Ofuscado por desinformação

um êxito terapêutico com células-tronco adultas

O extraordinário êxito científico da cura de uma criança com beta-talassemia na Itália graças a células-tronco (ou estaminais) «adultas» ficou escondido por uma campanha de desinformação com fins políticos, denunciam especialistas.

Em 6 de setembro passado uma equipe conjunta do Policlínico san Matteo de Pavía e do Policlínico de Milão anunciaram o êxito de um transplante de células estaminais hematopoiéticas extraídas do cordão umbilical de duas gêmeas de quatro meses a seu irmão, de cinco anos e afetado de beta-talassemia.

Ao «grande êxito da medicina e da biologia celular na terapia com células estaminais de adulto» - nota de imprensa -, acrescenta-se a circunstância de que as gêmeas haviam nascido por fecundação «in vitro» e sucessiva seleção embrionária levada a cabo na Turquia.

Contudo, como explica a Zenit a doutora Claudia Navarini, professora da Faculdade de bioética do Ateneu Pontifício Apostolorum em Roma, uma «Técnica clássica da desinformação» distorceu a autêntica «notícia».

O «enésimo êxito terapêutico da medicina regenerativa através das células estaminais embrionárias» converteu-se em uma «não-notícia» «louvando os "benefícios" do diagnóstico genético pré-natal e da seleção dos embriões, desencadeando um debate manipulado sobre o modo em que haviam sido obtidas gêmeas "sãs e compatíveis"».

Assim, desatou-se na Itália --constata a especialista-- uma «nova onda de propaganda a favor de um referendo para revogar a «Lei 40» sobre a procriação medicamente assistida que proíbe este procedimento», a seleção e eliminação de embriões, e que também «proíbe a pesquisa em células estaminais embrionárias».

O próprio professor Franco Locatelli, diretor da seção de Oncohematologia do San Matteo de Pavía - que levou a cabo a intervenção em 12 de agosto passado - afirmou: «A respeito do resultado do transplante, o fato de que a senhora havia se dirigido à inseminação artificial não tem nenhuma influência» (cf. «Il Corriere della Será», 8 de setembro de 2004).

A beta-Talassemia - enfermidade hereditária do sangue - «é tratada há tempos, às vezes em forma resolutiva, com o transplante de medula» procedente em geral de um «doador vivo consangüíneo para diminuir as probabilidades de rejeição», explica a doutora Navarini.

Junto a tal técnica «se vai situando» o transplante de células estaminais, «em particular das extraídas de cordão umbilical, capazes de reparar o sangue enfermo do talassemico devolvendo-lhe a capacidade de produzir glóbulos vermelhos normais», para o qual é necessário que exista «compatibilidade entre doador e receptor, verificável através da análise do sistema HLA (Human Leukocyte Antigens), idêntico em 25% dos casos em parentes próximos como irmãos ou pais, mas possível de encontrar também em não-consangüíneos», precisa.

«O caso de Pavía - explica a doutora Navarini - soma-se a uma reconfortável cifra de intervenções obtidas com remissão completa de enfermidades como a talassemia ou a leucemia nas quais se utilizaram células estaminais de indivíduos geneticamente aparentados com o paciente talassemico» --irmãos mais velhos ou menores, pais ou outros parentes--, «ou bem estaminais cordonais e placentárias de irmãos em estado fetal ou neonatal ou inclusive --raramente-- estaminais procedentes de bancos de cordão umbilical».

Esta «possibilidade de encontrar entre muitas unidades de cordões umbilicais crio-conservados aquele ou aqueles de características compatíveis com as do sangue enfermo, ainda que geneticamente não afins, levou vários países a estabelecer "bancos" similares», recorda a especialista.

O que faz «meritório» o transplante de Pavía - prossegue - «foi potenciação das células estaminais de um dos dois cordões, o que resultava mais "pobre", e que por isso foi enviado desde Pavía à "cell factory" do Policlínico de Milão», de forma que «em quinze dias as células estaminais se multiplicaram 60 vezes, estabelecendo assim um marco no desenvolvimento da medicina regenerativa e abrindo alentadoras perspectivas para o tratamento de muitos talassemicos, também adultos».

«O problema principal da terapia com as células estaminais» «reside em seu número exíguo em comparação com as ingentes quantidades das quais há que dispor para um transplante eficaz», revela.

Daí que «com o procedimento realizado pelos médicos de Milão e Pavía» «será possível expandir em laboratório a preciosa "matéria prima", expandindo, portanto, também as possibilidades de aplicação», sublinha.

Assim que «para celebrar esta vitória - incide a doutora Navarini - não é necessário molestar as células estaminais embrionárias» - «próprias do embrião nas primeiras fases do desenvolvimento e não do cordão umbilical» -, cuja obtenção é «sempre mortal para o mesmo embrião».

Em qualquer caso, a especialista sublinha o fato de que «o êxito da intervenção não depende do modo em que os cordões umbilicais que curaram o pequeno talassemico foram obtidos, contrariamente às enganosas e insistentes palavras de ordem midiática», as quais por um lado afirmaram que «graças ao diagnóstico pré-implantação, proibido na Itália, foi possível salvar uma vida», e por outro apontaram que «segundo a lei italiana as gêmeas sãs não haveriam nascido e o irmão enfermo haveria sido condenado à morte».

«O próprio resultado seria conseguido com uma concepção natural» - alerta a doutora Navarini - dado que «para dois pais portadores sãos de talassemia a probabilidade de trazer ao mundo um filho enfermo é de 25%», ainda que «falsamente» se disse que a probabilidade de gerar uma criança sã «é de uma sobre cinco».

«Os riscos de gerar outra criança talassemica existiriam, sem dúvida, como os de gerar um filho são, mas não compatível com o primeiro, mas, e este é o ponto verdadeiramente crucial, são os mesmos riscos que correm os que recorrem à proveta», afirma.

«A diferença - reconhece - é que é mais "fácil e indolor" (para os adultos!) eliminar embriões extra-corpóreos que fetos no útero materno, ou crianças já nascidas...».

O certo é que «o processo de fecundação "in vitro" ao que se submeteram na Turquia os dois pais deu origem a doze embriões - informa a doutora Navarini -, três dos quais foram implantados - um foi abortado espontaneamente -, enquanto que os outros nove foram "descartados"», ou seja, «mortos», «só porque estavam enfermos ou talvez sadios mas não compatíveis».

O resultado é que «o intento de salvar uma criança implicou a morte de outras dez, culpados só de não ter as características desejadas», quando «a fecundação "in vitro" e a seleção embrionária não são as únicas possibilidades para quem quer curar um filho talassemico», conclui.

Por sua parte, em declarações a Zenit, o doutor Giuseppe Noia - ginecologista-obstetra da Policlínica Gemelli e professor de medicina pré-natal na Universidade Católica do Sagrado Coração de Roma - criticou igualmente o fato de os meios de comunicação «utilizarem o êxito não em referência ao uso de células estaminais adultas, mas com relação à derivação destas últimas dos cordões umbilicais de duas meninas selecionadas com o diagnóstico pré-implantação. E tudo para afirmar que com a atual lei a seleção pré-implantação não se pode realizar».

«O evento científico sobre o que há que refletir é que das células estaminais adultas do cordão umbilical destas duas irmãs se extraíram células adultas que curaram o irmão enfermo», e o uso das «células estaminais adultas é exatamente o aconselhado pela Igreja Católica», recordou em declarações a Zenit o padre Ramón Lucas, membro da Academia Pontifícia para a Vida.

O sacerdote, também professor de Antropologia filosófica na Pontifícia Universidade Gregoriana, refletindo sobre as duas gêmeas nascidas «enquanto outros nove embriões foram eliminados», pôs em alerta frente a «este tipo de prática», que «favorece uma mentalidade seletiva de discriminação entre os homens, isto é, eugênica».

Agência Zenit