CULTO  DAS  IMAGENS

O ocaso do paganismo afastou todo o perigo da idolatria. Por isto, os cristãos, que já veneravam os mártires nas catacumbas e, segundo uma forte tradição, desde o século II veneravam uma pintura da Virgem Maria, feita por Lucas, o Evangelista, a partir do século IV multiplicaram as efígies sacras. Tríplice finalidade: embelezar as igrejas, instruir os cristãos com os exemplos de seus antepassados ou coetâneos na fé e para venerar, glorificar aqueles que tinham sido exemplares epígonos de Jesus Cristo.

O papa Gregório Magno foi um dos que mais louvaram tal iniciativa. O culto era dirigido não ao ícone, mas àquele que estava ali representado e, na verdade, por ter sido um modelo.

Do oriente esta prática se difundiu para o ocidente. Na Igreja greco-oriental, como aliás acontece até hoje, as imagens eram consideradas sinais de uma comunhão profunda com aqueles que já se acham na Jerusalém celeste, como autênticos mediadores junto do divino Redentor. Daí o costume que passaram aos ocidentais de as oscular e lhes acender velas, lâmpadas, queimar incenso e outras provas de louvor.

Algumas imagens, devido os favores celestes obtidos pela invocação quer do próprio Filho de Deus, de Maria Santíssima ou outro santo, passaram a ter especial estima. Um dos apóstolos que, desde o começo, sobretudo em Roma foram objeto de dúlia foi o Apóstolo Pedro, como se pode confirmar ao se observar suas numerosas representações sobre os sarcófagos primitivos. Os túmulos, mormente dos mártires, passaram a ser local de peregrinação desde o fim do século IV.

Os monges orientais podem ser considerados os pioneiros da devoção às imagens. Chefes espirituais do povo, eles prezavam muito o valor pedagógico desta manifestação de acatamento aos heróis da fé. No século VIII as forças do mal se uniram para destruir tão salutar demonstração de piedade.

O imperador-soldado Leão III (717 - 741), chamado o Isáurico abriu luta contra as imagens em Constantinopla, hoje dita Istambul. Mandou retirar ou cobrir todas as imagens. O campeão da ortodoxia foi João Damasceno, monge no convento de são Sabas, próximo de Jerusalém. Em desacordo com a heresia iconoclasta, a combateu em diversas obras. Citava são Basílio, bispo de Cesárea: "A veneração prestada à imagem transita para o protótipo". Explicava: "Como nem todos têm conhecimento das letras nem tempo para ler, pareceu aos Padres que certas façanhas notáveis devessem ser representada em imagens que delas seriam uma breve recordação", ou seja, a imagem é a Bíblia dos iletrados.

Entretanto, que os cristãos mais instruídos compreenderam que contemplar a figura de um santo era um incentivo à imitação e mais um canal de bênçãos celestes. Assim, até os papas sempre veneraram os notáveis discípulos de Jesus, como o sábio João Paulo II que já visitou inúmeros santuários de Maria e dos Santos.

O sétimo concílio ecumênico de Nicéia em 787 declarou que se podia e se devia tributar um culto de devota veneração com lâmpadas, incenso e prostrações à Santa Cruz, às imagens de Cristo, da Virgem, dos anjos e dos santos, pois essa veneração é dirigida ao protótipo mesmo, isto, é à pessoa representada. Adoração, firmaram os padres conciliares, só a Deus.

É de notar que no oriente, no século IX a imperatriz Teodora, ante novo surto iconoclasta, repôs o culto das imagens num sínodo reunido em Constantinopla em 843. Como perene recordação daquele faustoso evento foi instituída a "grande festa da ortodoxia", que é celebrada antes do primeiro domingo da quaresma. Esta festa se dá até nossos dias na Igreja grega. Veneremos as imagens dos nossos santos que estão à nossa espera na Casa do Pai!

côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho