CARTA AOS BISPOS DA IGREJA CATÓLICA

SOBRE ALGUNS ASPECTOS DA IGREJA

ENTENDIDA COMO COMUNHÃO

INTRODUCÃO

1. O conceito de comunhão (koinonía), já posto de manifesto nos textos do Concílio Vaticano II(1), é muito adequado para exprimir o núcleo profundo do Mistério da Igreja e pode ser, certamente, a chave de leitura para uma renovada eclesiologia católica (2). O aprofundamento da realidade da Igreja como comunhão é, na verdade, uma tarefa particularmente importante, que oferece amplo espaço para a reflexão teológica sobre o mistério da Igreja, "cuja natureza admite sempre novas e mais profundas pesquisas" (3). Algumas visões eclesiológicas, porém, apresentam uma insuficiente compreensão da Igreja enquanto mistério de comunhão, especialmente pela falta de uma adequada integração do conceito de comunhão com os de Povo de Deus e de Corpo de Cristo, e também por um insuficiente relevo dado à relação entre a Igreja como comunhão e a Igreja como sacramento.

2. Tendo em conta a importância doutrinal, pastoral e ecumênica dos diversos aspectos que dizem respeito à Igreja entendida como comunhão, com a presente Carta, a Congregação para a doutrina da fé considerou oportuno recordar brevemente e esclarecer, sempre que necessário, alguns dos elementos fundamentais que devem ser considerados pontos firmes, inclusivamente no desejado trabalho de aprofundamento teológico.

I  - A IGREJA, MISTÉRIO DE COMUNHÃO

3. O conceito de comunhão está "no coração da autoconsciência da Igreja" (4), enquanto Mistério da união pessoal de cada homem com a Trindade divina e com os outros homens, iniciada na fé (5), e orientada para a plenitude escatológica na Igreja celeste, embora sendo já desde o início uma realidade na Igreja sobre a terra (6).

Para que o conceito de comunhão, que não é unívoco, possa servir como chave interpretativa da eclesiologia, deve ser entendido no contexto dos ensinamentos bíblicos e da tradição patrística, nos quais a comunhão implica sempre uma dupla dimensão: vertical (comunhão com Deus) e horizontal (comunhão entre os homens). É essencial à visão crista da comunhão reconhecê-la, antes do mais, como dom de Deus, como fruto da iniciativa divina cumprida no mistério pascal. A nova relação entre o homem e Deus, estabelecida em Cristo e comunicada nos sacramentos, expande-se ainda a uma nova relação dos homens entre si. Consequentemente, o conceito de comunhão deve ser também capaz de exprimir a natureza sacramental da Igreja enquanto estamos "longe do Senhor" (7), assim como a peculiar unidade que faz dos fiéis os membros de um mesmo Corpo, o Corpo místico de Cristo (8), uma comunidade organicamente estruturada (9), "um povo congregado na unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo" (10), e dotado ainda com os meios adequados à união visível e social (11).

4. A comunhão eclesial é ao mesmo tempo invisível e visível. Na sua realidade invisível, é a comunhão de cada homem com o Pai por Cristo no Espírito Santo, e com os outros homens que comparticipam na natureza divina (12), na paixão de Cristo(13), na mesma fé (14), no mesmo espírito (15). Na Igreja sobre a terra, entre esta comunhão invisível e a comunhão visível na doutrina dos Apóstolos, nos sacramentos e na ordem hierárquica, existe uma íntima relação. Mediante estes dons divinos, realidades bem visíveis, Cristo exercita de vários modos na história a Sua função profética, sacerdotal e real pela salvação dos homens (16). Esta relação entre os elementos visíveis e os elementos invisíveis da comunhão eclesial é constitutiva da Igreja como Sacramento de salvação.

Desta sacramentalidade deriva o fato de a Igreja não ser uma realidade voltada sobre si mesma, mas permanentemente aberta à dinâmica missionária e ecumênica, porque enviada ao mundo para anunciar e testemunhar, atualizar e expandir o mistério de comunhão que a constitui: a fim de reunir todos e tudo em Cristo(17); de ser para todos "sacramento inseparável de unidade" (18).

5. A comunhão eclesial, na qual cada um se insere pela fé e pelo batismo (19), tem a sua raiz e o seu centro na Sagrada Eucaristia. Na realidade, o batismo é incorporação num corpo edificado e vivificado pelo Senhor ressuscitado mediante a eucaristia, de tal maneira que este corpo pode ser verdadeiramente chamado Corpo de Cristo. A eucaristia é fonte e força criadora de comunhão entre os membros da Igreja precisamente porque une cada um deles com o próprio Cristo: "na fração do pão eucarístico, participando nós realmente no Corpo do Senhor, somos elevados à comunhão com Ele e entre nós: 'Visto que há um só pão, nós, embora muitos, formamos um só corpo, nós todos que participamos dum mesmo pão' (1Cor. 10,17)" (20).

Por isso, a expressão paulina a Igreja é o Corpo de Cristo significa que a Eucaristia, na qual o Senhor nos dá o seu Corpo e nos transforma num só Corpo (21), é o lugar onde permanentemente a Igreja se exprime na sua forma mais essencial: presente em toda a parte e, no entanto, sendo só uma, como um é Cristo.

6. A Igreja é comunhão dos santos, segundo a expressão tradicional que encontramos nas versões latinas do Símbolo apostólico a partir do final do século IV (22). A comum participação visível nos bens da salvação (as coisas santas), especialmente na Eucaristia, é raiz da comunhão invisível entre os participantes (os santos). Esta comunhão comporta uma solidariedade espiritual entre os membros da Igreja, enquanto membros de um mesmo Corpo (23), e tende à sua efetiva união na caridade, constituindo "um só coração e uma só alma" (24). A comunhão conduz, de igual modo, à união na oração (25), inspirada em todos por um mesmo Espírito (26), o Espírito Santo "que penetra e une toda a Igreja" (27).

Esta comunhão, nos seus elementos invisíveis, existe não apenas entre os membros da Igreja peregrinante na terra, mas também entre estes e todos aqueles que, tendo deixado este mundo na graça do Senhor, fazem parte da Igreja celeste ou serão nela incorporados depois de uma plena purificação (28). Isto significa, aliás, que existe uma mútua relação entre a Igreja peregrina sobre a terra e a Igreja celeste na missão histórico-salvífica. Dela resulta a importância eclesiológica não só da intercessão de Cristo a favor dos seus membros (29), mas também da dos santos e, num modo eminente, da Santíssima Virgem Maria (30). A essência da devoção aos santos, tão presente na piedade do povo cristão, corresponde assim à profunda realidade da Igreja como mistério de comunhão.

II - IGREJA UNIVERSAL E IGREJAS PARTICULARES

7. A Igreja de Cristo, que no Símbolo confessamos una, santa, católica e apostólica, é a Igreja universal, ou seja, a universal comunidade dos discípulos do Senhor (31), que se torna presente e operante na particularidade e diversidade das pessoas, grupos, tempos e lugares. Entre estas múltiplas expressões particulares da presença salvífica da única Igreja de Cristo, encontram-se desde a época apostólica as que em si mesmas são Igrejas (32), porque, embora particulares, nelas se torna presente a Igreja universal com todos os seus elementos essenciais(33). São por isso constituídas "à imagem da Igreja universal" (34), e cada uma delas é "uma porção do Povo de Deus confiada à cura pastoral do bispo coadjuvado pelo seu presbitério" (35).

8. A Igreja universal é assim o Corpo das Igrejas(36), pelo que é possível aplicar de modo analógico o conceito de comunhão também à união entre as Igrejas particulares e entender a Igreja universal como uma comunhão de Igrejas. As vezes, porém, a idéia de "comunhão de Igrejas particulares" é apresentada de tal modo que enfraquece a concepção da unidade da Igreja, sob o plano visível e institucional. Chega a afirmar-se que cada Igreja particular é um sujeito em si mesmo completo, e que a Igreja universal é o resultado do reconhecimento recíproco das Igrejas particulares. Esta unilateralidade eclesiológica, redutiva tanto do conceito de Igreja universal como do de Igreja particular, manifesta uma insuficiente compreensão do conceito de comunhão. Como a história aliás o demonstra, quando uma Igreja particular procurou alcançar a sua própria auto- suficiência, debilitando a sua real comunhão com a Igreja universal e com o seu centro vital e visível, enfraqueceu também a sua unidade interna e, além disso, viu-se em perigo de perder a própria liberdade perante as mais diversas forças de sujeição e de exploração (37).

9. Para compreender o verdadeiro sentido da aplicação analógica do termo comunhão no conjunto das Igrejas particulares, é necessário, em primeiro lugar, ter em conta que estas, porque são partes da única Igreja de Cristo (38), têm com o todo, isto é, com a Igreja universal, uma peculiar relação de "mútua interioridade" (39), porque em cada Igreja particular "está verdadeiramente presente e atua a Igreja de Cristo, una, santa, católica e apostólica" (40). Por isso, a Igreja universal não pode ser concebida como a soma das Igrejas particulares nem como uma federação de Igrejas particulares" (41). Ela não é o resultado da sua comunhão, mas, no seu essencial mistério, é uma realidade ontologicamente e temporalmente prévia a toda Igreja particular singular.

Na verdade, ontologicamente, a Igreja-mistério, a Igreja una e única segundo os padres precede a criação (42) e dá à luz as Igrejas particulares como filhas, nelas se exprime, é mãe e não produto das Igrejas particulares. Além disso, temporalmente, a Igreja manifesta-se no dia de Pentecostes na comunidade dos cento e vinte que estavam reunidos à volta de Maria e dos doze Apóstolos, representantes da única Igreja e futuros fundadores das Igrejas locais, que têm uma missão orientada para o mundo: já então a Igreja fala todas as línguas (43).

Dela, manifestada universal na origem, têm início as diversas Igrejas locais, como realizações particulares de uma e única Igreja de Jesus Cristo. Nascendo na e da Igreja universal, nela e dela têm a sua eclesialidade. Por isso, a fórmula do Concílio Vaticano II: A Igreja na e a partir das Igrejas (Ecclesia in et ex Ecclesiis) (44), é inseparável destoutra: As Igrejas na e a partir da Igreja (Ecclesiae in et ex Ecclesia) (45). É evidente a natureza mistérica desta relação entre a Igreja universal e as Igrejas particulares, que não pode comparar-se com a que existe entre o todo e as partes de qualquer grupo ou sociedade puramente humana.

10. Cada fiel, mediante a fé e o batismo, é inserido na Igreja una, santa, católica e apostólica. Não se pertence à Igreja universal de modo mediato, através da pertença a uma Igreja particular, mas de modo imediato, ainda que o ingresso e a vida na Igreja universal se realizem necessariamente em uma Igreja particular. Na perspectiva da Igreja entendida como comunhão, a universal comunhão dos fiéis e a comunhão das Igrejas não são, pois, conseqüência uma da outra, mas constituem a mesma realidade encarada de perspectivas diversas.

Além disso, a pertença a uma Igreja particular nunca está em contradição com a realidade de que na Igreja ninguém é estrangeiro (46): especialmente na celebração da eucaristia, cada um dos fiéis se encontra na sua Igreja, na Igreja de Cristo, prescindindo da sua pertença, sob o ponto de vista canônico, à diocese, paróquia ou outra comunidade particular onde tem lugar essa celebração. Neste sentido, permanecendo firmes as necessárias determinações de dependência jurídica (47), quem pertence a uma Igreja particular, pertence a todas as Igrejas; já que a pertença à comunhão, como pertença à Igreja, nunca é somente particular, mas, pela sua própria natureza, é sempre universal (48).

III - COMUNHÃO DAS IGREJAS, EUCARISTIA E EPISCOPADO

11. A unidade ou comunhão entre as Igrejas particulares na Igreja universal, está radicada, afora a mesma fé e o batismo comum, sobretudo na eucaristia e no episcopado.

Está radicada na eucaristia, porque o sacrifício eucarístico, embora se celebre sempre numa comunidade particular, nunca é apenas uma celebração dessa comunidade: esta, de fato, recebendo a presença eucarística do Senhor, recebe o dom integral da salvação e manifesta-se assim, apesar da sua constante particularidade visível, como imagem e verdadeira presença da Igreja una, santa, católica e apostólica (49).

A redescoberta de uma eclesiologia eucarística, com os seus indubitáveis valores, exprime-se, porém, às vezes, com acentuações unilaterais a respeito do princípio da Igreja local. Afirma-se que onde se celebra a eucaristia, far-se-ia presente a totalidade do mistério da Igreja, de modo que deveria considerar-se não essencial qualquer outro princípio de unidade e de universalidade. Outras concepções, sob influxos teológicos diversos, tendem a radicalizar ainda mais esta perspectiva particular da Igreja, ao defenderem que é o próprio reunir-se em nome de Jesus (cf. Mt. 18,20) que gera a Igreja: a assembléia que em nome de Jesus se torna comunidade, teria em si os poderes da Igreja, incluindo o relativo à Eucaristia; a Igreja, como dizem alguns, nasceria "das bases". Estes e outros erros semelhantes não têm em conta suficiente que é a própria eucaristia que torna impossível toda a auto-suficiência da Igreja particular. Efetivamente, a unidade e a indivisibilidade do Corpo eucarístico do Senhor implicam a unicidade do seu Corpo místico, que é a Igreja una e indivisível. Do centro eucarístico surge a necessária abertura de cada comunidade celebrante, de cada Igreja particular: ao deixar-se atrair pelos braços abertos do Senhor consegue-se a inserção no Seu Corpo, único e indiviso. Até por isto, a existência do ministério petrino, fundamento da unidade do episcopado e da Igreja universal, está em correspondência profunda com a índole eucarística da Igreja.

12. De fato, a unidade da Igreja está também radicada na unidade do episcopado (50). Do mesmo modo que a própria idéia de Corpo das Igrejas demanda a existência de uma Igreja Cabeça das Igrejas, que é precisamente a Igreja de Roma, a qual "preside à comunhão universal da caridade" (51), assim também a unidade do episcopado comporta a existência de um bispo Cabeça do Corpo ou Colégio dos Bispos, que é o Romano Pontífice (52). Da unidade do Episcopado, como da unidade de toda a Igreja, "o Romano Pontífice, enquanto sucessor de Pedro, é perpétuo e visível princípio e fundamento" (53). Esta unidade do Episcopado perpetua-se ao longo dos séculos mediante a sucessão apostólica e é também fundamento da própria identidade da Igreja de todos os tempos com a Igreja edificada por Cristo sobre Pedro e os outros Apóstolos (54).

13. O bispo é princípio e fundamento visível da unidade na Igreja particular confiada ao seu ministério pastoral (55), mas para que cada Igreja particular seja plenamente Igreja, isto é, presença particular da Igreja universal com todos os seus elementos essenciais, constituída portanto à imagem da Igreja universal, nela deve estar presente, como elemento próprio, a suprema autoridade da Igreja: o Colégio episcopal "juntamente com a sua Cabeça, o Romano Pontífice, e nunca sem ele" (56). O primado do bispo de Roma e o colégio episcopal são elementos próprios da Igreja universal "não derivados da particularidade das Igrejas" (57), mas interiores a cada Igreja particular. Portanto, "devemos ver o ministério do sucessor de Pedro, não só como um serviço 'global' que atinge cada Igreja particular do 'exterior', mas como já pertencente a cada Igreja particular a partir 'de dentro'" (58). De fato, o ministério do Primado comporta essencialmente uma potestade verdadeiramente episcopal, não só suprema, plena e universal, mas também imediata, sobre todos, quer sejam Pastores ou outros fiéis (59). O fato do ministério do sucessor de Pedro ser interior a cada Igreja particular é expressão necessária dessa fundamental mútua interioridade entre Igreja universal e Igreja particular (60).

14. Unidade da eucaristia e unidade do episcopado com Pedro e sob Pedro não são raízes independentes da unidade da Igreja, porque Cristo instituiu a Eucaristia e o Episcopado como realidades essencialmente vinculadas (61). O episcopado é um só assim como uma só é a eucaristia: o único Sacrifício do único Cristo morto e ressuscitado. A liturgia exprime de diversos modos esta realidade, manifestando, por exemplo, que cada celebração da eucaristia é feita em união não só com o próprio Bispo, mas também com o papa, com a ordem episcopal, com todo o clero e com todo o povo (62). Toda celebração válida da Eucaristia exprime esta comunhão universal com Pedro e com toda a Igreja ou, como no caso das Igrejas cristas separadas de Roma, assim a reclama objetivamente (63).

IV - UNIDADE E DIVERSIDADE NA COMUNHÃO ECLESIAL

15. "A universalidade da Igreja, por um lado, comporta a mais sólida unidade e, por outro, uma pluralidade e uma diversificação, que não obstaculizam a unidade, mas lhe conferem o caráter de 'comunhão" (64). Esta pluralidade refere-se quer à diversidade de ministérios, de carismas, de formas de vida e de apostolado no interior de cada Igreja particular, quer à diversidade de tradições litúrgicas e culturais entre as diversas Igrejas particulares (65).

A promoção da unidade que não obstaculiza a diversidade, como também o reconhecimento e a promoção duma diversificação que não impede a unidade mas até a enriquece, são tarefa primordial do Romano Pontífice para toda a Igreja (66) e, salvo o direito geral da própria Igreja, de cada Bispo na Igreja particular confiada ao seu ministério pastoral (67). Mas a edificação e salvaguarda desta unidade, à qual a diversificação confere o caráter de comunhão, é também tarefa de todos na Igreja, porque todos são chamados a construí-la e a respeitá-la em cada dia, sobretudo mediante a caridade que é "o vínculo da perfeição" (68).

16. Para ter uma visão mais completa deste aspecto da comunhão eclesial -unidade na diversidade-, é necessário considerar que existem instituições e comunidades estabelecidas pela Autoridade Apostólica para tarefas pastorais peculiares. Estas enquanto tais pertencem à Igreja universal, não deixando os seus membros de ser também membros das Igrejas particulares onde vivem e atuam. Esta pertença às Igrejas particulares, com a flexibilidade que lhe é própria (69), tem diversas expressões jurídicas. Isto não só não prejudica a unidade da Igreja particular fundamentada no bispo, mas, ao contrário, contribui para conferir a esta unidade a diversificação interior própria da comunhão (70).

No contexto da Igreja entendida como comunhão, devem ser considerados também os diversos institutos e sociedades, manifestação dos carismas de vida consagrada e de vida apostólica, com os quais o Espírito Santo enriquece o Corpo Místico de Cristo: embora não pertencendo à estrutura hierárquica da Igreja, pertencem à sua vida e à sua santidade (71).

Pelo seu caráter supradiocesano, radicado no ministério Petrino, todas estas realidades eclesiais são também elementos ao serviço da comunhão entre as diversas Igrejas particulares.

V - COMUNHÃO ECLESIAL E ECUMENISMO

17. "Com aqueles que, estando batizados, se honram com o nome de cristãos, mas não professam a fé integral ou não conservam a unidade da comunhão sob o sucessor de Pedro, a Igreja reconhece-se unida por muitos motivos" (72). Nas Igrejas e Comunidades cristas não católicas existem, na verdade, muitos elementos da Igreja de Cristo que permitem reconhecer com alegria e esperança uma certa comunhão, embora não perfeita (73).

Esta comunhão existe especialmente com as Igrejas orientais ortodoxas, as quais, apesar de separadas da Sede de Pedro, permanecem unidas à Igreja Católica mediante estreitíssimos vínculos, como são a sucessão apostólica e a Eucaristia válida, e merecem portanto o título de Igrejas particulares(74). De fato, "com a celebração da Eucaristia do Senhor nestas Igrejas particulares, a Igreja de Deus é edificada e cresce"(75), já que em cada celebração válida da Eucaristia se torna verdadeiramente presente a Igreja una, santa, católica e apostólica (76).

No entanto, dado que a comunhão com a Igreja universal, representada pelo sucessor de Pedro, não é um complemento externo da Igreja particular, mas um dos seus elementos constitutivos internos, a situação dessas veneráveis comunidades cristas implica também uma ferida na sua condição de Igreja particular. A ferida é ainda mais profunda nas comunidades eclesiais que não conservaram a sucessão apostólica e a Eucaristia válida. Por outro lado, este fato comporta ainda para a Igreja católica, chamada pelo Senhor a ser para todos "um só rebanho e um só pastor" (77), uma ferida enquanto obstáculo para a realização plena da sua universalidade na história.

18. Esta situação exige seriamente de todos um empenho ecumênico com vista à plena comunhão na unidade da Igreja; essa unidade "que Cristo desde o princípio doou à sua Igreja e que cremos subsistir, sem possibilidade de se perder, na Igreja Católica e esperamos que cresça cada dia mais até ao final dos séculos" (78). Neste empenho ecumênico, assumem prioritária importância a oração, a penitência, o estudo, o diálogo e a colaboração, para que numa renovada conversão ao Senhor se torne possível a todos reconhecer a perenidade do Primado de Pedro nos seus sucessores, os Bispos de Roma, e ver realizado o ministério petrino, tal como é entendido pelo Senhor, como universal serviço apostólico, que está presente no interior de todas as Igrejas e que, salvaguardada a sua substância de instituição divina, pode exprimir-se de diversos modos, de acordo com os lugares e os tempos, como atesta a história.

CONCLUSÃO

19. A Santíssima Virgem Maria é modelo da comunhão eclesial na fé, na caridade e na união com Cristo (79). "Eternamente presente no mistério de Cristo" (80), Ela está, no meio dos apóstolos, no próprio coração da Igreja nascente(81) e da Igreja de todos os tempos. Na verdade, "a Igreja foi congregada na parte alta (do cenáculo) com Maria, que era a Mãe de Jesus, e com os Seus irmãos. Não se pode, portanto, falar de Igreja se aí não estiver presente Maria, a mãe do Senhor, com os Seus irmãos" (82).

Ao concluir esta carta, a Congregação para a doutrina da fé, evocando as palavras finais da Constituiçao Lumen gentium (83), convida todos os bispos e, por meio deles, todos os fiéis, especialmente os teólogos, a confiar à intercessão da Santíssima Virgem o seu empenho de comunhão e de reflexão teológica sobre a comunhão.

O Sumo Pontífice João Paulo II, no decurso da audiência concedida ao abaixo assinado Cardeal Prefeito, aprovou a presente Carta, decidida na reunião ordinária desta Congregação, e ordenou a sua publicação.

Roma, sede da Congregação para a doutrina da fé - 28 de Maio de 1992

Joseph Card. Ratzinger - prefeito

+ Alberto Bovone - arceb. tit. de Cesareia de Numidia - secretário

(1) 1 Cfr. Const.Lumen gentium, nn. 4, 8, 13-15, 18, 21, 24-25; Const. Dei Verbum, n. 10; Const. Gaudium et Spes, n. 32; Decr. Unitatis redintegratio, nn. 2-4, 14-15, 17-19, 22.

(2) 2 Cfr. SINODO DOS BISPOS, II Assembleia extraordinária (1985), Relatio finalis, II, C), 1.

(3) 3 PAULO VI, Discurso de abertura do segundo período do Conc. Vaticano II, 29-IX-1963: AAS 55 (1963) p. 848. Cfr., por exemplo, as perspectivas de aprofundamento indicadas pela COMISSÃO TEOLOGICA INTERNACIONAL, in Themata selecta de ecclesiologia, "Documenta (1969-1985)", Lib. Ed. Vaticana 1988, pp. 462-559.

(4) 4 JOÃO PAULO II, Discurso aos Bispos dos Estados Unidos da América, 16-IX-1987, n. 1: "Insegnamenti di Giovanni Paolo II" X, 3 (1987) p. 553.

(5)é 5 1 Jo 1, 3: "o que vimos e ouvimos, vo-lo anunciamos, para que vós também tenhais comunhao connosco, e para que a nossa comunhao seja com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo". Cfr. ainda 1 Cor 1, 9; JOÃO PAULO II, Ex. Ap. Christifideles laici, 30-XII-1988, n. 19; SINODO DOS BISPOS (1985), Relatio Finalis, II, C), 1.

(6) 6 Cfr. Fil 3, 20-21; Col 3, 1-4; Const. Lumen Gentium, n. 48.

(7) 7 2 Cor 5, 6; Cfr. Const. Lumen gentium, n. 1.

(8) 8 Cfr. ibidem, n. 7; Pio XII, Enc. Mystici Corporis, 29-VI-1943: AAS 35 (1943) pp. 200ss.

(9) 9 Cfr. Lumen gentium, n. 11/a.

(10) 10 S. CIPRIANO, De Oratione Dominica, 23: PL 4, 553; cfr. Const. Lumen gentium, n. 4/b.

(11) 11 Cfr. Const. Lumen gentium, n. 9/c.

(12) 12 Cfr. 2 Pd 1, 4.

(13) 13 Cfr. 2 Cor 1, 7.

(14)é 14 Cfr. Ef 4, 13; Filem 6.

(15) 15 Cfr. Fil 2, 1.

(16) 16 Cfr. Const. Lumen Gentium, nn. 25-27.

(17) 17 Cfr. Mt 28, 19-20; Jo 17, 21-23; Ef 1, 10; Const. Lumen gentium, nn. 9/b, 13 e 17; Decr. Ad gentes, nn. 1 e 5; ST. IRINEU, Adversus haereses, III, 16, 6 e 22, 1-3: PG 7, 925-926 e 955-958.

(18) 18 S. CIPRIANO, Epist. ad Magnum, 6: PL 3, 1142.

(19) 19 Ef 4, 4-5: "Há um só corpo e um só Espírito, como também vós fostes chamados a uma só esperança pela vossa vocaçao. Há um só Senhor, uma só fé, um só baptismo". Cfr. também Mc 16, 16.

(20) 20 Const. Lumen gentium, n. 7/b. A Eucaristia é o sacramento "mediante o qual a Igreja se consocia no tempo presente" (STO. AGOSTINHO, Contra Faustum, 12, 20: PL 42, 265). "A nossa participaçao no corpo e sangue de Cristo nao tende senao a transformar-nos naquilo que recebemos" (S. LEÃO MAGNO, Sermo 63, 7: PL 54, 357).

(21) 21 Cfr. Const. Lumen gentium, nn. 3 e 11/a; S. JOÃO CRISOSTOMO, In 1 Cor. hom., 24, 2: PG 61, 200.

(22) 22 Cfr. Denz.-Schön. 19, 26-30.

(23) 23 Cfr. 1 Cor 12, 25-27; Ef 1, 22-23; 3, 3-6.

(24) 24 At 4, 32.

(25) 25 Cfr. At 2, 42.

(26) 26 Cfr. Rom 8, 15-16.26; Gal 4, 6; Const. Lumen gentium, n. 4.

(27) 27 S.TOMÃS DE AQUINO, De Veritate, q. 29, a. 4 c. De facto, "elevado na cruz e glorificado, o Senhor Jesus comunicou o Espírito prometido, por meio do qual chamou e reuniu na unidade da fé, da esperança e da caridade o povo da Nova Aliança, que é a Igreja" (Decr. Unitatis redintegratio, n. 2/b).

(28) 28 Cfr. Const. Lumen gentium, n. 49.

(29) 29 Cfr. Hebr 7, 25.

(30) 30 Cfr. Const. Lumen gentium, nn. 50 e 66.

(31) 31 Cfr. Mt 16, 18; 1 Cor 12, 28; etc.

(32) 32 Cfr. At 8, 1; 11, 22; 1 Cor 1, 2; 16, 19; Gal 1, 22; Apoc 2, 1.8; etc.

(33) 33 Cfr. PONTIFICIA COMISSÃO BIBLICA, Unité et diversité dans l'Église, Lib. Ed. Vaticana, 1989, especialmente, pp. 14-28.

(34) 34 Const. Lumen gentium, n. 23/a; cfr. Decr. Ad Gentes, n. 20/a.

(35) 35 Decr. Christus Dominus, n. 11/a.

(36) 36 Const. Lumen gentium, n. 23/b. Cfr. STO. HILÃRIO DE POITIERS, In Psalm., 14, 3: PL 9, 301; S. GREGORIO MAGNO, Moralia, IV, 7, 12: PL 75, 643.

(37) 37 Cfr. PAULO VI, Ex. Ap. Evangelii nuntiandi, 8-XII-1975, n. 64/b.

(38) 38 Decr. Christus Dominus, n. 6/c.

(39) 39 JOÃO PAULO II, Discurso à Cúria Romana, 20-XII-1990, n. 9: "L'Osservatore Romano", 21- XII-1990, p. 5.

(40) 40 Decr. Christus Dominus, n. 11/a.

(41) 41 JOÃO PAULO II, Discurso aos Bispos dos Estados Unidos da América, 16-IX-1987, n. 3: cit., p. 555.

(42) 42 Cfr. PASTOR DE HERMAS, Vis. 2, 4: PG 2, 897-900; S. CLEMENTE ROMANO, Epist. II ad Cor., 14, 2: Funck, 1, 200.

(43) 43 Cfr. At 2, 1 e ss.. STO. IRINEU, Adversus haereses, III, 17, 2 (PG 7, 929-930): "no Pentecostes (...) todas as naçoes (...) eram conscientes de que se haviam tranformado num coro admirável para entoar o hino de louvor a Deus em perfeito acordo, porque o Espírito tinha anulado as distâncias, eliminado as dissonâncias e transformado o consenso dos povos em primícias para oferecer ao Pai". Cfr. também S. FULGENCIO DE RUSPE, Sermo 8 in Pentecoste, 2-3: PL 65, 743-744.

(44) 44 Const. Lumen gentium, n. 23/a: "(as Igrejas particulares)... nas quais e a partir das quais existe só uma e única Igreja Católica". Esta doutrina desenvolve na continuidade o que já havia afirmado antes, por exemplo, Pio XII, Enc. Mystici Corporis, cit., p. 211: "... a partir das quais existe e é composta a Igreja Católica".

(45) 45 Cfr. JOÃO PAULO II, Discurso à Cúria Romana, 20-XII-1990, n. 9: cit., p. 5.

(46) 46 Cfr. Gal 3, 28.

(47) 47 Cfr., por exemplo, C.I.C., can. 107.

(48) 48 S. JOÃO CRISOSTOMO, In Ioann. hom., 65, 1 (PG 59, 361): "quem está em Roma sabe que os da India sao seus membros". Cfr. Const. Lumen gentium, n. 13/b.

(49) 49 Cfr. Const. Lumen gentium, n. 26/a; STO. AGOSTINHO, In Ioann. Ev. Tract., 26, 13: PL 35, 1612-1613.

(50) 50 Cfr. Const. Lumen Gentium, nn. 18/b, 21/b, 22/a. Cfr. também S.CIPRIANO, De unitate Ecclesiae, 5: PL 4, 516-517; STO. AGOSTINHO, In Ioann. Ev. Tract., 46, 5: PL 35, 1730.

(51) 51 STO. INÃCIO DE ANTIOQUIA, Epist. ad Rom., prol.: PG 5, 685; cfr. Const. Lumen Gentium, n. 13/c.

(52) 52 Cfr. Const. Lumen Gentium, n. 22/b.

(53) 53 Ibidem, n. 23/a. Cfr. Const. Pastor aeternus: Denz.-Schön. 3051-3057; S.CIPRIANO, De unitate Ecclesiae, 4: PL 4, 512-515.

(54) 54 Cfr. Const. Lumen gentium, n. 20; STO. IRINEU, Adversus haereses, III, 3, 1-3: PG 7, 848- 849; S.CIPRIANO, Epist. 27, 1: PL 4, 305-306; STO. AGOSTINHO, Contra advers. legis et prophet., 1, 20, 39: PL 42, 626.

(55) 55 Cfr. Const. Lumen Gentium, n. 23/a.

(56) 56 Ibidem, n. 22/b; cfr. ainda n. 19.

(57) 57 JOÃO PAULO II, Discurso à Cúria Romana, 20-XII-1990, n. 9: cit., p. 5.

(58) 58 JOÃO PAULO II, Discurso aos Bispos dos Estados Unidos da América, 16-IX-1987, n. 4: cit., p. 556.

(59) 59 Cfr. Const. Pastor aeternus, cap. 3: Denz-Schön 3064; Const. Lumen gentium, n. 22/b.

(60) 60 Cfr. supra, n. 9.

(61) 61 Cfr. Const. Lumen gentium, n. 26; STO. INÃCIO DE ANTIOQUIA, Epist. ad Philadel., 4: PG 5, 700; Epist. ad Smyrn., 8: PG 5, 713.

(62) 62 Cfr. MISSAL ROMANO, Oraçao Eucarística III.

(63) 63 Cfr. Const. Lumen gentium, n. 8/b.

(64) 64 JOÃO PAULO II, Discurso na Audiência geral, 27-IX-1989, n. 2: "Insegnamenti di Giovanni Paolo II" XII,2 (1989) p. 679.

(65) 65 Cfr. Const. Lumen gentium, n. 23/d.

(66) 66 Cfr. ibidem, n. 13/c.

(67) 67 Cfr. Decr. Christus Dominus, n. 8/a.

(68) 68 Col 3, 14. S. TOMÃS DE AQUINO, Exposit. in Symbol. Apost., a. 9: "A Igreja é una (...) pela unidade da caridade, porque todos estao unidos no amor de Deus, e entre eles no amor mútuo".

(69) 69 Cfr. supra, n. 10.

(70) 70 Cfr. supra, n. 15.

(71) 71 Cfr. Const. Lumen gentium, n. 44/d

(72) 72 Const. Lumen gentium, n. 15.

(73) 73 Cfr. Decr. Unitatis redintegratio, nn. 3/a e 22; Const. Lumen gentium, n. 13/d.

(74) 74 Cfr. Decr. Unitatis redintegratio, nn. 14 e 15/c.

(75) 75 Ibidem, n. 15/a.

(76) 76 Cfr. supra, nn. 5 e 14.

(77) 77 Jo 10, 16.

(78) 78 Decr. Unitatis redintegratio, n. 4/c.

(79) 79 Cfr. Const. Lumen gentium, nn. 63 e 68; STO. AMBROSIO, Exposit. in Luc., 2, 7: PL 15, 1555; STO. ISAAC DE STELLA, Sermo 27: PL 194, 1778-1779; RUPERTO DE DEUTZ, De Vict. Verbi Dei, 12, 1: PL 169, 1464-1465.

(80) 80 JOÃO PAULO II, Enc. Redemptoris Mater, 25-III-1987, n. 19.

(81) 81 Cfr. At 1, 14: JOÃO PAULO II, Enc. Redemptoris Mater, cit., n. 26.

(82) 82 S. CROMACIO DE AQUILEIA, Sermo 30, 1: "Sources Chrétiennes" 164, p. 134. Cfr. PAULO VI, Ex. Ap. Marialis cultus, 2-II-1974, n. 28.

(83) 83 Cfr. Const. Lumen gentium, n. 69.