A GRAÇA SANTIFICANTE E A GRAÇA ATUAL

A Graça, a redenção e o chamado de Deus.

A Graça é o poder de Deus que provem imerecidamente em face das ações humanas , para a purificação do pecado original, objetivando capacitar o homem a desejar e fazer a vontade divina  recebendo outras graças em ações específicas desejadas por Deus (Fp. 2,13; 1Co. 1,4,5; 2Tm. 1,9; Tg. 1,18; 2Co. 3,5; Hb. 13,21; Is. 26,12; Jr. 10,23; Pv. 16,9; 20,24; 1Co.15,10).

A Graça é transmitida através dos sacramentos , ou sem os sacramentos , mas sempre por iniciativa de Deus, através da Pessoa do Cristo e da Sua obra de redenção perfeita e eterna , confiada à Igreja; fonte original de todas as graças e santidade.

Os sacramentos são transmissores da graça; sinais sensíveis da graça divina que representam . Atos santificantes , estabelecidos pelo Cristo e confiados à autoridade da Igreja.

Todos os sete sacramentos foram instituídos por Jesus Cristo, durante sua vida terrena, como instrumentos para a comunicação e a perpetuação da graça original depositada em Sua Igreja, após a ascensão definitiva ao céu.Através deles , a vida divina torna-se presente em nossas almas e intensifica-se.

Quem opera nos sacramentos é o Espírito Santo através de Seus ministros.Como dito , todos os sacramentos foram instituídos por Deus , e todos transmitem a graça,perpetuando a missão salvífica e o sacerdócio do Cristo entre os homens.Santificando aspectos específicos da vida humana.

Os homens não necessitam da graça para conhecer a verdade natural , pois a razão natural é suficiente para tal , mesmo com as restrições decorrentes da queda original (1)

Sem a Graça, não há obra válida para a salvação , toda boa obra necessita da graça de Deus para ser considerada como critério em nosso julgamento e salvação (2)

A Graça atual é necessária , através da ação do Espírito Santo de Deus , para a obtenção da Graça habitual. E o livre-arbítrio do homem participa ativamente desse chamado (3)

O homem precisa da graça atual para fazer a obra espiritualmente boa. E o homem precisa das graças atuais dos sacramentos para viver sob as leis de Deus plenamente (4)

A Graça habitual é infundida na alma humana , criando uma nova natureza espiritual.

A Graça santificante pode ser aumentada, bem como a justiça e a caridade, mediante a realização das boas obras e com a obediência às leis de Deus e às leis da Igreja; vivendo o homem apartado e protegido do pecado e das tentações (5)

O homem deve crer no poder da misericórdia divina infinita e na sua condição de amizade e graça com Deus , e não duvidar dela .

Porém , deve , por outro lado , saber que só Deus tem a certeza da nossa eleição e da nossa presença nesse estado de graça. O homem não pode retirar a exclusividade de Deus no exercício desse atributo ,e considerar-se salvo antes do Juízo (6)

A vocação ou chamada é , por seu turno, o ato da graça , mediante o qual, Deus convida os homens, através de Sua Palavra, a aceitarem pela fé, a salvação proporcionada por Cristo , e , consequentemente , a viverem os dons que possuem na constituição do seu ser , para o bem de todos - tanto no âmbito propriamente da Igreja, quanto no âmbito da sociedade civil. (1Co. 1,9; 1Ts. 2,12; 1Pe. 5,10; Mt. 11,28; Lc. 5,32; Jo. 7,37; At. 2,39; Rm. 8,30; 1Co. 1,24-26; 7,15; Gl. 1,15; Ef.4,1; 4,4; 2Ts. 2:14; 2Tm.1,9; Ipe. 2,9; 5,10).

As boas obras que somos convidados a realizar e que contam como critério para o nosso julgamento são possibilitadas aos homens pelos méritos e pela satisfação vicária do Cristo , na redenção operada a nosso favor - redenção perfeita e eterna (1Pedro 1,17)

Viver a fé e viver sob a graça , é realizar , permanentemente , a obra de Deus.

Somos salvos pela graça de Deus e pela fé , fundamentalmente (Romanos 3,28 ; Gálatas 2,16; Romanos 10,9), não obstante , podemos crescer na justiça e na caridade mediante a realização das boas obras.Cristo opera em nós - batizados e vivos sob a graça - e permite que partilhemos os méritos sobrenaturais das boas obras.

Somos parte do Corpo de Cristo e devemos realizar as obras dignas do Filho de Deus (2 Pd. 1,4)

Nossas obras somente são boas porque realizadas em conformidade com a vontade de Deus - por quem vive sob a graça .

Uma boa obra de um ateu não é completamente boa ,porque falta-lhe a amizade com Deus.

E a boa obra natural, sem a graça , é igualmente insuficiente para a libertação do pecado.

A fé de um cristão que não se materializa em obras é débil , porque a fé necessariamente deve conduzir à realização das boas obras (Tg. 2,14; 2,22; 2,26 )

Os protestantes não aceitam que as obras tenham valor como mérito em nosso julgamento, nem as obras de reparação penitente da culpas pessoais.Para eles, a natureza humana é permanentemente culpada e só Deus pode nos resgatar , enquanto pecadores!

Os calvinistas afirmam que a graça é irrecusável para os eleitos , e os luteranos afirmam que a graça pode ser rejeitada - as boas obras não afetam a nossa justificação para ambos.

Existem graves divergências no âmbito protestante sobre a redenção.

Na concepção católica, a graça justificadora apaga completamente o pecado original , sendo que as nossas faltas posteriores podem matar a graça batismal em nossas almas.

Com o pecado mortal perdemos a graça habitual e não a fé

Portanto , no catolicismo , podemos contribuir para a nossa salvação e podemos impossibilitá-la definitivamente.

Recebemos uma nova alma e um novo coração transformados pela graça divina, que nos faz , portanto, agradáveis aos olhos de Deus e também eternamente gratos ao Cristo por ter derramado seu sangue redentor por nós.

A distribuição da Graça e da Justiça de Deus.

A graça e a justiça de Deus são iguais em salvar e apagar os nossos pecados - o pecado comum ao gênero humano e os pecados pessoais - não obstante , Deus é livre para distribuir desigualmente a Sua graça.

Deus oferece a graça necessária para cada dever e para cada obra de seus filhos. Ele não nos pode cobrar coisas impossíveis.

Ninguém pode merecer por si só a primeira Graça atual.

Deus distribui desigualmente sua graça e os nossos dons , e também corresponde à nossa fé, às nossas obras e à nossa cooperação , após a primeira graça recebida.

Assim diz o apóstolo Paulo: "Pois recebemos em nós a justiça, cada qual a sua, conforme a medida que o Espírito Santo distribui a cada um como ele quer "(1Cor. 12,11)

Diz o Concílio de Trento sobre a Graça da Justificação

Catecismo do Concílio de Trento

Sessão VI

Decreto sobre a justificação

Cânones sobre a justificação

Cânones sobre a justificação

811. Cân. 1. Se alguém disser que o homem pode ser justificado perante Deus pelas suas obras, feitas ou segundo as forças da natureza, ou segundo a doutrina da Lei, sem a graça divina [merecida] por Jesus Cristo - seja excomungado. [cf. n° 793 s].

812. Cân. 2. Se alguém disser que a graça divina [merecida] por Jesus Cristo é dada somente para que o homem possa viver mais facilmente justificado e para mais facilmente merecer a vida eterna, como se pelo livre arbítrio, sem a graça, pudesse conseguir uma e outra coisa, ainda que penosamente e com dificuldades - seja excomungado [cf. n° 795 e 809].

813. Cân. 3. Se alguém disser que sem a inspiração preveniente do Espírito Santo e sem o seu auxílio, pode o homem crer, esperar e amar ou arrepender-se como convém para lhe ser conferida a graça da Justificação - seja excomungado [cf. n° 797].

814. Cân. 4. Se alguém disser que o livre arbítrio do homem, movido e excitado por Deus, em nada coopera para se preparar e se dispor a receber a graça da justificação - posto que ele consinta em que Deus o excite e o chame - e que ele não pode discordar, mesmo se quiser, mas se porta como uma coisa inanimada, perfeitamente inativa e meramente passiva - seja excomungado [cfr. n° 797].

815. Cân. 5. Se alguém disser que o livre arbítrio do homem, depois do pecado de Adão, se perdeu, ou se extinguiu, ou que é coisa só de título, ou antes, titulo sem realidade, e enfim, uma ficção introduzida na Igreja por Satanás - seja excomungado [cfr. n° 793 e 797].

816. Cân. 6. Se alguém disser que não está no poder do homem tornar os seus caminhos maus, mas que Deus faz tanto as obras más como as boas, não só enquanto Deus as permite, mas [as faz] em sentido próprio e pleno, de sorte que não é menos obra sua a própria traição de Judas do que a vocação de Paulo - seja excomungado.

817. Cân. 7. Se alguém disser que todas as obras que são feitas antes da justificação, de qualquer modo que se façam, são verdadeiramente pecados ou merecera o ódio de Deus; ou que, com quanto maior veemência alguém se esforça em se dispor para a graça, tanto mais gravemente peca - seja excomungado [cf. n° 797].

827. Cân. 17. Se alguém disser que a graça da justificação só se dá aos predestinados para a vida, e que todos os outros que são chamados, são-no, sim, mas não recebem a graça, visto estarem pelo poder divino predestinados para o mal - seja excomungado.

828. Cân. 18. Se alguém disser que também ao homem justificado e constituído em graça é impossível observar os preceitos de Deus - seja excomungado [cf. n° 804].

829. Cân. 19. Se alguém disser que no Evangelho não há nada de preceito senão a fé, e que todas as demais coisas são indiferentes, nem mandadas nem proibidas, mas livres; ou que os dez mandamentos de modo algum pertencem aos cristãos - seja excomungado [cf. n° 800].

830. Cân. 20. Se alguém disser que o homem justificado, por mais perfeito que seja, não está obrigado à observância dos mandamentos de Deus e da Igreja, mas somente a crer, como se o Evangelho fosse uma simples e absoluta promessa de vida eterna, sem condição de observar os mandamentos - seja excomungado [cf. n° 804].

831. Cân. 21. Se alguém disser que Jesus Cristo foi dado por Deus aos homens [só] como Redentor em quem devem crer, e não também como Legislador a quem devem obedecer - seja excomungado.

832. Cân. 22. Se alguém disser que o justificado pode, sem especial auxílio de Deus, perseverar na justiça recebida; ou que ele não pode, com este auxílio, perseverar - seja excomungado [cfr. n° 804 e 806].

833. Cân. 23. Se alguém disser que o homem, uma vez justificado, não pode mais pecar nem perder a graça, e que por isso aquele que cai e peca nunca foi verdadeiramente justificado; ou, pelo contrário, que o homem pode, durante toda a vida, evitar todos os pecados, também os veniais, sem uma prerrogativa especial concedida por Deus, como a Igreja ensina a respeito da Bem-aventurada Virgem - seja excomungado [cf. n° 805 e 810].

834. Cân. 24. Se alguém disser que a justiça recebida não se conserva nem tão pouco se aumenta diante de Deus pelas boas obras, mas que as boas obras somente são frutos e sinais da justificação que se alcançou, e que não é causa do aumento da mesma - seja excomungado [cf. n° 803].

835. Cân. 25. Se alguém disser que o justo peca em qualquer obra boa, ao menos venialmente, ou (o que é mais intolerável ainda) mortalmente; e que por isso merece penas eternas, não se condenando [porém] somente porque Deus não imputa aquelas boas obras para a condenação - seja excomungado [cf. n° 804].

836. Cân. 26. Se alguém disser que os justos não devem esperar de Deus a retribuição eterna pelas boas obras feitas em Deus, pela misericórdia do mesmo Senhor e merecimentos de Jesus Cristo, se perseverarem até ao fim, obrando bem e observando os preceitos divinos - seja excomungado [cf. n° 809].

837. Cân. 27. Se alguém disser que não há pecado mortal algum, exceto o de infidelidade; ou que por nenhum outro pecado, embora grave e enorme, a não ser pelo de infidelidade, se perde a graça uma vez recebida - seja excomungado [cfr. n° 808].

838. Cân. 28. Se alguém disser que ao perder-se a graça pelo pecado, simultaneamente se perde também a fé; ou que a fé que permanece, embora não seja viva, não é verdadeira fé; ou que aquele que tem a fé sem a caridade não é cristão - seja excomungado [cf. n° 808].

839. Cân. 29. Se alguém disser que não pode levantar-se com o auxílio da graça de Deus aquele que caiu depois do Batismo; ou, que pode novamente levantar-se e recuperar a justiça perdida, mas só pela fé, sem o sacramento da Penitência, como a Santa Romana e Universal Igreja, instituída por Cristo Nosso Senhor e por seus Apóstolos, tem até o presente professado, observado e ensinado - seja excomungado [cf. n° 807].

840. Cân. 30. Se alguém disser que a todo pecador penitente, que recebeu a graça da justificação, é de tal modo perdoada a ofensa e desfeita e abolida a obrigação à pena eterna, que não lhe fica obrigação alguma de pena temporal a pagar, seja neste mundo ou no outro, no purgatório, antes que lhe possam ser abertas as portas para o reino dos céus - seja excomungado [cf. n° 807].

841. Cân. 31. Se alguém disser que o homem justificado peca quando faz boas obras em consideração ao prêmio eterno - seja excomungado [cf. n" 804].

842. Cân. 32. Se alguém disser que as boas obras do homem justificado de tal modo são dons de Deus, que não são também méritos do homem justificado; ou que este homem justificado, com as boas obras que faz com a graça de Deus e merecimento de Cristo (do qual é membro vivo) não merece verdadeiramente o aumento da graça, a vida eterna e (se morrer em graça) a consecução da mesma vida eterna bem como o aumento da glória - seja excomungado [cf. n" 803 e 809 s].

843. Cân. 33. Se alguém disser que com esta doutrina católica da justificação, expressa no presente decreto pelo santo Concílio, se derrogam de algum modo a glória de Deus, ou os merecimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo, e não se esclarece a verdade da nossa fé e enfim a glória de Deus e de Jesus Cristo - seja excomungado [cf. n° 810].

Everton Jobim

 

(1) Concílio Vaticano I, Sessão III, capítulo 2, cânone I;

(2) II Concílio de Orange, cânone 7 (Denz., n. 180). Concílio de Trento, Sess. VI, cânone 2;

(3) II Concílio de Orange, cânones 3 e 6 (Denz., n. 176, 179). Concílio de Trento, Sess. VI,capítulo 5 (Denz., n. 797) e cânone 3 (Denz., n. 813);

(4) II Concílio de Orange, cânone 9 (Denz., n. 182). Concílio de Trento, Sess. VI, capítulo 16(Denz., n. 809). II Concílio de Orange, Cânone 10 (Denz., n. 183). Concílio de Trento, Sess. VI, cânones 16 e22 (Denz., n. 826, 832). Concílio de Vienna (contra errores Ioannes Olivi) (Denz., n. 483). Concílio de Trento, Sess.VI, cânone 11 (Denz., n. 821). V; (5) Concílio de Trento, Sess. VI, capítulo 7 e cânone 24 (Denz, n. 799, 834) (6)Concílio de Trento, Sess. VI, capítulo 9 e cânones 13, 14, 16 (Denz., n. 802, 823, 824, 826).