O PROBLEMA DA LIBERDADE (4)

COMUNISMO

Leva-nos isto ao segundo erro extremo referente à propriedade, isto é, o comunismo. O capitalismo só fala dos direitos da propriedade e esquece o seu uso, enquanto o comunismo só fala de seu uso e esquece os direitos. O comunismo aplica uma bajuladora unção em seu Chefe Vermelho que é o grande inimigo do capitalismo. Na realidade o comunismo reveste-se de todas as características más do capitalismo e deixa de lado as boas. Tanto o capitalismo como o comunismo concentram a propriedade; o primeiro, nas mãos de alguns financistas, o segundo nas mãos de alguns burocratas. O capitalismo nega à maioria o direito da propriedade produtiva; o comunismo nega-o a todos; o capitalismo faz da produção da riqueza material o principal fim do homem; o comunismo faz dela o único fim do homem; o capitalismo dificulta a posse da propriedade produtiva como proteção 49 da liberdade; o comunismo torna-a impossível; o capitalismo tolera o direito à greve; o comunismo proscreve-a como um “delito”; o capitalismo exerce direitos econômicos sobre os operários, determinando em grande parte o modo como devem viver; o comunismo exerce não só direitos econômicos mas até direitos jurídicos sobre os operários, determinando não só como devem viver, mas também como devem morrer e quando devem morrer.

O comunismo está certo apenas numa coisa: o seu protesto contra a concentração da riqueza nas mãos de poucos; está errado em sua reforma porque leva essa concentração a um tal ponto que ninguém possui os meios de produção senão o Estado, embora induzam os operários a crer que os possuem. Colocar toda a propriedade produtiva nas mãos da coletividade não é solução para o problema da propriedade. Entre os muitos defeitos do sistema, podem-se mencionar os

seguintes:

a) É difícil de perceber por que seriam os nossos problemas econômicos e sociais algo mais fáceis de resolver depois de uma revolução do que antes. Que uma revolução deva preceder o comunismo, embora nunca se mencione tal coisa nos discursos galanteadores dos agentes de Stalin feitos pelo rádio com o propósito de criar uma frente democrática, é não obstante o que se exige no Programa Oficial donde tiro esta citação: “Entre a sociedade capitalista e a sociedade comunista sobrevém um período de transformação revolucionária, durante o qual uma se transmuda na outra... Revolução proletária significa invasão violenta do proletariado nos domínios da propriedade... A conquista do poder pelo proletariado é a derrubada violenta do poder burguês, a destruição do aparelho do Estado capitalista (exércitos burgueses, polícia, hierarquia burocrática, o judiciário, os parlamentares, etc.). O despertar nas massas da consciência comunista, a própria causa do socialismo, exige uma mudança em bloco da natureza humana, que só se pode realizar no decurso da revolução. Por isso a revolução é necessária não só por não haver outro meio de derrubar a classe governante mas também porque é no decurso da revolução que a classe que se apodera do governo pode expurgar-se da escória da velha sociedade e torna-se apta a tratar com uma nova sociedade.” (Programa, edição de Nova York, 1936, págs. 34, 35, 36 e 52.)

Dizer que precisamos primeiro ter uma revolução e uma guerra civil entre as classes, com todo o seu derramamento de sangue e com todo o seu cortejo de ruínas, antes de podermos ter paz um dia, é exatamente o mesmo que dizer que antes de podermos gozar boa saúde precisamos ter pneumonia, febre tifóide, câncer e úlceras. No momento em que marido e mulher brigam, de nada serve dizer que, se lhes incendiarmos a casa e matarmos os filhos, eles viverão depois para sempre felizes. Numa sociedade tão complexa como a nossa, a revolução não teria o advento do comunismo, mas o retorno ao barbarismo. Assim se deu em Barcelona, na Hungria e na Rússia, e sem dúvida dar-se-ia o mesmo outra vez. A destruição é rápida, mas a reconstrução é lenta. Podemos destruir num dia o que levou séculos a fazer. As forças da destruição nunca vencem pela simples razão de que a construção tem um objetivo, enquanto a destruição não tem nenhum. Além de que, tudo 50 quanto as revoluções fazem de um modo ou de outro é transferir a pilhagem de um

grupo para o outro.

Entre os reformadores que têm advogado a revolução sangrenta e o ódio de classe, poucos há que tenham tido outro interesse além da pilhagem. Demonstra a história que os reformadores que fizeram os mais revolucionários projetos econômicos para a sociedade eram ou homens que não podiam dirigir seus próprios negócios, tais como Fourrier e Saint-Simon, ou então dependiam de outros para viver, tais como Karl Marx, o fundador do comunismo, que do dia em que partiu para a Inglaterra até à morte não ganhou nunca um simples centavo como trabalhador. Pouco admira que lhe dissesse sua mulher: “Karl, se você tivesse ao menos juntado algum capital em lugar de ficar escrevendo sobre ele, estaríamos agora em muito melhor situação.”

b) O comunismo esquece que não há magia nenhuma em transferir títulos de Propriedade de alguns capitalistas para alguns Comissários Vermelhos. Como a maior parte dos reformadores violentos, eles reformam uma coisa em vez de outra.

A verdade neste caso é que a causa de nossos males não está na propriedade, mas na pessoa que a possui; por isso, não haverá nunca uma transformação radical da sociedade se não houver uma regeneração espiritual nos indivíduos por meio de um renascimento da justiça e da caridade. Proscrevendo a religião, torna o comunismo tal empresa impossível. Pensar que, transferindo o domínio de toda a propriedade para as mãos de alguns Comissários Vermelhos, aboliremos a injustiça econômica, a avareza e a exploração, é o mesmo que pensar que, se registrarmos um carro no Estado de Illinois em lugar de o fazermos no Estado de Nova York, o carro não enguiçará nem esgotará a gasolina. A comunicação da propriedade não eliminou a avareza nem a injustiça, pois existe ainda alguma coisa a despertar inveja, isto é, o privilégio. A historia está ainda por registrar um só caso em que aqueles que se apoderaram do poder pela violência continuem a exercê-lo sem violência ou queiram espontaneamente abandoná-lo. Não será também lógico supor que, sendo a riqueza adquirida mediante a injustiça da confiscação, certamente não será distribuída por meio da virtude da justiça? Ladrões de bancos não se tornam filantropos quando de posse do fruto de sua pilhagem, nem assassinos jamais se notabilizaram na extinção das favelas ou no amor pelos pobres.

c) O comunismo não nos oferece nenhuma garantia de que os trabalhadores sejam mais beneficiados com as organizações dirigidas pelo Estado-proprietário do que com as dirigidas por proprietários capitalistas. O importante não é saber quem possui a propriedade, mas quem divide os despojos. É sempre esse o problema quando a administração está separada do domínio da propriedade. Pôr a propriedade toda nas mãos do Estado poderá abolir o direito de propriedade, mas não abolirá a cobiça. Assim apenas transfere-se a cobiça do proprietário para o privilegiado. Existe ainda alguma coisa a despertar inveja no comunismo: quem terá o privilégio de distribuir os despojos? A constante matança dos chamados “wrekers”, “trotskistas” e “inimigos públicos” na Rússia demonstra que provavelmente é mais difícil encontrar lá do que na América eunucos econômicos 51 tão isentos da paixão da riqueza que dêem a cada um o que lhe é devido. Em 1937,

cento e trinta e dois trabalhadores comerciais foram presos e julgados por roubo (Pravda, 20 de março de 1938; Izvestia, 3 de fevereiro, 5 de março, 14 de maio, 15 de junho de 1938) . Os fatos provam à saciedade que a situação dos trabalhadores não é melhor lá do que em qualquer outra parte: é pior. Todos os correspondentes de jornais que já estiveram na Rússia, e é legião o seu número, com exceção de Walter Durant, do New York Times, e dos propagandistas de Moscou a serviço de três diários de Stalin nos Estados Unidos, todos eles são concordes em dizer que a situação dos indigentes socorridos na América é muito melhor que a dos empregados na Rússia.

Ao testemunho de André Gide, de Sir Walter Citrine, William Chamberlin, Harold Danny, o correspondente do London Times, John D. Littlepag, John T. Whitaker e dezenas de outros, deve-se acrescentar agora o testemunho de um outro engenheiro americano, Edmundo J. Lowry, que acaba de regressar da Rússia.

Numa série de artigos sobre sindicatos, escreve ele: “Os trabalhadores russos não só estão entre os mais mal pagos do mundo, mas são também indubitavelmente os mais onerados com impostos.”

“Há inquestionavelmente um sistema de impostos diretos e indiretos mais amplo na União Soviética do que em qualquer outro país, e quase não se passa um minuto em que o cidadão russo - com exceção da alta camada dos burocratas favorecidos - não seja explorado pelo Estado, o superempregador, que possui e dirige tudo de modo tão absoluto que levaria a uma imediata revolução em qualquer país democrata.”

“A média dos vencimentos mensais na grande maioria dos trabalhadores russos oscila entre 90 e 350 rublos, ou seja de $1,35 a $15,25 por semana, considerado o poder aquisitivo do rublo como igual ao de 6 centímetros. Acharíamos bastante baixo esse padrão de salários e, como vou mostrar, quase insuficiente para conservar juntos corpo e alma, já nem se falando no vestuário.”

“Ademais, o trabalhador russo na realidade nunca recebe integralmente seus vencimentos. Todos os meses - os russos são pagos mensalmente e não semanalmente - cerca de 28% de seu salário são descontados para impostos diretos e para os chamados ‘empréstimos’. Esses impostos diretos são maiores que numerosos outros indiretos que o governo, em cada época de produção ou de distribuição, cobra sobre os lucros dos estabelecimentos particulares, que se não fosse isso poderiam pagar maiores salários, sobre os preços das mercadorias que de outro modo poderiam ser vendidas a preços mais baixos, e sobre qualquer outra forma de atividade.”

“Tomemos o tipo médio do trabalhador braçal russo que ganha 200 rublos por mês, ou $3 por semana, e vejamos quanto realmente recebe e o que pode comprar com esse dinheiro.” 52

“Cerca de 56 rublos são descontados do pagamento deste trabalhador da seguinte maneira: empréstimo do Estado, supostamente ‘voluntário’, mas desgraçado daquele que cria embaraços para pagá-lo, 10% ou 20 rublos; imposto sobre a renda, 3% ou 6 rublos; taxa de educação, a mesma quantia; seguro contra a doença, 1% ou 2 rublos; mensalidade sindical 2% ou 4 rublos; imposto especial para a manutenção da avaliação militar, 1% ou 2 rublos; tributação especial para a Espanha, a China ou alguma outra causa ordinariamente amparada pelos sovietes, 8% ou 16 rublos.” [10]

O salário mensal médio na indústria em larga escala era de 231 rublos por mês (a propósito, ao computar o salário médio a Rússia só considera 27 000 000 do número muito maior de trabalhadores que deve haver numa população de 170 000 000 de habitantes). Embora represente esse salário um aumento nominal de 400 por cento sobre os salários de 1926, durante esse mesmo período o preço da alimentação aumentou 1 000 por cento, o que significa que os salários reais eram consideravelmente menores que em 1926.

d) O planejamento da economia para uma produção de 170 000 000 num país onde todas as fábricas, as minas, os armazéns, as redes telefônicas, os hotéis, as estradas de ferro, as fazendas, os bancos, os hospitais, a lavanderias, as oficinas, creches, açougues, as grandes lojas, pertencem ao Estado, cria um problema de distribuição e consumo grande de mais para qualquer organização de planejamento no mundo. Nenhum indivíduo pode entregar-se à produção privada visando lucros, pois pela doutrina comunista isso é exploração.

Imagine-se o governo determinando o número de calças a fazer, o número de vacas para o corte, o de camisas a serem confeccionadas, o de navalhas a serem manufaturadas, o de chapéus a fabricar, seus tamanhos e cores, a quantidade que cada depósito do governo deve comportar. Imaginem-se todas as expurgações que se tornariam necessárias; todos os leiteiros que como os kulaks se recusassem a mungir vacas para o Estado, todos os fazendeiros que se recusassem a plantar cebolas para o Estado; todos os vendedores ambulantes que insistissem em fabricar os seus próprios artigos para vendê-los; todos os preços que teriam de ser fixados; todos os campos de concentração que teriam de ser preparados para os homens que insistem em chamar sua a sapataria que lhes pertence.

[10] Lowry, E. J., in Washington Evening Star, November, 28, 1935.

O slogan coletivista “de cada um conforme sua capacidade, para cada um conforme suas necessidades” soa bem em teoria, mas quem irá decidir qual é a capacidade de cada homem e quais as suas necessidades? A resposta será: Os burocratas. E quem manda nos burocratas? O Ditador. E que é a ditadura? Segundo Lenine: “A ditadura é uma autoridade apoiada imediatamente na força e não sujeita a lei alguma. A ditadura revolucionária do proletariado é uma autoridade mantida por meio da força sobre e contra a burguesia e não sujeita a lei alguma.” (Lenine, A Revolução Proletária, publicação do Partido Comunista, Londres, pág. 15.) 53 e) Planejamentos coletivos para qualquer civilização complexa em que nenhum cidadão possui propriedade privada produtiva resultariam no caos, como o demonstram os fatos.

1) Todos os açougues pertencem ao Estado. O Estado faz criação de gado bovino, de porcos e de carneiros, o Estado os abate, os retalha, e os vende. Moscou, que é mais bem abastecida que todo o resto da Rússia, projetou distribuir em 1938 trinta e uma libras de carne por ano para cada camarada, ou 2 1/2 libras por mês para cada pessoa, ou 1 1/3 de onça por dia, que é na verdade muito pouco num lugar onde todos são trabalhadores (Vetch Moskva, 7 de julho de 1938; Izvestia, 29 de março de 1938).

2) A 17 de maio de 1937, o Comissário do Povo para a Indústria Leve aprovou um Plano de Produção, para o ano de 1938, de 393 000 000 de pares de meia, o que, posto em execução, daria a cada cidadão uma cota pouco além de dois pares por ano. Quanto aos restaurantes, os mantidos pelo Estado são, naturalmente, em menor número dos que os de iniciativa privada. Na Inglaterra há uma mercadoria para cada grupo de 430 pessoas. Na Rússia há uma para cada grupo de 35 400. Isso explica as longas filas em frente aos estabelecimentos comerciais. Na verdade, quando alguém chega lá, verifica que muitas vezes não há legumes (Vetch Moskva, 14 de julho de 1938; Izvestia, 8 de julho de 1938; Pravda, 2 de fevereiro de 1938; Vetch Moskva, 14 e 25 de julho de 1938).

Na Univermag do centro de Moscou na primavera de 1937, as roupas feitas para homem eram limitadas a sete tamanhos; uma inspeção em 260 lojas na província de Voranezh revelou que em 69 não havia açúcar, em 49 não havia doces, em 36 não havia sal e em 26 não havia cigarros (Distribuição Comercial Soviética, cf.

Pravda, 17 de maio de 1938). Em 1938, segundo Tchourakov, chefe do Departamento de Restaurantes, “os restaurantes populares no decurso do ano de 1938 forneciam rações miserav elmente escassas” (Sovietskaia Torgovlia, n. 114, 1938). No que concerne aos transportes, não há número suficiente de auto-ônibus para manter o tráfego; de 815 auto-ônibus controlados pela “Mosautobus” somente 460 podiam trafegar (Pravda, 17 de janeiro e 7 de julho de 1938; Pravda, 28 de setembro de 1938).

O próprio diretor da fábrica de automotores Podoisk disse que “há defeitos em nossos motores que põem em perigo as vidas daqueles que os usam” (Pravda, 27 de abril de 1938). Toda vez que um camarada precisa de consertar o seu telhado tem de se dirigir a um artesão do Estado, apto a tal mister. Moscou reservou 120 milhões de rublos para a reparação das casas em 1938 (Pravda, 11 de julho de 1938), mas no ano anterior, incluindo dois meses do ano precedente, de 12 500 casas que necessitavam de reparos só 1 435 foram reparadas pelo Estado (Vetch Moskva, 22 de dezembro de 1937). É interessante notar que quando alguém recorre ao trabalho de alguns artesãos pré-revolucionários, para reparar as casas, o serviço é mais bem feito e em espaço de tempo mais curto do que se fosse entregue ao Estado (Vetch Moskva, 13 de julho de 1938) 54 A destruição da propriedade produtiva privada em favor da propriedade estatal não redunda, como pretende o comunismo, em benefícios maiores para os trabalhadores. Os economistas soviéticos gostam de assinalar que o custo da administração no comércio soviético eleva apenas de 11 por cento o preço das mercadorias no atacado, contra 25 por cento no mercado capitalista. Mas, na prática, não significa isso que a vantagem favoreça o comprador. De fato, ele só tem a perder com o comércio nas mãos do Governo: as mulheres perdem a emoção das “vendas”, pois não há competição quando o Estado possui tudo e Stalin é o vendedor por trás de cada balcão; praticamente não se fazem entregas de compras.

“Gastrônomo n. 1”, que é o maior estabelecimento de provisões de Moscou, entregava apenas 1,65% de suas vendas totais; entrega diária de pão, leite, etc., às residências particulares, é coisa jamais vista; além disso, verifica-se um decréscimo na escolha dos artigos.

f) Esquece o comunismo que propriedade coletiva de riqueza produtiva significa a destruição do interesse e iniciativa pessoal, pois, como disse Aristóteles: “Aquilo que está aos cuidados de todos, não está aos cuidados de ninguém.” Na Rússia as fábricas pertencem aos trabalhadores tal como na América nos pertencem os parques, mas quantos americanos vemos nós saírem para seus parques segunda feira pela manhã, levados pelo amor à terra, para recolherem os refugos rançosos do piquenique da véspera? Nenhum homem cuidará com diligência e carinho senão de sua propriedade. “Você não faria isso em sua própria casa”, é expressão cheia da mais profunda compreensão da natureza humana.

Stalin percebeu que, quando rouba o gado e os cavalos dos camponeses, não é mais com o mesmo cuidado que eles os tratam. “Em 1928”, disse Stalin, “possuíam os camponeses 307 milhões de cabeças de gado, vacas, novilhos, carneiros, cabras e porcos”. E desde a coletivização forçada da produção das fazendas em 1938 tal número ficou reduzido apenas à metade (Bolchevik, n. 7, 1938). Stalin fez alguma concessão aos camponeses: podiam agora ter uma vaca - mas não um cavalo (Izvestia, 18 de fevereiro de 1935). A renda do lavrador russo é apenas de 12 libras de trigo por dia (ou meio rublo) (Izvestia, 2 de abril de 1938). Os fazendeiros mais bem sucedidos ganham 280 rublos por ano (Visti, 12 de fevereiro de 1938), o que é exatamente o preço de um par de sapatos. O Pravda de 4 de dezembro de 1937 descreve um “milagre” verificado em Kertch, na Criméia. Os cidadãos dessa cidade nunca encontravam os artigos de primeira necessidade nos estabelecimentos do Governo. Um belo dia, porém, indo fazer suas compras, viram todas as espécies de peixes, frutas, legumes, numa abundância tal, que não foi necessário fazer fila para esperar pela vez. Este “milagre”, pois como tal o explica o Pravda, foi logo esclarecido. O Comissário do Comércio parou em Kertch e forneceu todos os abastecimentos durante sua visita para que não tivesse de ouvir queixas. No dia seguinte tudo voltava à “normalidade”.

Desde que a coletividade se torna o único possuidor dos bens de produção de toda espécie, pode bem fazer o que lhe aprouver com os indivíduos. Uma vez que começamos a receber do Estado nossos empregos, nossa educação, a alimentação, o trabalho, o vestuário e a moradia, não se precisa senão de algumas visitas da 55 polícia para passarmos a receber as nossas idéias do Estado, o que será o fim da liberdade.

O defeito fundamental do comunismo é este - a destruição da liberdade. O poder segue-se à propriedade. Ponham-se todos os bens da produção nas mãos do Estado e ter-se-á arrancado a liberdade da alma do homem. Encorajam-se os filhos a denunciar os pais que criticam o comunismo. Em lugar de se envergonharem dessa falta de amor pelos pais e do direito de um pai dissentir de um governo opressor, Mikoyan, na revista oficial Partiinoie Stroitelstovo, 15 de janeiro de 1938, vangloria-se de que “tais atos não são possíveis em nenhum país capitalista, mas

vemos muitos deles por aqui”. Ocupar um cargo que corresponde a ministro de Estado nos Estados Unidos é realmente perigoso. Em 1938, foram fuzilados 15 ministros (Comissários do Povo) sem contar centenas de outros nas Repúblicas Federais; 11 ministros da Agricultura em 1937 nas Repúblicas Federais juntamente com Schernov, o ministro da Agricultura da República Soviética; foram ainda fuzilados dois auxiliares de Litvinoff (Finkelstein), Kretinsky e Karakhan. Quatro auxiliares do ministro da Defesa, dois marechais do Exército, o subsecretário da Marinha, o subsecretário do ministro da Aeronáutica e cinqüenta e cinco generais e almirantes encontraram a morte nessa “terra da liberdade e da democracia”, em 1938. Não admira que todas as resoluções do Partido Comunista tenham sido aprovadas “unanimemente”.

Se alguém quiser provas concretas de que não existe liberdade sob o regime comunista: a) experimente remeter para a Rússia uma assinatura anual de qualquer jornal americano, do Atlantic Mont hly, do Harper’s ou do Times, a uma centena de camponeses ou trabalhadores que não sejam membros do Partido Comunista; b) ofereça aos delegados de Stalin nos Estados Unidos pagar-lhes a passagem para a Rússia, com a condição de abandonarem sua cidadania americana e de irem viver num regime semelhante ao que querem implantar nos Estados Unidos. Nenhum deles aceitará. Preferirão permanecer nos Estados Unidos, que eles estão procurando destruir, a irem viver no “Paraíso” que a sua filosofia de luta de classe criou. É esta a verdade: são comunistas enquanto obrigados a viver sob o comunismo; fora de lá querem ser americanos.

Entre esses dois extremos está a posição da Igreja Católica, que contra o capitalismo afirma a função social e a responsabilidade da riqueza e contra o comunismo, o direito de possuí-la pessoalmente como fundamento da liberdade.

Passa-se com a propriedade, como assinalou Chesterton, exatamente o mesmo que com o sexo: está sujeita a ser também mal interpretada. Assim como o mundo moderno só compreende o amor pelo aspecto do sexo, do mesmo modo só compreende a liberdade pelo prisma do dinheiro, isto é, alguma coisa que é imediatamente consumida e proporcionou um prazer momentâneo. Birth control é a limitação artificial da fecundidade do amor, como o bolchevismo é o aniquilamento artificial da fecundidade da propriedade. Desde o inicio o amor e a propriedade têm sido considerados pelo espírito moderno como coisas só para se gozarem, ao passo que ambos foram criados para assegurar a perpetuidade e para 56 produzirem fruto, sendo o prazer e o gozo meramente acidentais. No birth control e no comunismo o homem é apenas um consumidor, não um produtor. A destruição da vida da família forma, portanto, um todo único com a destruição da propriedade: um repúdio do fundamento da posteridade, da segurança e da liberdade. Uma prova desta tese é que a Rússia, que destruiu a vida da família em nome do trabalhador, destruiu a propriedade em nome do comunismo. “Todo o sistema foi organizado com o objetivo de encorajar ou compelir o trabalhador a gastar o seu salário, de modo que nada lhe sobrasse por ocasião do pagamento seguinte: em suma, a gozar de tudo, e só tremer ao pensar num crime: o crime de ser previdente e econômico. Era uma suave extravagância, uma espécie de dissipação disciplinada, uma prodigalidade humilde e submissa. Deixasse o escravo de esbanjar em bebidas todo o seu salário; começasse a entesourar ou esconder qualquer propriedade, e estaria economizando alguma coisa com que posteriormente poderia comprar a sua liberdade; começaria então a ter alguma importância no Estado, isto é, tornar-se-ia menos escravo e mais cidadão. Têm eles, porém, um art. 131 de sua Constituição exatamente para atender a tal eventualidade. O homem que armazena os bens individuais de produção é chamado de ‘inimigo do povo’.”

A compreensão exata tanto do amor como da propriedade implica uma distinção entre direito e uso. Em ambos, o direito é pessoal, isto é, o direito ao corpo de alguém e o direito à propriedade (embora seja o primeiro mais fundamental). Mas em ambos o uso é social, a fim de ficar assegurada a posteridade através da família, e mantida a liberdade através da segurança. A não consecução desses objetivos sociais só pela simples razão do prazer pessoal é um mal.

O divórcio entre o direito e o uso é o começo de toda a irresponsabilidade. O radical que julga que direito à liberdade de pensamento significa poder usá-la até destruir esse direito, aniquila a democracia, do mesmo modo que o marido e a mulher que divorciam o sexo de sua função aniquilam a família, e que o capitalista que separa o direito à propriedade de sua responsabilidade social aniquila toda a nossa estrutura econômica.

Ao bater-se pela restauração da propriedade, não pretende a Igreja que se destruam as grandes indústrias, de modo que cada qual venha a tecer seus próprios tapetes, a moer seu próprio trigo, a coser sua própria roupa ou a criar carneiros em seu próprio quintal. Essa fraquíssima réplica à posição da Igreja supõe que a Igreja afirma que uma coisa é imoral só por ser grande. Erram aqueles que dizem ser impossível uma mais larga difusão da propriedade privada por serem os Estados

Unidos um país industrial. Julgam que uma mais larga difusão da propriedade é incompatível com o industrialismo. Na realidade, pode até ser mais fácil de ser distribuída devido aos estreitos laços que ligam o operário à sua indústria. A imoralidade das grandes concentrações de propriedade reside na irresponsabilidade, quer sejam pequenas, quer grandes. Nem tampouco com a mais larga distribuição da propriedade pensa a Igreja dizer que todos devam ser agricultores, ou que as terras devam ser repartidas pelos desempregados. Uma vez que a propriedade significa domínio e controle, pode haver uma distribuição da 57 propriedade no regime das sociedades anônimas que ofereça aos homens uma oportunidade de sobreviverem economicamente sem exercerem sobre elas um poder injusto. Mais concretamente, significa que o capitalismo deve distribuir a propriedade, e, portanto, o controle não só pelos acionistas, mas também pelos trabalhadores, que realmente fazem mais para criar a riqueza social que aqueles que apenas se dão ao trabalho de destacar cupons.

Na organização atual, a sociedade anônima controla os trabalhadores, mas o trabalhadores não controlam de modo algum a sociedade. “Eu podia ganhar mais $75.000,00 por ano neste negócio”, dizia o presidente de uma dessas sociedades, “se os meus trabalhadores quisessem tomar maior interesse em meu negócio”. Ao que lhe responderam: “Por que não lhes dá mais $25.000,00 por ano para conseguir isso, e não se contenta com $50.000,00?” Os trabalhadores gostam de se espreguiçarem nos bancos de outrem, mas não estão dispostos a se espreguiçarem os seus. O único meio de fazê-los tomar interesse pelo capital é dar-lhes algum capital a defender; então em vez de 40 000 homens trabalhando para uma sociedade anônima, haverá 40 000 homens trabalhando com uma sociedade anônima. É uma lição rudimentar da natureza humana; em educação, o meio de lidar com um jovem recalcitrante é colocá-lo num cargo de autoridade, e o meio de fazer os trabalhadores sentirem-se responsáveis é torná-los responsáveis. Por outras palavras, satisfazer o natural instinto de governo no homem, dando aos trabalhadores, como o Santo Padre preconiza, alguma participação na sociedade. O proprietário destruirá assim seu próprio domínio sobre as demais pessoas, porque a responsabilidade estará dividida.

Presentemente, temos o poder do crédito contraposto ao poder da organização, o que é por nós chamado a luta entre o Capital e o Trabalho. Jamais teremos paz enquanto cada qual erguer os punhos em ameaça. Capital e Trabalho têm muito de marido e mulher, no sentido de que um é o complemento do outro como base da sociedade. Não é exato dizer que o marido tem sempre razão, ou que é a mulher que sempre a tem, assim como não é exato chamar aos capitalistas de “realistas econômicos”, ou aos trabalhadores de “chantagistas”. Nenhuma classe terá razão só pelo fato de ser classe. A solução americana é a cooperação, a camaradagem e a fraternidade, e só se conseguirá isso promovendo sua união por amor ao bem comum. Que viria a acontecer aos Estados Unidos, na próxima geração, se resolvêssemos todas as nossas disputas econômicas? Não podemos continuar a pensar que o capital é uma coisa e o trabalho uma mercadoria. Há pessoas e não coisas em ambos os lados da contenda. Por que estão eles disputando? Por que estão os trabalhadores revoltados contra o capital? Porque o controle da indústria se encontra em mãos de homens que não trabalham para a indústria, embora seu dinheiro esteja trabalhando para ela. Seu dinheiro, porém, assim como os seus estoques, não assumem a importância que têm as pessoas a serviço da indústria, pois o valor do uso é superior ao valor de troca. Os trabalhadores de hoje sentem o mesmo que os maridos cujas esposas são governadas pelo vizinho do lado; revoltam-se porque existe um divórcio entre eles e os seus instrumentos de trabalho, ou entre as suas pessoas e as suas indústrias. Isso não agrada aos homens, tal como não é do agrado do artista pintar na parede que não lhe pertence. 58

Quer este que o quadro lhe pertença depois de pronto, e por isso protesta contra um estado de coisas em que o quadro lhe pertence e a coisa em que ele se acha pintado é de propriedade de outrem. Por haverem os trabalhadores se apercebido que perderam o controle e a responsabilidade, os atributos da liberdade, e porque há uma separação entre seu trabalho e seus instrumentos é que protestam, e protestam com razão. A solução não é organizar-se a fim de alcançar o poder do trabalho contra o poder do capitalismo, nem esperar simplesmente pela redução do número de horas de trabalho, por salários mais elevados ou por leitos em hospitais, mas obter liberdade e independência mediante participação na propriedade da indústria em que trabalham. Significa isso a restauração da propriedade, não com direito de fazer de uma coisa o que bem se quiser, mas a propriedade enquanto domínio sujeito a controle, como último e sólido baluarte de homens livres num país livre.

O capitalismo açambarcador defronta-se com três alternativas:
1) será taxado pelo governo de maneira mortal, aumentando este a dependência de seus cidadãos

mediante esmolas burocráticas;

2) será, a seu pesar, destruído, por meio da luta de classe;
3) de bom grado dividirá com o trabalho o controle e a responsabilidade, com um conseqüente renascimento do prazer e do orgulho do trabalho criador na restauração da liberdade. Tornar-se-á, assim, a propriedade a arte da democracia, ou o direito concedido por Deus a cada criatura de conformar alguma coisa à sua própria imagem, como o oleiro conforma o barro, o jardineiro o

jardim e, podemos acrescentar agora, como o trabalhador conforma capital.

O capitalismo, o comunismo e o catolicismo encontram seus símiles nesta passagem do Evangelho de nosso Divino Salvador: o extremo do liberalismo e do capitalismo monopolista está ilustrado no relato da visita de Jesus Cristo ao país dos gerasenos (São Marcos, V, 1-20).

Havia naquele país um jovem possesso do espírito imundo que habitava nos sepulcros e que ninguém conseguiu subjugar, nem mesmo com grilhões.

Despedaçou várias vezes os grilhões e as algemas, e costumava vaguear pelas montanhas e em redor dos sepulcros, gritando e contundindo-se nas pedras. Jesus Cristo aproximou-se dele e disse: - “Espírito imundo, sai deste homem”. Saindo do jovem os espíritos imundos entraram numa vara de porcos, e os porcos em número de quase dois mil precipitaram-se no mar com grande violência e no mar se afogaram. Vendo isto, os donos dos porcos vieram ter com Jesus e viram o jovem ao lado d’Ele, agora já curado, bem vestido e em plena posse de suas faculdades. Os gerasenos nenhum interesse tinham pelo jovem, mas só pelos seus porcos. Por isso disseram a Jesus para sair de suas terras. Vertendo a linguagem dos gerasenos em nossa linguagem industrial moderna, a resposta do capitalismo ao cristianismo formula-se como segue: “Se vieste aqui pregar a dignidade do homem e o salário vital; e ocasionar assim a perda de nossos lucros; se julgas que a restauração do homem em sua humanidade vale mais que a propriedade, então sai de nossas terras.” Estavam os gerasenos muito mais interessados nos porcos do que no homem; mais perturbados com a perda de alguma parte de sua riqueza material do que com a restauração dos direitos e da dignidade humana. Tornaram-se assim o 59 símbolo, em nossos dias, daqueles para quem os lucros têm mais alta significação que os direitos humanos.

Uma outra narrativa do Evangelho serve de ilustração ao comunismo ou de como pode o homem ser escravo não só da riqueza ou do interesse individual, mas também do interesse coletivo. No exemplo acima, o homem vale menos que os lucros; neste, vale menos que a coletividade ou o Estado. Pouco antes de ser Jesus Cristo crucificado, Caifás, o Sumo Pontífice daquele ano, disse aos fariseus ser preferível que Jesus Cristo morresse a que fosse abalada a segurança do Estado, da nação ou da coletividade. Não se indagava se Jesus era condenado por ser culpado de alguma falta moral para com o Seu próximo; era, ao contrário, a nação ou a coletividade que se reservava o direito de aniquilar a personalidade humana no interesse da coletividade.

Jamais entrara na cabeça de Caifás que o homem tem direitos inalienáveis que ninguém lhe pode tirar - nem mesmo o Estado. Só lhe interessava saber que a pessoa humana nada vale em face do poder do partido. Exprimindo isso em nossa linguagem moderna, os partidos da Alemanha e da Rússia diriam: “Que morram os homens de bem, mas que não pereça o Partido. Se qualquer homem afirmar que tem liberdade de consciência, ou direito de pregar que a religião está acima do culto

do Estado, ou ainda se qualquer homem insistir que tem direitos independentes do Partido - então seja ele proscrito; se qualquer Igreja afirmar que o homem tem direitos e que está pronto a dar a César o que é de César, mas insistindo em dar a Deus o que é de Deus, então que morra, pois não existe outro Deus além de César.”

Negando ao homem de bem ter qualquer direito a viver independente do Estado,tornam eles o homem inteiramente sujeito ao Estado, tal como os gerasenos tornavam o homem inteiramente dependente da propriedade.

Entre outras causas, foi o poder econômico e político que levou Jesus Cristo à Cruz;o poder econômico egoísta, como se deu com os gerasenos, e o poder político egoísta, como se deu com Caifás. Convidaram Jesus a descer da Cruz, para assim zombar de Sua sujeição a esse poder econômico e político. E ele recusou-se a descer! Por quê? Porque se tivesse usado de Seu poder, teria destruído a liberdade deles. Não queria ele o tributo servil de escravos dependentes, mas o amor gratuito que emana da liberdade. Recusando-se a fazer o Poder competir com o poder, conservou Sua liberdade - conservou livres tanto Sua alma como Seu corpo.

Conservando Sua alma livre - podia assim encomendá-la às Mãos de Seu Pai Celestial; conservando Seu corpo ou Sua propriedade livre podia assim no-la dar.

Foi essa a primeira e uma espiritual Declaração de Independência; o homem-Deus que conservou Sua alma livre devolveu-a a Deus. A segunda Declaração de Independência escrita sob a sua inspiração foi a declaração política que proclamou que o homem tem direitos independentes do Estado. A terceira Declaração de Independência está ainda por escrever - a independência econômica na qual o homem espiritual se esteia no que lhe pertence, porque tem alguma coisa que chama de sua. É esta a liberdade que a Igreja Católica reclama para o trabalhador. 60 61

Fulton Sheen

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