“Na ressurreição, de quem a mulher será esposa?”

Neste Evangelho, encontramos Jesus rodeado por alguns doutores da lei, chamados saduceus, que o procuraram para testá-lo, para colocá-lo a prova.

O grupo dos saduceus era formado por sacerdotes e leigos da alta sociedade. Eram pessoas ricas e influentes, subordinadas aos romanos e por isso, odiadas pelo povo e também pelos fariseus. No entanto, Apesar da aparente inimizade, por diversas vezes, fariseus e saduceus, uniram-se para combater Jesus.

Encontrar alguma falha em Jesus era para eles uma obsessão. Os saduceus não acreditavam na ressurreição dos mortos e negavam a Providência Divina. Para tentar justificar sua descrença, quiseram saber a opinião de Jesus a respeito da Lei de Moisés que dispunha sobre o matrimônio.

Toda nossa inteligência e raciocínio estão muito longe de entender o que nos espera na eternidade, mas pelo visto, querer enxergar as coisas de Deus com olhos humanos é coisa antiga. Com os saduceus era assim e parece que deles, herdamos a mesma mania.

Assim como os saduceus, nós também temos um conceito bem distorcido a respeito da vida eterna. Encaramos a eternidade como uma simples continuidade desta vida. Preocupamos-nos inclusive, em juntar tesouros, como se fôssemos realmente levá-los e utilizá-los no Paraíso.

Uma certeza nós temos: maravilhas que os olhos humanos jamais viram, Deus Pai reservou para nós no Céu. No entanto, não conseguimos entender a amplitude dessas maravilhas. Nossa postura com relação à vida eterna é parecida com a posição de um migrante ou turista. Parece que vamos somente para uma nova cidade, estado ou país, onde os nossos sonhos serão realizados.

Nosso entendimento é tão limitado, que nos leva a traçar um comparativo com as coisas boas que conhecemos. Por isso achamos que essas maravilhas de Deus se resumem em saúde, segurança, conforto, terra, emprego e uma série de coisas que almejamos, sempre relacionadas com nosso dia-a-dia.

A primeira resposta de Jesus, aos saduceus ressalta que o matrimônio é uma instituição deste mundo em que homens e mulheres morrem. A finalidade do casamento é conservar a espécie, através de novos nascimentos. Mas isso é uma necessidade apenas para este mundo.

Ao professarmos nossa fé, afirmamos que cremos na ressurreição da carne e na vida eterna, portanto, após a ressurreição, não haverá mais morte nem nascimento. A alma não morre, porém a carne ressuscitará e assumirá um corpo imortal, semelhante aos anjos, por isso não haverá necessidade da união entre esposa e marido.   

Nunca é demais lembrar que, na mesma oração de profissão de fé, também afirmamos que cremos que Jesus Cristo Ressuscitado, virá para julgar os vivos e os mortos. Por tudo isso, devemos viver a justiça e o amor, pois Jesus disse também que o justo não conhecerá a morte eterna.

A fé e a esperança na ressurreição devem se traduzir num compromisso em defesa da vida. Sabemos o que isso implica para nós enquanto comunidade. Acreditar no Deus dos vivos nos leva a lutar contra a opressão e injustiças. A certeza da ressurreição deve transformar vizinhos em irmãos.

Jorge Lorente

 

 

O evangelho de hoje traz a discussão dos Saduceus com Jesus sobre a fé na ressurreição.

 

Lucas 20,27 - A ideologia dos Saduceus

O evangelho de hoje começa com esta afirmação:“Os saduceus afirmam que não existe ressurreição”. Os saduceus eram uma elite aristocrata de latifundiários e comerciantes.

Eram conservadores. Não aceitavam a fé na ressurreição. Naquele tempo, esta fé começava a ser valorizada pelos fariseus e pela piedade popular. Ela animava a resistência do povo contra a dominação tanto dos romanos como dos sacerdotes, dos

anciãos e dos próprios saduceus. Para os saduceus, o reino messiânico já estava presente na situação de bem-estar que eles estavam vivendo. Eles seguiam a assim chamada “Teologia da retribuição” que distorcia a realidade. Segundo esta teologia, Deus retribui com riqueza e bem-estar os que observam a lei de Deus, e castiga com sofrimento e pobreza os que praticam o mal. Assim, se entende por que os saduceus não queriam mudanças. Queriam que a religião permanecesse tal como era, imutável como o próprio Deus. Por isso, para criticar e ridicularizar a fé na ressurreição, contavam casos fictícios para mostrar que a fé na ressurreição levaria a pessoa ao absurdo.

 

Lucas 20,28-33 - O caso fictício da mulher que casou sete vezes

Conforme a lei da época, se o marido morre sem filhos, o irmão dele deve casar com a viúva do falecido. Era para evitar que, caso alguém morresse sem descendência, a propriedade dele passasse para outra família (Dt 25,5-6). Os saduceus inventaram a história de uma mulher que enterrou sete maridos, irmãos um do outro, e ela mesma acabou morrendo sem filho. E eles perguntam a Jesus: “E agora, na ressurreição, de quem a mulher vai ser esposa? Todos os sete se casaram com ela!" Caso inventado para mostrar que a fé na ressurreição cria situações absurdas.

 

* Lucas 20,34-38 - A resposta de Jesus que não deixa dúvida

Na resposta de Jesus transparece a irritação de quem não agüenta fingimento. Jesus não agüenta a hipocrisia da elite que manipula e ridiculariza a fé em Deus para legitimar e defender seus próprios interesses.

A sua resposta tem duas partes:

1) vocês não entendem nada de ressurreição: "Nesta vida, os homens e as mulheres se casam, mas os que Deus julgar dignos da ressurreição dos mortos e de participar da vida futura, não se casarão mais, porque não podem mais morrer, pois serão como os anjos. E serão filhos de Deus, porque ressuscitaram” (vv. 34-36). Jesus explica que a condição das pessoas depois da morte será totalmente diferente da condição atual. Depois da morte já não haverá mais casamento, mas todas serão como os anjos no céu. Os saduceus imaginavam a vida no céu igual à vida aqui na terra.

2) vocês não entendem nada de Deus: “E que os mortos ressuscitam, já Moisés indica na passagem da sarça, quando chama o Senhor de 'o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó'. Deus não é Deus de mortos, mas de vivos, pois todos vivem para ele." No

fim, Jesus conclui: “Nosso Deus não é um Deus de mortos, mas sim de vivos! Vocês estão muito errados!” Os discípulos e as discípulas, que estejam de sobreaviso e aprendam! Quem estiver do lado destes saduceus estará do lado oposto de Deus!

Lucas 20,39-40 - A reação dos outros frente à resposta de Jesus

“Alguns doutores da Lei disseram a Jesus: "Foi uma boa resposta, Mestre." E ninguém mais tinha coragem de perguntar coisa nenhuma a Jesus”. Muito provavelmente, estes doutores da lei eram dos fariseus, pois os fariseus acreditavam na ressurreição (cf. Atos 23,6).

padre Lucas de Paula Almeida, CM

 

 

Deus dos vivos

Aproxima-se o final do ano litúrgico. A liturgia nos oferece a oportunidade de aprofundar uma verdade importante de nossa fé: "Eu creio na Ressurreição dos mortos". Os primeiros livros da Bíblia não falam claramente da Ressurreição dos mortos. Só mais tarde, começou-se a falar em Israel de um despertar daqueles que estão dormindo no pó da terra.

Na 1ª leitura, temos a 1ª profissão de fé na Ressurreição. (2Mc. 7,1-2.9-14)

No tempo da perseguição do rei Antíoco (± 170 a.C.), a experiência da morte de muitos justos fez nascer a esperança da Ressurreição.

Nessa época, temos o belo testemunho da Mãe e os sete filhos Macabeus.

Eles são obrigados a violar a prática religiosa dos antepassados.

Fortalecidos pela esperança da ressurreição, eles preferem enfrentar as torturas e a própria morte, a transgredir a Lei...

Vejamos as respostas corajosas dos primeiros quatro irmãos:

- Um deles, tomando a palavra em nome de todos, falou assim:

"Estamos prontos a morrer, antes de violar as leis de nossos pais".

- O Segundo, prestes a dar o último suspiro, disse: "Tu, ó malvado, nos tiras desta vida presente. Mas o Rei do universo nos ressuscitará para uma vida eterna, a nós que morremos por suas leis"

- Depois começaram a torturar o terceiro. Apresentando a língua e as mãos, diz: "Do céu recebi estes membros... no céu espero recebê-los de novo..."

- E o quarto quase a expirar: "Prefiro ser morto pelos homens, tendo em vista a esperança dada por Deus, que um dia nos ressuscitará.

  Para ti, porém, ó Rei, não haverá ressurreição para a vida".

* São as afirmações mais claras do A.T. sobre a vida além da morte.

Assim mesmo tinham uma idéia ainda muito imperfeita.

Era apenas a idéia de uma "revivificação dos justos", um readquirir no outro mundo uma vida semelhante a de antes.

A idéia foi se desenvolvendo, até ser completamente iluminada por Cristo.

No Evangelho, Jesus fala claramente da Ressurreição, afirmando que "Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos" (Lc. 20,27-38)

- Essa idéia imperfeita de Ressurreição existia ainda no tempo de Jesus.

Alguns Saduceus, que não acreditavam na Ressurreição, inventaram uma história e fizeram uma pergunta capciosa que visava ridicularizar a doutrina da ressurreição e da vida futura: uma mulher viúva sem filhos... casou com 7 maridos sucessivamente...

Com quem ficará na vida futura?

- Jesus responde:

1. Aos fariseus (que acreditavam numa ressurreição imperfeita): a Ressurreição não é apenas um despertar do sepulcro para retomar a vida de antes. A vida com Deus é uma realidade completamente nova e distinta.

É um dom maravilhoso que o Pai reservou para todos os seus filhos.

Seremos imortais, glorificados, não mais sujeitos às leis da carne.

Por isso, será desnecessário o matrimônio para a conservação da espécie.

2. Aos Saduceus: Afirma a existência da vida futura: Deus se manifestou a Moisés como o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, muitos anos depois de terem desaparecido deste mundo.

Isso quer dizer que eles não estão mortos, mas vivem atualmente em Deus.

Portanto, se Abraão, Isaac e Jacó estão vivos, podemos falar de Ressurreição.

A Ressurreição

- A Ressurreição é a esperança que dá sentido a toda a caminhada do cristão.

A fé cristã torna a esperança da ressurreição uma certeza absoluta, pois Cristo ressuscitou e quem se identifica com Cristo nascerá com ele para a vida nova e definitiva.

A nossa vida presente deve ser uma caminhada tranqüila, confiante, alegre, em direção a essa nova realidade.

- A Ressurreição não é a continuação da vida que vivemos neste mundo; mas é a passagem para uma vida nova onde, sem deixarmos de ser nós próprios, seremos totalmente outros... É a realização da vida plena.

- A certeza da Ressurreição não deve ser, apenas, uma realidade que esperamos; mas deve ser uma realidade que influencia, desde já, a nossa existência terrena. É o horizonte da Ressurreição que deve influenciar as nossas atitudes; é a certeza da ressurreição que nos dá a coragem de enfrentar as forças da morte que dominam o mundo, de forma a que o novo céu e a nova terra que nos esperam comecem a desenhar-se desde já.

A Liturgia nos apresenta uma verdade consoladora: viemos de Deus e, com a morte, voltamos para ele.

A Morte não nos deve assustar: É o encontro maravilhoso com os amigos e parentes, que foram na nossa frente.

E, sobretudo, vai ser o encontro com o melhor dos amigos: Deus.

Nossa vida não termina aqui: ressuscitaremos...

"Nosso Deus é o Deus dos vivos e não dos mortos..."

- Cristo nos garante: "Eu sou a Ressurreição e a Vida.

Aquele que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá". (Jo 11,25)

- "A esperança cristã é a ressurreição dos mortos: tudo o que nós somos, o somos na medida em que acreditamos na Ressurreição." (Tertuliano)

padre Antônio Geraldo Dalla Costa

 

 

Deus é Deus dos vivos - Padre Queiroz

'A felicidade é um bem que se multiplica ao ser dividido." (Marxwell Maltz)

Neste Evangelho, nós temos a cena dos saduceus apresentando a Jesus o caso da mulher de sete maridos, como um argumento contrário à ressurreição dos mortos.

Mas eles entendiam errado a ressurreição; pensavam que os que acreditam nela afirmam que no céu nós viveríamos igualzinho aqui na terra, isto é, teríamos de comer, de beber, de dormir, teríamos também o casamento...

Jesus explica que, após a nossa morte, o nosso corpo será glorificado; não morreremos, mais e seremos iguais aos anjos. Os homens não terão esposas nem as mulheres terão maridos.

Nós não sabemos em detalhes como será a nossa vida após a morte, e nem precisamos saber agora. Basta conhecermos o caminho para chegarmos ao Céu, que é Jesus e o seu Evangelho, presentes na Igreja, una, santa, católica e apostólica.

Quando participamos da Santa Missa, ou rezamos o terço, nós dizemos, na profissão de fé: “Creio na ressurreição da carne”. O Prefácio da Missa dos mortos diz assim: “Com a morte, a vida não é tirada, mas transformada. Desfeito o nosso corpo mortal, nos é dado nos céus um corpo imperecível”. Não será outro corpo, será este mesmo que temos, mas transformado, glorificado.

Jesus falava que ia ressuscitar (Cf Mc. 8,31ss; 9,31ss), e sempre pregava que todos nós ressuscitaremos. Como é bom saber que a nossa vida é eterna, que tivemos um começo, mas não teremos fim! A fé na ressurreição nos dá forças para enfrentar as dificuldades, e até o risco de vida. Os homens podem matar o corpo, mas a alma, nunca.

Jesus ressuscitou algumas pessoas (Lázaro, o filho da viúva de Naim...) para nos mostrar que tem poder e conhecimento sobre a vida após a morte. Apesar de esses milagres terem sido completamente diferentes da ressurreição dele e nossa, pois Lázaro e o filho da viúva simplesmente retornaram à vida terrena e mortal. Mas os milagres valeram para provar o poder de Jesus sobre a morte e sobre o que acontece depois.

Jesus, com a sua ressurreição, derrotou a morte. Ela continua existindo, mas perdeu a sua força. “A morte foi tragada pela vida; onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1Cor. 15,54-55). Isso nos dá uma alegria e uma coragem invencíveis!

Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos. Toda a Bíblia apresenta Deus como Deus da vida, e que faz do homem e da mulher seus amigos, como fez com os três citados por Jesus: Abraão, Isac e Jacó. Se Deus fez aliança com eles, podia deixá-los desaparecerem para sempre? Nunca! Esse é o argumento de Jesus.

A ressurreição foi sendo revelada aos poucos. No começo, o Povo de Deus não conhecia essa verdade. Mas tinha uma vaga consciência dela, baseado justamente no argumento acima: Deus ama o ser humano, quer que ele ou ela viva e não desapareça, e pode fazer isso. Portanto o faz.

Por isso que exageravam a duração da vida dos justos, por exemplo, de Matusalém, que viveu 969 anos (cf. Gn. 5,27). Jesus veio e revelou a verdade completa: Deus não só prolonga a vida humana, ele a tornou eterna. “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim viverá eternamente”.

“Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância.” Uma vida em abundância não pode acabar logo. Na luta pela vida, nós descobrimos o rosto de Deus, pois ele é o Deus da vida, o Deus que quer vida, e vida plena para todos.

A ressurreição nossa é obra de Deus, fruto do seu poder. É ele que nos tomará e nos transformará. O mesmo Deus que um dia nos criou, nos recriará. A ciência não consegue entender nem explicar esse mistério. Ele é sobrenatural. O livro de Jó é um argumento a favor da ressurreição. Esse livro mostra que a ressurreição é um mistério, mas sem ela a vida seria um absurdo.

A nossa melhor atitude diante das realidades futuras é jogar-nos nas mãos de Deus, como fez Jesus, antes de morrer: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”. Nós não sabemos como será, mas Deus, nosso bom Pai, sabe, e isso nos basta.

Como que é gratificante saber que vamos ressuscitar! Saber que Deus nos ama tanto, que nos criou eternos! Ele não quer separar-se de nós nunca. “Tu não me abandonarás no túmulo, e viverei à tua direita para sempre” (Sl. 16).

Entretanto, a fé na ressurreição nos leva a sermos prudentes e vigilantes, pois não sabemos o dia nem a hora. "O que adianta a alguém ganhar o mundo inteiro, se perde a própria vida?" (Mt. 16,26). “Não ajunteis para vós tesouros na terra” (Mt. 6,19).

Certa vez, a muitos anos atrás, um operário e um cavaleiro se encontraram numa estação de trem. Os dois se apresentaram, conversaram e compraram as passagens na mesma cabine, porque aquele trem tinha cabines para duas pessoas. O trem chegou e eles embarcaram.

Na estação seguinte, entrou também um padre. Ao verem o padre passar no corredor, o cavaleiro comentou, com um ar de desprezo: “Para que serve um padre?” Como quem diz: O padre não serve para nada.

O operário não respondeu. Lá na frente, quando o trem atravessava uma grande floresta, o operário disse ao cavaleiro: “Estamos sós. Ninguém nos vê nem nos ouve. O que você faria se eu o estrangulasse agora, lhe tomasse todo o seu dinheiro e, aproveitando uma curva, pulasse esta janela?”

Pálido de medo, o cavaleiro respondeu: “Você se engana, eu não trago dinheiro comigo”. “Mentira” retrucou o operário. “Você tem aí trinta mil Reais. Eu o vi pegar no banco.”

“Você cometeria dois crimes: homicídio e roubo”, disse o cavaleiro.

“Homicídio e roubo nada significam para quem não crê em Deus. Se eu pensasse como você, e não fizesse isso agora, eu seria um bobo. Mas você não tenha medo, porque eu fui educado por padres, e eles me ensinaram os dez mandamentos: não furtar, não matar etc. E me ensinaram que existe uma vida eterna após a morte, com o Céu para os bons e o inferno para os maus. Entendeu agora para que serve o padre?”

Certamente aquele cavaleiro até se esqueceu do cavalo!

A nossa vida não termina na morte, por isso vamos preparar-nos bem para o que vem depois!

A ressurreição é o prêmio de Deus aos justos. Maria Santíssima era tão santa que foi elevada por Deus ao céu em corpo e alma. Que ela nos ajude a vivermos de acordo com essa gratificante verdade da ressurreição.

Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos.

padre Queiroz

 

 

Fariseus e saduceus e o desemprego no mundo

A questão da ressurreição não é uma questão tida como importante para a maioria das pessoas, nem mesmo para os cristãos que deveriam ter aí a marca diferencial de sua Fé. Uns – ainda pela influência da crítica marxista vêem na esperança da ressurreição um “ópio do povo” (que entorpece a vontade de lutar pela construção de um mundo mais justo). Outros vêem aí uma ilusão onde o homem projeta os seus desejos insatisfeitos, pois a tendência da moda é só hedonismo (busca obsessiva do prazer constante). Gostamos das palavrinhas mágicas como “qualidade de vida” e hoje só se fala em segurança, aproveitar a vida, etc. O que é compreensível, diante da atual situação de trabalho e desemprego em todo o mundo. Diante do aumento da pobreza mesmo nos EEUU e na Europa, para não falar da fome e condições inumanas de vida nos outros continentes. São problemas urgentes e a Ressurreição pare estar situada num futuro distante...

Ressurreição... palavrinha esquisita. O que não é. Mas o que é?

Não é a “revivificação” dos nossos corpos atuais (qual seria a idade ideal para viver no céu? É uma pergunta ridícula) uma espécie de prolongamento da vida neste mundo como na ficção do filme Cocoon. Não é “reencarnação”, pois não existe ser humano em que “alma” esteja separada de corpo: podemos falar de dois “princípios” (só procurando conceitos com ajuda da filosofia e da antropologia). De fato, cada um é um “complexo integrado” de elementos biológicos (físico-quimicos), emocionais, intelectuais, imaginativos, etc., formando um único indivíduo. Você tem um nome, uma história (do nascimento à morte). Com heranças genéticas, está inserido numa história única no tempo-espaço.

Ressuscitar seria uma espécie de “passagem” para uma vida nova. Uma comparação: a borboleta sai do casulo mas é tudo o que já era como larva, mas não é mais como larva... Outra: uma criança surge a partir de duas células, cresce e o adulto não é mais criança, mas é a mesma pessoa que era em criança. Na ressurreição não deixamos de ser nós próprios e, no entanto, seremos “novos”: “uma nova criatura” na expressão do novo testamento. Ressurreição poderia ser “definida” como elevar ao máximo da plenitude todas as nossas capacidades, como a meta final do nosso crescimento, a realização da utopia da vida plena.

Futuro, mas também presente

Para o cristianismo é a esperança que dá sentido a toda a caminhada atual. Cremos na ressurreição (como uma certeza “absoluta” no testemunho dos que conviveram com Cristo ressuscitado, o qual prometeu podemos nos identificar com ele. Assim a comparação do alimento – eucaristia – que é assimilado pelas células do corpo). A nossa vida presente deve ser, pois, uma caminhada alimentada pela confiança capaz de superar as dificuldades. Viajamos como imigrantes sonhando com uma nova terra, melhor que as condições de vida na terra natal.

A certeza da ressurreição não é só a realidade que esperamos; mas influencia, desde já, a nossa existência terrena. É o horizonte da ressurreição que incide sobre nossas opções, os nossos valores, as nossas atitudes. A certeza da ressurreição nos dá a coragem de enfrentar as forças da morte que dominam o mundo, de forma a que o novo céu e a nova terra que nos esperam comecem a desenhar-se desde já, na paciente mudança da vida social e econômica, apesar da corrupção, do crime, da maldade. Afinal é inevitável escolher entre ceder e aceitar corrupção, desprezo dos outros (chegando ao crime) ou viver procurando a solidariedade e a compaixão.

Evitar o risco do ridículo... e encontrar comparações, como numa poesia

Temos de ter muito cuidado com a forma como falamos da ressurreição. Afirmamos no Credo nossa certeza na ressurreição. Mas é preciso confessar também nossa limitação para conceitos e explicações sobre esse mundo novo que nos espera. Uma comparação que ajuda é imaginar que a criança no seio da mãe não compreende nem sabe explicar a vida que a espera no mundo exterior. Se possível fosse, ela responderia “não” à pergunta: “você quer sair daí?” No útero, afinal, ela tem calor, carinho, alimento – e nem precisa mastigar! O único problema é que esse estado paradisíaco não continua depois de nove meses...

Evitar o risco do ridículo, achando comparações, como na poesia

Não é para rir dessa história ridícula, inventada pelos saduceus: de fato, uma prescrição da Lei de Moisés dizia que uma mulher que não tinha tido filhos e que se tornara viúva devia casar com o irmão do defunto para ter um filho que seria considerado como o filho deste defunto. A história dos saduceus é rocambolesca apenas porque seu objetivo era apanhar Jesus numa armadilha. Ora, esta ideia da ressurreição não é hoje mais evidente do que há dois mil anos. Os gregos reencontrados por São Paulo não acreditavam nisso. E hoje, os cristãos, mesmo muito “praticantes”, são cada vez mais numerosos a aderir a fantasiosas reencarnações como se só valesse na pessoa a sua “alma” uma fantasminha que entra e sai de várias “casas” (corpos), porque, de fato, nunca se viu ninguém voltar do além da morte, ao passo que outros afirmam ter “recordações” de vidas passadas (um modo de “explicar” nossas tendências, temperamentos, preferências e diferenças). Mas uma “alma” sem corpo não é ser humano.

No fundo, os saduceus são seriam estranhos entre nós hoje! Reconheçamos que a ressurreição é uma realidade muito misteriosa para ser “explicada”. Na vida há muitos “Mistérios” que não explicamos. O encontro e o amor entre pessoas, os caminhos numa profissão ou uma oportunidade de trabalho e progresso. Etc. Quando Jesus ressuscitado apareceu aos seus discípulos, também teve que usar muita pedagogia, persuasão e repreensões para os convencer de que era verdadeiramente Ele. Eles não acreditaram imediatamente!

Deus não é um deus dos mortos mas é Deus da vida

Os saduceus não aceitavam a ressurreição e queriam ridicularizar Jesus. Mas a mensagem de Jesus é de esperança: ele tenta ajudar seus ouvintes a erguer os olhos, a não ficarem agarrados aos bens materiais e unicamente a esta vida na terra. Veio anunciar um Reino no qual a única filiação real e eterna é aquela que nos liga a Deus. Deus é um ser de relação: do “Pai” com o “Filho” na comunhão realizada pelo “Espírito”. Mas relação também de Deus com a humanidade: o nosso Deus é sempre o Deus de alguém, Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacob. E é numa relação de Aliança que Deus Se situa. A relação com Deus não conhece a morte: se o homem é chamado a ressuscitar, é porque Deus quer selar uma aliança eterna à qual Ele é sempre fiel.

O argumento central usado por Jesus foi recordar o episódio de Moisés no diálogo da sarça-ardente, quando chama ao Senhor ‘o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob’. Ora, diz Jesus, Deus não é Deus de mortos, mas de vivos, porque para Ele todos estão vivos”. Deus, o Criador, está para além do tempo. Se Ele ressuscita cada ser humano, é por um ato infinito e eterno de amor criador. Ele dá um nome único, pessoal a cada homem. Ele nunca poderá retomar nem suprimir este ato. Cada ser humano que vem ao mundo é verdadeiramente um “pedaço de eternidade”. Cada ser humano será para sempre “ele” e não um outro. Cada ser humano viverá para sempre, enraizado no amor eterno de Deus. Pela sua ressurreição, Jesus abriu-nos o caminho da nossa própria vida em plenitude em Deus. Outra questão – que não podemos discutir aqui – é a possibilidade da liberdade humana não aceitar o convite para ir ao banquete do rei, como nas parábolas. Ele poderia ficar de fora. Meditando na misericórdia de Deus apresentada na Bíblia, no entanto, somos tentados a imaginar que até para os que rejeitam os convites do amor, Deus daria um “jeitinho” brasileiro de convencê-los a entrar, como na parábola em o que o rei manda os empregados a “obrigar” os coxos e aleijados a entrar no palácio para a festa...

prof. Fernando Soares Moreira

 

 

Cremos na ressurreição dos mortos

Sem contestação a doutrina de Cristo: “Os mortos hão de ressuscitar” (Lc. 20,37). É a verdade que se professa no Credo: “Creio na ressurreição da carne”. Santo Agostinho tem uma orientação sumamente importante: “Que teu Credo seja para ti como um espelho! Olha-te nele para ver se crês tudo que declaras crer. Alegra-te cada dia por teres fé”. Hoje, mais do que nunca, quando a doutrina pregada por Jesus é tão deturpada, sobretudo no que diz respeito à vida eterna, esta realidade sublime que um dia se dará para o ser humano precisa ser, de fato, fixada, refletida e vivida intensamente. É farol nas estradas da vida e consolo supremo para quem inexoravelmente, em qualquer estágio de sua existência, caminha para a morte. São Paulo mostrou que a ressurreição é até o fundamente da fé do cristão. Sem ela esta fé se esvai. Assim falou o apóstolo aos Coríntios: “Se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como é que alguns, dentre vós, dizem que não há ressurreição dos mortos. Se não há ressurreição dos mortos, tampouco Cristo ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, então é vã a nossa pregação também, e vã é igualmente na vossa fé [...] Mas, ao contrário, sim, Cristo ressuscitou dos mortos como primícia dos que repousam” (1Cor. 15,12-14). 20). Aí o alicerce de toda religião cristã. Após a morte a alma subsiste por ser espiritual e já se encontra ou na companhia de Deus no céu, ou se purificando no purgatório, ou, para sempre, separada do Ser Supremo, se tiver conhecido a perdição eterna. O corpo tomba na corrupção, mas no dia do juízo final, Deus dará uma vida incorruptível aos corpos que estarão unidos à alma. Será um corpo transfigurado em corpo de glória como explicou são Paulo aos Filipenses (Fl. 3,21) Aos Coríntios ele desceu a detalhes: “Semeia-se  desprezível, ressuscita glorioso; semeia-se  na fraqueza, ressuscita cheio de força; semeia-se corpo animal, ressuscita corpo espiritual; semeia-se corpo animal, ressuscita corpo espiritual” (1Cor. 15, 42-45). Nisto é que se deve prestar bem atenção, pois na mídia certos articulistas que abordam temas religiosos negam peremptoriamente a ressurreição do corpo.  A Onipotência divina se manifesta, portanto,  também sobre o corpo mortal que é sepultado e o corpo ressuscitado que se tornará glorioso, revestido de incorruptibilidade  e imortalidade. É lógico que tudo isto ultrapassa o entendimento meramente humano e se torna accessível somente pela fé. A ressurreição dos mortos, porém, está intimamente associada à parusia de Cristo. Foi declarado aos Tessalonicenses: “O próprio Senhor ao sinal dado, à voz do arcanjo, ao clangor da trombeta divina, descerá do céu; então ressuscitarão primeiro os mortos em Cristo; depois os vivos, os que ficarmos seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, para o ar, ao encontro do Senhor; e assim estaremos sempre com o Senhor” (1Ts. 4,16-17). São Paulo ensina então o grande fruto que se deve tirar desta verdade: “Consolai-vos,pois, mutuamente, com estes pensamentos” (v. 18). Fulge, assim, a luminosa esperança cristã que deve alumiar todos os caminhos neste presente exílio, dado que “as tribulações deste mundo não têm proporção alguma com a glória que um dia se revelará em nós” (Rm. 8,18). Isto leva à observância corajosa dos mandamentos divinos, jamais cedendo às paixões terrenas. Oferece ânimo para cumprir os deveres de cada dia. A honrar os compromissos e, entre eles, os feitos solenemente diante de Deus no sacramento do matrimônio. Leva, de fato, à fidelidade conjugal e à total lealdade para com Deus. É, deste modo, que o cristão se prepara com toda segurança para a passagem da morte para a vida perene na Casa do Pai, aguardando o dia venturoso da ressurreição final. Regrar toda a existência segundo os desígnios de Deus resulta de todas estas reflexões. Uma consciência da fragilidade das vantagens temporais não vendo nelas o fim último do destino humano. São João Crisóstomo num de seus mais belos sermões alertou aqueles que pensam que, um dia, não vão dar contas a Deus das ações praticadas nesta terra. São os que se fecham nos limites da vida presente, pensando que além dela não existirá mais nada e daí o desprezo pelas virtudes. Então, tais pessoas não se afastam das más ações e se abandonam a seus desejos desregrados. Aqueles, porém, que esperam a ressurreição dos mortos colocam todos os seus esforços na temperança, na equidade, no cultivo de tudo que é virtuoso e bom. Foge da imodéstia, da brutalidade, da insolência, da perversidade. Têm em vista o que aconselhou são Paulo: “Glorificai a Deus em vosso corpo” (1Cor. 6,26), pois, realmente este corpo um dia ressuscitará imortal e impassível para estar com Cristo por toda a eternidade.

cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho

 

 

O sentido da vida

 Nos textos da missa deste domingo descobrimos outra vez que o nosso Deus é um Deus de vivos e não de mortos. Esta fé que dá forma e conteúdo a cada um de nós e a toda a comunidade reunida, é o centro da vida cristã. Somos chamados a proclamar que Deus é o Senhor da vida, que em Jesus fez com que a morte fosse vencida e apontou o caminho para a certeza da ressurreição, não apenas para Cristo, mas também para todos os que acreditarem Nele.

Este é o Deus dos vivos, porque detesta tudo o que seja causa de morte. Por isso, chama-nos à vida ressuscitada constantemente. Apenas requer de cada um a fé segura nessa certeza revelada pela sua palavra. Digamos como dizia um escritor famoso (Dostoievski): "Comecei a amá-lo e me alegrei com o seu amor. Será possível que Ele me apague e a minha alegria se transforme em nada? Se Deus existe, também eu sou imortal". Ora bem, esta fé em Deus, como dimensão de vida para todos os momentos, dá-nos o sentido da nossa existência. E com isso divinizamo-nos, somos a glória viva de Deus. É sempre necessário acender a luz da fé nessa possibilidade de plenitude.

padre José Luís Rodrigues

 

 

“Temos a esperança em Deus de que Ele nos ressuscitará!”

A ressurreição ocupa um papel fundamental na vida dos crentes. Na verdade, ela é um dos artigos de fé que professamos no Credo niceno-constantinopolitano: “espero a ressurreição dos mortos”. A liturgia da palavra deste domingo convida-nos a aprofundar e a refletir sobre esta verdade fundamental da nossa fé. 

No entanto, nos dias de hoje, seja entre pseudo-crentes seja entre não crentes, encontramos várias pessoas que negam a ressurreição. São vários os motivos que estão na origem desta contestação. Alguns consideram que o facto de acreditar na ressurreição é um anestesiante que nos impede de lutar por um mundo presente mais justo e solidário. Outros afirmam que o facto de acreditar na ressurreição resulta de uma necessidade psicológica do homem projectar os seus desejos insatisfeitos ou de fuga dos problemas deste mundo. Além disto, outros fascinados pela cultura oriental, acreditam na reencarnação que não é compatível com a fé cristã.

Ante estes desafios, o cristão tem de “saber dar razões da sua esperança”(2Pe.). Com efeito, “A Ressurreição dos mortos é a fé dos cristãos: é por crer nela que somos cristãos” (Tertuliano). E a nossa fé na ressurreição é credível. A nossa fé na ressurreição está intimamente ligada à fé pascal. Se acreditamos que Jesus morreu e ressuscitou, do mesmo modo Deus levará com Jesus os que em Jesus tiverem morrido”. (1Ts. 4,14) “Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram” (1Cor. 15,20)

Para os discípulos de Jesus não há morte definitiva. Jesus é a “Ressurreição e a Vida”. Para os cristãos, a morte física é apenas uma passagem para uma verdadeira vida: “Para vós Senhor a vida não se acaba apenas se transforma” (Prefácio dos Defuntos I). Os homens passarão pela morte biológica como uma passagem para a vida em abundância. 

Fomos criados por Deus por Amor e é o Amor de Deus que sustenta cada momento da nossa vida. Amar é dizer tu não morrerás. Deus que nos criou por amor quer-nos como seus interlocutores para sempre, porque o amor de Deus pela sua criatura é eterno. Assim sendo, se a ressurreição é uma questão de amor, nós ressuscitaremos porque Cristo nos amou e se entregou por nós. “Se, na verdade, quando éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte do Seu Filho, com muito mais razão, depois de reconciliados, seremos salvos pela sua vida” (Rm. 5,10). Ressuscitaremos porque Cristo ressuscitou (causa eficiente), à imagem de Cristo (causa exemplar) e como membros do corpo de Cristo. 

No evangelho deste domingo, assistimos a uma controvérsia entre os saduceus e Jesus sobre o tema da ressurreição. Estamos já em Jerusalém e muito próximos à Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. Neste contexto, Lucas apresenta-nos várias controvérsias de Jesus com os líderes religiosos do judaísmo que rejeitam a sua mensagem.

Os saduceus eram uma corrente do judaísmo constituída especialmente pelos sacerdotes das famílias mais influentes que seguiam escrupulosamente a lei e que rejeitavam a tradição oral. Assim sendo, à diferença dos fariseus, não acreditavam na existência dos anjos e na ressurreição dos mortos no último dia. Na verdade, a crença na ressurreição dos mortos é uma crença tardia no judaísmo. A primeira leitura deste domingo, retirada do segundo livro dos Macabeus, é a primeira afirmação clara da esperança da ressurreição no Antigo Testamento.

No entanto, esta crença embrionária da ressurreição dos mortos não coincide com a nossa esperança cristã da ressurreição. Na verdade, os fariseus afirmavam que a ressurreição seria uma simples continuação da vida que vivemos neste mundo na linha de uma revivificação. 

É nesta linha de pensamento que os saduceus, querendo ridicularizar a crença na ressurreição, colocam o caso caricato da mulher, que seguindo a lei do levirato (Dt 25, 5-10), se casou com sete irmãos porque cada um deles morria sem ter deixado descendência. Deste caso, surge a sábia pergunta dos saduceus a Jesus: “De qual destes será ela esposa na ressurreição, uma vez que os sete a tiveram por mulher?”

Jesus aproveita a ocasião para fazer uma catequese sobre a ressurreição. A sua resposta divide-se em duas partes. Na primeira parte da resposta (Lc. 20,27-36) Jesus aborda o como da ressurreição e na segunda parte (Lc. 20,37-38) afirma a certeza da ressurreição. 

Assim sendo, Jesus começa por afirmar que a ressurreição não é, como os fariseus acreditavam, uma continuação da vida presente que vivos. A ressurreição ultrapassa as nossas categorias de entender a vida presente e se a quisermos descrever segundo estas categorias podemos cair no ridículo. Assim sendo, a questão que os saduceus colocaram não faz sentido. Jesus termina esta primeira parte da resposta afirmando que na ressurreição seremos como anjos, ou seja, que estaremos diante de Deus e o louvaremos. 

A segunda parte da resposta de Jesus é a afirmação da existência da ressurreição. Como argumento, Jesus utiliza a citação de Ex. 3,6 para mostrar a verdade da ressurreição. Deus é um Deus de vivos e não de mortos. Assim sendo, mesmo depois de terem morrido há muitos anos, Abraão, Isaac e Jacob estão vivos em Deus. 

Mas por que razão será importante a fé na ressurreição? Será que essa fé traz ou deve trazer algumas consequências para a nossa vida como crentes?

Para responder a estas perguntas talvez seja útil reflectirmos um pouco sobre a primeira leitura deste domingo. O contexto histórico a que o nosso texto do segundo livro de Macabeus faz referência é o do reinado de Antíoco IV Epífanes. Este monarca tentou realizar uma helenização forçada do povo de Israel com o intuito de acabar com o judaísmo. O nosso texto fala-nos de uma mãe e de sete filhos que foram martirizados porque se mantiveram fiéis às suas tradições judaicas não abandonando a sua fé e não comendo carne de porco, animal impuro, segundo a lei.

O nosso texto apresenta-nos a postura e as respostas corajosas dos membros desta família. A fé na ressurreição levou-os a vencer os medos e a manterem-se fiéis à sua fé. Acreditar na ressurreição dá sentido ao presente. Acreditar na ressurreição faz-nos vencer o medo. Quem espera age em função do esperado. “Temos a esperança em Deus de que Ele nos ressuscitará!”

Iluminados pela ressurreição de Jesus acreditamos que a ressurreição dos mortos existe e que nós somos chamados a ela. Que a nossa vida de cristãos manifeste esta esperança de um amor que é mais forte que a morte!

padre Nuno Ventura Martins

 

 

“Deus não é um Deus dos mortos, mas dos vivos” (Lc. 20, 38).

O evangelho de hoje fala da ressurreição dos mortos, um tema polêmico na época de Jesus e ainda hoje. Alguns saduceus se aproximaram do Mestre para ridicularizar sua crença na ressurreição com uma história criada a partir da lei do levirato (1). Essa norma dizia que se um homem se casasse com uma mulher e morresse antes de deixar um filho, seu irmão deveria tomá-la como esposa e o primeiro filho que tivesse seria considerado do falecido (cf. Dt. 25,5-10; Gn. 38,8). Isso garantiria a descendência e que suas propriedades continuariam na família. Se esta situação tivesse acontecido entre uma mulher e sete irmãos, na ressurreição ela seria esposa de quem? Perguntou um saduceu.

O grupo dos saduceus só aceitavam a Lei escrita (primeiros cinco livros da Bíblia), eram ligados às famílias sacerdotais e ao templo de Jerusalém e não aceitavam a ressurreição dos mortos, por isso queriam caçoar de Jesus. A história que eles contam mostra uma ideia muito materialista da ressurreição, como se essa fosse um retorno à vida terrena, ou como se a realidade futura se regesse segundo nossas leis: procriação, envelhecimento, morte etc.

Jesus fala claramente que a ressurreição deve ser pensada de uma maneira nova: “são iguais aos anjos, serão filhos de Deus” (Lc. 20,36). Uma vez um fiel me procurou dando uma interpretação muito estranha dessa passagem. Alguém tinha lhe ensinado, e ele passava a ideia adiante, que na vida futura nós não iríamos mais conhecer quem foi nossa mãe, pai, irmãos, esposa, esposo... Tudo seria apagado da nossa memória e seríamos anjos (2). Nada mais errado para a nossa fé. É verdade que não estaremos mais sob a lei do envelhecimento, nem do espaço, ou do tempo; veremos Deus face a face, o que nos dará uma alegria inefável. Mas a nossa memória não se apagará, a nossa história será transfigurada juntamente conosco e reconheceremos todos aqueles com quem nos relacionamos sobre a terra, isso será um acréscimo na alegria experimentada no céu. Fico imaginando como será grande a alegria de uma mãe ao reencontrar seu filho na glória celeste.

Toda missa dominical nós rezamos: “Creio na ressurreição da carne”. O que isso significa?

A Igreja Católica acredita que da mesma forma que Cristo ressuscitou dos mortos, e vive para sempre, assim também, depois da morte, os justos viverão para sempre com Cristo ressuscitado e que Ele os ressuscitará no último dia (cf. Rm. 8,11). Dizer “creio na ressurreição da carne", é acreditar que após a morte não haverá somente a vida da alma imortal, mas que mesmo os nossos "corpos mortais" (Rm. 8,11) readquirirão vida (3).

Alguns que me escutam podem estar pensando, essa é minha única esperança. Quando morrer vou parar de sofrer e começar a ser feliz. Um dos segredos da fé cristã é que essa ressurreição inicia já aqui na terra. O evangelho já dizia, “Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos”  (Lc. 20,37), não só para quem já morreu (Abraão, Isaac e Jacó) mas também para quem está vivo.

A bem-aventurança da ressurreição começa aqui na terra! Quando alguém ouve as palavras de Jesus e crê nele passa da morte para a vida (Jo 5,24), deixa de viver uma vida sem rumo certo, medíocre, morta, e começa a viver plenamente; porque vive com o Senhor e ele é a Vida (cf. Jo 11,25-26; At. 3,15; 5,20).

Crer não é apenas dizer: “Eu creio”, mas é confiar naquele que morreu e ressuscitou para nos salvar e viver a partir desse princípio em uma comunidade cristã.  A vida de muitos que estão hoje aqui não é nada fácil. Existem dificuldades na família, no trabalho, nas amizades... sinais de morte. Quem acredita realmente em Jesus assume duas atitudes fundamentais:

1) deixa de lado tudo aquilo que leva à morte e pode afastar da Vida (a mentira, o roubo, o adultério, a violência, as superstições...);

2) leva Deus para aquelas situações de morte com o objetivo de transformá-las em instrumento de ressurreição e vida (pobreza, dificuldade com o marido, vizinha ou filhos, falta de emprego etc.). Essa é a experiência que muitas pessoas que fazem parte dos grupos de catequese de adultos têm experimentado e testemunhado.

Na missa de hoje desejo convidá-lo mais uma vez a fazer essa experiência de ressurreição que muitos já fizeram. Aproxime-se mais da sua Igreja através de um grupo de catequese de adultos, ou um movimento, e viva essa aventura da fé.

(1)Levir é uma palavra da língua latina usada para “cunhado”.

(2) O texto fala que seremos como anjos.

(3) Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 988-990.

padre Emilio Cesar

 

 

A verdade da ressurreição

“Aqueles que praticarem o bem ressuscitarão no último dia”

Estamos nos aproximando do final do tempo comum. A liturgia deste domingo nos fala do tema da ressurreição. Hoje infelizmente muitos cristãos não têm bem clara a idéia do que significa ressuscitar. Jesus ao se apresentar vivo para seus amigos nos mostrou o que vai ocorrer conosco também. Após as provações desta vida iremos viver para sempre com Deus. Esta é a grande verdade que deve ser o ponto de referência em nossa vida. Uma idéia errada que se propaga hoje é a reencarnação. Uma teoria que após nossa morte “retornamos” para o corpo de outra pessoa até sermos purificados pelo nosso próprio esforço sem a participação da graça de Deus. Esta idéia é muito difundida hoje por ser um grande anestésico em relação a falta de espiritualidade e compromisso com a vivência evangélica. Crer na ressurreição é viver uma vida de acordo com os valores do Evangelho. É passar pela porta estreita da cruz de Cristo.

 

Quando vemos em nossa sociedade tanta disputa, tanta concorrência, uns querendo ser mais do que os outros e ao mesmo tempo nos deparamos com a realidade da morte. Dela ninguém pode se esquivar. Por esta razão o nosso ideal não pode estar nesta vida transitória. Percebemos que nada tem valor neste mundo a não ser tentar descobrir o que o Senhor nos pede e fazer sua vontade. Onde está o tesouro que procuramos? Se confiarmos nas honras e riquezas deste mundo não iremos encontrar a paz definitiva que se encontra na união com Deus.

A resposta a todos estes questionamentos podemos encontrar através da Fé na ressurreição de Cristo e na nossa futura ressurreição. A fé ultrapassa a barreira do egoísmo implantado no mundo pela ganância humana. O que vivemos no tempo presente não é o paraíso. Esta vida momentânea é uma preparação para a vida definitiva. Precisamos rechear a nossa existência de amor a Deus e ao próximo como se fosse nós mesmos. Não podemos nos cansar de praticar o bem. A morte para o cristão é a porta da vida. É o amadurecimento definitivo de sua existência. Se todos nós nos direcionássemos a realidade da ressurreição a nossa sociedade seria diferente. Os apegos as coisas do mundo fecham nosso coração e tiram nossa sensibilidade para vermos o amor que o nosso Criador tem por nós.

O cristão vive pela Fé selecionando os valores que são de acordo com Cristo e afastando de sua vida o que pode lhe transformar em um egoísta. A experiência de ressurreição é uma experiência de amor universal que se partilha para todos. Ela é um processo que não acontece de uma hora para outra. É um despojamento do superficial para se assumir o real.

Na vida de santa Teresinha do Menino Jesus percebemos o quanto ela foi amadurecendo na participação do mistério de Cristo que vai nos jogando automaticamente para um amor universal despreocupado consigo e preocupado com Deus e com os irmãos.

Temos a certeza de que Deus não iria nos criar para tão pouco, pois esta vida é muito rápida. Por esta razão não podemos perder tempo com “coisas pequenas”, pois tudo isto passa muito rápido. O nosso coração deve se voltar para o Eterno e permanente.

Os saduceus não queriam acreditar na ressurreição, pois era um mau negócio para eles que viviam uma vida de proveito da situação de opressão do povo de Israel. Hoje muitas pessoas preferem se afastar desta realidade ou crer numa possível e fantasiosa reencarnação. Algumas religiões vêm tentar preencher os vazios interiores que só o Cristo ressuscitado poderá curar. A grande mídia procura nos afastar da verdade e nos leva ao mundo da mentira fazendo que sejamos materialistas e confiemos nas riquezas e nas vaidades do mundo. Sem a experiência da cruz não passaremos pela experiência da ressurreição. Esta cruz vai mudando no decorrer da nossa vida. Temos que ter muita força e alegria, coragem e sermos pessoas de oração para vencermos a ilusão do mundo que tenta nos corromper com falsas idéias.

“Senhor Jesus nos ajude a entender o sentido desta vida através de sua ressurreição”.

padre Giribone - OMIVICAPE

 

 

Nosso Deus é o Deus da vida

Num site no qual ajudo, através da oferta de orientação espiritual pela internet, uma mãe me enviou, angustiada, um e-mail, contando da sua aflição por conta de umas perguntas da sua filhinha de 5 anos, as quais ela se sentia incapaz de responder: “Mãe, lá no céu tem macarrão?” Pois diga para a sua filha que claro que sim. No céu há muito macarrão. Um macarrão ainda bem mais gostoso do que esse que ela come e que acha tão bom. Diga-lhe que, além do macarrão, o céu tem boneca, tem pai e mãe, tem avô e avó, tem irmãos e todos os amigos e demais pessoas queridas que ela quiser que estejam junto dela. Foi o que lhe respondi.

Os saduceus, Lucas já nos informa, não acreditavam na ressurreição. Com o povo judeu acontece uma evolução interessante no entendimento do sentido da vida para além da morte. Podemos ver isto na Bíblia. No começo a crença deles na vida eterna se dava imaginando que as pessoas continuavam a viver nos seus descendentes apenas.

Por causa disto os grandes patriarcas, como Matusalém, parecem ter tido essas vidas tão longas. Simbolicamente o autor bíblico quis nos dizer que eles se mantiveram vivos, mantendo-se presentes nas gerações que os sucederam.

Os saduceus, muito conservadores, não tinham evoluído nada nessa questão. Eles continuavam crendo que a vida eterna se dava a partir da existência dos filhos e netos. Daí fica mais simples compreender a questão capciosa que trouxeram para Jesus. Afinal sete irmãos se casaram com a mesma mulher e nenhum filho foi gerado dessas relações. Ou seja, como poderá ressuscitar se não gerou descendência, e de quem a tal mulher dos sete maridos defuntos será esposa no céu?

Como não haveria descendentes, conforme o seu modo de ver as coisas, o mais certo seria constatar que tudo estava acabado com as suas mortes. Ou então e aí eles queriam testar Jesus, os sete não poderiam estar juntos com a mesma esposa na eternidade. Eis que isto iria seria uma tremenda afronta à Lei.

Também, como os conservadores saduceus, costumamos entender de maneira equivocada a ressurreição. É comum que nas nossas reflexões ao tratar dela, somente consideremos os parâmetros tão humanos de tempo e de espaço aos quais estamos presos.

É obvio que a ressurreição jamais poderá ser explicada a partir dessas nossas contingências. Dito de outra forma poderemos ponderar que a questão não é nem um pouco pertinente. Não cabe manter,, para tratar da ressurreição as mesmas realidades vividas nesse mundo no qual estamos inseridos.

Desse nosso mundo a única coisa que permanecerá para todo o sempre será o Amor. Será através dele que nos manteremos vivos eternidade afora. Talvez facilite entender um pouco mais assunto tão complexo, imaginarmos a ressurreição como uma imensa teia. Nela cada um de nós constitui-se como um pequenino nó de onde partem muitos fios, a nos ligar a cada uma das pessoas a quem amamos.

Só que esta teia não está num plano (dimensão do espaço) e muito menos num determinado momento (dimensão do tempo). Ela vai para o amanhã e o ontem. Ela está no aqui e no ali de todos os lugares por onde tenhamos estado, ou imaginado. A teia rompe com essas dimensões. A ressurreição nos faz totalmente livres de tudo que nos prende na terra.

Quando imaginarmos então o céu, será bom que o vejamos e sintamos com todas aquelas pessoas com as quais queremos conviver por lá. Na categoria das coisas, poderemos também ver que na eternidade teremos tudo aquilo que aqui a gente mais gosta.

Um antigo professor de teologia, fascinado pelos astros, nos dizia uma vez que quando morrer, se o quisermos ver imediatamente após a sua páscoa, bastará que olhemos para Saturno. Eis que a primeira coisa que pedirá ao Pai quando se encontrar com Ele, será para que o leve até aqueles anéis fantásticos, para que possa curti-los. Por isto também o céu daquela menina terá, é claro, o macarrão mais apetitoso do mundo.

Mas a mensagem mais importante dessa passagem de Lucas está contida no seu final. Nosso Deus não é de forma nenhuma o Deus dos mortos, das coisas estáticas e que até podem estar cheirando mal. Ele é sempre o Deus da vida. É criativo e está sempre aberto para o futuro. Por isto, quem está ligado a Ele jamais poderá morrer.

Fernando Cyrino

 

 

Eles estão vivos! (Lc. 20,27-38)

Sim, nossos mortos estão vivos. Não “dormem”, em animação suspensa, como aqueles ricaços norte-americanos que, tomados por um câncer até aqui incurável, mandaram congelar seu corpo em nitrogênio líquido, à espera da evolução da ciência médica… Com a morte, nossa alma se separa do corpo. Este, lançado à terra, com o respeito e a veneração devidos àquele que foi por tantos anos o “templo do Espírito Santo” (cf. 1Cor. 6,19), logo se desfará em seus elementos químicos originais.

Mas é imortal a nossa alma espiritual. Vive para sempre, à espera do novo corpo que lhe será dado na ressurreição da carne, conforme professamos ao rezar o “Símbolo dos Apóstolos”.

- Vive onde? – alguém perguntaria. Ora, Vive em Deus! Os ramos da videira não são podados pela morte. Os membros do Corpo de Cristo, depois de uma vida em comunhão com Cristo-Cabeça, irrigados pela mesma circulação da Graça, não são amputados pela morte. Esta comunhão (sýssomos, um só corpo com Cristo, sýnaimos, um só sangue com Cristo – na expressão de São Cirilo de Jerusalém!) permanece e se projeta além de nossa morte.

De outra forma, como poderíamos entender a disposição de S. Teresinha do Menino Jesus de “passar o céu trabalhando na terra”, se a Pequena Teresa estivesse toda anestesiada, à espera da Segunda Vinda?! Não estivessem vivos os nossos mortos, como poderiam cumprir a “permanência do amor” lá no céu, mesmo quando já não exista espaço para a fé e a esperança, como ensina o Apóstolo Paulo (cf. 1Cor. 13,8).

Desde o início, quando celebrava a Eucaristia sobre o túmulo do fiel martirizado na véspera, a Igreja sempre soube que nossos mortos celebravam conosco, junto aos coros dos anjos, reunidos em volta do altar. Esta “memória” mística se manifesta nas expressões rituais típicas de cada Oração Eucarística: o “memento” (do verbo meminisse = lembrar) dos mortos, paralelamente ao “memento” dos vivos. É que o sacrifício de Cristo-Cabeça é inseparável do sacrifício de seus membros, que o celebram e atualizam por Cristo, com Cristo, em Cristo.

É em Cristo que nossos mortos vivem, após uma vida em comunhão com Ele. Foi a promessa de Jesus em seu discurso eucarístico (Jo. 6,51): “Eu sou o pão vive que desce do céu. Quem comer deste pão viverá para a eternidade.”

Orai sem cessar: “O Senhor resgata a vida de seus servos!” (Sl. 34,23)

Antônio Carlos Santini

 

 

Esta é a única vez em que Lucas, em seu Evangelho, faz menção aos saduceus. Eles não acreditavam na ressurreição e queriam ridicularizar o ensinamento de Jesus sobre isto.

Os saduceus pertenciam a um dos grupos judaicos da época de Jesus, surgidos do sacerdócio e da aristocracia, que mantinha boas relações com aqueles que exerciam o domínio romano em Israel.

Eles apresentaram a Jesus um caso construído sob a lei do Levirato, querendo demonstrar com isso a impossibilidade da Ressurreição.

A Lei do Levirato estabelecia que se um homem casado morresse sem deixar filhos, seu irmão deveria se casar com a viúva para lhe dar descendência. Se uma mulher tivesse, desse modo, vários maridos, qual deles seria seu esposo na vida futura?

Como para os saduceus o caso não tinha saída, a ressurreição tampouco teria sentido para eles.

Os saduceus, neste texto, põem uma falsa questão a Jesus, a fim de ridicularizarem e levarem ao absurdo a fé dos que aceitavam e criam na Ressurreição.

Jesus respondeu referenciando os patriarcas do Velho Testamento – Abraão, Isaque e Jacó – e dizendo que Deus não é Deus de mortos, mas, sim, de vivos.

Qual dos presentes se atreveria a dizer que os fundadores de Israel estavam mortos e não vivos?

Os saduceus, na ânsia de confundirem e apanharem Jesus em falso, esqueceram-se que o casamento, o sexo, etc., são coisas deste mundo, mas os que forem dignos de alcançar o mundo futuro e a ressurreição dos mortos, não se casam, nem se dão em casamento! Neste caso, “o feitiço voltou-se contra o feiticeiro”.

A resposta de Jesus faz notar que o matrimônio é uma realidade temporal e que a ressurreição não é um prolongamento desta vida, é muito mais que isso.

Na ressurreição a vida é estar junto de Deus e para Deus. Este texto quer indicar que Deus é Deus dos vivos e nesse sentido os patriarcas vivem.

Como eles, todos somos chamados a compartilhar essa vida plena junto de Deus para sempre.

Certamente que há muitas perguntas válidas a fazer sobre a ressurreição, sobre a vida para além da morte, sobre o que seremos e o que faremos no além, mas o melhor é não nos perdermos em perguntas especulativas e crermos, de coração, que Deus, o Deus vivo, dá a salvação aos que crêem e esperam em Seu Filho Jesus.

Reflexão apostólica

A nossa realidade e a nossa missão aqui na terra é uma e não podemos aguardar que na outra vida tenhamos o mesmo modo do ser e do viver terreno. No céu estaremos todos em Deus, formando uma unidade no Amor.

Portanto, não devemos nos preocupar de quem seremos quando daqui partirmos. Na nossa marcha em busca da eternidade nós perseguimos um estado de perfeição e santidade que não podemos possuir já aqui nesse mundo.

A nossa vivência humana já é uma pesquisa daquilo que foi designado pelo Criador para a nossa felicidade.

Aqui na terra, o homem e a mulher receberam de Deus uma missão de frutificar e multiplicar-se, enchendo a terra e submetendo-a a eles, dominando sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra.

Todos nós, temos consciência de que a nossa vida aqui é passageira e que nós caminhamos para uma realidade espiritual que extrapola ao nosso entendimento.

Todos aqueles que têm fé esperam com confiança o que Deus lhes reservou e, sem apegar-se, a pessoas ou a coisas da terra têm a convicção que a vida futura, embora seja uma continuação do agora, será para nós a verdadeira vida, na qual nós, como os anjos, contemplaremos para sempre a face de Deus.

Deus é o Deus dos vivos e a morte não tirará a vida da nossa alma, pelo contrário, ela é uma passagem para que alcancemos a felicidade sem fim.

Que o nosso objetivo desde já seja o de, convivendo com aqueles que nós mais queremos e amamos, esperarmos por Aquele a quem nós pertencemos. Da casa do Pai nós saímos e para lá haveremos de retornar.

Sabendo que Deus é Deus dos vivos e não dos mortos, conhecemos então a nossa realidade futura: em Deus estaremos também vivos e felizes. Não nos preocupemos, estamos nas mãos do Senhor!

Você se questiona por essas coisas? Na verdade, a quem pertence o seu coração? Você se acha propriedade de alguém? De quem? Você desejaria viver eternamente aqui na terra? Pense sobre isso! Qual é o maior anseio da sua alma? Procure descobrir isso! Você tem desejo de encontrar-se com o Senhor? Você acha difícil refletir sobre esse assunto ou você o faz com naturalidade?

Hoje vemos que o SENHOR nos ensina que a ressurreição esta para os vivos e não para os mortos.

Os vivos são os que crêem e constroem suas casas sobre a PALAVRA DE DEUS. A casa é o ESPÍRITO e o seu ensinamento espiritual vindo de DEUS. Os mortos são os que não crêem e não aceitam ao SENHOR como REI.

O SENHOR nos ensina que devemos perder todos os laços humanos pois em espírito só trabalhamos para DEUS. Os anjos não são ligados às coisas humanas,mas aos homens, se santificam e vivem para DEUS. Nos ensina também que DEUS está para os que ressuscitam para a VIDA ETERNA e não para a MORTE..

Para a MORTE só há o PAI DA MENTIRA, o maior dos enganadores! Portanto, devemos completar a nossa missão se preparando para servir a DEUS, o mais rápido possível, antes que sejamos chamados sem esperarmos.

O que precisamos é que DEUS nos AME sempre e nos diga o que devemos fazer para a proteção de todos. E este DEUS é TRINO, e ao mesmo tempo é o maior PAI que um ser pode querer.

Sidnei Walter John

 

 

O capítulo 7 do segundo livro dos Macabeus “é dedicado a esta história que pretende comover e perturbar o leitor, para lhe transmitir algumas mensagens notáveis de fidelidade a Deus: a fidelidade a Deus é mais importante do que qualquer outra coisa: certamente Deus retribui quer a constância heroica dos seus fieis, quer a crueldade do tirano opressor; a fonte desta estupenda coragem é a espera confiante da futura ressurreição… Pela primeira vez, durante esta perseguição, aparece claramente na Bíblia a fé na ressurreição” (Casarin, 2010).

Que belo exemplo para nós cristãos sabermos nos comportar com firmeza perante as muitas ameaças. Também hoje bem planejadas, para destruir os padrões de vida e tradições cristãs, pela introdução de novas formas de “paganismo” na sociedade que se pretende ser fechada aos valores espirituais.

“A violência antirreligiosa existe há muitíssimo tempo. Os irmãos macabeus experimentaram-na em sua própria carne. Mas os homens e mulheres que sentem a proximidade de Deus são invencíveis, insuperáveis. Assim o demonstrou essa família exemplar, liderada por sua mãe. Os que confiam em Deus sabem que a morte, o assassinato, não têm a última palavra. Por isso convertem a morte violenta em sacrifício, em culto a Deus em misericórdia sobre o mundo. Morrem louvando a Deus e perdoando os crimes dos seres humanos. O pior é que existem pessoas que pensam que matando fazem um favor à justiça, ou à própria divindade. Os familiares, os terroristas suicidas justificam-se talvez com o objetivo de seus atentados, mas não têm justificação. São idólatras de si mesmos. Servem a ídolos que eles mesmos criaram. Deus é Deus da Vida, mas nunca, nunca da morte.” (Paredes, 2011)

O martírio, inclusive para os não crentes, tem um poder sedutor muito grande. Um mártir por sua fé não é só glória de sua religião, mas também da humanidade inteira. É um heroi e, se é cristão, é um santo, um heroi da graça e um evangelizador, porque transmite a fé cristã com a oferenda de sua própria vida. Os macabeus foram para os judeus e para os cristãos um exemplo permanente de fortaleza espiritual e de fé na ressurreição. O martírio de tantos milhares de cristãos ao longo dos 21 séculos de história do cristianismo é sinal de credibilidade mais fidedigno da ressurreição dos mortos. Um martírio que é radicado no grande Martírio de Jesus Cristo na cruz.

Junto ao martírio de sangue está o martírio da vida, o testemunho diário da fé em um mundo não pouco secularizado e bastante míope para as coisas da fé, é necessário que os cristãos selemos nossa fidelidade à vida, nesta terra em que estamos e na eternidade, com uma vida de fidelidade.

Como os “macabeus” também os cristãos ao longo de sua história bimilenar aprendemos a viver nossa fé em um mundo que muitas vezes se mostra indiferente ou hostil à fé cristã, demonstrando com nossa vida que viver de acordo com nossa fé é bom não só para nós, mas também para toda a sociedade em que vivemos.

Homens e mulheres hoje dão sua vida por ser fieis à vontade de Deus. Fidelidade heróica dos que caminham ao martírio. Estímulo e exemplo a seguir dos que disseram sim ao chamado de Deus; esses que seguem caminhando pelo mesmo itinerário de sempre apesar das dificuldades. Dispostos a morrer “antes que quebrar a lei de nossos pais”. Não há dúvida de que a fé na ressurreição tem sido sempre uma força divina que iluminou e dirigiu a vida e a morte de milhões de pessoas ao longo da história. Não só os mártires cristãos, os que morreram por professar sua fé em Cristo Jesus, mas também outras muitas pessoas que se mantiveram firmes em sua conduta cristã em meio a grandes dificuldades, são hoje para nós um exemplo maravilhoso de vida de fé. Sem fé na outra vida, na vida eterna, esta vida terrena muda de direção.

“Vivemos numa verdadeira ‘cultura da morte’… situações de violência, de ódio, de interesses contrapostos, que induzem homens a agredirem outros homens com homicídios, guerras, massacres, genocídios… o escandaloso comércio de armas… a imprudente alteração dos equilíbrios ecológicos, a criminosa difusão da droga, a promoção do uso da sexualidade segundo modelos que, além de serem moralmente inaceitáveis, acarretam ainda graves riscos para a vida… É impossível registrar de modo completo a vasta gama das ameaças à vida humana, tantas são as formas abertas ou camufladas, de que se revestem no nosso tempo! Uma guerra dos poderosos contra os débeis: a vida que requereria mais acolhimento, amor e cuidado, é reputada inútil ou considerada como um peso insuportável, e, consequentemente, rejeitada sob múltiplas formas… Incorre hoje uma estranha contradição: precisamente numa época em que se proclamam solenemente os direitos invioláveis da pessoa e se afirma publicamente o valor da vida, o próprio direito à vida é praticamente negado e espezinhado, particularmente nos momentos mais emblemáticos da existência, como são o nascer e o morrer.” (João Paulo II, 1995.)

Esta cultura de morte “nos faz pensar no sentido da vida e da morte. Se tudo acabasse neste ‘primeiro tempo’ da existência, estaríamos no mais injusto dos mundos imagináveis. Existe muita maldade que fica impune. Demasiadas vítimas às quais nunca se fará justiça suficiente. Por isso, clamamos a Deus e lhe pedimos um novo tempo no qual se restabeleça a justiça.

Mas essa razão não seria suficiente. Também existe um motivo positivo que se transforma em ‘clamor de ressurreição’ ou ‘vida depois da morte’. É o Amor. Não queremos que o Amor se veja derrotado pela morte. O amor é em nós um desejo incontível, imenso, que supera todo tempo… se Deus é Amor, não o é por um pequeno espaço de tempo. Amor não tem medida, é eterno. Deus ama suas criaturas e as ama sem medida de tempo… Por isso o Amor nos ressuscitará.” (Ibid. Paredes.)

E é dessa ressurreição que o evangelho de hoje (cf. Lc 20, 27-38) nos fala. Encontramos diante de uma das páginas magistrais do que Jesus pensava sobre a vida e a morte. O profeta de Nazaré, como pessoa, como ser humano, se pergunta, e lhe perguntavam, ensinava e dava respostas até às ridículas e prosaicas perguntas dos saduceus, como no caso da viúva dos sete irmãos!

Jesus recorre às tradições de seu povo, aos “pais da fé”: Abraão, Isaac e Jacó. Mas é justamente sua concepção de Deus como Pai, como bondade, como misericórdia, o que lhe levava a ensinar que nossa vida não termina com a morte. Um Deus que simplesmente nos deixasse morrer, ou que nos deixasse na insatisfação desta vida e de seus males, não seria um Deus verdadeiro. É que a questão da outra vida, na mensagem de Jesus, tem a ver com a concepção de quem é Deus e quem somos nós. Ele tem um argumento que é inteligente e respeitoso: não teria sentido que os pais houvessem posto sua fé em um Deus que não dá vida para sempre. O Deus que se revelou na sarça ardente no Sinai a Moisés é um Deus libertador do povo da escravidão e é libertador da escravidão que produz a morte. Daí que Jesus proclame com força que “Deus é um Deus dos vivos, não dos mortos”. Para Ele “todos estão vivos”; fomos criados para a vida e não para a morte.

É verdade que sobre a outra vida, sobre a ressurreição devemos aprender muitas coisas e, sobretudo, devemos “repensar” este grande mistério da vida cristã. Não podemos fazer afirmações e proclamar tópicos como se nada houvesse mudado na teologia e na cultura atual. Jesus, em seu enfrentamento com os saduceus, não somente se permite desmontar sua ideologia fechada, materialista e “ateia” em certa forma. Também corrige a mentalidade dos fariseus que pensavam que na outra vida tudo devia ser como nesta ou algo parecido. Devemos estar abertos a não especular que ressurreição ocorrerá no final dos tempos. Devemos estar abertos a crer na ressurreição com um dom de Deus, como o acabamento final de sua obra criadora em nós. E devemos estar abertos a “repensar”, como Jesus nos ensina neste episódio, que nossa vida deve ser muito diferente desta que tanto nos seduz, ainda que sejamos as mesmas pessoas, nós mesmos, os que temos de ser ressuscitados e não outros. Devemos “repensar” como fazer do cristianismo uma religião coerente com a possibilidade de uma vida depois da morte. Será precisamente a fé, o que faltava aos saduceus e que era presente nos macabeus, o grande desafio a nossa cultura de morte e a nossa mentalidade desumanizada. Se negarmos a ressurreição, negamos nosso Deus, o Deus de Jesus que é um Deus de vivos e que dá a vida verdadeira na verdadeira morte.

padre José Assis

Bibliografia

Textos e referências bíblicas: Bíblia de Jerusalém. São Paulo, Paulus, 2002.

Casarin, Giuseppe. Leccionário Comentado, Tempo Comum semanas XVIII-XXXIV. Lisboa (Portugal) Paulus, 2010.

Paredes, Jose Cristo Rey García. A Liturgia da Palavra Comentada, Anos A,B e C. São Paulo, Ave Maria, 2011.

João Paulo II. Carta Encíclica Evangelium Viatae. Vaticano, Libreria Editrice Vaticana, 1995

 

 

Temos uma vida e a amamos muito, mesmo vivendo em situações difíceis. É bom viver!

Contudo, tendo uma vida feliz, realizada, ou ao contrário, uma vida infeliz, ela inevitavelmente terminará um dia. E aí? Diz um ditado: "Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe", tanto a alegria e o prazer, após terem sido vividos, são como nada. Apenas permanecem na lembrança. Do mesmo modo, a dor, a angústia, o sofrimento, após sua vivência pelo homem, é como se nada houvesse ocorrido, apenas fica a memória. Embora saibamos que em alguns caso as recordações - positivas ou negativas - podem deixar marcas indeléveis.

E nossa vida, em todo o seu contexto, será levada ao nada?

Alguns pensadores dizem que o homem é o ser-para-o-nada.

E a Sagrada Escritura, o que nos diz?

A primeira leitura da liturgia de hoje nos fala em ressurreição, mas não como a entendemos a partir de Jesus, mas como revivificação, uma continuação bastante melhorada desta vida e apenas para os justos, não para todos os homens.

No Evangelho encontramos um grupo de judeus ricos, os saduceus que negavam a ressurreição. Eles colocam uma pergunta que só faz sentido se, de fato, após a morte tivermos uma revivificação, uma continuação desta vida, tal como ela é, e não a ressurreição como professamos no Credo.

Jesus nos diz que os que passam desta vida para a eternidade são filhos de Deus, porque ressuscitam. Os que atravessaram a morte ganharam a filiação da Vida. Deus é vida e, por isso, terão a vida plena, sem limites. São filhos de Deus, da imortalidade, da plenitude do Amor.

Portanto, o modo como vivemos, como enfrentamos as coisas boas e difíceis desta vida, demonstrará nossa fé na ressurreição.

Será como uma nova gestação em que é gerado o homem espiritual, aquele que nascerá de acordo com a imagem de Deus, e, por isso, sua casa será a do Pai.

Desde agora podemos viver como ressuscitados, nos diz São Paulo na segunda leitura. Apesar dos sofrimentos cotidianos, resistamos a eles e peçamos ao Senhor que nos confirme na consolação eterna e na feliz esperança da vitória plena de Cristo.

Existe outro dito brasileiro que possui um espírito bastante cristão, no sentido de enfrentar as dificuldades e crer na mudança que sucederá aos sofrimentos: Enfrente as quedas, não desanime, levante, sacode a poeira, dê a volta por cima!

E para concluir com a Bíblia, podemos recordar o que nos diz o Salmo 30 no versículo 6: "O choro pode durar uma noite, mas a alegria virá ao amanhecer".

padre César Augusto dos Santos, SJ

 

 

Creio na ressurreição da carne

Estamos para terminar o Ano da Fé, convocado por Bento XVI e confirmado pelo papa Francisco, no qual foram assumidas muitas iniciativas em vista de um aprofundamento das verdades que sustentam a vida cristã. Muitas pessoas aprenderam de novo a profissão de fé chamada "niceno-constantinopolitana" que, ao lado do "Símbolo dos Apóstolos" expressa, de forma resumida e precisa, o que nós cristãos acreditamos.

A fé é dom recebido e oferecido, a modo de testemunho e anúncio, a todas as gerações da humanidade, a partir do acontecimento que é Nosso Senhor Jesus Cristo, reconhecido por todos os cristãos como Senhor e Salvador. Sabemos que o Espírito Santo espalha sementes do Verbo de Deus em todos os recantos da humanidade, fazendo com que o anseio pela verdade se encontre no coração dos homens e mulheres de todos os tempos. Entretanto, seríamos os cristãos dignos de dó se não existisse a convicção profunda a respeito do que acreditamos. É inclusive condição indispensável para dialogar com quem pensa diferente de nós o conhecimento e a certeza da fé, com a qual nos dignificamos e somos valorizados. Não oferecemos a fé cristã numa espécie de supermercado de ofertas consideradas "iguaizinhas", mas a professamos com dignidade, dando testemunho, vivendo com coerência e oferecendo aos outros o anúncio da Boa Nova do Evangelho.

Desde o Antigo Testamento e passando por toda a história da Igreja, há homens e mulheres cuja coerência nos edifica e sustenta: "Com tamanha nuvem de testemunhas em torno de nós, deixemos de lado tudo o que nos atrapalha e o pecado que nos envolve. Corramos com perseverança na competição que nos é proposta, com os olhos fixos em Jesus, que vai à frente da nossa fé e a leva à perfeição" (Hb. 12,1-2). A conhecida saga dos Macabeus, em tempo de perseguição acirrada, é um dos significativos exemplos. Assim descreve a Escritura: "Sobremaneira admirável e digna de abençoada memória foi a mãe, a qual, vendo morrer seus sete filhos no espaço de um dia, soube portar-se animosamente por causa da esperança que tinha no Senhor. A cada um deles exortava na língua dos seus antepassados, cheia de coragem e animando com força viril a sua ternura feminina. E dizia-lhes: 'Não sei como viestes a aparecer no meu ventre, nem fui eu quem vos deu o espírito e a vida. Também não fui eu quem deu forma aos membros de cada um de vós. Por isso, o Criador do mundo, que formou o ser humano no seu nascimento e dá origem a todas as coisas, ele, na sua misericórdia, vos restituirá o espírito e a vida. E isto porque, agora, vos sacrificais a vós mesmos, por amor às suas leis'" (cf. 2Mc. 7,1-14). E os filhos, quase como em refrão, proclamavam a certeza da ressurreição para a vida eterna, que é dada por Deus!

Jesus, numa discussão com os saduceus, acentua a verdade da ressurreição dos mortos e a certeza de que Deus é Deus dos vivos (Lc. 20,27-38). E chegamos a um dos pontos cruciais de nossa fé cristã, diante de convicções tantas vezes diferentes com as quais convivemos no dia a dia, a fé na ressurreição dos mortos e na vida eterna. Reafirme-se o respeito às pessoas que pensam de outra forma, mas não é possível, para nós cristãos, omitirmos as razões de nossa esperança.

Acreditamos em Deus, que nos dá uma vida só, a ser entregue em suas mãos, quando terminar o curso de nossa aventura terrena, pois "está determinado que os homens morram uma só vez, e depois vem o julgamento" (Hb. 9,27). Quem nos salva e nos introduz na vida eterna não são eventuais e sucessivos retornos a esta terra, mas os méritos de Jesus Cristo, Senhor, Salvador e Redentor. Diante dele, cada pessoa se torna responsável pelos seus atos, abrindo-se ao seu amor misericordioso, para poder proclamar com toda certeza: "Pois eu sei que meu redentor está vivo e que, no fim, se levantará sobre o pó; e, depois que tiverem arrancado esta minha pele, em minha carne, verei a Deus. Eu mesmo o verei, meus olhos o contemplarão, e não a um estranho" (Jó 19,25-27).

Consequência de nossa fé na ressurreição da carne será uma grande responsabilidade do cristão diante da vida e pelos seus próprios atos. Não é possível jogar nas mãos dos outros a própria existência. Seremos, sim, irmãos e irmãs, solidários uns com os outros, mas chegará o momento de nossa páscoa pessoal em que, como uma pessoa sozinha no deserto, nua diante do Senhor, encontraremos, na maravilhosa experiência do amor misericordioso, fogo que purga como ao ouro e à prata no cadinho, a verdade definitiva, que se chama salvação eterna! Poderemos dizer nosso sim definitivo a Deus, consequência de nossas escolhas cotidianas.

Homens e mulheres que assim acreditam se tornam semeadores de esperança. Não proclamam condenação diante de quem quer que seja, mas anunciam perdão e vida. Em nome de tais certezas, vão em busca de todos. Recolhem em cada recanto do mundo as pessoas que sofrem, fazendo brilhar diante delas o amor que abre novas estradas. Acreditar na ressurreição da carne faz ainda valorizar a própria vida, a saúde do corpo que é feito templo do Espírito Santo. E diante da vida dos outros, trata-se de admirar o verdadeiro santuário em que Deus quer habitar.

Quem assim acredita acolhe exigências fortes e salutares, como as que se encontram no Livro da Sabedoria (Sb. 1,12-15): "Não procureis a morte com uma vida desregrada, e não provoqueis a ruína com as obras de vossas mãos. Pois Deus não fez a morte, nem se alegra com a perdição dos vivos. Ele criou todas as coisas para existirem, e as criaturas do orbe terrestre são saudáveis: nelas não há nenhum veneno mortal, e não é o mundo dos mortos que reina sobre a terra, pois a justiça é imortal".

Quem assim professa a fé supera o círculo vicioso de certo eterno retorno! Sim, Deus pode ser e é original. A prova está em cada um de nós! Um dito jocoso afirma com verdade que Deus "jogou a forma fora" quando criou cada homem e cada mulher. E de surpresa em surpresa descobriremos a maravilha que é cada pessoa, destinada à felicidade eterna, pois ele não fez ninguém para a perdição. Todos, sem exceção, são candidatos à felicidade nesta terra e na eternidade, o que não nos permite passar em vão perto das pessoas, mas olhar ao nosso redor para oferecer o que estiver ao nosso alcance, em vista da realização, dignidade e salvação, a partir dos mais pobres e dos pequenos.

Quem assim acredita na vida eterna e na ressurreição da carne encontra desde já o sentido e o rumo de sua existência! Amém!

dom Alberto Taveira Corrêa

 

 

 

A nossa casa parece o céu

Anos atrás, uma criança de oito anos de São José da Costarica, fazendo a sua tarefa escolar, escreveu: "A minha casa tem só dois cômodos, duas caminhas, uma pequena janela e um gato branco. Na minha casa, nós comemos somente à noite, quando meu pai volta para casa com um saquinho de pão e peixe seco. Na minha casa somos todos pobres, mas meu pai tem os olhos azuis, minha mãe tem os olhos azuis, meu irmão tem os olhos azuis, eu tenho os olhos azuis. Também o gato tem os olhos azuis. Quando estamos todos sentados à mesa a nossa casa parece o céu".

Quantas vezes os olhos e o coração das crianças enxergam mais longe que os olhos e o coração dos adultos. Com sua simplicidade e singeleza, as crianças nos ajudam a perceber ou a lembrar do valor e do sentido verdadeiro das coisas. Para aquela criança, apesar da pobreza e da fome, a sua família reunida na mesa era um pedaço de céu. Alguns dizem que isso acontece porque elas, as crianças, sem perceber, guardam ainda em seu coração algo do lugar de onde, faz pouco tempo, vieram: o céu, onde estavam, perto de Deus, antes de nascer. É bonito acreditar nisso.

A disputa de Jesus com os saduceus, da qual nos fala o evangelho deste domingo, não é uma discussão sobre o matrimônio, como poderia parecer, mas sobre a ressurreição. O caso, irreal, apresentado pelos saduceus, fala de uma mulher que, nesta vida, teve sete maridos. Eles queriam saber de qual dos sete ela se tornaria esposa na outra vida, se houvesse mesmo ressurreição dos mortos. Jesus desmascara a insensatez da pergunta porque, diz ele, a outra vida, a ressurreição, não será uma cópia simplesmente melhorada desta vida, será algo de totalmente novo, onde não existirão mais casamentos e tudo o que eles trazem. Seremos todos "filhos de Deus", isto é amados pelo único amor que desafia e supera qualquer imaginação humana: o amor de Deus. Neste caso, mais do que o amor conjugal específico entre marido e mulher, vale a capacidade de doar-se, de querer o bem do outro - ou da outra - e assim ser, cada casal, um sinal daquela aliança de amor que Deus estreitou com o seu povo e que Jesus Cristo renovou para sempre na cruz amando até o fim a humanidade.

É sempre difícil para nós, agarrados a este planeta terra pela gravidade e pela matéria, imaginar como será a ressurreição. Mas quem diz que devemos "imaginá-la" como se os nossos raciocínios e palavras conseguissem explicá-la ou descrevê-la? A ressurreição pode ser somente objeto de fé, porque será dom do próprio Deus que se doa a si mesmo. Dom é gratuidade, não um direito. É por isso que o caminho melhor para conseguir balbuciar algo sobre a ressurreição é o caminho do amor.

Quem não consegue pensar numa existência que não seja negócio, ganância ou interesse, tem boas probabilidades de achar o céu um tédio eterno, um "fazer nada" sem sentido. O contrário deveria acontecer com aqueles e aquelas que, de uma forma ou de outra, perceberam quanto e como o amor subverte e transforma os valores materiais que o mundo adora. O amor não é questão de fazer coisas, mas de ser amados e ser capazes de amar, mesmo sem "fazer" ou articular ações na maioria das vezes. Se não fosse assim, pessoas pobres, pequenas, simples, doentes, no fundo de uma cama, com limitações físicas ou psíquicas, nunca poderiam amar. Quem pode julgar o amor e a gratidão que sente uma pessoa que por, por algum motivo, não consegue expressar este amor? Será que porque não o diz, ela não ama? E o que dizer das coisas pequenas, corriqueiras, do dia a dia, que porém alegram e preenchem nossas vidas, como o sorriso de uma mãe ou o carinho de uma criança?

Na ressurreição descobriremos, encantados, mas sem inveja e sem remorsos, o quanto grande foi o amor de pessoas desconhecidas e insignificantes aos olhos do mundo, mas grandes, muito grandes, aos olhos de Deus. Outros talvez, famosos e exaltados pelos homens, nos parecerão pequenos e mesquinhos. Mas também não haverá disputas ou classificações. Tudo será alegria porque tudo será avaliado pelo único critério que vale neste mundo e no outro, o único tesouro que não se consome: o amor.

Quantos olhos "azuis" desperdiçados existem por aí. Quanto pouco céu deixamos entrar em nossas casas. Quanto amor é barrado na porta dos nossos corações endurecidos. No entanto, quem se abre ao amor está a caminho da ressurreição. Os meus olhos são meio verdes e meio azuis. Não dá para mudar a cor deles, mas o meu coração sim. Todos nós podemos.

dom Pedro José Conti

 

 

Primeira leitura: 2Mc. 7,1-2.9-14

O capítulo sétimo de 2º livro dos Macabeus “é uma das páginas mais comoventes de toda a Bíblia, mostrando que o tempo de perseguição se torna ocasião de educar, para o testemunho capaz de enfrentar até o sacrifício da própria vida”. Este capítulo pode ser chamado de: “A paixão dos Santos Macabeus”. A mãe com seus sete filhos sofrem o martírio para não negarem sua fé no Deus da vida. Na luta pela vida, a última palavra não pertence aos grandes deste mundo, mas a Deus. Estamos no séc. II a.C., no tempo da dominação grega. O povo mesmo sendo judeu tinha que adotar a cultura grega e seu modo de viver. Ou se vivia segundo os costumes gregos ou se era torturado até à morte. A Lei judaica proibia comer carne de porco, mas os dominadores, os opressores obrigavam, sob pena de morte, a transgressão dessa Lei. Naquele tempo, os opressores, obrigando o povo a transgredir o que era lei para eles, queriam acabar com a identidade e a tradição que mantinha unido o povo de Deus. Essa lei no Novo Testamento foi superada. Leia por exemplo (At. 10,9-16; Cl. 2,16-17; Mc. 7,15.18-19).

O texto mostra que, apesar da crueldade dos torturadores, os irmãos Macabeus e sua mãe resistem até à morte, com uma força sobrenatural por causa de sua fé na ressurreição dos mortos. É a primeira vez que vemos no Primeiro Testamento, com clareza, a fé na ressurreição dos mortos. O texto mostra também que para os opressores não haverá ressurreição para a vida (v. 14b). O sangue frio e a maldade dos opressores podem-se ler nos vv. 3-5, em que se fala em cortar a língua, arrancar o couro cabeludo, mutilar os membros do corpo e, por fim, assar numa assadeira o corpo dos mártires. Você teria coragem de testemunhar sua fé com o martírio?

Segunda leitura 2Ts. 2,16-3,5

As cartas autênticas de Paulo são apenas sete: Romanos (Rm.), Primeira e Segunda aos Coríntios (1 e 2 Cor.), Gálatas (Gl.), Primeira aos Tessalonicenses (1Ts.), Filipenses (Fl.) e Filêmon (Fm.). Alguns estudiosos ainda acrescentam 2Ts. e Colossenses (Cl.). Particularmente não consideramos a 2Ts. como carta autêntica. Por isso usaremos o nome de “Paulo” entre aspas.

Os vv. 16 e 17 do 2º capítulo são o finalzinho de uma oração de ação de graças que “Paulo” faz pela predileção de Deus pela comunidade, sua vocação, sua fé e sua firmeza nas tradições. De Deus vem o amor, o consolo e a esperança feliz. É dele também que a comunidade recebe ânimo, força para, não obstante as perseguições, agir segundo a fidelidade e a bondade. No início do capítulo 3o, Paulo pede as orações da comunidade, para que a Palavra do Senhor se espalhe rápida e seja bem acolhida. Pede também orações, para que Deus livre a ele e seus colaboradores dos homens, que não têm fé, ímpios e maus, homens, que se opõem ao projeto divino. O cristão vive em constante luta contra o poder do Maligno, que se manifesta em todo tipo de maldade, violência, injustiça e impiedade. Mas o cristão luta com uma certeza: Deus é fiel. Ele mantém os fiéis firmes e os guardará das forças do Mal. Deus não abandona seu povo, mas caminha com ele. “Paulo” termina, expressando sua certeza também na fidelidade da comunidade às suas orientações. O desejo final é que o Senhor dirija o coração de todos para o amor a Deus e a perseverança de Cristo. Esta expressão num contexto de perseguição quer, naturalmente, invocar a coragem e a resistência de Cristo, que enfrentou de cabeça erguida a perseguição, o sofrimento e o martírio (ver também o exemplo dos irmãos Macabeus).

A palavra “testemunho” é sinônimo de martírio. Você tem o costume de suportar sofrimentos para manter a autenticidade do seu testemunho no seu trabalho evangelizador?

Evangelho: Lc. 20,27-38

Os saduceus questionam Jesus

Em Jerusalém, Jesus vai enfrentar diversos conflitos com os donos do poder e os donos do saber: chefes dos sacerdotes, doutores da Lei e anciãos (20,1.19-20). O conflito registrado no texto de hoje é com os saduceus, que representavam a aristocracia conservadora. Este partido era composto pelos chefes dos sacerdotes, nobreza sacerdotal e leiga e latifundiários, ou seja, os anciãos. Eles não acreditavam na ressurreição (v. 27). Apresentam para Jesus uma questão a propósito da lei do levirato de Dt. 25,5-10. Se seu irmão casado morresse sem filhos, você teria obrigação de desposar a viúva, para suscitar descendência para o seu irmão. Morrer sem descendência era considerado um castigo de Deus. A lei do levirato visava também proteger o patrimônio da viúva. A pergunta dos saduceus revela a falta de fé na ressurreição. Uma mulher casou, por causa da lei do levirato, com sete irmãos, sucessivamente, após a morte de cada um deles. Depois ela também morreu. Na ressurreição, de quem ela será esposa?

A resposta de Jesus

1o momento – Jesus, primeiramente, afirma que o mundo dos ressuscitados é diferente do mundo presente. Aqui homens e mulheres se casam, lá não. A expressão de Jesus “os que Deus julgar dignos da ressurreição” lembra o aspecto de recompensa pela luta em favor de um mundo mais digno, mais justo e mais fraterno. Esta preocupação social estava bem longe dos pensamentos e atitudes dos saduceus, que se identificavam com aqueles que comandavam e oprimiam. No v. 36 Jesus diz que os ressuscitados serão como anjos, para mostrar a impossibilidade de se descrever a vida em plenitude. Quer dizer, lá não teremos os problemas, angústias e vicissitudes da vida presente.

2o momento – Jesus referindo a Ex. 6,6 afirma que a esperança da ressurreição se baseia na revelação do Deus da vida, do Deus de Abraão, Isaac e Jacó. Se eles não estão vivos em Deus, Deus estaria negando a si próprio, enquanto Deus da vida. “Deus, portanto, conclui Jesus, não é Deus de mortos, mas de vivos, pois todos vivem para ele”.

Pode alguém realmente acreditar em Jesus sem acreditar na ressurreição?

dom Emanuel Messias de Oliveira

 

 

 

“Deus dos vivos”

“A Ressurreição transforma”

No evangelho de hoje Jesus ensina alguns pontos fundamentais de sua doutrina. Afirma a ressurreição dos mortos e seu sentido. A esperança na ressurreição é superior a todos os sofrimentos, como lemos no suplício dos sete irmãos e sua mãe. Este texto de Macabeus é colocado para explicar que a ressurreição dos mortos conduz à vida eterna: “Um dia Deus nos ressuscitará” (2Mc. 7,14). Os saduceus, que não acreditavam na ressurreição. Para provocar Jesus, apresentam o caso de uma mulher que se casou com sete irmãos um após o outro, e não teve filho com nenhum e  também ela morreu. Era uma lei para os judeus que o irmão devia dar descendência ao irmão que falecera sem filhos. De quem será esposa, se foi esposa dos sete? Jesus acena à visão de Moisés na qual Deus se chama de o Deus de Abraão, Isaac e Jacó. Quer dizer que são vivos. Assim também, para nós que ressuscitaremos, o modo de vida é diferente, pois é vida de ressuscitados. A vida é a mesma, mas de outro modo e é total. Nela, o espiritual preenche totalmente o ser humano. Vamos nos conhecer e amar muito mais, pois nos conhecemos em Deus que é o total da vida. O povo pergunta: “Vou encontrar e conhecer os meus queridos que se foram?” Não os conheceremos na fragilidade humana, mas na grandiosidade Divina que é muito mais. O conhecimento será muito maior, pois é a vida de imortais. Seremos como os Anjos. O gozo espiritual é infinito, pois supera tudo o que um coração humano possa desejar e sonhar. Seremos nós, mesmos, na dimensão da participação de Deus. Jesus afirma que a vida não termina aqui e que a vida futura não é igual à que temos agora, mas lhe é superior. Se o humano, físico, afetivo são maravilhosos, quanto mais será o conhecimento espiritual.

Missão de anunciar a Vida.

A leitura do martírio dos sete irmãos e de sua mãe, mostra a fortaleza diante do sofrimento e a certeza que vale mais perder a vida e ter ressurreição que desobedecer uma lei de Deus. Nada vale mais que o amor obediente a Deus. Isto já é uma proclamação da Vida Eterna. Uma fé só será robusta e saudável na medida em que preferirmos o bem maior às satisfações passageiras. Não crer na ressurreição é um convite muito claro a escolher o caminho de morte. Nada justifica a vida se não houver ressurreição. Nós vimos esta mesma fortaleza nos mártires de todos os séculos. Depois de dado momento de seu sofrimento, recebem um dom de fortaleza imenso, pois se unem ao Cristo que sofre neles. Continuamos em nosso corpo o que falta ao Corpo de Cristo que é a Igreja (Cl. 1,24). Fazemos nossa parte de sofrimento porque cremos na glória da Ressurreição. Esta força nós a conquistamos na oração pela qual nos robustecemos e pela qual ajudamos a pregação do evangelho da Vida. O Senhor conduz os corações para o amor de Deus.

Ressurreição começa agora

Jesus diz que quem crê tem a vida eterna (Jo 6,47). E também: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6,54). Pela fé e pelo sacramento da Eucaristia temos a garantia da ressurreição para a vida eterna. Esta começa aqui, pois somos transformados. Vivendo a Ressurreição estamos a serviço do Senhor e seu Reino: “inteiramente disponíveis nos dediquemos ao vosso serviço” (Oração). Celebrar para viver (Oferendas). Para isso pedimos que perseverem na sinceridade do vosso amor aqueles que foram fortalecidos pela infusão do Espírito Santo.

 

1.Jesus ensina sobre a ressurreição dos mortos e seu sentido. A liturgia usa o texto do suplício dos irmãos Macabeus para explicar que a ressurreição conduz à vida eterna. Os saduceus que não acreditavam na ressurreição apresentam um caso a Jesus para testá-lo. Explica que Deus é dos vivos e não dos mortos. A vida dos ressuscitados é a mesma, mas diferente, superior. Não mais o corporal domina a pessoa, mas o espiritual. É um ganho, pois leva o ser humano à plenitude.

2. A leitura de Macabeus mostra a fortaleza diante do sofrimento e a certeza que vale mais perder a vida e ter a ressurreição que desobedecer a lei de Deus. É uma proclamação da Vida Eterna. A fé será robusta quando preferimos o bem às satisfações passageiras. Nosso sofrimento está unido ao de Cristo para o bem da Igreja. Nós nos robustecemos na oração.

3. A Ressurreição começa agora. Quem crê tem a vida eterna. Quem come a carne e bebe o sangue de Cristo tem a vida eterna e será ressuscitado no último dia. Aqui começa nossa transformação. Vivendo a Ressurreição estamos a serviço do Senhor e de seu reino. Somos fortalecidos pela efusão do Espírito Santo.

Gato de milhões de vidas.

O povo diz que o gato tem sete vidas. É duro de morrer. Quem crê em Jesus tem milhões de vidas, isto é, vive para sempre. A vida presente é muito boa, com muitos prazeres. Mas a gente morre. A vida não acaba, mesmo tendo que passar problemas aqui na terra, como nos escreve Paulo. Deus dá a consolação. Na vida eterna a bondade da vida continua e muito mais.

Os saduceus contaram a Jesus a historia de uma mulher que teve sete casamentos. De quem será esposa no Céu? Jesus diz que no Céu não termina a felicidade, mas ela é diferente, muito maior. É uma felicidade de Anjos, pois não teremos mais a carne como temos agora. Se as coisas humanas passageiras são boas. Imaginemos a consistência das espirituais que são eternas!

Por isso, vemos na primeira leitura, vale a pena ser fiel a Deus e a sua lei, mesmo se morrermos por isso, com a esperança na vida eterna.

padre Luiz Carlos de Oliveira

 

 

Primeira leitura (2Mc. 7,1-2.9-14)

Mas terá Deus criado a pessoa para um destino tão cruel?

Eis a pergunta dramática para a qual é preciso encontrar uma resposta. O que diz a Palavra de Deus a respeito?

Havia um rei muito perverso, chamado Antíoco, que queria obrigar os israelitas a abandonar a fé e a prática religiosa dos seus antepassados. Para atingir os seus objetivos não hesitava em recorrer a métodos violentos.

Certo dia quis obrigar uma mãe e seus filhos a violar a lei, obrigando-os a comer carne de porco (vv. 1-2).

O trecho de hoje relata as corajosas respostas dos primeiros quatro irmãos: constituem uma profissão de fé na ressurreição dos mortos.Nunca no antigo Testamento foram feitas afirmações tão claras desta verdade.

Os sete irmãos têm a coragem de renunciar a esta vida, porque têm certeza de que Deus lhes concederá uma outra (vv. 9.11.14).

Estão convencidos de que receberão de Deus só uma vida nova por causa da fidelidade à lei.

A fé na imortalidade da alma e na ressurreição faz a família macabéia se manter firme em meio à perseguição.

Segunda leitura (2Ts. 2,16-3,5)

Na primeira parte desta leitura (vv. 16-17), são Paulo suplica ao Senhor para que confirme os corações de todos nesta disposição em seguir Jesus.

Na segunda parte (3,1-5) convida os tessalonicenses a rezar para que a para que a palavra de Deus, que já produziu tantas transformações no meio deles, se difunda e seja conhecida por todos. Como também a comunidade reze por seus diretores espirituais, para que nunca estes desanimem.

A oração mantém a pessoa unida a Deus, dá serenidade, restitui à calma e paz interior.

A oração dá forças para manter sempre o sorriso, para amar a todos e seguir os passos de Jesus sem exigir nada.

Evangelho (Lc. 20,27-38)

A narrativa de hoje apresenta um novo grupo político-religioso, do qual, até agora ainda não tinha dito nada: os saduceus.

Sabemos que os saduceus pertenciam à classe dos ricos, que colaboravam com ogoverno, que não eram benquistos pelo povo e que, do ponto de vistareligioso, eram tradicionalistas.Os chefes dos sacerdotes eram todos membros desta seita.

Um dos temas teológicos que os opunha aos fariseus era o da fé na ressurreição dos mortos.

Os fariseus defendiam esta verdade, ao passo que os saduceus a negavam. Cada um destes dois grupos defendia com firmeza a própria posição e procurava na bíblia argumento para contrapor aos adversários.

Ao ouvirem a pregação de Jesus,os saduceus observam que neste ponto, ele está de acordo com os fariseus e começa toda celeuma em relação à ressurreição dos mortos.

Jesus tomou a palavra e enfrentou o problema com seriedade. A sua resposta está estruturada em duas partes:

A primeira parte:“Os filhos deste mundo casam-se e dão em casamento, mas os do outro mundo... são iguais aos anjos... são filhos de Deus” (vv. 34-36).

Vocês não entendem nada de ressurreição. Esta é totalmente diferente da vida aqui.

Já não será preciso casar para continuar a vida dos descendentes, uma vez que se tem a vida eterna.

A ressurreição não é, porém, um despertar do sepulcro para retomar a vida de antes. Seria ridículo, absurdo e cruel, se Deus fizesse uma coisa dessas.

A vida com Deus é uma realidade completamente nova. O ser humano se torna um ser diferente, imortal, igual aos anjos.

Nós,os vivos, somos como a criança que ainda se encontra no ventre materno e espera a hora do nascimento; os nossos irmãos falecidos, ao invés, já entraram para vida nova.É com a vida deste mundo que devemos nos preocupar.

A outra, devemos aguardá-la como um dom maravilhoso que o Pai reserva para todos os seus filhos.

A segunda parte (vv. 37-38) é constituída por uma clara afirmação sobre a verdade da Ressurreição.Nós não podemos imaginar como será a vida com Deus,mas temos certeza que, depois da morte, a pessoa continua a viver.

A prova que Jesus apresenta para convencer os saduceus é a seguinte: “O Senhor, Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, não é o Deus dos mortos, mas dos vivos, porque todos vivem por ele”.

 Isto quer dizer que ele ainda estavam vivos, pois, se assim não fosse, Moisés e depois dele todos os israelitas, teriam invocado um Deus dos mortos.

Jesus nos afirma que nosso Deus não é o Deus dos mortos, mas dos vivos, porque todos dele recebem a vida.

Nos primeiros séculos da Igreja, o critério para identificar os cristãos era outro. Eis como o formulava Tertuliano, um cristão ilustre, que viveu mais menos cem anos depois dos apóstolos: “A esperança cristã é a ressurreição dos mortos: tudo o que somos, o somos na medida em que acreditamos na Ressurreição”.

O que distingue o cristão das outras pessoas não é uma moral heróica, mas a certeza de estar unido com cristo, de estar destinado a passar com ele da morte para a vida.

Não devemos pensar a Ressurreição como mero prolongamento desta vida aqui. Nem como reencarnação, que seria como uma segunda chance no vestibular,sem mudança radical.

A Ressurreição é uma realidade totalmente nova, divina, livre das limitações da vida terrena.

A “ressurreição da carne” é uma transformação radical, que tornará nossa “carne”, a existência humana, totalmente diferente.

Devemos, sobretudo entender que a Ressurreição é a consagração e confirmação do amor a Deus e ao próximo que tivermos vivido aqui na terra. A única coisa que levaremos para o além.

Resumo

Não só alguns, mas “todos vivem”, afirma Jesus no Evangelho de hoje. Estas palavras do Mestre constituem o tema que une as leituras deste domingo. Quando falamos da Ressurreição, contudo, devemos prestar atenção: poderíamos interpretá-la de forma errônea, poderíamos considerá-la como os fariseus e os saduceus do tempo de Jesus, como um aperfeiçoamento da vida deste mundo. Desta idéia errada surgiu a hilariante estória da mulher com sete maridos e ainda surgem hoje às incompreensões entre crentes e descrentes. A primeira leitura nos traz a primeira afirmação solene da Bíblia sobre a vida além da morte. Esta verdade central da nossa fé será mais tarde revelada em toda a plenitude por Jesus. A fé na ressurreição modifica todo o nosso modo de considerar a existência da pessoa. Deve, pois, ser alimentada com a oração que são Paulo nos recomenda na segunda leitura.

padre Paulo Afonso Mendes