QUEM  TEM  MEDO  DA  CIÊNCIA?

A decisão a ser tomada sobre o aborto, ou não, de fetos e bebês com anencefalia e sobre a liberação, ou não, do uso de embriões humanos para a pesquisa científica suscitou acesos debates na opinião pública e em vários ambientes da tomada de decisões políticas. É bom que isso ocorra, pois somente assim é possível trazer à luz os diversos enfoques e posicionamentos das questões em debate.

A posição da Igreja Católica recebeu duras críticas por ser claramente contrária ao aborto dos anencéfalos, como também ao aborto, em geral; contrária também à liberação do uso de embriões humanos para a pesquisa científica. Repetem-se as velhas acusações de obscurantismo, atitude anti-científica e medo do progresso das ciências... Estes preconceitos são invocados para não levar a sério a palavra da Igreja. É uma velha estratégia.

A Igreja não teme a ciência, nem poderia temê-la, pois a ciência traz à luz as verdades latentes da natureza, que é obra de Deus. A verdade da ciência está relacionada com a mente de Deus criador e não está em oposição à verdade da fé. Por essa razão, a Igreja incentiva o trabalho dos cientistas e aprecia o fruto maduro de suas pesquisas.

Quando os cientistas chegam à conclusão de que é possível desenvolver terapias altamente promissoras para a medicina mediante o emprego de células-tronco, isso merece admiração e aplauso. A possibilidade de alcançar a cura de doenças graves a partir do emprego de células-tronco é maravilhosa!

No entanto, passar desse conhecimento ao uso de embriões humanos para obter células-tronco envolve uma decisão de graves implicações éticas. De fato, os embriões são destruídos, para deles se obterem as promissoras células-tronco. Mas que mal há nisso? Afinal, são apenas embriões, quase invisíveis a olho nu... Aqui está o problema e se colocam perguntas que a ciência deve ajudar a responder. Nem vamos invocar motivos religiosos, neste caso.

O embrião humano é um ser vivo? A Igreja sustenta que sim. Não consta que a ciência prove o contrário. É ser humano, ou outra coisa? A Igreja defende que se trata de ser humano. Seria outra a convicção da ciência a este respeito? Sendo ser humano, embora frágil e ainda pouco desenvolvido, ele já tem dignidade humana? Devem ser respeitados os seus direitos, sobretudo o direito à vida, como para qualquer ser humano? Sim, responde a Igreja. A própria Constituição brasileira (art. 5°) dispõe que o direito à vida é inviolável para todos os seres humanos. E o artigo 4° da Convenção Americana sobre os Direitos humanos (Pacto de São José da Costa Rica), ratificada pelo Brasil em 1992, estabelece que o direito à vida começa na concepção. Algo de anti-científico nisso?

A verdade crucial é esta: o embrião não é apenas um grumo de células, mas uma vida humana, que está começando. Não é mais parte do corpo da mãe, mas um organismo distinto do dela, um novo ser humano. E esta afirmação nada tem de dogma religioso: tem base científica segura.

Não são diversas as conclusões da reflexão antropológica, de caráter filosófico: Depois que os gametas se uniram, teve início uma nova realidade, um ser com identidade própria; daí por diante, não acontece mais nenhum salto qualitativo, mas apenas um desenvolvimento quantitativo; nem se poderá mais identificar um outro momento de início da vida humana. Se aquilo não for ser humano desde o primeiro instante, não o será nunca mais.

Há quem não veja mal nenhum, nem incompatibilidade com a consciência cristã, no emprego de embriões congelados há mais tempo para a pesquisa científica; tais embriões, sobrados de processos de fecundação em proveta, de todo modo, seriam descartados e jogados na lata do lixo. Argumenta-se que esses embriões órfãos poderiam até ajudar a salvar outras vidas... Ora, se é verdade que esses embriões já têm a dignidade de seres humanos, então não podem ser empregados na pesquisa científica, mesmo se fosse para salvar outras vidas. Ninguém mataria uma criança órfã, para doar seu coração e seus rins para salvar outras vidas...

Os seres humanos devem ser respeitados pela sua dignidade própria. Tirar a vida de alguém é um mal e não se poderia praticá-lo, mesmo se fosse para beneficiar outras pessoas. Seria imoral. O ser humano deve ser sempre tido como um fim, e nunca como um meio. Esta afirmação não é religiosa, mas da boa filosofia. Foi E. Kant, grande filósofo do século XVIII, quem afirmou isso.

Muitas vezes, a Igreja foi criticada por erros de postura, ao longo da história. Geralmente por não ter feito a suficiente defesa de seres humanos. Inegavelmente, houve erros e disso o Papa João Paulo II está a pedir perdão, constantemente, com muita humildade; oxalá todas as grandes e antigas Instituições da sociedade tivessem a mesma atitude! No entanto, quando defende o ser humano contra os abusos que se cometem contra ele, a Igreja não erra. Esta deveria ser, de fato, a finalidade nobre de todas as Instituições e organizações verdadeiramente humanas.

dom Odilo Pedro Scherer - bispo auxiliar de São Paulo secretário geral da CNBB