CHAMADOS Á RECONCILIAÇÃO

Nós católicos, somos chamados a ser testemunhas da forma como se pode viver hoje “a civilização do amor. ”Nós , casais, em particular, devemos testemunhar aos nossos filhos e ao mundo, que é possível viver um amor e que isso é fonte de riqueza e felicidade.

Os nossos temperamentos, personalidades, sentimentos... Poderíamos dizer, em termos gerais, que as nossas diferenças são fonte de riqueza e de complementaridade, mas ao mesmo tempo de dificuldades, porque isso exige que nos entendamos, nos respeitemos, nos reconheçamos diferentes, nos valorizemos...

As diferenças trazem consigo, inevitavelmente, conflitos, presentes nos universos variados que freqüentamos. A nossa paz interior e a nossa felicidade, a daqueles que nos rodeiam, depende da nossa capacidade de resolver os conflitos.

Além dos conflitos entre as pessoas, nós somos igualmente a causa dos conflitos com Deus. Ofendemos freqüentemente o Senhor, separamo-nos do Seu amor. Todavia, com a Sua infinita misericórdia, Ele está sempre aberto à reconciliação, com a condição de nosso arrependimento sincero.

1. UMA VISÃO GERAL

1.1. Os conflitos

A vida traz muito freqüentemente conflitos pessoais ou de convivência. Os conflitos geram em nós reações que se exprimem no nosso interior ou que se exteriorizam contra os outros. Em conseqüência dos conflitos, encontra-se:

» Agressividade, tanto verbal como física

» Silêncio

» Indiferença

» Vingança

» Rancor, ódio..

Quando nos sentimos atacados, desvalorizados, ofendidos, certos sentimentos surgem, que nos causam cólera, dor, tristeza...

1.2. A reflexão e o diálogo

Para resolver os conflitos, é indispensável fazer uma reflexão interior que nos leve a

reconhecer os nossos erros e a compreender as causas que os motivaram.

O diálogo ajuda-nos a esclarecer as coisas, a compreender...e, finalmente, a perdoar e a encontrar uma verdadeira reconciliação.

1.3. O perdão

O perdão é uma decisão que resulta da reflexão e do diálogo. Ele não aparece espontaneamente, leva um certo tempo. Exige um grande esforço e uma boa dose de generosidade, de humildade, de coragem, de compreensão e de amor.

Quando chegamos a uma reconciliação verdadeira, obtemos como conseqüência uma

paz interior e um amor crescente, tanto a Deus que nos ajudou no caminho para a

encontrar como aos nossos semelhantes.

2. CARACTERÍSTICAS DO PERDÃO DE DEUS

Para iluminar o caminho que nos conduz à reconciliação, parece-nos importante refletir sobre a maneira com a qual Cristo nos ensina a perdoar e as características do Seu perdão.

O perdão de Deus é infinito

“Senhor, quantas vezes devo perdoar ao irmão que pecar contra mim? Até sete vezes?

Jesus respondeu:”Não te digo até sete, mas até setenta e sete vezes” (Mt.18,21 - 22)

“Se teu irmão pecar, repreende-o; e se ele se arrepender, perdoa-o” (Lc. 17,3)

O perdão de Deus vai mais longe

Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem...se amais aos que vos amam, que recompensa tendes?” (Mt. 5,44 - 46)

O perdão de Deus é fruto do seu amor

O Filho pródigo: “...o pai viu-o, encheu-se de compaixão, correu e lançou-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos...Comamos e festejemos pois este meu filho estava morto e tornou a viver ...” (Lc. 15,20 - 23)

O perdão de Deus produz um amor maior

A pecadora arrependida: “...ela, ao invés, ungiu-me os pés com perfume. Por esta razão, eu te digo, seus numerosos pecados lhe estão perdoados, porque ela demonstrou muito amor. Mas aquele a quem pouco foi perdoado mostra pouco amor” (Lc. 7,46 - 47)

O perdão de Deus é para todos

A mulher adúltera: “Nem eu te condeno. Vai, e de agora em diante não peques mais” (Jo 8,11)

O perdão de Deus exige o nosso perdão

“Perdoai, e vos será perdoado” (Lc 6,37) Trechos tirados do Catecismo da Igreja Católica (nº 2839 a 2845)

Perdoai nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido (Mt. 6,12)

Este pedido é surpreendente. Conforme a segunda parte da frase o nosso pedido não será atendido se nós não tivermos antes respondido a uma exigência . Uma palavra liga as duas partes “como”

Perdoa as nossas ofensas...

A misericórdia do Senhor não pode penetrar no nosso coração enquanto nós não tenhamos perdoado aos que nos ofenderam.

...como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.

Este “como” não é único nos ensinamentos de Jesus:

» Sede perfeitos “como” vosso Pai Celeste é perfeito.

» Sede misericordiosos “como” vosso Pai é misericordioso

» Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Que “como” eu vos amei, assim também vocês amem uns aos outros.

Assim o perdão torna-se possível, perdoando-nos mutuamente “ como” Deus em Cristo nos perdoou. Assim as palavras do Senhor sobre o perdão adquirem vida, este AMOR que ama até ao extremo do amor.

3. O PECADO, O SENTIMENTO DO PERDÃO E DA RECONCILIAÇÃO NA IGREJA

Deus convidou-nos a participar na vida, chamou-nos a ser filhos e só conhecendo a vontade de Deus é que podemos encontrar o nosso próprio caminho de plenitude. Deus convidou a humanidade, desde Abraão, a seguir o “Seu caminho”:” Deixa a tua terra, a tua família, as tuas tradições...e vem onde Eu te levar”. Todavia, estamos habituados

à nossa autonomia e à maneira como sentimos a liberdade; não é fácil mudar de perspectiva.

O sentido de “ aliança”, de pacto e de compromisso, de unidade entre Deus e os homens, nasce passando por Moisés, por David, pelos profetas...finalmente chegamos à resposta plena e total : JESUS. Nele, se recapitula a humanidade que diz livremente a Deus: “ACEITO”. É um meio concreto de responder ao chamado e de lhe ser fiel.

Somente nesta óptica, é possível reconhecer a realidade do pecado. Pecado como uma negação da relação, pecado como a infidelidade ao chamamento, pecado como uma ruptura da aliança, pecado como a autonomia e desconfiança. Não se trata da violação de uma norma mas da ruptura de uma relação. A norma é posterior e é a ajuda pedagógica para uma melhor compreensão.

Assim nós podemos, também, compreender Jesus como Redentor, como Salvador, como Cordeiro de Deus que tira o pecado. Que fez Jesus? Por um lado, respondeu com toda a fidelidade: a Sua vida é fazer a vontade do Pai. Por outro lado, ofereceu a Sua existência humana para que os humanos pudessem alcançar a plenitude. E sendo a realidade do pecado o obstáculo para uma vida total e plena, Jesus derrama Seu sangue para purificar e abrir a porta à plenitude. Ele oferece o perdão e dá o perdão.

Não é somente a Sua pregação (Lc. 15), não são apenas as suas palavras de perdão aos pecadores (paralítico Mc. 2,1 - 12; adúltera Jô. 8,1 - 11; pecadora (Lc. 7,36 - 50) mas a Sua paixão, a Sua morte e a Sua ressurreição que se tornam o caminho do perdão.

E Jesus transmite o poder de perdoar, à comunidade daqueles que serão a Sua presença quando Ele já não esteja visível (Jo. 20,19 - 23). Por esta razão, a Igreja acolhe a missão e a responsabilidade de tornar presente e efetivo o perdão de Deus para os homens.

Quando experimento que sou o filho do Pai e que sou membro da comunidade dos que querem seguir Jesus, reconheço que existem momentos nos quais os meus sentimentos, as minhas atitudes, minha maneira de agir não são resposta autêntica e nem fiel a quem me convida e me chama . E essa é a razão da necessidade de buscar o perdão e pedir à comunidade para que me dê o perdão.

No decorrer dos tempos, as maneiras de encontrar a reconciliação com Deus e com a comunidade através do perdão sacramental tem variado. Atualmente, pede-se aos crentes que olhem atentamente a sua vida para descobrir e reconhecer os seus pecados; que possam além disso experimentar a força do rompimento e da falta de amor; que no encontro com Deus apareça o propósito de mudar de atitudes e de comportamentos; e depois disso, que procurem um ministro da comunidade que acolha a confissão dos pecados e lhe conceda o perdão, a reconciliação e a paz.

O importante esta na nossa relação com Deus, no sentimento de pertença à comunidade e na consciência das circunstâncias de infidelidade e rompimento. O valor fundamental é a certeza do amor do Pai que convida, que acolhe, que chama, torna livre na resposta e que abraça e perdoa quando é necessário. Só na experiência da misericórdia de Deus que, apesar de tudo, não cessa de me amar, posso compreender o perdão e posso também oferecer o perdão.

4. PARA OS CASAIS E FAMÍLIAS

4.1 Algumas considerações

O perdão é uma grande exigência e dificuldade para nós; a dificuldade para perdoar é diretamente proporcional à dor que a ofensa nos causou. A dor nos causa ressentimento e requer realizar um processo que feche a ferida, o qual não devemos demorar para que não se acentue a dor.

É indispensável aumentar a nossa capacidade de perdoar. Contamos evidentemente com a ajuda do Senhor, mas ao mesmo tempo com Sua exigência de que aprendamos a perdoar.

O perdão de Deus é gratuito, mas exigente ao mesmo tempo.

Se requer que o perdão seja total, sem condições. Muitas vezes dizemos:

» Eu perdôo, mas não esqueço.

» Eu perdôo, mas da próxima vez...

Para perdoar, é preciso dialogar, olhar-se nos olhos e mudar as atitudes ou as causas que foram motivo do conflito. Para o conseguir é indispensável:

» Escutar

» Compreender

» Amar.

Sim, para perdoar é preciso amar. Depois de ter dado o primeiro passo, as coisas são mais fáceis e experimenta-se a felicidade de se amar mais, de ter sido capazes de se compreender. As nossas relações terão melhorado, terá renascida a felicidade, a paz...

O perdão não é uma sepultura, é uma história nova, é criação, é ressurreição.

O perdão faz bem àquele que o pratica, limpa os venenos, os ressentimentos, os remorsos, as invejas...Podemos estar certos que depois de reconciliados, as coisas não serão mais as mesmas, melhorarão infinitamente, teremos crescido de forma humana e cristã.

O perdão encerra uma oportunidade de crescer na generosidade.

A palavra perdão é mágica, ela faz milagres, mas como é difícil pronunciá-la! A simples palavra perdão rompe barreiras, abre horizontes, desarma os corações.

O perdão faz crescer aquele que o dá e reparte ganhos entre o ofendido e o que ofende.

Acaba com os venenos, os ressentimentos, as invejas e ódios.

Todos temos experimentado a felicidade, a imensa alegria que a reconciliação nos dá. O Mundo muda de cor.

Quanto mais trabalho custar pedir e dar o perdão, maior será a felicidade ao conseguilo.

4.2 A nossa força para perdoar e obter o perdão.

Nós casais somos chamados a dar testemunho da fé, da esperança e do amor que aumentam com o perdão oferecido e recebido com nossos irmãos e com o Senhor através da reconciliação sacramental.

O Papa João Paulo na sua “Carta às famílias” apresenta-nos esta mensagem de alento e de esperança: ”Queridas famílias, deveis ser corajosas, sempre prontas a dar testemunho da vossa esperança (1 Pe .3,15), porque o Bom Pastor a depositou no vosso coração por intermédio do Evangelho. Não tenhais medo dos riscos! A força divina é muito mais poderosa que as vossas dificuldades! Imensamente maior que o mal, que age no mundo, é a eficácia do sacramento da reconciliação, chamado acertadamente pelos padres da Igreja “segundo

batismo”.

O Bom Pastor está conosco em toda a parte. Do mesmo modo que em Caná da Galiléia, como Esposo entre os esposos que se entregavam reciprocamente para toda a vida, o Bom Pastor está hoje convosco como motivo de esperança, força dos corações, fonte de entusiasmo sempre novo e sinal da vitória da “civilização do amor”.

5 . CONCLUSÃO

O perdão é uma ação transformadora do mundo. Nós, famílias católicas, temos o desafio de testemunhar de que este é possível e do nosso crescimento no amor reconciliando-se nas nossas famílias e com os nossos irmãos. É necessário que se possa dizer de nós como dos primeiros cristãos: “Vede como eles se amam”.

Pedimo-lo a Nossa Senhora, que soube viver no amor e a paz, apesar de numerosas angustias, dificuldades e incompreensões, que nos ajude a ser tolerantes com aqueles que nos rodeiam e a testemunhar que é possível desarmar nossos corações e viver o amor como Cristo nos ensinou.

Sylvia y Andrés Merizalde