A  ARTE  SACRA

O Vaticano II não podia deixar de tratar, como realmente o faz no capitulo VII da "Sacrosanctum Concilium", da relação entre o culto e as artes. Pois não só no Antigo Testamento vemos como são determinados por Deus as formas, dimensões e materiais do tabernáculo e do templo, com seu mobiliário, utensílios e vestes dos ministros, como vemos também o próprio Cristo, já no despojamento do Novo, ocupar-se com o ambiente onde vai inaugurar a nova e eterna aliança. Manda Pedro e João à frente, em busca da sala ampla e alta, guarnecida de almofadas, que lhes será misteriosamente indicada para a última ceia e a primeira missa. Passado o tempo da perseguição, período em que os apóstolos e os seus sucessores "partiam o pão pelas casas", vemos erguerem-se por toda a terra, sempre com a preocupação de refletirem alguma coisa da Jerusalém celeste do Apocalipse, as novas casas de Deus.

Nada mais natural, nada mais na linha do mistério da Encarnação (e até mesmo da Criação), que a Igreja se preocupe com as coisas materiais, que podem ser não apenas sinais, mas também símbolos e canais das coisas invisíveis, e do Criador de todas.

Natureza da Arte Sacra

Logo no início do capítulo (art. 122), deparamos uma distinção de grande importância, que evitaria, levada em conta, freqüentes equívocos em terreno tão difícil, por contingente e concreto. Vislumbramos ali a distinção, que nos parece óbvia, e já proposta por Jacques Maritain no seu clássico livro Art et Scolastique (1): dentro da arte em geral, devemos distinguir, num círculo menor, a arte cristã, e, dentro da arte cristã, num círculo menor ainda, a arte sacra.

Toda verdadeira obra de arte fala de Deus; mesmo que acidentalmente, devido à fraqueza humana, pudesse levar-nos ao pecado. Toda verdadeira obra de arte fala de Deus. E não apenas pelo que fala, mas sobretudo, tanto maior a emoção despertada, pelo desejo que acende em nós de uma beleza mais alta. E Poe e Baudelaire falam da nossa natureza "exilada no imperfeito, que desejaria apoderar-se imediatamente, na terra mesmo, do paraíso revelado"(2). E Jean Cocteau diria o mesmo, usando o trocadilho: "La beauté boite" (3).

Mas, se toda obra de arte fala de Deus, mesmo sem querer, há obras de arte que pretendem expressamente falar de Deus, e até mesmo do Cristo: é o que chamaríamos arte religiosa ou arte cristã. Mas ocorre aqui uma advertência muito importante: não é o assunto nem mesmo a intenção do autor que tornam uma obra religiosa ou cristã, mas sobretudo o modo de tratá-lo e o resultado obtido. Um assunto religioso pode ser tratado de modo indiferente ou até hostil (como é o caso da primeira representação do Crucificado), e o mais bem intencionado dos artistas pode ás vezes não conseguir tratar religiosamente ou cristãmente o seu tema. Que modo é este, é impossível defini-lo... Mas há obras nas quais sentimos uma certa transparência e um equilíbrio profundo, uma paz e serenidade, e um certo esplendor e uma pobreza que nos fazem pensar em Deus, e mesmo no Cristo. Diante de um quadro de Rouault, por exemplo, qualquer observador que tenha um mínimo de convívio com a pintura e um certo conhecimento do cristianismo, dificilmente deixará de concordar que se trata, no caso, de arte cristã.

Concluiríamos então que tal quadro de Rouault, um dos seus magníficos Cristos flagelados, possa ou deva ser colocado em qualquer igreja paroquial? De modo nenhum. Porque precisamos circunscrever agora, dentro da arte religiosa ou cristã, o que possa ser arte sacra. A arte sacra será não apenas uma obra de arte, nem apenas uma obra de arte cristã, mas deve ser também uma obra de arte que sirva para o culto. E aí veremos surgir vários outros requisitos que integram o conceito de arte sacra, uns de modo absoluto, outros de modo relativo. De modo absoluto podemos dizer que não deveria ser colocado como retábulo de altar o belo quadro "Senhor dos Martírios" do pintor beneditino Frei Ricardo do Pilar, que representa o Cristo vivo, fora da cruz, mostrando as chagas, mas ainda coroado de espinhos, coberto com seu manto de irrisão e uma corda ao pescoço: essa obra de arte cristã, útil ao contemplativo na sua cela, correria o risco de dar aos fiéis a idéia de um Cristo ressuscitado fora da glória e do triunfo! Mas já um Cristo de Rouault, sem o inconveniente do de Fr. Ricardo, poderia não convir para algumas igrejas, onde os fiéis, afeitos a representações de outro tipo (que para simplificar chamaríamos acadêmico), se chocassem com a violência, tão cheia de doçura no entanto, do grande pintor francês.

Por isso, como não basta uma obra de arte ser religiosa ou cristã para ser considerada sacra, é que a Igreja, como diz a Constituição de que nos ocupamos, sempre "se considerou juiz em relação a elas, julgando quais convinham á fé, á piedade, (...) ao uso sagrado". Cabe pois ao Bispo, que preside ao culto de cada diocese, julgar, como Doutor, a ortodoxia das obras de arte, e, como Pastor, a sua oportunidade em relação á cultura dos fiéis. Mas se de um lado é preciso evitar que, a pretexto de que a Igreja sempre foi patrocinadora das artes, se imponham aos fiéis não preparados obras que os choquem (a Igreja não é um museu, mas lugar do culto comunitário), de outro lado é preciso evitar, o que mais facilmente ocorre, apresentarem-se obras tão batidas, tão repetidas, tão em série, que não chocam a ninguém, porque nem sequer são vistas: o olhar distraído do fiel pousa sobre a mesma Santa Teresinha que ele já viu quinhentas vezes em quinhentos lugares, e que serve apenas de ponto de referência para a sua oração, mas não contribuirá de modo algum, enquanto obra de arte, para a elevação e afervoramento da mesma. Por isso será necessário ao Ordinário, a quem compete julgar se tal imagem serve para o culto, aconselhar-se freqüentemente com os peritos (previstos pelo artigo 126 da Constituição) sobre o caráter artístico da mesma. Pois é uma violência propor como arte sacra o que nem arte seja.

Fica assim estabelecido que a arte sacra deve ser uma arte não apenas de valor religioso, mas também funcional, isto é, que sirva ao culto comunitário, e de uma determinada comunidade, que vive em tal lugar e tal época.

Universalidade da Arte Sacra

Esta última observação - a arte sacra em junção de uma comunidade concreta - já nos conduz a um princípio que dela decorre necessariamente, mas que a Constituição julgou por bem explicitar no seu artigo 123, tal a importância do mesmo e os lamentáveis equívocos que têm decorrido do seu imprudente esquecimento: "A Igreja jamais considerou seu nenhum estilo de arte". Se ele houvesse sido formulado há mais tempo com tanta clareza, não teríamos visto levantar-se uma catedral gótica em S. Paulo, nem igrejas "coloniais" em plena República...

Todos sabemos que o que existem são obras de arte concretas, e que cada uma é a solução de um determinado problema: atender às necessidades do homem com beleza e harmonia (pois a beleza é também necessária) e com os materiais e as técnicas disponíveis. O que chamamos estilo não é mais que um certo parentesco que se descobre entre as obras da mesma época e região. O arquiteto medieval não dizia: "Vou fazer gótico", mas trabalhava com a pedra, nos países frios, quando começavam a florescer as devoções populares - e surgiam as ogivas, os vitrais e a grande quantidade de capelas.

O arquiteto de hoje não dirá também (se for um verdadeiro arquiteto...): "Vou fazer estilo moderno!", mas procurará atender às finalidades da construção que lhe pedem, usando com beleza os materiais, as técnicas, a mão-de-obra de que dispõe. E a sua construção será, em tal caso, uma construção autêntica, inserida no tempo e no espaço, ainda que destituída de certos acréscimos e receitas que "dão ar de moderno". A arte cristã e sacra, mais que qualquer outra, deve ser uma encarnação da mensagem cristã "hic et nunc", e não a mera repetição de fórmulas passadas e locais, como se a mensagem do Cristo não tivesse sido dirigida a todas as nações e até os confins dos séculos. Assim, não devemos fazer como os antigos faziam, mas fazer, isto sim, o que os antigos faziam: sermos do nosso tempo.

Estabelecido o princípio de que a Igreja "jamais considerou seu nenhum estilo", mas que deve ir enriquecendo o seu incomparável patrimônio com todas as contribuições que lhe vão sendo trazidas, a Constituição faz aos Ordinários, no artigo 124, advertências de grande alcance. A primeira delas é a distinção entre a "nobre beleza" e a "mera suntuosidade".

O barroco, nascido dos grandes Descobrimentos e de um certo descobrimento do Homem, fez-nos regredir um pouco ao paganismo e ao Antigo Testamento, dando-nos a sugestão de um Deus pomposo e tonitruante, que se manifestasse um pouco à moda dos homens... Assim é que S. João da Cruz e Santa Teresa passaram por inimigos da beleza, quando (como tão bem prova Michel Florisoone "Esthétique et Mystique") combatiam sobretudo o excessivo, o derramado, o exagero da época, tão pouco em consonância com a sóbria beleza que ambos reivindicavam para os Carmelos(4).

Desta falsa concepção de que as coisas de Deus só possam ser suntuosas e grandiloqüentes, que resultou? Quando os cristãos não tiveram mais ouro, lançaram mão da purpurina; quando não mais tiveram mármores, pintaram a madeira de mármore; quando não tiveram mais vidros de cor, coloriram os vidros... E na Igreja, que é a casa da Verdade, tudo se tornava de mentira, e o homem apenas se enganava a si próprio. Pois Deus, este via, debaixo do disfarce, o verdadeiro material que ele criara, e via que esse material era bom, que possuía a sua própria beleza. Assim os Ordinários são convidados a visarem "antes a nobre beleza que a mera suntuosidade". "O que se há de entender também (acrescenta-se logo em seguida, e tão oportunamente...) das vestes sacras e dos ornamentos".

Por que não tirarmos partido, como tanto se faz hoje na arquitetura profana, da beleza rugosa da pedra, do colorido quente do tijolo, dos belos veios da madeira apenas encerada, e da estopa, e do couro, e da palha? As várias capelas construídas pelos Irmãozinhos do Pe. Foucauld na Ásia e na África são quase todas uma prova exuberante da nobre beleza que decorre dos materiais pobres quando empregados lealmente, com a intenção de valorizá-los em vez de escondê-los. Por que não nos contentarmos com a sóbria alva dos romanos, em vez de nos cobrirmos de rendas (e tão ordinárias!), como se estivéssemos ainda em pleno século XVIII?

Teremos medo de parecermos pobres? E Jesus e os Apóstolos não o foram? E não o somos hoje, realmente, na situação atual da Igreja, difundida entre as nações como um fermento, sem se identificar com nenhuma delas, sem se confundir com reis e governos, mas afirmando cada vez mais a distinção entre o espiritual e o temporal? Sem dúvida sabemos que para Deus nada é demais; mas é preferível que um pároco construa uma igreja pobre com o dinheiro dos pobres, a ter de assumir compromissos com pessoas de dinheiro e prestigio, que os queiram cobrar em seguida. No mundo de hoje, que toma consciência da sua própria miséria, não será mais convincente, mais atraente, mais maternal, uma igreja que se apresente vestida de pobre? E a nobre beleza, de que fala a Constituição, se encontra mais facilmente na pobreza que na mera suntuosidade.

A segunda advertência do artigo 124 é a afirmação da funcionalidade: "cuide-se diligentemente que (as igrejas) sejam funcionais, tanto para a celebração das ações litúrgicas como para obter a participação ativa dos fiéis". Essa preocupação com o funcional já é meio caminho para se resolver mais facilmente o problema da beleza. Eric Gill chega a dizer que "a beleza se arranja por si mesma", tal modo ela não é algo de acrescentado, de posto depois, mas a decorrência, sobretudo em arquitetura, da adequação da obra de arte ao seu fim(5). O arquiteto que tenha conseguido fazer do altar o centro de atenção da igreja, que tenha conseguido boa circulação para as várias procissões supostas pela missa e os demais sacramentos, que tenha conseguido boa acústica para a proclamação da palavra de Deus e as aclamações e o canto dos fiéis, e isso tudo com certo equilíbrio de espaços, volumes, iluminação e cores, eis o arquiteto que acertou. Pois, como diz Claudel, resumindo a doutrina de Pierre de Craon de "L'Annonce": "l'artiste païen faisait tout du dehors, et nous faisons tout de par dedans comme les abeilles. Et comme l'âme fait pour le corps"(6).

Mas não é só o edifício que deve ser funcional. Como estamos no domínio da arte sacra, devem ser também funcionais todas as obras de arte que o integrem. Isto é, como já ficou dito mais acima, não basta que um quadro ou estátua sejam belos, nem mesmo que tenham um certo toque religioso, mas é preciso que não estejam "sobrando" artística e liturgicamente onde foram postos (oh! a quantidade e qualidade das imagens!), e possam ter mesmo um pouco daquele sentido pedagógico que fazia da catedral uma "Bíblia de pedra". Vejamos o próprio texto da Constituição, chamando a atenção para o "sejam cuidadosamente retiradas", o que mostra que a advertência não vale apenas para o futuro, mas possui também, felizmente, um valor retroativo. "Tomem providência os Bispos para que as obras de arte que repugnem á fé (...) e ofendam ao verdadeiro senso religioso, quer pela deturpação das formas, quer pela insuficiência, mediocridade e simulação de arte, sejam cuidadosamente retiradas das casas de Deus e dos demais lugares sagrados.

Sublinhamos também os "demais lugares sagrados". Expressão que inclui sem dúvida os cemitérios, entre nós inteiramente abandonados ao exibicionismo das "saudades imorredouras" e da vaidade dos vivos...

E, de certo modo, estão também entre os lugares sagrados, os salões paroquiais, parlatórios de conventos e lugares semelhantes - ora pretensiosos, ora tão fora da época que assustam as visitas, ora abrigando tudo aquilo que os outros não querem em casa, sem nenhuma preocupação de ordem, discrição e asseio.

Além das obras de arte insuficientes "pela mediocridade e simulação de arte", que é o caso tão freqüente das imagens e alfaias fabricadas em série para as casas "especializadas" que só têm a preocupação comercial, vemos também condenadas aquelas em que se note a "deturpação das formas". Convém notar, porém, que tal expressão não importa na entronização do "acadêmico" ou do naturalismo e do "bem-feitinho", que deixariam de lado El Greco ou Rouault e tantas obras estilizadas, onde a mensagem e a presença do espírito se tornam mais profundas.

Seria talvez o momento de dizermos alguma coisa sobre a arte abstrata ou não-figurativa, que de modo algum poderá ser considerada como deturpação de formas, e que terá seu lugar na igreja não apenas como decoração, mas obra de arte em si mesma: "A gente decora um salão, uma agência de correio, diz Jean Bazaine, mas não tem sentido decorar uma igreja. Não se trata de tornar o lugar mais atraente, mas fazer viver nas paredes um pouco do Espírito que ali habita"(7). Sem dúvida a arte não-figurativa jamais poderia pretender uma exclusividade no terreno da arte sacra, uma vez que o corpo humano, assumido por Deus e destinado à ressurreição, é como que um dado central do cristianismo. Mas seria ir de encontro à tendência espiritualista da arte contemporânea, que prefere uma linguagem própria e interior, repelir sistematicamente um Manessier, que pode não ter o valor pedagógico e descritivo de reproduzir uma cena da Bíblia, mas ser capaz de criar um clima de oração e júbilo. "Em Audincourt, diante dos belos vitrais de Léger, observa Bazaine, os fiéis gostaram, no começo, de distinguir uma Cruz, os Instrumentos da Paixão, as mãos... Mas - prossegue ele - penso que logo se esquecerão disso, para se deixar levar, antes de tudo, por aquela grande maré de formas, pondo-se em uníssono com o prodigioso cântico daquelas cores" (8).

O problema das imagens

O artigo 125 da Constituição já não trata das imagens sagradas em si mesmas, visto que estão incluídas, como principais, entre as obras de arte de que trata o número anterior. Mas, confirmando o principio de que possam ser expostas à veneração dos fiéis, declara que o sejam "com moderação quanto ao número" e "com conveniência quanto á ordem". De fato, inutilmente nos esforçaremos por repelir as acusações de idolatria que alguns dos irmãos separados lançam contra nós, enquanto as nossas igrejas oferecerem o doloroso espetáculo de um amontoado de imagens de má qualidade, como que disputando os lugares no retábulo do mesmo altar, o que lembra a estátua do Marechal Floriano no Rio de Janeiro, que dizem estar bradando, de espada desembainhada: "Aqui ninguém mais sobe!", ao considerar, assustado, o grande número de personagens de bronze que se agrupam pelo pedestal. De outro lado, como incutirmos nos fiéis o verdadeiro sentido e função do altar, se, por sua inútil multiplicação, ele se apresentar constantemente como um pedestal de imagens?

Pondo já em prática esta Constituição, alguns Ordinários julgaram por bem fixar em quatro o número de imagens permitidas, prontos sem dúvida a considerarem o caso de certas igrejas antigas, concebidas em outra época, e cujas imagens de alto valor artístico e histórico não poderão ser retiradas de onde estão, o que seria aliás entrar em conflito com a legislação civil que procura proteger tais monumentos. Não mais de quatro, embora não seja necessário, é claro, perfazer tal número, onde poderão estar o Cristo, Nossa Senhora, o padroeiro da igreja e o fundador da Congregação que dela acaso se ocupe.

Numa das dioceses em que o Bispo determinou que se reduzissem a quatro as imagens, um jornal entrevistou alguns párocos. Muitos alegavam grande dificuldade em atender prontamente á ordem, o que só vinha provar que ele não educara devidamente os fiéis no verdadeiro sentido do culto dos santos. Um deles declarou que se vira forçado a manter duas imagens de Nossa Senhora, pois suas ovelhas não se conformariam em ficar sem, suponhamos, a de Fátima e a de Lourdes... Mas deverá um padre curvar-se ante a exigência de fiéis que se recusam a compreender que Nossa Senhora é uma só nas suas múltiplas manifestações? Não será cultivar a superstição em vez do espírito religioso?
Se cada igreja não se restringe a um certo número de imagens, acontece o que infelizmente aconteceu por toda parte, pelo menos no Brasil: julgou-se necessário colocar o Sagrado Coração e Santa Teresinha mesmo em igrejas anteriores àquela devoção e a esta santa, retirando-se sem maior cerimônia, para dar-lhes lugar, imagens dos santos em cuja honra havia sido erguido o altar ou o templo. E deparamos imagens de gesso, terrivelmente comerciais, ombreando com nobres relíquias do tempo da Colônia... O que necessita, sem dúvida, uma providência urgente.

Mas, além do número, moderado, deve haver também uma ordem conveniente na exposição das imagens. Assim, nunca se devia expor uma imagem do Cristo ou de Nossa Senhora em pé de igualdade com a de outro santo. Mas isso também não significa que devamos ter sempre, dominando toda a igreja, um Crucificado monumental no altar-mor, solução de que se abusou um pouco. O verdadeiro memorial do Calvário está na própria missa, sinal escolhido pelo próprio Cristo, e o crucifixo do altar poderá ser, com muita propriedade, a própria cruz processional, ali colocada outrora, bem como os candelabros, ao entrar o cortejo para o oficio litúrgico.

Como julgar as obras de arte

No artigo 126 determina-se muito acertadamente que "os Ordinários, no julgamento das obras de arte, consultem a Comissão Diocesana de Arte Sacra e, se for o caso, outros eminentes peritos". Isto significa que tal comissão deve ser composta também de peritos, não só de cultura teórica e livresca, como ás vezes sucede, mas capazes de julgar praticamente o valor artístico de uma obra. É claro que a última palavra ficará sempre com o Bispo (como no caso do Cristo de Madame Richier, que foi retirado da igreja de Assy)(9) , pois ele pode achar que a obra em questão, a despeito do seu valor, poderá chocar seus diocesanos, ainda não preparados para compreendê-la e aceitá-la. Mas o Bispo deve também interessar-se para que suas ovelhas progridam no terreno artístico como em todos os outros, vindo a aceitar mais tarde o que antes haviam recusado. O que não é difícil, quando ele próprio é sensível ao fenômeno artístico.

O artigo urge ainda um preceito antigo: "Diligentemente vigiem os Ordinários que as sagradas alfaias ou obras preciosas (...) não sejam alienadas nem destruídas". De fato é ainda freqüente, se excetuarmos as cidades que já tomaram (talvez um pouco tardiamente, helás!) consciência dos antigos valores (como Ouro Preto, Congonhas, Sabará), verem-se padres bem intencionados trocar imagens antigas por "novas" e derrubar até igrejas e capelas de certa beleza e antigüidade, perfeitamente adaptáveis ás vezes, para erguer no local uma construção vulgar e pretensiosa.

O contato com os artistas

Para que os Bispos possam consultar peritos sobre obras de arte sacra e mesmo venham a dispor das ditas obras, faz-se mister que procurem "interessar-se pelos artistas, por si ou por sacerdotes idôneos, dotados de competência e amor à arte". É o que determina o artigo 127. E tal atitude, mesmo antes de ser uma condição para o futuro da arte sacra, já é uma decorrência do múnus pastoral, que não pode excluir da sua solicitude nenhuma categoria de pessoas, mesmo que ainda não façam parte daquele rebanho ao qual todos são chamados. Que tal contato se faça preferentemente por meio de sacerdotes dotados de amor à arte, nada mais natural, pois só assim se tornará fácil o mútuo entendimento.

Felizmente, após um quase completo divórcio entre os artistas e a Igreja(10) , que viera quebrar uma antiga tradição, vemos os belos casos de Matisse e Le Corbusier, nomes de primeira linha, pondo o que tinham de melhor nas capelas de Vence e de Ronchamp. "Eu vos apresento com toda a humildade, escreve Matisse ao Bispo, a Capela do Rosário das Irmãs Dominicanas de Vence. Esta obra exigiu-me cinco anos de trabalho exclusivo e constante, e é o resultado de toda a minha vida ativa. Eu a considero minha obra-prima"(11). E a carta de Le Corbusier não fica atrás em beleza, modéstia e altivez, terminando assim: "Eu vos entrego, Excelência, esta capela de leal cimento, feita de temeridade talvez e de coragem sem dúvida, na esperança de que encontrará em vós, como em todos aqueles que galgarem a colina, um eco ao que ali todos nós inscrevemos". Pois Le Corbusier fala também em nome dos operários, do mestre de obras, dos engenheiros, empreiteiros, etc., "todos os que foram os realizadores desta obra difícil, minuciosa, rude, forte nos meios que empregou, mas animada por uma matemática total, criadora do indizível espaço”(12). As cartas desses dois arquitetos nos dão por um instante a sensação de estarmos na Idade Média.
Destruídos certos preconceitos e equívocos, o encontro dos artistas e dos padres será mais fácil do que se imagina, e temos a certeza de que não se afastarão uns dos outros pelo que têm em si de melhor, mas sim por seus mútuos defeitos e deformação profissional... A publicação "Ars Sacra 58", com textos em francês, alemão e inglês, tanto de artistas como de sacerdotes, bispos e papas, poderá ser consultada com proveito. Além de várias reproduções de arte sacra contemporânea, oferece-nos também uma longa bibliografia, sem nada, infelizmente, em português ou castelhano (13).

O equívoco fundamental a desfazer nesse terreno é o preconceito de que só o artista católico, cristão, ou pelo menos crente, será capaz de fazer arte sacra. O que decorre, a nosso ver, de uma falsa noção do que chamamos, ao comentar o artigo 122, arte religiosa, ou cristã, ou sagrada. Dizíamos que uma obra de arte sacra é uma obra de arte que serve para o culto, por satisfazer às exigências do mesmo segundo o julgamento da autoridade eclesiástica: esta dirá se a igreja é funcional e se tal pintura não vai de encontro ao dogma. Mas dizíamos também que a obra de arte sacra devia ser religiosa, cristã ou sagrada, o que é mais difícil de precisar. E, ao tentarmos fazê-lo, ficamos um pouco no vago, falando de um certo equilíbrio, de uma certa transparência, uma certa serenidade. Porque se há critérios objetivos para definir arte sacra, não os há do mesmo modo para definir arte religiosa, sagrada ou mesmo cristã.

De certo modo podemos dizer que toda arte em si mesma (deixando de lado o assunto e a intenção) tende a algo de religioso, o que fazia Vincent van Gogh escrever a seu irmão: "Eu gostaria de pintar homens e mulheres com esse não sei que de eterno, de que outrora a auréola era o símbolo, e que nós procuramos pela fulguração, pela vibração do colorido"(14). E Rodin já escrevera: "Os verdadeiros artistas são os mais religiosos dos homens. Tomam-nos por crianças que se embriagam de cores cambiantes e que brincam de boneca com as formas. Estão enganados. As linhas e as nuances não são para nós senão os sinais de realidades escondidas. Além das superfícies, nossos olhares mergulham até o espírito; e quando, em seguida, traçamos contornos, nós os enriquecemos com o conteúdo espiritual que eles envolvem. Eu sempre confundi a arte religiosa e a arte"(15).

Se o verdadeiro artista é assim um homem à procura desse resplendor da beleza que transfigura a matéria, como negar que eles possam pôr tal pesquisa a serviço de Deus e da Igreja, ainda mesmo que não creiam - quando orientados quanto ao tema, no caso de uma imagem ou quadro, ou quanto à função, no caso de um edifício. E assim, se um artista realmente cristão terá mais motivos para pôr o seu talento a serviço do culto e de Deus, pode acontecer que um outro, desprovido de fé, seja mais bem sucedido que ele, seja por ter mais talento, ou seja mesmo por acaso. Pois o acaso intervém também na obra de arte, e é aliás, segundo alguns, a contribuição de Deus...

Como de certo modo não há uma filosofia cristã, diríamos que também não há arte cristã, mas obras de arte de valor religioso (e às vezes sobre personagem ou tema da Revelação) que podem ser incorporadas ao culto, quando satisfazem às necessidades do mesmo. "A arquitetura, diz Auguste Perret, é a arte de organizar o espaço. A arquitetura se apodera do espaço, e limita, enclausura, encerra o espaço. Tem o privilégio de criar lugares mágicos, que são por inteiro obras do espírito"(16). Suponhamos que entrássemos um dia num desses espaços que nos parecessem, como se expressou certa vez Le Corbusier, "um vaso de silêncio e de doçura"(17) : que poderia obstar que o tomássemos para uma capela, ainda mesmo que o autor não tivesse pensado nisso e nem mesmo fosse cristão? Como diz muito bem Le Corbusier, "certas coisas são sagradas, outras não, tivessem ou não intenção religiosa"(18). Aliás, Santa Teresa já resolvera o problema há muito tempo, quando se decidiu a não repelir as aparições do Cristo, que podiam ser produzidas pelo demônio: não contemplaria ela um belo crucifixo ainda que tivesse sido esculpido por um pecador?

Tudo isso não quer dizer que devamos pôr de lado os artistas que tenham a ventura de partilhar a nossa fé, nem que descuremos de transmití-la aos outros na medida do possível, como algo que irá enriquecê-los, mesmo como artistas, na medida em que lhes abra novos horizontes e os torne moralmente melhores. Mas o que queremos evitar é o equivoco que poderia afastar da Igreja a preciosa contribuição de tantos homens que talvez chegassem a Deus ao servi-lo assim sem querer, como o Cireneu constrangido a carregar a cruz... E os artistas ficariam felizes e se entenderiam melhor conosco, se vissem que pensamos deles o mesmo que Henri Laurens: "Os artistas, mesmo os que não são praticantes, têm um fundo religioso. Por que não poderiam fazer obra de amor? Bem que a fizeram na época do cubismo. Repare como nos grandes artistas do nosso tempo existe um grande desinteresse em relação á sua arte: trata-se do que se pode chamar, eu creio, o fundo religioso"(19).

O desinteresse dos artistas, quando são compreendidos... Ocorre-me um caso que não sei se estaria autorizado a divulgar. O escultor Emendabile oferecendo-se espontaneamente para fazer a imagem de Nossa Senhora das Graças para o Mosteiro da mesma invocação em Belo Horizonte: executou-a primeiro em barro, depois em mármore, em tamanho natural, e fez questão de leva-la ele próprio até lá, prontificando-se a voltar no momento em que a forem colocar no lugar definitivo, para estudar a melhor altura, o melhor ângulo. Creio que se tratava, no caso de um artista cristão. Aliás o que o movia não era tanto, julgamos, um motivo religioso, mas o saber que a sua Virgem, tão simples, tão despojada, esmagando uma serpente que era quase um verme a seus pés, seria compreendida e amada por aquelas monjas cujo espírito conhecera.

Voltando ao problema da possibilidade de artistas "sem fé" trabalharem para a Igreja, Pio XII, como nota o Pe. Regamey, parece ter deixado uma porta aberta na sua encíclica sobre a Liturgia, quando fala de artistas que "sejam capazes de exprimir uma fé e uma piedade sinceras"(20). Pois pensamos que essa fé e essa piedade podem não ser a deles próprios, mas as da Igreja, na medida em que sejam capazes de se fazerem instrumentos dela. Por que haveríamos de ser mais rigorosos para com o sinal artístico, mais humano por assim dizer, do que para com o sinal sacramental, uma vez que qualquer pessoa, mesmo não-cristã, mesmo sem fé, pode dar a graça do Batismo, quando pretende "fazer o que a Igreja faz"? Se bem que no terreno da arte, como não se trata de um sinal eficaz, não basta que o artista tenha pretendido fazer-se ministro, por assim dizer, mas o tenha realmente conseguido - do que o Ordinário será sempre o juiz, ainda que recorrendo á opinião de outros, que aliem á fé a sensibilidade artística. A presente Constituição, falando dos "artistas todos que, levados pelo seu gênio, querem servir na Santa Igreja á glória de Deus", parece insinuar o apelo mesmo aos não-cristãos. Do contrário, por que teria usado o adjetivo "todos"? E por que teria usado a expressão "levados por seu gênio" em vez de "Por sua fé" ou "sua piedade"? Parece apenas exigir que queiram "servir" enquanto artistas (finis operis), sem cogitar do finis operantis. Se, como foi tratado no artigo 37, a Igreja "cultiva e desenvolve as conquistas e os dotes de espírito das várias nações e povos", podendo até admitir na própria Liturgia o que "não esteja indissoluvelmente ligado a superstições e erros", se o Vaticano II reafirma assim o "anima naturaliter christiana", como não sermos mais abertos em relação aos artistas, cabendo sempre, é claro, a última palavra, diante de cada obra, à autoridade eclesiástica(21).

Muito oportunamente o artigo 127 prevê que, "onde parecer conveniente, instituam-se Escolas ou Academias de Arte Sacra para a formação dos artistas". Como se vê, e de acordo com o que vimos dizendo, não se trata de tornar artista quem não o seja, mas de proporcionar àqueles que o são, não receitas e truques de arte religiosa ou cristã, que não existem, mas informações objetivas sobre a natureza do culto, sobre o que a Igreja espera deles, sobre o que já se fez no passado, etc., tudo isso a que poderemos chamar com propriedade arte sacra. O que será ensinado em tais escolas ou academias, e que são coisas realmente ensináveis, será matéria do artigo 128.

Novas exigências da Arte Sacra

O artigo 128 mostra-nos que não só os artistas, mas o próprio clero terá de estudar arte sacra. Pois se a arte, como tal, tem leis eternas e imutáveis, a arte sacra terá de variar quando varia o culto, a cujo serviço se põe. E o culto, se é também imutável em seus elementos fundamentais (matéria e forma dos sacramentos, por exemplo), pode e deve mudar em seus elementos acidentais, conforme o tempo e o lugar. E a presente Constituição consagrou inúmeras mudanças, há muito tempo desejadas, profundamente estudadas, mas que parecem decorrer todas do artigo 26, que afirma o caráter comunitário da liturgia e a necessidade da participação ativa de todo o povo.

Trata-se, portanto, de assunto que não está ainda inteiramente regulamentado: "Revejam-se quanto antes, juntamente com os livros sacros, de acordo com a norma do artigo 25, os cânones e estatutos eclesiásticos que dizem respeito ás coisas externas pertencentes à preparação do culto sagrado, principalmente quanto à digna e funcional construção das igrejas, à forma e edificação dos altares, à nobreza, disposição e segurança do tabernáculo eucarístico, à conveniência e honra do batistério, bem como à determinação razoável das sagradas imagens, da decoração e ornamentação". Trata-se realmente de uma revisão geral e profunda, orientada por critérios seguros, que não admitem compromissos: "O que parecer convir menos à liturgia reformada, seja emendado ou abolido; o que, porém, a favorecer, seja mantido ou introduzido".

Assim veremos provavelmente, em tais reformas, como decorrência do caráter pastoral das mesmas: a acentuação da Missa ou Eucaristia como centro da comunidade, o altar em forma de mesa (recordação da última ceia e sugestão da mesa da família), a celebração de frente para o povo, sem falar do espaço necessário para a formação das verdadeiras procissões de entrada, ofertório e comunhão, que tão belamente testemunham e incentivam a unidade dos fiéis e a sua união com o altar. Veremos também, como decorrência da volta à Sagrada Escritura, um novo destaque dado à liturgia da Palavra, que praticamente quase desaparecera do nosso culto. Veremos assim o estabelecimento de lugares próprios de onde ela possa ser lida e proclamada, provavelmente à direita e à esquerda do altar, como nas missas solenes. Veremos o desaparecimento do famoso "coro" das nossas igrejas, espécie de tribuna em que cantores e músicos davam pequenos concertos durante os atos litúrgicos, pois á palavra de Deus, ouvida agora na própria língua, responderá todo o povo com cânticos e aclamações tradicionais.

Nem serão esquecidos, numa reforma tão ampla, os objetos sagrados e a indumentária dos ministros, tão mais importantes por estarem mais perto dos sagrados mistérios. No espírito de toda a nova reforma poderemos supor que tais objetos sejam diminuídos no seu número, para não desviarem a atenção do essencial, bem como acentuados na sua forma e função: teremos talvez hóstias mais grossas e menos pálidas que as atuais, que mais sugerem papel do que pão, bem como cálices que pareçam copos e patenas que pareçam pratos, sugerindo logo o banquete, sagrado sem dúvida, que é a missa. Quanto aos ornamentos sagrados, veremos que se tornam de novo vestes: não mais a rígida couraça em cuja superfície se podiam bordar todas as cenas da Bíblia, completada por uma túnica de rendas, tantas vezes ordinária, mas o nobre manto dos romanos sobre a alva antiga, cujas belas dobras, que ainda contemplamos na estatuária medieval, tão bem acentuam (e disciplinam) os gestos daquele ator que vai fazer o papel do Cristo. A Constituição sugere aqui maior liberdade, de acordo com as Conferências episcopais, para uma adaptação "ás necessidades e costumes dos lugares". Poderemos ver assim aproveitados os belos materiais de cada região, em vez daqueles terríveis tecidos padronizados sempre das mesmas cores e com os mesmos JHS, duros, brilhantes e ordinários, e de cálices e castiçais sempre idênticos e pretensiosos.

Aliás, seria importantíssimo prevenir clero e fiéis contra as casas de artigos religiosos, de modo a forçarem-nas a pedir o concurso de verdadeiros artistas em sintonia com as autoridades eclesiásticas, para não mais encherem as suas vitrines (e depois as igrejas e nossas casas) com um tipo de objetos que só a eloqüência de um Léon Bloy saberia, como soube, descrever... (22)

A formação do clero

O artigo 129 fala da formação artística dos que se preparam para o sacerdócio, "de modo a serem instruídos na história da Arte Sacra e sua evolução, bem como acerca dos sãos princípios que devem reger as obras de arte". Considerando a arte sacra como a vimos considerando, trata-se aqui de um estudo de como a arte serviu ou não ao culto litúrgico, e o que dela se deve exigir para que possa servi-lo. O risco desses estudos, se feitos apenas como mera "história", é prender-nos demais ao passado, perigo contra o qual. nos adverte o Cardeal Lercaro, que passamos a citar: "Pode-se facilmente cair no perigo de tomar as formas pelas quais as idéias e o gosto de uma época exprimiram sinceramente a prece da alma católica como se fossem exigências objetivas do espírito religioso e da liturgia. Seria esquecer que a tradição mais autêntica e profunda manifesta a imortal vitalidade da liturgia, que lhe permite exprimir seus desejos na linguagem peculiar aos homens de cada século, com aquela maravilhosa plasticidade que é sinal evidente de perpétua mocidade. Essa estranha opinião, que imobiliza e parece cristalizar a expressão da alma litúrgica, criou fenômenos paradoxais de insinceridade, pela substituição evidente do julgamento individual à objetividade da tradição. Pretendeu-se determinar a expressão da’alma litúrgica pelas linhas de um ou outro estilo, renegando-se assim claramente, e na maior boa-fé, o verdadeiro e único principio da tradição: "Cada instante da história celebra, na linguagem dos vivos, o louvor do Deus vivo"(23).

lnstruídos e formados nessa linha indicada pelo Cardeal Lercaro, os futuros padres estarão à altura de não apenas "apreciar e conservar os veneráveis monumentos da Igreja", tantas vezes candidamente dilapidados, mas saberão enriquecê-los mais e mais de obras de arte autênticas, bem como) "proporcionar exatos conselhos aos artistas na produção das suas obras". Mas este trabalho junto aos artistas tem de ser complementado por um outro, sem o qual seria inútil. "É preciso, sem dúvida, prossegue o Cardeal Lercaro; encaminhar os artistas ao espírito da liturgia e às suas exigências concretas, mas é preciso também dar á comunidade católica o verdadeiro sentido da tradição. (...) A alma da liturgia não se opõe a nenhuma forma de arte, nem pretende determinar-lhe a linguagem: pede apenas que ela traduza autêntica e verdadeiramente o seu espírito e não recuse ouvir-lhe as exigências. (...) Ninguém tem, como o artista, a capacidade de sentir profundamente, e de às vezes pressentir, e de captar quase inconscientemente, mas com rara sensibilidade, as orientações, direções, atitudes e aspirações de um meio e de um momento, para fazer-se o intérprete das mesmas"(24).

A seriedade da liturgia

O artigo 130 declara que "convém que o uso dos Pontificais seja reservado àqueles eclesiásticos que gozam de caráter episcopal ou de alguma jurisdição especial". Vemos nessa recomendação mais uma decorrência do espírito que anima toda a Constituição, de considerar a Liturgia e tudo aquilo que a compõe conto algo de funcional e vivo, valorizando gestos, vestes e palavras, que são sinais para valer na comunidade do povo de Deus, e não honrarias em tomo de uma pessoa.

Um artigo que parece faltar

Gostaríamos de ver mais um artigo nessa Constituição, e que poderia ser o último deste capitulo VII, embora pudesse fazer também parte de outros. Aliás, quase poderios dizer que ele existe na Constituição, embora apenas insinuado aqui e ali, como quando se recomenda no artigo 30 que se levem em consideração, em relação aos fiéis, "os gestos e porte do corpo". Ora, se os movimentos e atitudes dos fiéis são dignos de atenção, que não se dirá dos movimentos e atitudes do Celebrante, que preside à assembléia e que dá, por assim dizer, o tom da mesma? Não basta cuidar-se apenas do canto e da palavra e nem apenas de unia exatidão "rubricistica", se assim podemos dizer, mas é preciso mais. É preciso que os clérigos aprendam, como dizia o Abade de "O milagre de Dom Malachias" (mal traduzido para o português, a começar pelo nome), "que não se entra no santuário do mesmo modo que num grande estádio para uma partida de futebol"(25). Não que se trate de fazê-los adotar uma atitude de "piedosa" humildade e até de alheamento aos fiéis, como se a liturgia fosse apenas um ato de devoção do sacerdote. Mas é preciso, já que a liturgia tem tanto de um teatro e o celebrante de um ator, que os ministros aprendam a entrar, a sair, a mover-se com dignidade, simplicidade e beleza, na medida do possível. Pelo simples modo de um Celebrante portar-se no altar, podemos avaliar logo se ele compreendeu realmente o que é a sagrada liturgia.

Conclusão

Terminando nossas considerações, permitimo-nos lembrar que este capitulo consagrado á arte sacra não é uma espécie de "parente pobre" na presente Constituição, tolerado ao lado do que trata do canto, que sempre mereceu mais carinho. Não: este capitulo é dos mais importantes, se levarmos em conta o espírito da mesma.

E com razão. A arte é importante, a beleza é uma necessidade. Tão necessária como aquele gesto, aparentemente supérfluo de Maria, que o Cristo defendeu contra Judas.

A beleza é importante. Sobretudo do ponto de vista pastorai e missionário. Ninguém, num breve orlar, toma conhecimento dos nossos dogmas. Dificilmente, num contacto banal, descobriremos a caridade cristã. Mas basta um relance de olhos para que o visitante seja atraído pela beleza da casa de Deus e leve mais longe a sua pesquisa. Como basta um relance de olhos para que ele se retire, indiferente ou decepcionado, sem saber que lhe foram mostradas apenas as rugas da que devia ser sem ruga e sem mancha.

Quantos rapazes não chegaram sequer a propor-se o problema da vocação sacerdotal porque, de um modo quase inconsciente, julgaram impossível verem-se vestidos com rendas e fitinhas! Se lhe fosse permitido terminar com uma confidência, o autor dessas linhas diria que só foi capaz de deixar de repelir o chamado de Deus, quando a Ordem de S. Bento lhe velou que a beleza, apesar de tudo, não fora de todo banida da casa do Senhor.

Um post-scriptum

Quando este trabalho já se achava no prelo, tivemos a felicidade de poder juntar-lhe mais um capítulo, uma espécie de "post-scriptum" da autoria do próprio Santo Padre. Pois Paulo VI, celebrando a "Missa dos Artistas" no dia 7 de maio, festa da Ascensão, dirigiu-lhes, de improviso, uma esplêndida saudação, cujo texto nos foi dado pelo "L'Osservatore Romano" do domingo seguinte, 10 de maio. Segue-se aqui a tradução das palavras do grande Pontífice, de que omitimos apenas o trecho final, que se reporta á Santa Missa e já não tanto ao problema da arte, que nos interessa no momento. Frisamos Que o Santo Padre, na parte que não transcrevemos, ao distinguir entre os artistas que "participam" da missa e os que "a cercam como uma coroa", parece dirigir-se até a não praticantes e não-católicos, o que se pode concluir também do seu modo geral de exprimir-se na parte que passamos a transcrever:
Caros senhores e filhos ainda mais caros!

Esforçai-vos, antes de começarmos esta conversa, por afugentar de vossa alma qualquer apreensão ou perturbação, que podem facilmente surpreender quem se encontre, em ocasião semelhante, na Capela Sistina. Não há lugar talvez que mais nos leve a pensar e a estremecer, nem que incuta mais timidez, e ao mesmo tempo mais excite os sentimentos da arma. Mas justamente vós, artistas, é que deveis ser os primeiros a repetir do coração o instintivo receio que assalta a Quem entra neste cenáculo de história, de arte, de religião, e de destinos humanos, e recordações, e presságios. E. por quê? Porque è justamente, mais que qualquer outro, um cenáculo de artistas para artistas. Deveis, pois, deixar neste momento que a grande onda de emoção, recordações e exaltações, que um templo como este costuma despertar nas almas, vos invada livremente o espírito.

Mas pode haver para vós uma outra perturbação, uma outra timidez que quase vos paralise. É a que pode causar-vos, não tanto a nossa humilde pessoa, mas a nossa presença oficial, o nosso ministério pontifício: aqui está o Papa!, murmurais de certo. Será que os artistas já vieram algum dia ao encontro do Papa? E' talvez a primeira vez que isto acontece. Vieram sem dúvida nos séculos passados, sempre estiveram em relações com o chefe da Igreja Católica, embora em contactos diferentes. Mas dir-se-ia que se acabara perdendo o fio de tal relação e colóquio. E agora estais aqui, todos juntos, num momento religioso, todo para vós, não como espectadores diante da cena, mas como quem sobe realmente á ribalta para um diálogo espiritual, uma celebração sagrada. E é natural, quando se é sensível e compreensivo, experimentar se uma certa veneração, um certo respeito, um certo desejo de compreender e de calar. Pois bem: se esta sensação viesse acaso tolher o livre curso de vossas emoções, nós desejamos ardentemente dissipa-la porque, se o Papa deve acolher todo mundo - porque é Pai de -todos, e tem para com todos um dever e para todos uma palavra - tem contudo uma palavra especialmente guardada para vós, e sente-se ansioso e feliz por exprimi-la hoje, pois o Papa é vosso amigo.

E é vosso amigo não só porque uma tradição de suntuosidade, mecenatismo, fausto e grandeza circunde o seu ministério, a sua autoridade, o seu contacto com os homens, e nem só porque necessite deste quadro decorativo e simbólico, que revele, a quem não o saiba, quem é ele, e como o Cristo o desejou entre os homens. Mas é vosso amigo por razões mais intrínsecas, pelas quais justamente vos encontrais hoje aqui, e que tão a peito tomamos: as razões do nosso ministério é que nos fazem vir ao vosso encontro! Será preciso fazermos a grande afirmação, que aliás já conheceis? Nós precisamos de vós! O nosso ministério tem necessidade da vossa colaboração. Porque, como sabeis, nosso ministério é pregar, e tornar acessível e compreensível, comovente mesmo. o mundo do espirito, do invisível, do inefável, de Deus em suma. E nesta operação, que faz o mundo invisível transbordar em fórmulas acessíveis, inteligíveis, vós sois os mestres. Pois é o vosso mister, a vossa missão; e vossa arte consiste justamente em roubar ao céu do espírito os seus tesouros, para revesti-los de palavras, cores, formas, e acessibilidade enfim. E não só daquela acessibilidade do professor de lógica ou matemática, que torna realmente compreensíveis os tesouros do mundo inacessível ás faculdades cognoscitivas dos sentidos e á nossa imediata percepção das coisas. Mas tendes ainda a prerrogativa de, no ato mesmo em que tornais acessível e compreensível o mundo do espírito, conservar-lhe, no entanto, a sua inefabilidade, o sentido da sua transcendência, a sua auréola de mistério, essa necessidade de capta-lo, ao mesmo tempo, na facilidade e no esforço.

Isto - e os entendidos chamam "Einfühlung", sensibilidade, á capacidade de manifestar, por meio do sentimento, o que não se consegue captar e exprimir por meio do pensamento - vós, artistas, o fazeis! Ora, neste vosso modo, nesta vossa capacidade de exprimir no âmbito do nosso conhecimento - e na verdade daquela forma fácil e feliz, ou seja sensível, que só a visão intuitiva penetra e apreende – vós sois, repetimos, mestres. E se nos faltasse o vosso auxilio, nosso ministério se tornaria balbuciante e incerto, e teria necessidade de fazer tini esforço para tornar-se, diríamos, ele próprio artístico, ou melhor, profético. Para atingir a força de expressão lírica da beleza intuitiva, seria necessário fazer com que o sacerdócio coincidisse com a arte.
Ora, se assim é, nossa conversa deveria tornar-se grave e solene.Talvez o lugar e até o momento o sugiram, mas não o tempo que nos foi concedido, nem'o programa que havíamos traçado para este primeiro encontro amigável. Quem sabe não virá o momento em que possamos ir mais adiante? Mas o tema é este: a necessidade de se restabelecer a amizade entre a Igreja e os artistas. Não que esta amizade se tenha jamais rompido, como prova esta mesma reunião, que é já tinia prova de amizade. Sem falar em tantas outras manifestações que podem atestar uma continuidade, uma fidelidade de relações, evidenciando que nunca se rompeu de todo a amizade entre a Igreja e os artistas. Mesmo porque, como dizíamos, a Igreja precisa dela. E depois, podemos dizer alguma coisa mais, lendo-vos o coração. Vós mesmos andastes buscando esse mundo do inefável, e descobristes que a sua pátria, que o seu endereço, que o seu melhor local de abastecimento é ainda a Fé, é ainda a oração, a religião, enfim.

Na verdade, temos sido sempre amigos. Mas, como acontece entre parentes, como acontece entre amigos, também nos agastamos um pouco. Não rompemos de todo, mas deixamos que a nossa amizade se perturbasse. Poderei falar com franqueza? Vós nos abandonastes um pouco, andastes longe, a beber de outras fontes, na ânsia embora legitima de expressar outras coisas, mas não mais as nossas.

Teríamos ainda outra observação a fazer, mas não queremos em manhã como esta perturbar-vos e ser descortês. Bem sabeis que trazemos uma certa ferida no coração quando vos vemos entregues a certas expressões que nos ofendem, a nós que somos o guardião de uma humanidade integral, de uma definição completa do homem, e da saúde, da estabilidade do homem. Vós separastes a arte da vida, e agora...

Mas ainda há mais. Algumas vezes esqueceis a lei fundamental da vossa consagração á expressão: não se sabe o que dizeis, não o sabeis vós mesmos tantas vezes, e o resultado é a linguagem de Babel, a confusão. E então, onde fica a arte? A arte deveria ser intuição, deveria ser facilidade, deveria ser felicidade. Vós nem sempre nos dais esta facilidade, esta felicidade, e então ficamos perplexos, intimidados, distantes...

Mas, para ser sincero e ousado - e apenas começamos, como vedes - reconhecemos que nós também vos afligimos um pouco. Nós vos afligimos, porque vos impusemos como primeira norma à imitação, a vós que sois criadores, sempre inquietos, transbordantes de mil idéias e mil novidades. Nós - era o que vos dizíamos - temos este estilo, e é preciso salvaguarda-lo; nós temos esta tradição, e é preciso ser fiel á mesma; nós temos estes mestres, e é preciso segu140s; nós temos estas íeis, e não é possível afastar-se delas. Algumas vezes vos jogamos em cima, por assim dizer, uma capa de chumbo; perdoai-nos! E, além disso, nós também vos abandonamos. Não vos explicamos as nossas coisas. Não vos introduzimos na cela secreta, onde os mistérios de Deus fazem palpitar de alegria, de esperança, de júbilo, de embriaguez, o coração do homem! Não fizemos de vós discípulos, amigos, confidentes; e, por isso, não nos conhecestes.

E então vossa linguagem tornou-se dócil sem dúvida, para o nosso mundo, mas como que amarrada, convencional, incapaz de encontrar a sua livre voz. E nós sentimos então a insatisfação dessa expressão artística. E - faremos o Confiteor completo esta manhã, ao menos aqui vos tratamos pior ainda, recorrendo aos sucedâneos, ás reproduções, ás obras de arte de má qualidade c pouco preço, momo porque, para nossa desculpa, não dispúnhamos de meios para comprar coisas grandes, coisas belas, coisas novas, coisas dignas de serem admiradas; e andamos também nós por becos escusos, onde a arte e a beleza, e o que é pior para nós - o culto de Deus, não foram bem servidos.

Vamos fazer de novo as pazes? Hoje mesmo? Aqui? Vamos de novo ser amigos? O Papa será de novo chamado "o amigo dos artistas"? Quereis sugestões, meios práticas? Mas estes não entram agora nos meus planos. Fiquemos por ora apenas nos sentimentos. Devemos tornar-nos novamente aliados. Devemos reclamar de vós todos us talentos que o Senhor vos deu, mas deixando-vos entoar, dentro do âmbito da funcionalidade e da finalidade que irmanam a arte ao culto, o canto livre e poderoso de que sois capazes. E vós deveis ser bastante corajosos para interpretar aquilo que devereis exprimir, para virdes buscar conosco o motivo, o tema, c, algumas vezes, mais que o tema: aquele fluido secreto que se chama inspiração, que se chama graça, que se chama o carisma da arte. E, se Deus quiser, nós vo-lo daremos. Mas dizíamos que este momento não é próprio para longas conversas e para as proclamações definitivas.

Porém nós já firmamos, da nossa parte, nós papa, nós igreja, tem grande tratado de nova aliança com o artista. A Constituição da Sagrada Liturgia, que o Concílio Vaticano II publicou e promulgou em primeiro lugar, contém uma página - espero que a conheçais - que è justamente o pacto de reconciliação e de renascimento da arte religiosa no seio da Igreja Católica. Repito: o nosso pacto foi firmado. Espera de vós a confirmação.

“A Sagrada Liturgia renovada pelo Concílio” - frei Guilherme Baraúna - OFM

 

CITAÇÕES

(1) Em Art et Scolastique, Paris 1927, o leitor não encontrará esta distinção como a formulamos aqui, pois é mais uma conclusão da leitura de todo o livro. Na p. 211 encontra-se, como apêndice, uma excelente conferência de Maritain: Quelques réflexions sur l'art religieux. A tradução portuguesa, que não cheguei a conhecer, está esgotada, segundo informa a editora AGIR.
A S. Liturgia – 42

(2) "C’est cet immortel instinct du beau Qui nous fait considerér la terre et ses spetacles comme un aperçu, comme une correspondance du ciel. La soif insatiable de tout ce Qui est au delà de ce que révèle la vie, est la preuve la plus vivante de notre immortalité. C’est à la fois par la poésie, par et à travers la musique, que l’âme entrevoit les splendeurs situées derrière le tombeau; et quand un poème exquis amène las larmes au bord des yeux, ces larmes ne sont pas la preuve d’un excès de jouissance, elles sont bien plutôt le témoignage d’une mélancolie irritée, d’une nature exilée dans l’imparfait et Qui voudrait s’emparer immédiatement, sur cette terre même, d’un paradis révélé”. Citado por Jacques Maritain em Situation de la Poésie, Paris 1938, p. 91.

(3) Citado por Jacques Maritain em sua Response à jean Cocteau, Paris 1926, p. 26. O artista é como Jacob após a luta com o Anjo.

(4) Michel F1orisoone, Esthétique et Mystique d'après Saiuie Thérèse d'Avila et Saint Jean de la Croix, Paris 1956.

(5) Ver o interessante estudo de Alceu Amoroso Lima (Tristão de Ataide) O drama da Beleza, sobre o livro de Eric Gill Beauty looks alter herself, em O Espírito e o Mundo, Rio 1936, p. 68.

(6) Paul C1audeI, L'annonce falte à Marie, em Théâtre, Paris 1948,vol. II, p. 1265.

(7) Ars Sacra 58, Lovaina.

(8) Ars Sacra 58, Lovaina.

(9) Ars Sacra 58 traz uma reprodução do Cristo de Germaine Richler, bem como artigos (a favor) de Bernard Dorival e (contra) de Gabriel Marcel. Joseph Pichard, em L'art,sacre moderne, Paris 1953, p. JU3, ocupa-se do mesmo caso.

(10) Das conseqüências de tal divórcio temos no cap. L'appet aux grands da já citada obra de Joseph Pichard, p. 100, o testemunho que passamos a traduzir: "O Pe. Devimy aborda Picasso: "O pintor saboiano Bonnard pintou para minha igreja um S. Francisco de Sales. Ao Sr., que é espanhol, eu queria pedir um S. Domingos". Picasso responde: "O Sr. conhece bem a minha pintura? - Sei apenas, responde o Padre, que o Sr. é hoje o pintor mais célebre. - Vou mostrar-lhe alguma coisa", diz Picasso. Vai ao fundo do atelier, remexe nas telas, nos desenhos. Volta com um trabalho nas mãos. "Será que isto lhe serve? - Creio que não, responde o padre. - Pois eu pensava que servia", diz simplesmente o pintor, que vai e volta com outra obra. "E isto, pergunta ele, acha que isto podia ser Nossa Senhora? - Absolutamente, replica o padre. - Pois eu acho que pode", diz Picasso. Neste curto e incisivo diálogo vê-se nitidamente a oposição entre a concepção individual do artista e a concepção tradicional do clero, que só poderá ser superada por um mútuo esforço. Tal esforço, que não foi tentado então, o foi mais tarde, com outros artistas, produzindo os seus frutos".

(11) Ars Sacra 58, Lovaina.

(12) Ars Sacra 58, Lovaina.

(13) Ars Sacra 58, obra de belíssima apresentação gráfica, não tem páginas numeradas, razão por que não as temos indicado nas citações que vimos fazendo; também não consta a data da edição, provavelmente 1959, Lovaina. L'art sacre moderne, de Joseph Pichard, Arthaud, Paris 1953, é também ilustrada com fotografias de obras que vão de 1890 a 1952. Os títulos de alguns capítulos dão uma idéia do interesse do livro: Rentrée du Spirituei, Lê débat du sacré, L'appei aux grands, Problèmes et artistes d'aujourd'hui, etc. Em português, além do já citado estudo de Tristão de Ataide O drama da Beleza, podemos indicar também, embora de caráter mais geral, dois magníficos ensaios de Gustavo Corção em Fronteiras da Técnica, Rio 1952: O fazer e a agir e A técnica de Deus, sua arte e seu amor.

(14) Ars Sacra 58, Lovaina.

(15) Ars Sacra 58, Lovaina.

(16) Ars Sacra 58, Lovaina.

(17) Ars Sacra 58, Lovaina.

(18) Ars Sacra 58, Lovaina.

(19) Ars Sacra 58, Lovaina.

(20) Ars Sacra 58, Lovaina.

(21) Ver o que diz um teólogo como o Pe. Charies Journet no seu artigo L'église du plateau d'Assy, em Nova et venera, 2 (1951), onde resume os vários argumentos a favor da possibilidade de uma obra de arte sacra realizada por artista não-cristão: "Tout ce qui est authentique commence d'être catholique".

(22) Transcrevemos no original o texto de Léon Bloy em seu romance Le Désespéré, Paris 1938, p. 187. No seu magnífico estilo, Bloy usa palavras que não saberíamos traduzir, bem como outras de tradução óbvia, mas, por isso mesmo, intraduzíveis...
"Aujourd'hui, le Sauveur du monde crucifié appelle à lui tous les peuples à l'étalage des vitriers de la dévotion, entre un Evangéliste coquebin et une Mére douloureuse trop avancée. Il se tord correctement sur de délicates croix, dans une nudité d'hortensia pâle ou de lilas crémeux, décortiqué, aux genoux et aux épaules, d'identiques plaies vineuses éxécutées sur le type uniforme d'un panneau crevé. – Genre italien, affirment les marchands de mastic.
Le genre français, c'est un Jésus glorieux, en robe de brocart pourpré, entr'ouvrant, avec une céleste modestie, son sein, et dévoilant, du bout des doigts, à une visitandine enfarinée d'extase, un énorme coeur d'or couronné d'èpines et rutilant comme une cuirasse.
C'est encare le même Jésus plastronné, déployant ses bras pour l'hypothétique embrassement de la multitude inattentive; c'est l'éternelle Vierge sbacée, en proie à la même recette de désolation millénaire, tenant sur ses genoux, non seulement la tête mais le corps entier d'un minable Fils, déclouè suivant de cagneuses formules. Puis, les innumérables lmmaculées Conceptions de Lourdes en premiéres communiantes azurées d'un large ruban, offrant au ciel à mains jointes l'indubitable innocence de leur émail et de leur carmin.
Enfin, la tourbe polychrome des élus: les saints Joseph nourriciers et frisés, généralement vêtus d'un tartan rayé de bavures de limaces, offrant une fleur de pomme de terre à un poupon bénisseur; les saint Vincent de Paul en réglisse, ramassant, avec une allégresse réfrénée de petits monstres en stéarine, pleins de gratitude; les saints Louis de France ingénus, porteurs de couronnes d'épines sur de petits coussins en peluche; les saints Louis de Gonzague chérubinement agenouillés et cirés avec le plus grand soin, les mains croisées sur le virginal surplis, la bouche en cul de poule et les yeux noyés; les saints François d'Assise glauques ou céruléens, à force d'amour et de continence, dans le pain d'épice de leur pauvreté; saint Pierre avec ses clef, saint Paul avec som glaive, sainte Marie Madeleine avec sa tête de mort saint Jean Baptiste avec son petit mouton, les martyrs palmés les confesseurs mitrés, les vierges fleuries, les papes aux doigts spatulés d'infaillibles bénédictions, et l'infinie cohue des pompiers de chemins de croix.
Tout cela conditionné et tarifé sagement, confortablement, commercialement, économiquement. Riches ou pauvres, toutes les paroisses peuvent s'approvisionner de pieux simulacres en ces bazars, oú se perpétue pour le chaste assouvissement de l'oeil des fidéles l'indéracinable tradition raphaélique".

(23) Ars Sacra 58, Lovaina.

(24) Ars Sacra 58, Lovaina.

(25) Desse notável romance de Bruce Marslhall, traduzimos, da tradução francesa de Marie Tadié (Paris 1948), um trecho da p. 11: "Notemos, para instrução dos que julgam os ritos absurdos quando se trata do Serviço de Deus e razoáveis quando se trata das entradas e saídas dos prefeitos e das atrizes de cinema de um transatlântico, que S. Bento e os seus discípulos sempre sustentaram que o serviço do templo é muito mais importante que o do mundo. E que, levando em conta a eternidade, é mais razoável e mais digno reservar a pompa e o fausto para o Deus Todo-Poderoso, que para meia dúzia de príncipes que se pavoneiam durante uma curta existência e logo caem no esquecimento, antes mesmo que o estrépito de seus passos tenha deixado de ressoar nas planchas daquilo que Shakespeare chamava a cena do mundo".