INÍCIO  DA  VIDA  HUMANA

«Temos que ter claro que não há possibilidade de dúvida quanto ao início da vida humana. As questões como se apresentam nos meios de comunicação apenas confundem ou diminuem o impacto de se propor a interrupção ou manipulação de uma vida humana», afirma uma especialista.

Nesta entrevista concedida a Zenit, Drª. Elizabeth Kipman Cerqueira - médica ginecologista; especialista em Logoterapia e Logoteoria aplicada à Educação; integrante da Comissão de ética e Coordenadora do depto. de bioética do hospital são Francisco, em Jacareí, interior de São Paulo - explica o conceito de início da vida humana e discute questões referentes a pesquisas com células-tronco embrionárias.

A lei de biossegurança, aprovada no Brasil dia 2 de março passado, permite a pesquisa com embriões humanos. Nesse contexto, muito se discutiu sobre o conceito de vida humana, especialmente em sua fase inicial. Muitos cientistas afirmam que o zigoto (gameta feminino depois de fecundado) não passa de um emaranhado de células. Outros dizem que o “ser humano” se constituiria apenas após o zigoto atingir 14 dias, quando se dão os primeiros sinais de aparição do sistema nervoso. Há um conceito claro e universal de início da vida humana?

Os tratados de medicina continuam afirmando que o início da vida humana acontece no momento da união do óvulo e do espermatozóide. Mesmo grandes defensores do direito irrestrito da mulher ao aborto concordam com esta afirmativa. Por exemplo, Peter Singer, filósofo e professor, defensor do “direito ao aborto”, ao ser perguntado: “Para o senhor, quando começa a vida?”, respondeu: “Eu não tenho dúvida de que a vida começa na concepção”. (ALIÁS Estado de S.P, 23/01/2005). Temos que ter claro que não há possibilidade de dúvida quanto ao início da vida humana. As questões como se apresentam nos meios de comunicação apenas confundem ou diminuem o impacto de se propor a interrupção ou manipulação de uma vida humana.

Afirma-se que os embriões congelados há mais de três anos (os quais a nova lei brasileira permite que sejam utilizados em pesquisas) seriam inevitavelmente descartados. Isso é verdade?

Esta afirmativa vem de uma avaliação de % de possibilidades de sucesso de gestação caso estes embriões fossem implantados. Como a % de sucesso vai diminuindo com o tempo, usa-se delimitar este prazo. Entretanto, a literatura mundial tem publicado casos de crianças que nasceram perfeitas ao serem implantadas em útero, mesmo após terem sido congeladas por mais de 3 anos quando eram embriões. O problema é o próprio processo da fecundação “in vitro” e todas as suas conseqüências, inclusive a “sobra” de embriões que são congelados. É vida humana congelada que pode ou não vir a se desenvolver. Este argumento usado para liberar as experiências com os embriões é enganoso. Poderíamos comparar com uma afirmativa totalmente sem ética do tipo: “Experiências científicas levam à morte clínica pessoas adultas. Vamos usar os seus órgãos para transplante e acabar de matá-las, porque não voltarão a viver, sem nos importar com as experiências que provocaram as mortes”.

«A extração de células-tronco embrionárias movida por interesses de pesquisa não conduz a êxitos em experimentos e causa diretamente a morte dos embriões», diz a doutora Claudia Navarini, professora da Faculdade de bioética do Ateneu Pontifício Regina Apostolorum (Roma). Por que então tanto interesse em pesquisar com embriões e não com células adultas? 

Diversas situações se somam. Entre elas:

a) Pessoas que acham que tudo deve ser permitido à Ciência e nada pode bloquear uma possível descoberta; o próprio ímpeto de pesquisa não poderia ser interrompido;

b) Cientistas que desejam “ficar à frente” de outros países na vanguarda do progresso científico e aspiram ao recebimento de verbas para pesquisa;

c) Pessoas que têm interesse econômico e social em se “desfazer” dos embriões congelados que exigem um custo para serem mantidos (sem ou com possível lucro de venda);

d) Pessoas que se convenceram que estas células podem trazer a cura para doenças terríveis e incuráveis o que, para eles, por compaixão, diminuiria a gravidade de se usar a vida humana;

e) Pessoas que lutam por prestígio político e usam situações para chamar a atenção da população;

f) Pessoas que usam questões como estas em que o aborto e a eliminação de vida humana são camufladas, para conquistar progressivamente mais espaço até chegar ao aborto permitido sem nenhuma condição, em qualquer tempo de gestação;

g) Pessoas que desejam mudar os valores básicos de nossa sociedade e que manipulam todos os outros.

A senhora vê uma confusão entre os resultados positivos da pesquisa com células-tronco adultas e a euforia dos entusiastas pela pesquisa com embriões?

Muitos dos cientistas que têm resultado positivo com uso de células-tronco adultas não consideram adequada a pesquisa com células de embriões. A euforia foi mais de leigos. Porém, os próprios defensores desta prática, junto com a euforia da vitória conquistada, se apressaram a divulgar que não se pode prever exatamente onde se vai chegar com as células embrionárias, se serão usadas e quando poderão ser usadas. Segundo tantos cientistas pesquisadores desta área, o entusiasmo gerado pelo resultado com o uso de células-tronco adultas não justifica, de forma alguma, a insistência na necessidade de uso de células de embriões que não apresentaram nenhum resultado positivo. Ao contrário, deram sinais de perigo em seu uso, como o risco de gerar tumores, pelo seu crescimento desordenado. Ainda há muito que avançar (e maravilhas por alcançar!) com o uso das células-tronco adultas, o que não destrói vidas humanas e já apresentaram grandes conquistas terapêuticas!