USO TERAPÊUTICO DAS CÉLULAS-TRONCO

1. Que são as células-tronco?

Célula-tronco é a que tem a capacidade de dividir-se para dar origem a diferentes tipos de células especializadas.A maior parte das células de nosso organismo já estão definidas : são células nervosas, ósseas, etc. Há, porém, algumas que têm a capacidade de dar origem a várias especialidades. De acordo com essa maior ou menor capacidade, as células-tronco podem ser totipotentes, pluripotentes e multipotentes.

A utilização terapêutica das células-tronco é chamada às vezes de "clonagem-terapêutica", mas isso não corresponde plenamente à realidade. A clonagem propriamente dita é a clonagem reprodutiva, ou seja, o procedimento mediante o qual se obtém um indivíduo geneticamente igual a outro (como, por exemplo, no caso da ovelha Dolly). Com o uso terapêutico das células-tronco não se pretende formar um indivíduo completo, mas apenas conseguir células-tronco para, com elas, obter linhas específica de tecidos (ou órgãos) que, submetidos a determinado cultivo, dêem origem a células que sejam implantadas no mesmo organismo de onde procedem as células-tronco. Portanto, a esse procedimento não se pode aplicar com exatidão o termo "clonagem",mas sim o de "terapia celular" (de caráter regenerativo), mediante o cultivo de células-tronco e de sua ulterior implantação no mesmo organismo. Existe a possibilidade de utilizar essa terapia celular regenerativa em enfermidades táo graves com a de Alzheimer, Parkinson, diabetes etc.

2. Como se obtêm?

- Em primeiro lugar, dos embriões. Essas células-tronco são chamadas de embrionais. São que as que oferecem maiores vantagens para a investigação e para posterior uso terapêutico, exatamente por seu estágio ainda indiferenciado ou de maior plasticidade.

Os embriões para a obtenção dessas células-tronco podem ser:

1. Resultados de técnicas de reprodução humana assistida (fecundação in vitro) e que não se transferem para o útero em vista de uma gestação: são os embriões restantes (congelados ou não).

2. Resultados de clonagem e destinados expressamente para a obtenção de linhagens de células a serem cultivadas e depois usadas em transplante terapêutico. Essa técnica foi usada recentemente por cientistas de Seúl, que pela primeira vez assim isolaram células-tronco (fevereiro de 2004).

- A segunda fonte de células-tronco são tecidos e órgãos adultos. Há células somáticas com a capacidade de reativar seu programa genético. Estimuladas podem voltar à condição de células-tronco. Isso não acontece com todas. A reprogramação de células somáticas para convertê-las em células-tronco é uma descoberta importante da ciência e da técnica (a revista Science considerou-a como um dos maiores êxitos da pesquisa científica em 1999).

- Os embriões, os tecidos e os órgãos adultos não são as únicas fontes de células-tronco. Surgem outras possibilidades:

1. Usar fetos abortados (abortos espontâneos).

2. Usar o cordão umbilical.

3. Usar tecidos do próprio paciente (músculos, medula óssea, sistema nervoso central etc.), sem necessidade de submetê-las a processos especiais de reprogramação. Esta última técnica, em que se destacam hospitais espanhóis, começou a dar resultados positivos para a regeneração de músculo cardíaco enfartado.

3. Discernimento ético

A avaliação moral do uso terapêutico de células-tronco será diferente conforme se usem células embrionárias ou somáticas. Não se vê, de momento, que o uso terapêutico de células-tronco somáticas vá conta a dignidade da condição humana; os fins terapêuticos procurados justificam suficientemente essa atuação.

O questionamento surge quando se usam células-tronco humanas embrionais. As razões apresentadas a favor de seu uso são basicamente de ordem utilitarista: as vantagens terapêuticas dessa possível medicina celular regenerativa. Esses argumentos, porém, não levam em conta a realidade própria do embrião humano. Por outro lado, a argumentação que se nega a reconhecer o estatuto de embrião ao zigoto e ao blastócito produzidos para o uso terapêutico (considerando-os apenas um nuclóvulo) não deixa de ser, de certo modo, uma pirueta intelectual.

São muitas as instâncias jurídicas, éticas e religiosas que se opõem ao uso terapêutico de células-tronco embrionais. Entre as posições religiosas destaca-se a postura da Igreja Católica, contrária a qualquer intervenção que tenha como fim ou como meio usar embriões humanos, pois que lhes atribui toda a dignidade devida à condição humana.

Isso não impede que o Comitê Executivo da Conferência Episcopal Espanhola, em uma Nota do dia 25 de julho de 2003, tenha aprovado uma recente proposta de reforma da lei, permitindo que, em determinadas condições, se destinem à pesquisa embriões restantes, tendo em vista favorecer uma futura medicina celular regenerativa. Segundo os bispos espanhóis, "manter congelados embriões humanos é uma situação abusiva contra essas vidas, que se pode comparar com a "teimosia" terapêutica" (querer a todo o custo manter artificialmente a vida, mesmo sem levar em conta a dignidade do paciente. Nota do tradutor). Portanto, "proceder ao descongelamento é pôr fim a tal abuso e permitir que a natureza siga seu curso, ou seja, que ocorra a morte" (n.6). Por outro lado, "os embriões, que morreram ao ser descongelados nas circunstâncias mencionadas, poderiam ser considerados 'doadores' de células, a serem utilizadas na pesquisa sob estrito controle, semelhante ao que existe quando se usam órgãos ou tecidos provenientes de pessoas falecidas que os doaram para esse fim! (n7).

Geneticissta alerta: As células estaminais embrionárias não são a "panacéia de todos os males"

O professor Angelo Vescovi intervem no "Meeting" de Rímini (Itália)

Rimini, sexta-feira, 27 de agosto de 2004 (ZENIT.org).- Longe do que se pensa e se difunde, "as células estaminais embrionárias raramente surtem o efeito esperado", revelou na quarta-feira o professor Angelo Luigi Vescovi --co-diretor do Instituto de Investigação de Células Estaminais do Hospital San Rafael de Milão-- no multitudinário "Meeting" que desde o dia 22 passado acontece na localidade italiana de Rímini por iniciativa de Comunhão e Libertação.

Especialista internacional neste campo da ciência, o professor de Biologia Celular afirmou que a idéia "segundo a qual as células extraídas dos embriões sejam verdadeiramente a panacéia de todos os males não está fundada cientificamente".

De acordo com suas explicações, "as células estaminais estão presentes no organismo humano pelo feto desenvolvido até a morte do indivíduo. E estão ali para trabalhar como uma grande e extraordinária oficina de manutenção" que funciona "em todo instante do dia para substituir as células que inclusive com o mais banal dos movimentos morrem".

Assim descreveu a existência de células estaminais disponíveis para todo tipo de tecido, prontas para curar, se necessário, qualquer dano. Basta pensar que cada quinze dias todos os glóbulos vermelhos da pessoa são restabelecidos.

O professor Vescovi sublinhou que as "verdadeiras células estaminais são as dos adultos", que "em termos especialistas se denominam "somáticas" ou "plurioptentes".

As embrionárias se chamam ao contrário "totipotentes" e estão feitas para "criar, não reparar", distinguiu.

"Contrariamente a quanto difundem os meios de comunicação - avisou - as células estaminais raramente surtem o efeito esperado. Poderão inclusive revelar-se muito perigosas, criando as condições para a formação de neoplasias ou tumores".

Ao fio do anterior, precisou que o "embrião é um ser humano": "isto é inegável", declarou à publicação "Meeting quotidiano" (26 de agosto) do encontro de Rímini.

Neste contexto, o genetista --que se define "agnóstico, praticamente ateu" e "taoísta", advertiu que "qualquer intento de fazer começar a vida humana em um momento posterior é arbitrário e não sustentado por argumentação científica".

Para o professor Vescovi, o modo de obter células estaminais embrionárias é "dos abortos espontâneos".

"Disse "espontâneos"", afirmou. De fato, "bastarão os 44 abortos que ocorrem semanalmente só na província de Milão para a terapia de milhares de enfermos", concluiu.

MARCIANO VIDAL, CSsR

profesor de la Universidad Pontificia Comillas, MADRI.

Revista "Reinado Social" - nº 866 - mayo de 2004