MISERICÓRDIA: O QUE É?

1. Segundo o Aquinate, a misericórdia é causada em nós pelo sofrimento que percebemos no próximo. Ela nos leva a socorrer o que sofre, pois “a palavra misericórdia significa um coração comiserado pela miséria alheia”. Daí poder afirmar-se que o mal é causa da misericórdia. Observando-se o mundo criado com sua multidão de males materiais e espirituais pode-se e deve-se ter misericórdia em lugar de indignação e justiça vingadora (S. Th. II – II, q. 30, a. 1).

Somente quem reconhece a condição própria de miserável, deficiente e pecador, sujeito também a uma multidão de males de toda ordem, tem aptidão para ser misericordioso com o irmão, pois os orgulhosos que se “consideram felizes e fortes, o suficiente para se julgarem livres de qualquer mal, não se compadecem” da miséria alheia. O que se considera miserável sofre o mal alheio como se fosse próprio e “se entristece ou se condói da miséria alheia, na medida em que a considera sua”. Daí poder afirmar-se que a deficiência e miséria de quem se compadece é a razão de ser misericordioso (S.Th, II – II, q. 30, a. 2).

2. Virtude/dom: a misericórdia na exposição filosófica-teológica tomasiana aparece como virtude-dom, pois requer o esforço pessoal e o auxílio da graça divina. Enquanto ela é um “movimento do espírito regulado pela razão” (um movimento do apetite intelectual) que também regula o apetite sensitivo (paixão), pode-se dizer que é uma virtude. Daí poder afirmar-se que a misericórdia é uma virtude adquirida e infusa, posto que praticada pelo uso deliberado da razão e incrementada pela ação de Deus na alma na oração (S. Th. II – II, q. 30, a.3).

Cabe ressaltar que santo Tomás diz que “entre todas as virtudes relativas ao próximo, a mais excelente é a misericórdia, e o seu ato é o melhor; pois suprir as deficiências de outrem enquanto tal, é próprio do superior e do melhor”. Ele lembra ainda que “ser misericordioso é próprio de Deus e é pela misericórdia que ele principalmente manifesta sua onipotência” (S. Th. II – II, q. 30, a. 4).

Enfim, nos diz o doutor Angélico que “a misericórdia deve ser ao máximo atribuída a Deus; porém, como efeito e não como paixão”. E Deus, não sofrendo a paixão da tristeza, que não Lhe convém de maneira nenhuma, por sua misericórdia, faz cessar as misérias humanas individuais e coletivas (S. Th. I, q. 21, a. 3).

ir. Luís Vicente Maria AP