BIOÉTICA

Entrevista com dom Elio Sgreccia, assessor do papa em assuntos de bioética, vice-presidente da Pontifícia academia para a vida e professor de bioética no Hospital escola Agostinho Gemelli de Roma.

Dom Sgreccia, de uma forma bem simples, como o senhor define a bioética?

Esta disciplina saiu nos anos 70 nos Estados Unidos. A palavra bioética significa antes de tudo o querer estabelecer princípios éticos quando se trata da vida, sobretudo da vida humana sobretudo neste tempo em que o progresso da ciência genética, da ciência médica e da pesquisa científica chega a poder introduzir-se no íntimo da vida. A genética moderna, de modo especial, começou seu desenvolvimento através de um padre jesuíta, Mendel, no século final do século 19. Ele nos instruiu como foi construída a célula, como se transmitem os caracteres hereditários dos pais aos filhos, porque descobriu exatamente os elementos constitutivos da célula humana, os genes.

O que são luzes e o que são trevas nesta ciência hoje?

Hoje, através destas descobertas, se podem fazer coisas belíssimas pelo bem da humanidade. Por exemplo se podem descobrir remédios que não são feitos com a química, com os minerais ou com as plantas, mas são feitos com as próprias células humanas. Hoje, se fala das células-tronco, células que estão dentro do nosso próprio corpo e que fazem o papel de um médico, porque quando um órgão se enfraquece elas vão socorrer e sanar esta situação. São as células primeiras produzidas pelo nosso organismo e permanecem nele e servem para curar diversos órgãos. Recentemente a ciência as descobriu e agora as utilizam. Elas são extraídas do sangue, do cordão umbilical de uma criança para depois tratar da saúde destas pessoas. Esta é uma grande descoberta da ciência que trará muito benefício para a humanidade. Porém, estas descobertas podem ser usadas, como a energia atômica, para o mal da humanidade. Assim hoje há quem pense tomar estas células do embrião humano matando esse embrião.

No momento aqui no Brasil existe um projeto de lei no congresso que trata da bio-segurança em geral que fala da questão dos transgênicos de um lado, e de outro, do uso de embriões congelados nas clínicas para experiências científicas e para extrair deles células tronco. Como o senhor nos orienta sobre esse assunto?

Deste a antiguidade todos os homens aprenderam a distinguir a dignidade do ser humano e a dignidade das plantas e dos animais. Nós podemos utilizar as plantas, cortá-las para fazer lenha, podemos colher suas frutas para nossa mesa, podemos matar os animais para fazer-nos roupas com pele ou para comer a carne. O fim destas criaturas é o de glorificar a Deus e de servir o homem. Claro, e nós podemos manipular estas plantas e animais para aumentar a produção. Temos que estar atentos, é claro, para não destruir certos espécimes de animais e vegetais e preservar a bio-diversidade, como se fala hoje. É lícito manipular plantas e animais como é lícito comê-los. A dignidade do homem, porém, é diferente. Não se pode utilizar um homem para alimentação. Seria canibalismo. E hoje há escritores que dizem que há a tentação de fazer canibalismo dentro da ciência. Quando se tomam os embriões humanos, além de saber como foram produzidos, para que foram congelados, e tomá-los para fabricar medicamentos, estamos diante de uma crueldade, porque trata-se de seres humanos. Destruí-los para fazer-nos remédios representa uma crueldade nova.

Em que a Igreja fundamenta sua autoridade para alertar, criticar, denunciar e afirmar que isto é ético, aquilo não é?

É da missão da Igreja fazer o bem e ensinar o bem para o homem. A primeira encíclica de João Paulo 2º se intitula Redemptor Hominis. Sim, Cristo foi o redentor do homem e deu à Igreja o mandato de ensinar tudo o que é bom para o homem e condenar o que se faz de mal contra ele. Ora, hoje, acontece um fato estranho. Quando o Papa fala contra a guerra ou contra as injustiças econômicas do mundo como fez em muitas encíclicas, todo mundo aplaude, tanto crentes, quanto não crentes. Quando, porém, ensina que se deve tratar bem o corpo humano e portanto a sexualidade humana que é a origem da vida, do amor e da família, quando ensina que não se deve tocar na vida no seu início, quando embrião, que não se deve reproduzir o ser humano na proveta, uma vez que 95% dos embriões são perdidos, o Papa é criticado como se fosse uma interferência indevida. Olhe, se a Igreja não falasse o próprio povo se queixaria: por que não falou? E sobretudo ela não seria fiel ao mandato do Cristo. A ciência é um grande recurso que, utilizado para o bem dizemos: muito bem! Quando alguém, porém, se serve dele para o mal ou para seus interesses devemos dizer: isso é mal!

Então não corresponde à verdade dizer que a Igreja fala uma coisa e a ciência outra, ou que a Igreja é contra a ciência e não incentiva a pesquisa científica?

Aqui no Brasil não se deveria jamais falar disso. Porque a Igreja esteve sempre próxima da ciência. O Cristo Redentor do alto do Corcovado foi iluminado de uma sala do Vaticano por Marconi. E todas as questões sociais e econômicas que há no Brasil como na América Latina sempre foram sempre iluminadas pela doutrina da Igreja católica. E muitos pastores deram a vida pela verdade e pela justiça social. Não será jamais a fé e a pregação do magistério da Igreja que atrapalhará o progresso humano.

Qual é a posição da Igreja na fertilização in vitro?

Eu creio que se o povo simples estivesse presente quando se faz a fecundação in vitro nunca mais a pediria. Porque de cerca de cem embriões feitos na proveta, apenas 5 ou 6 chegam aos braços da mãe. Todos os outros se perdem. Ou são destruídos ou congelados. Pensemos nesta crueldade. Pela primeira vez na história da humanidade esses embriões são congelados vivos. Eu lia no avião um livro de um filósofo francês que afirma que isto nem sequer os nazistas pensaram. Portanto uma grave conseqüência da fecundação artificial é a destruição dos seres humanos, que são como os demais seres vivos.

Em segundo lugar é preciso pensar que o filho precisa de um pai e de uma mãe. Deve saber que é daquele pai e daquela mãe que ele recebeu sua vida. Isto só pode acontecer quando o esposo se torna pai juntamente com a esposa e a esposa se torna mãe com a união conjugal com o marido. Neste encontro maravilhoso se encontram a vida e o amor. Na fecundação artificial quem faz desabrochar a vida é um técnico que toma as células do pai e da mãe, e os põe juntos, como se fossem sementes de ervas do campo. Sabe-se que destas manipulações, além da perda dos embriões, crescem as más formações dos filhos que nascem. O filho que nasce da proveta, ao qual devemos de qualquer forma muito respeito porque sempre se trata de uma criatura de Deus, jamais saberá quem é seu pai porque seu pai é um técnico.

As leis que existem ou as que se pensam criar não tocam nesta questão, não é mesmo?

De fato, as leis procuram manter segredo, nada dizendo sobre isso. Então o filho é verdadeiro quando nasce do amor do pai e da mãe, de um ato conjugal. A fecundação artificial semeia o mal porque separa a vida do amor do pai e da mãe, porque leva a morte muitos embriões, porque priva os filhos da verdadeira maternidade e paternidade, principalmente quando se tomam espermatozóides que não são nem do pai nem da mãe e reduzem o homem a um produto de laboratório. Por isso a Igreja se mantém contrária a este tipo de reprodução, ´por amor a verdadeira paternidade e maternidade, pela verdadeira dignidade dos filhos.

E quanto às células tronco, dom Sgreccia?

Como eu falei no início desta entrevista as células tronco são células especiais que se conservam no indivíduo também na idade adulta. São células indiferenciadas que ainda não são destinadas a um tecido do corpo humano mas podem ajudar um músculo ou órgão quando necessário. Encontram-se em todas as partes do nosso corpo porque mesmo antes de serem descobertas pelos cientistas faziam o seu trabalho de restauração dos órgãos e dos músculos. Agora que foram descobertas, podem ser tiradas do corpo. Elas se encontram em grande abundância no sangue e em imensa quantidade no cordão umbilical. Podem ser conservadas, multiplicadas e, quando necessário, introduzidas num corpo muito doente. Pode ser um coração infartado, um rim doente, um olho e, nós hoje sabemos através de experiências feitas em laboratório nos animais e muitas vezes no homem que levam a esperar muita coisa boa. Isto é bom. E nos sentimos felizes que os governos financiem estas pesquisas.

E o lado negativo da questão?

Veja, há um grupo de pesquisadores, especialmente da Inglaterra, Alemanha e França que constituíram sociedades comerciais e querem tomar estas células tronco nos embriões e fazer grandes negócios com elas, estabelecendo acordo com os que criam embriões em proveta e que têm em grande quantidade para oferecer. Aqui aparecem duas dificuldades. A primeira é que se trata de comercializar seres humanos, de criá-los antes para depois destruí-los para terem as células tronco. A segunda conseqüência que todos precisam conhecer, é que há sinais muito concretos que estas células tronco quando tiradas dos embriões não produzem o efeito que delas se espera, não produzem o mesmo efeito quando tomadas do ser adulto. Porque estas células são muito ativas. Elas têm como finalidade construir o organismo todo. Quando transferidas para um organismo doente, em vez de curar este organismo, causam tumores, porque a finalidade é organismo todo e não uma parte.

No momento, aqui no Brasil há uma grande discussão sobre os fetos anencéfalos, isto é, sem cérebro. O que o senhor poderia nos dizer sobre este assunto?

Quando me dei com esses casos, e há um caso recente, eu aconselhei a mulher a levar a gravidez até o final. Sabe-se que o anencéfalo morre muitas vezes antes do parto e algumas vezes morre logo depois do nascimento. O máximo de duração que tivemos no mundo foi de 15 dias apenas. Então eu disse à mãe para levar a gravidez até o fim e considerar o fato como a morte de uma criança que morreu após uma grave doença. Uma vez nascida esta criança pode ser batizada. Se a gravidez não chegar ao termo, a mulher estará com a consciência tranqüila por ter feito tudo que estava a seu alcance.

E quando o médico aconselha o aborto?

Quando o médico aconselha o aborto faz duas ofensas: uma contra a criança, porque aquela criança, que está gravemente doente, mantém a sua dignidade como qualquer outra criança. Ela tem direito de morrer quando a saúde já não o consegue mantê-la viva e não quando o médico decide. Segundo lugar ofende a mãe, porque fazendo o aborto ela carregará sempre em si uma ferida. Não se pode destruir a criança no seio da mãe sem que a mãe carregue depois uma ferida. E isto é dito para ajudar todas as mães a levar a termo a criança que ela concebeu. Destruir uma criança para a mãe é destruir alguma coisa dela própria.

Dom Sgreccia, voltando à clonagem, qual poderá ser o impacto destas técnicas na vida das famílias?

A clonagem é a forma mais radical da procriação artificial, da fecundação. Pensemos um momento na caminhada errada que fez este tipo de procriação. Tudo começou com a produção da fecundação dentro do corpo da mãe inserindo o espermatozóide do homem mediante uma seringa ou catéter dentro do corpo da mãe. A seringa ou catéter substituíam o ato conjugal de amor dos esposos. Pio 12 condenou este modo de reprodução humana. Mais recentemente após os anos 70, sobretudo 78, se fez a fecundação in vitro, fora do corpo humano, e eu já disse, tomando o óvulo da mulher e o espermatozóide produziu-se na proveta um novo ser humano. Muitos desses embriões acabam perdendo-se, destruídos. Alguns morrem após o transplante no corpo da mãe, 4 ou 5% conseguem nascer, alguns com graves defeitos. Tudo isso faz com que a proveta substitua o ato de amor entre o pai e a mãe, e provoca a morte de muitos embriões. O último passo é a clonagem, onde não há mais necessidade ter os dois gametas que dão a identidade paterna e materna. Portanto, é um procriação assexual como aquela in vitro e é também agâmica, sem o óvulo e o espertazoide, porque é feita tomando com uma célula qualquer do corpo, por exemplo da pele da mama da mãe, como foi feito com a ovelha Dolly. Desta célula do corpo se toma o núcleo onde estão os genomas inteiros e se introduz esta célula no óvulo de uma mulher, óvulo que foi esvaziado da sua parte de genoma. Assim se implanta no útero da mãe. Esta maneira de reprodução tem um resultado muito baixo. Foram necessários mais de 300 tentativas de fecundação. O ser que nasce desta forma é privado de um ato de amor e também sem o gene do pai ou da mãe. Tem o gene apenas de um dos dois, somente pelo gosto de fazer uma fotocópia. Além disso, se sabe que a criança nascida da clonagem envelhece muito depressa. A ovelha Dolly foi sacrificada porque era mais velha do que normal. Mas o que se torna mais cruel é que no mundo inteiro se fala: não se deve fazer a clonagem reprodutiva, sobretudo do ser humano, porque isso seria a máxima violência do homem sobre o próprio homem. Porém dizem: façamos a clonagem terapêutica. E o que seria isso? Produzir uma clonagem de embriões, depois matá-los para pegar as células tronco para curar as doenças das pessoas que produziram esses embriões. É a respeito disso que alguém falou de canibalismo. Atenção! No próximo mês de outubro de alguns países encabeçados pela Inglaterra, Alemanha proporão a proibição da clonagem reprodutiva, isto é aquela que faz nascer um indivíduo que é fotocópia daquele que doou a célula, mas proporão a permissão da reprodução terapêutica, porque isso permitiria a produção de medicamentos e o progresso da ciência. Vejam que como esse progresso se maquia um crime e não é um progresso autêntico humano. Eu sei que certos cientistas ficam indignados com o que vou dizer agora. Porém tenho de dizer que a concepção da ciência de usar o homem para produzir coisas que servem a outros homens é a mesma concepção dos médicos nazistas nos campos de concentração de Hitler.

Isto faz pensar então, dom Elio, que a Igreja tem pela frente um grande desafio que é equacionar evangelização, informação, firmeza e misericórdia, não é mesmo?

Misericórdia sempre porque a Igreja é mãe e mestra. Quando fala deve ensinar a verdade e não o erro. Seria uma péssima mestra como a professora que ensina os alunos a fazerem contas erradas. Mas uma vez cometido o erro deve fazer o possível para que quem o fez se arrependa e que não o repita mais. Não é fácil para a Igreja nem para qualquer ministro, sacerdote, bispo, administrar estas duas tarefas da Igreja, de mestra e de mãe

Eu faço uma comparação para meus alunos. Se um mestre de alpinismo deve ajudar os alunos a subir a montanha, não pode enganá-los. Se a montanha tem 4 mil metros não pode dizer que é de dois. Se há um precipício onde se pode cair e morrer, deve dizê-lo. Ele não pode abaixar a montanha para facilitar a escalada. Seria uma traição e uma ilusão. Mas o mestre de alpinismo deve caminhar junto com os alunos e se um escorrega, deve ajudá-lo a retomar o caminho e se um dá um passo a frente e dois para trás deve ajudá-lo a ter coragem e a recomeçar. Algumas vezes deve carregá-lo nos ombros e outras deve puxá-lo com a corda. Isto significa ser um verdadeiro mestre de alpinismo. Não diminuir a altura da montanha mas ajudar o aluno a subir, caminhando junto com ele.

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