FILOSOFIA  DA  MENTIRA

Há uma diferença essencial, radical, absoluta entre a mentira e a verdade. Mentir é uma inclinação tão marcante do ser humano falível, contingente que a Bíblia diz claramente: "Todo homem é mentiroso" (Sl. 115,11; Rm. 3,4) É claro que há graus de gravidade a serem analisados, indo o ser pensante desde uma mera imperfeição até a gravíssimos delitos. Existe uma complexidade marcante na falsidade. Multiplicam-se os gêneros de mentira.

Enquanto a verdade é uma vereda reta, luminosa, a leuconiquia é uma rede intrincada. Uma brincadeira não é em si uma mentira, mas pode estar prenhe de falsídia.. É que os circunstantes percebem que se trata de uma facécia. Além disto nem todo aquele que diz algo falso está mentindo, pois pode julgar estar dizendo a verdade. Difícil desatar os nós da mentira.

Agostinho de Hipona escreveu no ano de 395 um tratado sobre este mal intitulado De mendacio - Sobre a mentira. Depois, em 420, escreveu outro Contra mendacium - Contra a mentira. Este filósofo se torna muito atual, pois no seu tempo havia os priscilianos que achavam que podiam ser falso para se defenderem. A boa intenção livraria da culpabilidade. Bem diz o ditado: a História se repete! Dizer a verdade é dizer o que a coisa é. Mentir intrinsecamente é querer enganar, tapear, iludir, burlar, lograr, embaçar, embair. Por isto há uma perversidade inata na mentira que é um ato extremamente negativo. Por isto a mentira nunca, em circunstância alguma, é necessária.

Não há laivos de honestidade na falsidade. Há pessoas que têm prazer em ludibriar os outros. Trata-se de um mal crônico, psicológico que cumpre seja sanado. Neste rol entram os elogios que não correspondem à realidade. Segundo Agostinho de Hipona o erro é o companheiro perfeito da mentira. Ora o erro é sempre indesejável, pernicioso. Portanto, nunca é lícito mentir. Aristóteles na Ética a Nicômaco já defendia este princípio ético. A malícia da mentira está filosoficamente no fato de é uma violação da finalidade natural da palavra, destinação esta que constitui uma ordem de direito imprescindível. Para que se torne porém um crime é necessário que graves sejam suas conseqüências e perversas as intenções de quem a profere.

O fato de haver mentiras menos graves não as justifica nunca. Portanto, o que é preciso é que se volte a cultivar a franqueza, lealdade, lhaneza, lisura. Cumpre a fuga da duplicidade, da dobrez. O falso é sempre um homem medíocre e enormes os perigos sociais da mediocridade. São aqueles que carecem de uma linha de conduta. Sua personalidade se desvanece como um traço de carvão sobre a ação do esfuminho até se apagar de todo. Têm o coração entorpecido como pólos de um ímã gasto. São criadores de um mundo fictício.

A mentira é o lamentável brasão nobiliárquico das pessoas vulgares. Estas ignoram que o homem vale por suas virtudes e não pelo engodo. Os trânsfugas da honestidade navegam nos mares da falsidade e nele querem afogar aqueles que pela integridade moral e excelência do caráter não desejam se enxovalhar nos ambientes rebaixados, mas aptos aos apetites dos perversos.

O mentiroso não compreende que o homem de bem coloca sua honra no próprio mérito. Quem se entrega à mentira desconhece que esta é uma das mais ignóbeis cicatrizes que afeiam uma existência humana. A mentira mora nos corações pequenos e leva à vilania. O verdadeiro castigo do mentiroso está em que ele ignora que é possível enganar alguém muito tempo; tapear a muitos certo período, mas que é impossível enganar a todos o tempo todo, porque lá no fundo do espírito do homem está o amor à verdade e como proclamou Jesus o mais sábios dos homens, dado que era também Deus: "a verdade vos libertará"! (Jo. 8,32).

côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho