, e de novo são os pastores saídos do povo judeu os que encontram Maria, José e o menino (Lc 2,1-20).

  • São Mateus conta como José - o carpinteiro de quem Maria está noiva conhece em sonhos o que Deus espera dele: ele que é um descendente do grande rei David vai dar o seu nome ao Filho de Deus, abrir-lhe o acesso à família de David e, através da sua atenção e dos seus cuidados, desempenhar a sua tarefa de pai (Mt 1,18-24). Mateus viu que a maioria do seu próprio povo não acreditou em Jesus. Mas viu, igualmente, que existem em todos os povos da terra homens que se metem a caminho em busca de Jesus e que O encontram. E não apenas depois da sua morte e da sua ressurreição! É por isso que falam da estrela que conduz os magos de muito longe até Belém para que eles tragam as sua ofertas a Jesus, o rei dos judeus. São Mateus narra também que Herodes, que reina em Jerusalém, quer matar o menino Jesus. Por isso Maria e José fogem para o Egito, com o menino (Mt 2).

O anúncio dos anjos na Noite Santa: "Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador". (Lucas 2,11)

 Graça: Deus é santo, é eterno, é perfeito em Si próprio. O homem é mortal, pecador, imperfeito - mas ele está aberto a Deus. Contudo, não haveria história de Deus com os homens se o Deus eterno e santo não oferecesse ao homem a oportunidade duma redenção e, através desta, não Se oferecesse a Ele próprio. É este Dom de Deus que evocamos quando falamos de "graça". Nenhum homem pode merecer a "graça"; trata-se de um dom livre e gratuito do Deus livre. O homem pode refugiar-se nela. A graça de Deus torna-nos semelhantes a Ele: enquanto co-herdeiros de Cristo, tornamo-nos filhos e filhas de Deus, chamados à vida eterna, num face a face com Deus. "É pela graça de Deus que eu sou o que sou." (1Cor 15,10). Nenhum olho humano viu o que seremos. Há pessoas a quem Deus confia uma tarefa particular, para a qual concede uma graça particular.

 

4.2 Maria, a Mãe de Jesus

 

Na vida de cada um de nós, a mãe desempenha um papel determinante. Deveria ter sido diferente para Jesus? É verdade que Ele fala com mais freqüência do Pai que está nos céus. E mesmo nos escritos do Novo Testamento, Maria raramente é evocada. No entanto, podemos e devemos perguntar: Quem era aquela mulher que deu a vida a Jesus e O acompanhou?

  • Uma jovem de Nazaré, prometida em casamento ao carpinteiro José. Provavelmente não teria mais de 14 anos de idade, quando do noivado, segundo os costumes da época. Uma jovem que estremece quando o anjo do Senhor vem a ela e lhe fala. Ela escuta a saudação, as palavras que exprimem a sua eleição. Ela não pronuncia o seu "Fiat" (o sim) cegamente. Põe as suas objeções: "Como será isso?" Depois aceita a sua vocação, porque "nada é impossível a Deus". É por isso que acrescenta: "Faça-se em mim segundo a tua palavra". (Lc 1,35.37-38).

  • A Virgem Maria, que espera um filho, põe-se a caminho com o seu esposo. O seu filho vem ao mundo "longe de casa", em condições muito pobres, ignorado por todos. Quando chegam os pastores - também eles gente pobre - e louvam a Deus pelo o que Ele fez pelo seu povo, Maria escuta atentamente. Conserva com cuidado todas estas coisas, meditando-as no seu coração (Lc 2,15-19).

  • Quarenta dias mais tarde, Maria e José levaram o menino a Jerusalém para O consagrar ao Senhor, segundo as prescrições rituais. É aí que Simeão e Ana, duas pessoas que esperam a vinda do Messias, O reconhecem. Simeão louva a Deus por tê-lo deixado ver "a salvação" com os seus próprios olhos. E acrescenta, dirigindo-se a Maria: "...este menino será sinal de contradição, e uma espada trespassará a tua alma!" (Lc 2,22-29).

  • Aos doze anos, Jesus encontra-Se em Jerusalém com os pais para a festa da Páscoa. No regresso, Maria e José dão conta de que Jesus não está com eles. Procuram-n'O durante três dias, como quaisquer pais procuram o filho perdido. Encontram-n'O no Templo e ouvem-n'O falar da "casa do Pai". E o evangelista repete: "Sua mãe conservava todas estas coisas no seu coração" (Lc 2,51).

  • Jesus tem trinta anos. Leva vida itinerante com os discípulos. Em Caná, na Galileia, é convidado para um casamento. Maria está também entre os convidados. Apercebe-se de que não há mais vinho e pede indiretamente a Jesus: "Eles não têm vinho." (Jo 2,3). Confia que Jesus resolverá a situação, embora a tenha afastado: "A minha hora ainda não chegou". Mas Maria não confiou em vão: havia seis jarras de pedra de cem litros cada. Jesus diz aos criados para encherem de água essas jarras. Eles fazem o que Jesus pede. Quando o mestre de cerimônias provou, viu que a água estava transformada em vinho. Este foi - diz-nos o evangelista São João - o primeiro "milagre" que Jesus fez. Os discípulos compreendem quem é Jesus e acreditam n'Ele (Jo 2,1-11).

  • Jesus deixou a sua casa em Nazaré e fundou a sua própria "família". Um dia, quando a multidão se apertava à sua volta, disseram-Lhe: "Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e querem falar contigo". Então Jesus, estendendo a mão para os seus discípulos, responde: "Aqui estão minha mãe e meus irmãos, pois todo aquele que fizer a vontade do Meu Pai que está nos Céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe" (Mt 12,46-50).

  • Para o evangelista São João, tudo o que Jesus diz e faz tem um sentido oculto. Assim acontece quando narra que Maria e o evangelista que Jesus amava se encontravam junto à cruz. Jesus diz a sua mãe: "Mulher, eis o teu filho", e ao discípulo: "Eis a tua mãe" (Jo 19,26.27). A partir desse momento, o discípulo levou-a para sua casa. E a Mãe de Jesus converte-se na Mãe de todos os cristãos.

  • Fala-se de Maria, pela última vez, na festa de Pentecostes. Os discípulos de Jesus encontram-se reunidos em Jerusalém. Rezam enquanto esperam que o Espírito Santo os envie em missão. Maria, a Mãe de Jesus, está com eles no momento em que nasce a Igreja do seu Filho (At 1,12-14).

Maria proclama: A minha alma glorifica ao Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu salvador, porque pôs os olhos na humildade da sua serva: de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas: Santo é o seu nome. A sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que O temem. Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias. Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia, como tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência para sempre. (Lucas 1,46 - 55)

 

4.3 Maria, Mãe da Igreja

 

Os cristãos veneram Maria, a mãe do seu Senhor: em todas as igrejas encontramos a sua imagem. Muitas mulheres têm o seu nome. Recordamos e celebramos Maria principalmente em quatro solenidades:

1 de Janeiro:

No primeiro dia do ano, celebramos a solenidade de "Santa Maria Mãe de Deus". Festejamos a "Santa Mãe que deu à luz o Rei do céu e da terra" (antífona de entrada) e a "Mãe da Igreja" (oração final).

25 de Março:

Na solenidade da "Anunciação do Senhor" (nove meses antes do Natal), a Igreja celebra ao mesmo tempo o Senhor e sua Mãe, ela que no momento da sua eleição, afirma: "Eis a escrava do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra!" (Lc 1,38).

15 de Agosto:

A Assunção de Maria, o dia em que ela foi elevada ao céu. Celebramos este dia, embora não se saiba quando Maria morreu nem em que circunstâncias. Mas acreditamos que ela foi "elevada à glória do céu em corpo e alma". Maria já se encontra onde nós estaremos também um dia. Possui já a vida que nos está destinada.

8 de Dezembro:

É o dia em que celebramos a "Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria". Estas palavras parecem complicadas, e no entanto são simples de compreender: Deus escolheu Maria. Concedeu-lhe os dons do Espírito Santo. O "poder do Altíssimo" cobriu-a com a sua sombra. São palavras e imagens que traduzem o mistério duma eleição que preservou Maria do pecado original, com o qual todos nascemos: é esta a nossa fé.

Os cristãos veneram a santíssima Virgem de muitas maneiras. Cantam os seus louvores e pedem à Mãe de Jesus a sua intercessão. Em todo o mundo, os cristãos rezam e cantam o Magnificat de Maria e saúdam-na com as palavras do anjo.

Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco. Bendita sois vós entre as mulheres, e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus. Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte. Amem.

 

5. Padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado

  • Jesus diz:
    Eis que estamos subindo para Jerusalém, e o Filho do Homem vai ser entregue aos sumos sacerdotes e aos doutores da lei. Estes condena-l'O-ão à morte e entrega-l'O-ão aos pagãos. Vão escarnece-l'O, cuspir n'Ele, vão tortura-l'O e mata-l'O. E depois de três dias Ele ressuscitará.

EVANGELHO SEGUNDO SÃO MARCOS 10,33-34

  • São Pedro declara na sua pregação de Pentecostes:
    Jesus de Nazaré foi um homem que Deus confirmou entre vós, realizando por meio d'Ele os milagres, prodígios e sinais que bem conheceis. E Deus, com a sua vontade e presciência, permitiu que Jesus vos fosse entregue, e vós, através de ímpios, mataste-l'O, pregando-O numa cruz.

ATOS DOS APÓSTOLOS 2,22-23

 

5.1 A favor ou contra Jesus

 

O Credo nada diz do tempo que vai do nascimento de Jesus à sua morte violenta (no ano 30). Quem quiser compreender como é que Jesus pôde chegar a um fim tão ignominioso, terá de recorrer ao testemunho dos evangelistas. Estes falam dos sinais, dos milagres e prodígios de Jesus, para que as pessoas dêem conta de que o Reino de Deus está próximo: Jesus cura os doentes, toca os leprosos e estes ficam sãos, liberta os possessos do poder do demônio, numa palavra, realiza ações que em Israel se esperam do Messias. Jesus fala de Deus duma maneira nova. Conta parábolas e ensina de tal modo que as pessoas simples compreendem o que Ele diz do Pai.

Jesus encontra discípulos que lhe confiam a sua vida. Mas há também pessoas que duvidam e O rejeitam. Os seus adeptos são quase sempre gente modesta, com pouca influência: entre os seus seguidores mais próximos, os apóstolos, não há sequer um doutor da Lei.

Os dirigentes religiosos, os sumos sacerdotes e os doutores da Lei, procuram evitar o aparecimento de heresias em Israel. Desde o princípio observam, com desconfiança, Jesus e o movimento que Ele suscita.

Num sábado, ao curar a mão atrofiada dum homem, protestaram: Jesus não respeita as prescrições de Moisés. É um pecador. Não é permitido curar ao sábado.

Quando exorciza um possesso, exclamam: Ele também é possesso, de contrário não teria poder sobre os demônios.

Até em Naim, quando encontra um cortejo fúnebre, Jesus não fica indiferente. Não olha como simples espectador para o sofrimento da mãe em lágrimas. Não diz aos que sofrem: "A vida é assim", ou então: "É a vontade de Deus, tens de aceitá-la". Aproxima-se do caixão e reanima o morto. Onde quer que Jesus Se encontre, os que sofrem são consolados, a morte dá lugar à vida. Esta experiência vale enquanto houver mães que choram e amigos que estão de luto.

Alguns dizem: Jesus é bom. Outros: Não, manipula as multidões, é um falso profeta.

Os fariseus e os doutores da Lei procuram levar Jesus a cair numa armadilha. Enviam mensageiros encarregados de espia-l'O, mas estes nada encontram de negativo contra Ele. Uma vez que os fariseus e os doutores da Lei não acreditam que Jesus é o Messias, põem-se contra Ele e decidem levantar-Lhe um processo, acusando-O de blasfêmia, para assim poderem condena-l'O à morte.

Quando o Sumo Sacerdote pergunta a Jesus: "És tu o Messias, o Filho de Deus?", Jesus responde: "Sou. E vereis o Filho do Homem sentado à direita do Todo-Poderoso, e vir sobre as nuvens do céu". Então o Sumo Sacerdote rasga as vestes e diz: "Que necessidade temos ainda de testemunhas? Ouvistes a blasfêmia! Que vos parece?". Todos se pronunciaram dizendo que Jesus era réu de morte (Mc 14,61-64).

Estar junto d'Aquele que faz falar os mudos, que Se dirige aos surdos de tal maneira que os ouvidos se abrem; ser testemunha de que os perseguidos respiram aliviados e os oprimidos levantam a cabeça. Ver como os extraviados reencontram o caminho, como são acolhidos de braços abertos os que regressam, e encontram com alegria o seu lugar à mesa.

Sumo Sacerdote: O sacerdote mais importante, o presidente do Sinédrio, o intermediário entre os judeus e o ocupante romano ao qual deve a sua entronização. Desde o ano 6 ao 15 depois de Cristo era Anás o sumo sacerdote em Jerusalém; do 18 ao 36 d.C., ocuparam este cargo os seus cinco filhos e o seu genro Caifás.

Sábado: O sétimo dia da semana é, para os judeus, um dia de festa e de culto religioso. Ao longo dos séculos numerosos preceitos regulamentaram o que era permitido e proibido neste dia de repouso.

Fariseus: Significa "os separados". Um partido político e religioso composto por homens piedosos que defendiam a rigorosa observância das prescrições de Moisés e viviam de acordo com elas.

 

5.2 A Nova Aliança

 

Os Evangelhos da Paixão, da morte e da ressurreição de Jesus são os textos mais antigos e mais sagrados da Igreja. Todos os anos a Igreja celebra na "Semana Santa" os últimos dias de Jesus em Jerusalém.

No Domingo de Ramos, Jesus chega a Jerusalém em companhia dos seus discípulos para celebrar a festa da Páscoa. Entra na cidade montado num jumento; vem como rei da paz. As pessoas aclamam-n'O. Jesus ensina no Templo. Judas, um dos doze apóstolos, deixa-se corromper e dispõe-se a entregar Jesus.

Na Quinta-Feira Santa Jesus celebra com os seus discípulos a Ceia pascal. Tomou o pão, partiu-o e deu-o dizendo: "Isto é o meu Corpo que será entregue por vós". Depois tomou o cálice, deu-o aos seus discípulos dizendo: "Tomai, todos, e bebei: este é o cálice do meu Sangue, o sangue da nova e eterna Aliança, que será derramado por vós e por todos, para remissão dos pecados. Fazei isto em memória de Mim".

Jesus dá um novo sentido à Páscoa judaica: dá-Se a Ele próprio aos seus discípulos sob as espécies do pão e do vinho. Deste modo estabelece a Nova Aliança que Ele sela com o seu sangue.

O evangelista São João conta que Jesus, na última Ceia, na véspera da sua morte, ajoelhou-Se diante dos discípulos para lhes lavar os pés. Procede assim para que, com o seu exemplo, compreendam a ordem da Nova Aliança: o "maior" deve fazer-se "pequeno" como Jesus, para servir os seus irmãos e irmãs.

Porque Ele Se dá, nós podemos dar. Porque Ele partilha, nós podemos partilhar. Porque Ele renuncia ao poder, nós podemos servir. Porque Ele morre, nós podemos viver. Porque Ele sela a Aliança com o seu sangue, convertemo-nos em irmãos e irmãs.

Domingo de Ramos: A Igreja comemora a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Em muitas paróquias organizam-se procissões.

Páscoa: Era outrora e continua a ser a maior festa judaica. Comemora a primeira noite de Páscoa quando Deus libertou o seu povo Israel da escravidão do Egito e o conduziu à liberdade.

Quinta-Feira Santa: De manhã, o bispo consagra o óleo santo que se utiliza nos sacramentos do Batismo, Confirmação, Unção dos doentes e Ordem. De tarde, as paróquias celebram o memorial da Ceia pascal. Recebemos o Corpo e o Sangue de Cristo, a Eucaristia, que nos converte em irmãos e irmãs uns dos outros e nos compromete a amar com o amor do próprio Cristo.

 

5.3 Entregue nas mãos dos homens

 

Depois da Ceia, Jesus dirigiu-Se para o jardim de Getsêmani, situado sobre o Monte das Oliveiras. Os discípulos acompanham-n'O. Chegados ao jardim, Jesus diz-lhes: "Sentai-vos aqui, enquanto Eu vou rezar". Tomando consigo Pedro, Tiago e João, disse-lhes: "A minha alma está numa tristeza de morte. Ficai aqui e vigiai". Indo um pouco mais longe, prosta-Se com o rosto por terra e reza: "Pai, se queres afasta de Mim este cálice. Contudo, não se faça a minha vontade mas a tua". Depois volta para junto dos seus discípulos e encontra-os a dormir. Acorda-os e diz a Pedro: "Não pudestes vigiar comigo nem sequer uma hora?" Afastou-Se deles, pela segunda vez, para ir rezar sozinho. Depois volta e encontra-os de novo adormecidos. Afasta-Se uma terceira vez para orar no meio da noite. Em seguida, acorda os discípulos e diz-lhes: "Continuais a dormir? Chegou a hora: eis que o Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos pecadores". Vistas as coisas superficialmente, Jesus fracassou e, com Ele, a sua mensagem. No entanto, Ele permanece fiel à sua missão e Àquele que O enviou. Não procura escapar, não Se furta a nada. Arrisca a sua vida e aceita a morte.

E não tem que esperar muito tempo. Nesse momento chega Judas, um dos doze apóstolos, ao Jardim das Oliveiras, com um grupo de homens armados. Arrastam Jesus conduzindo-O à presença do sumo sacerdote para ser interrogado. Quando os membros do Sinédrio Lhe perguntam: "Tu és, portanto, o Filho de Deus?", Jesus responde: "Vós dizeis que Eu sou". Pela manhã levam Jesus a Pôncio Pilatos que, desde o ano 26 ao 36 d.C., era o prefeito romano da Judéia. Acusam Jesus: "Este homem blasfema contra Deus!" e "diz ser Ele mesmo rei!" Pilatos manda flagelar Jesus. Os soldados enterram-Lhe na cabeça uma coroa de espinhos, vestem-Lhe um manto vermelho, ultrajam-n'O e batem-Lhe. Pilatos acaba por pronunciar a sentença: Jesus deve morrer crucificado.
Jesus leva a sua cruz até ao Monte do Gólgota, fora dos muros de Jerusalém. Ao meio dia de
Sexta-Feira Santa, Jesus é crucificado entre dois criminosos que são executados ao mesmo tempo que Ele. Por volta da hora nona (15h da tarde), expira.

Os evangelistas atestam o acontecimento. Testemunham que tudo isto faz parte do plano de Deus para a redenção: Jesus foi entregue aos homens permanecendo, apesar disso, nas mãos de Deus. Sofre e morre para nos salvar. Com a sua morte é uma nova vida que começa. O amor de Deus por nós, homens, manifesta-se na Paixão e morte de Cristo: Mistério da fé.

Os mensageiros de Cristo dão testemunho de que:

  • Ele é nosso Mediador: entregou-Se a Si mesmo em resgate por nós (1Tm 2,6).

  • Ele é o Cordeiro de Deus: tira o pecado do mundo (Jo 1,29).

  • Ele é o Filho de Deus: pela sua morte reconciliou-nos com Deus (Rm 5,10).

  • Ele é o servo de Deus: para todos os que Lhe obedecem, tornou-Se fonte de salvação eterna (Hb 5,9).

  • Ele é o Redentor: Deus anulou o documento da nossa dívida, fê-lo desaparecer pregando-o na cruz (Cl 2,14).

  • Ele é o Salvador: pelas suas chagas fomos curados (1 Pd 2,24).

Jesus disse: Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos. (João 15,13)

Sinédrio: A suprema autoridade judaica integrada por setenta e um membros (anciãos, sacerdotes, doutores da lei) sob a presidência do Sumo Sacerdote.

Sexta-Feira Santa: A Igreja celebra este dia duma maneira muito especial. Ao entardecer, os fiéis reúnem-se para comemorar a Paixão e morte do Senhor. Na liturgia da Palavra, ouvimos o hino profético do Servo sofredor, um extrato da epístola aos Hebreus e o testemunho do evangelista São João sobre a crucifixão de Jesus. Na "oração universal", os cristãos apresentam a Deus - em nome de toda a humanidade - os grandes sofrimentos do nosso tempo. Depois, veneramos a cruz, sinal de salvação. Durante a comunhão recebemos o Pão da vida.

 

5.4 Foi sepultado

 

José de Arimateia não pode aceitar que Jesus permaneça na cruz durante a noite. É um homem influente, que até ao momento receou mostrar-se como discípulo de Jesus.

Agora atreve-se a fazê-lo. Vai procurar Pilatos e pede-lhe autorização para retirar Jesus da cruz e sepulta-l'O. Pilatos acede ao seu pedido. José envolve o corpo de Jesus com um sudário e deposita-O num túmulo novo escavado na rocha, digno de um mestre de Israel. Fecha-o com uma grande pedra redonda. Algumas mulheres, que acompanharam Jesus até Jerusalém, observam de longe.

Nós Vos louvamos, ó Deus, e Vos bendizemos,nós Vos damos graças por Jesus, vosso Filho. Ele partilhou conosco a vida, Ele partilhou conosco a morte, Ele partilhou conosco o túmulo: De que havemos de ter medo?

 

 6. Desceu à mansão dos mortos; Ressuscitou ao terceiro dia

 

Deus criou o homem - Adão e Eva - à sua imagem: criou-os homem e mulher. E abençoa-os. Ama-os: a eles e a todos os seus filhos e aos filhos dos seus filhos, a quem confiou a terra. O seu amor abarca não só os que Lhe são fiéis e respeitam os seus mandamentos, mas também todos os que nunca ouviram falar d'Ele e que, por isso, não O procuram, não O encontram e ignoram como viver para Lhe agradar. Deus quer partilhar a sua vida com todos.

O tempo passa. Os homens morrem. Morrem os que vivem sem Deus ou contra Ele, mas também todos os que O amam: Adão e Eva, Abraão e Moisés, Sara, Rebeca e Miriam, David e Salomão, Elias e Amós, Zacarias e Isabel, Simeão e Ana, João Baptista e toda a multidão de pessoas das quais só Deus conhece o nome e o amor.

Terão eles esperado em vão? Esquece Deus a sua fidelidade? Nós acreditamos que Deus não levou a Boa Nova só aos vivos. Acreditamos que Jesus desceu à mansão dos mortos e que ali proclamou também: Completou-se o tempo. O Reino de Deus está a chegar. Estais resgatados. Deus é misericordioso com todos os que O amam. Isto quer dizer que a morte perdeu o seu poder: não pode reter os que amam a Deus. Jesus Cristo, o Senhor, morreu por todos. Todos pertencem à comunidade dos vivos fundada por Ele.

Celebrando agora, Senhor, o memorial da nossa redenção, recordamos a morte de Cristo e a sua descida à mansão dos mortos, proclamamos a sua ressurreição e ascensão aos céus, e, esperando a sua vinda gloriosa, nós Vos oferecemos o seu Corpo e Sangue, o sacrifício do vosso agrado e de salvação para todo o mundo. (ORAÇÃO EUCARÍSTICA IV)

Mansão dos mortos: Mundo inferior, império da morte. As histórias da Bíblia transmitem-nos a "palavra de Deus expressa em línguas humanas". Isto significa que os homens que testemunham a sua experiência de Deus, o fazem com as representações e as imagens do seu tempo. Imaginam a terra como um disco. Sobre ela, encontra-se a abóbada celeste, o "domínio" onde Deus reina sobre os viventes. Em baixo o mundo subterrâneo (sheol), a região onde reina a morte sobre os defuntos. Por isso se diz: Jesus "desceu" à mansão dos mortos.

 

6.1 Jesus está vivo

 

O Filho de Deus fez-Se homem. Um homem que nasceu e que morreu sobre a cruz. O seu corpo foi sepultado. Existem testemunhas disso. Não só os homens e as mulheres que O tinham seguido em Jerusalém, mas também os acusadores, os servos dos carrascos, Pôncio Pilatos e os soldados romanos...

Os quatro evangelistas referem que pela manhã cedo, no dia de Páscoa, algumas mulheres vão ao túmulo de Jesus levando perfumes. Ao chegar à sepultura, encontram retirada a grande pedra que a fechava. Entram no túmulo e vêem um jovem vestido de branco, sentado à direita. Assustam-se. Mas o anjo diz-lhes: "Não vos assusteis. Procurais Jesus de Nazaré que foi crucificado? Ele ressuscitou! Não está aqui! Vede o lugar onde O puseram. Agora deveis ir dizer aos seus discípulos e a Pedro que Ele vai à vossa frente para a Galileia" (Mc 16,1-7)... São João conta como Maria Madalena encontra o Ressuscitado na manhã de Páscoa. Estava a chorar junto ao túmulo vazio. Nisto, vê Jesus sem O reconhecer. Só quando Jesus a chama pelo seu nome "Maria" é que ela O reconhece. Diz-Lhe em hebraico: "Rabuni", que significa "Mestre". O Ressuscitado responde-lhe: "Vai procurar os meus irmãos e diz-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, para o meu Deus e vosso Deus". Maria Madalena foi anunciar aos discípulos que tinha visto o Senhor (Jo 20,11-18).

Os discípulos dizem: Jesus não está morto. Ele vive: apareceu-nos. Nós vimo-l'O. A nossa história com Ele, a sua história conosco, não terminou. Os homens e mulheres que proclamam esta incrível mensagem são testemunhas. Na sua primeira epístola aos Coríntios (1Cor 15,5-8), São Paulo enumera-os: em primeiro lugar Pedro, a pedra sobre a qual Jesus edificou a sua Igreja. Depois, os Doze que Ele escolheu como apóstolos. A seguir, quinhentos irmãos dos quais alguns já morreram. Posteriormente Jesus apareceu a Tiago, que preside
à comunidade cristã de Jerusalém e ainda a todos os discípulos. Por último apareceu igualmente a São Paulo no caminho de Damasco, quando este perseguia os cristãos.

Depois deste encontro, São Paulo, ardente perseguidor dos cristãos, converteu-se num não menos ardente pregador de Cristo. Para todas estas testemunhas, o sepulcro vazio constituiu um sinal essencial. O encontro com o Ressuscitado converteu-se, para eles, na sua vocação: devem transmitir a outros o que viram. A sua fé é tão firme que estão prontos a morrer por ela. É na fé destes discípulos que a nossa se enraíza.

O que teve lugar entre a Sexta-Feira Santa e a manhã de Páscoa é o mistério de Deus, ao qual nos referimos dizendo: "Ressuscitou dos mortos", ou então, "Deus ressuscitou-O".

Os homens e mulheres a quem apareceu Jesus ressuscitado, conheceram-n'O durante a sua vida terrena. Agora reconhecem-n'O: sim, é Ele, contudo, bem diferente. Assustam-se quando Jesus entra através das portas fechadas. Enchem-se de alegria quando Jesus lhes fala. Confia-lhes a missão de ir por todo o mundo levar a Boa Nova aos homens, perdoar os seus pecados e fazer deles seus discípulos. E acrescenta: "Eu estarei sempre convosco até ao fim do mundo".

Senhor, nosso Deus, nós Vos bendizemos: nesta noite de todas as noites, fazeis brilhar a vossa luz: num sepulcro vazio infundis em nós a esperança. Jesus, nosso irmão, nós Vos bendizemos. Nesta nossa noite de todas as noites, apagais em nós o medo da vida e da morte:
A confiança é possível.

Deus, Espírito Santo,
nós Vos bendizemos:
Nesta noite de todas as noites,
fazei-nos entrever que a morte não
é razão de ser da condição humana,
mas sim o amor.

 

6.2 Nós viveremos

 

A ressurreição de Jesus Cristo é o centro e o coração da nossa fé. A celebração da Vigília Pascal é a solenidade mais sagrada do ano litúrgico. E cada Domingo é memorial e louvor de Deus que ressuscitou o seu Filho dos mortos. Numa das comunidades da Igreja primitiva, havia pessoas que duvidavam da ressurreição do Senhor. É a elas que São Paulo se dirige por carta nestes termos: "Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã também a vossa fé... Permaneceis ainda nos vossos pecados... Deste modo, os que morreram em Cristo também pereceram. Se a nossa esperança em Cristo é somente para esta vida, nós somos os mais infelizes de todos os homens" (1Cor 15,14-19).

  • Acreditamos que Jesus, nosso Senhor, está vivo. Que Ele partilhará a sua vida com todos os que confiam n'Ele.

  • Acreditamos que o Ressuscitado é causa de esperança para todos: no fim da nossa vida, não é o nada o que nos espera, mas a plenitude de Deus; não são ás trevas, mas a luz.

  • Acreditamos que com Jesus começou a transformação, a redenção do mundo.

  • Acreditamos que o Espírito Santo de Jesus vive e atua no nosso mundo.

  • Acreditamos que Jesus Cristo voltará no dia do Juízo. Que Ele há de libertar os homens e as criaturas de todo o mal e de todo o sofrimento que os oprime, que os levará à plenitude e lhes dará uma vida sem fim.

Rezamos assim: Vós não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos, nem deixareis o vosso fiel sofrer a corrupção. Dar-me-eis a conhecer os caminhos da vida, alegria plena em vossa presença, delícias eternas à vossa direita. (Salmo 16,10 - 11)

Vigília Pascal: A celebração da noite de Páscoa consta de quatro partes: Liturgia da Luz ou Lucernário, durante a qual se benze o fogo novo e se acende o círio pascal. O sacerdote, em solene procissão, introduz o círio na igreja que deve estar às escuras: Luz de Cristo!
Liturgia da Palavra: nela têm lugar sete leituras do Antigo Testamento e duas do Novo Testamento, textos que nos lembram a longa história de Deus com os homens.
Liturgia batismal: a água do Batismo é benzida. Adultos e crianças recebem o Batismo; todos renovam as promessas batismais.
Liturgia eucarística: nela damos graças Àquele que está conosco até ao fim dos tempos.

 

7. Subiu aos Céus; está sentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso

 

Os discípulos de Jesus viveram a experiência da Sexta-Feira Santa: Jesus, indefeso e abandonado, pendia da cruz. A sua vida extinguiu-se na morte. Depositaram seu corpo num túmulo e fecharam a entrada com uma grande pedra: sinal de que, no fim, a morte tem poder sobre a vida. No encontro com o Senhor ressuscitado, vivem a experiência que acaba com tudo o que julgavam saber sobre a vida e a morte. Jesus vem ao seu encontro. Eles reconhecem-n'O - sim, é Ele, o Crucificado. É-lhes familiar e, ao mesmo tempo, estranho. Entra, mesmo com as portas fechadas. Está presente e desaparece. Não podemos deter-l'O. Entre o medo e a dúvida, os discípulos começam a pensar e a acreditar no que está para além da morte: Deus ressuscitou o seu Filho dos mortos e recebeu-O na glória com a sua condição humana. Os discípulos afirmam: Jesus subiu ao céu e Deus deu-Lhe o lugar de honra, à sua direita.

 

7.1 Deus exaltou-O acima de todos

 

Jesus fracassou entre os homens. "Os seus não O receberam." (Jo 1,11). Mas Deus ressuscitou-O e acolheu-O. Dá a seu Filho o lugar de honra à sua direita, constituindo-O deste modo Senhor de toda a criação.

A expressão "sentado à direita do Pai" tem um significado especial, para os cristãos de então que, tal como Jesus, procedem do judaísmo: Deus, o Senhor e Rei, escolheu Israel como seu povo. Os reis que governam em Jerusalém são considerados representantes de Deus. Não governam a título pessoal, mas em nome de Deus. Enquanto não esquecerem isto, Deus estará com eles.

Sabemos por um salmo o que era dito ao rei no dia da sua entronização: "Senta-te à minha direita, até que eu faça de teus inimigos escabelo de teus pés" (SI 110,1).

Muitos homens piedosos, quando rezam este salmo, pensam no Salvador prometido, o Messias.

Numa das primeiras profissões de fé, os cristãos proclamam: "Ele é o Senhor, maior e mais poderoso que todos os senhores do mundo". Esta confissão é uma afirmação essencial da nossa fé.

A comunidade louva num hino o Senhor a Quem Deus exaltou: Por isso Deus O exaltou e Lhe deu o nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem no céu, na terra e nos abismos, e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai. (Filipenses 2,9 - 11)

 

7.2 Subiu ao céu

 

Quando os primeiros cristãos confessam que o seu Senhor "subiu ao céu", referem-se ao Antigo Testamento. No livro dos Gênesis fala-se do patriarca Henoc, que andou com Deus e, depois, foi por Ele elevado ao céu (Gn 5,24). Acreditamos também que o grande profeta Elias foi arrebatado ao céu num carro de fogo no meio de um turbilhão (2Rs 2,11). Eliseu, seu discípulo, fica só e compreende que lhe é pedido continuar a obra de Elias.

São Lucas descreve, no fim do seu Evangelho, como Jesus Se despede dos seus discípulos: Vai com eles a Betânia, ergue as mãos e abençoa-os enquanto eles se prostram diante d'Ele. E é nesta atitude de benção que Ele Se eleva ao céu (Lc 24,50-52). No início do seu segundo livro, os Atos dos Apóstolos, narra de novo a ascensão de Jesus a fim de mostrar claramente como a história terrena de Jesus desemboca na história da Igreja: durante quarenta dias - um período de tempo sagrado - o Senhor ressuscitado aparece aos seus discípulos e fala com eles do Reino de Deus. Depois eleva-Se a seus olhos e uma nuvem - o próprio Deus - O oculta. Atônitos e fascinados, os apóstolos fixam os olhos no céu. É então que dois mensageiros divinos perguntam: "Porque estais aí parados a olhar para o céu? Esse Jesus que vos foi tirado e levado para o céu, virá do mesmo modo como O vistes partir para o céu" (At. 1,9 - 11).

Os apóstolos compreendem que lhes cabe agora a eles, mandatados por Jesus, proclamar o Evangelho, curar os doentes, perdoar os pecados, exorcizar os espíritos malignos, despertar a esperança.

Na terra não tendes outro corpo senão o nosso, nem outros pés senão os nossos, nem outras mãos senão as nossas. Os nossos olhos revelam a vossa misericórdia para com o mundo, os nossos pés levam-Vos a fazer o bem. É com as nossas mãos que, agora, podeis abençoar. (Santa Teresa de Jesus)

Subiu ao céu (ascensão): não se trata duma mudança de lugar no domínio do nosso mundo, mas da entrada do homem Jesus de Nazaré no domínio celeste, donde há de vir.

Atos dos Apóstolos: o segundo livro do evangelista são Lucas relata as obras dos apóstolos que preenchem a missão do Ressuscitado. Eles anunciam-n'O como o Messias, o Crucificado, o Ressuscitado. Fundam as comunidades, obtêm êxito, são perseguidos. A primeira parte (cap. 1-12) fala sobretudo de Pedro, o primeiro dos apóstolos, e de João. Atuam sobretudo na comunidade cristã de Jerusalém. A segunda parte (cap. 13-28) é consagrada a Paulo de Tarso, o evangelizador dos gentios (três viagens missionárias). É ele quem traz o Evangelho à Europa. O livro dos Atos dos Apóstolos termina com a pregação de São Paulo em Roma. Segundo o testemunho da tradição, ele e São Pedro sofreram o martírio em Roma. Desde modo, Roma a cidade dos apóstolos, passou a ser o centro da Igreja.

Quarenta dias: Um número sagrado. Durante os quarenta anos de peregrinação pelo deserto, o povo de Israel aprende a confiar em Deus. Depois de ser batizado por João Baptista, Jesus jejua durante quarenta dias no deserto. Depois, seguro da sua missão, começa a sua vida pública. - A Igreja atém-se ao testemunho de São Lucas: celebra a "Ascensão" quarenta dias depois da Páscoa.