O PROBLEMA DA LIBERDADE (1)

doutrina social da Igreja

1. OS DIREITOS DA RELIGIÃO

Qual a relação entre a religião e os negócios públicos?

A uma pergunta foram dadas duas respostas diversas no século passado, ambas erradas:

1) a religião é estranha aos negócios públicos;

2) a religião é inimiga dos negócios públicos.

1. A época do liberalismo julgou ser possível servir a um tempo a Deus e a Mammon. A religião era tida como uma espécie de luxo sentimental a que o homem se podia apegar se assim o quisesse, mas que devia ser mantida num compartimento separado da ordem econômica e política. Seis dias da semana eram dados ao homem para ganhar a vida; um dia por semana devia ser concedido ao repouso. Se, em vez de repousar, um homem desejasse “Ir à igreja”, isso só era de sua conta; mas sob condição alguma devia ele levar consigo sua “igreja” para o trabalho na segunda-feira pela manhã. A religião era considerada um assunto “particular”; os negócios eram “públicos”: Daí não ser considerado de bom tom trazer o assunto de religião a um jantar, embora se pudessem discutir à vontade as idéias políticas do vizinho ou mesmo sua consciência. A política e a economia eram terrenos em que cada qual devia decidir por si, tivesse ou não razão, e qualquer tentativa da parte da Igreja de sugerir princípios morais que governassem esses domínios era encarada como injustificável intromissão. A religião era qualquer coisa que se traz consigo, que se veste, como um terno de roupa, mas não uma parte integrante da vida, tal como ver ou ouvir.

Criou-se assim uma atitude mental em que se supunha que o grande ato redentor do Calvário não tinha significação alguma para a ordem social. A alma convertia-se num insignificante subúrbio da cidade chamada Negócio. Se a política e a economia não interferiam na religião, argumentava-se, por que deveria a religião interferir na política e na economia? A liberdade religiosa era assim adquirida na suposição de que devia abster-se da ordem secular. Tornava-se a religião uma área delimitada da vida, isolada de qualquer contato com o temporal e qualquer tentativa da parte da religião de introduzir considerações éticas ou morais nos negócios era considerada abusiva, como se a virtude da justiça fosse qualquer coisa que se pregasse do púlpito num domingo, mas que não devesse ser praticada numa fábrica a segunda feira.

O mundo admitia de bom gado que a religião pudesse revelar ao homem seu Deus estava para com a astronomia de Newton. Como Newton pôs o universo debaixo da lei, presumiram os newtonianos que Deus não era mais necessário para explicar a ordem e a harmonia das esferas, como se a descoberta de uma lei abolisse a necessidade de um Legislador. Newton trouxe Deus até seu universo para explicar duas irregularidades que não se podiam ajustar 6 em sua lei, a saber: Por que certas estrelas fixas não caem e por que certos astros, girando em diferentes órbitas não colidem. Tornava-se assim Deus um meio cômodo de explicar irregularidades que a ciência não podia ainda esclarece, um remendão cósmico qualificado andando de um lado para outro a tapar os rombos do universo newtoniano. De modo semelhante permitia-se que Deus cuidasse das irregularidades do universo político e econômico, isto é, Ele e Seus crentes podiam fazer o serviço de ambulância para os pobres, os indigentes e os aleijados, que a ordem política e econômica não tinha ainda meios de atender. Mais tarde, com o progresso e a ciência, mesmo essas irregularidades desapareceriam e não se necessitaria mais da religião. Desse modo era a religião relegada para um lugar retirado do mundo; uma catacumba onde os homens podiam ir repousar; mas só depois de terem lavado as mãos dos negócios. Chegava-se quase a pensar que o homem que ia à igreja era diferente do homem que ia ao trabalho, ou que o homem, como criatura política e econômica, tinha escapado de algum modo miraculoso à queda do homem. O resultado dessa separação entre a religião e os negócios públicos era impedir a religião para uma posição de crescente alheamento dos negócios públicos. “Eu não incomodo a Igreja, por que razão haveria ela de me incomodar?” tornou-se o falacioso refrão para justificar o divórcio de duas coisas destinadas a serem tão inseparáveis como a cabeça e o corpo. 2 Essa atitude mental de afastamento da religião dos negócios públicos levou ao segundo período mais contemporâneo, no qual a religião é considerada inimiga dos negócios públicos. A transição é algum tanto natural, pois dizer que a religião é impertinente à ordem social vale o mesmo que conceder à irreligião predomínio na ordem social. Deixar a religião fora dos negócios públicos não é como deixar o azul fora de uma colcha de retalhos; é como arrancar os olhos fora da cabeça. A cegueira é a conseqüência da doutrina de que os olhos são desnecessários à vida; a desavença é a conseqüência da doutrina de que o mútuo amor é desnecessário às relações entre marido e mulher; a violência, a desordem, o derramamento de sangue são a conseqüência da doutrina de que a justiça é estranha à ordem econômica. De modo semelhante, deixar a religião fora da ordem social não é a negação de alguma coisa indiferente; é a privação de alguma coisa indispensável. Deixar fora da ordem secular a justiça, o amor, a caridade, os direitos humanos, os deveres, todos os quais pertencem. à religião, é como deixar a alma fora do corpo. Deixar a alma fora do corpo não é ficar com o corpo sem alma, é a morte; deixar a religião fora da sociedade não é ficar com uma civilização secular, é o caos. Demonstra a história que, se uma sociedade ignora a religião, nunca se transforma exatamente em uma sociedade irreligiosa; torna-se anti-religiosa.

A vida é apenas a soma das forças que resistem à morte, e uma vez terminada a resistência a essas forças contrárias começa o desaparecimento. Do mesmo modo, no mesmo instante em que se nega à religião o direito de interferir na ordem política e econômica, apodera-se destas a anti-religião. A ordem secular nunca vive no vácuo: nem mesmo neutra pode ser; se os cidadãos de um Estado abandonaram a religião e o seu dever de dar a Deus o que a Deus pertence, imediatamente julgará César que até Deus recebe Sua autoridade de César. É então permitido a qualquer propagandista barato de Moscou ou Berlim pregar o seu ateísmo ou o seu racismo, enquanto o homem de Deus que prega a justiça e a caridade é tido como um inútil 7 intruso. O ódio de classe é o mau fruto do desprezo da caridade; a desonestidade em política é a triste herança do desprezo da justiça; o comunismo na vida nacional é o resultado do desprezo da redenção e do amor fraterno. O mundo comete um grave erro ao pensar que pode deixar a religião fora de sua norma de procedimento nacional e continuar a ser o mesmo mundo de antes. Seria isso verdade se a religião não passasse de um acidente da ordem social como as corridas de cavalos, e não a soma das virtudes que condicionam a justiça e a paz. A casa vazia será, afinal, a casa arruinada e a sociedade a- religiosa será, afinal, a sociedade anti-religiosa. A religião que não interferir na ordem secular logo descobrirá que a ordem secular não se absterá de interferir nela, assim como a mãe que se abstém de corrigir os seus filhos desobedientes verá breve os filhos a corrigi-la. O mesmo mundo que há vinte anos aceitava ser a religião desligada da economia e da política, é o mundo que hoje hostiliza a religião. Não é bem porque a violência, o ateísmo, o racismo sejam conseqüentes ao declínio da religião, como o castigo se segue ao ato de desobediência; é antes porque são eles inseparáveis, como um lírio podre e seu desagradável odor, ou a semeadura e a colheita.

Se o camponês não plantar trigo, não ficará estéril seu campo no outono; cobri-lo-ão as ervas daninhas. Deixai os homens crescer sem cuidarem se sua alma pertence a Deus ou a César, e, antes que eles o saibam, César os possuirá de corpo e alma.

Chama-se isso totalitarismo ou teoria estatal, que diz que o homem todo pertence ao Estado. Tal regime deve necessariamente perseguir a religião, pois para possuir o homem ele tem de desprezar a religião que afirma que o homem tem direitos independentes do Estado. Em princípio, uma filosofia totalitária que nega valor à pessoa humana fora da raça ou da classe, é necessariamente anti-religiosa. O totalitarismo tem de agir assim se quiser sobreviver, pois nunca poderá possuir inteiramente o homem enquanto não alijar a Igreja, que diz que o homem não pertence inteiramente ao Estado. A Igreja opõe-se a tal absorção do homem pelo totalitarismo e por esta razão é perseguida. Uma vez que o Estado inclui a religião sob a política, toda e qualquer atividade religiosa da parte da Igreja passa a ser encarada como uma interferência política. O totalitarismo é errado não por ter um ditador, mas porque o ditador está dispondo até da alma do homem, ao fazer da pessoa um meio para um fim, do homem um aspecto econômico do Estado, ou uma gota de sangue do organismo político, ou um operário do Estado-fábrica. Quanto mais insistir a Igreja em seu direito à alma do homem tanto mais será perseguida; eis por que tem ela sido chamada “reacionária no México”; “anti-revolucionária” na Rússia; “política” na Alemanha; “contra-revolucionária” em Barcelona. César crucificará o Cristo sempre que César julgar que ele próprio é Deus.

O que se dá no mundo moderno é apenas uma repetição do que aconteceu no começo da era cristã. A princípio o Filho de Deus é ignorado como um estranho ao mundo, para depois ser perseguido. 8

A principio Ele foi considerado como um estranho ao mundo que veio salvar. “Ele veio para o que era seu, e os seus não O receberam.” Ele não foi abertamente rejeitado; foi apenas ignorado. Não houve violência alguma contra Ele quando Sua Mãe batia de porta em porta pela cidade de Belém. Simplesmente “não havia lugar”. Afinal de contas, que relação teria a religião com a economia, e que relação teria Deus com o mundo? Os homens estavam então demasiadamente ocupados com seus cofres, com suas contas e com seus impostos para se incomodarem com o Criador, exatamente como agora estão ocupados de mais com seus negócios e suas dissensões políticas. Ele pode vir ao mundo, se quiser, mas que Ele próprio encontre lugar para Si. Aqui não há lugar. A fim de melhor dar a entender que o homem havia rejeitado o seu Criador, Ele é expulso da cidade para os montes, para longe das estalagens, para os estábulos lá fora, dentre os homens para o meio dos animais. E quando se deita um olhar nessa Criança, que foi alijada da terra que criara, e literalmente expulsa para fora da cidade de Seus pais, deitada num leito de palha entre um boi e um burro, não se podia deixar de ver nesses animais o símbolo da rejeição humana. “Não havia lugar na estalagem”.

A religião, dissemos acima, é primeiro ignorada, depois perseguida. A indiferença à religião é o começo do ódio à religião. Assim se deu com o Cristo. Em Seu Nascimento os homens não Lhe deram atenção; simplesmente batiam as portas no rosto de Sua Mãe. Dentro de dois anos estarão eles perseguindo-o como a um criminoso. Primeiro mostram-se indiferentes ao lugar em que ele nasceu; agora, intolerantes só porque nasceu. Antes apenas não O queriam em suas estalagens; agora não O querem no mundo. Primeiro Ele é tão estranho às suas vidas que O deixam com os seus inofensivos animais; agora é Ele considerado inimigo de suas vidas e mais perigoso do que feras. Nem mesmo O querem agora deixar em seus estábulos, tal como a Rússia não O quer deixar em seus tabernáculos. Parte de Herodes a ordem de que toda criança do sexo masculino abaixo de dois anos de idade deve ser morta. Nenhum rei poderá ser soberano se este novo Rei Infante também pretender a Realeza. Herodes não poderá possuir inteiramente o homem se esta Criança se intitular Rei do homem. Aquele que primeiro desprezou a Criança agora teme a Criança. A caverna do pastor torna-se agora o antro do bandido, enquanto Herodes despacha seus soldados, que se lançam como falcões em perseguição de um Infante que mal aprendeu a andar. A irreligião apoderou-se do lugar deixado pela religião; a perseguição seguiu-se à indiferença; o assassínio dos inocentes veio na esteira do nascimento do Inocente. A indiferença ao Cristo não termina e nem pode terminar na ausência do Cristo; acaba no Anticristo.

Foi assim no começo; é assim agora, e será assim até o fim; ensinaram a Europa a cerrar o punho e a cuspir sempre que Seu nome é ouvido; não O podem deixar só. Eles não são precisamente homens sem religião; são homens contra a religião; não mostram frieza para com Deus; entregam-se ao ateísmo com todo o ardor. Donde tiram eles energia para esse ódio? Donde tal entusiasmo pelo ateísmo? Como conseguem tal apostolado pelo Anticristo, tantas espadas para a pilhagem das coisas de Deus e assassínio das mulheres de Deus? Donde tirou a Rússia esse ímpeto para implantar em Valência, pela primeira vez na história do mundo 9 ocidental, um regime declaradamente contra Deus? Tirou-o da realidade de Deus.

Os homens não se entusiasmam por fantasmas. Os homens não saem a campo para dar combate as ficções da imaginação nem a mortos. Odeiam, entretanto, os vivos.

Rejeitando-O, estão eles prestando-Lhe testemunho. Ninguém odeia César, Napoleão ou Genghis Khan. E por que não? Porque morre o ódio quando perece o objeto odiado. Os homens já não cerram mais os punhos contra um Bismarck, nem montam mais guarda ao túmulo de um Nélson. Mas cerram ainda os punhos contra o Cristo. Dizem que Ele está morto, mas põem sentinelas em Seu “túmulo”. Dizem que Ele é inofensivo enquanto criança, contudo Herodes manda os seus soldados matar a Criança indefesa.

A verdade é que eles odeiam porque crêem - não com a fé viva dos redimidos, mas com a fé dos condenados. Não haveria nunca vacinação se não existissem germes; não haveria nunca proibição se não houvesse alguma coisa a proibir, e não haveria nunca ateísmo se não houvesse alguém a negar. Seu ódio é apenas a vã tentativa de desprezo. Odeiam simplesmente porque foram destinados a amar.

O que é de notar é que exatamente nas nações em que Ele tem sido mais rejeitado, maior tenha sido a derrota do homem. Na mesma proporção em que Ele é perseguido, persegue-se o homem; quando o mundo rejeita Aquele que enalteceu o valor do homem, começa este a perder todo o valor. No momento em que o mundo perde Aquele que amou o homem a ponto de morrer por ele, o próprio homem deixa de ter qualquer valor; no instante em que ele esquece o preço outrora pago por uma alma humana, a alma começa a ser um instrumento do Estado. Esta derrota do homem na Rússia, na Alemanha, no México, e até certo ponto na Itália, onde o homem não tem direito algum senão aquele que o Estado lhe concede, torna-se tanto mais flagrante quando ocorre numa época em que o homem tem tudo o que pode conduzir ao sucesso na vida. Nunca dantes teve o homem tanto Poder, e nunca dantes foi tal Poder acumulado assim para a destruição da vida humana; nunca dantes esteve tão defendida a educação e nunca dantes se esteve mais longe do conhecimento da Verdade; nunca dantes houve tanta riqueza e nunca dantes tanta pobreza; nunca dantes tivemos tão abundantes alimentos e nunca dantes tantos homens famintos. O homem vê-se cercado de luxos e comodidades com que as gerações precedentes nunca sonharam; todavia, nunca seus esforços foram tão frustrados, nunca se sentiu tão miserável e intranqüilo diante do futuro. Tem tudo, e todavia nada tem, porque esqueceu uma coisa - seu próprio mérito, seu próprio valor intrínseco, seu próprio alto destino. Somente Alguém que pagou o preço pode dizer-lhe quanto ele vale. Tendo perdido a etiqueta do preço da Redenção, marcada “Valor Infinito”, fácil é que os ditadores pensem não ter ele nenhum valor, julguem que ele é simplesmente uma gota de sangue na corrente de sangue da raça, um soldado a mais no exército, um dente a mais nas rodas de engrenagem no Grande trator proletário.

É preciso que o homem seja redescoberto, não o homem animal que tanto conhecemos, mas o homem racional que conhecemos tão pouco. Essa redescoberta está condicionada ao conhecimento d’Aquele a cuja imagem e semelhança foi o 10 homem criado, pois só quando reconhecemos os direitos de Deus é que o homem começa a ser livre. 11

 

2. FALSAS LIBERDADES

As duas palavras de que mais se abusa no mundo moderno são amor e liberdade.

Para a nossa geração amor geralmente significa sexo, e liberdade significa o direito de usar da palavra. Só nos interessa aqui a liberdade em suas duas formas errôneas, das quais uma agoniza e a outra vem raiando. A liberdade de indiferença é o erro já em declínio de uma ordem social decadente; a liberdade de necessidade é o erro que desponta com o novo Estado opressor.

 

LIBERDADE DE INDIFERENÇA

A liberdade de indiferença é assim chamada por ser indiferente à verdade, à moralidade, à justiça e ao bem social. Como tal, dominou o mundo por vários séculos, definindo-se invariavelmente como direito de o indivíduo dizer, fazer, ou pensar o que bem lhe aprouver. Supondo não existir norma absoluta para a verdade e o erro, coloca o indivíduo como a autoridade suprema e considera toda regulamentação da liberdade como indefensável e injustificada restrição.

Evidentemente tal opinião considera a liberdade mais em termos de ordem física do que de ordem moral, ou mais como uma ausência de coação do que como um direito a escolher o bem. São bem conhecidas de todos nós suas falsas manifestações nos setores da fisiologia, religião, educação, política e economia. Em filosofia ela afirmava não existir aquilo que se chama a Verdade “com V maiúsculo”; a verdade é meramente passageira, - nós a forjamos à medida em que vivemos. A verdade é mero ponto de vista, pois cada homem é a medida do bom e do verdadeiro. Naturalmente, tal sistema engendra tantas filosofias quantas são as cabeças. A fim de que o mundo pudesse ficar a salvo do conflito de tantas opiniões, cultivou-se o espírito de tolerância como a mais desejável de todas as virtudes.

Quem ainda acreditava na verdade era freqüentemente tido como homem de visão acanhada, enquanto que aquele que não cuidava de distingui-la do erro era louvado pela sua largueza de vistas. Em religião, a liberdade de indiferença afirmava que pouco nos deve importar aquilo em que cremos; uma religião é tão boa quanto a outra, o que afinal vale dizer ser tão má uma quanto outra. Em educação, asseverava que toda disciplina é uma restrição da liberdade e um injustificado ataque ao direito do indivíduo ao que ingloriosamente se rotulou de “afirmação da personalidade”. Na ordem política, supunha que o Estado exerce simples função negativa, qual seja proteger os direitos do indivíduo. A moralidade era considerada como um problema de aritmética, e a verdade e o erro eram determinados pela contagem de votos, bem esquecidos de que a verdade é verdade mesmo que ninguém a siga e o erro é erro mesmo que todos estejam errados. Na ordem econômica afirmava que, se se deixasse aos indivíduos a liberdade de gerir seus negócios como bem lhes aprouvesse, sem nenhuma interferência social da parte do governo, resultaria daí o maior de todos os bens. Por isso, qualquer tentativa da parte do Estado de regulamentar o uso da propriedade privada era tachada de usurpação e violação dos direitos constitucionais. Eram essas as diversas 12 manifestações da falsa liberdade de indiferença, também chamada liberalismo ou economia do laissez faire, que quer dizer laissez moi faire. Os males de tão falsa concepção eram duplos: sociais e econômicos. Socialmente, produzia uma civilização formada por uma série de contraditórias correntes de egotismo, uma em desacordo com a outra. O mundo começava a assumir o aspecto de um “salve-se quem puder”, dito que se enaltecia ao ser chamado the struggle for existence.

Ninguém se interessava pelo bem comum, mas unicamente por sua própria pequenina pessoa, o que valia dizer que cada homem era o seu próprio deus no panteão dos outros pequenos deuses. Economicamente, a liberdade de indiferença resultava em tremendas desigualdades de riqueza em que o poder e o crédito ficavam concentrados nas mãos de poucos, enquanto a grande maioria dos

cidadãos ficavam reduzidos ao estado de assalariados com pouca ou nenhuma segurança material para o futuro. Uma vez de posse da riqueza, tal liberdade apenas significava uma coisa: o direito de os ricos tornarem-se mais ricos e de os pobres ficarem mais pobres. Deixar economicamente cada indivíduo livre para fazer o que desejasse resultava em desordenada e má distribuição da riqueza.

Sessenta e cinco por cento das famílias dos Estados Unidos recebiam menos de $1,500 por ano em 1935-36: 48 de cada 100 famílias tinham menos de $1,000 por ano. O primeiro décimo das famílias da América, tinha uma renda 18 vezes maior que a do ultimo, enquanto que o ultimo décimo da renda total correspondia ao sustento de um numero de famílias 82 vezes maior que o décimo superior. Quinze de cada 100 famílias necessitavam de auxílio para viver. Metade das famílias da zona rural estavam abaixo da linha dos $ 1,000 e três quartas partes estavam abaixo da linha dos $ 1,500.

 

REAÇÃO

Urgia fazer alguma coisa para contrabalançar o egoísmo individual e as desigualdades econômicas; por um ou outro meio devia-se fazer os homens elevarem-se acima de seus desejos individuais e voltarem-se para o bem de todos; precisava-se encontrar um meio de fazer as forças econômicas penderem para o bem comum, de igualar as desigualdades, e restaurar nas consciências o sentido do caráter funcional da riqueza em prol do bem comum. Mas como fazer o homem pensar que é o protetor de seu irmão? Como ensinar o homem a ver que a liberdade não significa indiferença ao bem de todos os cidadãos? A religião poderia tê-lo feito, pois só a religião tem o poder de inculcar a caridade e a justiça, sem as quais nenhuma sociedade pode subsistir. A unidade da vida social e econômica teria sido assim restaurada na sociedade por um movimento livre dos espíritos. Mas, uma vez que se rejeitou a religião como solução, em parte por terem os espíritos perdido o amor da verdade, só restava um meio, que foi forçá-los a viver para o bem-estar geral; isto é, apoderar-se da riqueza e do poder a fim de nivelar as desigualdades.

Assim nasceram na Europa as ditaduras do fascismo, do nazismo e do comunismo.

Se por si mesmas as ovelhas não querem andar juntas na unidade do redil, então que se ponham os cães a latir em seu encalço. Se os indivíduos não querem responder ao apelo da consciência que Deus lhe deu, e que os incita a reconhecerem suas responsabilidades sociais, então os ditadores forçá-los-ão a 13 isso. A unidade assim alcançada não procedeu do interior por meio da religião, mas do exterior por meio da força.

As ditaduras fascista, nazista e comunista representam a oscilação de um conceito de sociedade em que o indivíduo era soberano, para o outro igualmente absurdo de uma sociedade em que o Estado é soberano. A violência ativa inerente ao fascismo, nazismo e comunismo é apenas a reação ou talvez mesmo o produto da violência passiva de um liberalismo que permitia que os fortes devorassem os fracos. Naturalmente, nenhum ditador pode jamais conquistar as massas senão prometendo-lhes liberdade. Empregaram a força, agiram como tiranos, eliminaram toda oposição e expurgaram as minorias, mas tiveram sempre o cuidado de faze-lo sob o nome sagrado da liberdade. Assim foi que a palavra liberdade passou a ter uma nova significação.

 

LIBERDADE E NECESSIDADE

A liberdade não seria mais identificada com a indiferença mas com a necessidade.

Tal como Frederico Engels, o comunista a definiu: “Liberdade é necessidade”. Por exemplo, uma pedra é livre quando, obedecendo á lei da gravidade, cai ao solo logo que a soltamos. O homem é livre de acordo com esta opinião, porque sabe que tem de agir de acordo com determinadas leis. Quando um homem sabe o que tem de fazer e o faz, então é livre. Assim também, dizem os ditadores, um homem é livre enquanto obedecer à vontade do ditador que sempre se identificou com o bem comum. Desse modo um cidadão da Rússia só goza da liberdade da palavra e da liberdade de imprensa com a condição de usá-la para apoiar Stalin; do contrário é um demolidor, e a única liberdade que lhe resta é a liberdade do martírio. Na Alemanha, na Itália e na Rússia não há minorias políticas. O governo está identificado com um partido, e liberdade de votar significa liberdade de aprovar a vontade do ditador. Em teoria, não ha razão para que a ditadura invada o santuário da alma; na pratica, contudo, a maior parte dos ditadores não se limita à política ou à economia; tornam-se também ditadores das consciências, como tão bem o provam a Alemanha e a Rússia. As novas ditaduras supõem que podemos tratar com a vida humana da mesma forma como quem lida com mercadorias, e que a alma do homem é suscetível da mesma regulamentação que a lavoura ou a indústria. Na pratica, isso significa fortalecimento da O.G.P.U., tcheca, e organizações policiais para dar caça àqueles que pensam de modo diferente. Nestas circunstâncias, a nova liberdade, em vez de acabar com o caos, organiza-o superficialmente; consegue obter, valendo-se da força, a unidade externa, embora raramente a unidade interna pela aquiescência geral. Eis por que as ditaduras do mundo não estão inaugurando uma nova ordem; são meras transições para uma nova ordem que é dever nosso criar.

Nossa geração esta assistindo, quer o saiba, quer não, ao ocaso e à aurora de dois conceitos radicalmente falsos de liberdade: uma liberdade de indiferença, que dá ao indivíduo o direito de ignorar a sociedade, e uma liberdade de necessidade, que dá ao Estado o direito de ignorar o indivíduo absorvendo-o na raça, na nação ou na classe e destruindo a liberdade de escolha. A primeira espécie de liberdade 14 resultava em licença, a segunda atira-nos na escravidão; a primeira era indiferente à verdade; a segunda identifica a verdade com os decretos de um ditador; a primeira prometia a riqueza individual à custa do bem comum, a segunda promete a riqueza social à custa da liberdade da pessoa humana; a primeira esquece a sociedade, a segunda esquece o homem. A liberdade de indiferença é o pecado de um liberalismo agonizante; a liberdade de necessidade é o pecado do nascente absolutismo do Estado. A liberdade de indiferença operava na sociedade de modo muito semelhante ao da bomba colocada debaixo de uma casa. Uma vez que se desse a explosão, todos os tijolos, todas as vigas, todos os pedaços de vidro, todas as tábuas ficavam livres de fazer o que desejassem sem nenhuma preocupação com o bem-estar da própria casa. A liberdade de necessidade, ao contrário, opera na sociedade como uma prensa de lagar. Cada cacho de uva da vinha, quando atirado na tina com milhares de outros cachos, perde sua própria identidade; sua existência tornou-se agora inseparável do vinho. No primeiro exemplo, a liberdade de indiferença arruinava a sociedade ao definir a liberdade como a licença individual que ignorava o bem social; no segundo exemplo, a liberdade de necessidade arruína a humanidade ao definir a liberdade como a necessidade que dá ao ditador o direito de usurpar toda a personalidade de um homem, de modo que ele não ouse pensar, querer ou sentir separado da massa, da classe ou da raça a que pertence.

Leão XIII de há muito, em 20 de julho de 1888, advertiu-nos a respeito das conseqüências dos falsos conceitos de liberdade. “A verdadeira liberdade da sociedade humana não consiste em cada qual fazer o que bem desejar, pois isso acabaria simplesmente em distúrbio e confusão, e acarretaria a ruína do Estado... De igual modo a liberdade não consiste no poder daqueles que, autoridades, ditam desarrazoadas e caprichosas ordens a seus súditos, o que seria igualmente criminoso e levaria à ruína da coisa pública” (Libertas Praestantitssimum).

Esses dois falsos conceitos da liberdade desempenharam um papel na morte de Jesus Cristo. E quase certo dizer que Ele foi crucificado em nome da falsa liberdade. A liberdade de indiferença ou o espírito de tolerância crucificou-O no individualismo de Pilatos. A liberdade de necessidade ou a nova intolerância crucificou-O em nome das massas. Depois de uma noite inteira de padecimentos, aquela noite em que, flagelado com os olhos vendados, Lhe põem na cabeça uma ridícula coroa de espinhos e Lhe dão um caniço como cetro, Jesus Cristo é levado diante de Pilatos. Respondendo a uma pergunta, Nosso Senhor diz a Pilatos que o Seu Reino não é deste mundo e a seguir acrescenta: “Para este fim nasci, e para este fim vim ao mundo - para trazer testemunho à Verdade. Todo aquele que é da Verdade ouve Minha Voz.” (são João, XVIII, 37.) Havia muito que Pilatos renunciara à crença na verdade e bondade absoluta; o que para os homens era verdade ou erro, para ele não passava de “um ponto de vista”. Verdade universalmente aceita não existia; e para melhor afirmar sua crença na relatividade da verdade, de modo zombeteiro pergunta: “Que é a verdade?”, e volta as costas à Verdade sem esperar pela resposta 15.

Numa hora a indiferença de Pilatos teve seu natural desfecho quando mandou que trouxessem o Cristo e Barrabás a seu ensolarado pórtico e disse à população que escolhesse entre os dois: “Qual dos dois quereis que vos solte: Barrabás ou Jesus, que é chamado o Cristo?” (são Mateus, XXVII, 17). Aqui chegava o falso espírito de tolerância à sua última e lógica conseqüência: indiferença ao Cristo e a Barrabás, à verdade e ao erro, à virtude e ao vício. Era outro modo de dizer que liberdade é indiferença, e indiferença à verdade, naquele dia, significava o que tem significado sempre desde então: a crucifixão da Verdade. Parta-se do falso pressuposto de que democracia significa liberdade de ser indiferente à verdade e à virtude, e a democracia acabará, como naquele dia, crucificando a ambas.

As massas nem sempre escolhem com acerto; a verdade não é o que a maioria quer.

Liberdade não significa direito de preferir o sedicioso ao Salvador, ou de ser tolerante a ponto de pregar a Justiça numa árvore. Uma vez que essa falsa liberdade meça as conseqüências de sua indiferença, procura logo lavar as mãos do sangue culpado, tal como Pilatos naquele dia em que após lavá-las, com as mãos molhadas brilhando aos raios do sol, gritou: “Estou inocente do sangue desse homem.” Mas a água não lava a nódoa desse crime; nem todas as águas dos sete mares poderiam lavar o sangue rubro de suas mãos. Assim tem sido até neste mesmo instante em que dizemos: “Padeceu sob Pôncio Pilatos”.

Mal podia Pilatos acreditar no que ouvia quando lhe pediram que soltasse Barrabás, e enquanto os gritos da população atroavam contra a balaustrada de mármore de sua fortaleza, fez uma outra pergunta: “Que devo fazer com o vosso Rei, o Cristo?” Mas responderam-lhe: “Se soltares este Homem não és amigo de César. Todo aquele que se faz rei é inimigo de César.” (São João, XIX, 12.)

Chegara a vez de a nova liberdade de necessidade e a nova intolerância mandarem-no matar. A liberdade de indiferença realizara sua tarefa como a maioria que vota pela morte da verdade; a liberdade de necessidade tem ainda sua nojenta tarefa a realizar. Na prática, significa isso que não há nenhum Deus acima de César, nenhum direito acima do governo, nenhuma liberdade de palavra acima do régulo.

Significava exatamente isso na sexta-feira da Paixão, quando a população apelava para o seu ditador, a quem odiava mais que às serpentes, e protestava seu amor por César contra o Cristo. “Se o Cristo não quiser obedecer a César e renunciar ao absurdo de dizer: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, então entreguem-no à morte. César é o único Rei; o Ditador é a única lei; o partido é o único governo. Até mesmo os direitos de Deus emanam de César. Ou fazê-lO submeter-se ou mandá-lO para a cruz.” Pois liberdade, pensavam eles, é obediência à vontade do ditador.

E para a cruz foi Ele, crucificado pela corrompida liberdade do liberalismo, que é indiferente à verdade, e pela desmoralizada liberdade da ditadura que identifica a Verdade com César. O Calvário desse dia é um quadro do mundo moderno. A crise daqueles tempos como a dos nossos próprios tempos é a crise da liberdade. Como o Cristo foi crucificado na Sexta-feira da Paixão pela falsa liberdade, assim hoje é o homem crucificado. O mundo moderno há vários séculos que não tem liberdade e, 16 se seguir nova definição da liberdade, não a terá por mais alguns. O liberalismo e o capitalismo, que foram indiferentes à moralidade e à verdade, não nos deram a liberdade mas apenas um pretexto de sermos individualmente egoístas. A ditadura, os Estados totalitários, fascismo e comunismo, não nos dão a liberdade, mas apenas o direito de sermos coletivamente egoístas. Aqueles criavam escravos econômicos, e estes criam escravos políticos. Ambos são amigos de sua própria espécie de liberdade, e nenhum homem é amigo da liberdade se não desejar que os outros a possuam tão bem quanto ele. O liberalismo e o capitalismo, por se mostrarem indiferentes à verdade, tornavam impossível que uma democracia se defendesse contra o fascismo, o comunismo ou o nazismo, pois, se não existe a verdade, nada há então a defender.

A liberdade é mais do que um fenômeno econômico tal como a democracia corrupta pretende; é mais do que um fenômeno político tal como quer a ditadura tirânica; a liberdade é mais do que uma aristocracia da riqueza tal como o capitalismo pretende; e mais do que uma aristocracia de privilégio tal como quer o comunismo; a liberdade não significa separação do direito das responsabilidades tal como afirmou o liberalismo; nem significa a separação das responsabilidades dos direitos tal como assevera o comunismo. A liberdade não é livre-pensamento tal como julga o liberalismo, nem é o pensamento imposto tal como supõem as ditaduras. A liberdade não é direito de escolher entre Barrabás e o Cristo tal como o espírito de tolerância proclama; nem é o direito de dizer que não existe outro Deus senão César tal como proclama a nova intolerância.

Não temos liberdade em nosso mundo moderno, mas precisamos recuperá-la ou perecer. Não a encontraremos voltando ao liberalismo, nem convertendo-nos em ditadura, pois não está nem nesta nem naquela. Só a podemos recuperar retornando a uma Verdade que não é nem a voz da maioria nem as imposições da minoria, uma Verdade que é inseparável da finalidade do homem; isto é, a união com o seu último fim, que é Deus. Quando o homem conforma o seu pensar e suas ações com essa Finalidade, é livre porque está com a verdade. Será pedir demais ao mundo moderno que faça isso? Precisa nossa civilização moderna, assim como o Cristo, de ser primeiro crucificada pela liberdade de indiferença e pela liberdade de necessidade, para que possa ressurgir? A resposta a essa pergunta está nas mãos de Deus. Mas isto certamente sabemos: se amarmos a Verdade, a “Verdade nos libertará”. 17

 

3. A VERDADEIRA LIBERDADE

Para se compreender o que realmente é a liberdade é necessário fugir às duas posições extremas de que falamos no capítulo anterior. Um desses erros extremos é o do liberalismo, para o qual liberdade significa direito de falar, pensar ou fazer aquilo que o indivíduo quer. Discursos do Dia da Independência, campanhas políticas, arengas de capitalistas e de chefes trabalhistas, certos discursos de formatura, político-radicais, todos cantam loas e essa espécie de liberdade. Uma coisa há que lhes é comum a todos - todos falam como se a liberdade neste mundo fosse um fim e não um meio. Batem-se pela liberdade, mas nenhum deles nos diz por que quer ser livre. Insistem em serem livres de alguma coisa, mas esquecem que estar livre de alguma coisa implica estar livre para alguma coisa. Estar livre de reumatismo só é compreensível porque quero estar livre para andar. Esqueça-se a finalidade da liberdade, e a liberdade tornar-se-á absurda. O mundo moderno vem há muito falando em liberdade e, no entanto, esqueceu por que quer ser livre. Deu mais importância ao desejo que ao objeto desejado. Está errado, pois ninguém quer ser livre apenas para ser livre, mas ser livre para realizar um propósito ou atingir um objetivo. Queremos o pára-brisa em nosso carro para ficarmos livres da poeira a fim de viajarmos com segurança. Desgraçadamente, é muito grande o número daqueles que em seus debates pela liberdade querem uma liberdade mais rica, mais ampla e mais abundante, sem que jamais resolvam o que com ela querem fazer.

Porque esqueceram a finalidade da vida, inventaram a idéia de progresso, que é mudança sem finalidade. Confundiram um passo à frente com um passo na direção certa. Em vez de trabalharem para um ideal, mudaram o ideal e chamaram-lhe progresso, esquecidos de que nunca podem saber se estão ou não fazendo progresso a não ser que tenham um alvo fixo. Neste sentido tinha razão Chesterton ao dizer: “Há uma coisa que nunca faz nenhum progresso. É a idéia de progresso.”

Essa falsa liberdade criou espíritos mais interessados na busca da verdade do que na própria verdade; não procuravam para encontrar mas para ter a emoção da pesquisa; batiam não para que lhes abrissem a porta da verdade, mas para ouvirem o ruído de suas pancadas; perguntavam não para saber qual a finalidade da vida, mas para escutar o eco de suas próprias vozes. Compraziam-se em falar na gloriosa procura da verdade, mas tinham o cuidado de evitar descobri-la. A procura da verdade acarreta apenas poucas responsabilidades e pode muitas vezes, com afetada insinceridade, revestir-se de uma falsa aparência, mas sua descoberta é um fardo e um desafio que poucos encaravam de boa vontade. Nisto reside o primeiro defeito de nossa corrupta liberdade - esquecemos por que queremos ser livres.

Enquanto não respondermos a essa pergunta, nossas arengas sobre a liberdade não passarão de “metal que soa ou címbalo que tine”.

O outro erro extremo que temos de evitar é a falsa liberdade do fascismo, nazismo e fascismo soviético ou comunismo, segundo o qual liberdade significa obediência à vontade de um Ditador. Os ditadores perceberam que o homem precisa ter algum 18 ideal ou finalidade fora de si mesmo, mas em vez de fazer consistir essa finalidade no desenvolvimento da personalidade humana, impuseram como objetivo a raça no nazismo, o Estado no fascismo e a classe no comunismo. Tomava assim a coletividade o lugar da personalidade. A idéia é justa ao insistir que a liberdade tem

um fim, mas é falsa ao impor o fim errado, qual seja, o Estado onipotente. A ditadura acerta ao propor um fim, mas erra ao impor uma finalidade terrena em lugar de uma sobrenatural, um fim econômico em lugar de um espiritual, César em lugar de um Deus. Afinal isso significa a destruição da liberdade de escolha de todos os cidadãos do Estado, isto é, a liberdade de palavra, a liberdade de consciência, a liberdade de imprensa e de reunião. Os cidadãos na Rússia e na Alemanha gozam exatamente da mesma espécie de liberdade que a de dois homens lutando dentro do cárcere. Dizia um ao outro: “Quero que você saiba que sou aqui tão livre quanto você.” Esta nova espécie de liberdade é muito semelhante à liberdade dos cucos nos relógios de cuco. Quando chega a vez do povo votar 100 por cento seguindo o Ditador, o mecanismo de um exército, o terror, a propaganda e o temor das expurgações, põem o eleitorado em ação, tal como o mecanismo do relógio põe o cuco em ação na hora fixada.

Esse conceito de liberdade é também falso, porquanto coloca a liberdade na coletividade e não no homem, e identifica a liberdade com aquilo que os homens fazem e não com aquilo que o homem é. Torna-se então a liberdade um tributo do Estado e não do homem; nessa teoria o composto é que é livre, não os componentes. Cada pessoa é como a engrenagem de uma máquina, cuja função é inteiramente determinada pelo maquinista do Estado ou pelo ditador. Um homem na Rússia ou na Alemanha não tem mais liberdade de escolha que o êmbolo na máquina. Será livre enquanto agir como o êmbolo, mas se se afirmar que o homem é mais do que um êmbolo, e que é livre de se recusar a ser um êmbolo no mecanismo do Estado, será banido como um demolidor. O termo “demolidor” é significativo, pois o próprio fato de ser alguém chamado demolidor, é por si mesmo revelador de que o Estado é apenas uma máquina e não um corpo moral formado de seres humanos, dotado cada qual de direitos inalienáveis, dos quais o mais precioso é a liberdade.

Dois erros devem então ser evitados: um que esquece a finalidade da liberdade, e outro que pretende que a liberdade reside apenas na coletividade, e não no homem.

Se evitarmos essas duas posições extremas, a de um liberalismo moribundo e a de uma crescente ditadura, chegaremos à mais positiva e exata idéia de liberdade, a que evita os dois erros apontados: a liberdade não é o direito de fazer o que me pareça, nem é a necessidade de fazer o que quer que o ditador me imponha: ao contrário, a liberdade é o direito de fazer o que eu devo. Nessas três expressões “querer”, “ser necessariamente” e “dever” estão contidas as três opções que se oferecem ao mundo moderno. Das três escolhemos “dever”.

Essa pequenina palavra “dever” significa que o homem é livre. O fogo é necessariamente quente, o gelo é necessariamente frio, mas o homem deve ser bom. “Dever” implica moralidade, isto é, um poder moral distinto do poder físico. A liberdade não é o poder de fazer qualquer coisa que se queira, tão freqüentemente 19 enunciado pelo moço moderno nestas palavras: “Posso fazer isso, se quiser, não posso? Quem me Impedirá?” Certamente você pode fazer qualquer coisa que lhe agrade ou queira. Pode roubar o seu vizinho, pode bater na sua mulher, pode encher colchões com giletes usadas, e também matar a tiros de metralhadoras as galinhas do vizinho, mas você não deve fazer nada disso porque dever implica moralidade, direitos e obrigações.

A liberdade é, pois, mais um poder moral do que um poder físico, um “dever” e não um “poder”. Além do mais, “dever” está intrinsecamente relacionado com uma finalidade. Quando digo “devo comer a minha comida”, há uma inconfundível relação entre comida e saúde. Quando digo “devo estudar”, a palavra “devo” envolve a finalidade do estudo, qual seja a aquisição do conhecimento. Há milhares de pequeninos “devos” em todas as vidas, cada um dos quais é inseparável de um objetivo, de um propósito ou finalidade, por exemplo: “devo pagar minhas contas”, “devo ser bom”. A razão está constantemente erguendo pequeninos alvos de “devos”, ou finalidades, e a vontade, qual flecha, tenta atingi-los. Debaixo de todos os pequeninos “devos” da vida, há um supremo “devo”, qual seja “devo alcançar o fim para que fui criado”. Atrás de todas as finalidades há uma grande finalidade, dada em resposta à pergunta: “Por que existo?” É pergunta que muito poucos se fazem. Não guardariam em casa por cinco minutos um traste de dez centavos sem indagar de sua finalidade, mas seguirão pela vida a fora sem sequer saberem por que vivem. Enquanto não respondermos a essa pergunta, nenhuma outra há que mereça resposta; e o modo como respondermos a ela determinará o rumo de nossa vida neste mundo e o nosso destino no outro.

Por que fui criado? Que devo fazer de minha vida? Suponhamos que se faça parar um certo número de homens na rua e que se lhes proponha tal pergunta, qual seria a resposta? Diria um provavelmente: “para constituir família”; outro: “para ficar rico”; um outro ainda: “para ser uma pessoa educada”. Mas tais resposta são apenas parciais. A resposta óbvia será: “o homem quer ser feliz”, e constituir família, fazer fortuna, ou receber educação são para ele modos de conceber a felicidade. No fundo, ele quer a vida, quer a verdade, quer o amor. Não quer a vida apenas por trinta minutos, mas para sempre; não quer conhecer apenas as verdades da geografia, mas a verdade toda; não quer um amor que morre, mas um Amor extático, belo e eterno. Daí o ridículo dos casamentos modernos com seus divórcios: “Quero amar-te durante 2 anos e 8 meses.” O mundo não nos dá essa felicidade, pois quando o homem tiver sua família constituída abominará ter de deixá-la; quando tiver empilhado seus dólares, quererá uma pilha ainda maior; quando completar sua educação, começará a sentir orgulho do que sabe e assim resvalará na mais profunda ignorância. Visto que a felicidade do Amor, da Verdade e da Vida eterna não pode ser alcançada aqui na terra, segue-se que teremos de alcançá-la depois desta vida, pois se não houvesse alimentos não haveria estômago; se não houvesse coisa para ver, não haveria olhos; e se não houvesse o Perfeito-Amor, a Perfeita-Vida e a Perfeita-Verdade, não haveria espírito, nem vontade, nem coração almejado e lutando por eles. E assim a razão sugere ao homem sua finalidade, que se identifica com a resposta da Revelação. O melhor modo de descobrir para que foi feita uma coisa é recorrer ao seu criador. “Por que Deus me 20 criou?” e o criador dará a resposta: “Deus te criou para conhecê-lO, amá-lO e servil-O neste mundo; e ser eternamente feliz com ele no outro.” Desde que o dever do homem é o aperfeiçoamento de sua personalidade em suas virtualidades mais altas pela união eterna com a Vida-Perfeita, a Verdade e o Amor que é Deus, segue-se que a liberdade tem algo que fazer na escolha dos meios para realizar tal finalidade, ou rejeitá-la inteiramente. Assim, pode um homem decidir salvar sua alma fazendo-se um advogado honesto, de preferência a um médico honesto, ou mesmo sua decisão pode ser não salvar sua alma de modo algum.

Qual é, porém, a mais elevada espécie de liberdade? Fazer o que devo, isto é, obedecer à minha consciência e salvar a minha alma, ou fazer tudo o que eu queira seja bom ou mau? São ambas aspectos da liberdade, pois alguém faz-se santo pela mesma vontade por que pode tornar-se um demônio. Eis o problema: Qual é a mais alta forma da liberdade? Decerto fazer o que devemos é uma forma mais elevada de liberdade do que fazer o que queremos, porque a primeira conduz ao perfeito desenvolvimento de nossa personalidade e a última à sua sujeição. Por exemplo, o homem deve ser sóbrio e não se entregar ao hábito da bebida. Suponhamos, entretanto, que ele dissesse: “Sou livre, portanto nada de proibições, de moralidades passadistas, nem de restrições puritanas, por isso beberei quanto quiser.” Depois de algum tempo, tal homem fica escravizado à bebida; em lugar de fazer o que lhe agrada, bebe, não para lhe dar prazer, mas para fugir ao desprazer de não beber. Tendo agido mal, sua vontade permanece ainda livre para escolher o que é bom, mas ele não é mais livre para fazê-lo. Todas as forças de resistência foram vencidas e sua liberdade acabou em escravidão. O erro que cometeu é o mesmo que o mundo moderno está cometendo: pensar que liberdade significa independência da lei, e que infringir as leis de Deus é uma forma de “afirmação da personalidade”. O que devemos meter em nossas cabeças, como cidadãos, como pais de família e como educadores, é que liberdade não significa ilegalidade. Pelo contrário, a liberdade está condicionada à obediência à lei. Liberdade fora da lei não existe, só existe liberdade dentro da lei, seja ela científica, natural, humana ou divina. Por exemplo, um aviador só tem liberdade de voar se se submeter à lei da gravitação, isto é, deve agir dentro da lei, e não fora dela. Tente agora dar uma prova de afirmação de personalidade e atire-se do Empire State Building e verá que num minuto terá perdido toda liberdade - até a de viver. Experimente mostrar que tem espírito largo traçando um triângulo com quatro lados, como prova de que pode fazer tudo o que quer, e verificará que nunca mais terá liberdade de traçar um triângulo. Esqueça a finalidade de uma navalha e use-a para abrir latas de tomate, e estragará a navalha, porque esqueceu a sua finalidade. Mostre-se um artista de espírito largo e, ignorando a natureza das coisas, desenhe uma girafa com pescoço curto: verá que não mais terá liberdade de desenhar uma girafa.

Assim se dá com a lei moral; somos verdadeiramente livres quando obedecemos à finalidade ou à lei para que fomos criados, qual seja o desdobramento e desenvolvimento de nossa personalidade para a nossa eterna felicidade com Deus. Temos liberdade de ignorar a lei moral, de beber, roubar, de ser adúlteros, de sacudir os punhos com ódio, tal como temos liberdade de ignorar a lei da 21 gravitação, mas toda vez que a ignoramos, ou diminuímos ou destruímos a nossa liberdade. Alcança-se a liberdade real, não agindo fora da lei, mas dentro dela. Enquanto obedecer às leis do tráfego terei liberdade de guiar, mas quando penso que liberdade significa o direito de fazer o que quero e atravesso com o sinal vermelho, verifico logo que não tenho mais liberdade de guiar. Dá-se o mesmo com a lei moral. Deus implantou na natureza humana e em Sua Igreja as leis que nos permitem realizar a finalidade da vida e atingir os mais altos objetivos de nossa personalidade. Essas leis não são represas que detêm o progresso; são diques que mpedem que as águas do egoísmo e da concupiscência invadam a terra. Se as obedecer ou fizer o que devo, serei livre. Se as desobedecer ou fizer o que quiser, estarei agindo contra os mais altos interesses de minha natureza. Cada vez que peco, sou menos homem em razão disso, tal como a máquina em cujo uso se violam as instruções do fabricante é menos máquina.

Pecar, que é o desprezo da finalidade e da lei da vida, não é prova de liberdade, é o começo da escravidão, porque, como disse Jesus Cristo, “todo aquele que comete pecado é escravo do pecado”. (São João, VIII, 34.)

A liberdade não é um mero direito constitucional, nem um direito natural, nem um direito humano, nem tampouco um direito social; é acima de tudo o mais um direito espiritual. Uma das razões por que a democracia julga tão difícil estabelecer limites no que o homem pode dizer, fazer ou pensar é que ela esquece a finalidade do homem. O liberalismo e as ditaduras devem todos reconhecer o seu erro. Deve-se fazer a democracia compreender que liberdade nunca deve significar liberdade para si mesmo e escravidão para os outros, nem que os fortes têm liberdade de afirmar os seus direitos, ou que os fracos têm liberdade de ser indefesos. Deve-se fazer as ditaduras compreender que a liberdade não está no Estado, nem na coletividade, nem na raça, nem na classe - está no homem, entronizada em cada pessoa, no tabernáculo de cada alma, como um dom de Deus, e nenhum Estado pode tirá-la daí. A nossa liberdade liberal criou monstruosas injustiças econômicas; a liberdade da ditadura criou a escravidão. Cada qual amava a liberdade em sua própria esfera; o liberal em seu próprio eu egoísta, e a ditadura no seu eu coletivo.

O liberalismo não foi o berço da liberdade; a ditadura não é a sua descoberta. A liberdade já tinha suas raízes na natureza espiritual do homem antes que existisse um liberal, um democrata, um fascista, ou um fascista soviético ou comunista. A liberdade não surgiu de nenhuma organização social nem de nenhuma constituição ou partido, mas da alma do homem. Nazistas, fascistas e fascistas soviéticos ou comunistas gabam-se de estar restaurando a liberdade para o homem ao elevarem-no acima da coletividade; os liberais gabam-se de estar preservando a liberdade ao darem mais completa satisfação aos apetites materiais. Quão confuso e turvo é o modo de pensar no mundo prova-se com o fato de Stalin poder justificar o banimento de um inocente, ou de um orador de praça pública poder justificar a derrubada do governo americano em nome da Liberdade. Já é tempo de os liberais e ditadores acabarem com isso de dizer que dão liberdade ao homem, e compreenderem que é o homem quem lhes dá sua liberdade. Que o homem por sua vez compreenda que as raízes de sua liberdade estão em seu destino de criatura feita á. imagem e semelhança de Deus. Há muito que vivemos na suposição de que, 22 se fôssemos livres, descobriríamos a Verdade. Jesus Cristo apresentou-nos isso às avessas: “A Verdade vos libertará”. Isso significa que a verdadeira libertação vem do conhecimento da finalidade e do destino do homem. Nossa indiferença à verdade resultou na perda da paixão pela Verdade. O resultado é que são hoje muito poucos os ideais por que o homem queira morrer, ou mesmo se sacrificar.

Nosso falso espírito de tolerância - que ao menos o saibamos - nasceu da nossa perda da fé, da nossa incerteza. Quando esquecemos a finalidade da vida, perdemos o dinamismo necessário para alcançá-la; quando perdemos as certezas fundamentais da vida, perdemos também a energia para nos batermos por elas. Por termos perdido a paixão pela verdade, pela justiça e pela honra, a letargia e a apatia apoderaram-se de tal modo de nossa civilização, que encontramos dificuldades em preservar até mesmo a lealdade nos atos da vida cotidiana. Não sentimos entusiasmo pelas grandes causas nem ódio pelo mal, mas apenas lampejos de entusiasmo e pruridos de ódio; atiramos fora os nossos roteiros da vida e não sabemos que caminho tomar. É horrível de contemplar, mas é provável não haver no mundo bastante amor pela verdade para lançar o grito de uma cruzada.

Essa perda de entusiasmo pelo bem tem permitido lamentavelmente que o mal e a irreligião se propaguem como uma peste. O amor à verdade de uns é menor que o ódio que outros lhe votam. E um grave perigo para a democracia. O ódio está-se tornando uma força mais forte que o amor, a verdade, a justiça ou a honra. Em certos círculos de nosso país, por exemplo, é maior o ódio pelo capitalismo do que o amor pela justiça social. Em outros, é maior o ódio pelas uniões trabalhistas que o amor por um patriota espezinhado. esse ódio crescente é um perigo para qualquer civilização; atingiu agora tal ponto que, para espalhá-lo, a hipocrisia se converte de pecado em virtude. Porque esquecemos a razão de viver, surgem aqueles que dizem: “Só uma classe tem o direito de viver.” Por que esquecemos a verdade, aparecem os que dizem: "Só o erro deve ser propagado.” Porque esquecemos a justiça, existem muitos que dizem: “Só a violência deve reinar.” Porque esquecemos o homem, dizem outros: “Só o Estado deve subsistir.”

Todas as ideologias do fascismo, nazismo e comunismo procuram confinar a finalidade do homem dentro dos limites acidentais do sangue ou do partido.

Forçado o homem a render-se à sua suprema autoridade, desligaram completamente o homem daqueles mesmos fins a que a irreligião já o tornara indiferente. O resultado foi que o homem do mundo atirou poeira em seus próprios olhos e, cego, não mais pôde encontrar o caminho que leva de volta à casa. Disseram-lhe que a religião é um ópio, seu destino eterno apenas uma lenga-lenga teológica, e que se se desvencilhasse de suas obrigações e aborrecimentos, poderia fazer deste mundo um paraíso. Como um idiota, o homem assim o fez, mas em vez de ver sua vida material enriquecida, verificou que se tornava cada dia mais precária, sem o consolo da esperança de alguma coisa para além da morte. Tendo perdido a finalidade da vida, restam-lhe agora apenas algumas finalidades tão fragmentadas e desconexas que jamais há de recompor. Por nenhum outro meio se poderá pôr cobro a essa traição da liberdade senão pela pregação cristã sobre a finalidade do homem, qual seja o desdobramento social, 23 econômico e político de sua personalidade neste mundo e sua plenitude espiritual no outro. Deus poderia salvar-nos do caos e da escravidão pela força, mas seria isso a destruição da liberdade. Deus aguarda a livre e espontânea resposta do homem ao Seu chamamento, e por isso é que Seu último adeus ao mundo partiu do desamparo e abandono da Cruz, onde apenas Seus olhos podiam convidar-nos ao suave ideal da vida. Foi mesmo, por amor da liberdade, indulgente para com os maiores malfeitores. Tal liberdade não é a liberdade indiferente à verdade, nem tolerante com a inverdade, mas a liberdade que crê numa verdade tão santa que bem vale a morte numa Cruz. A fé na verdade do Calvário é a fé na liberdade do homem. Só aos pés dessa Cruz compreenderá o homem que a liberdade não está na libertação ante a verdade, nem na violenta sujeição a ela, mas no abraço amorável de uma alma que compreendeu a sua finalidade e clama das profundezas de um coração abrasado pela verdade: “Sou tua, ó Deus! Socorre-me a mim a quem Tu criaste.” 24 25

Fulton Sheen

 

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