FRATERNIDADE E ÁGUA

UMA QUESTÃO QUE INTERESSA A TODOS

Nos 40 dias da quaresma preparamo-nos para celebrar a Páscoa de paixão, morte e ressurreição de Jesus; durante este período, somos chamados a escutar mais intensamente a palavra de Deus, orientando nossas vidas por ela, como nos recorda a fórmula de imposição das cinzas: “Convertei-vos e crede no Evangelho”. A tradição cristã orienta-nos a praticar com intensidade, neste tempo, os “exercícios quaresmais” do jejum, da oração e da esmola.

O jejum ajuda-nos a tomarmos consciência de que somos pó e ao pó voltaremos; que todos os bens deste mundo passam, inclusive nossa vida; a sabedoria da fé nos leva a buscar os bens sobrenaturais e eternos, que só Deus nos pode dar: “Não só de pão vive o homem”. Pela oração, exercitarmo-nos no encontro e no diálogo com Deus, aprendendo a reconhecer e respeitar seu desígnio e sua vontade em nossa vida. Por “esmola” entendemos todas as expressões do amor ao próximo e o convite a praticar o mandamento do amor fraterno, como Jesus nos pediu.

A Campanha da Fraternidade, que em 2004 acontece pela 40a. vez, é um grande esforço de evangelização, que pode ajudar as pessoas e comunidades a viverem o espírito da quaresma. Por ela, todos somos chamados a um processo de conversão e a termos atitudes e comportamentos sempre mais pautados na justiça, na fraternidade e na solidariedade; para isso, talvez seja necessário mudar (“converter”) atitudes pessoais e hábitos sociais, e até mesmo adequar as políticas e leis que regem a sociedade e suas instituições. A CF tem a finalidade de despertar e nutrir o espírito comunitário e a verdadeira solidariedade social; é um processo de educação para a promoção do bem comum, da justiça e da caridade, que são exigências centrais do Evangelho de Jesus Cristo. ´Portanto, a CF é verdadeira “evangelização”.

O tema da CF de 2004 - “fraternidade e água”, com o lema - “água, fonte de vida” -, é muito pertinente. Dados da ONU revelam que cerca de 1,2 bilhão de pessoas no mundo não têm água de qualidade para beber; 2,4 bilhões de pessoas não têm serviços sanitários adequados; milhões de crianças morrem a cada ano de doenças causadas por água contaminada; no Brasil, 20% da população ainda não tem acesso à água potável; 40% das torneiras não tem água confiável; 50% das casas não tem coleta de esgotos e 80% do esgoto coletado é jogado diretamente nos rios, sem qualquer tratamento; 54,4% das crianças de zero a 6 anos vive em residências sem saneamento adequado. E a ONU adverte que, em 2025, cerca de 40% da população da Terra – nosso “planeta água” – terá problemas com água potável (cf. Texto-Base da CF, pp. 16 - 18)

É fácil perceber que a fraternidade e a solidariedade estão implicadas na questão da água. Ela é um bem indispensável para todos os seres vivos e, especialmente, para todos os seres humanos; sem água, não há vida. Ao mesmo tempo, vão aparecendo sempre mais problemas em relação à água, e se levantam sérias interrogações se as futuras gerações ainda terão acesso à água com qualidade.

De um lado, está a deterioração do patrimônio hídrico, ameaçado pela falta de zelo e pela carência, ou ineficiência de leis adequadas, ou pelo descumprimento delas. Há, sobretudo, os problemas da contaminação e da poluição dos mananciais, das reservas hídricas, dos rios e lagos, e também a questão do uso racional da água disponível. É necessário desenvolver atitudes pessoais e comportamentos sociais e culturais de respeito, zelo e apreço pela água. Todos precisam sentir-se responsáveis por este “bem comum”.

Há ainda a questão do gerenciamento da água e das políticas públicas adequadas e eficazes, que garantam a preservação deste patrimônio de todos; e garantam também que este bem esteja ao alcance de todos. Mais que um recurso de valor econômico, a água é um bem indispensável à vida; por isso, o acesso à água com qualidade deve ser assegurado a todos; seu gerenciamento não deve seguir, simplesmente, a lógica do mercado, mas permanecer sob a responsabilidade pública e ser acompanhado por toda a sociedade. Os pobres e os deserdados da sociedade de consumo também têm o direito à água com qualidade.

Lançando a CF de 2004, a CNBB propõe uma nova atitude pessoal e social em relação à água; esta questão precisa ser vista a partir de enfoques e critérios éticos baseados no valor da natureza e da vida, dons de Deus, no respeito pela dignidade da pessoa e por seus direitos irrenunciáveis. Cuidar bem da água e usá-la de maneira solidária também é uma questão de respeito a Deus criador e aos seus desígnios sobre o mundo e o homem.

Por isso, a CNBB convida a todos os cristãos católicos, mas estende o convite também a todos os membros de outras organizações religiosas e as da sociedade civil, a unirem seus esforços para que ninguém fique privado da água e ela continue sendo, agora e no futuro, fonte abundante de vida para todos.

dom Odilo P. Scherer