ENTREVISTA DA PROFESSORA ALICE TEIXEIRA

à revista “Médico Repórter”

Que argumento científico pode ser usado para manter a posição contrária a utilização de embriões na pesquisa das células tronco?

Vários:

a) a única linhagem de células-tronco embrionárias humanos (CTEH) obtidas pelo coreano Woo Hwang (veterinário) não se conseguiu ainda serem reproduzidas até mesmo pelo próprio pesquisador; surgiu por acaso.Esta linhagem foi obtida de 30 embriões humanos pela transferência nuclear de núcleos das células cúmulos do próprio ovário) para os mais de 200 óvulos de suas respectivas doadoras.

Obviamente estes 30 embriões humanos tiveram de ser mortos para se obter as suas células, sendo que cada um deles fornece entorno de 150 células.É um número irrisório para um transplante, visto que no auto-transplante de CTadultas obtidas da medula óssea utiliza-se em torno de um bilhão de CTs por mililitro, injetando-se 40 mililitros de um concentrado destas células na região lesada através de uma sonda/cateter introduzido na artéria femural,no caso de infarto do miocárdio (Dr. Dohmman, Hospital pró-cardíaco - RJ) ou doença de Chagas (Dr. Ricardo Ribeiro dos Santos - Bahia).

b) o grupo do Dr. Murdoch, da Universidade de Newcastle, Reino Unido, que é uma das 5 equipes de pesquisa a receberem aprovação para pesquisar em as CTEHs,no trabalho publicado agora em setembro (Reproduction,2004 Sep:128 (3), 259-67) afirmam:

- a cultura contínua das CTEHs num estado indiferenciado requer a presença de camada de células de roedores e de hormônios de crescimento liberados pelas mesmas,havendo o risco de transferência de patógenos (vírus ou bactérias causadores de doenças). Caso contrário elas começam a se diferenciar descontroladamente, gerando uma mistura de diferentes tecidos, perdendo a sua propalada característica de pluripotência.

- as CTEHs demonstram grande instabilidade genômica e durante o crescimento a longo tempo apresentam modificações funcionais inesperadas.

- as CTHEs quando injetadas nas patas posteriores de roedores imunossuprimidos geram tumores embrionários (teratomas) em 50% dos animais.

Estas “ descoberta” mostram que este pesquisadores não entendem nada de biologia celular, pois nós, que pesquisamos na área há 15 anos com cultura de células, já evidenciamos todos estes problemas com as chamadas células de linhagem, obtidas de tumores ou desdiferenciadas e eternalizadas.

Qual o objetivo do manifesto contra a utilização de embriões humanos em pesquisa?

Preservar a dignidade do ser humano. O ser humano não pode ser utilizado como meio de pesquisa. Como diz o prof. Alberto Oliva: “A crescente transformação do conhecimento científico aponta para o risco de as biotecnologias virem a tratar o homem não como um fim em si mesmo, mas como meio”. O utilitarismo traz de volta o mote romano: “A tua morte é minha vida”. Existe alternativa que vem sendo utilizada com relativo sucesso que é autotransplate de CT adultas obtidas da medula óssea do próprio paciente ou as CTs adultas do cordão umbelical-placenta.

Há poucos dias a lei de biossegurança liberou a pesquisa com embriões congelados. E agora, o que pode ser feito pelos grupos contrários a pesquisa? Há alguma providência em andamento?

As CTEHs dos embriões congelados não servem para se fazer terapia celular por duas razões:
1) a medida que as células se diferenciam começam a apresentar um complexo proteico - MHC- responsável pela resposta imune de tal maneira que serão rejeitadas pelo paciente. Não haverá pega do transplante e surgirá um processo inflamatório tão intenso que o levaria a morte. Assim seria necessário a utilização por toda vida de imunodepressores, nos casos de compatibilidade parcial.
2) o pior, no entanto, é a metilação descontrolada e não identificável do DNA e das histonas, nos cromossomos. Como diz a Drª. Lygia Pereira, trata-se de células detonadas. Infelizmente tais embriões humanos, tão maltratados pelo congelamento, podem gerar monstros.

Na sua opinião, quais os riscos que a pesquisa com embriões pode trazer para a sociedade?

Nos EUA oferecem 400 dólares por óvulo humano. Seria uma sedução para mulheres pobres. A Science 18 jun 2004 vol.304, 1742, Diane Schaub diz que estamos frente a nova forma de escravidão, com o espectro da criação de embriões humanos para a pesquisa e interesses dos mais ricos.

A senhora acredita que a ciência será capaz de responder as expectativas criadas em relação aos benefícios das células tronco?

Não é questão de fé, mas de muito estudo. Existem CTs em todos os tecidos e o que se precisa é investir no conhecimento sobre a sinalização celular. Talvez não será necessário fazer auto-transplante de CTs se soubermos como fazer as CTs locais se multiplicarem mais e se transformarem nas células necessárias para reparar as regiões lesadas. Sobre este conhecimento repousa também a bioengenharia tecidual. Aqui na UNIFESP o casal Mônica e Silvio Duailibi já estão conseguindo produzir dentes com CTs adultas incorporadas num biopolímero com forma de dente.

Acredita que a liberação das pesquisas com embriões pode levar a clonagem e a bioindustria?

Não só isto. É uma brecha para se tornar legal o aborto no Brasil.

Acha que o Brasil pode chegar em um consenso de legislação e de bioética para regulamentar essas pesquisas?

Primeiro é necessário separar a clonagem terapêutica dos transgênicos. Da maneira que se apresenta caracteriza o que nossos parlamentares chamam de “carona legislativa”. A introdução de clonagem terapêutica e utilização de embriões humanos congelados em pesquisa ocorreu aqui na UNIFESP,em 16 de dezembro de 2002, num reunião da CTNBio, apesar dos protestos da advogada Drª. Maria Celeste. Segundo, do ponto de vista ético, trata-se de se afirmar que o embrião humano é um ser humano. Utiliza-se um argumento estranho aos biólogos afirmando que o embrião humano não tem vida. Se não tem vida qual a sua utilidade para pesquisa biológica?!

Como a senhora vê a participação da sociedade nesta questão dos embriões?

A sociedade vem sendo desinformada pela mídia. Entrevistas que eu tenho dado só aparecem no canal universitário. Os artigos que tentamos publicar são barrados na imprensa. Na semana passada o JN da Globo apresenta um caso de auto-transplante de CTs adultas com sucesso e imediatamente surge a clonagem terapêutica, sugerindo como se tivesse sido o tratamento utilizado. E clonagem terapêutica em humanos não existe um caso publicado no mundo!!!

Esta confusão ocorreu até na Revista da APM-548, pois sob o título de clonagem terapêutica apresentaram um paciente tratado com CTs adultas por Dr.Júlio Voltarelli. Ernesto Paglia da Globo gravou uma reportagem com Dr.Júlio onde o paciente com esclerose múltipla, que se encontrava em cadeiras de roda, teve tal melhora que demonstrou o fato subindo quatro lances de escada. Até agora tal reportagem não foi mostrada.

Os pesquisadores estrangeiros que são favoráveis à clonagem terapêutica estão preocupados com a propaganda da mídia no exterior, pois não estão seguros de terem resultados a curto ou médio prazo. Para conseguir fundos públicos para suas pesquisas exacerbaram nas promessas que estão percebendo não ser possível cumprir. (9 NATURE Vol 430, 2004, 817).

Maria