SENTIDO   DAS   EXÉQUIAS   CRISTÃS

Como tantos outros aspectos da liturgia cristã, as exéquias constituem uma classe de ritos comparáveis aos de outras religiões. Um bom caminho para descobrir os valores especificamente cristãos das exéquias é sua comparação com os ritos funerários pagãos, nos quais é possível sublinhar as seguintes dimensões: são ao mesmo tempo um ato profundamente humano e um rito religioso e sagrado; neles dão-se a mão o culto divino e o culto aos mortos; exprimem a íntima comunhão existente entre vivos e defuntos e, de um modo ou de outro, manifestam a esperança no além. Em relação a cada uma destas dimensões, podemos também distribuir os principais valores das exéquias cristãs.

 

1. CELEBRAÇÃO LITÚRGICA DA MORTE

Os ritos e orações que a Igreja previu por ocasião da morte de um cristão podem ser vistos como simples prova de sentimento humanitário. Mas se em todas as culturas os funerais tiveram um valor e um significado religioso, muito mais no cristianismo, para o qual todo o autenticamente humano é susceptível de adquirir sentido sagrado.

A celebração litúrgica da morte tem seu lugar próprio nos momentos que antecedem imediatamente a morte ou durante a mesma: o viático e a recomendação do moribundo constituem as ações litúrgicas que convertem um ato fisiológico numa celebração cristã, no qual o mesmo moribundo toma parte ativa. A morte pode ser objeto de celebração litúrgica na medida em que está relacionada com o mistério pascal de Jesus Cristo, única realidade que é de fato celebrada pelos cristãos. A morte para o cristão alcança seu sentido específico quando é o meio para incorporar-se definitivamente ao mistério pascal, como termo dinâmico da "morte" mística operada no batismo e de todas as "mortes" diárias ao pecado.

As exéquias contribuem para sublinhar este aspecto de celebração da morte, sem esquecer outras dimensões complementares. A Igreja, por meio das exéquias, reza pelo defunto e dá ensinamentos aos vivos, mas principalmente "celebra" o fato da morte, não evidentemente por si mesmo, mas enquanto acontecimento de salvação, já que está ligado à fonte originária de toda salvação, que não é outra senão a morte e ressurreição do Senhor.

 

2. VENERAÇÃO CRISTÃ DO CORPO

No cristianismo também podemos falar dos ritos funerários como de "honras fúnebres" tributadas ao defunto, mas num sentido muito diferente daquele que é habitual no paganismo. Neste, o culto aos mortos adquire ou caracteres de temor supersticioso, ou então aspectos especificamente divinos. Nas exéquias a Igreja honra o corpo do defunto por razões relacionadas com a fé: o corpo do cristão foi instrumento do Espírito Santo e é chamado à ressurreição gloriosa.

Os ritos e cerimônias que na antigüidade constituem a toalete fúnebre eram expressão da veneração cristã do corpo: a mesma realidade corporal que, em vida, havia sido banhada pela água do batismo, ungida com óleo santo, alimentada com o pão e o vinho eucaristicos, marcada com o sinal da salvação, protegida com a imposição das mãos, isto é, que havia sido instrumento da eficácia dos sacramentos, uma vez convertida em cadáver, continuava sendo objeto de cuidado solícito da mãe Igreja. O Ritual atual prevê - e talvez fosse conveniente revalorizar todos estes gestos - que o corpo do defunto seja aspergido com água benta, iluminado com luzes e tratado com o máximo respeito. São sinais de que o corpo é algo sagrado para o cristão e de que o cristianismo não quer nada com dicotomias artificiais: é todo o homem, alma e corpo formando uma unidade vital, que é objeto da salvação.

 

3. COMUNHÃO ENTRE VIVOS E DEFUNTOS

O cristianismo aceita a convicção pagã de que o defunto não desaparece nem se afasta totalmente do mundo dos seres vivos, e a eleva a um plano totalmente iluminado pela luz da fé. O cristão não morre sozinho, mas o faz cercado pela comunidade de crentes, a qual, por sua vez, se encarrega de encomendá-lo à comunidade eclesial. Vários aspectos tradicionais dos ritos exequiais cristãos mostram admiravelmente esta verdade.

  1. Presença da comunidade junto ao cadáver

    A princípio, talvez se tratasse apenas do grupo familiar. Mais tarde é a comunidade paroquial, embora seja apenas por meio da representação do pároco, que se faz presente tanto no momento da morte como na celebração dos ritos post mortem. Nas ordens monásticas ainda tem muita importância a reunião afetiva de todos os membros da comunidade junto ao leito do moribundo, primeiro, e junto ao féretro, depois. O mesmo sentido deveria ter o costume dos "velórios". O Ritual atual, além disso, restaurou o antigo rito chamado "última recomendação" ou saudação final tributada ao cadáver, rito que - tomando em cada lugar a forma mais apropriada à sua idiossincrasia cultural - deveria ser considerado como um ponto culminante da celebração exequial: é a saudação de despedida que toda a comunidade apresenta ao membro defunto no momento de sua partida para a casa do Pai.

    Convocação dos santos

    Tanto nas orações da recomendação do moribundo como nas orações e cânticos que acompanham os ritos mortuários, há invocações à Virgem Maria, aos anjos e aos santos. Sem negar o aspecto de petição de intercessão dos mesmos em favor do defunto, é preciso sublinhar como intenção primordial da liturgia a de realizar como que uma chamada, uma convocação de todos os membros da Igreja celestial para que recebam em sua companhia aquele que até agora fazia parte da comunidade terrena.

     

  2. Procissão

    As exéquias podem ser consideradas um tipo especial de procissão litúrgica. Como toda procissão, exprime o simbolismo da Igreja como povo peregrinante, em marcha, para as metas definitivas da glória. É precisamente por ocasião da morte de um de seus membros que a comunidade eclesial pode sentir-se menos instalada neste mundo e experimentar ao vivo sua essencial condição nômade, de homens e mulheres que não têm aqui morada permanente mas que esperam a futura. Embora atualmente haja razões poderosas que obrigam a suprimir os cortejos fúnebres, sobretudo nas grandes cidades - e a isto obedece a possibilidade prevista no novo Ritual de organizar as exéquias segundo três tipos principais, que se diversificam segundo o número de estações e procissões -, contudo, parece que é necessário conservar de alguma forma o sentido processional das exéquias.

  3. Oração pelo defunto

    Um dos principais objetivos que a liturgia dos funerais persegue é o de elevar preces de intercessão pelo defunto, com o que se põe também em evidência a íntima vinculação entre vivos e mortos. As petições da Igreja centralizam-se no perdão dos pecados do defunto, na libertação das penas do inferno, na entrada na glória celestial. O sacrifício eucarístico oferecido pelo defunto tem também essa finalidade de intercessão, e também as orações que fazem parte da vigília fúnebre. Tudo isto é mostra palpável dos vínculos estreitos que existem entre a comunidade dos vivos e o membro defunto. É interessante verificar que a oração mais antiga pelos defuntos - ainda incrustada na oração eucarística - diz simplesmente: Memento, "Lembra-te, Senhor", insinuando com isto que a "recordação" que Deus tem dos defuntos está intimamente vinculada à "recordação" que deles conservam os fiéis vivos através de suas orações e sufrágios.

  4. Catequese para os vivos

    Boa parte da liturgia exequial está destinada a doutrinar os fiéis vivos sobre o sentido da morte. A Igreja, aproveitando o fato da morte de um dos seus filhos, ministra um ensinamento vivo e eficaz, que serve também para reforçar os laços de união entre todos os seus filhos. As leituras bíblicas e a homilia constituem uma parte essencial de tal ensinamento catequético, mas também os cânticos e as orações contêm uma grande riqueza doutrinal. Um aspecto interessante deste ensinamento - e que também mostra a vinculação com o defunto - é que, de certa forma, é o próprio defunto que, posto no meio da assembléia, adoutrina os demais com sua presença muda e com uma série de textos ditos in persona defunti.

4. ESPERANÇA DA RESSURREIÇÃO

A esperança da ressurreição é um dos leitmotiv mais manifestos das exéquias cristãs. Os textos das leituras bíblicas, dos salmos, das antífonas e das orações exprimem constantemente a confiança na ressurreição dos mortos. O rito da inumação ou enterro propriamente dito também tem este significado, que é o indicado por são Paulo: "Semeado na podridão, o corpo ressuscita incorruptível. Semeado na humilhação, ele ressuscita glorioso. Semeado frágil, ressuscita forte. E semeado um corpo animal, ressuscita um corpo espiritual" (1Cor 15,42-44). O rico simbolismo da inumação, herdado de outras religiões, é o que explica a resistência que a Igreja Católica teve em admitir outro tipo de práticas com relação aos cadáveres. Contudo, a legislação canônica atual admite também a cremação e incineração, desde que isto não represente desprezo pelo dogma da ressurreição dos mortos nem se apresente como uma atitude anticristã.

Em resumo, se queremos situar em seu lugar adequado a originalidade específica das exéquias cristãs em relação com os ritos funerários civis ou de religiosidade natural, devemos falar, de acordo com a constituição "Sacrosanctum concilium" do Vaticano II (n. 81), do "sentido pascal da morte", isto é, da relação da morte cristã com o mistério pascal de Jesus Cristo. Não poderia ser de outro modo, já que o caráter específico do cristianismo, sua novidade radical, consiste precisamente na pessoa de Cristo e, mais concretamente, no aspecto dinâmico de sua morte e de sua ressurreição.

  Texto retirado das páginas 617 a 620 - EDIÇÕES "LOYOLA"