O que vimos e ouvimos

Amanheceu e entardeceu aquele primeiro dia da semana. Os moradores de Jerusalém dormiam depois de uma buliçosa jornada de despedida: pelas doze portas da cidade de Davi, saíram as caravanas levando de volta milhares de peregrinos. As festas de Páscoa haviam terminado. Tudo voltava à normalidade. Todos regressavam às suas casas. Todos, menos nós...

Pedro: Eu o vi! Vocês têm que acreditar!

Madalena: E eu também o vi! Igualzinho como estou vendo vocês agora!

Felipe: Então jure, atreva-se a jurar!

Madalena: Juro que vi Jesus! Eu o vi vivo e mexendo o rabo!... Não me acreditam, não é mesmo?

Tiago: Não, Madalena, é claro que não...

Escondidos no sótão da casa de Marcos, com as portas trancadas, sentados no chão ao redor de uma velha lamparina de azeite, continuávamos discutindo a mesma coisa...

Madalena: Juro pela minha mãe, pela minha avó e pela minha bisavó!

Felipe: Continue, continua com a lista até chegar a Adão e Eva. Mas esta história não dá para engolir, está ouvindo?

Natanael: O juramento de uma mulher não vale nada e muito menos o seu, que ainda tem dentes de leite. Diga lá, quantos anos você tem, Mariazinha de Magdala, quantos?

Madalena: Para dizer a verdade, não me lembro, mas é mais de quinze e menos de vinte.

Felipe: Rá! E você acha que dá para acreditar numa ranhenta como você, que um morto apareceu vivo?

Madalena: E dona Maria também é uma ranhenta, não é, Felipe? Dona Maria, venha cá um momento!

Tiago: Deixe-a, Madalena, Maria é a mãe... e as mães quando choram muito têm visões... É sempre assim...

Madalena: Que eu saiba, Pedro não pariu ninguém. E ele também viu!

Pedro: E eu já tenho uns bons caninos, está ouvindo, cabelo-de-fogo descrente? Quando você ainda gatinhava eu já atirava pedras nos cachorros de Betsaida! E eu estou lhe dizendo que Jesus está vivo! Eu o vi!

Marcos: E nós também! Este curandeiro e eu comemos com ele em Emaús!

Felipe: Em Emaús... Não é lá em Emaús onde dizem que os espíritos dos mortos sobem e descem na fonte de águas quentes?

Marcos: Está bem, está bem, não acreditem se não quiserem. Dou risada de todos vocês, homens sem fé!

Felipe: E eu rio ainda mais de vocês, cambada de malucos!

Natanael: Pois eu não acho graça nenhuma nisso tudo... Sabem o que andam dizendo pela cidade, heim? Que fomos nós que roubamos o corpo de Jesus.

Tiago: Quem disse isso, quem disse?

Natanael: Os chefes. O pessoal do Sinédrio. Nicodemos veio contar a fofoca.

Felipe: Pois eu digo que foram eles próprios que o roubaram para fazer-nos morder o anzol e prender todos nós.

Madalena: E eu digo que ninguém roubou ninguém porque Jesus está vivo!

Tiago: Cale essa boca, Madalena, não berre tanto!

Tomé: Bem, bem... vo-vocês continuem bri-brigando, que eu vou embora.

Tomé, que escutava num canto do sótão, se pôs de pé e sacudiu a túnica...

Tomé: Estou indo.

Felipe: E aonde diabos você vai agora, pedaço de gago?

Tomé: Para a ca-casa de Matias.

Tiago: E o que acontece com Matias?

Tomé: Não aconte-tece nada. Vê-veio celebrar a pá-pascoa e está voltando para Jericó... Vo-vou com ele.

Natanael: Muito bem. Isso é o que todos devíamos fazer, ir embora de uma vez desta maldita cidade de loucos.

Felipe: A maioria dos peregrinos já foi. Por que não recolhemos nossas tranqueiras e amanhã cedindo não botamos o pé na estrada para a Galiléia, heim?

Madalena: Não, não vou sair de Jerusalém!

Pedro: Muito menos eu, até que as coisas se esclareçam!

Tomé: Para mim, tanto faz a Ga-galiléia ou Je-jerusalém... eu vo-vou para a casa do Ma-matias.

Pedro: Espere, Tomé, não vá. Será que você não entende? Jesus está vivo!

Tomé: E vocês estão ma-malucos!... Adeus!

Tomé saiu para a rua, virou a esquina dos curtidores e foi andando pela calçada que desce até Siloé. Ali, perto do tanque, estava hospedado seu velho amigo Matias...

Matias: Ah, Tomé, você por aqui? Eu já estava me perguntando onde você se metera, companheiro!

Tomé: Onde iria me me-meter? Desde o que aconteceu na sexta-feira estávamos escondidos em um sótão co-como ra-ratos.

Matias: Imagino... Tantas esperanças, caramba e tudo veio abaixo como uma casa sobre a areia. Ai!... Minha avó dizia que quem nasce barrigudo não merece de faixa. É bem isso que acontece conosco, os pobres, Tomé. Não merecemos nada.

Tomé: É bem por aí, Ma-matias. Não vale a pena crer em nada nem iludir-se com nada.

Matias: Veio João o Batizador reclamando justiça e, zás, degolado. Depois veio Jesus anunciando que as coisas iriam muda, e já se sabe o que aconteceu.

Tomé: Por que será que para nós, os de ba-baixo, sai tudo ao contrário, Matias? Matias: Vai ver que temos azar, companheiro.

Tomé: Azar nós, e mãe sem-vergonha eles.

Matias: O fato é que este país não tem remédio. Isto vai de mal a pior... Mas, enfim, para que continuar lamentando se tudo já acabou?... Diga, Tomé, como estão seus familiares, os amigos do nazareno?

Tomé: Estou vindo de lá.

Matias: E como eles estão? Conte-me!

Tomé: Também de mal a pior... Alguns per-perderam o juízo.

Matias: Claro, dá para compreender... Tanto sofrimento... No começo é sempre assim... Depois as águas voltam ao seu leito...

Tomé: O que eu quero mesmo é voltar para minha casa... Quando você viaja, Matias?

Matias: Amanhã, logo cedo. Se quiser, podemos viajar juntos.

Tomé: Sim, eu vou co-com você... e, piriri pororó, a história do Reino de Deus se acabou. Assim, vou buscar minhas coisas, despe-peço-me dos meus amigos e volto daqui há pouco.

Matias: Veja, não fica conversando muito para voltar logo... Estarei esperando você!

Tomé regressou à casa de Marcos... Ia triste, com as mãos enfiadas nos bolsos da túnica e de cabeça baixa... Agachou-se, pegou uma pedra do chão e a atirou contra a parede...

Tomé: Está tudo acabado, diacho... Tudo acabado...!

Continuou em frente através das vielas escuras e solitárias de Jerusalém... O céu, negro e brilhante, parecia despencar, carregado de tantas estrelas... Tomé entrou no bairro de Sião e virou a esquina dos curtidores...

Tomé: Ma-mas, o que estará acontecendo?... Já é quase me-meia noite...

Apesar da hora ninguém dormia na casa de Marcos... O barulho que vinha do sótão chegava até à rua... Quando Tomé abriu a porta, encontrou-nos todos rindo, brincando, dando gritos de alegria...

Tiago: Tomé!! Até que enfim você chegou!

Natanael: Você o viu, Tomé, você o viu?!

Tomé: Sim, e-eu o vi.

Felipe: Nós também! Todos, todos nós o vimos!

Tomé: Ma-mas, como? Ma-matias não saiu de sua casa.

Madalena: Que Matias que nada! Jesus!... Esteve aqui conosco!

Pedro: Por que você saiu, Tomé? Se tivesse ficado o teria visto também!

Tomé: Ma-mas, será possível que vocês ainda continuam com a mesma cantiga?!

Tiago: Tomé, sente aí e escute. Você me ouviu antes, não é? Você sabe que eu estava trancado, mais trancado que as janelas. Eu não acreditava um tico do que a madalena dizia, nem Pedro, nem Maria... mas agora eu o vi! Todos nós o vimos, Tomé! Jesus está vivo!

Tomé: Bem que me-meu avô já dizia que a lo-locura pega que nem percevejo.

Felipe: Não, Tomé, isto é outra coisa. Isso é a coisa maior que aconteceu no mundo! E Deus nos deu olhos para vê-la!

Tomé: O que vocês viram foi um fan-tantasma...

Madalena: Ah é? Eu não sabia que os fantasmas de agora são morenos e de barba! Rá!

Tiago: Não, Tomé, era ele, era Jesus! Estava aí mesmo onde você está agora! Chegou, nos saudou e todos nós ficamos sem fôlego, e ele começou a rir por causa do nosso susto...

Tomé: Eu continuo achando que é um fan-fantasma...

Madalena: Que fantasma coisa nenhuma, caramba, os fantasmas não comem e ele devorou um rabo de peixe e um favo de mel que havíamos deixado para você... Olhe, olhe só a travessa onde havíamos guardado a janta para você... Jesus comeu tudo! E bebeu vinho, e assoou o nariz! Desde quando os fantasmas fazem isso, heim?

Tomé: Jesus mo-morreu! Como pode estar vi-vivo se eu o vi mo-morto?

Felipe: É isso que a gente também está se perguntando: como pode estar morto se o vimos vivo?

Tomé: O que vocês viram foi seu espi-pírito. Dizem que as almas dos de-defuntos dão sete voltas pelos arredores antes de descansar em pa-paz...

Madalena: Não! Era Jesus em carne e osso! O mesmo de sempre, com a mesma risada e as mesmas coisas, mas mais alegre, mais... sei lá, nem sei como dizer... mas era ele, o moreno!

Tomé: Pois eu não acredito.

Tiago: Escute, Tomé, quando você saiu para a rua, nós ficamos aqui discutindo, lembra? Se íamos para a Galiléia ou se ficávamos em Jerusalém. De repente chegou ele, Jesus. E nos disse: vocês têm que sair, tem que ir pelo mundo todo anunciar a vitória de Deus.

Natanael: Ele nos olhou cada um e disse: conto com vocês! É preciso continuar lutando pela justiça, mesmo que os matem, como fizeram comigo... Mas não tenham medo. A morte não tem a última palavra. Deus a tem.

Pedro: Está entendendo, Tomé, está entendendo o que aconteceu? Jesus foi o primeiro a levantar a cabeça! Todos nós iremos atrás dele!

Tiago: Jesus confiou em Deus e agora é Deus quem confia em nós.

Tomé: Isso soa muito bo-bonito... tão bo-bonito que não pode ser verdade...

Pedro: Mas, Tomé...

Tomé: Não. Não acredito em nada disso. Histórias... histórias e visões... É o mesmo que acontece com os cameleiros no deserto que têm tanta sede que vêem água onde só tem areia... Não, não acredito... não acredi-dito, caramba!... A única verdade é que estamos tristes... Perdemos o melhor amigo que tínhamos... e com ele também se foi nossa esperança... Está tudo acabado, tudo...

Pedro: Não, Tomé, escute bem: na sexta-feira, lá no Gólgota, parecia que o céu tinha se fechado para sempre. Mas Deus guardava para nós esta surpresa... O primeiro a ficar surpreso foi Jesus, quando Deus o levantou da morte, imagine só...! Esses bandidos pensaram que haviam ganho a parada. Mas Deus sabia o que estava fazendo, e ficou do lado de Jesus!... Por que você não acredita, Tomé?

Tomé: Porque não. Porque para acre-creditar que Deus ficou do lado de Jesus... teria eu que meter minha mão no lado do peito dele que foi furado pela lança e no buraco dos pregos... Não, por favor, não me-me enganem mais, eu não quero voltar a me iludir... Não, eu tenho a língua pré-presa, ma-mas a cabeça está no-no lugar... E amanhã mesmo vou embora com o Matias...

Mas, ao final de algumas horas...

Tomé: Matias! Matias!... Abra a porta, abra!

Matias: Mas, o que está acontecendo, Tomé, o qu...?

Tomé entrou como uma rajada de vento na casa de seu amigo...

Tomé: Matias! Era verdade, Jesus está vivo, mais vivo que você e eu! Eu dizia que se não o visse não acreditaria, mas era verdade, estávamos no sótão, com as portas fechadas, eles dizendo que sim, eu dizendo que não, eles que sim, eu que não, e nisso chega Jesus, se põe ali dentro, como um a mais no grupo, como sempre, e vem e me olha, ai caramba, eu belisquei um braço e depois o outro, e ele me disse: “não sou nenhum fantasma, Tomé, não seja tão cabeça dura!”. E Jesus diante de mim, assim mesmo, como eu e você agora, Matias, e disse: “Venha cá e me dê um abraço, Tomé!”. Eu quase desmontei e lhe disse: “Moreno, você é o Messias!”. E ele me disse: “Comigo aconteceu o mesmo que com você, Tomé, por um momento pensei que Deus havia me abandonado. Mas não. Pus a minha sorte em suas mãos e, como você pode ver, ele não me falhou. Faça você o mesmo, Tomé. Tenha confiança, embora não veja, embora não entenda. E agora, corra, corra, corra e diga a todos que isso não se acabou, que agora é que começa”... Então eu vim contar-lhe, Matias, tinha que contar!

A língua de Tome se soltou para contar a seu amigo o que havia visto e ouvido. E Matias acreditou e começou a espalhar por todo o bairro de Siloé, e a notícia foi passando de uns para outros. E nós também o anunciamos a vocês para que compartilhem nossa alegria sabendo o que nós sabemos, que Jesus, o Nazareno, está vivo para sempre.

Comentários

O relato do evangelho sobre a incredulidade e o ato de fé de Tomé está repleto de dados “materiais”: especifica-se que Jesus comeu mel e peixe, que Tomé tocou nas feridas feitas pelos cravos nas mãos e pela lança no peito... Assinalam-se estes aspectos para que não imaginemos nunca que Jesus ressuscitou como um fantasma, um espírito etéreo, alguém “não-material”. Como cristãos, quando falamos da ressurreição “da carne”, da ressurreição “dos corpos”, estamos proclamando a unidade do homem, o todo do homem. Também de seu corpo, da matéria pela qual seu espírito se expressa. Deus se interessa pela carne do homem, enquanto o homem vive – e por isso o evangelho é para a vida terrena – e quando o homem morre, tanto se interessa que ressuscitará também nosso corpo.

A mentalidade de Israel entendeu sempre a pessoa humana como uma unidade. Nunca considerou separadamente alma e corpo, como os gregos fizeram. Não há na tradição de Israel desprezo pelo corpo, pelo material. Para o israelita, o homem é “basar” (“carne” enquanto debilidade física, limitação intelectual ou pecado) e é também “nefesh” (“alma” enquanto sua abertura para todos os valores espirituais e para Deus). O homem em sua unidade é inspirado pelo “ruah”, o Espírito de Deus. Não se trata, pois, de separar o material do espiritual, a alma do corpo, mas de considerar o homem inteiro como débil ou como cheio de possibilidades, de vê-lo como instrumento de morte ou como doador de vida etc. Quando São Paulo fala de que ressuscitar é o passo de um homem “carnal” para um homem “espiritual” está se referindo precisamente a isto: através da morte, o homem transforma seu ser limitado em um ser sem limitações (1 Cor 15, 35-49). De qualquer forma, é praticamente impossível para nós, neste mundo, captar totalmente esta realidade da ressurreição que esperamos pela fé. É como explicar a uma criança no ventre de sua mãe como é a vida de fora, o que é respirar, o que são as cores. Em sua existência fetal, fechada, escura e flutuante, ela seria absolutamente incapaz de imaginar.

Os relatos pascais, por mais esquemáticos que sejam, nos dão a entender que os discípulos não experimentaram a ressurreição de Jesus como um ato singular do poder de Deus no curso da história, mas que iria continuar a partir daquele momento como até então. Eles experimentaram algo mais: que com a ressurreição começava “o fim”, ou mais exatamente, “o começo do fim”. A guerra contra o sistema de pecado já estava ganha, faltava vencer algumas batalhas, mas vendo Jesus ressuscitado já viam para onde se orientava a história humana. Foram testemunhas, por aquela experiência pascal, da entrada de Jesus naquele Reino de Deus anunciado. Os testemunhos dos discípulos, dos primeiros cristãos e das comunidades de base primitivas que começaram a se formar desde então, dão a entender que para aqueles homens e mulheres “crer” era já viver naquele mundo de Deus, saborear o triunfo definitivo por antecipação, adiantar o que o final dos tempos traria: a chegada da justiça de Deus.

Esta fé, experimentada e vivida, nos salva. Quando dizemos que Jesus nos salva, que é nosso salvador, estamos afirmando que, por sua ressurreição, ele se transformou na pista que nos pode orientar para que nossa vida tenha sentido, seja “salva” do absurdo, do egoísmo, do fatalismo, da passividade e, finalmente, da morte. Isto é, nós nos “salvamos” quando seguimos o caminho de Jesus: compromisso, generosidade, desinteresse, amor aos demais, luta pela justiça, sentido comunitário, fraternidade, igualdade entre os homens. Esse caminho é “salvador” da vida humana. Ressuscitando Jesus, Deus creditou a validade deste caminho. Caminhar por ele é arriscado, pois os valores do evangelho não são os valores do mundo. Pois bem, quando a morte se interpuser como preço do compromisso cristão, Deus nos diz na Páscoa que a vida dos que vivem como Jesus não terminará nunca. Tem tal qualidade, tal força, que vencerá a morte.

Jesus venceu a morte e sua ressurreição é penhor de que depois dele, seguindo seus passos, nós também poderemos superá-la. Jesus ressuscitado nos liberta da morte. Mas também nos liberta do medo de morrer. Esta é uma questão crucial para a fé cristã. A autenticidade de nossa fé se mede pela atitude que tenhamos diante da morte. Enquanto a virmos como uma derrota, ficaremos paralisados pelo medo do injusto que a causa ou pelo fatalismo diante das limitações que a existência humana tem. Esta falta de liberdade nos impedirá de dar o pleno testemunho de compromisso a favor da vida que caracteriza o que é ser cristão. Vendo a morte como fracasso, não veremos no Jesus crucificado um salvador, mas uma vítima a mais do sistema. Não creremos na ressurreição. Visto desta forma, Jesus não é mais que um “exemplo” do passado. Enquanto que, ao nos libertarmos do medo de morrer transforma-se em fonte de vida.

(Mc. 16,14-18; Lc. 24,36-49; Jo 20,19-29)

 

 

«Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo!»

Hoje, o Evangelho ainda nos situa no domingo da ressurreição, quando os dois de Emaús regressam a Jerusalém e, ai enquanto uns e outros contam que o Senhor se lhes apareceu, o mesmo Ressuscitado se lhes apresenta. Mas sua presença é desconcertante. Por um lado provoca espanto, até o ponto que eles «Eles ficaram assustados e cheios de medo, pensando que estavam vendo um espírito» (Lc. 24,37) e, por outro, seu corpo traspassado por cravos, a lançada é um testemunho eloqüente de que é o mesmo Jesus, o crucificado: «Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo! Tocai em mim e vede! Um espírito não tem carne, nem ossos, como estais vendo que eu tenho» (Lc. 24,39).

«Faz brilhar sobre nós a luz do teu rosto, Senhor», canto o salmo da liturgia de hoje. Efetivamente, Jesus, «Então ele abriu a inteligência dos discípulos para entenderem as Escrituras» (Lc. 24,45). É todo urgente. É necessário que os discípulos tenham uma precisa e profunda compreensão das Escrituras, já que, como disse são Jerônimo, «ignorar as Escrituras é ignorar Cristo».

Mas esta compreensão da palavra de Deus não é um fato que se possa administrar privadamente, ou com sua congregação de amigos e conhecidos. O Senhor desvelou o sentido das Escrituras à Igreja naquela comunidade pascal, presidida por Pedro e os outros Apóstolos, os quais receberam o encargo do Mestre de que «e no seu nome para o perdão dos pecados, a todas as nações, começando por Jerusalém» (Lc. 24,47).

Para serem testemunhas, por tanto, do autêntico Cristo, é urgente que os discípulos aprendam —em primeiro lugar— a reconhecer seu Corpo marcado pela paixão. Precisamente, um autor antigo nos faz a seguinte recomendação: «Todo aquele que sabe que a Páscoa foi sacrificada para ele, entende que sua vida começa quando Cristo morre para nos salvar». Além do mais, o apóstolo tem que compreender inteligentemente as Escrituras, lidas à luz do Espírito da verdade derramado sobre a Igreja.

d. Jaume González i Padrós

 

 

A necessidade da missão

1. É-nos dada hoje, domingo III da Páscoa, a graça de escutar a página sublime do Evangelho de Lucas 24,35-48, em que Jesus Ressuscitado se faz ver aos seus discípulos reunidos, que são «os Onze e os outros com eles» (Lucas 24,33), dissipa as suas dúvidas e os seus medos, e lhes indica o sentido da Escritura, ao mesmo tempo que abre diante dos seus olhos o sentido obrigatório da missão. Podem assaltar-nos questões como estas:

a) o que terá acontecido àqueles discípulos depois da morte de Jesus?;

b) como chegaram ao ponto de afirmar a sua ressurreição?;

c) terão sido vítimas de alguma desmedida ilusão?;

d) auto-convenceram-se de que a obra de Jesus não podia terminar com aquela morte?;

e) é a partir de si mesmos que chegam à fé na ressurreição, e que começam a anunciar convictamente que Jesus está vivo?

A página do Evangelho de hoje ajuda-nos a compreender melhor os acontecimentos.

2. Ainda os dois discípulos de Emaús faziam exegese demorada coisas acontecidas no caminho e de como Jesus se deu a conhecer a eles, dativo do beneficiário, no partir do pão (Lucas 24,35), quando o próprio Ressuscitado irrompeu e ficou de pé no MEIO deles (o lugar da presidência), e saudou-os, dizendo: «A Paz convosco!» (Lucas 24,36). O leitor estaria à espera de uma recepção apoteótica, do rebentamento de recalcadas emoções, de incontidos gritos de júbilo e de alegria. E, em vez disso, assistimos ao extravasar de medos, perturbação e dúvidas, pois o que pensavam estar a ver diante deles, no MEIO deles, era um espírito, um fantasma! (Lucas 24,37 e 39).

3. Esta reação é importante, e manifesta que estes discípulos de Jesus, após aquela morte de Jesus, já tinham desistido de Jesus e nada mais esperavam dele (Lucas 24,21). Qualquer novo início só poderia vir de fora, só poderia vir de Deus. Naqueles discípulos não se vislumbrava nenhuma réstia de esperança, nenhuma acha ainda fumegava. Tudo cinza do mais cinzento que há. É a maneira de a Bíblia inteira realçar a intervenção de Deus. Deus não intervém como consequência de um pedido ou desejo nosso, para satisfazer os nossos anseios ou projecções mais insistentes. É sempre pura iniciativa sua, do nosso lado impensável, imprevisível e incontrolável. Ao mostrar as coisas desta maneira, a Bíblia, toda a Bíblia, antecipa-se em muitos séculos aos «mestres da suspeita» (Feuerbach, Marx, Nietzsche e Freud) e dissolve avant la lettre a sua denúncia de um Deus produzido ou projetado pelos nossos anseios e desejos.

4. É assim que Jesus vem sem ser esperado e sem se fazer anunciar. E porque não era possível, da nossa parte, acreditar que fosse Ele, Ele tem de se identificar. Para o fazer, não exibe, porém, qualquer fotografia ou documento. Mostra as mãos e os pés (Lucas 24,39-40), como em João 20,20 e 27 mostra as mãos e o lado, que levam a reconhecer o Ressuscitado como o Crucificado, sendo as mãos e os pés, como as mãos e o lado, as marcas da sua vida dada. Note-se uma vez mais que não é pelo rosto que identificamos Jesus Ressuscitado. Senão aqueles discípulos, que com Ele tinham convivido de perto, tê-lo-iam identificado sem demora. É a sua maneira de ser que diz Quem Ele é. E a sua maneira de ser é dar a vida. De ser e de estar conosco. No meio de nós (Lucas 24,36) e à nossa frente (Lucas 24,43), presidindo-nos e precedendo-nos.

5. Sintomático que aqueles discípulos, vendo o que veem, nada digam. Permanecem mudos. Eles que antes estavam cheios de palavras… Mas Jesus continua a ser, é sempre, não o simples orador à maneira de escribas, mas Aquele que fala com autoridade (Marcos 1,22). Ele é a Palavra criadora de mundos novos e de corações novos (João 1,3). Quando Ele surge, um mundo novo começa a acontecer. Dentro e fora de nós. E como é que podemos falar se ainda estamos a nascer?! Portanto, Ele fala: «É necessário que se cumpram todas as coisas escritas (gegramména) na Lei de Moisés e nos Profetas e nos Salmos acerca de mim. […] Assim foi escrito que o Cristo havia de sofrer (1) e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia (2) e de ser anunciada (3) no seu nome a conversão para a remissão dos pecados a todas as nações» (Lucas 24,44-47). E acrescenta com autoridade: «Vós sois testemunhas (mártyres) destas coisas» (Lucas 24,48).

6. A partir deste luminoso falar revelatório de Jesus fica claro, para nós, que a Missão do anúncio do Evangelho não é facultativa, mas insere-se na necessidade do plano de Deus, ao mesmo nível da morte e da ressurreição de Jesus. De forma clara, o cristão é batizado na morte de Cristo e vive a vida nova da Ressurreição de Cristo, mas tem de viver também do/e para o anúncio do Evangelho. É este o único lugar do Novo Testamento que guarda esta tripla necessidade: sofrimento e morte de Jesus (1), ressurreição de Jesus (2), anúncio do Evangelho a todas as nações (3). Nos outros lugares do Novo Testamento, esta necessidade afeta apenas as duas primeiras realidades.

7. Esta necessidade teológica fica registrada no uso do verbo grego deî e das coisas para sempre escritas em todas as Escrituras. O para sempre escritas fica gravado no uso dos dois perfeitos (gegramména e gégraptai, respectivamente particípio perfeito passivo e perfeito passivo do verbo gráphô). Se o uso do perfeito indica o «para sempre», o uso da forma passiva aponta para Deus, tratando-se, como é usual classificar-se, de um passivo divino ou teológico.

8. Importa ainda precisar que este necessário anúncio do Evangelho não afeta apenas os Onze, mas «os Onze e os outros com eles» (Lucas 24,33), entenda-se, todos os discípulos de Jesus, pois é perante todos [«os Onze e os outros com eles»] – não há mudança de cenário – que Jesus pronuncia o luminoso falar revelatório de Lucas 24,44-47. Sem equívocos então: esta missão afeta-nos a todos, todos os discípulos de Jesus de todos os tempos. Fica ainda claro que o anúncio (kêrygma) do Evangelho não decorre por conta e risco do anunciador (kêryx), que não o faz em seu próprio nome; antes, apresenta-se sempre vinculado a Jesus Cristo, pois o anúncio é feito «em seu nome» (Lucas 24,47), é Ele que envia o anunciador. E este anúncio do Evangelho não fica circunscrito a um horizonte limitado, paroquial, diocesano, nacional, continental, pois o seu verdadeiro horizonte são «todas as nações» (Lucas 24,47), «todos os lugares», todos os corações.

9. Bem se vê que é, neste ponto preciso e nesta necessidade, que são Paulo, «o maior missionário de todos os tempos» (Bento XVI) e «modelo de cada evangelizador» (Paulo VI), enxerta a sua vida e se entende a si mesmo, pois confessa: «Evangelizar não é para mim um título de glória, mas uma necessidade que se me impõe desde fora. Ai de mim se não Evangelizar!» (1 Coríntios 9,16).

10. Impõe-se ainda uma anotação sobre aquela importante afirmação final de Jesus, que nos designa como testemunhas (mártyres). É a primeira vez que os discípulos são designados como testemunhas. No mundo de hoje, tal como o conhecemos, falar de testemunhas é falar de alguém que, tendo presenciado um acidente ou um crime, se compromete depois, no tribunal, a apresentar o seu ponto de vista sobre o sucedido. Alguém, portanto, que é chamado a comprometer-se com uma história que não é a dele. Para evitar chatices, acabamos muitas vezes por dizer logo à partida que não vimos nada. Mas, aqui, é Jesus que nos designa como testemunhas. Convenhamos que esta designação dos cristãos como testemunhas não tem sido nem é habitual. A linguagem corrente cataloga-nos mais depressa como «praticantes» ou «não-praticantes». Mas aqui somos designados como «testemunhas» dos acontecimentos de Jesus Cristo. Aquando da necessária substituição de Judas no colégio apostólico, Pedro traça assim os requisitos necessários: «É necessário, pois, que, dos homens que vieram conosco durante todo o tempo em que entrou e saiu à nossa frente o Senhor Jesus, tendo começado desde o Batismo de João até ao dia em que Ele foi arrebatado diante de nós, um destes se torne conosco testemunha (mártys) da sua Ressurreição» (Atos 1,21-22). Somos, portanto, chamados a envolver-nos de tal modo na história e na vida de Jesus, a ponto de a fazermos nossa, para a transmitir aos outros, não com discursos inflamados ou esgotados, mas com a vida! Sim, aquela história e aquela vida são a nossa história e a nossa vida. Aí está o estilo do evangelizador.

11. Aí está, então, o importante acerto com a narrativa do Livro dos Atos dos Apóstolos (3,13-19), que nos mostra Pedro no papel de testemunha (mártys) (v. 15) envolvendo-se e envolvendo outros na história «deste Jesus, que vós entregastes» (v. 13), «mas que Deus ressuscitou dos mortos» (v. 15). E a primeira carta de são João (1,1-5) mostra-nos Jesus Cristo como nosso Advogado (paráklêtos) e vítima de expiação pelos pecados de todos.

12.O Salmo 4 ensina-nos a viver serenamente, dia e noite, na companhia daquele Deus que se envolveu e envolve na nossa história e na nossa vida.

dom António Couto

 

 

Brilhe sobre nós a luz de sua face!

No domingo passado a Igreja lia o encontro de Jesus com Tomé. Tradicionalmente, as reflexões deste domingo destacam a importância de crer sem exigir provas, lembrando inclusive a última bem-aventurança de Jesus: felizes os que crêem sem ver. A questão das dúvidas na Ressurreição de Jesus continua neste Domingo, no Evangelho que acabamos de ouvir. A atitude de Jesus é resposta a uma dúvida que os discípulos daquele tempo e de todos os tempos — nós incluídos — colocam a respeito da sua Ressurreição. Muitos duvidavam que as aparições de Jesus fossem verdadeiras e teorizavam dizendo que quem aparecia era um fantasma de Jesus. Explicação típica de quem não acredita e nega a Ressurreição. Jesus precisa provar para que vejam que ele não é um fantasma, de onde mostrar-se que tem um corpo, que conversa e se alimenta. Sempre houve teorias duvidando da Ressurreição de Jesus, por isso, o Evangelho que acabamos de ouvir tem uma finalidade bem clara: reforçar a veracidade e a autenticidade da Ressurreição de Jesus; ele não é um fantasma, pois apareceu, conversou e se alimentou diante de seus discípulos e discípulas.

Outro elemento que chama atenção no Evangelho deste Domingo é a palavra “testemunho”. Jesus confere aos que participaram da experiência de vê-lo ressuscitado como testemunhas da sua Ressurreição. Nos primeiros momentos, após a Ressurreição, foi necessário que ele mesmo provasse que ressuscitou dos mortos e estava vivo. Agora não! Depois da experiência dos discípulos, eles deveriam testemunhar a Ressurreição para que a Redenção divina alcance todos os povos da terra. Diante de tal incumbência, é preciso ler a Bíblia a partir da Ressurreição. O exemplo disso está na 1ª leitura, na qual Pedro faz uma catequese para ajudar o povo a compreender a História da Salvação, os acontecimentos divinos na História, a partir da Ressurreição de Jesus e, diante destes fatos tomar posição, crendo no testemunho dos Apóstolos e no testemunho dos Evangelhos. Pedro resume isso com um convite: “Arrependei-vos, convertei-vos, para que vossos pecados sejam perdoados”.

Arrepender-se e converter-se para viver na fidelidade dos Mandamentos divinos. Este é o caminho para conhecer Deus, para viver em comunhão com Deus e para participar plenamente da Ressurreição. São João, na 2ª leitura, diz claramente que o conhecimento de Deus passa pela observância dos Mandamentos. Quem diz crer, mas não vive segundo os mandamentos, diz João, é mentiroso. Uma vez mais, estamos diante de um dado concreto que vem da Ressurreição; que é conseqüência da Ressurreição de Jesus. A Ressurreição de Jesus não é somente um fato maravilhoso, realizado por Deus, na pessoa de Jesus. A Ressurreição, dito de outro modo, não é algo somente para ser contemplado de longe, mas para se transformar em vida, para que vivência dos Mandamentos, à luz do Evangelho, nos converta em testemunhas da Ressurreição através da vida nova, como diz a conclusão da 2ª leitura. Não basta dizer que se tem fé na Ressurreição de Jesus; esta fé precisa ser transformada em atitudes concretas, vivendo de acordo com a proposta divina, presente nos Mandamentos, que nós cristãos, desde a Ressurreição de Jesus, vivemos à luz do Evangelho.

São três elementos, em resumo, que nos fazem testemunhas da Ressurreição em nossos dias. O primeiro deles é a fé — crer que Jesus ressuscitou — e não colocar dúvidas na Ressurreição de Jesus. O segundo elemento: para se testemunhar a Ressurreição é necessária uma avaliação da própria vida, através do arrependimento e da conversão, para se viver longe do pecado e purificado diante de Deus. Sabemos bem que quem vive no pecado não pode testemunhar a presença viva de Jesus, porque o pecador vive longe de Deus. Por fim, o terceiro elemento, é a observância dos mandamentos, que podemos traduzir como a vivência do Evangelho. Quem crê na Ressurreição não apenas conhece Deus com os pensamentos, quer dizer, com conceitos doutrinais ou teológicos, mas conhece Deus pela experiência da própria vida. Isto se reflete em atitudes, em comportamentos e nos relacionamentos sociais... Quem crê na Ressurreição vive de modo diferente, porque, como diz o final da 2ª leitura, quem guarda a Palavra — o testemunho dos Apóstolos que Jesus ressuscitou — tem o amor de Deus em sua vida e é plenamente realizado.

 

 

Jesus mostrou-lhes as mãos e os pés!

Existe um anúncio que perpassa todas as leituras que acabamos de ouvir: o anúncio do perdão dos pecados. Na 1ª leitura, Pedro pregava na praça pública o perdão dos pecados e a conversão; na 2ª leitura, são João escreve uma carta dizendo que Jesus é nosso defensor junto de Deus para o perdão dos pecados. No final do Evangelho, ouvimos o envio evangelizador dizendo: “no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações.” Podemos avaliar a importância pela repetição desse tema — o perdão dos pecados — especialmente presente no Novo Testamento. A morte e a Ressurreição de Jesus promovem o derramamento do perdão divino sobre a terra. A cruz de Jesus é a fonte do perdão divino. Vamos colocar uma pergunta para entendermos melhor: — por que Deus faz isso? Ou em outros termos: qual o interesse de Deus em derramar o seu perdão sobre a terra?

Para responder essa questão precisaríamos buscar algumas indicações bíblicas. Mas, como isso não nos é possível pelo nosso pouco tempo, vou lembrar duas apenas. Uma delas encontra-se no Antigo Testamento, no livro do Deuteronômio, quando Deus coloca diante do homem e da mulher a opção entre a vida e a morte (Dt. 30,109). Se você escolher a vida, irá viver, mas se escolher a morte irá morrer... se escolher viver em Deus terá a vida plena dentro de si, se escolher viver no pecado estará entrando no caminho da morte e se matando pouco a pouco. Outro texto bíblico é o início do Evangelho de João, quando ele diz que Deus acendeu sua luz no mundo, mas os homens preferiram caminhar nas trevas, escolheram o caminho do pecado (Jo 1,4ss). São duas imagens para entender a presença do pecado no mundo e na vida pessoal. O pecado é um caminho de morte, que conduz à morte e, o pecado é rejeição de Deus, é a recusa da luz de Deus.

A partir do que diz a Bíblia, pecado não é uma atitude isolada, mas é um modo de viver. Pecador e pecadora é alguém que vive longe de Deus, que escolheu viver no caminho da morte e na escuridão. Quem vive na morte e na escuridão esbarra a todo momento na infelicidade, na violência, no descontrole emocional, no desequilíbrio... é alguém que entra no vício como caminho de fuga e se afunda cada vez mais. O pecado é uma força destruidora na vida pessoal. Destrói e impede o relacionamento com Deus, o relacionamento com os outros e o relacionamento com a gente mesmo. O pecado tira de nossa vida a paz e a transforma num inferno. A maldade com que somos obrigados a conviver em nosso dia a dia é fruto do pecado, de um mundo e uma sociedade que anda em caminhos da morte e em estradas escuras. O que estou procurando fazer entender, repito, é que pecar não se resume a atos isolados, mas trata-se de um modo de viver, um estilo de vida que corrói a alma e a conduz, pouco a pouco, para a morte e para a destruição. Por isso, o anúncio que ouvimos hoje, que Deus perdoa nossos pecados, é motivo de esperança e de alegria, pois podemos voltar a caminhar nos caminhos da vida e acender em nós a luz do Evangelho. Podemos trocar o inferno e a agitação da alma em pecado, pela presença do céu e de sua paz, graças ao perdão concedido por Deus.

O derramamento do perdão divino no mundo e na vida de todos nós é manifestação da bondade divina em forma de amor, que se traduz em perdão e em paz. O acolhimento do perdão divino é a estrada oposta ao pecado. Em vez de morte, o perdão divino favorece a vida e, em vez de escuridão, acende em nós a luz de Deus. Mas, existe ainda a segunda parte: juntamente com o perdão dos pecados, o anuncio fala de conversão, de mudança de vida. As duas coisas andam juntas; perdão e conversão se completam porque um não vive sem o outro. O pecado é um estilo de viver, um modo de viver... se alguém implora o perdão divino, mas não muda de vida, o perdão divino não tem condições de se manifestar, porque o perdão de Deus não é uma mágica, mas é a própria presença do Espírito divino que conduz a pessoa nos caminhos do bem, da paz, da serenidade, do afastamento do vício, da infidelidade, da libertinagem... O que temos diante de nós vai além de um conceito religioso do senso comum de pecado e de perdão; é a proposta de um novo modo de viver. Acolher o perdão divino, diz a conclusão da 2ª leitura, é jogar no lixo a mentira do pecado para iluminar a vida pessoal na verdade da Palavra, condição para que Deus habite plenamente em nossas vidas e a torne feliz com a sua presença e sua paz.

padre Edson

 

 

Tomemos posse da verdadeira paz de Jesus

Depois de Jesus ter aparecido a Maria Madalena, de ter dado ordens para que os Seus discípulos partissem para a Galileia e, de encontrar com dois deles na estrada de Emaús, finalmente o Senhor apareceu ao grupo reunido para lhes decepar as dúvidas e lhes fortalecer a fé.

A comunidade vacila. As perseguições estão no horizonte. O primeiro entusiasmo diminuiu, os membros estão cansados da caminhada e perdendo de vista a mensagem vitoriosa da Páscoa. Parece mais forte a morte do que a vida, a opressão do que a libertação, o pecado do que a graça. Então, Jesus aparece e lhes diz: “A paz esteja convosco!”.

O Senhor prova a eles a Sua autêntica Ressurreição e lhes confirma na paz. Ele é a paz em plenitude. E para que Suas Palavras não fiquem somente “no ar”, Ele lhes mostra as mãos, o peito e os pés rasgados.

“Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo! Tocai em mim e vede! Um fantasma não tem carne, nem ossos, como estais vendo que eu tenho”. Estas palavras indicam que Jesus se apresentou como um homem normal, com as mesmas características que tinha na vida mortal que os discípulos tão bem conheciam. Daí, podemos traduzir livremente por “Sou o mesmo que vocês conhecem, não é outra pessoa que estão vendo”. Assim, Ele os anima a apalpar Seu corpo e a ver Suas mãos e Seus pés que estavam com os sinais das chagas.

Se essas palavras têm algum sentido histórico, é o de manifestar que Jesus está vivo, que a morte não O venceu, que a vida do além pode ter momentos em que se parece com a vida anterior, como se esta seguisse e aquela fosse uma continuação. Sobre o modo de pensar de alguns teólogos, os quais dizem que a ressurreição é uma forma de vida só espiritual, vemos como Jesus se manifesta em corpo vivo e que não existe sentido em afirmar que só o espírito vive e o corpo se destrói e não alcança a nova vida.

Como diz o Catecismo, é impossível interpretar a ressurreição de Cristo fora da ordem física e não reconhecê-la como um fato histórico, pois o corpo ressuscitado de Jesus é o mesmo que foi martirizado e crucificado, trazendo as marcas da Sua Paixão. Não constitui uma volta à vida terrestre como foi o caso de Lázaro, visto que Seu corpo possui propriedades novas que o situam além do tempo e do espaço.

Jesus passa de um estado de morte para uma outra realidade. Ele participa da vida divina no estado de Sua glória, de modo que Paulo pode chamar a Cristo de o “Homem Celeste”. É por isso que Ele tem o poder de transmitir para nós a verdadeira paz. Assim como ontem, Jesus, hoje, continua dizendo: “A paz esteja convosco!”

O convite a tocar – não só a ver – indica que o corpo presente diante dos discípulos tinha aspectos físicos ou que podiam se conformar às leis físicas, à vontade do Ressuscitado. As feridas, muito mais do que o rosto, eram as marcas que determinavam, em definitivo, a realidade da pessoa na frente deles. Se falta alguma prova para se certificar de que aquilo era real, Jesus, então, come uma porção de peixe diante daqueles homens.

Parece que o Evangelista queria refutar toda dúvida possível. Mesmo assim, existem muitos como Tomé, aqui evocado não como apóstolo, mas como incrédulo. Por isso, podemos afirmar que existem muitos “Tomés” que não acreditam, porque não têm visto.

Diante do escândalo da cruz, que na época era muito maior do que nos dias de hoje, era necessário que Ele, além da Sua presença, provasse ser tudo conforme as Escrituras. Os caminhos de Deus consistem, como afirmava Paulo, em mostrar que “a loucura de Deus é mais sábia do que os homens, e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1Cor. 1,25).

Que nossa maior esperança seja ouvir a Palavra e acolher a presença do Mestre novamente entre os discípulos; não mais com um corpo humano, mas com um corpo glorioso.

Somos chamados, na liturgia, a mergulharmos numa experiência íntima com o Ressuscitado que nos diz: “A paz esteja convosco!”

padre Bantu Mendonça Katchipwi Sayla

 

 

Peçamos a Jesus a inteligência para compreender as Sagradas Escrituras

Precisamos de inteligência e paz para conhecermos a direção que Deus quer dar para a nossa vida

“Então Jesus abriu a inteligência dos discípulos para entenderem as Escrituras” (Lc. 24,35-48).

O Ressuscitado aparece no meio dos Seus discípulos e traz, em primeiro lugar, a paz: “A paz esteja convosco!”. Nós precisamos demais da paz; é o maior dom que o Céu pode nos dar, e a maior necessidade do nosso coração.

A falta de paz nos deixa na ansiedade, na preocupação, nas tensões, nos medos, nas revoltas e nas agitações da vida. A paz acalma, tranquiliza, nos dá fé, confiança, certeza, esperança, direção e luz interior.

A paz é serenidade da alma que tem uma plena confiança em Deus, e não vive submetida pelos medos e pelas tensões da vida. O mundo vive em alta tensão e nós estamos submersos no meio de todas as tensões:  correria do trânsito e das coisas que temos de fazer; a rotina da vida; nossas obrigações; compromissos e responsabilidade; nem descansar nós sabemos fazer e, muitas vezes, não temos tempo para fazer. Estamos sempre com coisas para fazer, por vezes encontramos pessoas conhecidas e dizemos a elas que estamos sempre ocupados demais, atarefados em demasia, e esse contexto, não é um modo de encontrarmos a paz.

Por isso, Ele vem trazer paz ao nosso coração. Às vezes, a pessoa só encontra a paz quando morre; quando está ali enferma e prostrada, porque assim sai da correria, da agitação e de tudo aquilo que avulta o coração e a rouba de si mesma.

Nós só temos a paz quando nos encontramos com a nossa essência; nela Deus vem ao nosso encontro para trazer profundamente a paz que necessitamos. A própria presença de Jesus causa medo e preocupações. Jesus mesmo diz: “Olha, por que está preocupados? Por que tem dúvida; medo e inquietações em vossos corações?”. Estamos assim, porque estamos vivendo no meio de toda incredulidade.

Silenciemos o nosso coração e acalmemos a nossa alma de tudo aquilo que tem nos deixado em devaneios mentais ; e muitas vezes, até tortuosos para que, o Mestre, abra a nossa inteligência.

Temos inteligência para tudo, menos para compreender as Escrituras; o coração de Deus e a direção que Ele tem para dar para a nossa vida.

Acalmemos o coração, permitamos que a paz do Ressuscitado entre em nós, para que Ele nos batize com a Sua paz e possamos ser geradores dessa paz e compreender o quanto somos amados e queridos por Deus, porque é isso que as Sagradas Escrituras nos ensinam e instruem.

 

 

Peçamos ao Senhor a compreensão de Sua Palavra

Na sabedoria vinda do Espírito, a unção de Deus nos permite saborear, valorizar e reconhecer o Cristo vivo em Sua Palavra!

“Então Jesus abriu a inteligência dos discípulos para entenderem as Escrituras” (Lucas 24,45).

Cristo Ressuscitado continua a se manifestar à Igreja, aos apóstolos e aos discípulos d’Ele. Aqueles dois discípulos de Emaús estavam contentes por terem reconhecido Jesus ao partir do pão. E enquanto caminhavam e falavam, maravilhados com aquele acontecimento, Jesus aparece novamente a eles e anuncia-lhes a paz que vem do alto. Movidos pelo susto e pelo medo daquele momento, uma grande alegria toma conta deles. É claro que ficaram, num primeiro momento, assustados por acharem que poderia ser até um fantasma, mas, quando tocam em Jesus e veem n’Ele as marcas de Sua Paixão, uma alegria incomensurável, misturada com certa euforia, toma conta do coração desses apóstolos.

Jesus começa, novamente, a recordá-los da Palavra de Deus, daquilo que a Palavra dizia a respeito d’Ele de acordo com a Lei e os profetas, contudo, eles ainda não podiam compreender isso bem porque o entusiasmo era maior do que a capacidade de compreensão.

Jesus, de forma bem pedagógica, abre a cabeça deles para que compreendam, entendam e saibam viver aquilo que Ele lhes ensina. Sabem, meus irmãos, nós precisamos deixar que o próprio Jesus ilumine a nossa mente, a nossa vontade e a nossa compreensão primeiramente para entendermos a Sua Palavra e para termos a sabedoria necessária de compreender que as Sagradas Escrituras nos remetem sempre ao Senhor Jesus.

Uma vez que nos abrimos ao Senhor para ter a sabedoria evangélica e a compreensão da Palavra de Deus, nós queremos abrir a nossa mente para colocá-la em prática essa mesma Palavra e saber vivê-la, testemunhá-la, anunciá-la onde quer que nós estejamos!

Sem a sabedoria do Espírito, a Palavra de Deus passa a ser apenas mais um conhecimento religioso ou teológico, ao passo que a sabedoria vinda do Espírito e a unção de Deus nos permitem saborear, valorizar e reconhecer o Cristo vivo nas Sagradas Escrituras!

Peçamos ao Senhor que nos dê essa sabedoria do alto, nos dê a compreensão da Sua Palavra para que, cada vez mais conheçamos Jesus, O amemos e saibamos viver a nossa vida por causa do Evangelho!

padre Roger Araújo

 

 

As leituras deste domingo apontam para uma realidade que não foi para os discípulos, nem é para nós, estática, fixa, mas pelo contrário uma realidade que evolui, que se constrói e reconstrói até à verdade da plenitude. Essa realidade é a do conhecimento de Jesus Cristo.

Na leitura dos Atos dos Apóstolos, e muito concretamente neste trecho do discurso ao povo, São Pedro confessa que agora sabe que agiram por ignorância. “Agora eu sei que vós agistes por ignorância, mas tal aconteceu para se cumprirem as Escrituras”.

Há assim uma oposição entre o conhecimento de Pedro, o conhecimento que agora possui, e a ignorância do povo, assim como há uma oposição entre o conhecimento de Pedro antes da ressurreição e após a ressurreição, pois é só agora que sabe.

Esta oposição do conhecimento antes e após a ressurreição é facilmente verificável ao longo dos Evangelhos, pois em diversos momentos encontramos os discípulos com uma imagem e uma compreensão da missão de Jesus completamente equivocada, distante da verdade e do que lhes era manifestado.

Encontramos ecos das suas pretensões de poder e governo, de glória numa revolução, e a constatação do desabar destas expectativas aquando da prisão e morte de Jesus, fugindo cada um para seu sítio. O seguimento e o conhecimento de Jesus, ainda que íntimo, estavam condicionados por essas expectativas e pretensões.

Será a ressurreição de Jesus e a experiência do ressuscitado nas suas diversas aparições que fará com que o conhecimento seja reconduzido à verdade, e permita a Pedro poder dizer que agora sabe o que antes não sabia e aquilo que o povo desconhece.

Esta transformação é possível graças às aparições do ressuscitado, mas não só, porque se fosse graças apenas a esse dado poderiam, e poderíamos também nós, ficar na ideia vaga de um espírito, de um fantasma poderoso, de um ente superior.

A aparição de Jesus no meio dos discípulos, depois da manifestação em Emaús, que São Lucas nos relata, é neste aspecto paradigmática, pois não só lhes aparece enquanto ressuscitado, em outra dimensão, como nessa aparição os remete para a experiência física e histórica vivida anteriormente e para a leitura dessa mesma experiência à luz das palavras da revelação contidas nos profetas e na lei.

O conhecimento verdadeiro e cabal de Jesus é assim possível na medida em que a experiência de intimidade que os discípulos puderam viver e o aparente desastre com a morte na cruz são enquadradas nas promessas messiânicas e são confirmadas com a experiência da presença do ressuscitado.

E nesta leitura enquadrante não podemos deixar de ter presente que em nenhuma promessa da Lei, dos profetas ou dos Salmos se fala do nome de Jesus de Nazaré, se define ou projeta uma história concreta, mas define-se e constrói-se uma aliança, uma história de relação de Deus com os homens cada vez mais próxima e mais íntima.

Com Jesus Cristo essa história fez-se vida, fez-se atualidade e possibilidade para todos os homens e mulheres de todos os tempos, fez-se paternidade e filiação divinas e os discípulos experimentaram isso e por essa razão foram convidados a partilhá-las e testemunhá-las aos outros.

Por isso São João na sua carta diz que conhecemos verdadeiramente a Jesus na medida em que guardamos os seus mandamentos, em que procuramos que o amor de Deus seja perfeito em nós, ou seja, quando à semelhança de Jesus procuramos nas nossas limitações e fragilidades viver a relação de filiação que também ele viveu, a aliança que Deus oferece à humanidade, manifestando no amor e na amizade a intimidade divina a que são convidados todos os homens.

À medida que vamos fazendo a leitura da nossa relação, da nossa história da Aliança, à luz da Palavra de Deus e da história e pessoa de Jesus, percebemos como muitas vezes estamos longe do conhecimento verdadeiro, como o nosso conhecimento é superficial ou até equivocado e por isso necessitado de reformulação ou aprofundamento.

Necessitamos por isso voltar cada dia à Palavra de Deus, à história de Jesus e à partilha fraterna das nossas experiências e passos dados na fé e no seguimento, pois só dessa forma nos poderemos ir libertando do peso dos nosso egoísmos e das nossas infidelidades e fortalecendo na confiança dos passos ainda a dar.

Que o Espírito Santo, verdadeiro conhecimento do Pai e do Filho, nos ilumine no desejo e aumente a esperança no alcance da plenitude da verdade.

frei José Carlos Lopes Almeida, OP

 

 

Como reconhecer e testemunhar jesus

Neste terceiro domingo do tempo pascal, a liturgia oferece um texto de Lucas para o Evangelho, interrompendo uma sequência de leitura do Evangelho segundo João. O texto proposto para hoje é Lc 24,35-48, trecho que é a continuação e conclusão do episódio bastante conhecido dos “Discípulos de Emaús”. Esse dado é, por si, suficiente para nos situar já no seu contexto.

Cronologicamente, esse texto situa-se ainda naquele “primeiro dia da semana”, ou seja, o dia mesmo da ressurreição, marcado por tantas dúvidas, tensões e medos na comunidade, desde a visita das mulheres ao sepulcro, ainda de madrugada, até a caminhada triste dos dois discípulos para Emaús, e a manifestação do Senhor aos Onze [Apóstolos], como mostra o relato lido hoje.

É importante recordar que a preocupação do evangelista não é apenas narrar fatos, mas, através da sua narrativa, responder às perguntas da sua comunidade: se Jesus de Nazaré ressuscitou mesmo, onde e como encontrar-se com ele? Ora, a essência da pregação apostólica pós-pascal consistia nisso: “Jesus de Nazaré, morto crucificado, ressuscitou”; obviamente, muita gente questionava esse anúncio, pedindo provas, muitos queriam conhecê-lo e encontrar-se com ele.

Esses questionamentos continuam sendo feitos e os Evangelhos continuam dando as respostas. Lucas, de um modo particular, responde com mais precisão:

a) o Ressuscitado pode ser encontrado em qualquer situação e espaço,

b) ele está na estrada, caminhando com os peregrinos desiludidos (cf. 24,13-35),

c) está na mesa durante as refeições e

d) no meio da comunidade reunida.

e) Porém, para reconhecê-lo, é necessário compreender as Escrituras e ter abertos os olhos e a mente para a fé.

Olhemos então para o texto: “os dois discípulos contaram o que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus ao partir o pão” (v. 35). O evangelista se refere aos dois discípulos de Emaús que retornaram a Jerusalém assim que reconheceram o Ressuscitado, após uma longa caminhada marcada pela tristeza e desilusão.

Ao afirmar que o Ressuscitado foi reconhecido ao partir o pão,

ensina o evangelista que ele está no cotidiano das pessoas, é alguém de casa,

faz parte da família e é acessível.

No encontro com os Onze, os dois que tinham retornado de Emaús relataram toda a experiência e “ainda estavam falando quando o próprio Jesus apareceu no meio deles e lhes disse: ‘A paz esteja convosco!’” (v. 36). Ora, falar de Jesus é um modo de torná-lo presente; partilhar a experiência com ele é expandir a sua presença. Nesse sentido, a comunidade reunida, mesmo insegura, se torna o lugar privilegiado de encontro com o Ressuscitado, e o seu lugar é o centro; por isso, ele apareceu “no meio” deles. Ora, a comunidade não pode ter outro ponto de referência senão o Ressuscitado. A PAZ é oferecida como primeiro dom; não se trata de uma simples saudação ou um mero tranquilizante, mas de uma força reconciliadora e regeneradora.

Apesar das evidências da presença do Ressuscitado, o medo continuava, e isso impedia que os discípulos o reconhecessem: “imaginavam ver um fantasma” (cf. v. 37). O medo faz distorcer a imagem do Ressuscitado no meio da comunidade. De fantasma a juiz, o Ressuscitado pode ser confundido quando a comunidade não absorve a sua paz, nem compreende as Escrituras. Questionando a comunidade pelas dúvidas (cf. v. 38), Jesus ensina que só reconhece o Ressuscitado quem aceitar Jesus de Nazaré, crucificado e morto: “vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo!” (v. 39). Obviamente, com “mãos e pés”, ele faz referência às marcas da paixão; aqui, o relato de Lucas se aproxima do joanino (cf. Jo 20,24-27), refletido no domingo passado, reforçando que as dúvidas de Tomé são, na verdade, de todos os discípulos.

O evangelista alerta que tanto o MEDO quanto a EUFORIA paralisam a comunidade e impedem sua experiência com o Ressuscitado: “Mas eles ainda não podiam acreditar, porque estavam muito alegres e surpresos” (v. 41a); é preciso buscar um equilíbrio de modo que o Ressuscitado não passe despercebido com sua identidade. É ele mesmo quem quer ser encontrado e reconhecido pela comunidade; por isso, pede algo para comer (cf. v. 41b). Além de evidenciar ainda mais a sua identidade de ser vivente, comendo ele reforça a comunhão com os discípulos.

Tendo ele mesmo pedido, “deram-lhe um pedaço de peixe assado. Ele o tomou e comeu diante deles” (vv. 42-43). O Ressuscitado come o que lhe dão, e se solidariza com todos os famintos e necessitados de pão; esse é mais um dos significados oferecidos pelo evangelista, além da intenção de evidenciar que o Ressuscitado é uma pessoa viva e concreta. Além de querer provar a fé, Jesus quer também testar a capacidade de solidariedade para com os necessitados na sua comunidade. Mais tarde, quando começaram as perseguições, o cristianismo adotou o PEIXE também como um símbolo cristológico-eucarístico, pois do nome peixe em grego (ikthís) forma-se o acróstico: “Jesus Cristo, Filho de Deus Salvador”, uma verdadeira profissão de fé.

No encontro com o Ressuscitado não podem faltar refeição e catequese,

partilha do pão e da palavra;

esses elementos são imprescindíveis na comunidade cristã.

Nesse episódio, há uma inversão na ordem: enquanto na cena dos “Discípulos de Emaús” a catequese precedeu a partilha do pão, aqui acontece o contrário, ou seja, a catequese vem depois da refeição. Assim, podemos concluir que o evangelista não preconiza um rito, mas oferece à comunidade quais são os seus elementos essenciais constitutivos: a partilha do pão e da Palavra.

A interpretação e compreensão adequadas das Escrituras são essenciais para a vida da comunidade. Essa é uma das principais preocupações de Lucas, ao longo das suas duas obras (Evangelho e Atos). Jesus é o intérprete e princípio interpretativo de toda a Bíblia. A Lucas, diferente de Mateus, por exemplo, não interessa colher citações avulsas, mas a Escritura em seu conjunto: Lei, Profetas e Salmos (v. 44). Desde o princípio, a Palavra de Deus revelada nas Escrituras aponta para o triunfo da vida e a derrocada de todos os projetos de morte. A ressurreição de Jesus é o ponto culminante dessa trajetória. Sem a Palavra, a comunidade perde o rumo da história.

Dos Discípulos de Emaús o evangelista diz que se abriram os olhos (cf. 24,31); dos Onze ele diz que “Jesus abriu a inteligência dos discípulos para entenderem as Escrituras” (v. 45). A tradução mais correta seria “abriu a mente”. Essa é também uma exigência para as comunidades de todos os tempos:

As Escrituras, se bem compreendidas, abre mentes, olhos e horizontes,

faz parte do processo de conversão contínuo pelo qual

deve passar toda comunidade cristã.

Um dos temas mais caros a Lucas, o universalismo da salvação, é evidenciado pelo próprio Ressuscitado: “no seu nome, serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém” (v. 46). Não apenas Israel, mas todos os povos são destinatários da paz e do amor do Ressuscitado. A reconciliação da humanidade com Deus é acessível a todas as pessoas, de todos os lugares e em todos os tempos; ninguém pode ser excluído dessa oferta de amor.

Surge, portanto, um novo tempo, uma nova etapa na história que começa por Jerusalém, mas não por privilégio, e sim por necessidade. Quanta reviravolta na história: a terra dos considerados justos é a mais necessitada de perdão! Foi Jerusalém com suas forças de poder que matou Jesus; o mal estava radicado lá e amparado pela religião. São as pessoas religiosas as primeiras necessitadas de conversão.

Dos discípulos e da comunidade cristã de todos os tempos, Jesus pede apenas uma coisa: “Vós sereis testemunhas de tudo isso” (v. 48). Em Lucas, Jesus não confere uma doutrina nem uma regra; não envia os discípulos como pregadores e batizadores, como em Mateus, mas como TESTEMUNHAS, o que é muito mais comprometedor e exigente. Ser testemunha (em grego: mártis) implica a coragem de dar a vida.

Somos, portanto, hoje e sempre, interpelados pelo evangelista Lucas a fazer um esforço constante para reconhecer o Ressuscitado em nosso meio, com disponibilidade para a partilha e mente aberta para o conhecimento das Escrituras. O critério de reconhecimento de uma comunidade que vive à luz do Ressuscitado é a disponibilidade dos seus membros para o testemunho.

padre Francisco Cornelio F. Rodrigues

Jornal «O Mossoroense»

 

 

 

Crer por experiência própria

Não é fácil crer em Jesus ressuscitado. Em última instância, é algo que somente pode ser captado e compreendido a partir da fé que o próprio Jesus desperta em nós. Se nunca experimentamos “por dentro” a paz e a alegria que Jesus infunde, é difícil que encontremos “por fora” provas de sua ressurreição.

Algo disto nos diz Lucas ao descrever-nos o encontro de Jesus ressuscitado com o grupo de discípulos. Entre eles há de tudo. Dois discípulos estavam contando como o haviam reconhecido ao cear com ele em Emaús. Pedro diz que ele lhe havia aparecido. A maioria não havia tido ainda alguma experiência. Não sabem o que pensar.

Então, «Jesus se apresenta em meio a eles e lhes diz: “A Paz esteja convosco!”». A primeira coisa para despertar nossa fé em Jesus ressuscitado é poder intuir, também hoje, a sua presença no meio de nós, e fazer circular em nossos grupos, comunidades e paróquias a paz, a alegria e a segurança que dá saber que ele está vivo, acompanhando-nos de perto nestes tempos nada fáceis para a fé.

O relato de Lucas é muito realista. A presença de Jesus não transforma de maneira mágica os discípulos:

Alguns se assustam e «creem estar vendo um fantasma».

No interior de outros «surgem dúvidas» de todo tipo.

Há quem «não pode crer por causa da alegria».

Outros continuam «surpresos».

Assim acontece também hoje. A fé em Cristo ressuscitado não nasce de maneira automática e segura em nós. Ela vai se despertando em nosso coração de forma frágil e humilde. No começo, é quase somente um desejo. Normalmente, ela cresce cercada por dúvidas interrogações: será possível que seja verdade algo tão grande?

Segundo o relato, Jesus permanece, come entre eles, e se dedica a «abrir-lhes o entendimento» para que possam compreender o que aconteceu. Ele quer que se convertam em «testemunhas», que possam falar a partir de sua experiência, e pregar não de qualquer maneira, mas «em seu nome».

Crer no Ressuscitado não é questão de um dia. É um processo que, às vezes, pode durar anos. O importante é nossa atitude interior. Confiar sempre em Jesus. Dar-lhe mais espaço em cada um de nós e em nossas comunidades cristãs.

 

 

Fazem falta testemunhas

Os relatos evangélicos sempre insistem nisso: encontrar-se com o Ressuscitado é uma experiência que não se pode calar. Quem experimentou Jesus cheio de vida, sente necessidade de conta-lo aos outros. Dissemina o aquilo que vive. Não fica mudo. Converte-se em testemunha.

Os discípulos de Emaús «contavam o que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus ao partir o pão». Maria de Magdala deixou de abraçar Jesus e se foi aonde os demais discípulos estavam e lhes disse: «vi o Senhor». Os onze escutam invariavelmente o mesmo chamado: «Vós sereis testemunhas de tudo isso»; «como o Pai me enviou, assim também eu vos envio»; «proclamai a Boa Nova a toda criação».

A força decisiva que o cristianismo possui para comunicar a Boa Nova que se encerra em Jesus são as testemunhas. Esses crentes que podem falar em primeira pessoa. Aqueles que podem dizer: «é isto que me faz viver nestes momentos». Paulo de Tarso o dizia ao seu modo: «já não sou eu que vivo. É Cristo quem vive em mim».

A testemunha comunica sua própria experiência. Não crê «teoricamente» coisas sobre Jesus; crê em Jesus porque o sente cheio de vida. Não somente afirma que a salvação do homem está em Cristo; ele mesmo se sente sustentado, fortalecido e salvo por ele. Em Jesus vive «algo» que é decisivo em sua vida, algo inconfundível que não encontra em outra parte.

Sua união com Jesus ressuscitado não é uma ilusão: é algo real que está transformando, pouco a pouco, sua maneira de ser. Não é uma teoria vaga e etérea: é uma experiência concreta que motiva e impulsiona sua vida. Algo preciso, concreto e vital.

A testemunha comunica o que vive. Fala do que se lhe passou pelo caminho. Diz o que viu quando se lhe abriram os olhos. Oferece sua experiência, não sua sabedoria. Irradia e contagia vida, não doutrina. Não ensina teologia, «faz discípulos» de Jesus.

O mundo de hoje não necessita de mais palavras, teorias e discursos. Necessita vida, esperança, sentido, amor. Fazem falta as testemunhas mais que os defensores da fé. Crentes que não podem ensinar a viver de outra maneira porque eles mesmos estão aprendendo a viver de Jesus.

 

 

Testemunhas

Lucas descreve o encontro do Ressuscitado com seus discípulos como uma experiência fundante. O desejo de Jesus é claro. Sua tarefa não terminou na cruz. Ressuscitado por Deus depois de sua execução, toma contato com os seus para iniciar um movimento de “testemunhas” capazes de contagiar a todos os povos com sua Boa Notícia: “Vós sois minhas testemunhas”.

Não é fácil converter em testemunhas àqueles homens mergulhados na confusão e no medo. Ao longo de toda a cena, os discípulos permanecem calados, em silêncio total. O narrador somente descreve seu mundo interior: estão cheios de terror; sentem somente perturbação e incredulidade; tudo aquilo lhes parece bom demais para ser verdade.

É Jesus que irá regenerar a fé deles. O mais importante é que não se sintam sozinhos. Eles têm de senti-lo cheio de vida em seu meio. Estas são as primeiras palavras que escutarão do Ressuscitado: “Paz a vós... Por que surgem dúvidas em vosso interior?”.

Quando esquecemos a presença viva de Jesus no meio de nós; quando o tornamos opaco e invisível com nossos protagonismos e conflitos; quando a tristeza nos impede de sentir sua paz; quando nos contagiamos  uns aos outros com pessimismo e incredulidade... estamos pecando contra o Ressuscitado. Não é possível uma Igreja de testemunhas.

Para despertar a fé deles, Jesus não lhes pede que olhem para o seu rosto, mas para suas mãos e seus pés. Que vejam suas feridas de crucificado. Que tenham sempre diante de seus olhos o seu amor doado até a morte. Não é um fantasma: “Sou eu em pessoa”. O mesmo que conheceram e amaram pelos caminhos da Galileia.

Sempre que pretendemos fundamentar a fé no Ressuscitado com nossas elucubrações, o convertemos num fantasma. Para encontrarmos com ele, temos de recorrer ao relato dos evangelhos: descobrir essas mãos que abençoavam os enfermos e acariciavam as crianças, esses pés cansados de caminhar ao encontro dos mais esquecidos; descobrir suas feridas e sua paixão. É esse Jesus aquele que, agora, vive ressuscitado pelo Pai.

Apesar de vê-los cheios de medo e dúvidas, Jesus confia em seus discípulos. Ele mesmo lhes enviará o Espírito que os sustentará. Por isso lhes confia prolongar sua presença no mundo: “Vós sois testemunhas disto”. Não deverão ensinar doutrinas sublimes, mas contagiar pela sua experiência. Não terão de pregar grandes teorias sobre Cristo, mas irradiar seu Espírito. Haverão de torná-lo crível com a vida, não somente com palavras. Este é sempre o verdadeiro problema da Igreja: a falta de testemunhas.

José Antonio Pagola

tradução de Telmo José Amaral de Figueiredo

 

 

As leituras deste domingo lançam a comunidade no âmago da mensagem cristã, no mistério da Ressurreição do Senhor Jesus. O Deus dos patriarcas e profetas glorificou seu servo Jesus Cristo.

Deus o ressuscitou dos mortos; disso nós somos testemunhas (cf. 1ª leitura, At. 3,13-15.17-19). Segue o convite à penitência, pois Jesus é o nosso advogado junto do Pai, nos diz João na 2ª leitura. Ele é a vítima de expiação pelos nossos pecados. Por isso, devemos guardar os seus mandamentos, pois o que guarda a sua palavra, nesse, verdadeiramente, o amor de Deus é perfeito (cf. 2ª leitura, 1Jo 2,1-5a).

Em Jerusalém os discípulos estavam surpresos com o relato dos dois que retornaram de Emaús. Eles contavam coisas incríveis sobre sua experiência com Jesus Ressuscitado na partilha do pão. Mas Cristo surpreende ainda mais a todos, aparecendo vivo no meio deles. Para que não ficassem dúvidas, Jesus lhes mostrou as feridas dos pés e das mãos: era Ele mesmo! Até comeu diante deles, mostrando que não era uma ilusão, e sim pura realidade: Ele está vivo. Venceu! Não podia haver maior surpresa. Jesus não gostaria que essa alegria ficasse restrita aos poucos que o encontraram antes e após a sua ressurreição. Ressuscitando dos mortos, Ele faz renascer em todos a esperança. A vida se renova, o sonho de um mundo reconciliado se torna realidade. Tal novidade não pode ficar contida. Da ressurreição nasce também a missão de ir e anunciar a conversão a todas as nações, pois o perdão já está garantido, em Jesus ressuscitado. Os discípulos se tornam muito mais que testemunhas da ressurreição como experiência de fé. São testemunhas do perdão, do amor, da misericórdia universal e eterna de Deus, manifestada de modo admirável, surpreendente, em Jesus Cristo. Hoje, nós somos os herdeiros e os continuadores desse sonho de Jesus: realizar a fraternidade, a reconciliação de Deus conosco e de nós conosco mesmos. Um mundo reconciliado, um mundo de irmãos, sem senhores e sem escravos, sem opressores e sem oprimidos, sem credores e sem endividados, é o mundo que se anunciou com o sol da manhã daquele primeiro dia da semana.

 

 

“Aclamai a Deus, toda a terra, cantai a glória de seu nome,

rendei-lhe glória e louvor. Aleluia!” (Sl. 65,1s)

Os sentimentos que invadem o nosso coração neste domingo são os mesmos sentimentos que invadiram os corações dos discípulos: a alegria pela  ressurreição de Jesus, centro da nossa fé.

A ressurreição, muitas vezes, traz-nos sentimentos de medo, de surpresa, de dúvida e de alegria. O medo é o que mais inibe o povo. A capacidade de se surpreender rejuvenesce; mas a de ser surpreendido nos assusta. A dúvida é o meio caminho andado em direção à verdade; mas a alegria já se antecede à conseqüência, pela certeza do encontro que já se tem no íntimo. Esse final é o encontro com o Cristo, convencendo-nos de que, verdadeiramente, Cristo ressuscitou e continua mesmo inteiro, que seu nome glorioso perdoa os pecados de todos que seremos testemunhas destes fatos.

Na primeira leitura ouvimos são Pedro, antes covarde, agora anunciando com coragem diante de todo o povo: “Matastes o Príncipe da vida, mas Deus o ressuscitou dentre os mortos: disso nós somos testemunhas. Em virtude da fé em seu nome, foi que esse mesmo nome consolidou este homem, que vedes e conheceis. Foi a fé em Jesus que lhe deu essa cura perfeita, à vista de todos vós” (At. 3,15-16). Pedro exortava a assembléia apontando-lhes o coxo que se desvencilhara de sua imperfeição.

Numa interpretação mística que se aplica à nossa vida espiritual, Pedro nos condena: “Matastes o Príncipe da vida”. Sim, matamo-Lo todas as vezes em que somos infiéis à graça, matamo-Lo com nossas reincidências ao pecado, matamo-Lo todas as vezes em que voltamos as costas para a cruz, ou escondemo-la, por respeito humano, envergonhados do sangue que dela verte por nossa causa, por nossa culpa.

Ah! Quão miseráveis somos por não procurarmos compreender o projeto de Deus e assumirmos o papel que nos compete! Quão desonestos somos quando, a exemplo dos leprosos que não voltaram do caminho para agradecer ao Senhor Jesus pela sua cura! Quão infelizes somos quando, distantes das sendas da perfeição, abate-nos um vazio cruel e debruçamos sobre nossas próprias fraquezas, esquecendo, ou fazendo-se de esquecido, por covardia!

Mas “Deus o ressuscitou dentro os mortos”, para comprovar-nos a missão d’Ele e, mais ainda, de Sua divindade. E “disso nós somos testemunhas”, pela renovação do sacrifício incruento do Calvário em nossos altares, pelas graças constantes com que nos envolve e nos impele a buscá-Lo sempre mais. “Manet nobiscum, Domine!” – “Fica conosco, Senhor!”, esta é a súplica que nos move os lábios quando sentimos, “em virtude da fé em Seu nome”. Eis-nos curados de nossas enfermidades, nossas feridas cicatrizes, nossos membros revigorados, nossa alma unida em aspirações sublimes a Deus.

São Pedro, o primeiro dos apóstolos, curou um aleijado “em nome de Jesus” (cf. At. 3,1-10) e agora explica ao povo a força deste “nome, que supera a todos” (cf. Fl. 2,9-11): o anúncio da ressurreição de Jesus. Fala, também, da culpa do povo de Jerusalém, para que se converta e receba perdão e salvação. Apesar destas palavras, o gesto e a pregação de Pedro provocarão o primeiro conflito com o Sinédrio.

O capítulo 24 do Evangelho de são Lucas, que lemos hoje, fala das provas da ressurreição de Cristo (cf. Lc. 24,35-48).

A primeira prova é o sepulcro vazio. A segunda é a voz do anjo que fala às mulheres. A terceira é a voz do próprio Cristo aos discípulos de Emaús, que se revela na fração do pão. Finalmente, a quarta prova da ressurreição de Cristo é a aparição d’Ele próprio aos Apóstolos, reunidos em oração comum, com outros companheiros, no cenáculo, onde se joga com todos os sentidos do corpo e qualidades da pessoa humana.

Ao final do relato do Evangelho de hoje, Jesus aparece a onze de seus apóstolos.

Qual a finalidade d’Ele aparecer aos seus discípulos?

Essa finalidade é tríplice. Primeiro, Jesus afirma que está vivo e continua, Ele mesmo, em toda a Sua humanidade. O  próprio Senhor Jesus pede que os seus apóstolos experimentem a verdade de que o Cristo está vivo: “vede minhas mãos e meus pés” (os olhos), “apalpai-me” (o tato); e, mais além, “comeu à vista deles” (o gosto). A glória da ressurreição transfigurou, mas não obscureceu sua humanidade.

A segunda finalidade é abrir a mente dos discípulos à compreensão das Sagradas Escrituras; a experiência do ver, tocar, degustar passa ao ouvir/anunciar.  Nada é por acaso. Jesus explica que tudo aconteceu por desígnio do Pai, acerca da missão de Sua no mundo. Agora, as Escrituras vão iluminar e fundamentar a fé dos cristãos na missão de evangelização. Jesus se torna a chave interpretativa do Antigo e do Novo Testamentos e de toda a revelação divina. Abrindo o coração dos discípulos, o Mestre afasta de seus apóstolos e discípulos o medo do fracasso, ao perguntar-lhes: “Por que estais perturbados?”. Não mais há mais motivo para perturbação, pois Cristo está vivo, Ele caminha com o Seu povo, Ele está conosco.

A missão é a terceira finalidade dessa manifestação aos apóstolos. Ser no mundo testemunhas da ressurreição é a missão, portanto, que Ele confere aos seus, legado apostólico que compete a nós pelo batismo, feitos cristãos. Testemunhamo-Lo pela vida fraterna que os primeiros cristãos experimentaram nos primeiros anos, ainda na Igreja Primitiva, e que é a sociedade perfeita que tem o Cristo como luz e sua mensagem – os Evangelhos – como direcionamento no caminho rumo ao céu.

O evangelista Lucas põe o testemunho no anúncio da conversão e do perdão, como chave de uma vida sempre pascal. A Páscoa requer sempre isso, viver a vida nova de passagem do pecado para a graça, sempre firmes na esperança de sermos perdoados pelo Deus rico e compassivo em misericórdia. Fé no perdão que a Ressurreição fecunda em nossa vida com as sementes da imortalidade.

Os apóstolos demoraram para crerem na ressurreição. Foram necessárias a graça natural de Deus e as provas, a partir da abertura que Jesus fez com a sua presença gloriosa no meio deles. Por conseguinte, os apóstolos, ao pregarem a Ressurreição do Cristo, uniram-se ao perdão dos pecados e à conversão. Por isso, todos nós devemos viver o Tempo Pascal, dentro deste espírito de abertura, a renovação de nosso batismo, procurando uma vida sempre nova de santificação, atentos à vontade de Deus. Por isso, os Evangelistas acrescentam que o perdão é para todos, indistintamente, para todos aqueles que querem ter os seus pecados perdoados. Não há povo, nem há uma classe social privilegiada que não possa ter os seus pecados perdoados, por mais absurdos que sejam.

A graça do perdão é universal, veio para todos. A condição imposta para receber o perdão de Deus é acreditar que Cristo é o Senhor, o Filho de Deus, o Salvador. Arrependidos de todos os pecados, o penitente estará reconciliado com Cristo, com a Igreja e com a comunidade de fé. Por isso, somos chamados, conforme exorta o próprio Cristo no Evangelho de hoje, a sermos “testemunhas de tudo isso” (Lc. 24,48).

Ser testemunhas do Cristo é proclamar a sua ressurreição, garantir a sua divindade, difundir e defender a fé pela palavra e pela ação, como verdadeiras testemunhas do Salvador, para confessar com valentia o Seu Santo Nome e para nunca sentir vergonha em relação à cruz. A isso todos somos conclamados, em palavras e em obras, se preciso for, até pelo martírio.

Anunciar o Cristo, vivenciar o perdão dos pecados e sermos anunciadores de uma vida cristã que passe pela acolhida do diferente, na busca da santidade pessoal que seja a santidade do outro, na construção da comunidade de irmãos, esta é a missão que nos confere o batismo, que nos assegura a crença na ressurreição.

São João, na segunda Leitura de hoje (1Jo 2,1-5a), interpela-nos que, para sermos testemunhas do Cristo, devemos viver a nossa fé a partir do que se conhece, do que se anuncia: “Quem diz conhecer o Senhor e não vive a sua mensagem é mentiroso e a verdade não está nele” (1Jo 2,1-5). Portanto, não adianta proclamar que Jesus ressuscitou, mas continuar vivendo como se não tivéssemos responsabilidade com o projeto do Reino que ele anunciou e viveu. No amor fraterno da comunidade cristã, o mundo enxerga o Ressuscitado, o Cristo vivo. Essa é a nossa certeza e essa deve ser o nosso compromisso, de sermos testemunhas do ressuscitado.

padre Wagner Augusto Portugal

 

 

Vem Senhor Ressuscitado e nos converta...

Estamos no tempo pascal e com esse tempo refletimos sobre o evento da Ressurreição de Jesus e sua relação com a comunidade nascente que, impulsionado pelo Espírito Santo inicia o anúncio do Ressuscitado levando o povo à conversão com prodígios e milagres. Agora são os Apóstolos os realizadores dos prodígios com uma grande diferença: Jesus realizava em seu nome e os Apóstolos realizam em nome do Senhor Jesus.

Uma palavra em grego que define bem as realizações dos apóstolos é “paresia”, esta significa: ousadia, audácia, destemor, força, poder, enfim os apóstolos não tinham mais medo dos chefes do judaísmo e das autoridades Romanas. Pregavam com autoridade e faziam milagres que comprovavam suas pregações e o nome de Jesus ia transformando os corações e os que acreditavam no Senhor só cresciam. Pedro cheio do Espírito Santo diz com audácia: “eu sei que vós agistes por ignorância, assim como vossos chefes”, e os chama a conversão. É a Igreja nascente com a força do Espírito Santo. Puxa!

O que será que precisamos em nossas comunidades, hoje? Será que essa força – paresia – era somente para os primeiros cristãos? Será que não precisamos também clamar a Deus que envie este fogo em nossa Igreja hoje? É isso que o papa Francisco está nos falando quase todos os dias: “Convido todos a serem ousados e criativos nesta tarefa de repensar os objetivos, as estruturas, o estilo e os métodos evangelizadores das respectivas comunidades. Uma identificação dos fins, sem uma condigna busca comunitária dos meios para alcançá-los, está condenada a traduzir-se em mera fantasia. A todos exorto a aplicarem, com generosidade e coragem, as orientações deste documento, sem impedimentos nem receios”. (EG 33). “A comunidade missionária experimenta que o Senhor tomou a iniciativa, precedeu-a no amor (cf. 1Jo 4,10), e, por isso, ela sabe ir à frente, sabe tomar a iniciativa sem medo, ir ao encontro, procurar os afastados e chegar às encruzilhadas dos caminhos para convidar os excluídos. Vive um desejo inexaurível de oferecer misericórdia, fruto de ter experimentado a misericórdia infinita do Pai e a sua força difusiva” (EG 24). Como vemos o Papa chama a Igreja a uma mudança e a um “sair” para fazer uma evangelização eficaz que possa mudar a sociedade. E devemos ter a certeza que a sociedade somente irá transformar e teremos um lugar melhor para viver à medida que as pessoas se encontrarem com o Senhor da Glória.

Olha a Palavra: “Quem diz: 'Eu conheço a Deus', mas não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e a verdade não está nele”. Então não adianta saber que Jesus é Deus e salvador, não adianta conhecer a história da vida de Jesus, isso o Demônio também conhece. Precisamos de um encontro pessoal com Jesus, um encontro que possa mudar nossa vida por inteira. Algo que abale nossas estruturas e que jamais seremos as mesmas pessoas. Jesus deu sua vida na cruz para que tenhamos essa vida nova, não vamos desperdiçar as abundantes graças que Cristo nos conquistou, pois “Naquele, porém, que guarda a sua palavra, o amor de Deus é plenamente realizado”.

Como vemos no Evangelho tudo o que Jesus fez e ensinou não ficou claro aos Apóstolos e discípulos, tinham dificuldades de entenderem, pois na verdade a mudança de conceitos e pensamentos era muito radical. Tudo o que haviam aprendido no Judaísmo agora cai por terra. Esse vinho novo que Jesus traz é muito revolucionário e completamente adverso do que esperavam. Jesus se encontra com os discípulos que estavam indos para Emaús e explica para eles a Escritura – “Já não estava tudo escrito...?”. E agora com os Apóstolos e Discípulos Jesus diz: “'Assim está escrito: O Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia e no seu nome, serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém”. E nós? Será que procuramos entender os sinais de Deus para o nosso tempo? Será que sabemos interpretar as escrituras dentro dos problemas que nos cercam hoje? Será que não somos muito simplistas e indiferentes ao ponto da Igreja nos falar tanto e não darmos conta que é a Palavra de Jesus para nós hoje. Quando o Papa escreve uma Carta Apostólica, que é uma norma da Igreja e que tem que ser seguida, procuramos ler, conhecer e aplicar em nossa vida e comunidade?

Não basta Cristo Ressuscitar dos mortos é necessário que Ele ressuscite em nosso coração, em nossa vida, em nossas atitudes... Que Ele possa fazer de nós um anunciador do Reino: “No seu nome, serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações”. Que essa profecia aconteça em nosso meio, que anunciemos com destemor, com ousadia, com vigor sem medo, podem nos levar ao sacrifício o que irá nos importar é levar o amor de Deus ao próximo para que ele conheça o Deus altíssimo, nosso Redentor Jesus e o Espírito Santo Paráclito consolador.

Hoje, ouvi um testemunho de um Padre que foi amigo e companheiro de missão da Irmã Dorothy. Ele disse que um dia ela estava indo a pé por uma estrada de terra a uma comunidade para evangelizar e no caminho foi abordada por dois homens que perguntaram: - A senhora está com arma? Ela disse: - sim. E naquele momento ela tirou a Bíblia da mochila, apresentou sua arma e começou a ler as “Bem Aventuranças” para eles. Neste momento os homens cravaram seis balas em seu corpo. Isso é paresia, isso é Espírito Santo em ação, esta é a marca de Cristo ressuscitado.

Vem Senhor Ressuscitado e nos converta...

Antonio ComDeus

 

 

ESCUTAR

“Vós rejeitastes o santo e o justo e pedistes a libertação para um assassino. Vós matastes o autor da vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos, e disso nós somos testemunhas” (At. 3, 14-15).

Meus amados, escrevo isto para que não pequeis. No entanto, se alguém pecar, temos junto do Pai um defensor: Jesus Cristo, o justo (1 Jo. 2, 1).

Jesus disse: “Tendes aqui alguma coisa para comer?”. Deram-lhe um pedaço de peixe assado. Ele o tomou e comeu diante deles (Lc. 24, 41-42).

 

MEDITAR

Ressurreição não se trata de ressuscitação física. Trata-se de ingressar e participar em um “novo ser”. Trata-se de um poder transformador que se encontra em Jesus e que se distribui em novas dimensões do que significa ser humano (John Shelby Spong).

Jesus nos ensinou ou, ao menos, quis nos ensinar a situar Deus num universo interpessoal, isto é, um universo onde não só o conhecemos como o amamos. Este universo é o universo de nossa humanidade, é o universo de nossas ternuras e de nossos amores, o único universo respirável, o único no qual nós podemos nos situar, se nós não quisermos renunciar à nossa dignidade (Maurice Zundel).

 

ORAR

Existe uma história escrita pelo Altíssimo que inverte nossas opções equivocadas. Para Ele, sempre existirá um mas que vira do avesso os fatos e a história: “Vós matastes o autor da vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos”. Somos convidados a escrever uma história distinta de uma vez por todas e não mais atrapalhar e impedir a nova trama da vida. Esta novidade é possível graças ao Ressuscitado que não aceita o medo dos seus amigos: “Eles ficaram assustados e cheios de medo, pensando que estavam vendo um fantasma”. Devemos sempre nos questionar quais os fantasmas que criamos para deformar as exigências do Evangelho e nos evadir dos passos do Cristo. O Ressuscitado representa a derrota do medo para que possamos chegar à plenitude do amor (1 Jo. 4, 18). O Cristo Ressuscitado nos liberta do medo do passado aniquilado, definitivamente, sobre a Cruz. O futuro não deve nos atemorizar porque Dele recebemos o dom da paz e a certeza de sua presença: o Ressuscitado leva as chagas do Crucificado e a Ressurreição não anula a Paixão. A partir de então, esta nova história será escrita se deixarmos de copiar o passado, pois crer significa aprender a ler os acontecimentos da vida, da própria vida, como expressão dos passos de Deus.

mano da terna solidão

 

 

 

As duas primeiras leituras de hoje nos falam do “pecado”, por isso vale a pena, nesta introdução, refletir, ainda que rapidamente, sobre o “pecado”. Nós, homens, assim como muitos animais, somos seres gregários que só sobrevivem  em comunidade. Enquanto os animais vivem guiados pelo instinto, nós, os humanos, somos guiados pela razão e, em virtude da liberdade, que é o nosso dom maior e nos define como humanos, somos responsáveis pelos nossos atos e por eles respondemos perante a nossa consciência, perante a sociedade e perante Deus, se nele acreditamos. Pecar é agir contra a nossa consciência moral. Em virtude dos nossos limites, de toda ordem, também falhamos na ordem moral, portanto, pecamos. Podemos dizer com razão que errar é humano e que Deus sabe disso. Não só sabe, mas, sem violar nossa liberdade, está sempre pronto a socorrer-nos com o seu perdão e a sua misericórdia. Foi essa grande e consoladora verdade que Jesus veio nos revelar: que Deus, o seu Pai, sendo Amor, diante do seu ofensor, o ser humano, só pode ser Perdão.

 

Atos 3,13-15.17.19

Mais uma vez Pedro, dirigindo-se ao povo com clareza meridiana, diz, com todas as letras, que ele pecou gravemente, desencorajando Pilatos a soltar Jesus. Com isso, acabou sendo responsável pela morte do Justo, por excelência. O Pai, ao ressuscitar seu Filho Jesus, selou com o seu gesto os ensinamentos de Jesus, com o selo da Verdade. Pedro reprova a covardia do povo perante as autoridades, mas não o condena definitivamente, porque podem arrepender-se, pois agiram por ignorância. O que Pedro dizia ao povo poderia repetir a cada um de nós: “Arrependei-vos, portanto e convertei-vos, para que vossos pecados sejam perdoados.”

 

1 João 2,1-5

João nos diz duas coisas fundamentais nas poucas linhas que estamos lendo nesta sua primeira carta. Primeiro, que somos pecadores porque, sendo homens, somos seres limitados, mas, por isso mesmo, podemos contar com um defensor junto de Deus, que é Jesus Cristo, que não hesitou em perdoar aos seus ofensores.

A segunda coisa que nos ensina é a respeito do conhecimento do verdadeiro Deus. Nós só chegaremos ao conhecimento do verdadeiro Deus se amarmos os nossos irmãos, ou seja, se cumprirmos o seu mandamento que não é outro senão o amor ao irmão. Deus está longe de ser uma verdade abstrata que se conhece através de cálculos.

 

Lucas 24,35-48

O evangelho de hoje não é muito diferente de outras narrativas que já lemos nesses últimos dois domingos de Páscoa, mas ele tem uma característica bem marcante, ele é de um realismo que chama a atenção. Jesus aparece de repente e interrompe a conversa dos discípulos; deseja-lhes a Paz, ou seja, deseja-lhes tudo de bom; acalma-lhes o medo e o espanto; tira-lhes as dúvidas; ele não é um fantasma; deixa-se tocar; mostra-lhes a chaga das mãos e dos pés; tira-lhes todas as dúvidas, se, ainda houvesse algumas, pede-lhes para comer e, mais do que isso, serve-se e come! Devemos perguntar, por que tudo isso! Com certeza, para consolidar sem nenhuma dúvida a fé dos discípulos na sua ressurreição, porque a ressurreição era o aval do Pai a tudo que Ele, Jesus, vivera e ensinara. Não havia dúvida, o evangelho de Jesus era o evangelho do Pai: poderiam ensiná-lo, vivê-lo e morrer por ele.

 

 

Neste terceiro domingo da Páscoa, assim como nos outros domingos da mesma estação, as leituras de hoje ajudam-nos a aprofundar o significado da vida, da morte, da ressurreição do Senhor, com ênfase maior na sua ressurreição, pois é nele que os outros passos encontram o seu pleno significado. Na primeira leitura Pedro lembra que ainda no início da história da Salvação com os patriarcas Abraão, Isaac e Jacó já estava subentendida a vinda daquele que iria consumar o grande projeto salvífico. Podemos dizer que o mistério da criação do mundo e dos homens já antecipava o mistério ainda maior da redenção de todos os homens em Cristo Jesus, Filho de Deus e de Maria. Na segunda leitura, João alerta-nos para o fato de que o conhecimento do Deus de Jesus Cristo não é um conhecimento cerebral, ao contrário, ele só acontece no amor que é o único caminho para se chegar até Ele. O evangelho de hoje está em continuidade com o encontro de Jesus com Cléofas e o seu companheiro no caminho de Emaús. No episódio de hoje, porém, Jesus não está mais escondido, mas revela-se abertamente como o Ressuscitado.

 

Atos 3,13-15.17-19

Pedro continua falando não a uma platéia seleta, mas está em praça pública, numa atitude de quem transmite uma mensagem, a mais importante que se possa dar a um povo que tem consciência viva da sua própria história que sempre foi vista como uma história muito especial. O recado de Pedro é este: “O Deus de Abraão, Isaac e Jacó, o Deus dos nossos antepassados glorificou o seu servo Jesus. Vós o entregastes e o rejeitastes diante de Pilatos que estava decidido a soltá-lo. Vós rejeitastes o santo e o justo e pedistes a libertação de um assassino”. Ao mesmo tempo em que Pedro não esconde nenhum lado da dura e pura verdade para um povo culpado, chama-os à conversão porque agiram por ignorância e por isso mesmo podiam contar com a clemência divina do Deus de  Israel  que é o mesmo Deus de Jesus Cristo: “... eu sei que agistes por ignorância, assim como os nossos chefes.” O perdão aberto também para os chefes que, implacavelmente, condenaram o Senhor à morte mostra a radicalidade do perdão de Deus que não se limita aos matadores de Jesus, mas inclui todos os pecadores de todos os tempos e de todos os pecados. O único limite ao perdão de Deus é a dureza do coração dos homens que se não deixam perdoar.

 

1 João 2,1-5

Nesta homilia eu vou privilegiar o versículo 2,4: “Quem diz ‘eu conheço a Deus, mas não guarda os seus mandamentos, é mentiroso e a verdade não está nele’”. Para conhecer a Deus não basta defini-lo teologicamente. A Deus só se conhece através do amor porque Ele não é outra coisa se não o amor. São Francisco não era um teólogo e nunca tentou definir a Deus nos seus parcos escritos, mas ao beijar o leproso caído à beira do caminho ele deixou transparecer que Deus era o seu Deus.

 

O episódio narrado no evangelho de hoje se segue ao do encontro de Jesus com os dois discípulos a caminho de Emaús. São dois episódios diferentes mas complementares. Enquanto no caminho de Emaús Jesus empenhou-se mais em dar o sentido da sua missão e menos em sublinhar a sua ressurreição, no episódio de hoje ele empenha-se em mostrar que ele, ressuscitado, é o mesmo Jesus dos quase três anos de convivência terrena. Ele é com certeza o mesmo companheiro que conviveu com os seus discípulos e que muitas vezes ceou com eles, partiu o pão e o peixe e bebeu do mesmo vinho: “Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo!” Nós não podemos ver a Jesus ao nosso lado, mas temos certeza de que Ele está aqui bem ao nosso lado, conosco!

padre José

 

 

A notícia da Ressurreição de Jesus despertou, no Cenáculo e no Sinédrio, um clima de febricitação. O tema era o mesmo, as testemunhas, porém, bem diferentes, e muito mais os destinatários dos relatos. O dogma da Ressurreição seria fundamentalíssimo para o futuro da Religião e era indispensável haver vários que comprovassem com solidez de declaração o terem visto Jesus vivo, nos dias logo posteriores à Sua morte.

I – Os apóstolos e o sinédrio perante a ressurreição

A hipótese de que, tendo morrido Jesus, Seus discípulos roubaram e ocultaram Seu corpo, com o intuito de espalhar o boato de Sua Ressurreição, reaparece com frequência ao longo da História.

Originou-se ela momentos depois de o Salvador ter operado o grande milagre de retomar Sua vida humana em corpo glorioso. Seus adversários, aqueles mesmos que haviam planejado e exigido Sua morte, compraram o testemunho de soldados venais e — por temor e ódio — puseram em circulação essa hipótese (cf. Mt. 28,11-15).

Ainda nos dias de hoje, não é raro ouvir ecos dessa insolente zombaria.

O contrário de fanáticos e alucinados

Por outro lado, a idéia de considerar a Ressurreição do Senhor um mito nascido da alucinação sofrida por alguns poucos não esteve alheia aos próprios Apóstolos. Foi o que se deu quando ouviram a narração feita pelas Santas Mulheres após seu encontro com Jesus naquele “primeiro dia” (cf. Lc. 24,1-11).

Este mesmo fato comprova que os discípulos não podem ter sido os autores de uma fábula sobre esse milagre, pois a experiência nos mostra o quanto é em função de um grande desejo, ou de um grande temor, que o alucinado passa a ver miragens. Entretanto, a hipótese de que - por pura alucinação - foram os Apóstolos os autores do “mito” da Ressurreição do Senhor não deixou de circular por meio dos lábios e plumas de hereges, nestas ou naquelas épocas.

Na realidade, eles não haviam compreendido o alcance das afirmações do Divino Mestre sobre o que se passaria no terceiro dia após Sua morte e, portanto, nem chegaram a temer ou desejar a Ressurreição. E isso a tal ponto que não hesitaram em negar a veracidade da narração feita pelas Santas Mulheres. Ou seja, eles demonstraram estar bem no oposto da acusação de terem sido uns fanáticos e alucinados a propósito da Ressurreição, pois não aceitavam sequer a simples possibilidade de ela vir a se tornar efetiva. O exemplo máximo dessa impostação de espírito deu-se com são Tomé, o qual só se rendeu diante de um fato irrefutável: colocar o dedo nas adoráveis chagas de Jesus.

Ademais, negar a veracidade da Ressurreição, lançando a calúnia de ter sido ela uma invenção de alucinados, corresponderia, ipso fato, a reconhecer a existência de um milagre não muito menor: o da conquista e reforma do mundo, levada a cabo por um reduzido número de desvairados.

Domingo de Ressurreição no Cenáculo

A História nos faz conhecer o quanto, na manhã daquele domingo, os Apóstolos estavam na dor e na tristeza (cf. Mc. 16,10). Faltava-lhes a esperança, pois nenhum deles acreditava na hipótese de o Mestre retornar à vida.

Os fatos se sucediam, mas apesar de as Santas Mulheres haverem entrado no Cenáculo com muita agitação para relatar o surpreendente acontecimento de terem encontrado vazio o sepulcro e um Anjo em seu interior, ninguém era levado a supor a Ressurreição. Sem embargo, Pedro e João se deslocaram, em seguida, com Maria Madalena para o sepulcro. Ao retornarem, os dois Apóstolos, disseram ser real o relato das Santas Mulheres: o sepulcro estava vazio (cf. Lc. 24,1-12). Os que viviam em Emaús voltaram para casa muito abatidos, desconsolados e comentando os exageros - segundo eles - da imaginação feminina.

Nesse meio tempo, Maria Madalena regressou ao Cenáculo para euforicamente anunciar o encontro que havia tido com o Senhor. Logo a seguir, as outras Santas Mulheres entraram para narrar a aparição do Senhor quando iam pelo caminho. Contudo, mesmo somando esses episódios aos anteriores, uma vez mais, não creram na palavra delas (cf. Mc. 16,1-11). Pedro, porém, saiu para o sepulcro e, ao regressar, afirmou que de fato o Senhor tinha ressuscitado, pois Ele lhe aparecera (cf. Lc. 24,34). Uns creram, outros não (cf. Mc. 16,14).

À noite, foi a vez dos dois discípulos de Emaús darem seu minucioso testemunho sobre o famoso acontecimento que culminaria com a abertura dos olhos de ambos, “ao partir o pão” (Lc. 24,35). No Cenáculo, depararam-se com todos reunidos e comentando a aparição do Senhor a Pedro. Ainda assim, a maioria continuava negando a Ressurreição de Jesus.

O Sinédrio considera de frente o milagre

Paralelamente ao que se tratava com tensão, suspense e certo medo no Cenáculo, os príncipes dos sacerdotes e o Sinédrio em geral discorriam sobre a narração feita pelos soldados, a qual tornava patente que Jesus havia ressuscitado. Era uma hipótese árdua igualmente para eles, mas sabiam considerá-la de frente, medindo bem todos os prejuízos que de uma realidade dessas poderiam decorrer.

Na cidade, celebrado já o sábado, os trabalhos haviam sido retomados com toda normalidade, no transcurso do dia. Só no Cenáculo e no Sinédrio dominava a febricitação, àquelas horas de após-ceia. O tema era o mesmo, as testemunhas, porém, bem diferentes, e muito mais os destinatários dos relatos. O dogma da Ressurreição seria fundamentalíssimo para o futuro da Religião e era indispensável haver vários que testemunhassem com solidez de declaração o terem visto Jesus vivo, nos dias logo posteriores à Sua morte. Apesar de Seus insistentes avisos e profecias, se não houvesse testemunhas visuais, difícil seria crer em tão grande milagre.

É bem a essa altura que, estando trancadas as portas e janelas, entrou Jesus no Cenáculo, iniciando-se o trecho evangélico da Liturgia de hoje.

II – Aparição do Senhor no Cenáculo

As sete palavras proferidas por Nosso Senhor no Calvário têm, com muita razão, merecido belíssimos comentários ao longo da História. Mas a primeira palavra por Ele dita aos Apóstolos, ao penetrar no Cenáculo, não merece menos atenção.

Jesus deseja aos Apóstolos a verdadeira paz

36 “Enquanto falavam nisto, apresentou-Se Jesus no meio deles e disse-lhes: 37 ‘A paz seja convosco!’”.

A paz desejada por Nosso Senhor é a única verdadeira entre tantas outras distorcidas e falsas. Quem a deseja para os Apóstolos é o próprio Príncipe da Paz: trata-se da paz messiânica, riquíssima de toda espécie de bens.

Cifra-se ela na tranquilidade nascida de uma vida ordenada, como nos ensina São Tomás, ao afirmar ser impossível sua existência fora do estado de graça: “Ninguém é privado da graça santificante a não ser em razão do pecado, razão pela qual o homem se afasta do verdadeiro fim e estabelece o fim em algo não verdadeiro. Assim sendo, seu apetite não adere principalmente ao verdadeiro bem final, mas a um bem aparente. Por esta razão, sem a graça santificante, não pode haver verdadeira paz, mas somente uma paz aparente” (1).

Quando alguém comete um pecado, o corpo, com suas paixões, rebela-se contra a alma, à qual deveria estar submisso. Por sua vez, a alma, que deveria estar na obediência a Deus, fazendo Sua vontade, revolta-se contra Ele. Assim, fica destruída a ordem e, em consequência, a própria paz. Por isso diz-nos o Espírito Santo: “Não há paz para os ímpios” (Is. 48,22).

A única e verdadeira paz foi, portanto, a que Jesus desejou aos discípulos, ao transpor as paredes do Cenáculo, devido à subtileza de Seu corpo glorioso. Ali penetrou Ele da mesma forma como um raio de Sol atravessa o cristal: sem sofrer a menor alteração. Quão grande, divina e paternal doçura deveria caracterizar Seu timbre de voz nessa ocasião!

Os discípulos estavam absorvidos pelo temor

“Mas eles, turbados e espantados, julgavam ver algum espírito”.

A um medo, sucedia outro! Os discípulos enclausuram-se, tomados pelo pânico de que o Sinédrio pudesse acusá-los de haver roubado o corpo do Senhor, e, de forma súbita, vêem um “fantasma” que se introduz no hermético recinto através das paredes ou portas e janelas fechadas, sem sequer se anunciar. Por mais essa reação de todos, torna-se demonstrado o quanto lhes era difícil crer na Ressurreição do Senhor, apesar de ser a quarta vez que Ele aparecia.

“O Evangelista indica que o temor influiu nos discípulos para não reconhecerem Jesus, mas julgar que estavam vendo algum espírito. O medo costuma prejudicar o conhecimento claro, e faz com que a pessoa imagine estar vendo fantasmas ou monstros estranhos. [...]

“O motivo para os discípulos suspeitarem que se tratava de algum espírito é certamente o fato de Ele ter entrado — como diz São João — com as portas fechadas, coisa que só um espírito poderia fazer”.2 Apesar de havê-los saudado com insuperável afeto e feito ouvir o inconfundível timbre de voz do qual tantas saudades tinham, o temor os absorvia. Outro fato determinaria tratar-se do próprio Salvador, e não de um fantasma: Jesus penetrara em seus corações e discernira seus pensamentos, prova patente de ser Ele o próprio Deus,3 pois isto não é possível nem a um espírito.

As chagas, símbolo do poder do Homem-Deus contra o demônio

38 “Jesus disse-lhes: ‘Por que estais turbados, e por que se levantam dúvidas nos vossos corações? 39 Olhai para as Minhas mãos e os Meus pés, porque sou Eu mesmo; apalpai e vede, porque um espírito não tem carne, nem ossos, como vós vedes que Eu tenho’. 40 Dito isto, mostrou-lhes as mãos e os pés”.

Segundo nossos critérios estritamente humanos, parecer-nos-ia mais lógico, após a Ressurreição, Jesus retomar Sua integridade física, fazendo desaparecer os sinais dos tormentos de Sua Paixão. Por outro lado, considerando os sentimentos de nossa natureza, o exibir as chagas aos discípulos poderia causar-lhes um maior sofrimento, por relembrar-lhes os dramas daqueles terríveis dias de provação. Mas a boa conduta teológica toma como base o princípio infalível: se Deus fez, era o melhor; por isso, resta-nos perguntar quais os motivos de tal conduta.

Antes de mais nada, para Sua própria glória, como também se dará com os santos mártires ao retomarem seus respectivos corpos, no dia do Juízo. As cicatrizes oriundas dos tormentos por eles sofridos em defesa da Fé reluzirão por toda a eternidade. “Com efeito, as cicatrizes das feridas recebidas por causa digna e justa são um eloquente e glorioso testemunho dos méritos e valor de quem as ostenta”.4 Jesus Cristo tinha todo poder para fazer desaparecer Suas chagas cicatrizadas, mas desejou conservá-las para levar em Si próprio um magnífico símbolo de Seu poder contra o demônio.

Obstáculo à divina cólera

Ademais, quis beneficiar-nos junto ao Pai. A conservação dessas cicatrizes é-nos de fundamental importância, pois constituem elas um poderoso obstáculo a que a santa e divina cólera desabe sobre nós, devido às nossas culpas.

“Com esse detalhe, Ele os robustece na fé e estimula à devoção, pois, em vez de eliminar as feridas que por nós recebeu, preferiu levá-las para o Céu e apresentá-las a Deus Pai como resgate de nossa liberdade. Por isso, o Pai deu-Lhe um trono à Sua direita, abraçando os troféus de nossa salvação”.5

Na Terra, servia-Se Ele da palavra a fim de pedir ao Pai perdão para os carrascos: “Perdoai-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34). No Céu, não necessita abrir os lábios para nos obter o beneplácito: suficiente é mostrar-Lhe Suas cicatrizes.

Prova de Seu ilimitado amor de Salvador

Os Santos Padres afirmam ter Nosso Senhor querido conservar as marcas dos tormentos sofridos por Ele, com vistas ao Juízo Final, para a confusão dos maus e alegria dos bons. Serão elas um símbolo de Sua infinita misericórdia, prova de Seu ilimitado amor de Salvador, desprezado, renegado e ultrajado por alguns, e fonte inesgotável de bênçãos e graças para outros, objeto de ação de graças e adoração por toda a eternidade.

Confusão para uns, júbilo para outros. Naquele dia, dies iræ, todas as criaturas humanas verão as chagas dEle; portanto, também eu poderei adorá-las e nelas me alegrar, se tiver andado pelos caminhos da virtude, da graça e da santidade. Através desse meio, Jesus fortificava a Fé dos Apóstolos, eliminando qualquer pretexto para a incredulidade, ou até mesmo para uma simples dúvida, tornando-os verdadeiras testemunhas, pelos séculos afora. Manifesta, ademais, seu amor por eles e, em consequência, também por nós, proporcionando-nos um poderoso estímulo para retribuirmos Seu incomensurável afeto, pela disposição de a Ele nos entregarmos inteiramente.

Ali, naquelas santas chagas, encontramos uma excelente âncora para a nossa confiança. Elas como que nos dizem: “Não temais, Eu venci o mundo!” (Jo 16,33). Vivamos o conselho dado por São Paulo: “Corramos com perseverança ao combate proposto, com o olhar fixo no autor e consumador de nossa Fé, Jesus. Em vez de gozo que Se lhe oferecera, Ele suportou a Cruz e está sentado à direita do trono de Deus” (Hb. 12,1-2).

Incutem-lhes forças para aceitar os suplícios

Não podemos descartar a hipótese de que Jesus quis fazer os Apóstolos apalparem Suas santas chagas para facilitar-lhes a paciência que deveriam praticar, face às imensas dificuldades que sobre eles adviriam, na difusão do Evangelho, de parte dos tiranos, gentios e dos seus próprios conacionais. Os sagrados estigmas, ora glorificados, incutiam-lhes forças para aceitar com resignação, fortaleza e ânimo todos os suplícios a eles reservados.

Dessa forma, também nós, na adoração a essas chagas, somos estimulados a, com calma, serenidade e paz, suportar as adversidades tão comuns à nossa passagem por este vale de lágrimas. Quando algo desagradável, doloroso ou dramático vier atravessar nossa caminhada, adoremos as marcas dos tormentos aceitos pelo Salvador em nosso benefício, e saibamos, em algo, retribuir tão incomensurável misericórdia. E, no Céu, teremos inegável alegria em considerar as chagas que nos obtiveram a salvação eterna: “Vosso coração se alegrará e ninguém tirará vossa alegria” (Jo 16,22).

Os apóstolos as viram e apalparam

Teriam os Apóstolos tocado as Chagas de Jesus? Sim, tal qual fez são Tomé. Oh felix culpa! Autores de peso são de parecer que os Apóstolos contaram-lhe a graça de terem posto o dedo na chaga de Jesus, e daí seu famoso dito (Jo 20,25).

“Não só os convidara a ver e apalpar, mas mostrou-lhes Seus pés e mãos. Não parece, pois, crível que eles deixassem de tocá-Lo, curiosos como estavam de conhecê-Lo. Além disso, se não O tivessem tocado, seria pelo fato de acreditarem, sem necessidade dessa prova; consta, porém que não creram somente por vê-Lo, como se diz em seguida” (6).

Essa reação dos Apóstolos pareceria, à primeira vista, ocasionada por pura incredulidade, mas bem poderia ser o fruto de tal inebriamento que mais se julgavam em estado de sonho do que de realidade. Estavam penetrados de tão grande júbilo por vê-Lo ressuscitado, que não podiam crer no que os próprios olhos lhes mostravam.

“O Evangelista escreve isso como sendo uma atenuante para a falta dos discípulos em não acreditar, insinuando que, se eles não creram, foi mais pelo desejo da verdade do que por obstinação contra a verdade. Às vezes nos acontece de não acreditar naquilo que mais desejamos, como sucedeu a Jacó, quando lhe contaram que seu filho José estava vivo; e com São Pedro, ao ser libertado do cárcere contra todas as suas expectativas: julgava ser um sonho, e não realidade, o que se passava com ele. [...]

“Tomando-se ao pé da letra o que aqui está dito (que eles não acreditavam), não se deve estender essa descrença a todos quantos se encontravam no Cenáculo, pois pelo menos aqueles que disseram ter visto o Senhor — como São Pedro e talvez algum outro - certamente criam”.7

Jesus come para fortalecer-lhes a Fé

41 “Mas, estando eles, por causa da alegria, ainda sem querer acreditar e estupefatos, disse-lhes: 42 ‘Tendes alguma coisa que se coma?’ Eles apresentaram-Lhe uma posta de peixe assado. 43 Tendo-o tomado, comeu-o à vista deles”.

Uma prova evidente de estar Jesus entre eles, em corpo e alma, não sendo, portanto, um fantasma, era o fato de Ele comer diante de todos. Esta é uma explicação unânime entre os comentaristas; porém, parece ser também que Jesus desejava manifestar de modo especial Sua estima por eles, aceitando algum alimento que Lhe pudessem oferecer.

Sendo glorioso Seu Sagrado Corpo, não tinha Ele nenhuma necessidade de alimentar-Se; entretanto, por pura caridade e divina didática, deseja auxiliá-los, fortalecendo-lhes a virtude da Fé ao comer “à vista deles”. É o que a esse respeito comenta São Cirilo de Alexandria: “Para fortalecer mais ainda sua fé na Ressurreição, pediu-lhes algo para comer. Tratava-se de um pedaço de peixe assado, que Jesus tomou e comeu na presença deles. Não fez isso senão para mostrar com clareza que era Ele mesmo, ressuscitado, Ele que — como antes e durante todo o tempo de Sua Encarnação - comia e bebia com eles”.8

Abriu-lhes o entendimento e o coração

44 “Depois disse-lhes: ‘Isto é o que Eu vos dizia quando ainda estava convosco; que era necessário que se cumprisse tudo

o que de Mim estava escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos’”.

É interessante notar a diferença apontada por Jesus — “quando ainda estava convosco” — entre Seu corpo padecente e, agora, glorioso. No primeiro caso, segundo Ele mesmo afirma, encontrava-Se em meio aos Apóstolos porque as Suas condições físicas possuíam as mesmas características que as dos outros. Após a Ressurreição, porém, já não mais Se acha entre eles, por não estar em carne mortal.

A Lei de Moisés, os profetas e os salmos correspondem à divisão das Sagradas Escrituras, conforme o costume hebraico: o Pentateuco, os profetas e os livros poéticos; entre estes últimos, os salmos.

 

45 “Então abriu-lhes o entendimento para compreenderem as Escrituras”.

Face aos acontecimentos tão grandiosos verificados naqueles últimos dias, as revelações feitas anteriormente pelo Divino Mestre retornavam à memória dos Apóstolos com mais colorido e contornos mais definidos. “Quando seus pensamentos se amainaram pelo que Jesus dissera - pois O haviam tocado e Ele tinha comido — o Senhor abriu-lhes o entendimento para compreenderem ter sido necessário que Ele sofresse cravado na Cruz. Move, portanto, Seus discípulos a recordarem o que lhes havia dito, isto é, que já lhes tinha anunciado Sua Paixão na Cruz, da qual antecipadamente falaram os profetas. Abre-lhes, ademais, os olhos da mente, para que compreendam as antigas profecias”.9

Precisaram eles de um especial auxílio da graça, para entenderem as revelações. “Sem Mim, nada podeis fazer” (Jo. 15, 5), afirmara Nosso Senhor. É necessário que o próprio Cristo Jesus nos ajude a interpretar as Sagradas Escrituras: “...o qual ensine como a realidade se ajusta à profecia; mais ainda, nem isto nos basta, é preciso que Ele nos abra os olhos da mente para podermos vê-Lo. É este o sentido próprio da frase grega: ‘Abriu-lhes então as mentes, para que pudessem entender as Escrituras’. Como observa muito bem São Beda, ‘apresentou Seu corpo para ser visto com os olhos e apalpado com as mãos pelos discípulos. Isto não basta: recordou-lhes as Escrituras. Ainda não é suficiente: abriu-lhes as mentes para que entendam o que lêem” (10)

 

46 “E disse-lhes: Assim está escrito que o Cristo devia padecer e ressuscitar dos mortos ao terceiro dia...”.

São inúmeras as profecias a esse respeito, e certamente eram muito conhecidas pelos Apóstolos. Sobre essa matéria, é riquíssimo o caudal de comentários surgidos da pluma dos Doutores e Padres da Igreja.

III – Jesus continua operando por meio de seus ministros

47 “...e que em Seu nome havia de ser pregado o arrependimento e a remissão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. 48 Vós sois as testemunhas dessas coisas”.

Encerra-se o Evangelho deste III Domingo da Páscoa com o esclarecimento formal e categórico da parte de Jesus aos Apóstolos, a respeito da missão que lhes outorgava. Aproveita essa ocasião para conversar sobre o mais importante tema para eles e, portanto, para a Santa Igreja nascente. Tratava-se de assumirem a mesma missão de Nosso Senhor Jesus Cristo, pois Este permaneceria no mundo por meio deles.

Nada deveria ser olvidado: nem a Paixão com seus méritos, nem a própria vida do Divino Mestre, com Seus ensinamentos. Concretiza-se, nessa ocasião, uma identidade de missão entre Jesus e os Apóstolos. Aliás, na oração dirigida ao Pai, na Última Ceia, havia já Ele revelado essa aproximação: “Eu lhes transmiti as palavras que Me confiaste e eles as receberam e reconheceram verdadeiramente que saí de Ti, e creram que Me enviaste. Dei-lhes a Tua palavra, mas o mundo os odeia, porque eles não são do mundo, como também Eu não sou do mundo. Como Tu me enviaste ao mundo, também Eu os enviei ao mundo” (Jo 17, 8.14.18).

Anteriormente, chegara mesmo a afirmar: “Quem vos ouve, a Mim ouve, quem vos rejeita, a Mim rejeita, e quem Me rejeita, rejeita Aquele que Me enviou” (Lc. 10,16).

Por isso São Paulo diria mais tarde, em tom de plena certeza: “O apóstolo é ministro de Cristo” (1Cor. 4,1); e “Deus mesmo é que fala por seus lábios” (2Cor. 5,20). Os discípulos deverão pregar e implantar a Igreja em todas as partes, com a mesma autoridade divina com que Cristo realizou Sua missão no mundo, tal como nos relata São Mateus: “Tudo o que ligardes sobre a Terra será ligado no Céu; e tudo o que desligardes sobre a Terra, será desligado no Céu” (18,18). E são Marcos: “Ide por todo o mundo, e pregai o Evangelho a toda criatura” (16,15).

Cristo os constituiu sacerdotes da Igreja, para salvação e santificação das almas, fazendo-os herdeiros e participantes de Seu sumo e eterno sacerdócio. Esta missão continua ainda nos dias atuais e deverá perdurar até o fim dos tempos, através do ministério sacerdotal. Tal como Jesus, o presbítero dá “glória a Deus no mais alto dos Céus, e paz na Terra aos homens objeto da boa vontade de Deus” (Lc. 2,14). É ele alter Christus: “Como o Pai Me enviou, assim Eu vos envio” (Jo 20,21). Assim, a obra universal de redenção e de transformação do mundo trazida por Nosso Senhor Jesus Cristo, com toda a sua divina eficácia, Ele continua a operá-la, e continuará sempre, por meio de seus ministros (11)

mons. João Clá Dias, EP

1. Suma Teológica II-II, q. 29, a. 3 ad 1.

2. MALDONADO, SJ, Pe. Juan de. Comentarios a los cuatro Evangelios – II Evangelios de San Marcos y San Lucas. Madrid: BAC, 1951, p. 817.

3. Cf. idem, ibidem.

4. PETRARCHA, Franciscus. De remediis utriusque fortunæ. l. 2, 77.

5. AMBROSIUS MEDIOLANENSIS, Sanctus. Expositio Evangelii Secundum Lucam, l. 10 (PL 15:1.846).

6. MALDONADO, SJ, Op. cit., p. 820.

7. Idem, ibidem.

8. CIRILLUS ALEXANDRINUS, Sanctus. Explanatio in Lucæ Evangelium, 24, 38 (PG 72, 948)

9. Idem, in Lc. 24,45 (PG 72,949).

10. MALDONADO, SJ, Op. cit., p. 826827.

11. Cf. PIO XI. Encíclica Ad catholici sacerdotii, 20/12/1935, n.12.

 

 

Lucas escreve o seu Evangelho por volta do ano 85 em vista dos problemas da sua comunidade. A primeira geração de discípulos já tinha morrido pois já tinha passado mais de meio século desde os acontecimentos pascais. Agora, a comunidade vacila na sua fé, as perseguições estão no horizonte, ou até estão a acontecer, o primeiro entusiasmo diminuiu, os membros estão cansados da caminhada e perdendo de vista a mensagem vitoriosa da Páscoa. Parece que é mais forte a morte do que a vida, a opressão do que a libertação, o pecado do que a graça.

Neste cenário, Lucas escreve este capítulo 24 que traz uma mensagem de ânimo e coragem aos desanimados e vacilantes da sua época (e da nossa)! Às mulheres, que foram ao sepulcro com os perfumes, os dois anjos perguntam / interrogam: “por que procurais entre os mortos aquele que está vivo? Ele não está aqui! Ressuscitou!” Mensagem actual para os nossos tempos diante da difícil situação de tantas pessoas que enfrentam duras lutas pela sua sobrevivência. O nosso texto quer-nos lembrar que Jesus venceu o mal, não foi derrotado pela morte, está no meio de nós!

Os dois discípulos de Emaús são a imagem viva da comunidade para quem o evangelista Lucas escreve e de muitas outras nos nossos dias! Já sabem do túmulo vazio, mas estão desanimados, desiludidos, sem forças pois ainda não fizeram a experiência da presença de Jesus Ressuscitado. Os dois só fazem esta experiência quando partilham o pão! A Escritura fez com que os seus corações “ardessem pelo caminho”, mas não lhes abriu ainda os olhos para reconhecerem a presença do Ressuscitado junto deles. Para isso era necessário formar uma comunidade celebrativa de fé e de partilha: “contaram… como tinham reconhecido Jesus quando ele partiu o pão”.

Finalmente, o grupo dos discípulos reunidos em Jerusalém é símbolo das comunidades confusas e vacilantes. Tinham dificuldade em acreditar pois a mensagem da Ressurreição é realmente espantosa! Mas, uma vez feita essa experiência, eles transformam-se e tornam-se em testemunhas vivas do que sentiram, experimentaram e vivenciaram: “Vós sois as testemunhas destas coisas”. Um grupo de derrotados, sem esperança e desunidos transformam-se num grupo de missionários corajosos e convictos, assumindo a tarefa de anunciar no nome de Jesus “a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações”.

Palavra para o caminho

No Evangelho proclamado neste 3º Domingo de Páscoa “entrevê-se um repetido convite a vencer a incredulidade e a crer na ressurreição de Cristo, porque os seus discípulos estão chamados a ser testemunhas precisamente deste acontecimento extraordinário. A ressurreição de Cristo é o acontecimento central do cristianismo, verdade fundamental que se deve reafirmar com vigor em todos os tempos, porque negá-la como se tentou fazer de várias formas, e ainda se continua a fazer, ou transformá-la num acontecimento meramente espiritual, significa vanificar a nossa própria fé. «Mas se Cristo não ressuscitou afirma São Paulo é vã a nossa pregação, e vã é também a nossa fé» (1 Cor 15, 14)” (Bento XVI).

 

 

“Vós sois as testemunhas destas coisas”. Não é fácil converter em testemunhas aqueles homens mergulhados na confusão e no medo. Os evangelistas descrevem o seu mundo interior: estão cheios de terror; sentem somente perturbação e incredulidade; tudo aquilo parece bom demais para ser verdade.

Esta reação é importante, e manifesta que estes discípulos de Jesus, após aquela morte de Jesus, já tinham desistido de Jesus e nada mais esperavam dele (Lucas 24,21). Qualquer novo início só poderia vir de fora, só poderia vir de Deus. Naqueles discípulos não se vislumbrava nenhuma réstia de esperança, nenhuma acha ainda fumegava. Tudo cinza do mais cinzento que há. É a maneira de a Bíblia inteira realçar a intervenção de Deus. Deus não intervém como consequência de um pedido ou desejo nosso, para satisfazer os nossos anseios ou projecções mais insistentes. É sempre pura iniciativa sua, do nosso lado impensável, imprevisível e incontrolável.

É Jesus que irá regenerar a fé dos discípulos. Estas são as primeiras palavras que escutarão do Ressuscitado: “A paz esteja convosco!”. Depois pede-lhes que olhem para as suas mãos e os seus pés. Que vejam as suas feridas de crucificado. Que tenham sempre diante dos olhos o seu amor doado até a morte. Não é um espírito:“sou Eu mesmo”. O mesmo que conheceram e amaram pelos caminhos da Galileia.

O relato de Lucas é muito realista. A presença de Jesus não transforma de modo mágico os discípulos. Alguns ficam cheios de medo e julgam ver um espírito, outros duvidavam e na alegria e surpreendidos não queriam acreditar. Assim ocorre também hoje relativamente à nossa fé em Cristo ressuscitado. Ela vai despertando no nosso coração de forma frágil e humilde. No começo, é quase somente um desejo. Normalmente, cresce cercada por dúvidas e interrogações: será possível que algo tão grande seja verdade?

Segundo o relato, Jesus permanece e come com eles, e abre-lhes o entendimento para que possam compreender o que aconteceu. Quer que se convertam em “testemunhas”, que possam falar a partir da sua experiência. Crer em Jesus Ressuscitado não é questão de um dia. É um processo que, às vezes, pode durar anos. O importante é a nossa atitude interior. Confiar sempre em Jesus. Dar-lhe mais espaço em cada um de nós e nas nossas comunidades cristãs. O mundo de hoje não necessita de mais palavras, teorias e discursos. Necessita de vida, de esperança, de sentido, de amor. Fazem falta mais testemunhas que defensores da fé. Crentes que nos possam ensinar a viver de outra maneira porque eles mesmos aprendem a viver de Jesus.

 

 

Encontro que transforma

Depois da ressurreição de Jesus, os discípulos tiveram de passar por experiências que lhes permitissem compreender que a morte não tivera a última palavra, que o Mestre estava vivo, que continuava a caminhar com eles, que os alimentava com sua Palavra e que podia ser reconhecido na partilha do pão.

O Ressuscitado aparece no meio da comunidade e deseja a paz. Ele, que tinha conduzido os discípulos e ensinado novo modo de ser e de agir, continua a ser o centro da comunidade. Jesus deseja a paz, que é a vida com dignidade para todos, o anseio mais genuíno dos corações humanos.

Os discípulos precisaram superar o susto e o medo para reconhecer o Mestre vivo, com as marcas da crucifixão, comendo peixe diante deles. O encontro com o Ressuscitado é que lhes abriu a mente para compreenderem o alcance da Escritura, que falava de um Servo Sofredor que ressuscitaria ao terceiro dia. Para compreenderem, afinal, que a Escritura falava da missão deles mesmos: missão de testemunhar a todos a vida nova que vem do Mestre que sofreu e ressuscitou. Vida nova que se testemunha anunciando a conversão e o perdão dos pecados a todos.

De Jerusalém até os confins da terra, do medo que fechava a comunidade em si mesma à coragem e alegria de anunciar o Ressuscitado, os discípulos precisaram passar por experiências de encontro com o Mestre. O testemunho cristão, portanto, requer de nós hoje o mesmo encontro, contínuo, com o Ressuscitado Jesus de Nazaré, aquele Mestre que viveu e ensinou a viver entregando a vida pelo outro.

Neste tempo de Páscoa, renovamos nosso empenho para que Jesus seja de fato o centro de nossa vida, da vida de nossas comunidades, para que continuemos a nos transformar e a transformar o mundo, trocando as preocupações e as dúvidas pela fé ativa de quem se compromete com a construção da paz. Afinal, qual é a vida nova que estamos testemunhando para o mundo de hoje?

padre Paulo Bazaglia, ssp

 

 

“Ó Deus, que o vosso povo sempre exulte pela sua renovação espiritual, para que, tendo recuperado agora com alegria a condição de filhos de Deus, espere com plena confiança o dia da ressurreição.”[1]

A coleta desta celebração eucarística nos ilumina neste tempo feliz da Páscoa do Senhor. O Senhor nosso Deus, que nos reúne a todos nesta Igreja neste Domingo, nossa Páscoa Semanal, é Aquele que nos renova. No Domingo passado ouvimos aquela bela “coleta” que nos afirmava ser o Senhor Aquele que reacende a nossa fé a cada ano por ocasião da festa da Páscoa. Hoje nós ouvimos esta coleta que nos apresenta o mistério da Páscoa do Senhor como fonte da nossa “renovação espiritual”, porque é a celebração alegre e festiva do mistério da nossa “adoçãofilial” que nos faz transbordar de esperança, porque se somos filhos, podemos esperar ser ressuscitados como o Filho o foi pelo amor misericordioso do Pai.

A Páscoa nos traz essa certeza de que ressuscitaremos com Cristo. Essa certeza enche o nosso coração de esperança e a esperança cristã é uma esperança alegre. A esperança cristã é uma esperança alegre porque é a certeza de que todo o mal está vencido pelo Cristo. Se Ele destruiu a morte e ela não tem mais poder de nos reter e dominar, a quem ou o que nós temeremos?

Hoje, na continuação dessa leitura do discurso de Pedro no dia de Pentecostes, nós tomamos contato com essa certeza apostólica de que a Ressurreição de Cristo é o evento central que dá sentido á fé. Pedro, utilizando-se do Salmo 15, que cantamos como resposta a esta primeira leitura, afirma que o próprio Davi já havia profetizado a ressurreição de Cristo. É de Cristo, segundo Pedro, que Davi fala no salmo afirmando: “Eis por que meu coração está em festa, minha alma rejubila de alegria, e até meu corpo no repouso está tranqüilo; pois não haveis de me deixar entregue à morte, nem vosso amigo conhecer a corrupção”. O que Davi havia profeticamente anunciado neste salmo, o Pai o realizou em Cristo, ressuscitando-o de entre os mortos, “porque não era possível que a morte o dominasse” como afirma ainda o apóstolo durante o seu discurso. Ressuscitado e, exaltado pela direita de Deus, Jesus derrama o Espírito Santo prometido pelo Pai, que produz os efeitos maravilhosos que todos podiam testemunhar naquela manhã feliz do dia de Pentecostes.

A ressurreição de Cristo é para nós um sinal. Ela é um sinal do amor do Pai pelo Filho, que se estende a cada um de nós que recuperamos na festa da Páscoa a nossa condição filial e nos tornamos filhos no Filho Único que é Cristo. Assumidos pelo Pai como filhos muito amados, carregamos em nós a certeza da nossa ressurreição. Podemos dar continuidade à voz de Cristo ao cantarmos hoje este salmo afirmando que também o Pai não nos abandonará na região dos mortos: “Eis por que meu coração está em festa, minha alma rejubila de alegria, e até meu corpo no repouso está tranqüilo; pois não haveis de me deixar entregue à morte, nem vosso amigo conhecer a corrupção”. Essa convicção que a Palavra de Deus nos traz a respeito da nossa ressurreição faz o nosso coração estar em festa e a nossa alma rejubilar de alegria. Ainda que a nossa vida seja cercada de incertezas e aflições, ainda que a inconstância seja um sinal marcante em nosso tempo, carregamos em nós uma esperança que nos enche de alegria: a certeza de que Cristo, vencedor da morte, derramou sobre nós após sua ressurreição o seu Espírito Santo, que vivificará os nossos corpos mortais.

Porque sabemo-nos filhos no Filho, chamamos a Deus nosso Pai. Por isso devemos atentar para a advertência de Pedro na sua primeira carta. “Se invocais como Pai aquele que, sem discriminação, julga a cada um de acordo com as suas obras, vivei então respeitando a Deus durante o tempo de vosso migração nesse mundo. Sabeis que fostes resgatados da vida fútil herdada de vosso pais, não por meio de coisas perecíveis, como a prata ou o ouro, mas pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mancha nem defeito”. Porque chamamos a Deus de Pai, devemos aprender a viver como filhos. O Filho fez a sua vida na terra, no meio dos homens, ser uma imagem do que é a sua vida intradivina, na intimidade trinitária: uma vida de harmonia, de obediência, de total entrega e respeito à vontade sublimíssima do Pai. Também nós que portamos o nome de filhos, devemos imitar o único Filho, e viver uma vida de respeito e obediência ao Pai. Devemos ter diante de nós o que foi o preço do nosso resgate: o sangue de Cristo. Os nossos pais nos transmitiram uma “vida fútil”, uma vida que fenece, que caminha para o fim. Cristo nos transmitiu, com a sua entrega, a vida eterna. O seu Sangue é o preço do nosso resgate. Ele apareceu em nosso meio porque nos ama. Ele nos deu a fé no Pai que o ressuscitou e lhe deu a glória. A nossa fé e a nossa esperança estão em Deus, porque cremos que Ele ressuscitou o Cristo e esperamos que Ele também nos ressuscite no último dia.

“Antes da criação do mundo ele foi destinado para isso (para derramar o seu sangue por nós), e neste final dos tempos, ele apareceu por amor de vós.” Cristo apareceu em nosso meio, por amor. Cristo está no meio de nós cada vez que celebramos a Eucaristia, porque Ele nos ama e deseja estar no meio dos seus irmãos. Essa imagem do Cristo que se coloca no meio dos homens por amor, nós a vemos no evangelho que hoje ouvimos, que é como que o coração pulsante dessa liturgia da Palavra, que ilumina todos os outros textos que ouvimos. Era o primeiro dia da semana: o Domingo. Dois discípulos iam de Jerusalém para Emaús. Aqueles que antes haviam seguido o Cristo até Jerusalém, agora, diante da sua morte, voltam com rosto sombrio, como relata o evangelista, para o seu povoado de origem. Enquanto conversam e falam, talvez, dos seus projetos frustrados, das suas expectativas a respeito de Cristo que não foram correspondidas, enquanto partilham talvez o seu escândalo diante da cruz, o próprio Ressuscitado se coloca no meio deles. Uma presença de luz no meio das trevas daquela conversa. Cristo está ali para abrir novamente os olhos dos cegos, mas agora trata-se de uma cegueira que está no espírito dos discípulos. Diante da pergunta de Cristo a respeito do tema da conversa dos dois a resposta é uma estupefação, porque Jesus não sabia, na opinião dos dois, o que havia acontecido em Jerusalém nos últimos dias. “Nós esperávamos que ele fosse libertar Israel...” Os discípulos são o retrato da desesperança. “Já faz três dias que todas essas coisas aconteceram”. Nem mesmo o testemunho das mulheres os anima: “A ele, porém, ninguém o viu”.

Os discípulos são chamados pelo Cristo de pessoas “sem inteligência”, “lentas para crer” no que os profetas anunciaram. “Será que o Cristo não devia sofrer tudo isso para entrar na sua glória?” E Cristo lhes “explicava (...) todas as passagens da Escritura que falavam a respeito dele”, começando por Moisés e passando pelos profetas. Cristo se coloca no meio dos dois como o grande exegeta do AT, mostrando que tudo convergia para Ele. O Cristo é o centro da história dos homens. Os olhos dos discípulos ainda não se abriram e, quando chegam ao povoado, Cristo faz como se fosse mais adiante. Eles, no entanto, o convidam para “permanecer com eles”. Jesus entra, senta-se à mesa, e como que repetindo o gesto da última ceia, toma o pão e dá graças. É neste momento que os olhos dos discípulos se abrem e Eles reconhecem o Cristo no partir do pão. Cristo fica invisível diante deles e eles reconhecem que o coração deles ardia quando o Cristo, pelo caminho, lhes interpretava as Escrituras. “Anastantes”, diz o texto grego, “levantando-se” voltam para Jerusalém a fim de anunciar a seus irmãos “os acontecimentos do caminho”. Lá confirmam na comunidade reunida a autenticidade da sua experiência, porque o Cristo também havia aparecido a Simão.

O Cristo Ressuscitado experimentado na comunidade reunida, segundo ouvimos no Evangelho do domingo passado, é experimentado na comunidade reunida que parte o pão, ou seja, no banquete da Eucaristia, na nossa festa dominical.

Podemos comparar essa passagem de Emaús ao banquete da Eucaristia. Também nós chegamos à Igreja muitas vezes com o rosto sombrio, como esses dois discípulos. As nossas expectativas a respeito do Cristo, do mundo e de nós mesmos às vezes são frustradas, porque construímos imagens falsas, que não correspondem à realidade. Trazemos em nosso semblante, muitas vezes, o sinal da desesperança. Somos sem inteligência, lentos de coração para entender a mensagem do Cristo. Por isso, socorrendo-nos na nossa fraqueza Ele se coloca no meio de nós como exegeta da Escritura para nos explicar, no contexto do culto, o sentido daquilo o que temos ouvido. É o próprio Cristo que, aqui na assembléia dominical, nos explica as Escrituras e nos mostra que tudo converge para Ele. O nosso coração é aquecido pela sua Palavra; o Espírito, que é fogo abrasador, aquece os nossos corações e eles são dilatados, para que, como vasos mais amplos, possamos acolher melhor o Mistério de Cristo em nós. Aqui, quando Ele parte para nós o pão da Palavra, os nossos olhos são abertos e o reconhecemos, como o reconhecemos também quando o pão e o vinho consagrados, seu Corpo e seu Sangue, são repartidos entre nós como sinal da sua “permanência conosco” e “em nós”, no mais íntimo do nosso ser.

Nós que o reconhecemos ao partir o pão, devemos, à maneira dos discípulos de Emaús, correr para levar a outros este alegre anúncio. “Anastantes”; esse verbo é fundamental. É o verbo “anistemi”, usado para indicar também a ressurreição, que é chamada “anástasis”. Ao ouvirmos a Palavra de Cristo e ao reconhecermos o Senhor no pão que Ele mesmo reparte para nós, o pão que é seu Corpo Glorioso, nós como que ressuscitados nos erguemos e saímos para anunciar aos nossos irmãos que ele está vivo no meio de nós, que Ele nos apareceu e que estamos cheios de uma renovada esperança pascal que nos enche de alegria, alegria que brota da certeza de que Ele está no meio de nós e nos ressuscitará no último dia.

Abramo-nos à graça deste dia, para que a alegria da ressurreição renove a nossa esperança e faça nascer em nós uma alegria renovada que brota da certeza de que Cristo Ressuscitou e que, com Ele, seremos também nós ressuscitados pelo Pai. Aleluia!

 

 

Páscoa, encontro com o Senhor

Surpreende que um fato tão maravilhoso, tenha tido aparentemente tão pouca repercussão. A ressurreição de Cristo que vence a morte após os

ultrajes lancinantes da Cruz, após a Via Crucis e o julgamento ignominioso realizado publicamente sobre os clamores de “seja crucificado!”, parece desaparecer num pequeno grupo que testemunha o acontecimento central da história humana: a vitória definitiva da vida sobre a morte.

No entanto, em Belém já se verificara o mesmo, no nascimento do Deus feito homem na cidade do grande rei Davi, e presenciado pelos simples pastores entre o boi e o burro do Presépio. Deus é humilde, não lhe agrada o espetáculo nem procura platéia para se exibir. É assim que encontramos Jesus no caminho com os dois discípulos desiludidos rumo a Emaús. Certamente não podiam acreditar nas santas mulheres e no túmulo vazio. Um fato como este deveria atrair a atenção de todos, quem sabe um terremoto que abalasse os fundamentos do Templo ou raios que fulminassem as casas de Anás e Caifás... Mas a vida seguia seu curso e para a imensa maioria dos moradores e peregrinos de Jerusalém o nome de Jesus agora já era coisa do passado.

Sem que se dessem conta, o Senhor caminha com eles, escuta os desabafos daqueles homens que abrem seus corações a um desconhecido. De modo firme e gentil, o desconhecido abre-lhes a mente com as palavras da Escritura, aquece seus corações com o fogo do Amor de Deus e eles não conseguem mais ficar sozinhos: “fica conosco, Senhor, pois já é tarde”... Palavras que lembram séculos depois as que serão derramadas do coração de Agostinho: “inquieto está o coração enquanto não repousa em Ti”.

A nós que caminhamos nas estradas da vida, tantas vezes marcadas pelo cansaço do caminho, pelas decepções que a vida nos surpreende e desafios cotidianos, fica para nós a imagem destes retirantes, ícone vivo de quem, ao longo da existência, se afasta de Deus e da prática da fé. Longe da vida em comunidade de fé, é sempre noite, o dia sempre declina para quem se afasta de Deus.

Que a Páscoa seja uma realidade em nossas vidas, que os que cruzam nossos caminhos no dia a dia possam sentir o desejo de Deus, a saudade

do céu, o reconhecimento de suas faltas e a alegria de quem encontra em Deus seu companheiro de viagem. Fiquem para nós as palavras de Dostoievski na célebre obra “Os irmãos Karamazov: “O paraíso começa somente no momento em que se tem coragem de reconhecer o próprio pecado”.

padre Fábio Siqueira

 

 

O Evangelho que rezamos neste domingo apresenta-nos uma viagem de dois discípulos que regressam, desiludidos, a casa, a Emaús, depois da morte de Jesus. Estamos quase na conclusão do Evangelho segundo são Lucas. Este começa, logo na primeira página, por nos dizer para quem é escrito e para que é escrito. Diz assim são Lucas: resolvi, caríssimo Teófilo, expor a ti por escrito e por ordem «os factos que entre nós se consumaram (...) a fim de reconheceres a solidez da doutrina em que foste instruído».

Várias coisas importantes podemos compreender a partir desta introdução: primeiro, este Evangelho é escrito para «ti, caro Teófilo»: este nome, em grego, significa «amigo de Deus», portanto, este Evangelho é escrito para ti, caro amigo de Deus. Em segundo lugar, sabemos que foi escrito para que tu, amigo de Deus, reconheças que aquilo que aprendeste, que a instrução que te deram acerca dos factos sobre Jesus Cristo é sólida e é verdadeira.

Esta passagem que hoje rezamos, um resumo de todo o Evangelho, mostra-nos como podemos reconhecer Jesus Cristo na nossa vida a partir da instrução que os outros nos dão. Um exemplo: imaginemos uma criança que tenha crescido afastada de sua mãe. Um dia, alguém lhe diz: «esta é a tua mãe». Essa criança é “instruída” acerca de quem é aquela mulher que vê diante de si, mas ainda não a reconhece como mãe. Aos poucos, pelo modo como ela se comporta, pelo amor que demonstra, a criança reconhece naquela mulher a sua mãe. É só na relação com a mãe que a criança a pode reconhecer.

Os Evangelhos contam-nos muitas coisas acerca de Jesus, muitos milagres e tantos encontros. Todos estes milagres são para nós sinais de uma outra coisa. Jesus chega mesmo a restituir a vida a mortos, como fez com a filha de Jairo, por exemplo, mas sabemos, no entanto, que todos aqueles a quem Jesus fez um milagre voltarão a morrer. São sempre milagres “provisórios” e são sempre sinal do verdadeiro milagre que é o que acontece a estes dois discípulos que vão para Emaús.

Estão tristes, desiludidos, de costas voltadas para Jerusalém. Sentem que tudo não passou de um sonho, mas através das palavras de Jesus, que lhes mostra o significado das Escrituras, compreendem que era necessário que o Messias passasse por tudo o que teve de passar. Escutando as palavras de Jesus, começa a arder-lhes o coração, começa tudo a fazer sentido no coração. A Palavra muda a vida! Quando se deixam tocar pelas palavras de Jesus, quando finalmente O reconhecem no partir do pão, regressam imediatamente a Jerusalém. E é este o verdadeiro milagre! Perceber o sentido da vida, perceber que nada nesta vida nos pode afastar do Amor de Deus.

Para estes discípulos, e para nós tal como para eles, é a experiência do encontro com o Senhor que os faz passar da morte à vida. É o encontro com a Palavra que nos faz passar de uma vida para a morte, preocupados com as nossas coisinhas, como se esta vida fosse a única realidade que importa, de uma vida triste, desolada, escura, à vida verdadeira da alegria e da luz da comunhão com os outros.

Os dois discípulos que caminhavam para Emaús até sabiam muitas coisas: eles conheciam Jesus! Mas não tinham compreendido nada. Sabiam coisas, mas ainda não tinham experimentado a presença do Senhor vivo e presente na vida deles. A fé é o encontro com o Senhor ressuscitado, é experimentar que Jesus está vivo e operante na nossa vida.

 

 

Em tempo de Páscoa, a liturgia da Palavra deste domingo recorda-nos que a presença do Ressuscitado acontece no seio da comunidade. Cronologicamente, tudo se passou há cerca de dois mil anos, mas a verdade é que Jesus continua vivo e atuante no mundo.

O Evangelho de são Lucas traz-nos mais um relato da aparição de Jesus. Depois do encontro com os discípulos de Emaús, que regressam a Jerusalém para contar a Boa Nova, o próprio Ressuscitado Se apresenta no meio da comunidade cristã com as palavras: «A paz esteja convosco». É sempre esta a saudação que dirige àqueles com quem Se encontra, a trazer a paz de Deus aos corações atribulados e inquietos depois dos últimos acontecimentos. Feridos pela experiência da cruz e com a morte do Mestre, têm dificuldade em acreditar no que vêem. Espantados e cheios de medo, diz-lhes Jesus: «Porque estais perturbados e porque se levantam esses pensamentos nos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo; tocai-Me e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que Eu tenho».

Uma coisa que Jesus faz hoje é mostrar as suas chagas, sinal da sua vida entregue por nós. As chagas são isto mesmo, sinal do dar a vida. Também nós temos as nossas chagas, feridas de relações e de acontecimentos que nos fizeram sofrer, mas também da entrega aos outros. Neste dia, posso rezar as minhas chagas, oferecê-las a Jesus e pedir a sua cura.

Um outro elemento importante do tempo pascal está nas experiências com Jesus ressuscitado acontecerem quando a comunidade está reunida. É no contexto eclesial dos crentes que partilham a mesma fé – na escuta da Palavra, na fração do pão, na partilha fraterna e na caridade – que se abre o entendimento ao mistério pascal. É aqui que Jesus Se despede dos discípulos dizendo: «Vós sois as testemunhas de todas estas coisas», a prepará-los para a missão de anunciadores da Boa Nova do reino de Deus.

Nos Atos dos Apóstolos, encontramos um destes testemunhos, a partir do discurso do apóstolo Pedro: «Negastes o Santo e o Justo e pedistes a libertação de um assassino; matastes o autor da vida, mas Deus ressuscitou-O dos mortos, e nós somos testemunhas disso». E completa: «arrependei-vos e convertei-vos, para que os vossos pecados sejam perdoados». Também S. João, na sua primeira Epístola, dá testemunho do encontro com Jesus ressuscitado: «se alguém pecar, nós temos Jesus Cristo, o Justo, como advogado junto do Pai. Ele é a vítima de propiciação pelos nossos pecados».

O pescador da Galileia, instituído a Pedra da Igreja, e o mais jovem do grupo dos Doze recordam aos crentes que o Ressuscitado continua a revelar-Se aos corações dos humildes, daqueles que se reconhecem frágeis e pecadores diante de Deus. Se a debilidade humana enfraquece o amor e a fidelidade ao Senhor, também a graça do sacramento da reconciliação fortalece a fé dos cristãos. Não será esta uma oportunidade de procurar um sacerdote para ver como anda a relação com Deus? Como tornar este tempo pascal mais sintonizado com Jesus, que Se quer fazer presente na vida de cada um de nós?

 

 

Questões fundamentais da existência humana

Na liturgia deste III Domingo da Páscoa, vemos, na 1ª leitura (At. 3,13-15.17-19), que, em nome de Jesus, Pedro faz andar um paralítico. Isso mostra que Jesus está vivo e continua a agir; é, pois, sinal que o Pai o ressuscitou. Pedro testemunha Jesus com palavras e gestos e faz um apelo ao arrependimento e à conversão para o perdão dos pecados. A partir deste texto, ficam as seguintes questões: Quem é perigo para a sociedade: Jesus? As autoridades políticas que agiram por interesses? O povo que agiu por ignorância e preconceito?

Na 2ª Leitura (1Jo 2,1-5a), vemos que Jesus é o advogado, o auxílio, o intercessor nosso junto ao Pai, e o é porque é vítima de expiação por todos. Essa verdade exige de cada um de nós uma atitude de conversão e de engajamento numa vida de amor que se realiza na observância dos mandamentos.

No Evangelho (Lc. 24,35-48), Jesus nos anuncia a paz: "A paz esteja convosco", paz que significa a tranquilidade da ordem, harmonia consigo, com o outro, com a natureza e com Deus. Diante disso, fica a questão: Que soluções damos aos problemas existenciais? A reflexão é um pouco longa, mas, quem puder, penso que vale a pena.

Questões Fundamentais da Existência Humana

De onde vim? Para que existo? Que sentido tem a vida? Para onde vou?

O modo de ser no mundo se constrói na medida em que a vida é organizada em quatro direções ou relações fundamentais de todo ser humano: o eu (si mesmo), o nós (o outro), o mundo (a natureza) e o transcendente (o infinito). Vejamos. 

1º - O “Eu” (si mesmo)

Já construímos muitas referências sobre nós mesmos: antropologia, psicologia, medicina e outras ciências. Mas sabemos quem somos? Sabemos muito sobre nós mesmos? Continuamos incógnitos, mistério. Solucionamos nossos problemas existenciais: medos, angústias, depressão etc.?

Somos seres individuais, somos pessoa humana. Pessoa é o indivíduo humano desde que nasce e por toda sua vida, independentemente de circunstâncias “A pessoa é o que há de mais perfeito em toda a natureza” (São Tomás de Aquino). Pessoa (persona, máscara, mistério) difere de indivíduo (individuus: significa o que não pode ser dividido logicamente, é o ser concreto, básico, de qualquer espécie. Ex: é este cão, esta flor, esta mesa..., no sentido de que o indivíduo é uma unidade de qualquer tipo: irracional, inanimado etc.); pessoa é o indivíduo racional, humano, é o indivíduo mais marcado pela individualidade, pois toda pessoa tem sua profundidade e seu mistério inconfundíveis.

Somos seres marcados pela individualidade, não temos preço, temos dignidade, fazemos a diferença no universo. Não podemos nos massificar (todo mundo pensando igual), não fomos criados em série, nos diferenciamos dos animais que comem, bebem, dormem e se reproduzem sempre da mesma forma. O ser humano tem consciência, sabe que sabe.

2º - O “Nós” (o outro)

Já construímos muitas referências sobre as relações sociais. Quanto mais sabemos, menos sabemos: “Só sei que nada sei, e o fato de saber isso, me coloca em vantagem sobre aqueles que acham que sabem alguma coisa” (Sócrates, In Platão, Apologia 21d).

Somos mergulhados numa sociedade: família, escola, igreja, clube, empresa, política etc. Somos sociais por natureza, o ser humano é o único animal que não sobrevive sem a comunidade. Para desenvolver sua virtualidade e adquirir personalidade, o ser humano precisa de contato com os seus semelhantes; é isto o fundamento natural da vida do homem em sociedade. O homem é um ser social por essência, não vive sem o outro. Ex: até na sua anatomia, sexualidade (estrutura biológica) a pessoa necessita se abrir para o outro. Os animais sobrevivem mais facilmente. A pessoa é adestrada para a vida, herdeira de seus genitores e das gerações de seus antepassados.

A teologia ressalta aquela insatisfação que se apodera da vida do homem no Éden, quando lhe resta como única referência o mundo animal e vegetal, insatisfação que somente acaba com a aparição da mulher, com a qual o homem pode ter um diálogo interpessoal, diálogo entre dois espíritos possuidores do mesmo espírito de Deus. No outro, o homem vê Deus, e este é o fundamento da igualdade e do amor (ágape) entre os seres humanos, que não estarão diferenciados em raça, língua e direitos.

O conceito de pessoa como ser dotado de dignidade e ser relacional-social obriga a comunidade humana a construir relações orgânicas, harmoniosas e mútuas entre os homens. A Doutrina Social nasce exatamente dessa obrigação. Aquilo que se opõe à harmonia, à justiça, à igualdade e à liberdade é, filosoficamente, um mal social, uma agressão ao próximo. Um mal que a teologia chama ‘pecado social’ (Ver Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 110-125; 566).

Sabemos viver com os outros? E as guerras, as favelas, a fome etc.? “O inferno são os outros” (Sartre). Sabemos viver com os diferentes de raça, gênero, condição social, diversidade sexual? “Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo” (Voltaire, In Os amigos de Voltaire).

A organização da sociedade deverá ter por finalidade o bem-estar da pessoa humana

A finalidade da Doutrina Social da Igreja (DSI) é sempre a promoção e a libertação total da pessoa humana, em sua dimensão terrena e transcendente. O coração e a alma da DSI é a pessoa humana, porque a sua dignidade funda-se no fato de que ela foi criada à imagem e semelhança de Deus e elevada a um fim sobrenatural que transcende a vida terrena.

O objeto da DSI é a sociedade humana. Porque nela está presente o princípio da natureza social e a dignidade humana. As coisas, os bens materiais, as estruturas sociais, as próprias leis existem em função do bem das pessoas. O fim da sociedade é a realização de todos os seres humanos, colaborando uns com os outros. A pessoa humana é “autor, centro e fim” de toda vida econômica, social e política: “Uma vez que a pessoa humana, por sua natureza, necessita absolutamente da vida social, é e deve ser o princípio, o sujeito e o fim de todas as instituições sociais. Não sendo, portanto, a vida social algo acrescentado ao homem, este cresce segundo todas as suas qualidades e torna-se capaz de responder à própria vocação, graças à interação com os demais, ao mútuo serviço e ao diálogo com seus irmãos” (GS, 25).

As condições de vida em qualquer meio social dependem, fundamentalmente, da estima que se faz da pessoa que nela está imersa, do quanto se preocupa com o que ela come, veste, por onde anda, em que trabalha e que dignidade tem em seu serviço. Assim também, da forma como ela pode se expressar, agir, viver etc. Sendo observados todos esses elementos, a qualidade de vida do ser humano deve melhorar, pois a ele será dado valor digno.

Por estes e outros fatores, surgem várias questões filosóficas, sociais, culturais, religiosas e políticas, todas convergindo para o mesmo ponto: o valor que se dá e se faz da dignidade da pessoa humana. Hoje, há uma tendência em se falar muito disso, em se arrumar inúmeras soluções para o problema da humanidade, ou mesmo considerá-la como problema. E, dentro de tudo isso, o importante é considerar o ser humano como sujeito de seu processo histórico, autor e protagonista de sua própria peça em que encenam uns e outros, lado a lado, como aqueles por quem se faz um mundo melhor, pautado na dignidade e em todos os benefícios que dela emanam.

padre Leomar Antonio Montagna

 

 

Os sinais do Crucificado-Ressuscitado e da missão

A presença de Jesus, que acompanhava os dois discípulos a caminho de Emaús (Lc. 24,13s), concluiu-se com a descoberta da identidade daquele misterioso caminhante que lhes explicava as Escrituras, lhes fazia aquecer o coração, partia o pão... “Então abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-no. Mas ele desapareceu da sua vista... E partiram imediatamente e regressaram a Jerusalém” (Lc. 24,31.33). É neste momento que tem início o texto de Lucas que temos hoje, com os Onze apóstolos e os Dois de Emaús que partilham as próprias experiências de encontro com o Ressuscitado (v. 34-35). Ao fim daquele dia - o primeiro do novo calendário da história humana! - Jesus aparece em pessoa a todo o grupo e diz: “Paz a vós!” (v. 36).

As experiência pascal dos discípulos, que vêm e reconhecem o senhor ressuscitado, torna-se anúncio, ou melhor, torna-se o autêntico fundamento da missão dos apóstolos e da Igreja de todos os tempos e lugares. O texto lucano de hoje começa e se conclui com o mesmo anúncio pascal: os dois de Emaús falam do encontro que tiveram com o Ressuscitado e os onze são enviados por Jesus a pregar “a todos os povos a conversão e o perdão dos pecados” (v. 47).

Os apóstolos não eram gente que se fosse em crendices, é com grande dificuldade que acreditam na ressurreição de Jesus. Lucas insiste, antes de mais notando que estavam alarmados, cheios de medo, perturbados, duvidavam, pensavam que fosse um fantasma (v. 37-38); e depois, insiste em apresentar provas da vida corpórea do Ressuscitado. Pela sua parte, Jesus insiste dizendo: “Sou mesmo eu!” (v. 39), e dá provas palpáveis da sua identidade, o mesmo Jesus “em carne e osso”: diante deles come um pedaço de peixe asado (v. 43), convida-os a ver e tocar as mãos, os pés, o costado (v. 39). Finalmente, os discípulos rendem-se e acreditam: a chagas da paixão tornam-se os sinais visíveis e tangíveis da identidade e continuidade entre o Cristo histórico e o Cristo Ressuscitado.

Normalmente, a não ser em circunstâncias e exames especiais, as pessoas são identificadas pelo próprio rosto. Mas no caso de Jesus, ele quer que os seus discípulos - Tomé em particular - o reconheçam pelas suas mãos, pés e costado. “Chama assim à atenção sobre as feridas causadas pelos cravos e pela cruz, auge de uma vida gasta por amor. Mesmo quando ressuscitado, o corpo de Jesus conserva ainda os sinais do dom total de si mesmo... Também o cristão há-de ser reconhecido pelas mãos e pelos pés... O anúncio da ressurreição de Cristo é eficaz e credível somente se os discípulos puderem, como o fez o Mestre, mostrar à gente as suas mãos e os seus pés marcados pelas obras de amor” (F. Armellini).

As três leituras do Novo Testamento que se nos oferecem neste domingo pascal estão unidas por tema comum: a conversão e o perdão dos pecados. Estes dois elementos - conversão e perdão - têm a sua origem na Páscoa de Jesus e são parte essencial da proclamação missionária da Igreja. Pedro (1ª leitura) assim o declara na praça pública no dia de Pentecostes: “Convertei-vos e mudai de vida, para que os vossos pecados sejam cancelados” (v. 19). E João (2ª leitura) exorta amorosamente (diz: “meus filhinhos”) a não pecar, e se mesmo assim acontecesse, há sempre uma tábua de salvação: “temos um advogado... Jesus Cristo o justo... vítima de expiação pelos pecados de todo o mundo” (v.1-2).

Esta bela notícia da salvação é um dom que o Espírito Santo nos oferece, dom que, seja em Lucas seja em são João, está ligado ao perdão dos pecados. Esta ligação é evidenciada também na fórmula da absolvição no sacramento da penitência, como também numa oração da Missa onde se invoca o Espírito Santo porque “Ele é a remissão dos pecados” (cf. oração sobre as ofertas no sábado antes do Pentecostes).

No Evangelho de são João, a instituição do sacramento da reconciliação para o perdão dos pecados tem lugar mesmo no dia de Páscoa: “A quem remeterdes os pecados serão remetidos” (Jo 20,23). O perdão dos pecados é, assim, um presente pascal de Jesus. Com razão o grande teólogo e moralista Bernardo Häring, chama a confissão: o sacramento da alegria cristã”. Para Lucas, “a conversão e o perdão dos pecados” são a boa notícia que os discípulos deverão pregar “a todas as gentes”, em nome, isto é, pelo mandato de Jesus (Lc 23,47). São estes os sinais do Crucificado-Ressuscitado, os sinais da missão.

padre Romeo Ballan

 “Ela (a Igreja) é uma rede com peixe bom e peixe fraco, um campo com semente de cizânia... no fundo, é consolador o fato que existe a cizânia na Igreja. Deste modo, mesmo com todos os nossos defeitos, ainda podemos ter a esperança de seguir Jesus, que chamou mesmo os pecadores. A Igreja é como uma família humana, mas também é, ao mesmo tempo, a grande família de Deus, mediante a qual Ele cria um espaço de comunhão e de unidade através de todos os continentes, culturas e nações. Assim, temos a alegria de pertencer a esta grande família que vemos aqui; temos a alegria de encontrar irmãos e amigos de todo o mundo” (Bento XVI - Vigília de oração com os jovens, Colônia, 20.8.2005)

 

 

O coração materialista centra-se no que é secundário

Foi dito que «seguir Cristo é entrar num mundo do avesso», e que «é preciso conservar o coração livre para amar o Senhor e fazer a sua vontade». Um mundo do avesso, o que é que será? Uma resposta simples é esta: o homem foi criado para conhecer e amar a Deus (e ao próximo), e observar os Mandamentos da Lei de Deus. E aqui é que a língua bate onde o dente dói: as leis formuladas muitas vezes por certos legisladores humanos são contrárias às leis que Deus deu à humanidade para viver em paz e harmonia.

É o velho jogo da Antiga Serpente, Satanás, com Adão e Eva. Pergunta ele a Eva: é verdade que Deus vos proibiu de comer do fruto da árvore? Resposta de Eva: sim, pois Deus disse-nos que se dele comermos, morreremos. Ataca Satanás: isso é treta! Não morrereis. Deus disse-vos isso porque sabe que se comerdes da árvore, sereis como Deus, ficareis a conhecer o bem e o mal – isto é, sereis vós a decidir o que é bem e o que é mal… O resto é história, a nossa história crivada de mortes e de dor.

Um problema de muitos nós é identificarmo-nos com as coisas materiais que tão grande parte são da nossa vida - e do nosso coração. O coração livre usa as coisas para seu bem e para bem do próximo. O coração materialista centra-se no que é secundário, que não pode de per si produzir em nós a realização que o ser humano deseja e necessita. Entre nós existe hoje uma profunda negação da identidade que os nossos antepassados tinham ao fundarem a nossa pátria. Sem usar a inteligência, a alma e o coração, o homem não passa dum animal de duas patas. É triste ver certos governantes que passam a vida a opinar e a contrariar as opiniões uns dos outros: um jogo que destrói à população os direitos a uma vida decente e digna.

Há quem veja já, e justamente, uma luzinha avançar do fundo do túnel. Fartos de tanto palavreado oco e contraditório, estão muitos do povo a organizarem-se para se ajudarem e ajudarem os mais fracos, os mais expostos à degradação de seres humanos que lhes é imposta. Vozes de bom senso surgem cada vez mais que apontam para soluções nobres. O Espírito do Senhor é um Espírito que sugere o bem, a solução dos problemas. Mas o problema é escutar este Espírito, que muitos do povo escutam, enquanto tantos daqueles que mais obrigação têm de escutar parecem continuar a endurecer o seu entendimento. Maneirinha, cresce lentamente a esperança. Os corações verdadeiramente livres para amar estão a fazer das suas, estão a contribuir muito para dulcificar nos tristes os venenos que o egoísmo criou. «E veremos então todos que o Senhor, por meio de nós, faz maravilhas, que Ele ouve quando em verdade por Ele chamamos». A verdade, essa sim, vencerá.

 

 

 

As Sagradas Escrituras têm em si o dom de falar ao coração dos homens de todos os tempos. Tantos sistemas de comunicação evoluem e transformam-se com o passar dos anos. A Palavra de Deus permanece a única fonte de certeza que pode guiar a humanidade pelos caminhos da compreensão e da confiança. Envelhecem os sistemas políticos, mudam os conhecimentos sociais e científicos, mas Cristo é sempre o mesmo, ontem, hoje e para sempre.

A caraterizar todo o crescimento da vida tem de ser a atitude de conversão da parte dos seres humanos. Converter-se significa conhecer-se a si próprio a partir da luz de Cristo ressuscitado e da sua palavra. Feito para viver da glória divina, quando o homem vive só de ‘pão’ material, quer dizer, de tudo aquilo que fica aquém ou fora do espírito, o coração humano soçobra no vazio que enfastia. Depois de 33 anos à procura de realização materialista, Agostinho de Hipona compreendeu, finalmente, a verdade e gritou: “Fizeste-nos para Vós, Senhor, e o nosso coração sente-se vazio até se encher de vós”. Caminhando horas com Jesus sem o reconhecerem, os dois discípulos de Emaús confiavam depois um ao outro: “Não nos ardia cá dentro o coração quando Jesus nos falava no caminho e nos desvendava as Escrituras?”.

As sociedades dos nossos dias assemelham-se a corpos envelhecidos pelas inanidades do materialismo. Fome enorme de ter, de possuir, mas pouco desejo de partilhar. E, aqui e ali, focos de esperança alimentados pela dedicação e o dar aos mais pobres e frágeis. Palavreado retumbante que pouco ou nada resolve de um lado e, do outro, sentido pleno de bondade que do amor a Deus se expande no amor ao próximo. No arrependimento e no perdão nasce uma família nova onde todos se podem sentir irmãos e irmãs. Vinda de Deus, só a Deus voltando, pode a humanidade vir a conhecer-se a si própria, as suas fragilidades e os seus recursos. Conversão nos nossos dias significa também que os cristãos devem tornar-se, cada vez mais, fermento verdadeiro da sociedade em que vivem, nela injetando a maneira de viver a vida que Cristo ressuscitado nos deixou. “Há quem diga: «Quem nos dará a felicidade?»”, como pergunta o salmo responsorial de hoje. E logo vem a resposta: “O Senhor fará brilhar sobre nós a luz do seu rosto!”.

padre Aventino Oliveira

 

 

A vida do Ressuscitado se prolonga nas ações dos apóstolos!

As leituras da Palavra de Deus deste 3 domingo da Páscoa dão sequência à reflexão do domingo passado e, continua revelando a importância da comunidade eclesial para suscitar a fé dos que estão fora da mesma, pelo testemunho de vida. Tal testemunho deve ser percebido pela capacidade da comunidade prolongar com sua vida, a vida do Ressuscitado: a ausência física do Ressuscitado deve ser compensada pela presença física da comunidade no mundo e, para tanto, a comunidade deve prolongar tudo o que o Senhor disse e fez!

Ora, sabemos que tal missão não é tarefa fácil e, por isso, na semana passada, o Senhor Ressuscitado enviava a comunidade e oferecia o Seu Espírito para garantir o sucesso da missão (Jo. 20,21-22).

Mais uma vez, no Evangelho de hoje nos deparamos com a aparição do Ressuscitado aos seus. O contexto da narrativa nos é familiar pois estamos na sequência do texto dos "discípulos de Emaús". É após o reconhecimento do Senhor ao partir o pão que aqueles dois discípulos regressam para Jerusalém, de onde haviam saído acabrunhados, tristes, decepcionados com a morte do Senhor e, se juntando aos demais, anuncia-lhes a novidade: "O Senhor está vivo!" Tal testemunho é confirmado pela visita do próprio Senhor (mais uma aparição). Poderíamos nos perguntar: "Por que o Senhor aparece tantas vezes depois de sua Ressurreição?" "Qual o sentido de tantas narrativas deste tipo nos Evangelhos?" E, a resposta é muito simples! Vejamos.

Sabemos que, com a Morte, Ressurreição e Ascensão do Senhor aos céus, a missão que fora iniciada por Ele deverá ser levada a bom termo, pelo seus discípulos. Ora, para que os discípulos aceitem e assumam tal missão pra valer, eles precisavam acreditar no que iriam anunciar, isto é, precisariam viver o que anunciariam. para viver o que anunciam somente passando por uma experiência pessoal com o ressuscitado (daí, a importância do relato de Tomé na semana passada: "Todos os membros da comunidade devem fazer a sua experiência com o Ressuscitado pois, caso contrário, não conseguirão dar testemunho"). É este o objetivo de tantas narrativas de aparição do Ressuscitado nos Evangelhos: todas querem suscitar a fé na Ressurreição para a que o testemunho seja acreditado por todos (as).

Os discípulos precisam crer na Ressurreição não como uma "historinha qualquer" mas como um fato ocorrido verdadeiramente. Por isso Jesus Ressuscitado aparece, deseja a Paz, pede que toquem nas marcas da Paixão e não O confundam com um fantasma pois o anúncio não seria de um fantasma, não seria uma ficção mas, sim, uma verdade para a vida e, sobretudo, para a mudança da vida! O Ressuscitado come com os seus para provar que estava vivo e, após a refeição recorda-lhes o que havia dito quando ainda estava no meio deles: "São estas coisas que vos falei quando estava convosco: era preciso que se cumprisse tudo o que estava escrito sobre mim, na Lei de Moisés, nos profetas e nos salmos!" E, como na passagem anterior com os dois discípulos de Emaús, o Senhor vai "abrindo a inteligência dos demais discípulos para entenderem as Escrituras!"

Quem não faz tal experiência, de cunho pessoal com o Ressuscitado não entenderá o real sentido da Ressurreição e, automaticamente, não terá condições para dar testemunho pois, ninguém testemunha o que não experimentou como verdade pra si! O Evangelho termina afirmando: "Vós sereis testemunhas de tudo isso!" Viver a Páscoa é fazer a experiência pessoal com o Ressuscitado e, na medida em que a experiência for crescendo e a verdade ficando mais clara para nós, o nosso testemunho vai se lapidando, se purificando até conseguirmos prolongar, em todos os sentidos, a vida do Ressuscitado em nós.

Foi isso que as primeiras comunidades conseguiram fazer: os apóstolos, que fizeram a sua experiência pascal com o Senhor, prolongam com sua vida a Vida do Senhor Ressuscitado. Na primeira leitura de hoje (At. 3,13-15.17-19) vemos o discurso de Pedro quando questionado por ter feito "um paralítico andar na porta do Templo". O apóstolo Pedro dirá que não foi ele quem fez o milagre mas o próprio Jesus que Vivo agia nele e nos demais crentes na Ressurreição (lembre-se: a vida do Ressuscitado se prolonga naqueles (as) que fizeram a experiência pessoal com Ele!)

Em seu discurso, Pedro faz um contraponto entre Deus e os homens: "os homens mataram o Senhor; Deus, O Ressuscitou! Os homens entregaram o Senhor, pediram a liberdade para um assassino, mataram o autor da vida; Deus O ressuscitou dos mortos!" Percebemos, aqui, o contraste entre a vontade e ação de Deus e a vontade e ação dos homens: enquanto o primeiro está à favor da vida, os segundos, se colocam à serviço da morte!

Porém, nem tudo está perdido pois a possibilidade de mudar é oferecida a todos (as): "Arrependei-vos, portanto, e convertei-vos, para que os vossos pecados sejam perdoados!" Eis o grande convite feitos a cada um (a) de nós neste tempo pascal e em toda a nossa vida!

Na segunda leitura (1Jo. 2,1-5a) vemos uma continuidade do assunto da primeira leitura: outro apóstolo (João) escreve que "o ideal é não pecar mas, se o pecado, mesmo sem o nosso querer, acabar nos apanhando não é preciso ficar desesperado, isto é, perder a esperança pois, temos um Defensor diante do Pai, a saber, Jesus Cristo, o Justo!" Que excelente notícia esta: "Temos uma vítima de expiação pelos nossos pecados e pelos pecados do mundo inteiro!"   Quem faz a experiência desta verdade, guardará os mandamentos e provará o seu amor por Deus! É isto que o tempo pascal quer produzir em nós! Façamos a experiência e vejamos se a Palavra de Deus não se cumpre em nós!

padre Ezaques

 

 

A liturgia da Palavra deste 3º domingo da Páscoa, como continuação do mistério pascal, diz-nos que Jesus ressuscitou de entre os mortos e alerta-nos já para o mistério da presença real, através da expressão «fração do pão», cuja participação por parte dos cristãos exige o perdão dos pecados que nos foi garantido pelo mistério da morte e Ressurreição de Cristo.

Como os primeiros discípulos, é na «fração do pão» que nós reconhecemos hoje o Senhor Jesus. Na verdade, na Eucaristia, Jesus torna-se contemporâneo do homem, para percorrer com ele os caminhos da vida.

«Memorial» do Senhor, a eucaristia não é uma simples evocação de uma personagem histórica: é toda a Pessoa viva de Jesus, é toda a sua obra que, na eucaristia, se converte em acontecimento real para os homens de hoje.

Temos necessidade de aprofundar cada vez mais e melhor toda a doutrina da «presença real» e das suas exigências para a nossa vida de união sacramental com Cristo, que o mesmo é dizer, com a alma limpa do pecado grave.

Na 1ª leitura é Pedro que diz a todo o povo que temos que nos arrepender dos nossos pecados, pois que eles nos impedem de viver em união com Cristo “Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que os vossos pecados vos sejam perdoados”.

Tal como aconteceu aos Judeus, que fizeram do Servo de Deus, um «Servo sofredor», também nós, se não reconhecermos o Messias e não nos convertermos a uma vida sem pecado, não poderemos adquirir uma ação renovadora pela prática dos sacramentos, especialmente a eucaristia que é para nós o próprio rosto de Cristo, como aclama o salmo responsorial: “Erguei, Senhor, sobre nós, a luz do Vosso rosto”.

Na 2ª leitura, são João, aponta Jesus como nosso defensor, e vítima pelos nossos pecados, recomenda que é preciso cumprir os mandamentos para se viver segundo a vontade de Deus.

“É guardando os Seus mandamentos que nós sabemos se O conhecemos. Quem diz: «eu conheço-O» e não guarda os mandamentos é mentiroso, e a verdade não está nele”.

Jesus Cristo, para nos livrar do mal, aceitou ser vítima de expiação por todos nós, tornando-Se assim o nosso advogado, o nosso intercessor junto do Pai

Só Ele pode fortificar a nossa fé e sustentar a nossa fidelidade.

Exige-se apenas que amemos a Cristo, esforçando-nos por traduzir a nossa fidelidade pela observação dos Seus Mandamentos, mas talvez, se muitos de nós não sabemos quais são os mandamentos de Deus e os preceitos da Igreja, como é que os podemos cumprir?

No Evangelho são Lucas apresenta-nos os discípulos que contam como Jesus se juntou a eles no caminho de Emaús, e que só O reconheceram na «fração do pão».

“Os discípulos de Emaús contaram o que tinha acontecido no caminho e como Jesus se-lhes dera a conhecer ao partir do pão” (Evangelho).

Isto aconteceu no próprio dia da Ressurreição. Os discípulos voltaram para Jerusalém e, quando contavam estas coisas maravilhosas e impressionantes, Jesus apareceu no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco».

Quem vive em pecado não pode ter paz ! Quem não ficaria impressionado e atônito perante todos estes acontecimento, logo após a Morte de Jesus, que os discípulos, por momentos, julgaram como um fracasso ?

Mas Jesus aparece visivelmente aos Apóstolos e convida-os a tocarem no seu Corpo (agora glorificado), para não ficarem dúvidas e para mostrar a realidade da sua Ressurreição. A ressurreição de Cristo insere-se não só no centro do cristianismo, como também no próprio centro da história.

Com a ressurreição, realiza-se em Cristo, por antecipação, a sorte que nos espera como nosso futuro; em Jesus ressuscitado realiza-se aquela plenitude que todo o homem busca na sua vida.

A ressurreição de  Cristo é a aurora do mundo novo, da nova criação, que levará à plenitude as aspirações de amor, de justiça, de paz e de solidariedade que estão latentes na complexidade deste nosso velho mundo.

Essa ressurreição do Senhor não deve, pois, ser separada e desarticulada da história do universo, da nossa história real e quotidiana onde tem as suas raízes.

Não há ruptura entre a história de Deus e a história do homem, entre a “História da Salvação” e uma história que se desenrola unicamente nos parâmetros humanos, fora da órbita salvífica. Há uma só história, e está nas mãos de Deus, que a dirige e conduz, respeitando misteriosamente o esforço e a iniciativa do homem.

A ressurreição de Cristo inscreve-se nessa única história, dela é parte viva, começa desde já a fermentar o mundo e a impeli-lo para a meta final da sua plenitude escatológica.

É o tempo da Igreja, que dá testemunho do Reino que vem. Uma Igreja solidamente enraizada no passado e simultaneamente toda voltada para o futuro, toda em atuante expectativa, toda cheia duma esperança que guia e estimula o seu impacto sobre as realidades terrenas.

Uma Igreja que vive no “hoje-e-aqui” a sua fé, esperança e caridade, numa criatividade genial e sempre nova, porque sabe que o mistério da Encarnação é um mistério pascal, que deve fazer passar da morte para a vida toda a realidade e atividade humana, libertando-a de todo o mal e levando-a à sua plenitude em Cristo, como seguro instrumento e garantia do plano da História da Salvação.

Diz-nos o Catecismo da Igreja católica:

1329. Fração do pão, porque este rito, próprio da refeição dos judeus, foi utilizado por Jesus, quando abençoava e distribuía o pão como chefe de família, sobretudo aquando da última Ceia. É por este gesto que os discípulos O reconhecerão depois da Ressurreição (Emaús), e é com esta expressão que os primeiros cristãos designarão as suas assembléias eucarísticas. Querem com isso significar que todos os que comem do único pão partido, Cristo, entram em comunhão com Ele e formam um só corpo n’Ele.

1342. Desde o princípio, a Igreja foi fiel à ordem do Senhor. Da Igreja de Jerusalém está escrito : Os irmãos eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações (...). Todos os dias freqüentavam o Templo, como se tivessem uma só alma, e partiam o pão em suas casas ; tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração (At. 2,42-26).

John Nascimento

 

 

Brilhe para nós a luz da sua face!

Nós povo de Deus, estamos diante do Evangelho de são Lucas, que relata à aparição do Senhor aos seus discípulos. O Evangelho de hoje é lindo e maravilhoso. A vida venceu a morte, Jesus está vivo, ressuscitado e glorioso!

Ao  anoitecer daquele primeiro dia da semana, os discípulos que haviam retornado de Emaús, contavam alegremente aos irmãos, a experiência de como, tinham reconhecido o Senhor na fração do pão, eis que de repente, Jesus se pôs entre eles, como vindo do nada, mas vivo, radiante e maravilhoso com a saudação:"A paz esteja convosco!" (Lc. 24,35-48)

Ninguém podia acreditar no que viam. O Senhor disse: "Sou eu mesmo, vede um espírito não tem carne nem ossos, vedes que tenho. "Ao toca-lo alegraram, mas ainda tinham dúvidas, até que viram-o comer um pedaço de peixe assado. Ele era real..! Então Nosso Senhor abriu lhes o entendimento, explicou tudo a eles (Lc. 24,39-40).

A sua paixão, sua morte, sua ressurreição e sua missão salvífica, a vida nova que viam, e eles começaram a entender; e as coisas foram tornando sentido para eles, iluminados pelo "Homem Novo". Que alegria o Senhor Jesus está vivo..! Aleluia!

Jesus confia aos Apóstolos, uma missão difícil, pois teriam que sair do esconderijo, onde se escondiam por medo dos judeus, e ir anunciar o Evangelho a todas as pessoas; falar do Reino dos céus.

Dizer a todos, que Jesus Cristo havia ressuscitado dos mortos ao terceiro dia, e deveriam pregar a todos os povos a conversão dos pecadores. Iniciassem a missão confiada, começando  pela Galileia, Jerusalém e ir até os confins do mundo (Mc. 16,15-20).

Mas antes deveriam aguardar em Jerusalém, a festa da Páscoa dos judeus. Deveriam estar todos juntos unânimes, em intensa vigília à espera do Paráclito prometido pelo Senhor.

 E, eles cumpriram a risca, as ordens de Jesus ressuscitado, e permaneceram em oração, juntamente com as mulheres, entre elas a mãe de Jesus e os irmãos do Senhor (At. 1,12-14; "Irmãos" no hebraico quer dizer "parentes, primos").

 E foi naquele dia maravilhoso de Pentecostes, que o Espírito Santo prometido repousou sobre eles, enviado pelo Pai do céu, àqueles discípulos medrosos, tímidos, e agora cheios do Espírito de Deus saíram a anunciar, "Jesus Crucificado Ressuscitado."

Naquele manhã de Pentecostes Pedro cheio do Espirito Santo, pregou a palavra, e os judeus ficaram compungidos no intimo de seus corações e dissertam: Que devemos fazer irmãos? Pedro respondeu: "Arrependei-vos e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos pecados!" (At. 2,37-38)

"Pedro cheio do Espírito Santo falou com autoridade ao povo sem medo dizendo: 13 "O Deus de Abraão, de Isaac, de Jacó, o Deus de nossos antepassados glorificou o seu servo Jesus. Vós entregastes e o rejeitastes diante de Pilatos, que estava decidido a solta-lo.

14 "Vós rejeitastes o Santo  e o justo, e pedistes a libertação para um assassino. 15 Vós matastes o autor da vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos, e disso nós somos testemunhas [16,17,18]  19 Arrependei-vos portanto, e convertei-vos, para que vossos pecados sejam perdoados." (At. 3,13-15)

Aqueles discípulos tímidos, agora cheio do avivamento do Espirito Santo, nada pode impedi-los, são audazes ao anunciar o Evangelho do Cristo ressuscitado, porque fizeram uma experiência  no amor de Deus.

Nosso Senhor neste Evangelho, deseja a paz a todos, e desafia a cada um de nós sermos testemunhas Dele, onde estivermos. O cristão é chamado a ser testemunha do Senhor onde estiver, mesmo com as nossas limitações.

Pelo batismo somos incorporados em Cristo, somos chamados a exercermos segundo a nossa condição à missão que Deus confiou a sua Igreja: a sermos Profetas, Sacerdotes e Reis (CDC. Cân. 204; 1Pd. 2,9-10)

Os Apóstolos não demoraram a descobrir, que não estavam sozinhos, para dar testemunhos de Jesus. O Espírito Santo, a alma da Igreja não deixa ninguém sozinho. Nós também precisamos fazer esta experiência no Espirito, com Jesus ressuscitado!

 É essa a luz do ressuscitado, que iluminou Pedro e os discípulos em Pentecostes. (At. 3,13-19) A missão do cristão e fazer  que a luz da face do Cristo, brilhe sobre as pessoas, através do testemunho do Cristo. Jesus vive, e está no meio de nós!

Nosso Senhor deseja que se convertamos, deixemos a vida velha de pecados, e mudemos de vida; uma vida nova seguidora do caminho do Reino. A nossa conversão, é o maior testemunho, para trazermos almas para o Senhor. A conversão não pode ser somente uma vez, mas todos os dias de nossa existência.

 Darmos o nosso testemunho de fé e mudança de vida, para que as pessoas se convertam e sejam perdoadas de seus pecados. O nosso anuncio fiel e nossas boas obras, são fundamentos para o verdadeiro testemunho Cristão.

 O verdadeiro cristão é aquele que imita, Nosso Senhor Jesus Cristo. Nestes "Tempos finais," o mundo conturbado pelas indiscrenças e perseguição ao Evangelho, o relativismo religioso das falsas doutrinas, nós cristãos temos que perseverar na fé do Cristo Crucificado e Ressuscitado (1Cor. 1,23)

É preciso dar a essas palavras um sentido novo: Os leigos cristãos devem deixar de se considerar testemunhas, somente passivas, mas uma testemunha cheia de fogo do Espirito Santo, audazes no anuncio da palavra de Deus.

Não vamos contentar, de só ficar e contentar-se, como meros repetidores de palavras, ouvidos de hierarquia ou do celebrante dominical, ou do pastor qual; mas de apropriarmos da palavra e com criatividade anuncia-la ao mundo, que tem sede de Deus.

Ao anuncia-la lembremos, que Deus quer nossa fidelidade, até o fim. Nossos irmãos cristãos, estão morrendo em algum lugar no mundo neste momento, por serem testemunhas fieis, de Jesus Crucificado e Ressuscitado.

O mundo sofrido tem sede da Misericórdia do Senhor! Os anúncios fiel e as boas obras, são as ferramentas dos carismas, que o Espírito Santo, derrama sem cessar sobre a Igreja.

O texto do Evangelho que estamos examinando, termina-se com as palavras de Jesus aos seus discípulos: "Vós sois as testemunhas de tudo isso." Que cada um de nós possamos, cada vez mais, tomarmos consciência dessa missão e assemelha-la com determinação. Sabemos que os nossos trabalhos, sofrimentos e alegrias, unidos à vida de Jesus ressuscitado, podemos ser salvação para muitos, porque já somos com antecedência, homens e mulheres ressuscitados para uma vida nova, na verdade e no bem, somos agentes de salvação. O Senhor quer precisar de nós, abramos o nosso coração ao Espírito Santo e sejamos agentes de salvação. A nossa meta, a meta do "cristão" da esperança, comprometidos com as coisas do alto, que é o Reino dos Céus.

 

Texto elaborado:

- "Deus conosco dia a dia liturgia do 3º domingo da Páscoa - ano "b" abril 2015 pgs. 105-107

- Homilia padre Flávio Calvaca de Castro C.ss.R - Pg 154

- Bíblia Sagrada Ave Maria