O PROBLEMA DA LIBERDADE (8)

A ORIGEM DOS DIREITOS

Se a maioria não é a origem dos direitos e das liberdades, qual é a sua origem? É uma pergunta que todas as nações se devem fazer em seu nascimento e a que todas as Constituições devem responder. A resposta exata é: nossos direitos vêm de Deus.

Pilatos, o procurador romano, foi lembrado disso pelo Prisioneiro que estava de pé diante dele e que na verdade era seu juiz: nenhum poder tinha ele senão vindo do alto.

Eis por que o Cristianismo impõe obediência ao Estado. “Que todas as criaturas se submetam aos poderes superiores, pois nenhum poder existe senão vindo de Deus, e os que existem são constituídos por Deus. Aquele, pois, que resiste ao poder, resiste à ordenação de Deus.” (Rom, XII; 1, 2.) De igual modo, manda S. Pedro a seus cristãos “temerem a Deus e honrarem o imperador.” (1a Epist., São Pedro, II;

17.) E o imperador era Nero!

Se Deus é a última fonte dos direitos e liberdades, qual é a próxima? A pessoa. Só a pessoa tem direitos, porque só a pessoa tem razão e vontade. Uma pedra não tem direitos; um burro não tem direitos; mas uma criança tem direitos, um bêbado tem direitos, um imbecil tem direitos. 102 [4] Hoffman, Ross, Tradition and Progress (Milwaukee: Bruce, 1938), págs. 128,129.

[5] Idem, pág. 106.

Mas por que, pode-se perguntar, é a pessoa a fonte dos direitos? Porque uma pessoa pode fazer duas coisas que nenhum mineral, nenhuma planta nem animal algum pode fazer: determinar seus próprios objetivos e propósitos e escolher os meios para alcançá-los ou rejeitá-los completamente. O homem não conhece o seu fim pelo instinto, como o cão, nem inconscientemente, como uma noz; determina-o pela razão. Já que só ele pode determinar seu próprio fim, só ele tem direitos que lhe permitam atingi-lo. Já que o homem não pode alcançar plenamente sua própria perfeição sem a submissão do intelecto à verdade e da vontade à bondade, tem então o direito de viver, uma vez que a vida é condição e meio para a consecução desse fim. [6] Os direitos da pessoa são derivados do bem, enquanto todos os seres estão ordenados àquilo que é bom. A fonte próxima dos direitos humanos não é então o Estado (Hegel), nem o contrato social entre as vontades individuais (Rousseau), nem a emergência de novos fatores biológicos (Spencer), nem a vontade da maioria, nem o socialmente útil, nem nenhuma Constituição, nem nenhum Ditador, nem nenhum Parlamento, mas a pessoa feita à imagem e semelhança de Deus, dotada do poder de autodeterminação e, portanto, do direito à sua própria realização, tanto neste mundo como no outro.

O mais alto valor neste mundo é a pessoa; toda a criação visível e toda a riqueza das nações não passam de um grão de areia na balança, em comparação com o valor de um único homem. Para salvar o homem, o mais alto valor da terra, foi erigida a Cruz nas encruzilhadas das civilizações de Jerusalém, de Atenas e de Roma. Tal é a medida de sua grandeza.

Diferentemente dos animais da terra, o homem não existe em razão da espécie, pois esses indivíduos morrem para que a espécie possa sobreviver. Ao contrário, cada pessoa é senhora de um valor único, que nem mesmo o Estado absorve, pois o Estado existe para o homem, não o homem para o Estado. O homem tem direitos anteriores a qualquer Estado, que podem ser reconhecidos pelo Estado, mas não criados. A pessoa humana e sua família, sendo anteriores ao Estado, têm direitos inalienáveis, tais como o máximo de liberdade pessoal e de bem-estar econômico em conformidade com as leis de Deus.

[6] O sol tem de nascer no levante; o homem deve realizar plenamente sa virtualidades de sua  personalidade. Dever é sinal de liberdade moral. Cf. Sheen, The Cross and the Crisis (Milwaukee:

Bruce).

É essa a concepção tradicional da origem dos direitos, que é hoje a essência do ensino social católico e o fundamento do americanismo. O americanismo, como o entendiam os Patriarcas de nossa Independência, é a expressão política da doutrina católica referente ao homem. Primeiro, seus direitos vêm de Deus, e, portanto, não lhe podem ser tirados; segundo, o Estado existe para preservá-los. “Consideramos evidentes tais verdades... que é dotado pelo Criador de certos direitos inalienáveis, entre os quais a vida, a liberdade e a ânsia de felicidade. Que para assegurar esses 103 direitos se instituem governos entre os homens, cujo justo poder emana do consentimento dos governados.”

O reconhecimento dos direitos inalienáveis da pessoa humana é americanismo ou, para dizê-lo por outras palavras, uma afirmação da dignidade e do valor inerentes ao homem. Isso não se refere à humanidade, mas a cada criatura humana; não à humanidade, mas a este homem; não ao homem em abstrato, mas ao homem em concreto. Como documento político, afirma o que o Evangelho afirma como religião: o valor do homem. Cristo morreu numa cruz por ele e instituem-se governos por sua causa. O homem é objeto de amor teológica e politicamente - a fonte de direitos inalienáveis e sagrados, pois quando devidamente protegido e salvaguardado, o homem concorre para a criação do reino de César: a ponte para o Reino de Deus.

A expressão exata do nosso problema hoje em dia não é o homem esquecido, enquanto homem faminto, mas o homem esquecido enquanto valor e dignidade humana esquecida. É de suma importância procurar apoio nessa elementar doutrina da origem dos direitos, para que se evitem dois perigos que ameaçam o americanismo: um externo e outro interno. Fora, o perigo está nos Estados totalitários que julgam que o Estado é a fonte de todos os direitos humanos.

Mussolini, por exemplo, declarou que o Estado “é o criador do direito”. [7] Se pusesse isso em prática, seguir-se-ia que os cidadãos fascistas só poderiam gozar dos direitos que o Estado concedesse.

Hitler esqueceu ainda mais os direitos humanos, pois, para ele, a fonte dos direitos não é o “Estado como organização econômica, mas como um organismo da raça”.

[8] Isso na prática significa que apenas os arianos têm direitos; daí a perseguição dos judeus.

Finalmente, há o fascismo soviético ou comunismo, onde não a nação como na Itália, nem a raça como na Alemanha, mas o Partido é a fonte de todos os direitos.

Por isso na Constituição Soviética lêem-se dez capítulos e cento e dezessete artigos sem se encontrar a menor menção de um direito, para então deparar-se com o primeiro direito mencionado: o direito ao trabalho. Sendo o Partido a fonte dos direitos, como na Rússia, segue-se que o Partido tem o direito de proscrever os dissidentes, tal como Hitler reclama o direito de exilar os não-arianos. O homem no nazismo, no fascismo e no comunismo não é entidade histórica, mas apenas um átomo social na expectativa de ser absorvido pela massa. Os únicos gênios que tais coletividades podem produzir são os santos: aqueles que desafiam a pretensão de César a ser Deus. Se Shakespeare vivesse na Rússia seria proscrito; se Jeremias vivesse na Alemanha seria perseguido; e se Washington ou Lincoln vivessem em qualquer desses Estados totalitários seriam reduzidos ao silêncio impotente, pois em tais regimes só sobrevivem os escravos. Os regimes totalitários adaptam o homem ao grupo, o que é tão nocivo como adaptar a cabeça de um homem ao chapéu. A liberdade consiste politicamente em libertar o homem da massa, não em submetê-lo a ela. 104

[7] Mussolini in Enciclopédia Italiana. Artigo "Fascismo".

[8] Hitler, Mein Kampf, pág. 165.

Nossa Constituição, conhecida como “Bill of Rights”, resguarda de tal modo os direitos do homem que as dez primeiras emendas que lhe fizeram protegem a soberania do povo contra os abusos dos poderes federais, e o art. 9o lembra-nos que se tais direitos são conferidos pela Constituição não se deve supor que sejam esses os únicos de que goza o homem. O perigo externo para os Estados Unidos reside na infiltração das ideologias fascista, nazista e comunista, que negam esses sagrados e inalienáveis direitos da personalidade humana.

Dentro do país, o perigo vem daqueles que de bom grado consideram a Constituição como simples expressão da mentalidade do século XVIII, já não adequada aos nossos tempos. Entre esses conta-se o escritor editorial do New York Times, que diz que a Liberdade e a Democracia são “a herança das Revoluções inglesa e Francesa”; [9] ou que a Constituição foi expressão do individualismo do

iluminismo; [10] ou que “cada tribo necessita de seu totem ou fetiche e a Constituição é o nosso”; [11] ou que “numa época em que a Razão é Deus, as constituições ou credos fundamentais são sempre consideradas como o resultado do pensamento racional elaborado pelos nossos antepassados”, e “a linguagem da Constituição é sem importância, já que representa os mitos correntes e o folclore”; [12] ou que precisamos nos desvencilhar da “incansável pesquisa da verdade universal”. [13]

Tais homens confundem o fundamento temporal de uma verdade com a própria verdade. É exatamente como se disséssemos que pelo fato de egípcios terem contado dois e dois servindo-se de pirâmides, agora dois e dois não mais equivalem a quatro porque não se contam mais pirâmides, mas arranha-céus. A doutrina dos direitos inalienáveis do homem, baseada no valor da pessoa, pode ser formulada durante os dias e em termos da linguagem do deísmo, do iluminismo ou do racionalismo, sem que isso faça com que a verdade expressa seja menos verdadeira.

A Constituição Americana e a Declaração da Independência são as expressões temporais da única base sólida sobre a qual se pode erigir qualquer governo: a soberania do povo mediante a afirmação dos direitos intrínsecos do homem. Se necessitássemos pesquisar as fontes imediatas da doutrina americana da dignidade humana, mais facilmente as acharíamos em Burlamaqui e em Victoria do que em Locke. O Dr. James Brown Scott, da Fundação Carnegie, oferece-nos esta interessante passagem histórica referente à próxima e provável origem da declaração de soberania de Jefferson. Robert Filmer deixou entre os seus manuscritos, quando morreu, em 1853, uma obra intitulada Patriarca, que foi publicada em 1680. Era uma defesa do direito divino dos reis e uma rejeição da doutrina da soberania do povo. Defendendo sua tese, Filmer atacava a posição  contrária, cuja melhor expressão ele ia encontrar no De Laicis do Cardeal Belarmino, assim relatada: “O poder secular ou civil é instituído pelo homem; está no povo, a não ser que este o outorgue a um príncipe. Esse poder reside imediatamente no povo todo como em seu sujeito, pois esse poder reside na lei divina; mas a lei divina não o conferiu a nenhum homem em particular... O poder é 105 conferido pelo povo a um ou mais homens pela mesma lei da natureza, pois a comunidade, não podendo exercer esse poder, está obrigada a outorgá-lo a um ou a alguns homens. Depende do consentimento do povo instituir sobre si um rei, um cônsul ou outros magistrados, e, se houver um motivo legal, poderá o povo converter o reino numa aristocracia ou numa democracia.”

[9] 17 de outubro de 1937.

[10] Carl Becher, “After Thoughts Constitutions”, in Yale Review, Spring, 1938. Para uma excelente refutação, cf. Thought, junho de 1938.

[11] Max Lerner, “Constitution and Court as Symbols”, in Yale Law Journal, Vol. 46 (1937).

[12] Thurman, W. Arnold, The Folklore of Capitalism (New Haven, Conn.; Yale University Press),

págs. 27, 29.

[13] Ibid., págs. 59-71.

Thomas Jefferson escreveu que “para assegurar esses direitos, são instituídos governos entre os homens, sendo-lhes conferidos seus justos poderes pelo consentimento dos governados”. Jefferson sabia e dizia que as idéias a que dera forma não eram propriamente suas; Jefferson possuía o Filmer em sua biblioteca.

Era costume seu marcar nos livros as passagens de que gostava. É interessante que a única passagem marcada no livro de Filmer foi a citação supra do Cardeal Belarmino. Conclui o Dr. Scott: “Se nos Estados Unidos devessemos ter um patrono - e em nosso caso um santo político - (a despeito de sermos protestantes), faríamos realmente bem em escolher o canonizado Cardeal Belarmino, que, estranho como pareça, tem talvez o maior dos direitos à gratidão do povo dos Estados Unidos, porque expôs e defendeu antecipadamente os princípios de governo que os Estados Unidos fizeram seus e sobre os quais assenta firmemente o seu governo”.

A Constituição dos Estados Unidos e a Declaração de Independência não são as fontes da doutrina do valor intrínseco do homem, mas tão-somente a sua confirmação. São simplesmente a sanção da doutrina tradicional e a afirmação de que esses direitos naturais são também direitos civis. Se desprezarmos o princípio fundamental de que o homem possui um valor intrínseco, e instituirmos, por exemplo, a classe como suprema, então só a classe terá o direito de sobreviver, e a

proscrição estará justificada; e então a consciência moral será substituída pela consciência de classe. Outra conseqüência: teremos um governo de homens sujeito a aberrações psicológicas em lugar de um governo de homens sujeito à lei que é a garantia da liberdade.

Contra esses perigos, dentro do país, nos premuniu Washington; e bom é relembrar mais uma vez a sua advertência: “Para a preservação de nosso governo e a permanência da feliz situação que desfrutamos, indispensável é não só firmemente desaprovar uma irregular oposição à sua reconhecida autoridade, mas também resistir com cuidado ao espírito de inovação de seus princípios, por mais especiosos que sejam os pretextos. Um dos métodos de assalto pode ser inserir na forma da Constituição alterações que venham a enfraquecer a energia do sistema, e assim solapar o que não pode ser diretamente derrubado. Todavia não permitam mudanças por meio de usurpação, pois, embora em dado caso possa ser o instrumento do bem, é a arma habitual com que os governos livres são destruídos. 106

Aberto tal precedente, os males daí advindos seriam sempre maiores e mais duradouros que os benefícios relativos e transitórios obtidos com tal medida.”

Já que a tendência do mundo moderno é para a absorção do homem pela coletividade; já que os homens hoje em dia são geralmente tratados como autômatos ou meios para um fim, o que mais precisa ser encarecido é a personalidade humana. A questão básica para o homem é dar fundamento a tudo em nosso caos político e econômico, e a todos os nossos planos, para a reconstrução social.

Que espécie de ordem vamos construir para o futuro? Será que vamos construir uma sociedade composta só de soldados, ou uma sociedade composta só de trabalhadores, ou uma sociedade que abrigue uma só raça; ou vamos construir uma sociedade que abrigue homens, isto é, seres humanos compostos de corpo e alma, súditos de dois reinos que se valem de um como ponte para o outro, completando assim seu destino em Deus, de Quem provieram?

Nenhum escravo pode jamais perder a esperança da liberdade. Nenhuma força pode jamais ter poder sobre o testemunho de uma esclarecida consciência enquanto sustentarmos a sacralidade da personalidade humana.

A qualquer um deve ser evidente esta posição: já que os nossos direitos e as nossas liberdades emanam de Deus, nenhum Estado no-las pode tirar; já que a alma é a fonte desses direitos e liberdades inalienáveis, nenhum poder terreno no-los pode tirar. Invertamos agora a proposição. Suponhamos que nos dizem que houve no mundo um país que não somente negava a existência de Deus, mas suprimia a religião de suas terras; suponhamos que nos dissessem que nesse mesmo país se negava que o homem tem alma, e, portanto, qualquer direito que pudesse chamar

seu; que sociedade iríamos encontrar? A escravidão! Essa sociedade é a que encontramos na Rússia, e coisa muito semelhante na Alemanha. Não há como escapar dessa verdade vital: a negação da alma é o começo de todas as tiranias e de todas as ditaduras. [14]

Ora, se a fonte dos direitos e das liberdades do homem deve ser encontrada em Deus e na alma, quem estará fazendo mais nos Estados Unidos para preservar a essência do americanismo ou a sacralidade do valor do homem? O nosso sistema atual de educação arreligiosa, que esquece Deus e dissolve o homem numa entidade química, estará fazendo qualquer coisa para preservar os direitos do homem? Porventura um sistema de educação que esquece que a instrução moral é

muito mais importante que a intelectual, e que o poder mental sem o poder da vontade é um mal racionalizado, estará fazendo qualquer coisa para preservar os direitos e as liberdades do homem? A educação religiosa, seja ela católica, protestante ou judaica, é o que mais está contribuindo para a preservação do americanismo, pois a religião e os direitos do homem andam de mãos dadas. O declínio da liberdade humana no mundo está na razão direta do declínio da religião. Religião e tirania crescem em razão indireta. Temos aí por que os países mais anti-religiosos são os mais anti-humanos. O nazismo e o comunismo sabem 107 que não podem controlar o homem e fazê-lo subserviente à raça ou à classe, enquanto não sufocarem a voz da Igreja que afirma que o homem tem direitos independentes de qualquer raça ou classe. Daí qualquer tentativa da parte da Igreja para nutrir espiritualmente os cidadãos, que necessitam de outro alimento que não as exterioridades do econômico, ser considerada “contra-revolucionária” como o foi na Espanha, ou “antinórdica” como na Alemanha, ou “reacionária” como na Rússia.

Se o Estado é o supremo objeto do culto a Deus torne-se culpado de crime de traição. A punição de tal “traição” converte-se em perseguição, pelo simples fato de o Estado possuir os instrumentos de força que podem compelir os fracos à obediência vergonhosa, ou impor aos fortes a morte gloriosa. Exatamente por causa dessa força bruta é que o México, a Alemanha, a Rússia e a Espanha baniram de suas terras os mais nobres de seus cidadãos - aqueles que mais amavam a Pátria, por mais amarem a Deus. O homem quer sempre ter um objeto de culto, e se o verdadeiro Deus for esquecido, alguém lhe forjará uma nova divindade. Essa nova divindade forjada na bigorna da política é o Estado moderno. Em outros tempos, Nabucodonosor não só pedia que sua estátua fosse adorada, mas que a um dado sinal cessasse a adoração de outros deuses. Nossos Nabucodonosores modernos apregoaram a mesma ordem: dai a César até mesmo o que é de Deus. A recusa significa o exílio ou a perseguição.

[14] Walter Lipmann, The Good Society (Boston: Little, Brown & Co., 1937), págs. 383 e segs.

Exista embora o Estado para o homem e não o homem para o Estado, o amor da Pátria, na concepção cristã, é uma forma da virtude de pietas.

O patriotismo, entretanto, vai-se tornando rapidamente uma virtude esquecida; muitos de nossos cidadãos consideram a liberdade apenas como o direito de fazer um discurso; a tolerância como indiferença ao bem e ao mal; o liberalismo como renúncia à tradição, às constituições e ao valor da pessoa; e a democracia como um chamariz para envolver os Estados no banditismo internacional.

O amor à pátria precisa de ser uma vez mais revivescido, pois do contrário pereceremos só pelo crime de nos termos recusado a amar. O patriotismo tem um aspecto negativo e outro positivo, não se podendo separar um do outro.

Negativamente, o patriotismo implicava uma forte oposição a todas as atividades antiamericanas.

Do primeiro desses pontos de vista, se tivermos de preservar o americanismo, devemos-nos lembrar que há não duas mas três ideologias antiamericanas: o comunismo, o nazismo e o fascismo. Para um americano a diferença entre as três é como a diferença entre roubo, furto e latrocínio. Todo verdadeiro americano sabe que não pode ser pró-comunista, pró-nazista ou pró-fascista sem ser antiamericano. Mas eis aqui o problema: como saber se uma organização é comunista, fascista ou nazista? A resposta é muito simples: uma organização genuinamente americana é o oposto de qualquer das três. Por isso, qualquer organização que condenar uma com exclusão das outras será pelo menos suspeita. 108

Por exemplo, se alguma organização disser que é imoral Mussolini estabelecer um Estado fascista na Abissínia, ou Hitler estabelecer um Estado nazista na Áustria, então deve também admitir que é imoral Stalin servir-se de seus agentes para instituir um Estado soviético nos Estados Unidos.

Qual dos três representa perigo maior para os Estados Unidos? Resposta clara não se pode dar, pois operam diferentemente. O nazismo e o fascismo atacam de fora, enquanto o comunismo ataca de dentro; o nazismo e o fascismo roubam nossa casa arrombando a porta de entrada. O comunismo rouba-nos depois de ter sido nosso hóspede por um weekend. Na medida em que os perigos internos estão em jogo, não resta dúvida que o comunismo é o mais perigoso. Sua tática é mais hábil.

Serve-se da linguagem não-revolucionária para atingir fins revolucionários.

A tática comunista nos Estados Unidos pode ser ilustrada por uma parábola: Certo dia uma dúzia de ratos entraram numa casa e comeram queijo, carne, presunto e bolachas. A dona da casa armou ratoeiras e apanhou seis deles. Os seis ratos restantes, receosos de serem exterminados, organizaram uma frente popular com um vendedor de ratoeiras, que disse à dona da casa que o seu maior perigo não eram os ratos, mas os percevejos; outra frente popular foi organizada com os professores, que disseram à boa senhora que as estatísticas demonstravam que naquele ano 60% das crianças na vila de Squedrenck perderam os dedos em ratoeiras; finalmente, os ratos formaram uma frente popular com alguns lideres sociais de tendências sentimentais, que disseram à dona da casa que se usasse ratoeiras se tornaria culpada do reacionário crime de “atormentar os ratos”. A pobre senhora, muito abatida por tão influentes paspalhões, largou de mão completamente as ratoeiras, e agora os ratos saqueiam livremente a despensa.

A moral é evidente. O comunismo cria o espectro do fascismo a fim de poder operar tranqüilamente, tal como faz o fascismo com o espectro do comunismo. Qual deles surgiu primeiro? Historicamente surgiu primeiro o comunismo, tal como se deu na Itália e na Alemanha. Não haveria no mundo hoje em dia nem Mussolini nem Hitler se não tivesse existido o comunismo, assim como não haveria ratoeiras se não existissem ratos. Se os americanos querem fechar ao fascismo as portas dos Estados Unidos, e todos nós o queremos, então o melhor que temos a fazer é conservar distante de nós o comunismo, que o gera por virtude da reação. Sabia o leitor que 19 governos da Europa proscreveram o partido comunista por causa de suas intenções revolucionárias? Tanto o fascismo como o comunismo estão baseados no espectro do medo: um no medo do “terror vermelho”, outro no medo do fascismo. Cair ou deixar de cair na garras de um deles depende de nossa credulidade; e, fato bastante curioso, os que mais foram enganados pela propaganda comunista nos Estados Unidos não foram os trabalhadores ou os pobres, mas as “classes cultas”, isto é, os que julgam que sabem, mas ignoram que não sabem. É mais fácil conseguir que um professor universitário se reúna a uma organização de frente comunista do que um pai de família desempregado. O comunismo cessou de ter uma atração para os trabalhadores: estão perto demais das realidades da vida para caírem no logro. Eis por que se voltou ele para as classes cultas que estão longe de serem tão hábeis. Supõem que somos um povo 109 perspicaz e inteligente, mas as organizações da frente comunista provam que muitos americanos podem engolir o anzol, a linha e o chumbo e serem manobrados não só de modo a defenderem os interesses comunistas através do mundo inteiro, mas também de modo a os ajudarem a criar a situação que desejam para o pleno êxito de sua estratégia revolucionária.

O patriotismo, porém, não é apenas a negação das atividades antiamericanas; é acima de tudo a afirmação do amor da pátria, como reflexo do nosso amor por Deus. Já é tempo de deixarmos de falar em nossas dores e aflições e começarmos a falar na felicidade de sermos americanos. Há três dons por que nos devemos sentir agradecidos.

1. Economicamente estamos em melhores condições que qualquer outra nação do mundo. Nos Estados Unidos, o homem que trabalha tem direito de fazer greve como protesto ao salário injusto, e contra o número de horas e as más condições do trabalho. Tal direito não lhe é concedido nas ditaduras. A Rússia proíbe a greve pelo art. 131, classificando-o como sabotagem cuja penalidade é muitas vezes a morte. A Lei Italiana de 3 de abril de 1926 e a Lei Trabalhista Alemã de janeiro de 1934, ambas referentes ao trabalho, concordam com a Lei Russa quanto a recusar ao trabalhador a concessão desse direito básico. Na Itália, o depósito bancário per capita é $47; na Alemanha $89; na Rússia $9,50; na América $423. Na Itália há 120 litros de leite para cada pessoa por ano; na Rússia 140; e nos Estados Unidos 380. Na Itália há utilizáveis em unidades de eletricidade 175 kilowatts-hora por pessoa; na Alemanha 550; na Rússia 190; nos Estados Unidos 900. Se todas as pessoas desses países preparassem as malas para mudarem-se no dia seguinte, quanta gente teria de andar a pé? Na Itália por um que seguisse de carro vinte teriam de andar a pé; na Alemanha por um que viajasse de carro dez teriam de andar a pé; na Rússia por um que seguisse de carro 150 teriam de andar a pé; e nos Estados Unidos há carros que chegam para transportar todos.

2. Politicamente, por muito temos que render graças. Note-se a diferença entre os regimes americano e totalitário: aqui nos Estados Unidos é o homem a fonte dos direitos; lá é a coletividade. Aqui o Estado existe para o homem; lá, o homem existe para o Estado. Aqui o Estado reconhece direitos humanos inalienáveis; lá, é o Estado que os concede - e desde que dá ao homem os direitos também os pode tirar. Aqui o Governo é distinto do Partido; lá, o Governo é o Partido, o que significa que não há direito de dissidência. Aqui a liberdade reside no homem; lá, a liberdade reside na coletividade; na raça como na Alemanha, na nação como na Itália, e na classe como na Rússia. Aqui o homem pode dar a De us o que é de Deus, e a César o que é de César. Lá, dizem, até a existência e a autoridade de Deus procede de César. Aqui um comunista, um nazista ou um fascista podem atacar o governo abertamente ou solapá-lo por dentro; lá, seriam condenados à morte por essa mesma ofensa. Aqui a consciência moral existe independentemente da consciência do Estado; lá, a consciência moral é abolida para ceder lugar à consciência coletiva. Aqui o homem tem um valor pessoal separado da massa; lá, é uma gota de sangue na raça, ou um dente na engrenagem de uma máquina, ou um 110 soldado num exército. Por este favor, mais que por todos os outros, devemos dobrar os joelhos e todos os dias agradecer a Deus a graça de sermos americanos.

3. Devemos ser agradecidos também pelo dom de nossa religião e pelo direito de adorar a Deus de acordo com os ditames de nossa consciência. O conflito do futuro não será entre democracia e ditadura, mas entre a religião do Estado e a religião de Deus. Duas das ditaduras já o deixaram bem claro: a Rússia e a Alemanha. Sabem que não podem possuir o homem de corpo e alma enquanto não banirem a religião, que afirma que a alma pertence não ao Estado, mas ao homem e a Deus. Convém mencionar aqui que o maior perigo com que se defronta a civilização é a presente união entre a Alemanha e a Rússia. Suas ideologias políticas são um tanto diferentes, embora não muito, pois a Alemanha é tal como um bife mal passado, tostado por fora, mas vermelho por dentro. Têm isto em comum; ambas odeiam a religião. Esse ódio é tão fundamental que diminui as outras diferenças de caráter político ou econômico. Pilatos e Herodes eram inimigos mortais, mas tornaram-se amigos no dia em que condenaram Jesus. Assim também Hitler e Stalin, que eram inimigos, agora tornando-se amigos se abraçam por cima do corpo do mesmo dilacerado e sangrento Cristo, tal como se unem pela mesma ímpia causa com o propósito de expulsarem a Deus da terra que criou. Os elementos de combate entre a fraternidade em Deus e a camaradagem no Antideus já existem em germe na atual situação do mundo. Quando vier a batalha, então a fidelidade dos homens será posta à prova; então sentirão os homens em seus corações a emoção profunda e recôndita do que agora é apenas um lema: “Por Deus e pela Pátria.” Não há como escapar dessa verdade; deixemo-la gravar-se profundamente em nosso espírito: a negação da alma é o começo de toda a tirania e de toda ditadura.

Se a democracia quiser sobreviver, terá de tomar conhecimento da religião. Porquê? Porque a democracia presume que os cidadãos agem sempre no interesse da justiça, da honestidade e da virtude. Mas justiça, honestidade e virtude são inseparáveis de uma consciência; e uma consciência é inseparável de uma lei moral; e uma lei moral é inseparável da religião com um legislador cuja natureza é a Bondade. Morra a religião no coração dos cidadãos, que as virtudes essenciais à democracia morrerão com ela. E daí? A democracia significará então o direito de escolher o que é mau e imoral; o direito destarte significará, não o que é realmente direito, mas somente o que é popular. Com todo o nosso palavreado sobre democracia, não esqueçamos que é possível que a democracia vote contra a democracia. O resultado dessa renúncia à religião e dessa adesão às frentes populares de ideologias estranhas será o caos e a injustiça entronizada. Para restaurar alguma espécie de ordem terá então o Estado de impor ao povo sua própria idéia de religião, e isso é o começo da tirania, pois o Estado arreligioso torna-se o Estado anti-religioso, e o Estado anti-religioso torna-se o Estado perseguidor.

Não esqueçamos que existem duas espécies de tiranias: não só a tirania da minoria, como na Rússia, onde menos de 2% da população pertencem ao Partido Comunista e controlam os outros 98%, mas também a tirania da maioria. Pode ser tão má 111 quanto a outra. Uma democracia que perde a religião pode ser tão intolerante para com as suas minorias quanto a ditadura sem religião.

O declínio do patriotismo nos Estados Unidos é devido ao declínio da religião.

Quando os homens deixam de amar a Deus, deixam também de amar o próximo.

Ninguém dá melhor prova disso do que Mateus, o autor do primeiro Evangelho.

Em certa época mostrou-se um cidadão tão impatriótico como jamais houve: o seu país foi invadido por uma potência estrangeira, seus concidadãos perderam muitos dos direitos civis e políticos - contudo acolheu em seu coração a potência estrangeira pelo mais baixo de todos os motivos, a cupidez do dinheiro. Tornou-se um publicano, isto é, um coletor a serviço dos romanos, não somente atraiçoando assim seus compatriotas, mas até furtando-os para enriquecer-se, mediante sujeição aos invasores. Um dia, quando coletava seus impostos e contava seus lucros, nosso Divino Salvador passou por ele. “Vem, segue-me”, disse ele a Mateus; e Mateus, sem outra promessa que não a paz que resplandecia na Divina Face, tornou-se um Apóstolo, um evangelista e um mártir. Veio a ser mais do que isso: o maior patriota dos Evangelhos. Seu Evangelho poderia chamar-se o Evangelho do Patriotismo. Mostra-se incansável ao descrever as glórias de seu povo, as tradições de sua terra e as profecias de seus triunfos espirituais. Vezes e vezes retorna ao passado, folheia as páginas de Isaías, Jeremias, Miquéias, Davi e os Reis; noventa e nove vezes, para ser exato, faz ele citações das páginas gloriosas de seu povo e as coroa todas com a comovedora mensagem: Sois um grande povo! De Israel vem o Salvador; de nossas nuvens vem o Messias; de nossa terra o Redentor. Salve! Cristo é vosso Rei. Foi um patriota porque encontrou o seu Deus. 112 113

Fulton Sheen

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