CRISTIANISMO, APRENDIZADO PERMANENTE

Cristo se tornou Mestre porque foi aprendiz

Vejo nossa experiência cristã como um aprendizado permanente, uma conquista diária. Sensibilizamos-nos diante do Evangelho de Jesus Cristo, nos colocamos à disposição desse Cristo, ouvindo Sua palavra, tentando aprender com Ele a viver nossa vida.

Sempre ouvimos falar de Jesus Mestre. “Rabi” era a expressão utilizada para se dirigir a Jesus Cristo. Mas a figura de Jesus Mestre esconde uma outra realidade que também o acompanhou a vida toda, que foi a sua realidade como aprendiz, e porque foi aprendiz é que pode se tornar Mestre.

Teve que aprender sobre os valores da vida, sobre as pessoas, sobre os valores  que valem a pena  e os contra valores que destroem a dignidade humana. Tudo isso Ele teve que aprender para poder falar com a autoridade de quem viveu e aprendeu com a própria experiência.

As parábolas que Ele contava diziam assim: “Olhai as aves do Céu, elas não semeiam, não colhem e no entanto o Pai do Céu as alimenta”. Ou então: “Olhai os lírios do campo. Eles não tecem, não fiam e no entanto ninguém se veste tão bem quanto eles.”  Vamos prestar atenção apenas na linguagem que Ele usava. Ora, alguém que diz isso é alguém que observa as coisas, aprende com as lições da própria natureza e não chegou ao mundo já sabendo.

Quando Ele diz: “O Reino dos Céus é como uma semente que o lavrador semeia e depois vai dormir e não se preocupa mais com ela. Semeada na terra, brota sozinha, cresce, virá arvore. O lavrador que a semeou não sabe como se fez isso. Assim também é o Reino de Deus”. A gente vê que Ele era um homem que observava a natureza, e aprendia.”O Reino de Deus – dizia Ele – é como uma mulher que pega um punhado de fermento e faz a massa crescer”. Eis um homem que observava o trabalho da mulher e daí tirou uma lição para transmitir aos outros. ”Vós deveis ser como o sal, e deveis ser como a luz”. Ele via que o sal não tinha sentido em si próprio; sozinho não servia para nada, só tem sentido se estiver em função de algo maior que ele. Assim também a luz, sozinha não significa nada; só vale se iluminar outros.”Vós deveis ser como o sal que ajuda a dar alegria e gosto a vida, e deveis ser como a luz, que brilham para os outros...”

Jesus, olha a natureza e as pessoas. ”Vocês tem que ser que nem as crianças”. Por quê? Porque ele observava o jeito como as crianças são, com aquela desenvoltura, aquela confiança de se jogar, aquela falta de preocupação com o futuro. Ele observava por exemplo, a angustia de uma mulher que estava para dar a luz, a dor que depois se transformava numa alegria muito maior quando a criança nascia. E essa alegria que ela tinha ao dar a luz a criança fazia com que esquecesse de todo o sofrimento pelo qual passou. Assim também, Ele dizia: ”a alegria a nós reservada é muito superior a todo o sofrimento que temos que passar para conquistá-la”.

Estou citando esses exemplos para irmos tentando entrar um pouco mais nessa pessoa que é Jesus de Nazaré, que nós acostumamos a chamar de Mestre, esquecendo-nos de que foi primeiro aprendiz.

Foi um aprendizado a serviço da vida humana. As pessoas que ouviam ficavam admiradas porque Ele ensinava não como os mestres profissionais da religião e da sabedoria.

As pessoas percebiam nele que não apenas era coerente com o que dizia, mas que primeiro aprendeu, para depois ensinar. Por isso Seu ensinamento tinha uma autoridade incomparável, porque não era a transmissão de um conhecimento puro, filosófico; era a comunicação, a partilha como os outros de uma experiência que Ele próprio havia vivido e aprendido. E a medida em que ia observando as coisas, ia aprendendo com a natureza, com as pessoas, com o jeito das pessoas viverem, trabalharem, ia descobrindo os valores que conferem de fato dignidade à vida humana, os valores pelos quais vale a pena lutar, sofrer, viver,morrer.

 Aprendia também a identificar os contra valores, os falsos valores. No episódio das tentações no deserto, teve também que tomar decisões, que caminho escolheria. Foi tentado pelos falsos valores da riqueza, do prestigio, da vaidade, da ambição, da cobiça, que está ao nosso redor. Quando diz “não ajunteis para vós tesouros da terra, onde a traça e a ferrugem consomem, mas procurai juntar tesouros no Céu...”, foi porque Ele próprio venceu a tentação da cobiça e da ambição. Quando conta aquela parábola do tesouro escondido no campo:”Alguém o descobre e em troca é capaz de vender tudo o que tem para comprar o tesouro”, ou o “O Reino  de Deus é como uma pérola preciosa, que é preciso descobri-la  e quando a gente descobre, vai e vende tudo que tem para comprá-la”, trata-se de um aprendizado que Ele viveu.

Trocou as varias possibilidades que teve na vida por uma que achava maior: o anuncio do Reino de Deus Pai. Para fazer esta escolha, teve que experimentar as tentações dos outros caminhos e vencê-las.

Em outra passagem o evangelista diz assim: “Naquele momento, Jesus exultou de alegria sob a ação do Espírito Santo e disse ”Eu te bendigo meu Pai, porque escondeste estas coisas aos sábios, aos entendidos e as revelaste aos pequeninos e aos simples“. A maneira como o evangelista narra: Jesus exultou de alegria sob a ação do Espírito Santo e clamou ”Eu te bendigo meu Pai...” foi uma descoberta que Ele fez, e não algo que sabia previamente. E é depois deste aprendizado que pode ensinar: ”felizes os que têm o coração pobre, porque deles é o Reino de Deus”. Não destas pessoas maliciosas, com segunda intenção, que a gente nunca sabe de fato o que querem, o que estão planejando. Mas daqueles que são transparentes, felizes, porque é com eles que o Reino do Céu será construído.

Felizes os misericordiosos. Felizes aqueles que tem sede de justiça, que querem um mundo novo e tem esperança no coração e lutam para construir esse mundo novo. Alguém que aprendeu, que não se fechou às revelações que Deus vai-nos fazendo ao longo da vida.

Todo ensinamento de Jesus vale para a humanidade, porque foi um ensinamento, aprendido a partir da Sua experiência de vida. Jesus Cristo sabia muito bem separar fraqueza de maldade. Todos nós somos fracos, imperfeitos, necessitados, carentes, condicionados. Diante da fraqueza Ele usava de compaixão, de compreensão, de misericórdia. Outra era a sua atitude diante da maldade, que é muito diferente de fraqueza. Maldade é insidiosa, traiçoeira, aquela coisa de dar rasteira, de planejar friamente o mal contra o outro, a vingança calculada. O olhar de Jesus para Pedro, quando ele tinha acabado de negá-lo da Paixão é um olhar não de condenação, mas de misericórdia, porque sabia que aquela atitude de negação não era algo que Pedro fez por maldade, mas por fraqueza, por medo. Diante da fraqueza humana era misericordioso.

Diante da falsidade, da hipocrisia, dos que se julgavam melhores que os outros, tinha palavras duras.

Jesus era um homem de meditação, de observação das coisas e das pessoas, um homem de oração. A medida em que ia trazendo para a oração essas situações humanas, esses ensinamentos da vida e os colocando diante de Deus, ia, em Sua oração, aprendendo a conhecer Deus. Sua oração era como uma sondagem para ver qual era a palavra de Deus em face da vida, um aprendizado do ser de Deus. É por isso que dizia: “Ninguém conhece o Pai a não ser o Filho. Ninguém conhece o Filho a não ser o Pai”. A oração de Jesus era sempre uma descoberta da identidade do Pai. “Meu Pai, qual a Vossa Vontade? Que não seja feita a Minha, mas a Vossa.” Aprender qual à vontade de Deus sobre as pessoas, sobre a vida humana, sobre as coisas. Ai Ele podia nos ensinar que devemos sempre procurar superar nossos limites, a única coisa que faz a humanidade crescer. Por exemplo, perdoar que está no centro da oração do Pai Nosso.

Que é perdoar? senão superar limites? Porque a primeira reação que vem é o troco, e se dermos o troco, Deus talvez até compreenda e perdoe a nossa fraqueza, mas isto não faz a humanidade crescer. Quando perdoamos, acrescentamos algo novo na relação humana. E de fato crescemos. Aliás, o evangelho, o ensinamento da experiência vivida por Jesus não é outra coisa senão isso: mostrar que é preciso romper limites que nos amarram, que nos fazem agir como agimos. O Evangelho é um convite à superação dos nossos limites.

Vou ler um trecho de Mateus (15,21 - 28). É interessante este texto que nos choca um pouco, porque a gente não esperava isto de Jesus. Sua atitude diante daquela mulher desesperada: “Senhor, salva a minha filha!” A filha dela estava gravemente enferma e Jesus não diz nada àquela mulher. Ela insiste. Ele responde: “Mas eu só vim para o povo de Israel”. Ela não faz parte deste povo, é uma mulher pagã, mas vai correndo, gritando atrás, não desiste. Os discípulos dizem:”despede essa mulher, mande logo ela ir embora.”Jesus diz:”Eu não vou tirar o pão da mesa das crianças para jogá-lo para os cães, para os cachorrinhos”.

Que palavras duras! Tem muita gente que interpreta essa passagem da vida de Jesus como se Ele estivesse fazendo um teste para ver a fé da mulher. Mas, se isso fosse verdade, que crueldade seria fazer um teste com uma mulher numa situação dessas! Não seria o nosso Jesus! Os judeus consideravam “cães” a todos os que não eram judeus. Cães não era um tanto pejorativo para diminuir o outro, mas para dizer que eram pagãos, estavam fora. Era o jeito judeu de achar que as coisas deveriam ser e Jesus era judeu, partilhava dessa concepção de que o povo judeu era único exclusivo de Deus.

Foi a mulher que o convenceu do contrário. Ele aprendeu com ela a olhar o mundo com outros olhos, a superar os limites da sua condição histórica e cultural. Ultrapassar barreiras.

E aprendeu o que é ter fé, correr atrás daquilo que se acredita. E se admirou com a fé de uma pagã. Não foi uma única vez que isto aconteceu em Sua vida. Já estava bem avançado na missão quando isto aconteceu. Mas ainda tinha  coisas para aprender. Os discípulos depois também vão fazer este aprendizado. Hoje também temos que aprender até o fim. O aprendizado de Jesus durou toda a Sua vida e não aprendeu tudo. Seu ultimo grito na cruz  era o grito de alguém que entendendo.”Meu Deus, por que me abandonaste?” Ele morreu com uma pergunta.

Não aprendeu tudo de Deus e ainda ficou faltando àquela parcela que continua sendo mistério para nós. Estamos tentando descobrir o ser de Deus e vamos aprendendo, mas alguma parte do mistério permanece, que Deus só vai nos revelar diretamente, como revelou a Jesus ressuscitando-o.

Temos que estar abertos a aprender sempre a refazer nossos valores e nossas convicções, para elaborar novas sínteses e enfrentar os desafios novos que vão surgindo no dia-a-dia, diferentes dos desafios do tempo de Jesus.

ASSIM É O CRISTIANISMO: UM APRENDIZADO PERMANENTE.

padre Evandro Ruiz

Palestra em 31/07/2004 - transcrição por Maria Lucia Americano

Boletim “Meditação cristã” n° 32