CINZAS

Quem somos nós? Este questionamento acompanha a humanidade desde tempos insondáveis e muitas respostas já foram dadas pelas mais diversas correntes de pensamento. Neste artigo evidenciamos a resposta da Igreja para esta pergunta. Uma resposta que recorda  o uso das cinzas nas Escrituras e na Igreja como símbolo que representa nossa origem, como também a experiência penitencial e de conversão no Tempo da Quaresma, iniciada na celebração da “Quarta-feira de Cinzas”.

Os discursos sobre a essência do ser humano podem, talvez, serem resumidos em duas tendências: Cinzascomo fruto ou extensão da natureza e como criatura de Deus. Nossa preocupação se concentra nesta última, pois pressupõe necessariamente a fé em Deus Criador. Muito já se falou sobre a grandeza do ser humano. Admira-se a sua capacidade de sonhar e realizar projetos incrivelmente grandes em diversos campos, como por exemplo, o das ciências. As fronteiras do conhecimento se alargam cada vez mais. No entanto, facilmente identificamos nossa limitação e miséria, de modo particular quando observamos as injustiças e sofrimentos causados pelo pecado do egoísmo. Esta realidade nos humilha. Sentimo-nos incapazes de amar, de vencer o mal, por maior que sejam as nossas conquistas. A causa de tudo: perdermos o referencial último da nossa existência: Deus Criador. Esquecermo-nos de que somos criaturas.

Para auxiliar-nos na justa compreensão de quem somos podemos contar com a experiência que o povo judeu fez do Amor de Deus. Sua compreensão sobre a condição de criatura era representada por um símbolo: as cinzas. Estas eram utilizadas em situações de dor, de morte e de penitência. No Antigo Testamento encontramos algumas citações que nos atestam esta realidade. Jó mostrou seu arrependimento “vestindo-se de saco e cobrindo-se com cinzas” (Jó 42,6); após a pregação de Jonas, o povo de Nínive, inclusive seu rei, proclamam um jejum e fazem penitência (Jn 3,5-6). Jesus também referência ao uso das cinzas, a respeito dos povos que se recusavam a arrepender-se de seus pecados, apesar de terem visto os milagres e escutado a Boa Nova: “Ai de ti, Corazaim...” (Mt 11,21).

Ao longo da história, a Igreja sempre manteve em sua Tradição o uso deste símbolo das cinzas como expressão do arrependimento dos pecados e como sinal do desejo de conversão. Com a chegada do Tempo da Quaresma temos uma importante ocasião para recordar a mensagem da Igreja sobre a nossa origem. Esta mensagem é fundamentada no conceito judaico-cristão sobre o ser humano, apresentado em (Gn 2,7): “Tu és pó...”. As cinzas evocam para nós, com grande simbolismo, a nossa condição de criaturas e a nossa vital dependência do amor de Deus. Para transmitir esta mensagem, a Igreja faz uso deste antigo símbolo. O início da Quaresma é marcado por uma eloqüente celebração, a “Quarta-feira de Cinzas”, quando as mesmas são colocadas pelo Ministro na fronte de cada fiel, acompanhadas de um chamado para a conversão dos pecados e à crença no Evangelho.

É maravilhoso saber que na Igreja nos tornamos conscientes de quem somos, da nossa limitação, e, pela vivência deste tempo especial que é a Quaresma, podemos sentir cada vez mais próxima a infinita misericórdia do Deus-Amor, que se fez um de nós e revelou em seu Filho que nos ama até as últimas conseqüências. Eis a grandeza e a excelência do ser humano: ser criatura muito amada de Deus.

Pe. Adilson Aparecido Fortunato