A PROPÓSITO DA MÚSICA SACRA

A Constituição Sacrossanctum Concilium, sobre a Sagrada Liturgia. O esquema foi aprovado no dia 23 de novembro de 1963 - dia de Santa Cecília - na 73a Congregação Geral e em 4 de dezembro, recebendo apenas 4 sufrágios negativos e 2.147 votos favoráveis, foi solenemente promulgado pelo Papa Paulo VI como o primeiro documento do Concílio Vaticano II.

O capítulo VI é dedicado à Música Sacra, parte integrante ou necessária da Sagrada Liturgia.

Como se sabe, o canto sacro sempre foi uma preocupação dos Romanos Pontífices. É impossível deixar de mencionar esse empenho desde o Canto Gregoriano até as disposições mais recentes de São Pio X.

...a música sacra será tanto mais santa quanto mais intimamente estiver ligada à ação litúrgica, quer exprimindo mais suavemente a oração, quer favorecendo a unanimidade, quer, enfim, dando maior solenidade aos ritos sagrados. A Igreja aprova e admite no culto divino todas as formas de verdadeira arte, conquanto que sejam dotadas das devidas qualidades. (SC 112)

Nestas primeiras considerações, evidenciamos dois aspectos importantes: o primeiro, a música deve estar ligada à ação litúrgica. Trata-se de um princípio fundamental para as equipes de preparação do canto e os seus músicos e cantores. Deve haver adequação ao mistério que se celebra. Um princípio que facilita a escolha dos cantos é ter sempre presentes as antífonas de entrada e de comunhão, que normalmente refletem as leituras do dia. O segundo aspecto que o texto destaca é a qualidade artística da mesma. Sobre isso, trataremos mais adiante. No entanto, vale a pena ressaltar, de imediato, que o excesso de produção musical acaba prejudicando a sua qualidade. Há muito material esquecido, seja dos cursos de liturgia e canto, seja das campanhas da Fraternidade ou outros eventos (festivais, gravações particulares, material pessoal de grupos e congregações) que deveriam ser revistos e aproveitados.

A participação dos fiéis

O documento em questão ressalta algumas considerações tendo em vista a finalidade da música sacra que é a glória de Deus e a santificação dos fiéis.

1. A ação litúrgica recebe uma forma mais elevada quando os Ofícios Divinos são celebrados com canto e neles intervém os ministros sacros e o povo participa ativamente (SC 113).

A participação ativa do povo é essencial na ação litúrgica. A recente participação de “bandas” nas celebrações, onde o número de microfones para cantores e instrumentistas bem como o altíssimo volume dos mesmos, tem provocado um “silenciamento” das assembléias nas ações litúrgicas. Do mesmo modo, a escolha de repertório quase desconhecido da maioria do povo, dificulta ainda mais sua participação. O que antigamente se criticava dos corais nas igrejas (posicionados geralmente atrás e no alto) está voltando com essa outra forma de apresentação. Falta-lhes porém a excelência da qualidade musical e da arte de execução.

2. O tesouro da música sacra seja conservado e favorecido com suma diligência. Sejam assiduamente incentivadas as “Scholae Cantorum”, principalmente junto às Catedrais. Os bispos e os demais pastores de almas cuidem com diligência que, em todas as funções realizadas com canto, toda a comunidade dos fiéis possa oferecer a participação que lhe é própria (SC 114).

A referência à participação ativa dos fiéis na participação que lhes é própria, mencionada neste artigo, se trata das aclamações do povo, as respostas, as salmodias. O art. 3o menciona ainda gestos e porte do corpo bem como o sagrado silêncio.

As scholae cantorum é uma clara alusão e incentivo ao uso do Canto Gregoriano. Está no inconsciente coletivo e sendo adequadamente estudado e ensaiado pode embelezar sobremaneira as funções sacras.

Para se ter plena consciência dessa importância, o documento ressalta a necessidade de uma adequada formação musical nos seminários, noviciados religiosos e nas casas de estudantes de ambos os sexos, e nos demais institutos e escolas católicas. Isso, logicamente deve ser entregue a professores cuidadosamente preparados. No número 716, a Constituição recomenda a criação de Instituto Superior de Música Sacra para que possa dar uma genuína formação litúrgica a compositores e cantores.

O canto gregoriano e polifônico

Mesmo o canto gregoriano e o polifônico deve ser curado. Diz o artigo 116:
3. A Igreja reconhece o canto gregoriano como próprio da liturgia romana. Portanto, em igualdade de condições, ocupa o primeiro lugar nas ações litúrgicas. Os outros gêneros de música sacra, especialmente a polifonia, não são absolutamente excluídos da celebração dos ofícios divinos, contanto que se harmonizem com o espírito da ação litúrgica, de acordo com as normas do art. 30.

Houve uma revalorização do Canto Gregoriano nos últimos anos, notadamente com as gravações bem sucedidas dos monges beneditinos do Mosteiro de Santo Domingo de Silos, seguidos pela experiência vernácula dos monges da Ressurreição, em Ponta Grossa. Os outros mosteiros seguiram essa mesma estrada e hoje quase todos possuem algum tipo de divulgação. A excelência da interpretação, no entanto, continua com os beneditinos de Saint Pierre de Solesmes que, mesmo antes da reforma litúrgica, já possuíam excelente material fonográfico com Dom Gajard e atualmente com dom Jean Claire. Nos conservatórios e escolas musicais o canto gregoriano passou a ser mais cuidadosamente estudado e são centenas de grupos que hoje se dedicam ao Canto, havendo até mesmo uma emissora nos Estados Unidos que transmite somente Canto Gregoriano durante toda a sua programação. O programa de Canto Gregoriano da Catedral FM do Rio de Janeiro, é um dos poucos existentes e por isso tem recebido grande apoio e incentivo de crítica e de público ouvinte. Atualmente há um grupo de estudos no Seminário São José (diferente do coral polifônico) que se dedica exclusivamente ao estudo do canto gregoriano – teoria e prática. Em muitas paróquias da Arquidiocese do Rio de Janeiro e em outras Dioceses do Brasil, acontece o mesmo, e isso é motivo de muita alegria quando se celebra um evento tão importante quanto os 40 anos dessa Constituição.

O canto popular religioso

O canto popular também é incentivado pelo Concílio, embora não deixe explicito o que se entenda por canto popular. O adjetivo religioso deixa entender que seja o mesmo que canto pastoral, nomenclatura mais atual. Diz o texto:

4. O canto popular religioso seja inteligentemente incentivado, de modo que os fiéis possam cantar nos pios e sagrados exercícios e nas próprias ações litúrgicas, de acordo com as normas e prescrições das rubricas (SC 118)

É preciso entender bem o que significa cantar de acordo com as normas e prescrições das rubricas. O incentivo inteligente de que fala o artigo leva necessariamente a essa vertente. Cantar de acordo com as normas e prescrições das rubricas significa estar de acordo com a liturgia. Não se pode colocar qualquer tipo de música ou canto. Podemos perceber em algumas produções musicais que, desejando uma música mais ritmada acabam por destruir o texto litúrgico. Veja-se, por exemplo, quantos cantos de “Glória” são cantados e que se afastam totalmente do seu caráter cristológico. Confundem o “Glória” da missa com a saudação à Trindade Santa, transformando o segundo no primeiro. O mesmo acontece com o “Santo” muitas vezes provenientes de musicais ou outras fontes. Era comum, logo no início da reforma litúrgica adaptar letras religiosas a canções populares de péssimo gosto. Com o tempo foram surgindo compositores e a belíssima iniciativa do Mons. Cavalcanti, no Rio de Janeiro com os cursos de canto pastoral e liturgia, veio a dar um novo rumo a uma riqueza de tradições musicais.

O documento conciliar ao tratar da excelência do órgão de tubos para o acompanhamento da liturgia não exclui os demais instrumentos, salientando porém:

5. ...contanto que sejam adequados ao uso sacro ou possam a ele se adequar, condigam com a dignidade do templo e favoreçam realmente à edificação dos fiéis (SC 120)

Com isso houve um grande avanço em matéria de criatividade na liturgia, inserindo-se toda a sorte de instrumentos. Quando harmoniosamente executados, significa um grande bem. Mesmo diante da inculturação pedida pela Igreja, essa questão da música exigirá um cuidado ainda maior. Hoje se introduz com muita facilidade o balé em alguns momentos da liturgia. Toda mis-em- scène que não esteja muito bem integrada pode até causar escândalo. Nem sempre as vestimentas são adequadas e certas coreografias deixam muito a desejar.

Uma palavra final, nesse capítulo, é dirigida aos compositores:

6. Imbuídos do espírito cristão, compenetrem-se os compositores que estão chamados para cultivar a música sacra e aumentar-lhes o tesouro. Componham, porém, melodias que apresentem as características da verdadeira música sacra e que possam ser cantadas não só pelos grandes coros, mas que também estejam ao alcance dos modestos e favoreçam a participação ativa de toda a comunidade dos fiéis. Os textos destinados aos cantos sacros sejam conformes à doutrina católica e sejam tirados principalmente da Sagrada Escritura e das fontes litúrgicas (SC 121)

O texto é bem claro. Salientaríamos o último período no que trata da conformidade com a doutrina católica. É o que muitas vezes se encontra na letra de certos cantos pastorais que chegam à beira da heresia. Poderíamos citar muitos exemplos, inadequados porém neste contexto para não ferir melindres. Johann Sebastian Bach dizia que o músico tinha uma pelo a menos, referindo-se à sua sensibilidade. Porém, antes de se escolher algum canto é bom rever bem o seu texto e verificar se não existe qualquer imperfeição.

A Música no Movimento de Emaús

Dentre os movimentos eclesiais, o Movimento de Emaús se destaca como grande luminar na educação religiosa e litúrgica da juventude. Possui um rico material e preciosas orientações, seguindo um caminho dentro daquilo que a Igreja deseja para a formação eclesial. Ademais, por ter características próprias, organiza periodicamente assembléias onde a música é trabalhada com carinho, aumentando cada vez mais seu tesouro de harmonias. Atualmente se encontra em organização um Hinário para o movimento, oferecendo assim uma oportunidade de disponibilizar sempre todo o material musical para as diversas celebrações nas comunidade, preservando aquelas que são exclusivas dos cursos e de uso interno nos mesmos. Esse exemplo deveria ser seguido pelas Dioceses, procurando reunir num hinário próprio todo o material disponível. Muitas Dioceses já o tem, como a Arquidiocese de Sorocaba que renova anualmente seu hinário. Dessa forma, o uso de cantos exclusivos de reuniões de oração se distinguirá sobremaneira do material destinado ao uso comunitário.

Conclusão

Há uma recentíssima publicação do Missal Romano com as novas rubricas em sua Institutio Generalis. Elas reafirmam as normas desta Constituição que acabamos de analisar em alguns dos seus aspectos ampliando sua ação e dando ainda maior valor a algumas determinações.

Dá-se um valor todo especial a momentos de silêncio durante a liturgia, a ser realizado depois da primeira, da segunda leitura e da homilia (n. 56).

Com a proliferação das chamadas “bandas” e a insistência dos denominados “ministérios de música” em muitas paróquias, é preciso ter em mente algumas normas da Igreja com relação ao exercício do dom da música e do canto na liturgia. O capítulo VI da Sacrossanctum Concilium apresenta critérios que foram sucessivamente confirmados em documentos posteriores. Um cuidado sempre maior na escolha dos cânticos da liturgia exige não apenas dos grupos de cantores e músicos mas igualmente do celebrante uma atenção especial a esses ordenamentos. Coerência entre o canto e a ação celebrada, a beleza da música e da letra, o uso da Sagrada Escritura. Evitar, sempre que possível, a inserção de bandas e a utilização de músicas desconhecidas da comunidade. O que presta para uma reunião de grupo de oração nem sempre se presta ao serviço litúrgico de uma comunidade paroquial.

Pe. Ricardo Dias Neto - Fonte: Emaus Nacional