CATECISMO  DO  CATÓLICO  HOJE (1)

1. Você procura, Deus procura

Você: um ser humano que procura a Deus

Desde a época em que você aprendeu a falar, você faz perguntas que revelam algo absolutamente fundamental a seu respeito: o fato de você possuir um intelecto que indaga.

Por toda a sua vida você sempre quer alguma coisa, e percebe que você está constantemente tomando decisões, dizendo SIM a isto, NÃO aquilo. Essas experiências revelam outra coisa básica a seu respeito: o fato de você possuir uma vontade livre, o poder de querer e de escolher.

Com o passar do tempo, você muda quanto à aparência corporal, e sua maneira de considerar a vida se transforma e se aprofunda. Mas o essencial em você, o "eu" por detrás de seu olhar, permanece a mesma pessoa. No seu íntimo, você está constantemente se esforçando, procurando aquilo para que foi criado. Este anseio, cerne espiritual do seu ser, tem sido chamado com muitos nomes. Os mais comuns são alma ou espírito.

A realidade última que você procura, que está presente em toda coisa que você almeja, também tem sido chamada com muitos nomes. O nome mais comum para esta última "Realidade real" é Deus. Você está tão ligado a Deus, que sem Ele você não viveria, nem se moveria, nem teria seu ser. Você está tão ligado a Deus, que se você não sentisse sua presença de alguma forma, você consideraria a vida como sem sentido e deixaria de procurar.

Deus: o Divino Amigo que o encontrou

Ao mesmo tempo em que você procura Deus, Deus o procura. A Constituição Dei Verbum do Vaticano II sobre a Revelação Divina exprime-o nestes termos: "O Deus invisível, levado por seu grande amor, fala aos homens como amigos, e com eles se entretém para os convidar à comunhão consigo, e nela os receber"(nº 2).

Como católico, você é chamado a procurar Cristo e encontrá-lo. Mas não é você, por sua própria iniciativa, que dá início a esta procura. A iniciativa é toda de Deus. Todos os que seguem a Cristo estavam outrora perdidos, mas foram procurados e encontrados. Primeiro foi Deus quem procurou você e no Batismo o fez visivelmente seu. O que Ele agora quer é que você o procure. Dum modo misterioso, toda a sua vida com Deus é uma contínua procura, em que dois amantes - você e Deus - se buscam mutuamente, embora cada um já possua o outro.

2. Revelação, fé, doutrina e dúvida

Revelação e fé

Deus o procura - e é por isso que Ele quis "manifestar-se e comunicar-se a si mesmo e os decretos eternos de Sua vontade acerca da salvação dos homens" (Dei Verbum, nº 6). Na revelação, Deus não apenas comunicou informações; comunicou-se a si mesmo e você.

Sua resposta pessoal à comunicação que Deus faz de si mesmo e de sua vontade, chama-se fé. "Pela fé o homem livremente se entrega todo a Deus, prestando 'ao Deus revelador o obséquio pleno do seu intelecto e da sua vontade', e dando voluntário assentimento à revelação feita por Ele"(Dei Verbum, nº 5).

A doutrina católica

As doutrinas básicas (os dogmas) da Igreja são a expressão verbal daquilo que Deus nos revelou a respeito da nossa relação com Ele. A característica principal dos dogmas da Igreja é que eles estão em sintonia com a Sagrada Escritura. Estes ensinamentos exprimem o imutável conteúdo da revelação, traduzindo-o para mutáveis formas de pensar e de falar, usadas pelo povo de cada nova época e cultura. Dogma é a afirmação de uma verdade, a formulação de algum aspecto da fé. Finalidade de cada dogma é apresentar à nossa mente a pessoa de Jesus Cristo sob determinado ponto de vista. Sendo um conjunto coerente de doutrinas, o dogma da Igreja é uma interpretação fiel da comunicação que Deus fez de si mesmo à humanidade.

Fé e dúvida

No entanto, as fórmulas dogmáticas da Igreja não são o mesmo que a revelação que Deus fez de si; são os meios pelos quais os católicos situam sua fé em Deus. Deus manifesta e comunica o mistério oculto de si mesmo através do ensino da Igreja. Este ensino é semelhante aos sacramentos, pelos quais você recebe a Deus. Mediante as fórmulas doutrinais você alcança o próprio Deus no ato pessoal de fé.

A vida de fé é extremamente pessoal e delicada, e essencialmente misteriosa. A fé é um dom de Deus e somente Deus sabe quem a possui. Podemos, porém, supor que Deus seja generoso em conceder tal dom, e não devemos pressupor que alguém dele esteja privado.

Alguém pode não ter a genuína fé por sua própria culpa; somos livres, mesmo para rejeitar a Deus. Mas quando alguém "duvida", não tiremos conclusões apressadas. Por exemplo, há pessoas que só se lembram de seu pai como um homem que as fez sofrer. Em conseqüência, tais pessoas não conseguem chegar a crer em Deus como o seu "bom Pai". Não se trata de falta de fé. O que falta são imagens da memória, pelas quais elas poderiam sentir Deus como Pai. Imagens mentais negativas podem impedir alguém de acolher a revelação pessoal de Deus numa determinada forma, mas tais imagens não conseguem bloquear todas as formas pelas quais a gente percebe e exprime o mistério de Deus. Deus, que nos procura constantemente, procura-nos até que o encontremos.

Pode suceder que alguém, que esteja à procura de uma visão mais profunda da realidade, tenha dúvidas algumas vezes, mesmo a respeito do próprio Deus. Tais dúvidas não indicam necessariamente uma falta de fé. Podem até mesmo significar o contrário: prova de uma fé em crescimento. A fé é algo vivo e dinâmico. Ela procura, pela graça, penetrar no próprio mistério de Deus. Se uma determinada doutrina de fé "já não tem sentido" para alguém, esta pessoa deve continuar a pesquisar. Saber o que uma doutrina afirma, é uma coisa; conseguir uma compreensão mediante o dom do entendimento é outra coisa. Quando estiver em dúvida, "procure e você encontrará". Quem procura lendo, debatendo, pensando, rezando chegará um dia a ver a luz. Quem fala com Deus mesmo quando Deus "lá não está" está em dia com sua fé. 

3. Um só Deus, Três Pessoas Divinas

A Igreja Católica ensina que o insondável mistério que chamamos Deus, revelou-se à humanidade como uma Trindade de Pessoas: Pai. Filho e Espírito Santo.

Três pessoas, um só Deus

O mistério da Trindade é a doutrina central da fé católica. Sobre ele estão baseados todos os outros ensinamentos da Igreja. No Novo Testamento há freqüente menção do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Uma leitura atenta destas passagens escriturísticas leva-nos a uma inconfundível conclusão: cada uma destas Pessoas é apresentada como tendo qualidades que só a Deus podem pertencer. Mas se há apenas um só Deus, como pode ser isso?

A Igreja estudou este mistério com grande solicitude e, depois de quatro séculos de investigações, decidiu expressar a doutrina deste modo: Na unidade da divindade há três Pessoas - o Pai, o Filho e o Espírito Santo - realmente distintas uma da outra. Assim, nas palavras do Credo de Atanásio: "O Pai é Deus, o Filho é Deus, e o Espírito Santo é Deus, e no entanto não são três deuses, mas um só Deus".

Criador, Salvador, Santificador

Todos os efeitos da ação de Deus sobre suas criaturas são produzidos pelas três Pessoas divinas em comum. Mas porque certos efeitos da ação divina na criação nos fazem recordar mais de uma Pessoa divina do que de outra, a Igreja atribui efeitos do Pai como Criador de tudo quanto existe; do Filho, a palavra de Deus, como nosso Salvador ou Redentor; e do Espírito Santo - o amor de Deus" derramado em nossos corações" - como nosso Santificador.

Crer que Deus é Pai significa crer que você é filho, ou filha; que Deus, seu Pai, o acolhe e o ama; que Deus, seu Pai, criou você como um ser humano digno de amor.

Crer que Deus é Palavra salvadora significa crer que você é um ouvinte; que a sua resposta à Palavra de Deus é abrir-se ao Seu Evangelho libertador que o liberta para optar pela união com Deus e pela fraternidade com o próximo.

Crer que Deus é Espírito significa crer que neste mundo você está destinado a viver uma vida santificada, sobrenatural, que é uma participação limitada na própria natureza divina - uma vida que é o início da vida eterna. 

4. Deus, o Pai de Jesus

O livro do Êxodo traz uma das revelações mais profundas da história humana. Esta revelação é narrada na história do chamado que Deus dirigiu a Moisés para ele ser o líder de seu povo. Falando de uma sarça ardente que, "apesar de estar se queimando não se consumia", Deus bradou: "Moisés, Moisés!" A seguir ordenou-lhe que reunisse os israelitas e persuadisse o Faraó a deixá-lo conduzir aquele povo escravizado para fora do Egito. Ao ouvir o plano divino, Moisés ficou apreensivo. E o diálogo continua: "Mas, - disse Moisés a Deus - quando eu for ter com os israelitas, e lhes disser: 'O Deus de seus pais mandou-me a vocês', se eles me perguntarem: 'Qual o seu nome?' que lhes responderei?" Deus replicou: "Eu sou quem sou". E acrescentou: "Isto dirás aos israelitas": "Aquele que É mandou-me a vocês". E Deus disse a Moisés: "Então dirás aos israelitas: 'O Senhor, o Deus dos seus pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó, mandou-me a vocês...' " (Êx 3, 13-15).

Nesse diálogo (e em outros semelhantes, veja Jz 13, 18 e Gn 32, 30) Deus de fato não deu a si mesmo um "nome". Recusa-se a dar uma "chave" que poderia fazer o povo pensar que tinha poder sobre Deus. Deus diz, com efeito, que Ele não é como um dos muitos deuses que o povo adorava. Ele se oculta, mostrando assim a distância infinita entre Ele e tudo quanto nós, seres humanos, tentamos conhecer e controlar.

Mas mandando a Moisés que dissesse "Aquele que É mandou-me a vocês", Deus também revela algo muito pessoal. Esse Deus que "é", que supera todas as realidades que passam, não está desligado de nós e do nosso mundo. Ao contrário, esse Deus que "é" revela que Ele está com vocês. Ele não diz o que Ele é em si mesmo. Ele revela, porém, quem Ele é para você. Nesse momento capital narrado no Êxodo (e explanado mais adiante no Livro de Isaías, cap. 40, 45), Deus revelou que Ele é o seu Deus, o "Deus de seus pais" - o insondável mistério que está com você para sempre, com você para além de todos os poderes da morte do mal.

O Deus que se revela no Antigo Testamento tem duas características principais. A primeira e mais importante, é que Ele está pessoalmente perto de você, que Ele é o seu Deus. A segunda é o fato de que este Deus que livremente procura um relacionamento pessoal com você está para além de todo tempo e espaço. EU SOU não está ligado a nada, mas liga todas as coisas a si mesmo. Com suas próprias palavras, "Eu sou o primeiro e o último; fora de Mim não há nenhum Deus" (Is 44, 6)

Séculos após a revelação referida no Êxodo e em Isaías, o Deus misterioso da sarça ardente revelou seu nome - em Pessoa. Superando toda suposição e expectativa humana, a Palavra de Deus "se fez carne e habitou entre nós" (Jo 1, 14). Numa revelação que ofusca a mente com sua luz, Jesus dirigiu-se a EU SOU e disse: "Tu, Pai, estás em mim e Eu em ti... Eu dei-lhes a conhecer o Teu nome, e dar-lhes-ei a conhecer ainda, para que o amor com que me amaste esteja neles e eu esteja neles" (Jo 17, 21.26)

EU SOU revelou Seu nome no Seu filho. A sarça ardente atrai você para a sua luz. O Deus de Moisés, revelado em Jesus, é amor, é Pai, está em você.

5. Jesus Cristo

Jesus, Deus e Homem

A segunda Pessoa da Santíssima Trindade tornou-se um homem. Jesus Cristo. Sua mãe foi Maria de Nazaré, filha de Joaquim e Ana. José, esposo de Maria, era como um pai para Jesus. O verdadeiro e único Pai de Jesus é Deus; Ele não teve pai humano.

Concebido no seio de Maria pelo poder do Espírito Santo, Jesus nasceu em Belém da Judéia entre os anos 6 e 4 A.C.. Ele morreu no Calvário (fora da antiga Jerusalém), quando ainda era relativamente moço, provavelmente aos trinta e poucos anos.

Ele é uma só Pessoa, mas tem ambas as naturezas, a divina e a humana, É verdadeiramente Deus e é também verdadeiramente um ser humano. Como Deus, tem todas as qualidades e atributos de Deus. Como ser humano, tem corpo humano, alma humana, inteligência e vontade humanas, imaginação humana e sentimentos humanos. Sua divindade não suplanta sua humanidade, nem interfere nela e vice-versa.

No Calvário morreu realmente; experimentou a mesma espécie de morte que todos os seres humanos experimentam. Mas ao morrer, tanto na morte como depois dela, Ele permaneceu Deus.

Após a morte, Jesus "desceu aos infernos". A palavra infernos nesta frase do Credo não significa o inferno eterno dos condenados. Significa a Hades, "o mundo inferior": a região dos mortos, a condição daqueles que partiram desta vida. (Isto transparece das referências do Novo Testamento, tais como 1Pdr 3,19s; 4,6; Ef 4,9; Rom 10,9; Mt 12,40; At 2,27.31). Fundamentalmente, pois "desceu aos infernos" significa que Jesus realmente morreu e se associou aos mortos como seu Salvador. Na Liturgia, o Sábado Santo exprime esse aspecto do mistério da salvação: a "morte" ou ausência de Deus.

A oração de Jesus moribundo - "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste" (Mc 15,34) - encontra seu eco na vida de muitos cristãos. "Desceu aos infernos" exprime o brado de Jesus no desamparo da agonia, a Sua experiência de se apegar ao Pai neste momento de extrema aflição. Exprime também o que muitos católicos experimentam quando Deus aprofunda o seu amor por Ele fazendo-os sentir como é um inferno a vida sem o sentimento da sua presença.

Jesus ressuscitou dos mortos na manhã de Páscoa. Hoje Ele está vivo com o Pai e o Espírito Santo - e também no meio de nós. Ele ainda é Deus e homem, e sempre o será.

Ele vive. E Sua passagem da morte para a vida é o mistério de salvação a que todos nós somos destinados a partilhar.

Cristo, revelação e sacramento de Deus

Pela sua pregação e pela sua morte e Ressurreição, Jesus é não só o revelador, mas também a revelação de Deus. Em seu Filho. Jesus é-nos mostrado quem é o Pai. Como revelação de Deus, Jesus é não só o acesso de Deus à humanidade, mas também nosso caminho para Deus.

Jesus é o maior sinal da salvação de Deus no mundo - o centro e o instrumento do encontro de Deus com você. Por isso, nós o chamamos de sacramento original. A graça que Ele comunica a você é Ele próprio. E através desta comunicação dele, você recebe a auto-comunicação total de Deus. Jesus é a presença salvífica de Deus no mundo.

Cristo, o centro da sua vida

Hoje Jesus vem a você, influenciando positivamente sua vida de várias maneiras. Ele vem a você na sua Palavra: quando lhe é de pregada a Palavra de Deus, ou quando você lê a Bíblia com respeitosa atenção. Ele também está ativamente presente a você nos sete sacramentos, especialmente na Eucaristia. Um outro modo de você encontrar Jesus é nas outras pessoas. É o que lemos na cena do juízo final no Evangelho de São Mateus: "Então os justos lhe responderão: 'Senhor, quando foi que te vimos com fome e te alimentamos, ou com sede e te demos de beber?'... Ao que lhes responderá o rei: 'Em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a um desses meus irmão mais pequeninos, a mim o fizestes' " (Mt 25,37 - 40)

A igreja católica acredita que Jesus de Nazaré é o centro de nossas vidas e do nosso destino. No seu documento Gaudium et Spes sobre a Igreja no Mundo Moderno, o Concílio Vaticano II afirma que Jesus é "a chave, o centro e o fim de toda a história humana" (nº 10). Com São Paulo, a Igreja crê que "todas as promessas de Deus encontram nele o seu SIM" (2Cor 1,20).