DIRETRIZES  GERAIS  DA  AÇÃO  PASTORAL  DA  IGREJA  NO  BRASIL  1979 - 1982

APRESENTAÇÃO

1. As presentes Diretrizes Gerais da ação pastoral da Igreja no Brasil são fruto do processo de planejamento, assumido por ela de modo progressivo e mais sistemático a partir do apelo de João XXIII no primeiro ano de seu pontificado.

2. Resultam de um longo esforço de reflexão sobre a realidade do país, desenvolvido em todos os níveis à luz do Evangelho, desde o Plano de Emergência (1962) até os últimos planos bienais. Querem responder aos anseios do episcopado nacional, que em sua Assembléia Geral de Abril de 1979 em Itaici, SP, após rever as diretrizes vigentes desde o PPC (1966-1970) e atualizado em 1974, decidiu reformulá-las sob a inspiração das conclusões da III Conferência Geral do Episcopado latino-americano em Puebla.

3. Desejam expressar os grandes rumos que hoje deve tomar a Igreja, cumprindo sua missão de anunciar o Reino a serviço do povo de Deus. Daí a fidelidade que pretendem guardar à realidade mesma da Igreja e do povo a que esta serve.

4. Reúnem, sob a forma de um objetivo geral, os principais elementos que, como exigência de nossa missão, hão de orientar todas as atividades pastorais.

5. Em sua forma concisa, pretendem facilitar a unidade de um mesmo espírito, que em todo momento há de animar o nosso serviço eclesial.

6. Após a formulação do objetivo geral, segue-se sua concretização através das várias linhas pastorais:

I - OBJETIVO GERAL - EVANGELIZAR

8. Ao proclamar a missão que o Pai lhe confiou na terra em favor dos homens, o Senhor Jesus aplicou a si, em sentido pleno, a profecia de Isaías: o Espírito do Senhor está sobre mim porque ele me ungiu para EVANGELIZAR os pobres" (Lc 4,18).

9. "EVANGELIZAR" é, pois, a missão de Cristo e a razão de ser da Igreja, que impulsionada pelo mesmo Espírito, continua na História dos homens, a atuação de Cristo, o primeiro Evangelizador (cf. EN 6,75). A Evangelização inclui toda uma riqueza de conteúdo que se foi explicitando no correr dos tempos, a partir dos diferentes apelos e situações emergentes em cada época.

10. A Igreja com sua tradição viva é testemunha e depositária do Evangelho (cf. EN 15; P 224). Paulo VI, inspirado pela riqueza do Sínodo sobre Evangelização, recolhe todo esse tesouro e apresenta a missão de evangelizar como "um processo complexo em que há variados elementos: renovação da humanidade, testemunho, anúncio explícito, adesão do coração, entrada na comunidade, aceitação dos sinais e iniciativas do apostolado" (EN 24).

11. A palavra EVANGELIZAR, no início do objetivo geral, põe em evidência a atividade eclesial, continuação da missão de Jesus. A Igreja existe para evangelizar (cf. P 4,75,85,225).

12. Para evangelizar com credibilidade, a Igreja deve evangelizar a si mesma por uma conversão constante (EN 15; P 349). Evangelizar não é missão apenas da hierarquia, mas de todo o povo de Deus que a exerce corresponsavelmente (cf. P 348; 1097).

13. Na globalidade da ação evangelizadora, respeitada e promovida em toda sua riqueza, sublinham-se alguns aspectos:

Evangelizar é anunciar o Reino de Deus, prolongando através dos tempos a missão de Jesus, que veio "trazer a boa nova aos pobres, anunciar aos cativos a libertação e aos cegos a restauração da vista, dar liberdade aos oprimidos, proclamar o ano da graça do Senhor" (Lc 4,18; cf. EN 8; P 227).

Evangelizar é também denunciar profeticamente o que se opõe à dignidade do homem e ao plano de Deus (P 338, 1269).

Evangelizar é renovar toda a vida da sociedade, a partir de dentro (cf. EN 18) não de maneira decorativa, como que aplicando um verniz superficial, mas de maneira vital, em profundidade, e isto até às suas raízes, a cultura e as culturas do homem (cf. EN 20), modificando, pela força do Evangelho os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade (cf. EN 19).

14. Evangelizar constitui assim o centro de convergência do Objetivo Geral. Com isto, se pretende significar que esse mesmo Objetivo se situa no prolongamento e é a implementação concreta de Puebla, cujo tema foi precisamente a Evangelização.

A SOCIEDADE BRASILEIRA EM TRANSFORMAÇÃO

15. Dentre as muitas transformações que a Sociedade Brasileira vem atravessando, é importante focalizar, do ponto de vista pastoral, principalmente aquelas que se processam ao nível dos valores morais e religiosos, das quais as outras são efeitos e manifestações.

16. Essas transformações se situam num momento caracterizado pelo fato de que, enquanto umas tendências atingem um certo clímax, outras começam a surgir como resposta às primeiras. As tendências que se aproximam do clímax conspiram contra uma sociedade fraterna (a). As tendências opostas constituem as forças com as quais se pode contar para a construção de uma sociedade fraterna (b).

17. a) Foi imposto à Sociedade Brasileira um tipo de desenvolvimento inspirado num modelo puramente quantitativo, orientado para o lucro, com exploração predatória dos recursos naturais. Isto mantém e até acentua uma situação estrutural de injustiça, na qual, formas de produção estão ligadas a interesses multinacionais do capital, da sociedade de consumo e do mercado de exportação.

Assim, a Sociedade Brasileira acha-se envolvida na escalada do "ter mais", anestesiando-se aos clamores pela justiça e permitindo às pessoas, às classes sociais e às regiões mais favorecidas ficarem mais ricas à custa da pobreza crescente dos mais pobres.

b) Está se esboçando, na atualidade, um nítido questionamento do próprio tipo de desenvolvimento pela crescente conscientização crítica do consumismo e pela abertura para os valores qualitativos de novas formas de relacionamento social, baseados mais na solidariedade do que na competição. Percebe-se aí o vigor novo de um povo que se vai enucleando em suas bases comunitárias, que se vai organizando em suas múltiplas formas de associações de bairros, de classe, para defender seus direitos, para exigir a distribuição eqüitativa das quotas de sacrifício.

18. a) As Tecnocracias oficiais, a serviço de um regime autoritário, sucumbiram às urgências imediatistas e fizeram da Sociedade Brasileira uma espectadora passiva do processo e uma vítima dos graves problemas sociais engendrados pelo próprio tipo de desenvolvimento que lhe fora imposto.

b) Nota-se, hoje, um impulso novo que exige, por todos os meios, a aceitação da primazia do homem (cf. Subsídios para uma Política Social, 39) o anseio do povo de participar nas decisões que afetam seu destino (cf. idem, 62), o desejo de impor a supremacia dos valores éticos sobre o critério da eficiência imediatista, o desejo de cobrar da classe política o desempenho de sua responsabilidade representativa.

Esse desejo, cujo primeiro ímpeto desaguou em processos conflituais, empenha-se por encontrar seus caminhos para canalizar suas energias dentro dos processos de uma autêntica confrontação democrática.

19. a) Sociedade Brasileira, provocada pelos Meios de comunicação Social a serviço do consumismo, deslizou para o declive da permissividade, com a crescente deterioração da autoridade, em todos os níveis, a começar do nível familiar. A manipulação de pseudo-valores, a ostentação de formas de consumo incompatíveis com as possibilidades nacionais, a exacerbação do erotismo, geraram um perigo potencial de frustração coletiva que explode nas formas mais variadas de violência, mal contidas por uma repressão que não recua ante os processos mais ignóbeis de desrespeito à pessoa humana.

b) Já é possível observar tendências que procuram mais atingir as causas do que reprimir os efeitos, valorizando novas formas de realização humana e do uso responsável da liberdade, protestando contra a violência e a exploração do homem.

Veiculação melhor de notícias e informações revela-se como uma força de pressão para mudanças, apesar da influência dos poderes políticos e econômicos.

20. a) A Sociedade Brasileira vem admitindo, ao lado do latifúndio, as grandes empresas agro-industriais e incentivando a expansão do capitalismo agrário, com desrespeito dos direitos dos pequenos proprietários e posseiros, causa de sempre maior número de conflitos, muitos até acabando em mortes. Assiste-se à proletarização do trabalhador rural através do sistema iníquo dos "bóias-frias".

Por outro lado, a rapidez da urbanização constitui um desafio não só para uma política social adequada nesses centros decisivos para os destinos da nação, mas também para a pastoral da Igreja.

b) Cresce, porém, a consciência dos perigos criados por tal situação, ao mesmo tempo em que as bases comunitárias se articulam para a defesa de seus direitos e para a reabilitação do Estatuto da terra.

Surgem novas formas de organização comunitária nesses centros urbanos que aprendem a superar a tentação do recurso ao paternalismo estatal. A manifestação de lideranças trabalhadoras emergentes, apesar de contarem com mecanismos sindicais ainda tutelados, revela-se como uma força capaz de registrar progressos no âmbito das justas reivindicações dos trabalhadores.

Surgem também novas lideranças cristãs e formas de ministérios, onde se começa a ensaiar as respostas ao desafio da pastoral urbana.

21. a) O processo de urbanização e esvaziamento do campo está levando uma sociedade rural tradicional à desagregação. Deixa, assim, grande número de pessoas desnorteadas ou à mercê de pseudo-valores da sociedade de consumo. Estes ficam sem meios para suscitar fé mais pessoal e mais livre que possa resistir aos efeitos negativos da mudança.

Muitas vezes, falta a atuação evangelizadora da Igreja, identificada com modelos estranhos à nossa cultura, uma resposta pastoral adequada aos problemas religiosos que angustiam nosso povo. Decorre dessa situação a força atrativa de movimentos religiosos sectários e cultos afro-brasileiros.

b) Constata-se, no entanto, o amadurecimento de tantas comunidades de base no meio popular que se tornam não somente forte apelo à revisão e à conversão na própria Igreja, mas também manifestam um esforço sensível para a transformação da sociedade. As CEBs não se reduzem a um mero fenômeno social de grupalização, mas são uma vivência religiosa de participação e comunhão.

A isto se alia um empenho crescente na educação da fé e a atuação profética de certos pastores que contribuem para transmitir nova imagem de uma Igreja de juventude e esperança.

22. a) No setor educacional, muito embora a Educação e a escolarização tenham progredido, o próprio sistema educacional ainda constitui um processo de transmissão de valores e de formação de classes privilegiadas para consolidação dos próprios privilégios. E ao mesmo tempo se observa a deformação que despersonaliza e faz da Educação uma empresa com objetivos de lucro.

b) Contudo, cresce a consciência crítica das deficiências do sistema educacional e multiplicam-se as iniciativas de educação para a justiça.

23. a) A Sociedade Brasileira está sendo cada vez mais envolvida pelo processo de secularização e o secularismo atingiu especialmente a cultura urbana. O processo trouxe uma nova ambigüidade a muitas obras da Igreja, notadamente às de natureza educacional e assistencial. Nelas a Igreja corre o risco de perder sua destinação pastoral e evangelizadora, a de ser reduzida à condição de concessionária supletiva de serviços públicos.

b) Entretanto, o processo de secularização não destruiu o substrato de religiosidade católica que permanece, especialmente, no povo humilde. Como resistência ao secularismo e ao materialismo consumista, observa-se o surgimento de uma nova busca do espiritual e do religioso, de formas de viver comunitariamente e de interpretar o sentimento religioso apesar das variadas formas de sincretismo.

A PARTIR DA OPÇÃO PELOS POBRES

24. A Igreja, chamada a continuar a missão de Jesus de evangelizar todos os homens (cf. P 205-362), vê, na opção preferencial pelos pobres, uma exigência do exemplo do divino Mestre. "O Filho de Deus demonstrou a grandeza deste compromisso no fazer-se homem, pois identificou-se com os homens tornando-se um deles, solidário com eles e assumindo a situação em que se encontram, em seu nascimento, em sua vida e, sobretudo, em sua paixão e morte, na qual chegou À expressão máxima de pobreza" (P 1141).

"Criados à imagem e semelhança de Deus para serem seus filhos, esta imagem jaz obscurecida e também escarnecida. Por isso Deus toma sua defesa e os ama. Assim é que os pobres são os primeiros destinatários da missão, e sua evangelização é o sinal e prova por excelência da missão" (P 1142).

25. Ratificamos com coragem o mesmo compromisso que em nosso nome, os Bispos em Medellín e Puebla assumiram fazendo "uma clara e profética opção preferencial e solidária pelos pobres no intuito de sua integral libertação" (P 1134).

Este compromisso inclui necessariamente dois aspectos: 

1° Conversão de toda a Igreja

26. "Esta conversão traz consigo a exigência de um estilo de vida austero e uma total confiança no Senhor, já que na sua ação evangelizadora a Igreja contará mais com o ser e poder de Deus e de sua graça do que com o "ter mais" e o poder secular. Assim, apresentará uma imagem autenticamente pobre, aberta a Deus e ao irmão, sempre disponível onde os pobres têm capacidade real de participação e são reconhecidos pelo valor que têm" (P 1158).

2º Libertação dos pobres

O anúncio de Jesus Cristo iluminará os pobres a respeito da própria dignidade e os levará à libertação e comunhão com o Pai e os irmãos, mediante a vivência da pobreza evangélica (cf. P 1153). "O melhor serviço ao irmão-pobre é a evangelização que o dispõe a realizar-se como filho de Deus, o liberta das injustiças e o promove integralmente" (P 1145).

27. O Evangelho nos deve ensinar, em face das realidades em que vivemos imersos, que não se pode, atualmente, na América Latina, amar de verdade o irmão, nem, portanto, a Deus sem que o homem se comprometa, em nível pessoal e, em muitos casos, até em nível estrutural, com o serviço e promoção dos grupos humanos e dos extratos sociais mais pobres e humilhados, arcando com todas as conseqüências que se seguem no plano destas realidades temporais (cf. P 327). Com Puebla indicamos algumas conseqüências:

- Condenamos como anti-evangélica a pobreza extrema que afeta numerosíssimos setores em nosso país.

- Esforçamo-nos para conhecer e denunciar os mecanismos geradores dessa pobreza.

- Para desarraigar a pobreza e criar um mundo mais justo e fraterno, reconheceremos a solidariedade de outras igrejas e unimos os nossos esforços aos dos homens de boa vontade.

"Apoiamos as aspirações dos operários e camponeses que querem ser tratados como homens livres e responsáveis, chamados a participar nas decisões que concernem à sua vida e futuro e animamos a todos em sua própria superação" (P 1162).

- Defendemos seu direito fundamental de criar livremente organizações de defesa e promoção de seus interesses e para contribuir responsavelmente pelo bem comum.

- Devotamos especial atenção ao problema dos agricultores, dos indígenas e da promoção da mulher (cf. P 1159-1163).

28. É o momento de se dizer com o Santo Padre: "não é justo, não é humano, não é cristão continuar com certas situações abertamente injustas" (João Paulo II - Discurso aos Índios de Oaxaca e Chiapas).

PELA LIBERTAÇÃO INTEGRAL DO HOMEM

29. A libertação que buscamos é libertação de todos os homens e do homem todo em Jesus Cristo.

30. A ação evangelizadora da Igreja não visa só à libertação dos pobres, mas através dela a dos ricos. "O testemunho duma Igreja pobre pode evangelizar os ricos, que têm o coração apegado às riquezas, convertendo-os e libertando-os desta escravidão e de seu egoísmo" (P 1156).

31. Entre os anseios de libertação do nosso povo, Puebla destaca:

- A igualdade de todos os cidadãos, com o direito e o dever de participar no destino da sociedade, com as mesmas oportunidades (P 503).

- O exercício de suas liberdades, amparadas em instituições fundamentais que garantam o bem comum, no respeito aos direitos das pessoas e associações (P 504);

- A legítima autodeterminação, que permita ao povo organizar-se segundo seu próprio gênio e a marcha da História, e cooperar numa nova ordem internacional (P 505), na qual as relações de dominação e dependência sejam substituídas pelas de cooperação e solidariedade.

32. A libertação integral do homem não se restringe à sua dimensão meramente temporal, mas inclui sobretudo a transcendente. Abrange portanto:

- O anúncio da Salvação em Cristo Jesus.

- A libertação do pecado, seja pessoal seja social e de tudo que transvia o homem e a sociedade e que tem sua fonte no egoísmo, no mistério da iniqüidade" (P 482).

- A libertação que se realiza na história pessoal e dos povos abrangendo as várias dimensões da existência: o social, o político, o econômico, o cultural e o conjunto de suas relações (P 483).

- A libertação para o "crescimento progressivo no ser pela comunhão com Deus e com os homens, que culmina na perfeita comunhão do céu, onde Deus é tudo em todos" (P 482).

NUMA CRESCENTE PARTICIPAÇÃO E COMUNHÃO

33. As conclusões de Puebla insistem repetidamente que a Evangelização da América Latina, no presente e no futuro, há de se fazer num progressivo esforço de participação e comunhão.

34. A participação e comunhão hão de tomar forma concreta na sociedade civil e na Igreja. No âmbito dela, esta exigência, apesar de permanecer, em parte, uma realidade a ser conquistada, já deve encontrar sua realização onde atuam seus agentes através da liturgia, oração, testemunho, catequese, processos de educação e comunicação social e outros. A Igreja precisa também estar aberta aos outros irmãos "para o diálogo de comunhão procurando áreas de participação para o anúncio universal da salvação" (P 1097).

35. As CEBs "esperança da Igreja" (EN 58), especialmente em nosso país, e outras formas de comunhão na Igreja Particular, continuam sendo o lugar privilegiado de participação livre e responsável em comunhão fraterna, onde as pessoas se abrem, à luz da Palavra de Deus, para um novo tipo de vida mais humana e evangélica (cf. P 629).

36. Cada comunidade eclesial deveria esforçar-se por construir para o Continente um exemplo de modo de convivência onde consigam unir-se a liberdade e a solidariedade, onde a autoridade se exerça com o espírito do Bom Pastor, onde se viva uma atitude diferente diante da riqueza, onde se ensaiem formas de organização e estruturas de participação, capazes de abrir caminho para um tipo mais humano de sociedade, e, sobretudo, onde inequivocamente se manifeste que, sem uma radical comunhão com Deus em Jesus Cristo, qualquer outra forma de comunhão puramente humana acaba se tornando incapaz de sustentar-se e termina fatalmente voltando-se contra o próprio homem.

37. A constante renovação da vida comunitária eclesial, chamada a ser sinal e sacramento da fraternidade que Cristo trouxe a todos os homens, será também um meio dos mais eficientes para que a Igreja contribua na criação de uma nova sociedade, mais justa e mais fraterna, baseada sobre a participação de todos os cidadãos, em igualdade de condições, na decisão do destino da sociedade (cf. P 503).

38. É necessário criar no homem brasileiro "uma sã consciência social, um sentido evangélico crítico face à realidade, um espírito comunitário e um compromisso social" (P 1308). O desafio é imenso.

39. Muito ajudou neste sentido o esforço eclesial dos pastores que souberam ser a voz daqueles que não tinham voz nem vez.

40. Agora, porém, além de falar do pobre e pelos pobres, é preciso que estejamos unidos aos pobres.

VISANDO À CONSTRUÇÃO DE UMA SOCIEDADE FRATERNA

41. Comprometidos com a evangelização a partir da opção pelos pobres, pelo caminho da participação e comunhão, há um resultado a obter: uma sociedade nova, justa e fraterna.

42. Esta sociedade nova virá ao encontro daquilo que são as aspirações dos homens de boa vontade:

- Qualidade de vida mais humana, sobretudo por sua irrenunciável dimensão religiosa, sua busca de Deus e do Reino que Cristo nos trouxe.

- Distribuição justa dos bens e das oportunidades, tendendo a abolir a distância entre o luxo desmedido e a indigência.

- Convivência social fraterna, na qual se fomentem e se tutelem os direitos humanos, e na qual as metas a alcançar se decidam pelo consenso e não pela força ou violência; nessa convivência ninguém se sinta ameaçado pela repressão, pelo terrorismo, pelos seqüestros ou pela tortura.

- Mudanças estruturais que assegurem uma situação justa para todos.

- Participação de todos na produção, partilha dos progressos da ciência e da técnica moderna (cf. 132-136).

43. Comprometendo-se com a construção de uma sociedade fraterna, a Igreja entra plenamente no desígnio de Deus, como se deu a conhecer na História do Povo Escolhido, através dos Profetas, e sobretudo em Jesus.

44. Cristo que veio para levar a Lei à plenitude (cf. Mt 5,17), anunciando: "Bem-aventurados os pobres porque deles é o Reino dos céus" (Mt 5,3) não os convida a instalar-se na resignação mas confirma a voz dos profetas a insistir nas exigências que nascem da lei da caridade e da justiça.

45. Cristãos que somos temos que revelar todo poder do Evangelho como força renovadora e transformadora da convivência humana

ANUNCIANDO ASSIM O REINO DEFINITIVO

46. A atuação de Jesus não só coloca a semente de uma transformação da História e da criação de uma nova sociedade, mas, introduz, de modo mais radical, a humanidade num novo relacionamento com Deus, que não se esgota na História. Jesus inaugura o Reino de Deus que é a realização integral da participação e da comunhão em toda sua dimensão.

47. Este Reino definitivo já está, em germe, presente na História, por força do mistério pascal. "No centro da História humana fica assim implantado o Reino de Deus, resplandecente na face de Jesus Ressuscitado. A justiça triunfou da injustiça dos homens. Com Adão, principiou a História velha. Com Jesus Cristo, o novo Adão, principia a História nova.

Esta recebe o impulso indefectível que levará todos os homens, transformados em filhos de Deus, pela eficácia do Espírito, a um domínio do mundo cada dia mais perfeito, a uma comunhão entre os irmãos cada dia melhor realizada, à plenitude da comunhão e participação que constituem a própria vida de Deus" (P 197).

48."A vida trinitária, de que Jesus Cristo nos fez participantes, somente na glória é que chegará à plenitude" (P 209). "Jesus Cristo procurou sempre a glória do Pai e consumou sua entrega a ele na cruz. Jesus é "o primogênito entre muitos irmãos" (Rm 8,29). Ir ao Pai: nisto constitui o caminhar terreno de Jesus Cristo. A partir de então, ir ao Pai é o caminhar terreno da Igreja, povo de irmãos. Somente no encontro com o Pai acharemos a plenitude que seria utópico procurar no tempo" (P 210).

II - AS LINHAS DA AÇÃO PASTORAL 

49. Na história da ação pastoral orgânica do Brasil tem-se procurado cada vez mais atingir todos os campos, grupos e pessoas.

50. Assim o PPC, apresentou o quadro das 6 linhas que abrangem e encaminham a realização do objetivo pastoral a ser alcançado.

51. No correr dos anos, dada a intensificação da vida pastoral, através da ação planejada, foram aparecendo dificuldades não só para definir exatamente o campo de cada linha devido à intima complementaridade entre elas, mas também para localizar certas atividades.

52. Feita a revisão do PPC, elaboraram-se as Diretrizes Gerais", procurando manter as seis linhas e sanar tais problemas.

53. A XVII Assembléia Geral dos Bispos, em abril de 1979, votou pela permanência das linhas pastorais, porque, além de englobarem a complexidade da ação evangelizadora, têm sido bem aceitas como quadro de referência para as atividades pastorais em seus diversos níveis.

54. A Assembléia indicou ainda que as prioridades fossem estabelecidas dentro das linhas e encarregou a CEP de potenciar a ação pastoral, à luz das Orientações de Puebla.

55. As novas Diretrizes elaboradas segundo esta determinação da Assembléia Geral, apresentam o Objetivo Geral da Ação Pastoral da Igreja no Brasil, reforçando a perspectiva de opção preferencial pelos pobres, dentro do tema mais amplo da libertação integral que Jesus Cristo veio trazer aos homens de todos os tempos.

56. Tal objetivo enunciado e explicado acima, deverá ser, para cada uma das linhas, a luz em que se inspire para encontrar sua atual identidade e formular suas diretrizes próprias.

57. Em cada linha pastoral deverá ser indicado como realizar o objetivo geral em que se parte da opção preferencial pelos pobres como enfoque e atitude fundamentais.

LINHA 1 - UNIDADE VISÍVEL DA IGREJA

I. IDENTIFICAÇÃO

58. A identidade básica da linha 1 é incentivar as várias vocações a viverem a unidade orgânica do povo de Deus, chamado a ser sinal eficaz da comunhão dos homens com Deus e do gênero humano entre si (P 270).

Sua tarefa é também incentivar a vivência da comunhão e participação nos diversos níveis e estruturas da Igreja para que esta preste melhor serviço à humanidade.

II. COMO A LINHA 1 REALIZA O OBJETIVO GERAL

59. Dentro desta identificação, cada setor da linha 1 (estruturas eclesiais de comunhão e participação, ministérios, vocações e formação, vida consagrada, leigos, família, juventude, operariado e a pastoral urbana) vai procurar o sentido da opção pelos pobres e como tal perspectiva poderá se concretizar.

III. OS DIVERSOS SETORES DA LINHA

3.1. Estruturas Eclesiais de participação e comunhão

3.1.1. Identificação

60. A Igreja é convidada a revelar e fazer presente o Amor do Pai pelos homens de modo visível e adequado para cada etapa de sua História.

A preocupação deste setor é, sem absolutizá-las, descobrir as estruturas de comunhão que permitem aos pobres serem plenamente povo de Deus tornando visível no mundo de hoje o amor do Pai.

3.1.2. Algumas diretrizes

61. a) As estruturas de Igreja não somente se adaptem a uma sociedade em transformação que procura superar a marginalização, mas assumam e testemunhem os novos valores que surgem na sociedade como o diálogo, a participação, a comunhão.

b) As estruturas de Igreja devem ajudá-la a ser progressivamente o sacramento, sinal transparente, modelo vivo da comunhão do amor em Cristo para a sociedade de hoje (P 272) que sente a necessidade de Autoridade-Serviço mas rejeita o autoritarismo (P 273).

c) A continuidade e o desenvolvimento das CEBs como modelos concretos de comunhão e participação sejam manifestações claras da opção pelos pobres (cf. P 642-643).

d) Muitos organismos de comunhão e participação como conselhos, cúrias, tribunais, precisam se aperfeiçoar com verdadeiros instrumentos de uma Igreja que se renova a partir de suas próprias aspirações e problemas e das necessidades do povo.

3.2. Ministérios

62. "Toda Igreja é chamada para evangelizar; no seu grêmio, porém existem diferentes tarefas evangelizadoras que hão de ser desempenhadas. Tal diversidade de serviços na unidade da mesma missão é que constitui a riqueza e a beleza da Evangelização" (EN 66). Estes serviços são assumidos por ministros ordenados e ministros não ordenados.

3.2.1. Ministérios Ordenados

a) Identificação

63. O ministério ordenado nos seus três graus (Episcopado, Presbiterato, Diaconato) tem peculiar responsabilidade pela comunhão da Igreja, pela dinamização de sua ação pastoral e pela sua missão profética, formando assim o sinal sacramental de Cristo Cabeça.

b) Algumas diretrizes

64. a) Conscientes do caráter evangelizador e missionário da tarefa pastoral, os pastores, Bispos e presbíteros, sejam incentivados a crescer sempre mais na simplicidade e pobreza, na compreensão mútua e, na vida de equipe, na aproximação ao povo para trabalhar com ele, e no exercício do diálogo e da corresponsabilidade (P 666).

b) Para ser princípio de comunhão e unidade, dentro de sua Igreja Particular, o Bispo, ele mesmo, esteja em comunhão com o Colégio dos Bispos e seu chefe, o Papa, como sucessor dos Doze.

Analogamente o Presbitério realize, em cada Igreja Particular, a dimensão colegial do ministério ordenado (cf. P 259).

c) "A missão e função do diácono não se devem avaliar com critérios meramente pragmáticos, por estas ou aquelas ações que poderiam ser exercidas por ministros não ordenados (EN 73) ou por qualquer batizado; nem tão pouco como solução para a escassez numérica de presbíteros (LG 29) que afeta a América Latina. A conveniência do diácono se depreende da sua contribuição eficaz para melhor cumprimento da missão salvífica da Igreja (AG 16), graças a uma atenção mais adequada à tarefa evangelizadora" (P 698).

3.2. 2. Ministérios Não-Ordenados

a) Identificação

65. Numa realidade de Igreja Comunidade, suscitados pelo Espírito Santo, há ministérios diversos de serviço aos irmãos na fé e à comunidade humana, a serem exercidos por leigos capazes de rejuvenescerem e reforçarem o dinamismo evangelizador da Igreja (P 813).

Essa capacidade não inclui a necessidade de erudição, mas também entre os pobres há a sabedoria de Deus e seus dons.

b) Algumas diretrizes

66. a) A comunidade é uma realidade anterior à dos ministérios. Deve ela, pois, fornecer critérios para o discernimento, evolução e exercício dos mesmos (cf. P 816).

b) É na realidade concreta de cada Igreja Particular, num clima de crescente participação e comunhão, que se promoverão as novas formas de serviço e se descubram os que têm carismas para prestar estes serviços ao Povo de Deus, respeitando a natureza específica da vocação leiga como tal: transformação do mundo secular (P 815).

c) "No exercício de ministérios por parte de alguns leigos não se pode diminuir a participação ativa dos demais" (P 817).

d) Ministérios de coordenação, exercidos, nos diversos níveis da ação pastoral, por agentes de evangelização, ordenados ou não, originados na experiência de participação e comunhão, instrumento criativo de organicidade pastoral, merecem aprofundamento muito sério e rejuvenescimento.

3. Vocações e formação

3.1. Identificação

67. A grande responsabilidade do setor é ajudar cristãos ciosos de sua identidade, abertos para Deus, para a Comunidade Cristã e para o mundo, no discernimento e desenvolvimento de seu carisma para o posto e função a que são chamados a serviço dos irmãos (P 864).

3. 2. Algumas diretrizes

68. a) "A Pastoral Vocacional, por ser uma ação evangelizadora e orientada para a evangelização, missão da Igreja, deve ser encarnada e diversificada. Deve responder, a partir da fé, aos problemas concretos de cada nação e região e refletir a unidade e variedade de funções a serviço deste corpo diversificado, cuja Cabeça é Cristo" (P 863);

b) No Brasil, onde as Igrejas Particulares não possuem número suficiente de presbíteros diocesanos, é prioritário o serviço de uma pastoral vocacional específica para o presbitério, a qual se desenvolva sobretudo nas comunidades de jovens.

c) Para se tornar princípio gerador de comunhão na Igreja de hoje, na formação dos chamados ao ministério presbiteral, levem-se em conta: a diversificação especializada que exige a sociedade urbano-industrial; uma visão crítica sobre o recente fenômeno do aumento expressivo das vocações; a necessidade de uma preparação sempre mais voltada à realidade, integrada na vida da Igreja Particular e comprometida com a vida do povo (cf. P 871).

d) Para os ministérios exercidos por leigos, a Comunidade toda se comprometa não só na escolha, mas igualmente na formação e no desenvolvimento de suas lideranças. Igualmente para os ministérios ordenados, caminhe-se para uma participação maior da comunidade para a escolha e formação.

4. Vida Consagrada

4. 1. Identificação

69. Compete ao setor, acompanhar a caminhada da Vida Consagrada voltada para a comunhão e participação (cf. P 721) e promover a inserção da mesma na vida e pastoral da Igreja. Compete ainda ao setor incentivar os religiosos e membros dos Institutos Seculares a "assumirem o compromisso preferencial pelos pobres", a partir de seu projeto de vida consagrada, e a "ocuparem na Igreja Particular, os postos de vanguarda evangelizadora, em comunhão fiel com seus pastores e com sua comunidade, e na fidelidade ao seu carisma fundacional" (cf. P 770-771).

4.2. Algumas diretrizes

70. Respeitando a vida interna dos Institutos de Vida Consagrada, o setor, em colaboração com os Superiores Maiores, com a Conferência dos Religiosos do Brasil e com a Conferência dos Institutos Seculares, no âmbito das respectivas competências, ajudará para que se realizem as seguintes diretrizes (cf. P 758).

a) "A Comunhão fraterna vivida em todas as suas exigências, a que são convocados os consagrados, é o sinal do amor transformador que o Espírito infunde em seus corações, mais forte que os laços da carne e do sangue" (P 752). Em vista disto é necessário fomentar nas comunidades a fraternidade, favorecendo em seu interior as relações interpessoais que ensejem a integração e conduzam a maior comunhão e melhor colaboração na missão" (P 764).

b) Cuide-se da revisão permanente das obras e atividades, para que respondam cada vez melhor à justa abertura pastoral e às exigências de uma evangelização, a partir da opção pelos pobres.

Sinal e testemunho desta abertura continuam sendo os religiosos que trabalham em zonas marginais e difíceis, o que já não supõe somente desprendimento interior e a austeridade comunitária, mas também solidariedade, partilha e, em certos casos, convivência com o pobre e marginalizado (P 733-734).

c) Incentivem-se os Institutos de vida consagrada a inserir-se cada vez mais na pastoral de conjunto local, contribuindo com seu próprio carisma vocacional para a vitalidade daquela Igreja Particular (cf. P 736).

d) Diante das condições de vida no mundo de hoje, e das necessidades das Igrejas Particulares, suscitem-se e sejam acompanhadas novas formas de vida consagrada no mundo para, inclusive, animar a ação evangelizadora nessas Igrejas.

5. Leigos

5.1. Identificação

71. "Membro da Igreja, o leigo, fiel a Cristo, acha-se comprometido na construção do Reino em sua dimensão temporal" (P 787). Por isso o setor promove sua atuação no ordenar as realidades temporais para pô-las a serviço da instauração do Reino de Deus (cf. P 789).

5.2. Algumas diretrizes

72. a) Sejam os leigos incentivados a tomar mais consciência de sua missão transformadora do mundo, atendendo especialmente à sua dimensão social e política (cf. P 791-792)

b) A presença dos leigos na pastoral orgânica e dentro dela, através dos movimentos, favoreça o seu engajamento eficaz no social.

c) O reconhecimento dos desafios de nossa realidade sócio-econômico-política leve os leigos, como Povo de Deus, à luz do Evangelho, a efetuar a opção preferencial pelos pobres, no intuito de integral libertação destes últimos (cf. P 1134).

d) "À medida que cresce a participação dos leigos na vida da Igreja e na missão desta no mundo, torna-se também mais urgente a necessidade de sua sólida formação humana em geral, formação doutrinal, social e apostólica" (P 794). Dentro do espírito de Puebla, essa formação realiza-se sobretudo a partir da ação e da caminhada histórica do Povo de Deus.

e) Deve-se buscar uma espiritualidade mais apropriada à sua condição, não fugindo o leigo das realidades temporais, antes reconhecendo e proclamando o valor salvífico nelas contido (cf. P 797-798).

f) Ao exercício da missão do leigo compete a necessária autonomia, afastando-se a possibilidade de manipulação e clericalização. Saliente-se esta necessidade sobretudo quanto a não conduzir a ação dos leigos no âmbito meramente intra-eclesial, sob a forma de ministérios leigos ou não.

g) Na sua prática, o leigo se esforce para, em permanente e respeitoso diálogo com seus irmãos não católicos e não crentes, efetuar o reconhecimento de verdadeiro conteúdo eclesial das sementes do Verbo contidas nas práticas e na vida destes irmãos.

h) A participação do laicato no planejamento pastoral atenda à necessária corresponsabilidade a nível não apenas de execução como no nível de decisão (cf. P 808). Deveria ser este o papel da Comissão Nacional de Pastoral e de seus correspondentes nos outros níveis.

i) A organização dos leigos seja favorecida e agilizada em todos os níveis, citando-se por exemplo, a sua articulação em nível nacional pelo Conselho Nacional dos Leigos.

6. Família

6.1. Identificação

73. A Pastoral da Família "procura caminhos para que os casais e as famílias possam progredir na sua vocação ao amor e em sua missão de formar pessoas, educar na fé e contribuir para o desenvolvimento" (P 594). Esta pastoral "está intimamente relacionada com a Pastoral Social: no trabalho pela criação de estruturas e ambientes que tornam possível a vida em família." (P 598). Diante da situação de pobreza em que vivem a maioria das famílias brasileiras devido às estruturas injustas que condicionam a sua vida, a Pastoral da Família procura atingir estas causas bem como preocupar-se prioritariamente com as famílias das classes mais pobres em vez de localizar-se quase exclusivamente na classe média, explicitando assim a opção preferencial pelos pobres.

6.2. Algumas diretrizes

74. a) "Em toda pastoral familiar deverá considerar-se a família como sujeito e agente insubstituível de evangelização e como base da comunhão da sociedade" (P 602).

b) Para evitar o fechamento das famílias sobre si - sobretudo nos movimentos familiares - a pastoral da família seja inserida na pastoral orgânicca que visa à libertação integral do homem.

c) A ação pastoral leve as famílias a se conscientizarem das causas de seus males que muitas vezes estão fora da família, no contexto social injusto e opressor.

d) As famílias sejam enconrajadas a viver o diálogo, a igualdade entre homem e mulher, a paternidade responsável, a simplicidade no relacionamento entre pais e filhos; valores estes tão estimados pelo homem de hoje.

e) Procure-se conhecer melhor e fortalecer a influência que têm sobre a família as comunidades eclesiais de base e grupos de reflexão, uma vez que as famílias pobres, que são a maioria no Brasil, são pouco atingidas pelas formas existentes de pastoral familiar.

f) É necessário buscar caminhos pastorais para acolher e acompanhar evangelicamente as famílias incompletas.

7. Juventude

7.1 Identificação

75. a) O jovem tornou-se opção para a Pastoral Latino Americana, não apenas como um grupo de pessoas de tal idade cronológica, e como uma atitude frente à vida, mas também por constituir maioria da população pobre.

b) Levando-se em conta o que caracteriza a juventude (cf. P 1168) tudo o que são suas aspirações (cf. P 1168), a grande responsabilidade do setor é "desenvolver, de acordo com a pastoral diferencial e orgânica, uma pastoral de juventude que leve em conta a realidade social dos jovens.... atenta ao aprofundamento e crescimento da fé para a comunhão com Deus e os homens; oriente a opção vocacional dos jovens; lhes ofereça elementos para se converterem em fatores de transformação e lhes proporcione canais eficazes para a participação ativa na Igreja e na transformação da sociedade" (P 1187).

7. 2. Algumas diretrizes

76. a) O trabalho pastoral com os jovens se situa dentro da História do Povo de Deus e da caminhada histórica da juventude que hoje se rearticula, a partir do seu meio social, para buscar novos caminhos de libertação.

b) A pastoral da juventude deve:

- Ajudar os jovens, principalmente das bases populares, a tomar consciência de sua marginalização pelas estruturas sociais desagregadoras.

- Propiciar aos jovens condições de se formarem, a partir do meio social, na ação transformadora da sociedade, no presente e no futuro.

c) Um projeto de pastoral de juventude levará em conta a caminhada histórica da juventude, no meio do Povo de Deus. Trata-se de definir um caminho para realizar, adequada e progressivamente, a opção preferencial pelos jovens.

d) A pastoral da juventude deve tornar-se, pois, um serviço ao desenvolvimento e à articulação das experiências mais significativas, isto é:

- As experiências que vem sendo coordenadas e assumidas pelos próprios jovens.

- As experiências que estão preocupadas em levar em conta o meio social.

- As experiências que revelam uma opção preferencial pelas bases populares.

- As experiências que anunciam o Cristo Libertador e uma libertação integral.

8. Operários

8.1. Identificação

77. Na sociedade brasileira em transformação, em via de industrialização e de mecanização, o mundo operário, construtor do progresso, produtor dos bens e serviços, quer aproveitar "o direito que tem de criar livremente suas organizações para defender, promover seus interesses e responder responsavelmente para o bem comum" (João Paulo II aos Operários de Monterey).

8.2. Algumas diretrizes

78. O setor quer responsabilizar-se pela presença efetiva da Igreja dentro deste contexto, afirmando a necessidade de:

a) Dar apoio às iniciativas de pastoral operária para atingir o trabalhador e sua família nos seus diferentes ambientes de vida.

b) Atender aos operários, dando-lhes prova de confiança e apoiando-os na justa luta que, juntamente com seus companheiros, cristãos ou não, empreendem pela libertação da classe operária.

c) Proporcionar condições para que os leigos engajados no Movimento Operário possam crescer na fé e na formação social, econômica e política.

d) Favorecer a criação, em todos os níveis, de assessoria de leigos engajados na vida e na luta operária com a finalidade de ajudar a Igreja:

- No justo conhecimento das situações concretas e complexas vividas pelos operários e no discernimento da oportunidade e do conteúdo de suas intervenções públicas a respeito.

9. Pastoral Urbana

9.1. Identificação

79. "A América Latina continuará mantendo um ritmo acelerado de aumento da população e de concentração nas cidades grandes" (P 127).

O fato de a cidade funcionar como um todo orgânico constitui um desafio para o planejamento pastoral. A cidade é o lugar por excelência da especialização ao serviço do todo e exige uma revisão das estruturas pastorais herdadas duma situação rural.

9.2. Algumas diretrizes

80. O esforço da Pastoral Urbana se encontra em:

a) Descobrir e apoiar as iniciativas existentes nas cidades, oriundas do povo, tendentes a humanizar este todo orgânico.

b) "Traçar critérios e caminhos, baseados na experiência e na imaginação, para uma pastoral da cidade onde se encontram em gestação os novos modos de cultura" (P 441).

c) A partir da realidade da vida da cidade procurar os elementos de resposta ao desafio que constitui a vasta interdependência inconsciente, para torná-la lugar de colaboração consciente dos homens no amor.

LINHA 2 - AÇÃO E ANIMAÇÃO MISSIONÁRIA LV23

I. IDENTIFICAÇÃO

81. Por sua própria definição, a Linha 2 tem como tarefas:

a) Animar o Povo de Deus para que descubra e assuma sua vocação e responsabilidade missionária.

b) Orientar o Povo de Deus no cumprimento desta sua responsabilidade, com uma presença evangelizadora nas situações e regiões missionárias dentro e fora do País.

II. COMO A LINHA 2 REALIZA O OBJETIVO GERAL

82. 1. Puebla apontou as responsabilidades missionárias do Povo de Deus da América Latina, descrevendo três tarefas fundamentais:

a) A evangelização das "regiões missionárias" (cf. 173, 647, 655, 702, 712 e também a Nota ao n.º 6 de AG).

b) A evangelização das "situações missionárias (cf. P 365 e 366).

c) O compromisso de uma presença na atividade missionária "Ad Gentes", e na comunhão inter-eclesial universal (P 363, 368, 369).

2. Nestes três campos a Igreja no Brasil é chamada a descobrir os "mais pobres", que mais urgentemente necessitam de uma presença missionária.

a) Reconhecendo a existência de regiões que nessecitam de recursos humanos e materiais" para chegar a uma vida eclesial auto-suficiente, o Episcopado Brasileiro assumiu o compromisso de uma presença evangelizadora que vise uma autêntica comunhão, através de uma participação mais eqüitativa de todos os bens (cf. resoluções da XV e XVII Ass. dos Bispos do Brasil).

b) Entre as "situações missionárias" que exigem uma presença fraterna, Puebla aponta nossos indígenas, habitualmente marginalizados quanto aos bens da sociedade", os afro-brasileiros tantas vezes esquecidos", os migrantes, as massas em precária situação de fé, etc.: exemplos evidentes de "pobres" que, dentro da opção pastoral assumida pela Igreja do Brasil, exigem uma atuação missionária da Linha 2.

c) Puebla declara também que devemos "dar de nossa pobreza" projetando-nos ad gentes, além de nossas fronteiras (P 368). E aponta as riquezas espirituais que podemos compartilhar com os irmãos de outros continentes.

Assumindo estas tarefas, a Linha 2 concretiza a opção pelos pobres, indicada no objetivo geral de suas diretrizes.

III. ALGUMAS DIRETRIZES

83. Para o desenvolvimento da ação pastoral, neste campo é importante:

a) Promover a animação missionária do Brasil, nas duas dimensões, interna e externa, através da preparação e divulgação de subsídios, visitas, participação em encontros, organização da Campanha Missionária de outubro (PPOOMM).

b) Acompanhar as atuações das Igrejas locais nas regiões missionárias em sua caminhada rumo à autonomia em recursos humanos e materiais.

c) Orientar os institutos e movimentos missionários existentes no país para que, no respeito de sua identidade específica, insiram sua atuação na Igreja local.

d) Articular o recrutamento, a preparação, a assistência, o acompanhamento dos missionários, nacionais e estrangeiros.

e) Promover a reflexão sistemática sobre a problemática afro-brasileira, em vista de orientações pastorais adequadas neste setor.

f) Coordenar o intercâmbio de experiências e bibliografia pastoral com as Igrejas da África, visando estabelecer programas de ajuda África-Brasil.

g) Incentivar o conhecimento e aprofundamento da realidade indígena em vista de uma pastoral adequada.

h) Incentivar e orientar a atualização e formação contínua dos agentes de pastoral nas regiões missionárias.

i) Estudar e aprofundar as experiências do programa "Igrejas-Irmãs" abrindo pistas para uma atuação eficaz do mesmo.

j) Estudar e acompanhar as "situações missionárias do Brasil", visando uma presença pastoral mais sistemática e organizada nestes setores.

l) Acompanhar as minorias étnicas estrangeiras não cristãs, para uma presença evangelizadora no meio delas.

m) Orientar os MCS na sensibilização missionária.

LINHA 3 - CATEQUESE

I. IDENTIFICAÇÃO

84. A Catequese, dentro do processo global da evangelização, procura "promover a educação ordenada, progressiva e permanente da fé" (Sínodo da Catequese, 12), explicitando o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus, que compartilha a vida do seu povo; anuncia e realiza o Reino; funda a Igreja; está vivo, presente e atuante na História dos homens e da Igreja (P 176-177).

Dimensões da Pastoral Catequética:

85. a) Dimensão pessoal e permanente - A catequese procura desenvolver um processo pessoal permanente de conversão a Cristo e de maturação da fé (P 998).

Este processo deve ser permanente, porque o homem, como ser histórico, inacabado, nesta vida terrena, nunca está plenamente convertido à Palavra de Deus, que suscita nele a fé.

b) Dimensão comunitária - A maturação da fé se processa em nível de pessoa e de comunidade eclesial. É na comunidade de Igreja que a fé vive, se expressa e amadurece (P 373).

A catequese promove a educação da fé, a partir da comunidade — que é a sua origem; na comunidade — que é o seu lugar; em função da comunidade — que é a sua meta.

c) Dimensão missionária — A catequese desperta preocupação, solicitude e atitudes de abertura para com outros irmãos, outras comunidades cristãs e ambientes humanos carentes da ação evangelizadora.

d) Dimensão integradora — A catequese busca unir: o conhecimento da Palavra de Deus, a celebração da fé nos sacramentos e a confissão da fé na vida cotidiana (Sínodo de Catequese, 11; P 999). Toma como fonte principal a Sagrada Escritura, lida no contexto da vida, à luz da Tradição viva e do Magistério da Igreja (P 1001).

Orienta o cristão para a vida no Espírito, com a formação para a oração e a liturgia e para o testemunho cristão. Procura integrar entre si as comunidades que catequizam, a saber: a família, as comunidades eclesiais de base, a paróquia, a escola, os movimentos e outros grupos, sempre referentes à própria Igreja Particular e à Igreja Universal (Sínodo de Catequese, 12; P 1011).

e) Dimensão histórica — Na fidelidade à encarnação de Cristo Jesus, a Catequese deve despertar o compromisso com a construção do mundo temporal e a libertação integral.

II. COMO A LINHA 3 REALIZA O OBJETIVO GERAL

86. Na situação atual da sociedade brasileira a catequese procurará:

a) Descobrir, a partir da opção pelos pobres, princípios e critérios para uma pedagogia da fé, baseada nas situações reais do povo, iluminadas pela Sagrada Escritura, a Tradição viva e o Magistério da Igreja, aproveitando os métodos educativos que favoreçam a participação.

b) Orientar com preferência pelos pobres os serviços e recursos educativos da Igreja, em vista de uma crescente participação e comunhão.

c) Despertar eficazmente novas formas de compromisso sério, especialmente no campo da justiça (Sínodo da Catequese, 10).

III. ALGUMAS DIRETRIZES

3.1. A catequese:

87. a) Procure garantir no cristão a fidelidade a Jesus Cristo, Palavra de Deus encarnada; à Igreja, por ele fundada; e ao homem, por ele assumido e redimido para se tornar filho de Deus.

b) No contexto do mundo pluralista de hoje, onde se veiculam vários tipos ideais de homem (cf. P 307-315), promova a visão cristã do homem, o "homem novo" (2 Cor 5,17; EN 18; P 306, 322, 333, 1308).

c) Pelo discernimento evangélico, dom do Espírito Santo (1Cor 12,9), capacite o homem de fé a interpretar a vida, interpelar sobre a problemática das situações humanas e intervir na construção da História.

d) Leve ao compromisso da liberdade do homem e da sociedade, visando à formação na ação de agentes para a mudança permanente e orgânica exigida pela sociedade, expressão externa da conversão interior (cf. P 1221).

e) Descubra e forme agentes de evangelização e catequese, saídos das comunidades e a serviço das mesmas e dos ambientes carentes da ação pastoral da Igreja (cf. P 987).

f) Aprofunde o significado do ensino religioso nas escolas, para que toda escola seja uma comunidade evangelizadora.

3.2. A ação catequética precisa:

88. a) Penetrar, assumir e purificar os valores da cultura (cf. P 996), valorizar os elementos positivos da religiosidade popular e diferenciar-se na sua pedagogia, de acordo com as exigências da fé dos seus destinatários, suas faixas etárias, suas vocações humano-cristãs, seus ambientes de vida e profissão.

b) Conscientizar para uma comunhão criando unidade entre catequese sacramental e vivencial, catequese doutrinal e da situação, em vista da construção da comunidade.

c) Levar à participação todos os membros da comunidade eclesial de tal maneira que a Igreja seja constantemente evangelizada e evangelizadora.

d) Valorizar o método de reflexão das CEBs, reflexão da realidade à luz do Evangelho, como uma das formas mais adequadas da educação da fé.

e) Dar importância na linguagem catequética às técnicas audio-visuais, imagens, desenho, canto, dramatização etc. 

LITURGIA

I. IDENTIFICAÇÃO DA LINHA

89. A linha 4:

a) Promove condições para que a Liturgia, cume e fonte da vida da Igreja, seja celebrada nas comunidades eclesiais dos vá-rios níveis, com participação sempre mais ativa, consciente e fru-tuosa de todos os membros do Povo de Deus.

b) Atende à piedade popular em suas manifestações, valorizando-as enquanto expressão de fé autêntica ou susceptível de espírito cristão.

c) Fomenta a oração particular como oração pessoal, familiar, grupal e comunitária.

II. COMO A LINHA REALIZA O OBJETIVO GERAL

90. A linha 4 realiza o objetivo geral:

a) Promovendo através da vivência litúrgica, integrada pela piedade popular e pela oração particular, melhores condições para que Cristo, presente, na Liturgia, por seu mistério pascal, assuma e liberte o Povo de Deus e por ele a humanidade e sua História, marcada por tantas injustiças, e leve progressivamente à comunhão dos homens entre si e com Deus.

b) Fazendo com que a Liturgia seja acessível ao Povo de Deus, sobretudo aos mais simples e pobres, a fim de que ela seja um momento forte de evangelização transformadora do mundo. Para tanto deverá ser adaptada mais radicalmente, tornando-se mais popular. Só assim os mais simples serão atingidos no íntimo de sua existência, e sua resposta de fé será expressão genuína da pessoa e da comunidade concretas.

III. ALGUMAS DIRETRIZES

91. 1. A Liturgia seja o momento privilegiado da comunhão e participação para uma evangelização que conduza à libertação cristã integral, autêntica. A oração particular e a piedade popular, presentes na alma de nosso povo, constitual valores de evangelização.

2. É necessário que toda a renovação da Liturgia seja orientada por uma autêntica teologia litúrgica.

Por Cristo, no Espírito Santo, o Pai santifica a Igreja e por ela, o mundo; ambos por Cristo no Espírito Santo dão glória ao Pai (P 917). Nesse duplo movimento de santificação dos homens e glorificação de Deus, a Liturgia é o exercício do múnus sacerdotal do Cristo total, Cabeça e membros. A Liturgia é, por Cristo, Filho e Irmão, o momento privilegiado de comunhão com o Pai e os irmãos, no Espírito Santo.

Cume e fonte da vida da Igreja, particularmente na Eucaristia, a Liturgia é a festa da comunhão eclesial (P 939). Nela, o Senhor Jesus, morto e ressuscitado, por seu mistério pascal, assume e liberta o Povo de Deus e, por meio dele, a humanidade toda e sua História, convertendo-a em história da Salvação a fim de reconciliar e levar à plenitude da comunhão os homens entre si e com Deus. Assim, a Liturgia é a força do peregrinar, a fim de levar a termo, mediante o compromisso transformador da vida, a realização plena do Reino, conforme o plano divino (P 726).

3. A Liturgia se epresse numa "linguagem total".

Na Liturgia a intercomunicação de Deus com os homens e dos homens entre si e com Deus, acontece por uma linguagem total, feita de palavras, gestos atitudes, cantos objetos, num conjunto de sinais e símbolos (P 940), que exigem também uma sadia e adequada adaptação às manifestações culturais e religiosas do povo que celebra (P 920).

Os sinais têm função importante em toda ação litúrgica. As adaptações previstas na "Sacrosanctum Concilium" e nas normas pastorais posteriores, inclusive dos Rituais, são indispensáveis para se obter um rito adequado, sobretudo na linguagem fácil e inteligível, às legítimas necessidades e expressões culturais particularmente do povo simples (P 926); Doc. Ass. CNBB-1979, 22, 14, 4).

4. A Liturgia esteja no centro da vida e ação pastoral da Igreja.

A Liturgia não esgota toda atividade da Igreja (SC 9). As expressões da oração particular e da piedade popular, de alguma forma derivam dela e a ela conduzem (P 934).

Nenhuma atividade eclesial se realize sem alguma referência à liturgia (P 927). Deve-se dar à Liturgia a sua verdadeira dimensão de ápice e fonte da atividade da Igreja (P 918; SC 10). As celebrações supõem a iniciação na fé, por meio do anúncio evangelizador, da catequese, da pregação; possuem uma projeção evangelizadora nas diferentes assembléias dos fiéis, como sejam grupos populares, crianças, jovens... (SC 19) chamados todos a uma participação consciente, ativa e frutuosa (P 927); e, finalmente, devem levar a um compromisso de transformação da vida pessoal, eclesial e social (P 939; Doc. Ass. CNBB-1979, 22, 14, 2).

5. É urgente a formação litúrgica.

Dada a prioridade que a pastoral litúrgica ocupa dentro da pastoral de conjunto, é urgente a formação litúrgica dos atuais e futuros presidentes e agentes de pastoral, assim como de todo Povo de Deus, tanto no conhecimento como na maneira mesma de celebrar.

6. É: importante favorecer a mútua fecundação entre a liturgia e a piedade popular (P 465)

As manifestações de fé próprias da piedade popular constituem, de maneira geral, um valor autêntico. Deve-se estudá-las, compreendê-las, valorizá-las purificando-as do que tivessem de menos exato, delas partindo para uma evangelização proveitosa e enriquecendo-as com elementos próprios da Liturgia e descobrindo nelas elementos que possam ser assumidos pela própria Liturgia.

De maneira particular, não se perca de vista a direção cristocêntrica e comunitário-eclesial que a reforma e renovação promoveram.

7. A Liturgia e a oração particular devem se enriquecer mutuamente.

A vida toda dos fiéis seja uma oblação espiritual a Deus. Encontrem nas diversas manifestações da oração particular, sua orientação profunda para a liturgia, descobrindo nela fontes de inspiração.

LINHA 5

ECUMENISMO E DIÁLOGO RELIGIOSO LV3

I. IDENTIFICAÇÃO

92. Cabe à Linha 5 estimular o espírito de serviço à causa da unidade de todos os cristãos, e a atitude do diálogo religioso com outros grupos humanos.

A Igreja é chamada a evangelizar a sociedade brasileira, numa atitude de diálogo com todos os grupos humanos: com os irmãos de outras Igrejas e comunidades cristãs, com os seguidores de outras religiões e com os adeptos de concepções de vida ainda fechadas ao Divino.

O diálogo com todos estes grupos visa o conhecimento, enriquecimento e auxílio mútuos, e uma ação conjunta em favor da construção de uma sociedade fraterna (ver o documento sobre o diálogo, publicado pelo Secr. para os não crentes, 28 de agosto de 1968; SEDOC, Vol. 1 fasc. 6, dez. de 1968, 797/806).

O ecumenismo e o diálogo religioso têm em comum estes objetivos. Mas o ecumenismo, de um modo particular, visa a unidade que o Senhor quer como essencial para a sua Igreja. A unidade da Igreja há de servir, como sinal e instrumento, à unidade do gênero humano, dividido pelo pecado.

Finalmente a Linha 5 tem consciência de que a dimensão ecumênica como a abertura para o diálogo com o mundo não-cristão e da não-crença são mais um espírito que deve penetrar todos os projetos e dimensões da vida da Igreja, do que um setor de atividades próprias (UR e P 896, 1127).

II. COMO A LINHA 5 REALIZA O OBJETIVO GERAL

2.1. Incentiva uma atitude fraterna

93. Os católicos devem aprender a assumir uma atitude verdadeiramente fraterna em relação a todas as outras Igrejas, ainda que numericamente menos expressivas.

Para uma Igreja majoritária não é fácil admitir, na prática, que outros cristãos ofereçam sua contribuição para a evangelização da sociedade brasileira e que grupos de outras concepções de vida participem na construção de uma sociedade fraterna.

2.2. Promove uma opção preferencial pelos pobres

A Igreja que se propõe evangelizar a sociedade brasileira, a partir da opção preferencial pelos pobres, prestará, no exercício do ecumenismo e do diálogo religioso, especial atenção:

a) Ao testemunho comum com outros cristãos, com "não-cristãos" e com "não-crentes", em favor da dignidade humana, em defesa dos marginalizados através do futuro Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), como também por meio de colaboração de não-católicos em atividades do C.I.M.I., da Comissão de Pastoral da Terra, do Grupo de Trabalho para uma pastoral "afro-brasileira", e outros.

b) A certos fatos, como sejam: — o ecumenismo que está acontecendo em grupos populares (p. ex. CEBs, grupos de oração, bíblicos, associações de bairro ); — o evangelismo nos meios pobres (várias formas de pentecostalismo, "movimentos religiosos livres" ou seitas); — formas populares de espiritismo e de cultos afro-brasileiros, formas populares de sincretismo (P 1102).

III. ALGUMAS DIRETRIZES

3.1. Para o ecumenismo é importante

94. a) Preocupar-se constantemente com a informação e a formação ecumênicas dos católicos. Com efeito, a tarefa ecumênica, urgente no dizer do Papa João Paulo II (ver discurso de 6 de outubro, de 17 de out. de 1978, e de 17 de jan. de 1979), ainda não ocupa o lugar que deve ter em nossa pastoral.

b) Insistir na conscientização dos cristãos a respeito da unidade existente (p. ex. a mesma Palavra de Deus, o mandamento da caridade, a oração). Apesar da divisão, existe uma unidade fundamental entre os que crêem em Cristo e foram devidamente batizados (UR 3). É importante partir desta verdade, fundamento de todo diálogo ecumênico.

c) Promover o ecumenismo espiritual, que consiste na conversão do coração e na oração pela unidade, alma de toda ação ecumênica (UR 6 e 8).

95. 3.2. Para o diálogo com outras religiões é indispensável

1. Procurar o diálogo religioso com judeus, grupos de muçulmanos, adeptos das grandes religiões orientais, antigas e novas.

2. Em vista da situação brasileira, buscar e abrir, com certa urgência, o diálogo religioso com várias formas do espiritismo e cultos afro-brasileiros.

3.3. Para o diálogo com "não-crentes" a Igreja se preocupe em

96. Ajudar a tomar consciência da realidade e extensão do fenômeno da não-crença, com vistas à purificação da fé e vida dos que crêem, e a uma colaboração em verdadeira paz, para a edificação do mundo (P 1126). Em relação ao fenômeno da não-crença, Puebla observa que ele é bastante freqüente nos ambientes universitários, em meios juvenis e operários (P 1106). 

LINHA 6

PRESENÇA DA IGREJA NO MUNDO

I. IDENTIFICAÇÃO

97. No interior da Evangelização, tarefa de todo o corpo eclesial, compete à Linha 6 implementar a dimensão social do compromisso cristão de transformar a sociedade pelo fermento evangélico.

A Igreja realiza esta ação transformadora, por meio da pesquisa e reflexão, da ação social e de diversas atividades educativas através de vários organismos e setores específicos (CERIS, IBRADES, CARITAS, MEB, AEC, COMISSÕES de Justiça e Paz, Migrações e turismo, MCS...) e grupos eclesiais de base, cujos serviços concretizam em vários campos a ação pela justiça e a promoção da dignidade humana.

II. COMO A LINHA 6 REALIZA O OBJETIVO GERAL

98. O compromisso da Igreja com a promoção integral do homem, segundo o modelo pré-figurado em Cristo Libertador, que se fez pobre e se colocou ao serviço dos irmãos (cf. Mc 10,45), é parte integrante de sua missão evangelizadora e exigência irrenunciável do reconhecimento da divindade da pessoa humana conforme o Plano de Deus (cf. P 304ss e 1254ss).

A fim de responder aos apelos de um povo que desperta para aquela promoção que é seu direito, a Igreja deve intensificar a conscientização sobre as exigências sociais e políticas da fé cristã e usar todos os meios a seu alcance, na busca de uma eficácia maior de sua atuação ao serviço dos homens.

Consciente de que a edificação da sociedade é tarefa de todos os homens, numa perspectiva legitima de pluralismo, a Igreja estimula o diálogo e a cooperação entre os diversos grupos sociais (cf. P 1206ss).

A Igreja cuidará particularmente de elaborar, com a participação dos interessados, normas de conduta e alternativas diversas para a renovação cristã das estruturas sociais. Promoverá a formação de pessoas e grupos capazes de exercer uma liderança na evangelização do meio social em que vivem.

A Igreja dará prioridade aos programas e projetos que visam o apoio a iniciativas populares e a promoção dos direitos dos mais pobres, marginalizados ou oprimidos (cf. P 1217, 1229, 1238 1161, 1164).

A Igreja quer respeitar o valor de formas tradicionais do povo viver a fé católica e de procurar soluções para seus problemas sócio-econômicos e políticos. Quer superar prevenções apriorísticas contra a chamada "ignorância" do povo e pretende estabelecer diálogo em nível alto, para enriquecimento mútuo, entre a hierarquia e agentes de pastoral e as tradições populares.

III. OS DIVERSOS SETORES DA LINHA 6

3. 1. Ação Social

a) Identificação

99. O setor "Ação Social" tem como objetivo aprofundar a consciência das responsabilidades da Igreja no campo social e promover a realização de atividades que visem:

- A promoção da justiça social e a defesa dos direitos humanos.

- A promoção das pessoas e classes marginalizadas através de instrumentos que permitam sua organização e participação ativa na sociedade e reconhecimento de sua dignidade e direitos.

- A prestação de assistência às pessoas que se encontrem em estado de necessidade, especialmente em situações de emergência.

- O testemunho da presença da Igreja nos problemas gerados pelas migrações internas, imigrações limítrofes, emigrações de brasileiros, grupos étnicos minoritários, refugiados políticos e outras formas de mobilidade espacial humana.

- Apoio a organizações autenticamente populares.

b) Algumas diretrizes:

100. A preocupação com a ação social levará a Igreja a:

a) Realizar pesquisas e levantamentos de dados, divulgando-os através de publicações, encontros e cursos visando ao maior conhecimento da realidade social, em ordem à ação pela justiça e à transformação da sociedade segundo um ideal de inspiração evangélica.

b) Desenvolver a reflexão e conscientização acerca da responsabilidade social dos cristãos e da dimensão social da fé, comunicando essa reflexão às comunidades eclesiais através de subsídios, encontros...

c) Estimular, assessorar e coordenar os organismos eclesiais que, em nível local, regional e nacional operam de forma permanente para a promoção dos marginalizados e a assistência aos necessitados (cf. P 478).

d) Promover o acompanhamento, a revisão permanente e o estudo crítico das obras sociais da Igreja.

e) Estimular estudos e iniciativas em favor das pessoas em mobilidade, especialmente dos mais carentes e necessitados.

f) Reconhecer, apoiar as iniciativas dos operários e camponeses no sentido de criarem autônoma e livremente suas organizações de defesa e promoção (cf. P 1163).

3.2. Educação

a) Identificação

101. Toda a ação da Igreja no seu esforço para transmitir a mensagem cristã é educadora. Assim, quando a Igreja evangeliza e alcança a conversão do homem, também o educa (cf. P 1031).

O setor "Educação", porém, embora em conexão com o objetivo geral da Evangelização e com o setor que se ocupa diretamente com a "educação da fé", trabalha no campo da educação em geral, como dimensão fundamental da edificação da sociedade, abrangendo os dois aspectos da educação sistemática (escolas) e assistemáticas.

b) Algumas diretrizes:

102. Na ação pastoral, no campo da educação, a envidará esforços para:

a) "Promover o educador cristão, especialmente o leigo, para que assuma a sua pertença e posição na Igreja, como chamado a participar da sua missão evangelizadora no campo da educação" (P 1042).

b) Promover reflexão crítica sobre a função social da educação e sua prática efetiva visando fazer que não seja mera decorrência ou reprodução de um sistema sócio-econômico de inspiração materialista e procurando criar novas condições culturais e sociais que possibilitem a realização de uma sociedade participativa e fraterna.

c) Buscar os meios de realizar o programa traçado pelo Sínodo dos Bispos de 1971, apoiando os esforços no sentido de desenvolver e aperfeiçoar a metodologia de educação para a justiça.

d) Estimular as instituições católicas a continuar a refletir e a prosseguir em ações concretas destinadas a promover uma educação integral, evangelizadora e libertadora, que vise ao pleno crescimento da pessoa e à sua inserção ativa na comunidade, numa perspectivas crítica e de transformação da cultura e da sociedade (cf. P 1026-1030).

e) Suscitar, apoiar e assumir iniciativas no campo da educação de base, caminhando especialmente com os grupos mais marginalizados no sentido de contribuir para que eles se conscientizem, assumam seus direitos e deveres e criem espaços de verdadeira participação em todos os níveis.

f) Promover todas as formas de educação, mesmo informal que possam revitalizar a cultura popular e seus valores de inspiração cristã (cf. P 1047).

g) Criar espaços para a manifestação de grupos e movimentos populares que lutam por seus direitos e por interesses populares e nacionais.

3.3. Comunicação Social

a) Identificação

103. Sendo a Igreja comunicação e esta um processo vital do homem (cf. P 1064), o setor de Comunicação Social tem por objetivo:

- Despertar a consciência para a prática de comunhão entre os membros da Igreja.

- Suscitar e coordenar iniciativas que contribuem para tornar os MCS instrumentos de evangelização e fatores de comunhão, expansão e democratização da cultura, informação não manipulada e convivência social mais justa e fraterna (cf. 1063-1064), despertando uma atitude crítica e participativa dos cristãos face aos MCS e dentro deles.

b) Algumas diretrizes:

104. Será importante para a atividade da Igreja na Comunicação Social:

a) Fomentar, em todos os níveis, a consciência do fenômeno da comunicação interpessoal e inter-grupal, em vista a uma maior comunhão e participação.

b) Contribuir para que se organize ou dinamize o Setor de Comunicação Social em todos os níveis, especialmente regional e diocesano, como elemento integrante da Pastoral Orgânica que lhe sirva de expressão, apoio e desenvolvimento.

c) Contribuir para preparar os agentes de pastoral para utilização eficaz do MCS pequenos e grandes "afim de que se adaptem as respostas pastorais a esta nova realidade e se integre a comunicação na pastoral de conjunto" (P 1083).

Com esta finalidade, cuidar da formação para a comunicação em todos os níveis eclesiais e da instituição de departamentos ou organismos especializados, prestando especial atenção e solicitando colaboração dos profissionais (cf. P 1085).

d) Contribuir para "educar o público receptor para que tenha uma atitude crítica perante o impacto das mensagens ideológicas, culturais e publicitárias, que nos bombardeiam continuamente, com o fim de neutralizar os efeitos negativos da manipulação e massificação" (P 1088).

e) Contribuir para a elaboração de uma linguagem e de técnicas apropriadas para a comunicação da mensagem da Igreja aos homens de hoje (cf. P 1091).

f) Contribuir para formar especialmente nos jovens o sentido crítico face aos MCS.

g) Contribuir para que a Igreja, especialmente através dos meios de comunicação próprios, seja sempre mais a voz dos pobres e desamparados, que não têm voz, visando superar a situação de marginalização a que estão condenados e promovendo o respeito dos direitos humanos fundamentais (cf. P 1094).

h) Contribuir para que a Igreja realize não só a Pastoral "dos" MCS, mas também a Pastoral "nos" MCS.

Brasília, 27 de setembro de 1979