O PROBLEMA DA LIBERDADE (11)

12. LIBERDADE E ASCETISMO

Vinte anos atrás havia muito pouca disciplina no mundo; hoje há em demasia e de má qualidade. Sob a velha ordem do liberalismo, a disciplina era considerada uma repressão injusta, a licença era glorificada como “expansão de personalidade”, e a mortificação era desdenhada como “um resquício da Idade Média”. O homem livre era aquele que não estava sujeito nem a proibições nem a inibições. Supunha-se que os jovens que deixavam os esplendores e encantos do mundo pelas sombras e refúgios da cruz onde se forjam os santos, faziam-no em conseqüência de uma decepção no amor. O convento ou o mosteiro eram considerados Legiões Estrangeiras religiosas onde os jovens entravam por terem perdido a sua bemamada.

A verdade é que ali entravam por terem encontrado o seu Bem-Amado.

Para a geração liberalista, a moralidade não era uma relação entre a ação e a lei ou a finalidade, mas uma média estatística do modo como viviam homens e mulheres.

O bem era o que a maioria fazia; o mal era o que a maioria não fazia.

A liberdade de pensamento veio a ser tão livre que, desprovida de pensamentos, se tornou insensatez. Se os homens, naqueles tempos, se tivessem conduzido com aquele abandono e completo desrespeito pelas finalidades da vida humana, que presumiam, de há muito que viveríamos dentro do caos. Refundiram até os Evangelhos e rejeitaram, como antiquados e impróprios para os nossos tempos, todos os textos que recomendam ao homem: “tomar cada dia a sua cruz” e “perder sua vida para salvá-la”, a crença na Divindade do Cristo supunha-se ter sido carcomida pelos “ácidos do modernismo”. Pelo menos foi o que nos disse Mr. Walter Lipmann. Em vez de ajustarem sua vida ao dogma, começavam os homens a ajustar os dogmas às suas vidas. Adaptaram a religião e a moral ao modo como viviam. Fizeram Deus dançar ao som de sua nova física e a teologia ao som da música da biologia. Julgava-se que os homens eram livres porque não mais sofriam compressão.

Agora, tudo isso mudou. De um mundo de absoluta liberdade e nenhuma compressão, passamos para um mundo de coerção e nenhuma liberdade. De uma ordem em que não havia renúncia o mundo reagiu até a negação da personalidade.

Os regimes totalitários são todos fundados no princípio ascético: “Fazei penitência, pois está perto o Reino do homem.” O ascetismo tornou-se moda; os homens têm agora de sacrificar tanto o que são como o que possuem.

Deve-se renunciar à liberdade individual em benefício do novo mito: a raça e a classe. “As depurações tornaram-se moda.” É fato que nenhum sistema político, no decurso dos passados 1 900 anos, levou tão longe esse ascetismo como o fizeram o fascismo soviético e o nazismo. É na verdade improvável que tivessem pregado o ascetismo político com tamanho sucesso se não houvesse a Cruz de mortificação do Calvário lançado sua sombra sobre o mundo. Com a religião, o homem aprendera a se mortificar para o bem de seu destino eterno. 138 Quando a religião foi esquecida, o marxismo apoderou-se do ascetismo e fez os homens dobrarem-se mais uma vez ao seu jugo, não para o bem de suas almas, mas em beneficio de uma produção maior. A mortificação era outrora a marca inconfundível dos homens bons: Marx e Lenine fizeram dela a própria divisa do mal.

O mundo estava preparado para essa volta ao ascetismo, pois já se saciara com a licenciosidade do individualismo. Andava à busca de alguma coisa que fizesse exigências à alma, e encontrou-a no marxismo. Muitas coisas tiveram de ser abandonadas para se poder entrar em seu reino. O anjo com a espada flamejante montava guarda diante dos portões paradisíacos, ordenando a cada um que entrava abdicar de sua personalidade em beneficio da coletividade. Absoluta submissão às diretivas do partido foi ordenada, sob a ameaça de uma bala pelas costas nas escadarias do Kremlim; a propriedade produtiva privada teve de ser abandonada, como condição para tudo possuir; até a família teve de ser abandonada, num desafio ao Estado, a fim de que o trabalhador passasse a ser a unidade da nova ordem. O fascismo soviético veio a usar exatamente os mesmos meios que o Cristianismo sempre usara antes, mas para um fim inteiramente diverso. Da í em diante sustentou que os homens precisavam ser disciplinados não para o bem de suas almas, mas em benefício da riqueza social. Os ouvidos modernos não mais ouviram o argumento em defesa da “expressão da personalidade”, ou, se o ouviram, ouviram-no dos reacionários liberais. Hoje em dia ouvem o argumento em defesa da violência, tanto da parte do Cristianismo como da de seus inimigos do fascismo soviético e do nazismo. É, com efeito, digno de nota que o Cristianismo não menos que o comunismo prega a violência. Lenine disse que pouco se importava que quatro quintos do mundo fossem banhados em sangue contanto que o outro quinto se tornasse comunista. Jesus Cristo pregou que o “Reino dos Céus é conquistado pela violência e só os violentos o arrebatarão”. O olho deve ser arrancado, as mãos amputadas, os membros decepados, a cruz de cada dia carregada, e até a vida precisa ser perdida para se entrar em Seu Reino.

Termina aí, porém, a analogia, e mesmo assim é bem superficial. São de três aspectos as diferenças principais entre o ascetismo defendido pelo fascismo soviético e o ascetismo cristão. Em primeiro lugar, o ascetismo comunista é imposto; o ascetismo cristão é voluntário. Consideramos a propriedade privada.

Nem os comunistas nem as carmelitas a possuem. Há ascetismo de posse em ambos os casos. Tempo houve em que ambos possuíram uma propriedade. O comunista viu-se espoliado da sua; a carmelita renunciou à sua. Em outras palavras, o comunista viu-se obrigado a fazer “voto de pobreza”, isto é, não pôde possuir a propriedade produtiva, enquanto a carmelita fê-lo de sua própria vontade. A renúncia, no primeiro caso, foi ordenada; no segundo, foi de espontânea vontade. O fascista soviético de Moscou que recebe hoje um magro salário numa fabrica de parafusos e porcas não olha para a loja que era sua em 1917 daquele modo que a carmelita olha para a sua casa. Volta-se para a sua loja pesaroso, e bem desejaria poder novamente ser responsável pela propriedade produtiva. Com a carmelita tudo é diferente. Anos atrás, quando o claustro de um convento carmelita 139 foi aberto à visitação, uma das visitantes apontou para uma bela casa, lá no outro lado do vale, casa então pertencente ao rico proprietário de um jornal. “Irmã, disse ela, se antes de vir aqui lhe tivessem dado aquela casa para morar, com todas as coisas que há nela, tê-la-ia rejeitado pelo Carmelo com a sua Cruz?” Respondeu a Irmã: “Era aquela a minha casa.”

O comunismo não confia na propriedade privada, portanto, diz ele, ninguém deve possuí-la. Todos têm de fazer o voto de pobreza. Tal ascetismo é a morte da liberdade. Jesus Cristo recomendou ao moço rico que vendesse tudo o que tinha e desse tudo aos pobres, mas não lhe tirou à força os bens. O comunismo não confia na democracia, pois só admite um único Partido, ao qual todos têm de se submeter.

Bem diferente foi o apelo do Salvador, que disse aos Apóstolos que O seguissem, mas não proscreveu os discípulos de Cafarnaum como “trotsquistas”, por se terem recusado a acompanhá-lo outra vez, ou por terem achado Suas palavras “duras”.

O comunista não acredita em Deus, portanto ninguém deve adorar a Deus. Impõe o ateísmo como o último ascetismo do espírito humano e nega, no art. 124 de sua Constituição, a liberdade de pregar a religião. Jesus na Cruz, em frente dos inimigos da religião, não os feriu de morte mas orou por eles, pois não sabiam o que estavam fazendo. Deixava aos homens a liberdade de serem irreligiosos, mas os irreligiosos comunistas não deixarão aos homens a liberdade de serem religiosos.

O ascetismo do comunismo não deixa nada à livre escolha; tudo é imposto pela força. Aos demais rasgam-lhes as roupas, deitam-lhes cinza na cabeça, castigam-lhes o corpo e convertem a nação num enorme manicômio onde todos têm de cumprir os votos sem nunca os terem feito. É muito semelhante ao calvinismo que afirmava que o homem estava destinado ao céu ou ao inferno, independente de seus méritos. Como Deus o predeterminou, seu destino é, por isso mesmo, indiferente ao seu bom ou mau procedimento.

Em tal fatalismo, o homem não tinha liberdade de ser um santo ou de ser um demônio. Deus fez dele o que ele é, não ele próprio. O comunismo é também semelhante à Proibição. Os proibicionistas não gostavam do copo de vinho ao jantar, por isso decidiram que ninguém mais devia tomar vinho. Há um fio comum ligando-os todos: Puritanismo sem danças, Proibição sem vinho e Comunismo sem propriedade. Todas as massas tinham de fazer os “votos” dos líderes, quer quisessem quer não. Em vez de perguntar ao homem: “Queres receber esta mulher como tua esposa legítima?”, o novo ascetismo diz: “Receberás esta mulher como tua esposa legítima.” Diante do problema do abuso, destruíram o uso, e face a face com a realidade do egoísmo humano, tiraram a liberdade dos demais. Tal qual certos vegetarianos que recusam carne a quem quer que seja, o comunismo empurra suas opiniões pela garganta dos demais, expediente que só aproveita aos não-ascéticos líderes vermelhos do novo ascetismo.

A Igreja afirma que, quando forçado, o ascetismo converte-se em tirania. Jesus nunca andou obrigando os homens a carregar uma Cruz porque teve a sua a carregar, nem nela os pregou porque desejou ser crucificado, nem arrebatou 140 esposas e mães dos maridos e filhos porque não tinha família, nem acabou com as bodas porque não teve a sua, nem forçou os demais a dormirem sob os céus nublados porque não tinha teto. Todos esses atos de renúncia, ele os deixava à liberdade de escolha de Seus discípulos, dizendo-lhes: “Achais que podeis beber disse cálice?”

Não se dá o mesmo com o ascetismo moderno. Ou fazemos o que o Ditador impõe ou não fazemos nada; ou temos certa espécie de sangue circulando em nossas veias ou o nosso sangue não pode de modo algum circular, dentro das fronteiras de seu império; ou aceitamos o Estado como Igreja, ou sofremos as conseqüências de fazer política com a nossa religião; ou usamos a nossa palavra e a nossa imprensa para propagar as suas doutrinas, ou somos relegados para o supremo esquecimento da morte. A liberdade termina onde começa a força. Benéfico e útil é praticar a disciplina e a mortificação, mas se não deixarmos a cada qual a liberdade de fazê-lo destruiremos o seu valor. Um voto de obediência, obtido à força não é voto que obrigue, do mesmo modo que a promessa de casamento feita diante do cano de uma espingarda, não é um contrato válido. A restauração do ascetismo é um empreendimento que devemos ardentemente desejar, mas este último estado será pior que o primeiro se não deixarmos sua escolha ao livre assentimento do homem.

Arrebatar à força as esposas dos maridos não é o que vai torná-los castos, assim como confiscar a propriedade produtiva não é o que vai libertar os homens da paixão da cupidez. É de disciplina voluntária que o mundo necessita, não de disciplina imposta. A Igreja, por exemplo, reconhece a santidade de Simão, o Estilita, que passou a maior parte de sua vida plantado no topo de uma coluna de mármore, longe do bulício dos homens, mas a Igreja nunca disse que todo o homem que desejar ser santo deve morar no pináculo de um arranha-céu. A Igreja canonizou a Little-Flower [*], mas recusa-se a obrigar qualquer mulher a entrar no convento. A Igreja ensina que a castidade dos religiosos é superior ao estado matrimonial, mas condena quem diz que o matrimônio é um mal. A Igreja regozijase com os seus filhos que fazem o voto de pobreza e renunciam aos seus próprios bens de produção, mas condena o comunismo, que diz que a propriedade individual da propriedade produtiva é um mal. A Igreja ensina a temperança e louva o perfeito abstêmio, mas repele o reformador que diz que a bebida em si mesma é intrinsecamente má. Santo Tomás Becket usava, como Arcebispo, uma camisa de pêlos sob os paramentos de ouro e carmesim, em seu proveito a camisa de pêlos e em proveito do povo o ouro e carmesim, mas nunca vestiu à força camisas de pêlo nas ovelhas de seu aprisco. Em resumo, o ascetismo comunista, por ser forçado, é despojamento; o ascetismo cristão, por ser voluntário, é libertação.

[*] N. do T. - Refere-se o A. a Sta. Teresinha do Menino Jesus.

Leva-nos isso à segunda diferença entre o ascetismo comunista ou nazista e o cristão. O primeiro desses ascetismos permanece sempre no mesmo nível, isto é, nunca nos eleva ao reino de outrem; apenas muda o nosso lugar no mesmo reino. O ascetismo cristão manda-nos morrer para o tempo para viver para a eternidade, e morrer para o mundo para viver para o Cristo. O ascetismo comunista manda-nos 141 morrer para o tempo para viver no tempo. Conserva-nos sempre no mesmo nível e para sempre no mesmo plano. Sofremos mortificação na vida econômica só para nos acharmos outra vez no econômico. Abandonamos à força a riqueza, mas só para nos defrontarmos com suas lutas sob a aparência de privilégios; abandonamos a propriedade produtiva só para terminarmos na propriedade de consumo; sofremos a morte do egoísmo individual só para sermos incorporados ao egoísmo coletivo. Isso absolutamente não satisfaz. Queremos ser mais do que somos quando fazemos mortificações. A única razão para a morte é descobrir uma nova vida. A Páscoa deve ser mais que o ocaso da Sexta-feira Santa. Se renunciamos à propriedade precisamos de alguma coisa acima da propriedade para a nossa redenção. Todo ascetismo implica elevação a uma nova ordem, a uma vida mais feliz, a um reino mais nobre. Tal é a filosofia do ascetismo cristão. O ascetismo não é um sono. Não nos deitamos para despertarmos para uma nova tarefa. Despertamos isentos de qualquer necessidade de trabalhar. A própria natureza nos ministra esta lição: a morte do ascetismo é o nascimento para uma vida ma is elevada. As plantas morrem para viver no animal; os animais morrem para viver no reino do homem; e o homem morre para si mesmo, pela mortificação, a fim de viver uma vida divina no Cristo.

“Se não morreres para ti mesmo não poderás viver em Meu Reino.” No plano cristão, morremos para este mundo a fim de vivermos no outro, não a fim de vivermos uma existência melhor neste mundo. Não vale a pena sujeitar-se a uma revolução, com suas perturbações sociais e pilhagens de tabernáculos, só com o propósito de transferir o privilégio da riqueza dos invejosos capitalistas para os novos invejosos comissários. Vale a pena, porém, alguém se privar de todos os prazeres deste mundo para se elevar a uma ordem onde não há mais sangue a derramar nem mais irmãos a odiar, pois todos são um em Deus, que é a Paz e o Amor. Acordos meramente econômicos e transferências de título de propriedade das mãos dos capitalistas para as dos comunistas não valem a pena um ascetismo forçado. Depois de todos os nossos Gólgotas forçados e de todas as nossas flagelações, acordamos na mesma cama em que nos deitamos, com a única diferença de que as paredes que contemplamos são agora vermelhas e não azuis. O ascetismo é duro mesmo quando voluntário, e quem quer que o pratique tem direito a exigir, em recompensa, alguma coisa mais que uma subversão política e uma redistribuição da riqueza. Ninguém aceita grandes renúncias para continuar a ser o mesmo homem. Queremos ser diferentes, ter um novo sangue a nos correr nas veias, novos pensamentos na cabeça, novos irmãos a amar, novas causas a servir e não mais batalhas a travar. Nenhuma revolução terrena vale o seu custo. Os revolucionários dão golpes de prestidigitação, transferem a riqueza de uns para outros, mas não curam a causa do mal, pois não fazem senão substituir a cobiça dos outros pela sua. A filosofia comunista do ascetismo violento não passa, portanto, de um esnobismo - o esnobismo barato da riqueza. Por que devem as massas suportar as penas e as desgraças de combates sanguinolentos só para irem encontrar o dinheiro e os palácios em outras mãos?

As massas ainda um dia perceberão que tal ascetismo não vale o seu preço, pois só proporciona uma religião de morte em lugar de uma religião de ressurreição. Com 142 ele não se obtém nenhuma liberdade nova, pois a liberdade da revolução vai acabar muito freqüentemente na negação da liberdade. Assim aconteceu na Revolução Francesa e tornou a acontecer na Revolução Russa. Os Estados Unidos entraram na Guerra Mundial para assegurar o mundo para a democracia, e ninguém hoje em dia poderá dizer o que o mundo ganhou com a transformação de campos de papoulas em Hacéldamas de sangue. Não fomos purificados pelo derramamento de sangue; ao contrário, quase nos afogavam os gemidos e lágrimas das mães ao despertarmos para um novo estado de coisas em que os homens se viram despojados de seus direitos e liberdades. Adubamos os nossos campos de batalha com mortos, mas nenhuma colheita ceifamos. Ferimos o corpo da civilização até sangrar, mas não o curamos. Cingimos a humanidade com a coroa de espinhos, mas não lhe apusemos nenhum halo de luz; a despeito de todos os nossos padecimentos e mortificações, deixamos o mundo no estado em que o encontramos, porque enfrentamos a morte não por causa de um reino ultraterreno, mas simplesmente por slogans, pelo comércio e pelo poder. Não é digno de nós qualquer ascetismo que nos deixa as mesmas criaturas, com as mesmas paixões, o mesmo egoísmo e os mesmos modos de pensar. A renúncia a direitos inalienáveis, à propriedade, à liberdade individual e à consciência, exigida pelo novo ascetismo é um preço demasiadamente alto para relações mecânicas ou raciais com o nosso próximo, e se o pagarmos, estaremos rebaixando-nos. A felicidade do homem não consiste em possuir mais daquilo que já possui; ele anseia por uma situação em que nunca tenha que pedir mais. Não quer mais alimento; quer, sim, um alimento que o liberte da fome; uma bebida que o liberte da sede, um lar que o livre do coletor de rendas. Não quer um mundo melhor, mas sim um novo mundo; não uma vida mais farta, mas a abundância de vida; não uma vida, mas a Vida; não a educação, mas a Verdade; não a segurança, mas a Liberdade. E nenhuma dessas coisas existe aqui em baixo, mas apenas lá no Reino de Deus. Uma vez aceita essa vocação sobrenatural do homem, o ascetismo, mesmo o de caráter mais violento, passa a valer o seu preço, pois nos tira desta ordem mundana para o florescimento e perfeição de nossa personalidade em Deus, para quem fomos criados. Uma revolução que unicamente vira o homem de dentro para fora equipara-se a esta idéia: “Para que serve ao homem ganhar o mundo inteiro e perder sua alma imortal?” Nosso Divino Salvador, que nos veio ensinar esse ascetismo que nos eleva acima deste mundo, nunca o pregou com maior fervor do que quando lhe pediram que descesse da Cruz. “Descer” teria sido admitir que o homem carrega a sua cruz só para palmilhar outra vez este mundo. Recusar a descer significa que se carrega uma cruz para deixar este mundo. A revolução que termina pela descida da Cruz e por uma nova via crucis não é uma revolução, mas uma derrota. A verdadeira revolução exige tanto desapego deste mundo que a própria terra tem de nos considerar como mortos e nos inumar em seu seio. Por meio dessa vitória momentânea sofre a terra a sua maior derrota, assim como entregou os seus mortos na Páscoa, quando o Rei dos reis andava nas primícias de Sua Ressurreição.

A última diferença entre os dois ascetismos é que o comunismo confia na violência ao próximo, ao passo que o cristianismo confia na violência a si próprio. Ambos 143 confiam na violência, mas a violência de cada um vai dar em alvos diferentes, porque inspirada em motivos diferentes: o amor, no cristianismo, e o ódio, no comunismo. O comunismo prega o espírito de revolução, ao passo que o Cristianismo prega a revolução do espírito. A violência do comunismo é contra os

outros, tais como os “reacionários”, os “fascistas”, os “trotsquistas”, os “capitalistas”, os “padres”, os “cristãos”. A violência do Cristianismo é contra o orgulho, o egotismo, o egoísmo, a cobiça, a avareza, a concupiscência e o ódio. O comunista proscreve o seu próximo; o cristão mortifica-se a si mesmo. O comunista vê o argueiro no olho do próximo, mas não a tranca no seu próprio. Mortifica a liberdade do próximo, mas nunca a sua própria licença; refreia os haveres do próximo mas nunca a sua própria avareza; vergasta a política do próximo, mas nunca a sua própria intolerância. Suas espadas estão todas dirigidas para fora, nunca para dentro onde reside o verdadeiro mal. Tal espécie de ascetismo, que dá aspirina aos outros quando é ele que tem dor de cabeça e que corta a mão aos outros quando a gangrena ataca a sua, não é o ascetismo da salvação. A reforma verdadeira principia na consciência. O exame de nossa própria consciênc ia é a mais penosa de todas as revoluções a empreender, e só os santos têm a coragem de fazêla.

O egoísmo não se cura com o comunismo, do mesmo modo que não se cura o raquitismo das crianças reunindo-lhes todos os brinquedos no mesmo jardim. Não é a propriedade que causa as nossas desordens sociais; é o egoísmo daqueles que detêm em suas mãos a propriedade; não é o dinheiro que é a raiz do mal, mas o desejo excessivo dele. Por isso, todas as revoluções contra as instituições nunca criarão um mundo novo; só transferirão os bens de um explorador para outro. Nem abolirão as classes, pois dêem-se-lhes o nome que quiserem, haverá sempre duas classes: governantes e governados. O ódio e a violência contra o próximo confundirão as classes, mas não acabarão com os conflitos de classes. Pode ser que se consiga que as raposas dêem caça aos cães, em lugar de os cães darem caça às raposas, mas nunca se acabará com a caça.

A única revolução que surte bom resultado - e esta nunca pode ser completamente realizada aqui neste mundo, - é a violência contra as nossas paixões inferiores. O espírito de caridade pode fazer o comunismo econômico surtir bons resultados, porque elimina a inveja, a vaidade, a discórdia e a avareza. As comunidades religiosas de freiras e as ordens religiosas de homens são comunistas no pleno sentido de que todos partilham tudo em comum, não possuem individualmente nenhuma propriedade produtiva, apenas gozando do seu usufruto. Este gênero de comunismo dá bons resultados, porque o amor de Deus e o amor do próximo tudo suplantam. Lenine cometeu o grande erro de tentar converter a Rússia num mosteiro sem caridade. Queria a propriedade comum, porém sem o sentimento de amor. Tal empresa é tão impossível como querer uma escrituração honesta sem que o guarda-livros pratique a virtude da justiça. Não podemos converter homens dissolutos e ébrios de ódio contra o capitalismo, a democracia e a religião, com a promessa de pilhagem, e esperar, que senhores da presa, se mostrem pacíficos, justos e submissos, do mesmo modo que não podemos iniciar uma campanha de saneamento disseminando germes. Se os homens aprendem a mentir sob o regime da Frente Democrática, quererão ainda mentir no regime da ditadura do proletariado. Só quando a justiça e a caridade se arraigarem na alma dos homens é 144 que poderemos esperar por medidas de paz social. Pode-se ilustrar essa idéia com a história de dois monges: um deles tentava explicar aos demais como, no debate sobre a propriedade, surgiram as discórdias nos países capitalistas e as proscrições na Rússia Soviética e em outros países fascistas. Um pôs a mão numa pedra e disse: “Esta pedra é minha.” O outro, cheio do espírito de caridade, disse: “Está bem, pode levá-la.” Disse o outro: “Oh, não. Você deve dizer ‘é minha’, pois assim poderemos discutir sobre isso e ter o nosso conflito de classes.” Então disse o segundo monge: “É minha”, e o primeiro respondeu: “Está bem, pode levá-la.” E terminou toda a contenda porque houve caridade.

Estavam ambos tão acostumados a não usar de violência contra si mesmos que se mostraram incapazes de usá-la contra o próximo. De tais revoluções do espírito nascem a paz e a justiça, mas se só viermos a reformar o nosso próximo e não a nós mesmos, então nada reformaremos. Apenas devastaremos a terra.

O problema com que se defronta o mundo de hoje não é saber se seremos ou não partidários do ascetismo; é antes saber: que espécie de ascetismo praticaremos?

Será ele voluntário ou será imposto? Servir-se-á da pessoa humana como de um meio para a glorificação da raça ou da classe, ou irá exaltá-la como o supremo valor da terra? Será pelo Reino de Deus ou pelo reino de César? Irá elevar-nos a uma outra ordem mais alta ou irá simplesmente mudar os nossos lugares dentro da mesma ordem? Precisa-se curar o egoísmo do mundo - tanto o egoísmo individual do liberalismo como o egoísmo totalitário do fascismo e do comunismo. Como

curá-lo? Abrem-se para nós duas escolhas apenas. Ou curamos o nosso egoísmo espontaneamente, pela mortificação, ou outros tentarão curá-lo para nós pela destruição de nossa personalidade. Joga-se a liberdade na escolha. A mortificação, porque pessoal, é livre; a ditadura, por ser coletiva, é forçada. Só pela renúncia espontânea do nosso egoísmo poderemos preservar a nossa liberdade. O ascetismo da Cruz é a condição da liberdade, mas não se pode forçar nenhum homem a carregar a cruz. Isso deve ser feito espontaneamente. Eis por que Aquele que nos veio ensinar a carregar a cruz de cada dia, pregou-nos sua lição como prisioneiro aparente da cruz. A Verdade pregada a uma cruz não compele ninguém. Mãos laceradas não podem fazer violência ao próximo; pés transpassados não podem ir em busca de transviados; lábios sedentos mal podem pregar aos agnósticos. Havia apenas o amorável aceno do olhar a convidar todos os homens para se achegarem àquela cruz. Se a verdade Crucificada se tivesse convertido em verdade coercitiva, seria o malogro de todo o Cristianismo.

Julgam os ditadores que os homens podem ser compelidos ao ascetismo; entretanto não podem; podem apenas ser solicitados a aceitá-lo. O egoísmo precisa render-se; não se pode vencê-lo. E não se renderá a nenhum outro Poder senão ao Amor, que é bastante abnegado para morrer a fim de que os outros possam viver.

Só na atmosfera irradiante do ascetismo do Calvário é que se pode extinguir o egoísmo e fazer sobreviver a liberdade; e só com a condição de o homem moderno inverter o processo por que expulsou a Deus do mundo e O enviou ao patíbulo, poderá encontrar a liberdade e a paz por que ardentemente aspira. 145 Não é o pecador que devemos exterminar, mas sim o pecado. Não é o capitalista que devemos banir, mas sim o capitalismo pecaminoso; não é o nosso próximo que devemos odiar, mas a nós mesmos por odiarmos ao próximo, pois o Reino do Céu conquista-se com essa violência, e só os violentos o arrebatarão. 146 147

 

13. A LIBERDADE E A RELIGIÃO

Há duas espécies de liberdade: liberdade de escolha e liberdade de perfeição. A liberdade de escolha é o poder da vontade de elaborar ou suspender seu ato de volição, depois que o intelecto o apresentou como um bem particular. Essa espécie de liberdade implica uma escolha entre, pelo menos, duas coisas; por exemplo:

devo comer ao jantar espinafres ou cebolas? A liberdade de escolha é liberdade e implica a ausência de coerção e o poder de autodeterminação.

Mas, além e acima das centenas de escolhas livres feitas pela alma humana, existe uma espécie de liberdade superior a todas, isto é, a liberdade de perfeição. A liberdade de escolha refere-se a bens particulares, como, por exemplo, a saúde, o poder, o sucesso, a alegria, a comodidade, o conhecimento terreno ou o prazer imediato. A liberdade de perfeição refere-se ao último bem, isto é, à aquisição da Verdade perfeita para o nosso intelecto, do Amor perfeito para a nossa vontade e da Vida perfeita para a nossa existência. A pessoa humana tem uma finalidade transcendente à miríade de finalidades que se lhe apresentam durante a vida: a posse de Deus por quem foi ela criada e constitui a sua felicidade.

A felicidade segue-se à consecução da finalidade. Se um lápis tivesse consciência, sentir-se-ia feliz quando escrevesse; se o sol tivesse consciência, sentir -se-ia feliz quando brilhasse. Ora, o homem, enquanto homem, foi criado para conhecer, servir e amar a Deus. É feliz na proporção exata em que atinge esse fim, que é a sua perfeição. A liberdade de escolha, é, pois, o meio para o fim, que é a liberdade de perfeição. Fazendo escolhas acertadas, desenvolvemos a nossa personalidade neste mundo e, afinal, aperfeiçoamo-la na outra vida com Deus. Nossa personalidade desenvolve-se pela riqueza moral de nossos atos deliberados de escolha e, finalmente, atinge sua perfeição no momento em que realiza a união com a sua suprema Finalidade. Não devemos crer que Deus é qualquer coisa inteiramente extrínseca à nossa personalidade, e pensar que devemos obedecer à Sua lei para agradar-lhe, tal como podemos obedecer à lei de um rei ou de um presidente. Deus

é a nossa perfeição. O que a florescência é para a flor, a vida divina é para a nossa personalidade - o começo da perfeição. A liberdade de escolha implica estar livre de alguma coisa para alguma coisa. A liberdade de escolha não é um fim em si mesmo, mas apenas um meio para um fim, o último dos quais é a relativa perfeição do homem na absoluta perfeição de Deus.

A luz do que precede, fácil será perceber a falsidade das duas liberdades que foram o assunto com que iniciamos este livro, isto é, a Liberdade de Indiferença e a Liberdade de Necessidade. O liberalismo, ou Liberdade de Indiferença, insistia na liberdade de escolha e esquecia a liberdade de perfeição. O totalitarismo colocava a liberdade de perfeição não em Deus, mas num ditador terreno, exaltado como Deus, destruindo assim a liberdade de escolha. O liberalismo tinha razão ao insistir no direito de escolha, mas não a tinha quando esquecia por que queria ser livre. O 148 totalitarismo tem razão ao insistir na finalidade, mas não a tem quando faz dessa finalidade a produção, como na Rússia; a consciência da raça, como na Alemanha, e a consciência nacional, como na Itália, em lugar de fazê-la ser a completa perfeição de cada homem em Deus. O liberalismo matou a finalidade da vida; o totalitarismo matou tanto a finalidade como o meio para ela. O liberalismo contrapôs-se à personalidade, restringindo o desenvolvimento do homem a atos de escolha individuais, fazendo de cada homem uma lei para si mesmo. O totalitarismo anula a personalidade, encarnando a finalidade do homem na vontade do ditador e identificando a perfeição de cada homem com a obediência a essa vontade arbitrária. O liberalismo esqueceu Deus; o totalitarismo esquece a liberdade e faz de César um Deus. O liberalismo esqueceu a liberdade de perfeição, o totalitarismo tanto a liberdade de perfeição como a liberdade de escolha, e, desconhecendo a escolha, desconhece o direito de cada homem aperfeiçoar-se como alguma coisa superior à raça, à nação e à classe. Porque se oporá a Igreja tanto ao liberalismo como ao totalitarismo? Por que ambos falseiam a verdadeira natureza do homem, separando aquilo que não deve ser separado, isto é, a livre escolha como meio para o fim que é a perfeição própria.

A liberdade é tanto um campo de experiência como um objetivo. Deus reuniu a escolha e a perfeição: separá-las à força é fazer tanta violência ao homem como separar os seus olhos da cor ou os seus ouvidos do som. Não viemos a este mundo para escolher, tornar a escolher, e depois morrer sem nunca ter feito uma escolha suprema. Fazer a liberdade consistir apenas na escolha, é colocar o homem na encruzilhada de uma centena de estradas , todas elas sem destino. Se a estrada não conduz a um destino, não há razão para segui-la. Mas se houver uma cidade a mil milhas de distância, então as cem estradas diferentes para essa cidade passam a ter sentido. O namoro visa o casamento, e a escolha visa fins, objetivos e a perfeição, coisas todas que o liberalismo esqueceu. Nem tampouco viemos a este mundo para encontrar um ditador postado nas encruzilhadas da civilização a dizer: “Você deve seguir por esta estrada e só por esta, pois apenas ela conduz ao aumento de minha autoridade e força; escolher outra que não a que eu imponho significa renúncia à vida.” Essa filosofia da vida faz a perfeição do homem residir na totalidade da raça ou da classe e não nele próprio, quando é o homem que deve ser livre e não o rebanho.

A razão de tanta desventura no mundo de hoje é a substituição de uma finalidade por finalidades; pequenas e insignificantes finalidades em lugar do fim eterno. Os homens foram criados para voar para o Céu, mas cortam-se as asas e arrastam-se na terra. Há uma tremenda desproporção entre a Vida, a Verdade o Amor, para que foram criados, e os prazeres fugidios, as meias verdades e as satisfações com que momentaneamente se contentam. O homem moderno vive num universo bidimensional, de comprimento e largura, ao passo que foi destinado a lançar-se para o alto, até o Divino, no universo tridimensional do espírito. Em vez de reunir todas as suas energias, políticas, sociais, intelectuais, emotivas, espirituais e físicas sob um só comando e para um único objetivo, permite o homem moderno a cada uma delas correr a trouxe-mouxe em qualquer direção, dilacerando a unidade de 149 seu ser e criando um estado de guerra civil dentro do próprio coração, que o torna tão complexo como aquele demônio que, perguntado sobre o seu nome, respondeu: “Eu me chamo Legião.”

O tumulto, a confusão mais desenfreada e a total ausência de paz tornam a alma qual um planeta que, fugindo de sua órbita, se incendeia no espaço. A única evasão temporária do homem é afogar-se na agitação e no bulício, por não suportar ficar a sós consigo mesmo e com sua consciência, que lhe lança continuamente uma réplica intolerável. Recusa-se a admitir que não seja perfeita sua norma de vida. Se fosse ao menos bastante forte para reconhecer suas próprias faltas, poderia ainda tornar-se um homem livre, pois há no mundo coisa pior do que o pecado: o homem que se recusa a crer que é pecador. Há esperança para o homem que perdeu o caminho e quer achá-lo, mas nenhuma para o cego que não quer ver ou para o escravo que não quer ser livre.

Consideramos agora o homem que sem titubear tira da aljava de sua vida as setas escolhidas que podem ser lançadas ao alvo da união sempit erna com Deus. Chegará o dia em que esse homem não mais terá liberdade de escolha e contudo permanecerá livre? Sim, quando atingir a finalidade da vida no céu. Uma vez que aperfeiçoemos a nossa personalidade pela união com Deus, já não teremos liberdade de escolha, porque nada mais restará a escolher. Nada haverá a desejar, pois o Perfeito nada deixa a ser desejado. Não podemos permanecer indiferentes ao perfeito; à vista dele tornamo-nos seus escravos; não é a escravidão do domínio, mas a suave escravidão do amor. Se neste mudo permanecemos indiferentes aos mil e um bens relativos que se nos apresentam à escolha, é porque nenhum deles possui uma perfeição que possa determinar a nossa vontade. Deixam-nos “frios”porque não têm uma perfeição absoluta. O fragmento de aço tem afinidade pelo

ímã e um ímã fraco tem afinidade pelo fragmento de aço, mas a força do ímã não é bastante forte, permanecendo assim o fragmento de aço indiferente à sua atração.

Dá-se o mesmo na vida. As boas coisas da vida têm alguma afinidade por nós enquanto participam da bondade, da verdade, do amor e da vida, mas têm uma parcela tão pequena dessas perfeições que não nos compelem e escolhê -las. Uma vez, porém, que estivermos em contato com o campo magnético da Vida, da Verdade e do Amor perfeitos que é Deus, precipitar-nos-emos para ele como a  barra de aço para o eletroímã, e em união com ele é que encontraremos a satisfação do desejo de nossa alma e a plenitude de nossa personalidade. Era de Deus que sempre necessitávamos.

Tomemos um outro exemplo. O coração do homem é livre para assentar a sua escolha em qualquer outro coração, como objeto de sua permanente afeição. Não é forçado a escolher esta pessoa de preferência àquela. Mas, uma vez feita livremente a escolha, não quer mais ser livre para escolher. Desdenha a indiferença e repele a possibilidade de que possa haver qualquer outra. Para esse coração a perfeição da escolha consiste na convivência por toda a vida com o objeto de sua afeição, e considera a sua maior liberdade ser escravo dessa pessoa pelo resto da vida. Num plano mais elevado, quando a alma, por uma escolha moral acertada, atinge o Supremo Bem que é Deus, não pode deixar de amá-lO. Nada resta a ser desejado. 150

Torna-se “escrava” do Divino Amor, e, entretanto, é perfeitamente livre porque está unida Àquele que tudo pode fazer. A liberdade de escolha termina, assim, na liberdade de perfeição da nossa personalidade em Deus. Relegamos assam a falsa liberdade de desobedecer à Sua lei, pois embora poder pecar seja um sinal de liberdade, maior liberdade é ainda poder não pecar, mas unicamente amar.

A liberdade por que anseia o homem não está nem na escolha indefinida de fins indiferentes, nem no abandono da escolha ao reino da terra. Procura fazer uma escolha que o dispensa da necessidade de escolher outra vez. Quer uma liberdade que lhe permita escapar ao paradoxo da caça e da captura.

Aqui nesta vida somos arrastados entre as duas. Não podemos ter ambas a um tempo. Há alegria na caça, pois vem-nos com ela a perspectiva de um bem futuro; há alegria na captura, pois com ela vem-nos a posse daquele bem. A captura, porém, tira-nos a emoção da caça, e a caça põe-nos loucos se nunca termina na captura. O namoro termina no casamento e o casamento termina o namoro.

Quando se apanha a presa está terminada a caçada. Ninguém sofre sede à beira do poço.

A incompatibilidade entre a caça e a captura neste mundo revela-se na desilusão que traz a realização de nossos desejos terrenos. Um desejo material, quando realizado, fica de certo modo destruído. Esperamos por certo lugar, emprego ou posição na vida e, de um modo ou de outro, eles não correspondem bem à nossa expectativa. A razão é que os nossos desejos refletem o infinito de nossa alma; posso imaginar, por exemplo, uma montanha de ouro, mas nunca a verei. Uma vez realizado, o desejo torna-se concreto, circunscrito, materializado. Surge, então, o senso de desproporção entre o ideal concebido e o ideal realizado. Vem daí o motivo do nosso desapontamento. Realizar nesta vida tudo o que almejamos é indício de uma existência malograda, sinal que pusemos muito baixas as nossas esperanças e muito rasteiros os nossos ideais. Somos vítimas do desencanto por estarmos enojados com a saciedade e enfadados com o que temos, embora continuemos a ansiar pelo que não possuímos. O nosso tédio é realmente a nossa verdadeira fome não satisfeita. O pessimista é aquele que satisfez à saciedade o seu próprio desejo. Renuncia ao alimento porque pedras não o satisfazem; renuncia à bebida porque fica ainda com sede depois do sal.

A verdadeira felicidade está na combinação de ambos: a caça e a captura. Como combinar, porém, a caça e a captura, de modo que a caça termine na captura, mas que esta nunca signifique o fim da caça? Isto só é possível para aquelas almas que, vivendo à procura de Deus, já O encontraram. Quando Deus for o nosso êxtase, teremos alcançado algo tão infinito que passaremos a eternidade sondando as profundezas de sua Vida, Verdade e Amor e nessa união entre a captura e a caça encontraremos a nossa felicidade.

Foi para nos dar este nobre conceito de liberdade que o Filho de Deus desceu até a nossa ordem histórica e nos disse: “Se permanecerdes em Minha Palavra, sereis verdadeiramente Meus discípulos, e conhecereis a verdade e a verdade vos 151 libertará... Se, pois, o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres.” (S. João VIII, 31, 32, 36). O conhecimento desta verdade é o conhecimento da finalidade da vida, pois se não soubermos por que vivemos, de nada servirá a vida. Com esse conhecimento exato do homem vem-nos o meio de atingir aquele fim: a graça daquele mesmo Cristo que nos deu o Seu Corpo e o Seu Sangue, para que pudéssemos ter a vida em abundância. O centro do nosso ser não está, pois , em nós mesmos, mas em Deus; o segredo da nossa liberdade não está, pois, na escolha, mas no Supremo Bem!

O maior obstáculo para se alcançar a liberdade na nossa civilização é a falta do senso de culpa. Todos nós nos sentimos ofendidos, mas poucos dentre nós nos sentimos culpados. O mundo moderno põe sempre a culpa em outrem, nunca no abuso de suas escolhas, que é a razão de ser da culpa. Em linguagem mais cristã, diríamos que não somos humildes. Humildade é dependência - dependência de Deus; tal como o Orgulho é independência de Deus. A humildade é a cura do nosso amor-próprio, porque é a Verdade de nossa indignidade, quando vivemos de nós mesmos e por nós mesmos separados de Deus. Humildade não é submissão ao mundo nem resignação passiva à sua violência. Ao contrário, é a recusa de se submeter ao mundo; é conservarmo-nos espiritualmente livres em nosso íntimo pela consciência da finalidade da vida, mesmo que milhares de grades nos encarcerem o corpo.

A liberdade está no espírito, não na matéria. Perde-se quando se desce à terra. Eis por que aqueles que crucificaram Jesus convidaram-no a que descesse da Cruz.

Nenhuma palavra neste mundo exprime melhor a escravidão do que a palavra submissão. Submissão ao mundo! Submissão aos reinos de Satã! Submissão à segurança! Submisso a César! Submissão ao ódio!

Enquanto eles gritavam “desça”, ressoava ainda pelas colinas do Calvário o eco de uma outra palavra proferida por ele em antecipação de Sua Cruz: “Quando eu for elevado do solo, atrairei a Mim todas as coisas.” Nestas duas palavras: “submissão” e “elevação” está encerrado o problema da liberdade. A perda da liberdade é sempre um movimento para baixo - para este mundo e suas opções. A verdadeira liberdade não consiste no que pedimos de Deus, isto é, que desça até o mundo, mas naquilo que Deus pede de nós, isto é, que nos elevemos até ele. A conquista da liberdade é sempre um movimento para cima - acima para a Verdade! Acima para a finalidade da Vida! Acima para a Perfeição! Acima para o florescimento da personalidade! Acima para a liberdade do Espírito, mesmo quando pendente numa cruz! Acima! Acima! Acima! Para Deus!

Fulton Sheen

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