O  CARDINALATO

    Nos primeiros séculos da Igreja no ocidente, surgiu a expressão "clerici cardinales" para designar os agentes pastorais mais importantes, que constituíam uma espécie de Conselho do bispo. A partir do século XI, o conferimento do título de "cardeal" ficou reservado só para os clérigos mais importantes da Diocese de Roma.
    Daí surgiram os cardeais-presbíteros, que dirigiam os tituli, que eram as paróquias mais importantes da cidade de Roma. Depois foram feitos os cardeais-diáconos, que administravam a caridade nas sete diaconias ou sete regiões de serviço na cidade de Roma. Por fim, foram criados os cardeais-bispos, que governavam as seis dioceses suburbicárias (sub urbe) ou seis dioceses mais próximas de Roma.
    Por isso, até hoje os cardeais são distribuídos nessas três ordens: os cardeais-bispos, que são seis cardeais e que recebem os títulos das dioceses suburbicárias e residem em Roma, dirigindo uma Congregação da cúria romana;
os cardeais-diáconos são sete, que recebem os títulos das diaconias da Cidade e residem em Roma, servindo à cúria romana; os cardeais-presbíteros são todos os outros cardeais, que têm sua arquidiocese, residem fora de Roma e servem como membros de um dos três dicastérios da cúria de Roma : as seis congregações, os tribunais e os ofícios. Cada dicastério é presidido por um cardeal.
    Pelo Motu Próprio Cum gravíssima, de 15 de abril de 1962, o Papa João XXIII conserva a divisão do colégio cardinalício nas três ordens - bispo, presbítero e diácono - mas dispõe que todos recebam a ordenação episcopal. Acabou com norma do Papa Sisto V (1585-1590), que fixava em 70 o número de cardeais do Colégio Cardinalício.
O papa Paulo VI, a 1º de outubro de 1975, pela Constituição Apostólica Romano Pontífice eligendo, estabelece que 120 é o número máximo de cardeais eleitores do Papa. O Papa João Paulo II forma o colégio cardinalício mais numeroso da história da Igreja, com 185 cardeais, a partir do consistório ordinário público, de 21 de fevereiro de 2001, em que criará 44 novos cardeais de todos os continentes da terra.
    A palavra cardeal vem do latim cardo, que significa gonzo da porta. O "cardeal" é o eixo principal, a realidade em torno da qual giram outras realidades. Por isso, temos os pontos cardeais (4) : norte, sul, leste e oeste, em torno dos quais orientamos nossa direção.
Por isso, também, existem as virtudes cardeais (4) : prudência, justiça, fortaleza e temperança, eixo ao redor do qual se agrupam todas as outras virtudes humanas.
Por isso, os cardeais da Igreja são a espinha dorsal sobre a qual gira o governo universal da Igreja de Roma.
    O Brasil foi o primeiro país da América Latina a ter cardeal, em 1905, dom Joaquim Albuquerque Cavalcanti, Cardeal Arcoverde, pernambucano de Pesqueira (1850-1930), arcebispo do Rio de Janeiro (1897-1930), cujo sucessor cardeal Leme, dom Sebastião da Silveira Cintra, paulista de Pinhal (1882-1942), foi o segundo cardeal brasileiro.
    Cardeal é o prelado da Igreja católica investido na dignidade de membro de um colégio especial, ao qual compete assegurar a eleição do Papa. Os Cardeais, também, assessoraram o Santo Padre, agindo colegialmente, quando são convocados para tratar juntos as questões de maior importância, ou individualmente nos diversos ofícios que exercem, prestando ajuda ao Romano Pontífice, principalmente no cuidado cotidiano da Igreja universal.
    O cardinalato não é sacramento da ordem, como o episcopado e o presbiterato, mas função consultiva ou administrativa nas congregações, tribunais e ofícios, que constituem a cúria romana, competindo-lhe com exclusividade a eleição do Papa. Foi o Papa Nicolau II, no ano 1059, que reservou aos cardeais essa exclusividade da eleição do Papa.
    Foi o Papa Inocêncio IV, em 1245, quem instituiu as insígnias do anel cardinalício, símbolo da fidelidade ao governo pontifício da Igreja, e do chapéu vermelho, hoje barrete vermelho vivo, símbolo do seu poder sagrado de servir ao Papa e elegê-lo. Desde o século XIII, o cardeal-bispo de Óstia, diocese suburbicária, é o cardeal-deca no que preside o Sacro Colégio dos Cardeais. No seu impedimento, o cardeal-subdecano faz as vezes dele. O decano e o subdecano devem ser considerados como primeiros entre os pares e são eleitos somente pelos cardeais-bispos, que são os seis cardeais com título de uma Igreja Suburbicária. Eles elegem entre si o decano e o subdecano, cujos nomes são levados ao Papa, a quem compete aprovar os eleitos.
O cardeal-protodiácono, chefe dos cardeais-diáconos, anuncia ao povo, na praça de são Pedro, o nome do Sumo Pontífice eleito no conclave e pode impor o pálio aos arcebispos em lugar do Papa.
    O cardeal-decano é quem convoca e preside o conclave, após a morte do Papa, para a eleição do novo Romano Pontífice.

Mons. Arnaldo Beltrami