Epístola (1Jo 2,1-5ª)

Esta parte é uma censura contra os gnósticos, cuja ética se reduzia ao conhecimento, sem que as obras fossem parte da moral para uma união com Deus definitiva, na qual consistia a felicidade última, ou se quisermos, a salvação. Não basta conhecer, é necessário guardar os mandatos, pois nisto consiste o amor de Deus, que deve ser perfeito para nEle estar em união e gozar de sua vida. O pecado, a transgressão dos mandatos, é a maior oposição a esse amor. Não devemos pecar; mas caso o fizermos temos um advogado defensor, que é Jesus Cristo, o qual é expiação ou se oferece como pagador pelas dívidas devidas aos pecados de todo o mundo. Não guardar os mandatos divinos é não conhecer a Deus, porque a perfeição é precisamente observar os mesmos. Nesta linha, o apóstolo dirá que quem permanece em Deus não peca; e, portanto, quem peca nem O viu nem O conhece (3,6). O pecado é próprio do diabo, que foi desde seu início pecador. O nascido de Deus não pode pecar porque tem nele a semente divina, contrária ao pecado. Este trecho, como em geral a carta, foi escrito contra duas heresias: os antinomos [contrários à Lei] que afirmavam que só a fé era suficiente, podendo viver como quiser; e os perfeccionistas que afirmavam que o pecado estava tão destruído que era como um câncer extirpado de modo que toda ação de um fiel não era pecado ao estilo dos perfeitos albigenses do século XII ou quietistas de Miguel de Molinos do século XVII.

 

O ADVOGADO. Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis e se alguém pecar temos um advogado junto ao Pai Jesus Cristo [o] justo (1).

Como em toda exortação, que é uma pequena reprimenda, João usa palavras suaves chamando seus leitores de FILHINHOS. A palavra é um diminutivo de teknon filho em sentido amplo como pode ser um adotado. Teknion é a palavra predileta de João; Aparece uma vez nos evangelhos e precisamente no evangelho joanino; e, com a exceção de Gl. 4,19 em Paulo, as outras 7 vezes unicamente nesta carta de João.

PEQUEIS é o aoristo subjuntivo do verbo amartanö, fazer o mal, pecar, como em 1 Cor 7, 28: Mas, se te casares, não pecas; e, se a virgem se casar, não peca. Esse pecado pode ser contra Deus, como recitamos no Pai Nosso (Mt 6,12); ou pecado contra o próximo (Mt. 18,15: se teu irmão pecar contra ti); ou contra si mesmo (1Cor. 6,16: Fugi da prostituição. Todo o pecado que o homem comete é fora do corpo; mas o que se prostitui peca contra o seu próprio corpo); ou contra a lei (At. 28,5: Paulo, em sua defesa, disse: Eu não pequei em coisa alguma contra a lei dos judeus, nem contra o templo, nem contra César). O pecado é substancialmente desobediência, como foi o primeiro de Adão: Pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos (Rm. 5,19).

ADVOGADO, o grego significa advogado, intercessor, ajudante, e unicamente este vocábulo é usado por João 4 vezes no evangelho e uma nesta carta. Nas 4 vezes que aparece no evangelho a Vulgata conserva o grego e unicamente na carta traduz por advocatus, mas tenhamos em conta que aqui o paraklëtos não é o Espírito Santo, mas Jesus. Ele é o defensor dos pecadores, ou como diz Paulo, o intercessor: Quem é que condena? Pois é Cristo quem morreu, ou antes, quem ressuscitou dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós (Rm. 8,34). O que é confirmado em Hb. 7,25.

JUSTO, a palavra dikaios significa homem que observa a lei como era José, esposo de Maria (Mt. 1,19). Na linguagem bíblica justo é oposto a pecador como em Mt. 9,13; eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento. Serão assim chamados os salvos que estão à direita do juiz no último dia (Mt. 25,37). Pelo que respeita ao evangelho de João, temos 3 versículos em que entra a palavra dikaios: 5,30 7; 5,24 e 17, 25. O último se refere ao Pai: Pai justo, o mundo não te conheceu; mas eu te conheci, e estes conheceram que tu me enviaste a mim. Nesta epístola o epíteto é dirigido a Jesus em três ocasiões: Esta de 2,1; em 2,29 e 3,7 todas elas diz respeito à bondade de Cristo, como regra em que nossa conduta deve ser medida, ou bondade que olha o pecador com olhos de misericórdia, pelo que na continuação escreve na carta.

 

PROPICIAÇÃO. Porque ele é propiciação por nossos pecados, não só, porém, dos nossos, mas também pelos de todo o mundo (2).

PROPICIAÇÃO é expiação, ou seja, sacrifício pelos pecados, apaziguamento, conciliação. O termo é próprio de João nesta carta e só o encontramos de novo em 4, 10: Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou a nós, e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados.  É a palavra usada em 2Mc. 3,33: Enquanto o Sumo Sacerfote oferecia o sacrifício de expiação apareceram a Heliodoro os mesmos jovens [dois anjos]. Paulo prefere ilastërion (Rm. 4,25) assim como Hb. 9,5: Sobre a arca os querubins da glória, que faziam sombra no propiciatório. O mesmo autor explica qual é esta expiação: Convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo. E Paulo estende esta propiação a todo o mundo. De alguma maneira que não conhecemos, a expiação, que é pagamento pelo mal causado, chega a todos os homens. A uns para salvação, a outros para diminuir o castigo temporal, ou em qualidade ou intensidade, o eterno e sempre pelos pecados.

 

VERDADEIRO CONHECIMENTO. E nisto sabemos que o temos conhecido, se guardamos os seus mandatos (3).

SABEMOS presente do verbo ginöskö, de significado saber, conhecer, entender, perceber, realizar, reconhecer, apreciar; e em sentido metafórico, ter relações sexuais. A frase, ao repetir o mesmo verbo [ginoskö], deve ter o significado que encontramos em Jr. 31,34: Não ensinará mais cada um a seu próximo, nem cada um a seu irmão, dizendo: Conhecei o SENHOR; porque todos me conhecerão, desde o menor até ao maior deles, diz o SENHOR; porque lhes perdoarei a sua maldade, e nunca mais me lembrarei dos seus pecados. É, pois, ter um trato íntimo com Deus como amigo e senhor, ao mesmo tempo. Jesus dirá em Jo 10,14: Eu sou o bom Pastor, e conheço as minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido  Por isso, João fala de que o verdadeiro conhecimento de Deus consiste em observar seus mandatos ou mandamentos. Como dirá mais tarde, o critério de que verdadeiramente conhecemos Deus, é o amor: Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor (4,8). Pois quem está em amor está em Deus, e Deus nele (4,16). E é precisamente a prática desse amor, a caridade com o próximo, que distingue o verdadeiro do falso discípulo de Cristo: Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros (Jo 13,35). E nesta carta afirma: Conhecemos o amor nisto: que ele deu a sua vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos irmãos. A importância do verbo ginoskö nos escritos joaninos é clara: mais de 40 vezes no evangelho e 21 nesta pequena carta. Indica a unidade de autor dos dois escritos sagrados.

 

O MENTIROSO. Aquele que diz que o conheceu e que não guarda seus mandatos é mentiroso e nele não existe verdade (4).

MENTIROSO. Mentir é dizer o contrário do que se pensa. Para conhecer o amor é preciso amar; e amar é conhecer verdadeiramente o nosso Deus; aí temos o amor autêntico: Não pode existir contradição entre a palavra amor e o fato de amar, que é guardar os mandatos divinos. Com a mesma segurança que afirma que se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós (1Jo 1,8), o apóstolo declara que se dissermos que temos comunhão com Ele e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade (1,6). E termina com um argumento fácil de compreender: Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu [que está presente], como pode amar a Deus, a quem não viu [que é ausente]?(4,20).

 

A PERFEIÇÃO. Aquele, pois, que guardar sua palavra, verdadeiramente nele o amor de (o) Deus tem sido aperfeiçoado; nisto conhecemos que estamos nEle (5).

No seu evangelho, João declara as mesmas ideias: Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele (Jo 14,21). E também: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada (idem 23).

APERFEIÇOADO é o indicativo perfeito passivo do verbo teleioö com o significado de completo, acabado, perfeito, terminado, como em Jo 4,34: Jesus declarou: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e terminar a sua obra. É por isso que nesta carta o apóstolo conclui: Se nos amamos uns aos outros, Deus está em nós, e em nós é perfeito o seu amor. Nisto conhecemos que estamos nEle, e Ele em nós, pois que nos deu do seu Espírito (1Jo 4,12-13). Assim, João afirma que a perfeição consiste no amor, de modo que sejamos templos do Espírito de Deus. Se outra deidade ou amor se apodera de nosso coração somos como idólatras que adoramos um outro deus que pode ser o dinheiro (Mt. 6,24), o egoísmo, o bem-estar ou a honra como era o caso dos fariseus, que amam os primeiros lugares nas ceias e as primeiras cadeiras nas sinagogas, e as saudações nas praças, e de serem chamados pelos homens; Rabi, Rabi. (Mt. 23,6-7). S. José de Calasanz em suas constituições disse que a perfeição da vida cristã está no amor. E até que este amor não seja perfeito não entraremos no Reino definitivo. O contrário do Inferno em que o amor próprio será quem rejeita Deus até imperar o ódio a todo bem, que não é verdadeiro fora de Deus, e como Deus é o único bem completo (Mc. 10,18) a Ele odeiam de modo especial e definitivo. Como vemos, há uma lógica permanente entre os ensinamentos de Jesus e as declarações de seus discípulos: é a razão iluminada pela fé, que no mundo intelectual de alguns teólogos com o vírus germânico – como diz um autor – se transformou na fé iluminada pela razão.

 

Aparição aos discipulos em Jerusalém (Lc. 24,35-48)

Lugares paralelos (Mt. 28,16-20; Mc. 16,14-18 e Jo 20,19-23)

O evangelho é continuação do episódio dos dois discípulos de Emaús, que estão contando sua experiência ao grupo dos discípulos reunidos em Jerusalém. É surpreendente que dentro da conversa os outros discípulos estavam conformes em acreditar na ressurreição de Jesus porque este tinha sido visto por Pedro (Lc. 24,34). E então, diante de um grupo propenso a admitir a verdade sem ter visto as provas, mas só pelo testemunho dos videntes, é que Jesus aparece. E é precisamente nesta visão que deveria ser esperada que o discípulos acreditam ver um fantasma. Por que? A explicação é dada por João no seu evangelho: As portas estavam trancadas e embora admitissem Jesus ressuscitado não pensavam que ele podia atravessar muros e portas. Além disso, a aparição foi instantânea, como claramente o indica João e afirma Lucas ao dizer que esteve no meio deles, um aoristo de ação repentina que a bíblia de Jerusalém traduz apropriadamente por se apresentou no meio deles, e que temos traduzido por ficou de pé no meio deles, como o latim registra: stetit. Segundo Lucas, a finalidade da aparição é

1º) acabar com as dúvidas sobre sua ressurreição;

2º) confirmá-los na certeza de que Jesus cumpriu perfeitamente os planos divinos, profetizados desde Moisés através de todos os profetas, especialmente sobre sua paixão e ressurreição;

3º) que eles estavam designados a proclamar o perdão dos pecados a todas as nações em seu nome;

4º) e finalmente, que de tudo isso eles deveriam se tornar testemunhas. Podemos dizer que Lucas resume numa única aparição e em poucos parágrafos o que talvez tivesse acontecido em circunstâncias diversas. Vamos explicar passo a passo o evangelho de hoje.

 

A NARRAÇÃO: E eles declaravam as coisas do caminho e como foi conhecido por eles na fração do pão (35).

Os dois diziam, ou melhor, interpretavam, pois esse é o sentido do verbo exêgeomai, quando alguma divindade tinha falado ou revelado alguma verdade. O sentido era que, não unicamente, narravam como tinham conhecido o Ressuscitado, mas, o sentido das palavras reveladoras sobre a paixão e morte que foram explicadas como necessárias pelo viajante, que no caminho os acompanhou. A outra revelação era de que eram intérpretes de como foi a fração do pão, que foi a razão de entender quem realmente era o companheiro de viagem. Sem dúvida que Jesus quis ressaltar o sacramento da Eucaristia que foi chamado de fração do pão, no início, como diz o livro dos Atos em 2,42 em que o texto grego traz a mesma palavra Klasis. Essa comunhão de comida e bebida é logo ressaltada no final deste evangelho quando Jesus pede alguma coisa para comer.

 

A APARIÇÃO. Falando, pois, estas coisas ele, Jesus, se apresentou no meio deles e diz a eles: paz para vocês (36).

Nada a comentar a não ser o dito no domingo anterior sobre o fato de se apresentar Jesus com as portas fechadas, como diz João. A paz era uma saudação comum neste caso.

 

A REAÇÃO. Tendo ficado, portanto, espantados e temerosos, pensavam ver um espírito (37).

O verbo ptoetheô indica espanto, susto, perturbação. Além desse espanto como temos traduzido, o ânimo dos discípulos encheu-se de medo: a razão é que pensavam ser um espírito a figura que viam diante deles. Espírito que não se diferenciava de um fantasma. Era a mesma reação que tiveram quando viram Jesus caminhando sobre as águas (Mt. 14,26 e Mc. 6,49). O verbo é unicamente empregado por Lucas numa outra ocasião em 21,9 ao ficarem aterrorizados ou atemorizados por causa das guerras e subversões anteriores à destruição de Jerusalém. O medo, pois, dominava todos eles e a razão é que pensavam fosse um espírito ou um fantasma. No caso do lago, o medo fez com que eles gritassem. Agora o medo paralisou a reação até que Jesus os acalmou com suas palavras.

 

JESUS OS TRANQUILIZA. E disse a eles: Por que estais perturbados e qual a causa de que surjam hesitações nos vossos corações? (38).

Era uma reprimenda e ao mesmo tempo uma solução para os problemas suscitados pela dúvida e depressão dos últimos acontecimentos. Podemos ler a resposta de Jesus dada aos de Emaús: insensatos e lentos de coração [duros de cabeça] para crer tudo que os profetas anunciaram!

 

A PROVA. Vede minhas mãos e meus pés; porque eu mesmo sou! Apalpai-me e vede porque um espírito carne e ossos não têm, como me vedes tendo (39).

Temos traduzido muito literalmente o grego. Estas palavras indicam que Jesus se apresentou como um homem normal com as mesmas características que tinha na vida mortal que os discípulos tão bem conheciam. Daí oti autos egô eimi que podemos traduzir livremente por sou o mesmo que vocês conhecem, não é outra pessoa a que estais vendo. E em vista disso, anima-lhes a apalpar seu corpo e a ver mãos e pés que estavam com os sinais das chagas. Se estas palavras têm algum sentido histórico, ele é o de manifestar que Jesus está vivo, que a morte não o venceu, que a vida do além pode ter momentos em que se parece com a vida anterior, como se esta seguisse e aquela fosse uma continuação. Sobre o modo de pensar de alguns teólogos que dizem que a ressurreição é uma forma de vida só espiritual, vemos como Jesus se manifesta em corpo vivo e que não existe sentido em afirmar que só o espírito vive e o corpo como que se destrói e não alcança a nova vida. Como diz o catecismo é impossível interpretar a ressurreição de Cristo fora da ordem física e não reconhecê-la como um fato histórico…. Pois o corpo ressuscitado é o mesmo que foi martirizado e crucificado,  pois ainda traz as marcas de sua Paixão… Não constitui uma volta à vida terrestre… como foi o caso de Lázaro, pois seu corpo possui propriedades novas que o situam além do tempo e do espaço…ele passa de um estado de morte para uma outra vida, participando da vida divina no estado de sua glória de modo que Paulo pode chamar a Cristo de o homem celeste.

 

A DEMOSTRAÇÃO. E tendo dito isto, mostrou-lhes as mãos e os pés (40).

Lucas resume, numa única aparição, as duas que João narra em domingos alternados. Lucas também amplia a descrença e a dúvida ao conjunto, o que parece não ser totalmente conforme com a realidade, segundo vemos em Mateus 28,17 onde lemos que alguns duvidaram. Para João, o incrédulo foi Tomé, o Dídimo [gêmeo] e a este mostrou mãos e costado. A explicação é que João foi o único que esteve presente à crucifixão e ao enterro e sabia da ferida do costado. É lógico que Lucas falasse de pés e mãos por desconhecer a ferida do lado que não era detalhe comum entre os condenados à cruz.

 

AINDA INCRÉDULOS. Ainda, pois, não crendo eles pela alegria e estando maravilhados, disse a eles: tendes comida aqui? (41).

Parece que nem todos acreditaram mesmo vendo as feridas, ou pensavam que era Jesus em espírito ou como um fantasma, mas não como uma realidade. Aquele que viam era Jesus, porém, não como um ente corpóreo mas como um ente espiritual, como um fantasma. O verbo thaumazô indica tanto admiração como assombro, maravilha, enfim um trauma que impede racionar corretamente e ver as coisas com a inteligência. Estavam absortos, sem poder reagir de modo racional. Por isso, Jesus apela à última razão: os espíritos não comem, porque não têm corpo. E ele tinha corpo; por isso ele mostrou sua realidade corporal, pedindo comida que lhe foi oferecida de imediato.

 

A COMIDA. Então eles lhe entregaram uma parte de peixe cozido e de um favo de mel (42). E havendo tomado, na vista deles, comeu (43).

Como vemos, o latim diz que Jesus não terminou a comida, mas deixou parte da mesma. Não era a intenção saciar uma fome, mas demonstrar uma realidade da qual os discípulos podiam duvidar. O favo de mel falta nalguns manuscritos assim como tomando as sobras lhas deu a eles como aparece no latim. Não só com essa ação demonstrou Jesus a sua corporeidade aos discípulos, mas também a todos os que querem ler os evangelhos como uma tradição da Igreja e do que esta pensava e sentia nos primeiros momentos. Os discípulos estavam certos de que Jesus tinha um corpo e não era puro espírito.

 

A JUSTIFICAÇÃO. Então lhes disse: estas mesmas [são] as palavras que falei diante de vocês quando ainda estava com vocês: que era necessário se cumprissem todas as [coisas] escritas na lei de Moisés e nos profetas e nos salmos acerca de mim (44).

Com esta afirmação Jesus se afirma na ideia de que ele estritamente cumpriu as Escrituras, que antes de sua paixão já tinha explicado a seus discípulos. Esta divisão tríplice das Escrituras é a única que encontramos nos evangelhos. Com isso Jesus indica que não há parte da Escritura que não dá testemunho de Jesus. Eram profecias escritas na lei de Moisés [Pentateuco] nos Profetas [livros históricos, sapienciais e profetas propriamente ditos] e nos Salmos [livros litúrgicos]. Em definitivo, toda a Escritura. Com isso, Jesus se distancia dos saduceus e dos samaritanos, que só admitiam como Escritura autêntica o Pentateuco. A dúvida é em que passagem de Moisés, entendido como o autor do Pentateuco, está escrita sobre Jesus e sua paixão. A resposta é dada por Pedro: Moisés falou: Deus vos suscitará dentre os vossos irmãos um profeta semelhante a mim; vós o ouvireis em tudo o que ele vos disser. E todo aquele que não escutar esse profeta, será exterminado do meio do meu povo (At. 3,22-23). Por isso, nos evangelhos lemos várias passagens em que se diz que de Jesus escreveu Moisés (Lc. 24,27; Jo 1,45 e 46 e 5,46). Evidentemente o escrito de Moisés é sobre o novo profeta que seria como ele foi: o legislador. A lei de Jesus, segundo Jo 1,17, era contra a lei mosaica, uma oferta de graça e verdade, ou seja, de amor e de fidelidade [logicamente da parte de Deus por meio de Jesus]. Moisés essencialmente falou desse novo povo que devia escutar Jesus como escutou em seu dia, Moisés. E o exemplo de Moisés que içou a serpente no deserto é o modelo de Jesus levantado na cruz. Segundo os padrões da época esse exemplo que entrava dentro dos haggadoth [parte integrante do Talmud como narrações ilustrativas da Lei] era uma profecia da morte de Jesus para salvar todo o povo que a ele olhasse no meio de suas angústias de morte. Um outro exemplo era o maná que Moisés usou para alimentar os hebreus no deserto. Também Jesus, e por duas vezes, no deserto alimentou o povo multiplicando pães e peixes (Mt. 14,13-21 e 15,32-38) e dessa multiplicação Jesus tirará uma consequência baseada em Moisés para afirmar que o verdadeiro pão do céu era sua própria pessoa descida do céu e transformada em comida e bebida (Jo cp. 6). Pelo que diz respeito aos profetas, o servo de Isaías sofredor é o melhor exemplo de Jesus nos capítulos 52 e 53. E os salmos, basta ler o salmo 22. Alguns autores, levados de um espírito moderno, pensam que as referências de Moisés e demais livros devem ser claras. Se olharmos para os discursos dos primeiros apologistas, como Pedro e Estêvão, vemos como tanto Jesus como os fariseus admitiam como provas evidentes o que nós poderíamos chamar de indícios insuficientes. Tal o caso de Deus disse: sois deuses, do salmo 82, 6, que Jesus aplica ao seu caso em Jo 10, 34. Segundo estimativas dos estudiosos, nos evangelhos existem não menos de 300 referências ou citações do AT. É a mesma justificação que o caminhante deu aos discípulos de Emaús.

 

JESUS MESTRE. Então abriu a mente deles para entenderem as Escrituras (45).

A presença de Jesus não vinha unicamente confirmar na fé, mas também demonstrar os planos divinos abrindo os olhos dos discípulos para a realidade verdadeira dos mistérios que se encerravam na morte e ressurreição de Jesus. Desses novos ensinamentos saíram os discípulos, propondo uma visão do alto dos acontecimentos em Jerusalém nos últimos dias. Pedro argumenta com os salmos 16 e 110. E é esquisito ver como eles, que não eram doutos nas Escrituras, agora as usam com extrema maestria para provar que Deus constituiu Senhor e Cristo a esse Jesus que tinham crucificado (At. 2,36).

 

A BASE. E disse a eles que assim estava escrito e assim convinha que o Cristo padecesse e ressuscitasse dos mortos no terceiro dia (46).

São três afirmações que estavam contidas nas profecias do AT: Padecer como servo, segundo lemos em Isaías, como vítima do castigo, ferido por Deus e humilhado (Is. 53,4), após a detenção e julgamento, cortado da terra dos vivos (Is. 53,8). Deram-lhe sepultura ente os ricos (Is. 53,8). Após o trabalho fatigante de sua alma ele verá a luz e se fartará (Is. 53,11). Sobre a ressurreição, não abandonarás minha vida no sheol, nem deixarás que teu fiel veja a corrupção (Sl. 16,8). Os judeus afirmavam que a corrupção e, portanto, a alma abandonava o corpo três dias após a morte. Logo esta afirmação de não deixar ver a corrupção equivalia a estar vivo aos três dias. Este versículo constitui a base do evangelho. Isso é o que eles deviam ensinar como testemunhas do novo século ou Eón.

 

O KERIGMA. E serem anunciados em seu nome a conversão e o perdão dos pecados a todas as gentes a começar por Jerusalém (47).

De fato, no primeiro discurso de Pedro, este retoma o assunto da conversão e do perdão dizendo: Arrependei-vos e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para a remissão dos vossos pecados (At. 2,38). Teremos que voltar a esse discurso de Jesus e a seu eco em Pedro para encontrar a verdadeira essência do cristianismo. Este exige uma parte do homem que é a sua intenção de mudar de conduta, aceitando como norma, não a sua, mas a divina; e por outra parte oferece uma ampla dádiva divina: o perdão absoluto, sem mais condições, como é oferecido no batismo.

 

TESTEMUNHAS. Portanto vós sois testemunhas destas coisas (48).

Esta é a razão das aparições de Jesus: o testemunho que deviam dar seus discípulos de que ele estava vivo e, portanto, ressuscitado. Com esta última afirmação de Jesus vemos a realidade da escolha, da vida em comum e da maneira de proclamar Jesus ao mundo inteiro: Os ministros do kerigma são testemunhas da Ressurreição. Por isso, os modernos teólogos que põem em dúvida aspectos da mesma como a reduzindo a uma vista interior sem materialização, ou ao sepulcro vazio, são o oposto dos apóstolos, diretos seguidores de Jesus.

PISTAS

1) É de se supor que este aparecimento é um compêndio dos dois que João narra em diferentes domingos consecutivos no capítulo 20. As diferenças que temos mostrado indicam que as fontes foram diferentes. As convergências no dia e hora, na súbita entrada, na amostra das chagas, e na paz como saudação expressa, indicam que o fato foi visto por várias testemunhas e que os relatos variam por serem várias as fontes e diferentes os objetivos, ressaltando um ou outro detalhe segundo impressões e intenções pessoais.

2) O relato, com as palavras de surpresa e de temor, indica que uma coisa é acreditar em relatos de outros e outra muito diferente ver os fenômenos que não são nem frequentes, nem naturais. Em todos os relatos de visões sobrenaturais do mundo moderno, como Fátima, vemos que o temor acompanha sempre o sobressalto da aparição.

3) O convite a tocar e não só ver indica que o corpo presente diante deles tinha aspectos físicos ou que podiam se conformar às leis físicas, à vontade do ressuscitado. As feridas muito mais do que o rosto eram as marcas que determinavam, em definitivo, a realidade da pessoa na frente deles. Se faltava alguma prova para se certificar de que aquilo era real, comeu uma porção de peixe. Parece que o evangelista queria refutar toda dúvida possível. Mesmo assim existem muitos como Tomé, aqui evocado, não como apóstolo, mas como incrédulo. Por isso, podemos afirmar que existem muitos, como Tomé, que não acreditam porque não têm visto.

4) Diante do escândalo da cruz que na época era muito maior do que nos dias de hoje, além da sua presença era necessário que Ele provasse ser tudo conforme às Escrituras. Os caminhos de Deus consistem,  como afirmava Paulo, em mostrar sua sabedoria e fortaleza no que é loucura e  fraqueza para os homens (1Cor. 1,25). Daí que a maior esperança seja a dos mais necessitados: Bem aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus (Lc. 6,20).

5) É inacreditável ver como os modernos críticos falam da pedra arrancada e do sepulcro vazio como fatos históricos e os aceitam como tais; mas quando se trata das aparições dizem que não são fatos históricos e os rejeitam, embora fossem escritos pela mesma pena e o mesmo escritor. São fatos experimentais que cada um pode sentir, segundo sua própria mentalidade. Mas tocar, comer, entram em uma experiência íntima ou podem ser admitidos como históricos?

padre Ignácio de Nicolás Rodríguez

 

 

As Sagradas Escrituras vistas desde Cristo

Que alegria! Voltar a ver o Mestre. Foram os discípulos de Emaús que disseram: “não se nos abrasava o coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” (Lc. 24,32). Quando eles ainda estão conversando sobre o que tinha acontecido com eles no caminho, Jesus aparece e lhes deseja a paz; ele continua a explicar-lhes sem interromper o argumento: “Isto é o que vos dizia quando ainda estava convosco: era necessário que se cumprisse tudo o quede mim está escrito na Lei de Moisés, nos profetas e nos salmos” (Lc. 24,44).

Observe-se o seguinte: Jesus fala com eles recordando-lhes diretamente as profecias do Antigo Testamento e, indiretamente, as maravilhas de Deus outrora operadas. Isto é, as grandes obras que Deus operou noutros tempos continuam sendo uma referência para falar do Messias Salvador, que é Jesus Cristo. Contudo, o Antigo Testamento ganha todo o seu esplendor somente quando interpretado desde Cristo, é ele quem faz a interpretação das antigas escrituras de Israel. Neste sentido, o Concílio Vaticano II afirmou que “Deus, inspirador e autor dos livros dos dois Testamentos, dispôs sabiamente que o Novo Testamento estivesse escondido no Antigo, e o Antigo se tornasse claro no Novo” (DV 16). Na verdade, toda a Bíblia só tem sentido como revelação divina em Cristo e na Igreja. Desvincular a Escritura Sagrada de Cristo e da Igreja é transformá-lo num mero livro de literatura. Neste caso, eu não sei se ela teria muito êxito.

O católico deveria ler mais as Sagradas Escrituras; desconhecê-la é ignorar Jesus Cristo, já que a Bíblia dá testemunho de Jesus Cristo. Mas, lembremo-nos: ela deve ser entendida em Cristo e na Igreja.

O que se quer dizer com isso? Explicando-o de maneira negativa: não se deve fazer uma interpretação livre da Bíblia que vá contra o seu sentido verdadeiro no contexto de uma autêntica interpretação. De maneira positiva, deve-se afirmar que a Bíblia deve ser entendida no seu contexto, que é essencialmente um ambiente de fé e eclesial. Não nos esqueçamos que a Bíblia é fruto da Tradição: Jesus pregou, os apóstolos pregaram; tão somente depois foi colocado por escrito a pregação de Jesus e dos Apóstolos.

As pessoas que fazem livres interpretações da Bíblia, só que à margem da interpretação autêntica da Igreja Católica, acabam, de uma maneira ou outra, criando o seu próprio universo bíblico, que não é o de Cristo. Daí que há tantos cristãos com a mesma Bíblia e ao mesmo tempo há tantas denominações cristãs, as quais, frequentemente, brigam entre si. Isso é muito feio! A divisão entre os cristãos é um escândalo que provoca a incredulidade ou pelo menos não ajuda os outros a aproximarem-se da fé em Cristo.

Mas, porque há tantas interpretações da Bíblia e, simultaneamente, tantas “igrejas”? “Tantas cabeças, quantas sentenças!” Cada um quer manter a sua opinião, o seu parecer. Por minha vez, gosto de pensar que a Igreja Católica é como uma mãe, daquelas que já estão bem velinhas, mas com uma jovialidade digna de ser invejada por qualquer menininha de 15 anos. A idade da Igreja? Somente 2000 anos. A sua experiência é vastíssima: conhece muito bem aquelas coisas que se referem a Jesus Cristo, conhece melhor ainda aquelas coisas que se referem ao ser humano, viveu por entre derrotas de impérios e reis, sobreviveu a ataques ocultos e manifestos… Enfim, nada nem ninguém pode contra a Igreja Católica, pois Jesus quer que ela chega à escatologia. Agora eu pergunto: como se pode ir contra a autoridade de alguém que tem 2000 anos de experiência e que só nos ensina o caminho do bem, da verdade e do amor?

Nós, os católicos, temos resposta para qualquer pergunta. Pena que o cristão, frequentemente, não se preocupa em ser formado, em ler, em conhecer a Sagrada Escritura. No caso de que viesse a desviar-se, talvez colocaria a culpa nessa Mãe bondosa que é a Igreja e que só tem buscado o seu bem dando-lhe a verdade que é Cristo.

padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa

 

 

Testemunhas de Cristo

O Evangelho (Lc. 24,35-48) narra mais uma aparição de Jesus ressuscitado aos discípulos que têm muitas dúvidas e estão atônitos. Cristo vai ao encontro deles para fortalecer-lhes a fé e dizer-lhes: “Vós sereis testemunhas de tudo isso” (Lc. 24,48).

Os discípulos de Emaús contaram o que tinha acontecido no caminho e como haviam reconhecido Jesus na fração do pão. Falavam ainda, quando o próprio Jesus se apresentou no meio deles e disse: “A paz esteja convosco”. Diante da dúvida dos discípulos, Jesus lhes mostra as chagas das mãos e dos pés. Pede-lhes, enfim, de comer. Apresentam-lhe um pedaço de peixe assado. Jesus o tomou e comeu diante deles.

A seguir passa a interpretar as Escrituras: “Era preciso que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”. Então abriu-se-lhes a mente para que entendessem as Escrituras, e disse-lhes: “Assim está escrito que o Messias devia sofrer e ressuscitar dos mortos ao terceiro dia, e que, em seu nome, fosse proclamada a conversão para a remissão dos pecados a todas as nações, a começar por Jerusalém. Vós sois testemunhas disso”.

Jesus aponta a missão: “Sereis minhas testemunhas”.

Ser testemunha é conhecer, viver e anunciar a mensagem de amor, que Cristo trouxe.

A Ressurreição de Jesus, no Evangelho, aparece como um fato real, mas assim mesmo os apóstolos não conseguiam acreditar facilmente. O caminho foi longo, difícil, penoso, carregado de dúvidas e incertezas.

O caminho espiritual para chegar à fé continua o mesmo.

“Tocai em mim”, diz Jesus. O gesto de tocar nos ensina que o encontro dos discípulos com Jesus ressuscitado foi um fato real e palpável.

Também o Ressuscitado revela o sentido profundo das Escrituras.

Cada um de nós, a comunidade, deve reunir-se com Jesus ressuscitado para escutar a Palavra, que sempre ilumina a nossa vida e nos ajuda a descobrir os caminhos de Deus na história…

Os discípulos recebem a missão de serem testemunhas de tudo isso…

A raiz da Missão é o Encontro com o Ressuscitado e a compreensão das Escrituras.

Em At. 3,13-19, vemos são Pedro cumprindo essa Missão: anunciando com coragem o Cristo Ressuscitado diante do povo: “O Cristo que vós matastes, Deus o ressuscitou dos mortos. E disso nós somos testemunhas…”

Com determinação prova com sinais que Jesus ainda estava vivo. Cura o coxo na porta do Templo em nome de Jesus.

Viver e anunciar essa novidade é a nossa missão!

Cristo continua precisando ainda hoje de testemunhas…

E nós somos chamados a ser testemunhas da presença do Ressuscitado, através de nossas palavras e ações.

Cristo ainda hoje continua nos lembrando: “Vocês também devem ser minhas testemunhas…”

mons. José Maria Pereira

 

 

A alegria pascal é a atitude de profunda paz pelo encontro com Jesus Cristo Vivo e Ressuscitado.

A minha vida é celebrada no mistério do amor infinito de Deus que venceu o mal e a morte. A minha fragilidade toca os sinais da sua doação e vive da fé no amor incondicional de Deus.

Saiba eu louvar, agradecer e sentir a urgência do compromisso com Jesus Cristo que dá a vida por mim. Saiba fazer Igreja na comunhão que dimana da presença de Cristo Ressuscitado.

Primeira leitura: Atos dos Apóstolos 3,13-15.17-19

A leitura é extraída do segundo discurso de Pedro em Atos, após a cura do coxo que mendigava na Porta Formosa do Templo. O discurso obedece ao molde kerigmático do primeiro anúncio aos judeus, mas, na perspectiva de Lucas, visa também os seus leitores e também continua a falar-nos a nós.

13 «O seu Servo Jesus». O termo original grego é ambíguo – «pais» –, e tanto pode significar filho, como servo. A nossa tradução preferiu «servo» pela referência que parece haver a Jesus enquanto cumpre a figura messiânica do Servo de Yahwéh (cf. Is. 42–53). Trata-se de um título cristológico de sabor primitivo, que se enquadra bem num discurso a ouvintes judeus.

15 «Autor». É mais outro título cristológico, raro no N. T. (em grego, arkhêgós; assim também em 5,31; cf. Hb. 2,10; 12,2). Jesus não é apenas o chefe que conduz à vida, mas é quem comunica a vida aos que nele crêem. O paradoxo é impressionante: matar o Autor da vida, uma vez que Jesus é Deus. Nas traduções, como a primitiva litúrgica, «príncipe da Vida», deixa-se ver mais claramente o contraste estabelecido com «assassino» (v. 14), isto é, aquele que tira a vida.

«E nós somos testemunhas disso» (da ressurreição). A Ressurreição de Jesus é um fato real que se comprova por testemunhas altissimamente verídicas! É certo que não é um simples fato histórico natural que tenha entrado no âmbito duma observação experimental comum, pois Jesus só Se manifestou ressuscitado quando quis, como quis e a quem quis e com um corpo glorioso (não como um cadáver reanimado); isto, porém, em nada diminui o valor histórico da sua Ressurreição. É um fato sobrenatural, mas um fato, embora não encaixe em acanhadas perspectivas historicistas.

Segunda leitura: 1 João 2,1-5a

Nestes domingos pascais continuamos a ler extratos da 1ª carta de são João. Prestam-se a apelar para os ensinamentos da encíclica de Bento XVI, Deus caritas est. Não presidiu à seleção litúrgica dos textos joaninos a ideia de pôr em evidência a estrutura da obra e todo o seu maravilhoso conteúdo, por isso algumas palavras-chave, como «comunhão», «vida eterna» e «luz/trevas» não chegam a aparecer nos versículos respigados para estes domingos. A escolha parece privilegiar as noções de «cumprir os mandamentos», «amor fraterno», «nascer de Deus», «filiação divina», «libertação do pecado», «conhecer/saber», «verdade», «permanecer em…»

1 «Mas, se alguém pecar…». Se bem que «todo aquele que nasceu de Deus não comete pecado (…) não peca, mas o Filho de Deus o guarda, e o maligno não o apanha» (1Jo 3,9; 5,18), a verdade é que a pecabilidade não está excluída, devido à nossa limitada liberdade. Mas, se alguém pecar, que não desespere da sua desgraçada situação, pois Jesus – como vítima de expiação – dá-nos a possibilidade de obter o perdão, «se confessamos os nossos pecados» (1,9). Estas afirmações aparentemente contraditórias (confrontar 1,8–2, 1; 3,3; 5,16-17 com 3,6.9; 5,18) não são um obstáculo para a unidade da Carta (negada por Bultmann), pois a contradição é apenas aparente, devendo-se ao estilo semítico do autor que gosta de afirmações absolutas e contundentes, sem se preocupar de as matizar devidamente; assim, «o cristão não pode pecar», corresponde a: «o cristão não deve pecar». De qualquer maneira, há autores que consideram que, assim como sucedeu no IV Evangelho, pode ter havido uma redação sucessiva com a intervenção de um redator final, discípulo e continuador fiel do Apóstolo (tendo em conta o pronome plural nós joanino), assim também poderia ter acontecido com esta epístola.

1-2 «Jesus Cristo, o Justo, como advogado… vítima de expiação…»: a insistência em que Jesus é justo (cf. 1,9: justo e fiel) facilita compreender como Ele pode libertar do pecado os pecadores. Ele é intercessor perante Deus (paráklêtos, advogado, conselheiro, um termo exclusivo da tradição joanina: cf. Jo 14,16), na linha da teologia desenvolvida na Epístola aos Hebreus (Hb. 9–10), onde Cristo aparece à direita de Deus, continuando a purificar-nos com o seu sangue derramado como num sacrifício expiatório oferecido pelos pecados (cf. Hb. 9,14-28). Vítima de expiação corresponde à linguagem sacrificial do AT (cf. Ex. 29,36-37) e apresenta a morte de Jesus como um sacrifício voluntário, revelador do seu imenso amor (cf. 1Jo 4,19; Rm. 3,25; 5,8-9; 2Cor. 5,19; Ef. 2,4-5; Ap. 5,9).

4 «Aquele que diz: Eu conheço-o, mas não guarda…». Esta linguagem parece ser uma crítica aos gnósticos que se ufanavam de possuir um conhecimento superior de Deus, que garantia a salvação e eximia do pecado, sem cuidar de «guardar os seus mandamentos»; quem assim fala é «mentiroso e a verdade não está nele».

Evangelho: Lucas 24,35-48

O trecho evangélico de hoje contém uma primeira parte (vv. 35-43), que poderíamos chamar demonstrativa do fato da Ressurreição, centrada na afirmação de Jesus «Sou Eu mesmo (em pessoa)» (v. 39), e outra mais catequética (vv. 44-48): «Depois disse-lhes…».

35-43 A aparição aqui descrita corresponde à do Evangelho do domingo passado, descrita em João (Jo 20,19-23), mas a verdade é que nós temos dificuldade em estabelecer uma cronologia exata das aparições, pois não era essa a preocupação dos evangelistas; o que acima de tudo lhes interessava a eles (e aos crentes) era mostrar que Jesus apareceu realmente aos seus, isto é, se deixou ver, muito cedo, logo a partir do terceiro dia, e não a todo o povo, mas às testemunhas anteriormente designadas por Deus (At. 10,41). No referido relato paralelo, João fixou-se sobretudo no dom do Espírito Santa em ordem à absolvição dos pecados; Lucas fixa-se na dificuldade que os Onze – Tomé especialmente (cf. Jo 20,24-29) – tiveram em acreditar na Ressurreição, apesar dos testemunhos que já havia naquele momento. Em ambos os Evangelistas se refere o pormenor surpreendente da entrada de Jesus com as portas fechadas: «apresentou-Se no meio deles» (v. 36), mas aqui também se mostra Jesus a tomar alimento, uma forma gráfica de pôr em evidência que não se tratava de uma alucinação, mas de verdadeiros encontros pessoais. Lucas, como bom observador psicológico, gosta de sublinhar aquilo que não podiam deixar de ser os sentimentos de uns discípulos que, tendo admirado e amado apaixonadamente o Mestre, vieram a abandoná-lo e a negá-lo miseravelmente; como podiam eles enfrentar-se com um encontro destes tão inesperado, sem experimentarem umas emoções extraordinariamente fortes, estonteantes e contraditórias? Por isso, Lucas não se limita a referir o sentimento de alegria, como João, mas fala de que ficaram «espantados e cheios de medo» (v. 37), «perturbados» (v. 38), e dominados por um misto de alegria, admiração e dúvida (cf. v. 41).

44-48 Estes vv. constituem uma densa síntese catequética, em se salientam elementos básicos da pregação primitiva, centrados no cumprimento das Escrituras, a desembocar na missão universal dos discípulos «a todas as nações» (v. 47), em ordem a pregar «o arrependimento e o perdão dos pecados». Note-se o valor dado ao testemunho dos discípulos (v. 48), «vós sois as testemunhas»: «o homem contemporâneo crê mais nas testemunhas do que nos mestres; crê mais na experiência do que na doutrina; na vida e nas ações, do que em teorias. O testemunho de vida cristã é a primeira e insubstituível forma de missão» (João Paulo II). E, para que o crente alcance uma correta compreensão das Escrituras, é preciso que o Senhor lhe abra o entendimento (cf. v. 45).

Sugestões para a homilia

A Paz esteja convosco.

A centralidade do Mistério Pascal de Jesus Cristo exige de cada cristão, de forma responsável e dinâmica, um amadurecimento pessoal e comunitário deste imprescindível acontecimento de salvação.

É na morte e ressurreição de Cristo que Deus nos fala de uma forma bela, amorosa, e responde às questões mais pertinentes do Homem e de Deus.

Na primeira leitura, são Pedro, revela esse acontecimento central. Ele possui uma história de fragilidade e pecado, mas possui também uma experiência forte de acolhimento, de amor. O encontro com o Ressuscitado leva-o a proclamar e a testemunhar as maravilhas da misericórdia de Cristo ressuscitado. Recordemos que depois de ressuscitado, Cristo, tem um dos mais belos diálogos de amor, de vocação e chamamento a Pedro. O diálogo termina com: «segue-me».

Pedro oferece-nos o seu testemunho para que também nós, na nossa fragilidade, possamos ser tocadas pela presença de Cristo ressuscitado e sentir a necessidade de amar. Amar somente e para sempre. E nesse amor descobrir a vocação, o chamamento e o compromisso do anúncio.

A experiência de João é também uma experiência de paz que dimana d’Aquele que é superior ao pecado e que intercede por nós. João, na sua fragilidade, também tocou esse amor e por isso nos pede que o guardemos como fonte permanente de conversão e de santidade.

A experiência do perdão do pecado leva-nos a tocarmos o mais profundo do amor de Deus, que tendo descido à nossa miséria nos introduz na santidade e beleza da Sua vida.

Ainda hoje, no sacramento da reconciliação eu toco o amor de Deus. Este sacramento, sinal da presença do ressuscitado, que me faz surgir homem novo, que reconstrói a minha vida é também dinamismo de confirmação da minha vocação e envio como testemunha da Sua pessoa e missão. E sobretudo o Sacramento da Eucaristia, a exemplo dos discípulos de Emaús: O reconhecem, se enchem de alegria e entusiasmo e O anunciam.

Mostrou-lhes as mãos e os pés.

Sentimos muitas vezes necessidade de mostrar os nossos «galões», os nossos títulos, o nosso recheado curriculum, Mas temos receio de nos mostrar a nós próprios. Temos medo de mostrar a nossa fragilidade. Às vezes a santidade não é realidade porque não lemos os sinais da nossa fragilidade no encontro com o Amor, Jesus Cristo.

Cristo mostrou as mãos e os pés. Eles eram o sinal do seu amor, da sua doação e entrega, o sinal da cruz. Mostrou-se naqueles sinais transformados pelo amor mas que foram infligidos com força de ódio, de violência, de tentativa de destruição do próprio Deus feito Homem. Esses sinais são sinais de liberdade: «ninguém me tira a vida eu é que a dou».

Mas este gesto de Lucas é a proclamação da fé em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem: em tudo semelhante a nós. Não é fruto da nossa imaginação! É Ele mesmo, diferente, ressuscitado, mas Deus e Homem, uma só pessoa e duas naturezas. É Jesus Cristo em verdadeira comunhão com os seus discípulos, com a comunidade humana.

Todos somos convidados a vê-Lo, a tocá-Lo com o profundo olhar da fé que na leva a amar de forma intensa e a comprometer a vida com o seu projecto. Tocaremos e veremos o Senhor Ressuscitado em muitos sinais da sua presença, o mais forte e máximo é a Eucaristia, e depois o irmão, e sobretudo o no mais frágil, os pequeninos, os doentes…

Na realidade é preciso vê-Lo e tocá-Lo.

Vós sois testemunhas de todas estas coisas.

A Igreja vive do seu Senhor Ressuscitado. A experiência com Cristo Ressuscitado compromete o cristão, os seus discípulos: no anuncio, no testemunho, no envio, no compromisso com o seu projeto.

Testemunhas pela vida, pela palavra, pelas opções, pelo compromisso com as pessoas, com a Igreja, com a comunidade.

O dinamismo do mistério pascal de Cristo é uma constante até ao seu ponto final. Também em minha vida, na relação com Cristo vivo e ressuscitado, surge em mim, apesar da fragilidade, a novidade e a vitória do mistério pascal do Senhor. E também no mundo, embora este possa acentuar sinais contrários. É imparável a vitória do amor e da vida: Cristo ressuscitado.

A liturgia da celebração deste domingo é um convite à disponibilidade da conversão que dimana do encontro com Cristo ressuscitado. Convite a um compromisso que nos torna suas testemunhas.

Para o cristão, o discípulo que encontrou Jesus Cristo, já não há lugar ao temor, ao medo, à paralisia egoísta, ao calculismo, à corrida aos primeiros lugares, à deturpação da verdadeira imagem de Deus.

É também um convite a amarmos profundamente a Igreja. É nela, comunidade dos crentes, a fazermos a experiência de Cristo ressuscitado e empenharmo-nos com sabedoria e esforço no Seu anúncio.

Maria Santíssima caminha com Igreja de Jesus, comunidade dos seus discípulos, e nos continua a dizer: «Fazei tudo o que Ele vos disser».

Fala o Santo Padre

No tempo pascal a liturgia oferece-nos numerosos estímulos para fortalecer a nossa fé em Cristo ressuscitado. Neste III domingo da Páscoa, por exemplo, são Lucas narra como os dois discípulos de Emaús, depois de O terem reconhecido «ao partir o pão», se dirigiram cheios de alegria a Jerusalém para informar os outros de quanto tinha acontecido. E precisamente quando estavam a falar, o próprio Senhor fez-se presente mostrando as mãos e os pés com os sinais da paixão. Diante da admiração incrédula dos Apóstolos, Jesus pediu peixe assado e comeu-o diante deles (cf. Lc. 24,35-43).

Nesta e noutras narrações entrevê-se um repetido convite a vencer a incredulidade e a crer na ressurreição de Cristo, porque os seus discípulos estão chamados a ser testemunhas precisamente deste acontecimento extraordinário. A ressurreição de Cristo é o acontecimento central do cristianismo, verdade fundamental que se deve reafirmar com vigor em todos os tempos, porque negá-la como se tentou fazer de várias formas, e ainda se continua a fazer, ou transformá-la num acontecimento meramente espiritual, significa vanificar a nossa própria fé. «Mas se Cristo não ressuscitou – afirma São Paulo – é vã a nossa pregação, e vã é também a nossa fé» (1Cor. 15,14).

Nos dias seguintes à ressurreição do Senhor, os Apóstolos permaneceram reunidos entre si, confortados pela presença de Maria, e depois da Ascensão perseveraram juntamente com ela em orante expectativa do Pentecostes. Nossa Senhora foi para eles mãe e mestra, papel que continua a desempenhar para os cristãos de todos os tempos. Todos os anos, no tempo pascal, revivemos mais intensamente esta experiência e talvez precisamente por isto a tradição popular consagrou a Maria o mês de Maio, que normalmente se situa entre a Páscoa e o Pentecostes. Este mês, que em breve se iniciará, é-nos por isso útil para redescobrir a função materna que ela desempenha na nossa vida, para que sejamos sempre discípulos dóceis e testemunhas corajosas do Senhor ressuscitado. […] (Bento XVI, Regina Caeli, 30 de abril de 2006)

Armando Rodrigues Dias - Geraldo Morujão

 

 

Jesus apareceu no meio deles

Neste terceiro domingo do tempo pascal, a liturgia da Palavra traz mais uma vez ao centro da nossa atenção o mistério de Cristo ressuscitado. O episódio que o evangelista São Lucas nos relata no evangelho nos faz lançar o nosso olhar para Jerusalém, pouco depois da ressurreição. Os onze discípulos estão reunidos e já conhecem uma aparição de Jesus a Pedro (cf. Lc. 24,34), bem como o relato do encontro de Jesus ressuscitado com os discípulos de Emaús (cf. Lc. 24,35).  Apesar de tudo, o ambiente é de medo, de perturbação e de dúvida, que aparece frequentemente nos evangelhos. Jesus ressuscitado não é reconhecido com facilidade. Quem consegue vê-lo sempre parece ter dúvidas. Maria Madalena o confunde com um jardineiro; os discípulos de Emaús pensam tratar-se de um viajante; os apóstolos o tomam por um fantasma; Pedro, no lago de Tiberíades, o confunde com um companheiro de pescaria.  As dúvidas estão presentes em todas as aparições de Jesus após a sua ressurreição. Todos os relatos das aparições de Jesus falam das dificuldades que os discípulos sentiram em acreditar e em reconhecer Jesus após a ressurreição (cf. Mt. 28,17; Mc. 16,11.14; Lc. 24,11.13-32.37-38.41; Jo 20,11-18.24-29; 21,1-8).

O medo e a insegurança também aparecem muitas vezes na Sagrada Escritura e, normalmente, no âmbito de uma experiência relacionada com o universo de Deus, como aconteceu com Moisés, no deserto do Sinai, quando um anjo lhe aparece na chama de uma sarça ardente (cf. At. 7,30); o mesmo ocorre com Zacarias no Templo (cf. Lc. 1,12) e com Maria, no momento da anunciação do anjo (cf. Lc. 1,29).  Tanto Zacarias como a Virgem de Nazaré ficam perturbados quando recebem o anúncio do nascimento de um filho. Também os apóstolos Pedro, Tiago e João, no momento da Transfiguração de Jesus no monte Tabor, ficam movidos pelo medo, motivados pela experiência sobrenatural pela qual passaram. A mesma cena volta a repetir quando eles encontram com o Cristo Ressuscitado, que aparece para eles.

Na página evangélica, são Lucas narra que os dois discípulos de Emaús, regressando a Jerusalém, contaram aos Onze como o tinham reconhecido “ao partir do pão” (v. 35). E enquanto eles narravam a experiência do encontro que tiveram com o Senhor, Ele “esteve pessoalmente no meio deles” (v. 36). Mais uma vez, como tinha acontecido com os dois discípulos de Emaús, enquanto está à mesa e come, Cristo ressuscitado se manifesta, ajudando-os a compreender as Escrituras e a reler os acontecimentos da salvação à luz da Páscoa.

Visto que a ressurreição não cancela os sinais da crucifixão, Jesus mostra aos Apóstolos as mãos e os pés. E para os convencer, pede até algo para comer. Então os discípulos “Deram-lhe um pedaço de peixe assado. Ele o tomou e comeu diante deles.” (v. 42-43).  Este gesto de tocar e comer nos ensina que o encontro dos discípulos com Jesus ressuscitado foi um fato real e palpável. Graças a estes sinais os discípulos superaram a dúvida inicial e se abriram ao dom da fé; e esta fé permitiu que eles compreendessem o que estava escrito sobre Cristo “na lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (v. 44).

É surpreendente que enquanto o grupo estava ouvindo o relato dos dois discípulos de Emaús e comenta a aparição de Jesus ressuscitado ao apóstolo Pedro, justamente quando Cristo aparece no meio deles, os discípulos sentem medo e resistem a crer no que seus olhos estão vendo.  Mas eles, depois de um processo gradual de fé e com base em sua experiência e contato pessoal com o Senhor ressuscitado, acabaram por reconhecer que era o próprio Jesus de Nazaré, o mestre, que morreu e agora está vivo porque ressuscitou.

Os Apóstolos hesitam em crer na Ressurreição de Cristo.  O testemunho de Maria Madalena e das outras mulheres, o de Pedro e o dos dois discípulos de Emaús, eram mais que suficientes, pois a tudo isso precedia a profecia da ressurreição, feita por Cristo, para que cressem.  Há certamente, nesta conduta dos apóstolos, um grande temor, um medo de serem enganados. Ao mesmo tempo surge uma manifestação de timidez. Jesus oferece aos seus discípulos uma prova definitiva. Estando reunidos no Cenáculo, aparece a eles, para que, vendo-o, estejam convencidos da realidade de sua ressurreição.

Nas aparições temos uma catequese de Jesus para os seus discípulos, que se manifesta no gesto de mostrar as suas mãos e os seus pés com as chagas recentes de sua cruz,  tocar, palpar, e até tomar parte na refeição deles, fato que não deixa de ser um sinal eucarístico, onde Jesus une o pão com a palavra, ao explicar algumas passagens da Sagrada Escritura que se referiam a Ele próprio.  Assim completa o “sacramento” pascal da fé que se concretiza com a sua aparição, atestada por Maria Madalena, Pedro e pelos demais apóstolos.

O trecho do evangelho termina com as palavras: “Vós sereis testemunhas de tudo isso” (v. 48). Era uma difícil missão que Jesus lhes designava.  Eles viviam ainda escondidos após a Sua morte, temerosos de serem reconhecidos pelas autoridades como discípulos do Senhor; e eis que agora Jesus lhes pede que saiam para proclamar que Ele ressuscitou dos mortos ao terceiro dia e para pregar em Seu nome a todos os povos a sua mensagem de conversão, de perdão e paz.

Os apóstolos serão testemunhas de toda esta verdade e ensinamento.  Mas serão preparados com a grande força renovadora e fortalecedora de Pentecostes.  Receberão o Espírito Santo. Neste tempo pascal nós também deparamos com um repetido convite de Jesus a vencer a incredulidade e a crer na sua ressurreição, porque somos chamados a também testemunhar precisamente este acontecimento extraordinário. A ressurreição de Cristo é o acontecimento central do cristianismo, verdade fundamental que se deve reafirmar com vigor em todos os tempos.

Na segunda leitura, o apóstolo são João lembra que para conhecer Jesus Cristo, precisamos fazer a experiência do Amor: “Quem diz que conhece a Deus, mas não cumpre os seus mandamentos, é mentiroso, e a Verdade não está nele” (1Jo 2,4). E continua: “Por outro lado, o amor de Deus se realiza de fato em quem observa a Palavra de Deus. É assim que reconhecemos que estamos com ele” (1Jo 2,5). Essas narrativas nos dizem respeito, pois temos a possibilidade de reencontrar o Ressuscitado e a obrigação de testemunhar para que outros possam também encontrá-lo. E é pela vivência do amor que nós faremos que os outros o reconheçam.

Jesus nos garante a sua presença real entre nós, por meio da Palavra e da Eucaristia. Por conseguinte, assim como os discípulos de Emaús reconheceram Jesus ao partir o pão (cf. Lc 24, 35), também nós encontramos o Senhor na Celebração eucarística. Explica, a este propósito, Santo Tomás de Aquino: “É necessário reconhecer, segundo a fé católica, que Cristo está inteiramente presente neste Sacramento… porque a divindade deixou o corpo que adquiriu” (S. TOMÁS DE AQUINO, Suma Teológica, III, q. 76, a. 1).

A páscoa traz também a nós uma mensagem de paz.  “A paz esteja convosco” (v. 36), é o que mais uma vez repete Jesus.  Prestes a se entregar pela nossa redenção, Jesus Cristo deixa aos seus discípulos a paz.  Depois de sua morte, é novamente a paz que ele oferece, duradoura e eficaz. Jesus nos convida a acolher o dom da sua paz, mas também a sermos construtores da cultura da paz onde estivermos.

dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB

 

 

Jesus ressuscitou verdadeiramente? Como é que podemos fazer uma experiência de encontro com Jesus ressuscitado? Como é que podemos mostrar ao mundo que Jesus está vivo e continua a oferecer aos homens a salvação? É, fundamentalmente, a estas questões que a liturgia do 3° Domingo da Páscoa procura responder.

O Evangelho assegura-nos que Jesus está vivo e continua a ser o centro à volta do qual se constrói a comunidade dos discípulos. É precisamente nesse contexto eclesial - no encontro comunitário, no diálogo com os irmãos que partilham a mesma fé, na escuta comunitária da Palavra de Deus, no amor partilhado em gestos de fraternidade e de serviço - que os discípulos podem fazer a experiência do encontro com Jesus ressuscitado. Depois desse "encontro", os discípulos são convidados a dar testemunho de Jesus diante dos outros homens e mulheres.

A primeira leitura apresenta-nos, precisamente, o testemunho dos discípulos sobre Jesus. Depois de terem mostrado, em gestos concretos, que Jesus está vivo e continua a oferecer aos homens a salvação, Pedro e João convidam os seus interlocutores a acolherem a proposta de vida que Jesus lhes faz.

A segunda leitura lembra que o cristão, depois de encontrar Jesus e de aceitar a vida que Ele oferece, tem de viver de forma coerente com o compromisso que assumiu D Essa coerência deve manifestar-se no reconhecimento da debilidade e da fragilidade que fazem parte da realidade humana e num esforço de fidelidade aos mandamentos de Deus.

Abriu-nos o entendimento...

Acabam de chegar os dois de Emaús contando “o que lhes tinha passado pelo caminho e como tinham reconhecido a Jesus ao partir o pão”. Na comunidade falamos destas coisas, porém temos com clareza o que significa crer na Ressurreição, ou “temos medo da surpresa” e da “presença de Jesus no meio de nós”? E nós fizemos da ressurreição um fato incrível que aconteceu com Ele. Mas como nos lembram a primeira e a segunda leitura de hoje, crer na Ressurreição significa crer em nossa própria Ressurreição, em nossa mudança de vida, na conversão como nos disse Pedro: arrependei-vos e convertei-vos,para que vossos pecados sejam perdoados.

Já o dizíamos ao falar do Reino, a cada um de nós deve escolher entre a vida ou a morte, a luz ou as trevas, o amor ou o egoísmo, a verdade ou a mentira, a justiça ou a injustiça. Portanto crer neste morto que ressuscitou, é saber que precisamos não “matar ao autor da vida”, não matar o sorriso, a ternura, a alegria, as relações sociais. Encantamos-nos ante uma por de sol na praia, no topo de uma montanha, olhando as flores na primavera, beijando as crianças e aos nossos entes queridos, escutando música, lendo poesia... Na Páscoa não matemos a vida. Ressuscitar é viver hoje um novo modo de enfrentar o relacionamento do casal, na família, da política, das relações comunitárias, no trabalho e não esperar ressuscitar no último dia.

Jesus ressuscitado não é um fantasma. É compreensível o medo dos discípulos, como é compreensível nosso medo de crer que Jesus ressuscitou e com Ele nós. Em frente a esse medo só fica a confiança em que Deus pode fazer tudo de novo. Nós seguimos crendo na vida onde outros jogam à morte e desde aí vivemos nossa situação familiar, no emprego, na caminhada do país e da Igreja. Compreendemos que devemos mudar o foco pessimista, fechado, burguês, rotineiro, por outro de renovação, de luta, de esforço, de dinamismo, de esperança.

“Dito isto, Jesus mostrou-lhes as mãos e os pés. Mas eles ainda não podiam acreditar, porque estavam muito alegres e surpresos. Então Jesus disse: Tendes aqui alguma coisa para comer?” Estão, e estamos cheios de dúvidas em nosso interior, não é algo novo, eles e nós em nosso processo acumulamos dúvidas sobre o que aquele homem fazia e dizia, sobre suas companhias, suas bem-aventuranças, o tocar nos leprosos, fazer coisas proibidas. Para nos mostrar que Deus lhe tinha dado a razão se pôs a comer conosco “um pedaço de peixe assado” e como os que acabavam de chegar de Emaús nos “abriu o entendimento”. É o gesto definitivo, é tempo de comer juntos e sobretudo com os que não têm pão, é tempo de construir o Reino.

Como diria Eduardo Galeano, pensador e poeta falecido nesta semana: “Muita gente pequena em locais pequenos, fazendo coisas pequenas podem mudar o mundo” e, “A utopia está no horizonte”. Aproximo-me dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte se afasta dez passos para além. Por muito que caminhe, nunca o alcançaremos. Então, para que serve a utopia? Para isso: serve para caminhar”. Toca-nos ser e fazer sinais pequenos de Ressurreição, ao partir e compartilhar o pão, ao pôr a vida e a alegria acima do medo e da morte, ao pregar a utopia do Reino (Ressurreição). Como diz o texto: “Em seu nome se pregará a conversão e o perdão dos pecados a todos os povos, começando por Jerusalém. “Vocês são testemunhas disto”. Em nossas comunidades devemos falar destas coisas, pôr em comum nossas dúvidas e algumas certezas, o caminho da Páscoa marca-nos o horizonte da Vida.

Julio César Rioja, cmf

 

 

A liturgia deste III domingo da Páscoa convida-nos a descobrir esse Cristo vivo que acompanha os homens pelos caminhos do mundo, que com a sua Palavra anima os corações magoados e desolados, que se revela sempre que a comunidade dos discípulos se reúne para “partir o pão”; apela, ainda, a que os discípulos sejam as testemunhas da ressurreição diante dos homens.

É no Evangelho, sobretudo, que esta mensagem aparece de forma nítida. O texto que nos é proposto põe Cristo, vivo e ressuscitado, a caminhar ao lado dos discípulos, a explicar-lhes as Escrituras, a encher-lhes o coração de esperança e a sentar-Se com eles à mesa para “partir o pão”. É aí que os discípulos O reconhecem.

A primeira leitura mostra (através da história de Jesus) como do amor que se faz dom a Deus e aos irmãos, brota sempre ressurreição e vida nova; e convida a comunidade de Jesus a testemunhar essa realidade diante dos homens.

A segunda leitura convida a contemplar com olhos o projeto salvador de Deus, o amor de Deus pelos homens (expresso na cruz de Jesus e na sua ressurreição). Constatando a grandeza do amor de Deus, aceitamos o seu apelo a uma vida nova.

Celebrar a Eucaristia no caminho da vida

A história dos dois de Emaús é já muito conhecida. O ponto de partida é um momento da história que talvez não gostemos de recordar. A cruz de Jesus produziu uma verdadeira debandada nas filas de seus seguidores. Os que tinham deixado tudo para segui-lo decidiram voltar a deixar tudo para começar de novo. A decepção, a desesperança, a sensação de fracasso instalaram-se em seus corações. E decidiram voltar-se sobre seus passos ao que eram e tinham dantes de conhecer Jesus. Tanto esforço não tinha valido a pena! Num momento, os chefes dos judeus e os romanos tinham convertido em pedaços o sonho do Reino. Não tinha nada que fazer!

Tudo isto é já conhecido. Não nos resulta difícil nos sentir identificados com estes dois discípulos que voltam desencantados a sua terrinha, que abandonam o sonho do Reino. Mas não é isso o melhor do relato. O melhor é que ao final os discípulos voltam sobre seus passos. Retornam a Jerusalém, lugar da cruz e a decepção, mas com o coração cheio de entusiasmo e de vida (“Não ardia nosso coração...?”), como fruto do encontro com um caminhante, com um desconhecido.

Aparece um caminhante

Simplificando, podemos dizer que se trata de um dos relatos da aparição de Jesus ressuscitado. Mas, como alguma outra, é um aparecimento misterioso. Jesus não é reconhecido à primeira vista - como foi possível que não lhe reconhecessem seus discípulos?-. É só um caminhante com o qual eles tem um encontro casual, que escuta aos dois discípulos e compartilha com eles a trilha e a direção (para o fracasso?). O caminhante não tem nome nem rosto. É um mais. Caminha com eles. Escuta-lhes pacientemente. Depois intervém. Alumia-lhes o sucedido desde a Escritura. Falam, dialogam, compreendem... Ao longo do caminho.

Entretanto os discípulos não mudaram de direção em sua caminhada. Mas, ao menos, decidem que é tempo de fazer uma parada no caminho. É tempo de descansar, de deter-se, de compartilhar a ceia. Convidam ao desconhecido. Aí se produz o reconhecimento, ao partir o pão. Dão-se conta de que o que caminhou com eles, o que lhes falou, o que lhes partiu o pão, é Jesus mesmo.

Mas então desaparece. Não há mais Jesus visível. Os discípulos ficam sozinhos. Com suas forças. Com sua fé. Mas o pão e a palavra abriram-lhes à vida. O caminhante desconhecido tocou-lhes o coração e ajudou-lhes a encontrar o sentido do sucedido. E retomam o caminho a Jerusalém, agora o lugar da ressurreição e do triunfo, da esperança e da vida.

Uma Eucaristia feita relato

O relato dos de Emaús é o relato de uma Eucaristia daqueles primeiros tempos. Ainda não há formalismos. Não existem os missais nem os ritos. Tudo é mais singelo, mais simples, mais próximo. Os discípulos reúnem-se, recordam, comentam, alumiam-se uns a outros. E compartilham o pão, fazendo memória de Jesus, utilizando as mesmas palavras de Jesus na última ceia. Os desconhecidos fazem-se família em torno do pão e da palavra. Nesse compartilhar e recordar, se faz presente Jesus  ressuscitado. Sentem a força da vida presente Nele. Comungam com sua missão.

Na Eucaristia encontram as forças para voltar a Jerusalém, para sair de novo para o caminho, a manchar os pés e as mãos com o barro da história, a falar e dialogar, a nos encontrar como desconhecidos, com os diferentes, a não deixar um rincão sem que chegue a palavra misericordiosa e cheia de esperança que Jesus pronunciou definitivamente na história da humanidade.

Fazer do caminho encontro e Eucaristia

Aquelas primeiras Eucaristias foram o detonante da vida e a esperança nos discípulos que se deixavam levar pela morte e o desengano. Os caminhos eram os mesmos, mais a direção tinha mudado. Os desconhecidos descobriam-se irmãos. Tinham um tesouro para compartilhar com os homens e mulheres de seu tempo. Fazer realidade na vida diária o Reino de Deus. Até nós, longe no tempo e no espaço, chegou seu estimulo, sua capacidade de escuta. Graças a Deus!

O caminho da vida é nossa oportunidade para fazer encontro, fraternidade, Eucaristia, para fazer presente o Reino. A Eucaristia põe-nos a caminho e o caminho em fraternidade faz-se Eucaristia.

Fernando Torres, cmf

 

 

«Porque surgem tais dúvidas nos vossos corações?»

Esta passagem do Evangelho [...] mostra-nos, verdadeiramente, Quem é Cristo e, verdadeiramente, quem é a Igreja [...], para que compreendamos bem que Esposa o Divino Esposo escolheu e Quem é o Esposo desta santa Esposa. [...] Nesta página podemos ler a sua certidão de casamento. [...]

Aprendestes que Cristo era o Verbo, a Palavra de Deus, unida a uma alma humana e a um corpo humano. [...] Aqui, os discípulos julgaram ver um espírito; não acreditavam que o Senhor tivesse um corpo verdadeiro. Mas, como o Senhor conhecia o perigo de tais pensamentos, apressou-Se a arrancá-los dos seus corações [...]: «Porque estais perturbados e porque surgem tais dúvidas nos vossos corações? Vede as Minhas mãos e os Meus pés: sou Eu mesmo. Tocai-Me e olhai que um espírito não tem carne nem ossos, como verificais que Eu tenho.» E tu, a esses mesmos pensamentos loucos, contrapõe, com firmeza, a regra da fé que recebeste. [...] Cristo é verdadeiramente o Verbo, o Filho único, igual ao Pai, unido a uma alma verdadeiramente humana e a um corpo livre de todo o pecado. Foi esse corpo que morreu, esse corpo que ressuscitou, esse corpo que foi pregado na cruz, esse corpo que foi deposto no túmulo, esse corpo que está sentado nos céus. Nosso Senhor queria persuadir os discípulos de que Aquilo que viam era verdadeiramente osso e carne. [...] Porque me quis Ele convencer desta verdade? Porque sabia até que ponto me é benéfico acreditar e quanto tenho a perder se não acreditar. Acreditai, pois, vós também: Ele é o Esposo!

Escutemos agora o que se diz a respeito da Esposa [...]: «Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e ressuscitar de entre os mortos ao terceiro dia; que havia de ser anunciada, em Seu nome, a conversão para o perdão dos pecados a todos os povos, começando por Jerusalém.» Eis a Esposa [...]: A Igreja espalhou-se por toda a terra e tomou no seu seio todos os povos. [...] Os Apóstolos viram a Cristo e acreditaram na Igreja que não viram. Nós, no entanto, vemos a Igreja; acreditemos, portanto, em Jesus Cristo, que não vemos: ligando-nos, assim, ao que vemos, chegaremos Àquele que ainda não vemos.

Santo Agostinho - Sermão 238

 

 

O reconhecimento das pessoas na igreja

Os discípulos de Emaús, ao regressarem a casa em Jerusalém, narram a sua experiência de itinerantes que reconhecem Jesus ao partir do pão. O reencontro ocorre num clima denso: os outros estão reunidos numa sala com as portas trancadas – sobretudo as do coração, apesar de  notícias alegres  que iam surgindo -, e escutam o testemunho de quem chega. Entretanto, acontece nova surpresa: Jesus aparece, coloca-se no meio deles, saúda-os e dá-lhes provas da sua identidade de Crucificado/Ressuscitado. A transformação é radical: o medo que tolhe a liberdade cede lugar à ousadia; a tristeza que abate os ânimos é superada pela alegria; a dúvida intrigante vê despontar a certeza da fé; a vida encerrada na tragédia do Calvário abre-se ao anúncio jubiloso do Senhor Ressuscitado; as trancas das portas transformam-se em pontes de missão universal.

Os sinais de que Jesus se serve para ser reconhecido como Ressuscitado estão relacionados com a mesa familiar, com os comensais da mesma refeição, com a conversa de amigos e o convívio de quem recupera energias perdidas e se dispõe a ler e a enfrentar as situações da vida, à luz da Escritura; a reganhar força para o futuro que se desenha nos desafios da missão. A experiência da refeição à mesa regenera a dignidade perdida, robustece a identidade, confirma o reconhecimento do que se é e se faz.

É a eucaristia que cria dinamismos de comunhão a partir das legítimas diferenças. A sua celebração mostra a dignidade da assembleia do povo cristão e a de cada um dos que realizam os serviços necessários. A Igreja a todos reconhece na dignidade batismal e a todos convida à cooperação em ordem a que surja a harmonia pastoral missionária. Exorta cada um a prosseguir na resposta à santidade a que Deus nos chama. No quotidiano e nas situações singulares que contextualizam a nossa opção de vida. Reconhece e configura o reconhecimento em regras que credenciam quem assume certos serviços de forma estável e está habilitado a, com a ajuda de Deus e da comunidade, a realizá-lo com humilde espírito cristão e generosa disponibilidade.

Constitui marco de referência para o que diz respeito às associações de fiéis o documento conciliar sobre o Apostolado dos Leigos, 18-19, e o Código em vários cânones, designadamente 298 e 299. Também alguns serviços e ministérios estão reconhecidos na área da liturgia e da catequese. Escasseiam em campos pastorais como o da família (por exemplo o ministério conjugal para os que casam na Igreja); o da caridade em todos os escalões do desenvolvimento integral e da maturidade cristã; o dos movimentos apostólicos de intervenção social; o da comunidade como povo de Deus e seus processos de evangelização, de animação e de coordenação; o dos órgãos de discernimento de opções a tomar e de aconselhamento programático a seguir; o da presidência na caridade, alimentando o espírito de quem, sendo irmão, está chamado a servir como pastor.

O programa pastoral 2017/2018 da diocese de Aveiro aponta como linha de ação a nível paroquial: “Dinamizar o envolvimento de leigos na condução corresponsável dos processos de pastoral paroquial através do reconhecimento efetivo e estável dos mesmos pelo bispo diocesano”. Esta linha de acção, a par de outras, reveste uma importância especial pois traduz um acto público de fé nos dons que o Espírito concede e nas capacidades que cada baptizado desenvolve e que o habilitam para a missão confiada; acto de caridade no valor do que tantos leigos estão a fazer e querem ver reconhecido; acto de esperança germinal do futuro emergente na Igreja em saída missionária chamada à conversão de atitudes dos seus membros e da organização da sua instituição.

O impacto da consciência social que se libertou de formas atávicas e reconhece o acesso indiferenciado a espaços abertos a praticamente a todas as pessoas, designadamente as que se preparam e dão provas de habilitação própria, a repercussão de igrejas que vão abrindo caminho a novas formas de ministérios, designadamente a mulheres, a ação de movimentos portadores de uma nova primavera na inculturação da fé e da ação apostólica, a fase crítica em que se encontra a Igreja católica na Europa e não só, constituem “janelas” que permitem antever o futuro que se avizinha e lançam estímulos não a regressar a um passado que não se deseja, mas a procurar os espaços onde o Espírito está também a atuar, hoje. O Senhor ressuscitado dá-nos o exemplo. Avancemos na ousadia confiante.

padre Georgino Rocha

 

 

Os discípulos que iam a caminho de Emaús tinham reconhecido Jesus que se deu a conhecer ao partir o pão, isto é, na Eucaristia. É esta experiência que agora querem partilhar com os outros discípulos.

O evangelista Lucas descreve-nos o encontro de Jesus com o grupo, apontando para alguns aspectos fundamentais.

Jesus apresenta-se e, tal como no evangelho de S. João, comunica a Paz. E também aqui surge o espanto e a dúvida, mas Jesus dá-se a conhecer. É interessante notar que os sinais do reconhecimento não é o rosto mas as mãos e os pés. A ressurreição não apagou os sinais da morte, ou seja, da entrega total e amorosa que o Filho de Deus fez de Si mesmo por todos os homens.

Os cristãos para quem Lucas escreve são de cultura grega que considerava o espírito como o elemento fundamental da pessoa e o corpo como um acessório a dispensar. Por isso, o evangelista insiste na corporeidade de Jesus: carne e ossos. Jesus é Aquele que continua a estar presente na vida da comunidade, não um ser distante e ausente junto do Pai.

A segunda parte do texto apresenta o modo do reconhecimento que os cristãos de todos os tempos podem experimentar. É necessário abrir o entendimento e o coração à Palavra de Jesus e às Escrituras que nos mostram hoje o Cristo Vivo que continua a amar os seus, a «mostrar as suas mãos e os seus pés».

Quem se encontra com o Cristo morto e ressuscitado é convidado a uma conversão, a uma mudança de vida para receberem o perdão. E este o grande anúncio que é necessário ser feito a todos e em toda a parte.

padre Franclim Pacheco

 

 

Vede minha mão e meus pés!

Algumas correntes do cristianismo primitivo espiritualizaram muito cedo a pessoa e a proposta de Jesus. Para esses grupos, as chagas do Crucificado desapareceram e passou-se a cultuar uma religião que negava a encarnação. Muitos passaram a afirmar que Jesus morreu na cruz aparentemente, seu corpo era apenas um corpo aparente (docetismo). Essa negação teórica tinha uma implicação prática: para ser uma boa pessoa cristã, bastava buscar conhecer (gnose) de verdade esse espírito e a ele chegar pelo esforço intelectual/espiritual.

Por essa razão, as comunidades joaninas, já no convívio com essas correntes de influência gnóstica, são enfáticas em afirmar: "o Verbo se fez carne e acampou no nosso meio" (João 1,14). Se, por um lado, a fala de Tomé é expressão de sua dúvida, por outro, é sinal de que acredita em um Deus encarnado e sofredor: "Se eu não vir nas suas mãos os sinais dos cravos, e ali não puser o meu dedo, e não puser a minha mão no seu lado, de modo algum acreditarei" (João 20,25).

No texto de Lucas 24,36-49, Jesus chega desejando a paz, fazendo uso de um cumprimento de que todo judeu gosta de ouvir: shalom! (24,36). O susto é grande e o grupo pensa que é um espírito. "Um espírito não tem carne e osso", afirma Jesus. "Vede minhas mãos e meus pés, sou eu" (24,39). Não há como negar, afirmam as comunidades lucanas: nosso Deus não é só um espírito, o cruficidado/ressuscitado permanece entre nós! Erra quem prega um Deus desencarnado. Não entende a proposta quem imagina que é suficiente louvar um espírito, muitas vezes até distante, outras vezes apenas doce e virtual.

O Ressuscitado é carne, é gente de verdade e continua com mãos, pés e o lado marcados por ferimentos. Cabe a nós tratar desses ferimentos, como fez o samaritano em outro texto narrado exclusivamente por Lucas (10,29-37). Cabe a nós não fugir e testemunhar por nossos atos: o Ressuscitado é o mesmo Crucificado a contar conosco também hoje, nos pobres e necessitados. A fé em Jesus é algo mais exigente: é preciso continuar reconhecendo sua pessoa sofredora, encarnada nas pessoas sofredoras de ontem e de hoje.

Primeiro comer para depois "abrir a mente"

Depois de saborear um bom peixe assado, Jesus convida o seu grupo a ler a Bíblia: "era preciso que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos profetas e nos salmos. E abriu-lhes a mente para que entendessem as Escrituras (Lucas 24,44-45). Como tinha feito no caminho de Emaús (24,27), Jesus retoma a Bíblia: a Lei (a Torah, o Pentateuco), os Profetas (os Nebiin, livros históricos e proféticos) e os Salmos (que representam os Ketubin, os outros Escritos).

Entretanto, parece que mais uma vez Jesus quer nos apresentar um método de evangelização: a mesa da partilha e o ato de matar a fome vêm em primeiro lugar em nossos trabalhos pastorais e sociais. A Bíblia e, mais ainda, as normas das diferentes igrejas não podem ser usadas para doutrinar a vida, mas para iluminá-la. Despertar a consciência é algo que não se faz com a barriga vazia! Partilhar o peixe (e o pão, e a dignidade) é algo que se faz como prioridade.

Ressurreição acontece ao redor da mesa

O tema da mesa (comensalidade) é um dos mais caros ao evangelho de Lucas. Jesus come com publicanos (Lc 5,29-32); à mesa, na casa de um fariseu, é ungido pela mulher pecadora; (7,36-50; 11,37-54); também na casa de um fariseu desmascara a hipocrisia e o legalismo de quem o acolhia (10,38-42); janta na casa de Zaqueu e o ensina a repartir; faz-se ele mesmo pão repartido (22,14-2); e se dá a conhecer, em Emaús, ao redor da mesa (Lc. 24,13-35). Ao todo, por doze vezes Jesus se senta à mesa no evangelho de Lucas. E ainda convida a quem permanecer fiel a sentar-se na mesa de seu Reino (22,28-30).

No evangelho de hoje, ele pede peixe e come com os seus (22,42). O peixe se tornou um forte símbolo do cristianismo primitivo. Era e ainda é comida de gente simples, que busca sobreviver como consegue, à margem de lagos, rios e mares. Ao mesmo tempo, um pouco de sal e algumas brasas são suficientes para que o banquete esteja pronto e apetitoso. A mesa é o chão da pesca, é a lida do dia-a-dia, a marmita do boia-fria, mas com o direito de estar quentinha, na brasa! E o Mestre come com eles mais uma vez!

Edmilson Schinelo

 

 

“E vocês são testemunhas disso” (Lc. 24,48).

O Evangelho deste domingo, o terceiro da Páscoa, apesar de a Igreja privilegiar o Evangelho de Marcos neste ano litúrgico, traz uma passagem do Evangelho de Lucas. Os acontecimentos que antecedem a narrativa exposta neste domingo é uma passagem que só é narrada por Lucas e por nenhum mais dos outros Evangelistas: os discípulos de Emaús (cf Lc 24,13-35).

A narrativa desta liturgia começa exatamente quando termina a dos discípulos de Emaús, no seu versículo 35, quando, após a manifestação de Jesus a eles e eles haverem reconhecido o Mestre ao partir o pão, “na mesma hora eles se levantaram e voltaram para Jerusalém, onde encontraram os Onze, reunidos com os outros.” (At. 24,33).

Pelo visto, os apóstolos já tinham conhecimento da ressurreição do Mestre porque confirmaram, dizendo: ‘Realmente, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão’!” (Lc 24,34).

Na sequência os discípulos de Emaús “contaram o que tinha acontecido no caminho, e como eles tinham reconhecido Jesus quando ele partiu o pão.” (At 24,35).

Esse “partir o pão” tem um significado muito especial. Todas as vezes que, nos Santos Evangelhos, vemos que Jesus partia o pão, estava acontecendo alguma coisa muito especial.

Partir o pão é “doar-se!” Partir o pão é “evangelizar!” Partir o pão é tornar Jesus presente. Partir o pão é transmitir a palavra de Deus aos famintos da verdade. É no ouvir a Palavra e no partir do pão da verdade que reconhecemos Jesus Ressuscitado.

Ouvir a Palavra e repartir o pão da verdade é dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, vestir os nus, visitar os doentes, orar pelos pecadores, consolar os aflitos e desesperados, conduzir para o bom caminho os extraviados pelas estradas da existência.

Ouvir a Palavra e repartir o pão, no sentido cristão, é socorrer os irmãos em suas necessidades, tanto materiais como espirituais. E somente chegaremos à conclusão da extensão das maravilhas e satisfação desse ouvir a Palavra e desse repartir o pão quando sentimos aquele ardor no coração que vem do Espírito Santo, assim como sentiram os discípulos de Emaús e tantas outras personagens santas das Sagradas Escrituras e de todos os tempos.

Os discípulos de Emaús “ainda estavam falando, quando Jesus apareceu no meio deles, e disse: ‘A paz esteja com vocês.” (Lc. 24,36).

É dessa paz que o mundo precisa. É dessa paz que cada um de nós precisa. A verdadeira paz que vem do Ressuscitado. Então, porque não falar dessa paz?

Às vezes, em muitas circunstâncias da vida, como os apóstolos estavam se sentindo após a crucificação e morte de Jesus, nos sentimos sozinhos, abandonados, isolados. Nesse isolamento sentimos um vazio intenso e o silêncio grita alto dentro de nós todas aquelas coisas que gostaríamos que se tornassem conhecidas e aceitas para provar que somos humanos, que acertamos algumas vezes e erramos outras tantas; e o silêncio explode dentro de nosso cérebro, dentro do nosso peito, dentro do nosso coração, ressoando fortemente em nossa alma e, desesperadamente, buscamos paz, procuramos a paz, lutamos pela paz, desejamos ardentemente a paz... paz... paz...

Como necessitamos de paz. Como procuramos a paz, como desejamos a paz. Paz interior. Paz de espírito. Paz na alma. Paz onde vivemos. Paz onde trabalhamos. Como procuramos a paz.

Mas como a procuramos nos lugares mais equivocados, nos lugares onde, absolutamente, ela não está, não se encontra, e, nessa busca desenfreada pela paz mais nos confundimos, mais nos desesperamos, mais nos perdemos, mais nos equivocamos.

Mas, o que é paz? Se procurarmos no dicionário encontraremos que paz é ausência de guerra, é tranquilidade, serenidade, sossego, descanso, ausência de hostilidade, silêncio... Mas a paz que o nosso espírito, o nosso coração, a nossa alma busca não é somente ausência de guerra, nem tranquilidade, nem o que tudo o mais que o dicionário pressupõe.

A paz que buscamos, a paz verdadeira é estarmos de bem conosco mesmos e com Deus, mesmo que à nossa volta haja confusão, guerra, incompreensão, agressões...

A paz verdadeira vem de Deus, somente de Deus; paz interior, paz de consciência, paz de espírito, paz na alma, paz no coração...

A paz que buscamos não é essa paz que é sinônimo de tranquilidade, mesmo contrariando a definição de paz que nos dão os dicionários da nossa língua portuguesa.

Realmente, a paz que vem de Deus não pode ser sinônimo de tranquilidade, porque, por um paradoxo, o Senhor Nosso Deus nos dá a sua paz exatamente para não nos deixar em paz, para não nos deixar tranquilos, porque, quem tem a paz que vem do Senhor não pode estar tranquilo ao conviver com tantas injustiças, tantas mentiras, agressões, infidelidades, falsidades, desumanidade, desamor, tantos interesses escusos e mesquinhos que existem entre as pessoas, e o pior, pessoas que se dizem cristãs, e isso em quaisquer seguimentos cristãos e no mundo inteiro.

Quem tem a paz que vem do Senhor não pode se acomodar, não pode se tranquilizar, porque a paz que o Senhor nos dá não é a mesma paz que o mundo transmite: “A minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo dá. Não se perturbe nem se intimide o vosso coração.” (Jo. 14,27).

Quem tem a paz que vem do Senhor Nosso Deus não pode se omitir ao ver tantas e tantas faltas e falhas, tantos pecados imperarem nos locais que, por força das circunstâncias e princípios, deveriam ser santos; não podem concordar com aqueles que deveriam se postar em defesa dos oprimidos e dos injustiçados se calarem criminosa e covardemente; não podem ter repouso ao presenciar tantas agressões covardes contra aqueles que não podem e não sabem e nem tem condições de se defender, tanto física quanto moral, psicológica e até religiosamente.

Por isso, a paz não é e nem pode ser sinônimo de tranquilidade.

O Senhor nos dá a paz, mas não nos deixa em paz...

A paz que vem do Senhor é aquela que deve nos desalojar do nosso comodismo da mesma maneira como aconteceu com Maria, a mãe de Jesus que, após receber em seu coração e no seu ventre a Paz Personificada no Filho de Deus, não se acomodou e partiu para uma longa viagem ao tomar conhecimento, pela boca do Anjo que viera lhe trazer a Boa Nova da vinda do Messias, que a sua parenta Isabel, mulher já de idade avançada, necessitava de sua ajuda, de sua presença para auxiliá-la nos preparativos dos últimos dias de sua gravidez temporã, conforme narra Lucas, 1,26-27.

Só os valentes têm essa paz verdadeira. Os valentes que assumem de corpo e alma os preceitos emanados das Sagradas Escrituras e ditados pelo Senhor Nosso Deus e que se sintonizam com a vontade divina para servirem de instrumentos nas mãos do Pai a fim de dar continuidade ao plano de salvação iniciado por Jesus Cristo e que se prolonga na luta do dia-a-dia de sua Igreja.

E o resultado dessa paz nem sempre é uma velhice tranquila ou uma aposentadoria sem lutas e abastada como todos desejariam que fossem, como aconteceu com a irmã Dóroty.

O resultado dessa paz é, muitas vezes, a incompreensão dos homens e do mundo, é uma coroa de espinhos, são flagelos, chacotas, indiferenças e dores que, muitas vezes, terminam ao se ver o mundo do alto, mas do alto de uma cruz, como aconteceu com o Senhor Jesus, e isso não é novidade pois que, o Senhor Jesus já nos alertava a respeito disso: “Não existe discípulo superior ao mestre, nem servo superior ao seu senhor. Basta que o discípulo se torne como o mestre e o servo como o seu senhor.” (Mt. 10,24-25).

Essa paz que buscamos desesperadamente somente a encontramos, e gratuitamente, nos é transmitida, através dos apóstolos e discípulos, pelo Senhor Jesus: ”A paz esteja com vocês”. (Lc. 24,36; Jo 20,21.26), e “Eu deixo para vocês a paz, eu lhes dou a minha paz. A paz que eu dou para vocês não é a paz que o mundo dá. Não fiquem perturbados , nem tenham medo.” (Jo. 14,27).       

Por incrível que possa parecer, vemos que todos aqueles que receberam a paz diretamente do Senhor Jesus e, estando em pleno gozo dessa paz, foram perseguidos, caluniados, flagelados, assassinados, martirizados.

E ai nos vem a pergunta: “Que tipo de paz é essa que, para gozá-la plenamente, passa-se por todas essas privações?” Essa é a paz verdadeira que vem do Senhor Nosso Deus nos dando plena segurança de que vale à pena ser perseguido injustamente pelo mundo e incompreendido pelos homens e até por aqueles que amamos de verdade; vale à pena, desde que permaneçamos fieis às observâncias dos preceitos evangélicos transmitidos por Jesus Cristo e consolados por sua exortação: “Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados são vocês, quando lhes injuriarem e lhes perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vocês por causa de mim. Alegrem-se e regozijem-se, porque será grande a recompensa de vocês nos céus, pois foi assim que perseguiram os profetas, que vieram antes de vocês.” (Mt. 5,10-12).

A paz que recebemos do Senhor Nosso Deus nos traz alegria interior. A paz que o mundo nos oferece se transforma em remorso.

O Senhor faz bem-aventurados todos aqueles que vivem na sua paz e a sua paz e as bem-aventuranças evangélicas são o conforto que o Senhor dá aos que vivem na sua paz.

Bem-aventurados os que buscam a paz no Senhor, os que vivem plenamente essa paz e que a transmitem a todos os que o cercam.

Precisamos dessa paz, buscamos essa paz e somente essa paz porá fim ao silêncio gritante que ecoa em nossos corações pelas indecisões que a vida nos traz.

No Evangelho de João, na oportunidade dessa mesma narrativa, Jesus transmite a paz juntamente com o envio dos apóstolos para o mundo, transmitindo a eles o Espírito Santo que ele havia prometido durante quase toda a sua pregação, além de lhes facultar uma atitude que só a Deus pertence: a de perdoar pecados: “Jesus disse de novo para eles: A paz esteja com vocês. Assim como o Pai me enviou eu também envio vocês. Tendo falado isso Jesus soprou  sobre eles, dizendo: ‘Recebam o Espírito Santo.. os pecados que vocês perdoarem, serão perdoados. Os pecados que vocês não perdoarem, não serão perdoados.” (Jo. 20,21-23).

A presença do Espírito Santo transmitido à Igreja de Jesus Cristo só pode trazer e transmitir a paz, não a paz do mundo, “a paz que eu dou para vocês não é a paz que o mundo dá”.

A presença do Espírito Santo na Igreja patrocina o perdão pleno e irrestrito dos pecados.

A presença do Espírito Santo transmitido por Jesus ao soprar sobre os seus apóstolos, deve ser materializada no amor, porque, como disse João na sua carta: “Filhinhos, amemo-nos uns aos outros, pois o amor vem de Deus. E todo aquele que ama, nasceu de Deus e conhece a Deus. Quem não ama, não conhece a Deus, porque Deus é amor. [...] “Nós reconhecemos o amor que Deus tem por nós e acreditamos nesse amor. Deus é amor: quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus permanece nele.” 1Jo. 4,7-8.16).

diácono Milton Restivo

 

 

O terceiro domingo do tempo pascal nos apresenta Jesus ressuscitado dos mortos, revelando-se novamente à Comunidade dos discípulos, desejando-lhe: “a paz esteja convosco!”.

A morte e a ressurreição do Senhor ocupam o centro da história da salvação. A escuta da Palavra de Deus suscita a fé em Cristo ressuscitado. Como outrora os discípulos, hoje, nós também experimentamos sua presença por meio da Palavra e do Pão da vida. Ele nos comunica a paz e nos confirma como testemunhas do mistério de sua Páscoa. Confirmados na fé pelos sinais sensíveis e instruídos pelas palavras da Escritura, podemos perceber a sua presença viva na comunidade e na história.

Enquanto o pecado que nos faz virar as costas para Deus, deixando-nos mofos, embolorados, deprimidos e na sombra da solidão, o sepulcro vazio do Ressuscitado nos devolve aquela paz que nossa arrogância e prepotência nos roubam.

 Como Igreja, seguimos a caminhada pascal com as manifestações de Jesus ressuscitado em meio à comunidade de seus seguidores. O medo e a incerteza de outrora e de hoje levantam algumas interrogações: Jesus ressuscitou verdadeiramente? Como podemos fazer uma experiência de encontro com Jesus ressuscitado? Como podemos mostrar ao mundo que Jesus está vivo e continua a oferecer aos seres humanos a salvação?

O apóstolo Pedro afirma ser testemunha viva da ressurreição: “Deus ressuscitou Jesus dos mortos” (cf. At. 3,15). Esse acontecimento é Boa-Nova para o mundo. Por isso, os apóstolos são, em primeiro lugar, testemunhas e anunciadores da ressurreição de Jesus Cristo. “Disto nós somos testemunhas”.

O Evangelho do terceiro domingo da Páscoa pode ser chamado de a “a prova dos sentidos’”. Os sentimentos dos discípulos são de medo, susto, surpresa, alegria. Para que eles possam entender o que está acontecendo, o Ressuscitado fala, deixa-se ver, pede para ser tocado e come na presença deles. A seguir, para levar seus ouvintes a crerem, o Ressuscitado passa a fazer memória do que está escrito sobre ele na Lei de Moisés, nos profetas e nos salmos. A argumentação a partir das Escrituras, como palavra inspirada, torna-se uma fonte indispensável para compreender os acontecimentos relacionados ao Ressuscitado.

A Palavra de Deus do terceiro domingo do tempo pascal nos chama ao compromisso e à fidelidade. Acesos no círio pascal, símbolo do Ressuscitado no meio da comunidade de fé, nos tornamos uma extensão do mesmo. Outros “Cristos” num mundo onde ainda somos atraídos por caminhos de prazeres imediatos, mesmo que nos esvaziem do amor de Deus derramado do próprio Filho, que abraçou a humanidade no abraço da cruz. Só ressuscita de verdade com Cristo, quem é fiel a Ele por meio da comunidade de fé, oração e amor. Não basta sermos solidários com a morte, quando nós mesmos protagonizamos a cultura da morte em nossas eleições. É interessante como arranjamos tempo para nossos compromissos sociais: aqueles que garantem nosso prestígio frágil, porque um dia acaba. É interessante como gostamos de aparecer e necessitamos de reconhecimento, que cai no esquecimento de quem fica depois de nossa passagem por este tempo e espaço terrenos. É interessante o tempo que investimos para estarmos sempre ao lado dos que estão “em alta”, quando nem sempre encontramos tempo, disponibilidade, generosidade e compaixão para com os menos favorecidos. Somos tão rápidos nas marteladas de pregos naqueles que erram de quando em vez, segundo as convenções sociais, mas tão lerdos para estender nossas mãos e oferecer o perdão que tanto imploramos quando nós mesmos caímos. Cristo seria bem mais presente e sentido entre nós, se não deixássemos apagar a chama que acendemos n’Ele na vigília pascal. Ele quer tanto ressuscitar mais do que ser constantemente crucificado pelos pregos de nossas línguas felinas, caluniosas e tantas vezes venenosas.

Sejamos um “Cristo aceso” a iluminar o caminho sombrio dos nossos irmãos que sofrem exclusões e são preteridos por nossa sociedade tantas vezes alimentada pela hipocrisia! Sejamos a Esperança dos que a perdem a cada esquina de suas vidas!

padre Gilberto Kasper

 

 

Ressurreição: encontros re-construtores

Lucas descreve o encontro do Ressuscitado com seus discípulos como uma experiência fundante. O desejo de Jesus é claro. Sua missão não terminou na Cruz. Ressuscitado por Deus depois da execução, entra em contato com os seus para pôr em marcha um movimento de “testemunhas” capazes de contagiar a todos os povos com sua Boa Notícia: “Vós sereis testemunhas de tudo isso”. Não é fácil converter em testemunhas aqueles homens afundados no desconcerto e no medo.

Ao longo da cena do evangelho deste domingo, os discípulos permanecem calados, em silêncio total. O narrador só descreve seu mundo interior: estão cheios de medo, só sentem perturbação e incredulidade; tudo aquilo lhes parece muito bonito para ser verdade.

É Jesus quem vai regenerar a fé dos seus discípulos. O mais importante é que não se sintam sozinhos; devem senti-Lo cheio de vida no meio deles. Estas são as primeiras palavras que escutam do Ressuscitado: “A paz esteja convosco!”. “... Por que tendes dúvidas no coração?”

Para despertar a fé dos seus discípulos, Jesus não lhes pede que olhem Seu rosto, mas suas mãos e pés; quer que vejam suas feridas de crucificado, que tenham sempre diante dos olhos seu amor entregue até a morte.

Não é um fantasma: “Sou eu mesmo!”. O mesmo que conheceram e amaram pelos caminhos da Galileia.

Apesar de vê-los cheios de medo e de dúvidas, Jesus confia em seus discípulos. Ele mesmo lhes enviará o Espírito que os sustentará. Por isso, recomenda-lhes que prolonguem sua presença no mundo.

Eles não ensinarão doutrinas sublimes, mas hão de contagiar com sua experiência. Não vão pregar grandes teorias sobre Cristo mas irradiar seu Espírito. Hão de despertar a fé com a vida, não só com palavras.

Com sua presença compassiva, Jesus desperta nossa vida, arrancando-a de seus limites estreitos e constituindo-a como vida expansiva em direção a novos horizontes. Pois a vida autêntica é a vida movida, iluminada, impulsionada pelo amor.

O Ressuscitado nos precede, nos sustenta e, na liberdade de seu amor, nos impele a ampliar nossa vida a serviço. Toda peregrinação, em clima de admiração e assombro, se revela rica em descobertas e surpresas, e desperta o coração para dimensões maiores que a rotina de cada dia.

Marcados pela ressurreição, passamos a nos relacionar de maneira diferente com os outros; brota em nós mais ternura, somos mais sensíveis à dor e à injustiça.

Quando acolhemos a presença do Ressuscitado, nossa vida se destrava e torna-se potencial de inovação criadora, expressão permanente de liberdade, consciência, amor, arte, alegria, compaixão.... É vida em movimento, gesto de ir além de nós mesmos; vida fecunda, potencial humano. Vida com fome e sede de significado, que busca o sentido... Vida que é encontro, interação, comunhão, solidariedade. Vida que é seduzida pelo amor, pela ternura. Vida que desperta o olhar para o vasto mundo. Vida que é voz, é canto, é dança, é festa, é convocação...

A “pedra pesada” da nossa impotência diante da dor, do fracasso e da morte, foi retirada pelo Mestre, que, diante de nós, chama-nos pelo “nome” e nos desafia a viver como ressuscitados.

Quem se experimenta a si mesmo como “Vida” é já uma pessoa “ressuscitada”.

Somos já “seres ressuscitados”, e isso faz a grande diferença, pois tem um impacto no nosso modo de viver e de nos relacionar com os outros. “Viver como ressuscitados” implica esvaziar-nos do “ego”, para deixar transparecer o que há de divino em nosso interior

Quando esquecemos a presença viva de Jesus no meio de nós, quando O fazemos opaco e invisível com nossos protagonismos e conflitos, quando a tristeza nos impede sentir tudo menos sua paz, quando nos contagiamos uns aos outros com pessimismo e incredulidade... estamos pecando contra o Ressuscitado. Assim não é possível uma Igreja de testemunhas.

Sempre que pretendemos fundamentar a fé no Ressuscitado com nossas elucubrações, O convertemos em um fantasma. Para encontrar-nos com Ele, temos de percorrer o relato dos Evangelhos: descobrir suas mãos que abençoavam os enfermos e acariciavam as crianças, seus pés cansados de caminhar ao encontro dos mais esquecidos; descobrir suas feridas e sua paixão. Esse é Jesus que agora vive, ressuscitado pelo Pai.

Cremos que Jesus ressuscitou não “depois” de sua morte, mas em toda sua vida, incluída a morte. A vida comprometida de Jesus ressuscitava na plenitude eterna de Deus quando curava enfermos devolvendo-lhes a confiança vital, quando partilhava a mesa com os excluídos pela religião, quando proclamava ditosos os pobres campesinos e pescadores da Galileia, quando contava parábolas que ativavam a misericórdia e provocavam surpresa, quando subvertia as hierarquias e consagrava a fraternidade. Jesus ressuscitou em sua vida, quando vivia e intensamente e despertava a vida bloqueada nos outros; e, quando morreu entregando tudo, ressuscitou totalmente, como todos aqueles que morrem dando a vida, pois dar a vida é viver plenamente. Por isso Jesus ressuscitou também na cruz, quando entregou totalmente seu alento vital.

Cada dia é o “terceiro dia” pascal. Desde que nasceu até que morreu, Jesus viveu ressuscitando para a vida.

Nesse sentido, a Páscoa não se demonstra com argumentos de razão; a Páscoa só é possível manifestá-la com o testemunho da vida. Jesus não dá explicações; Ele mostra os sinais de seu amor para com a humanidade, ou seja, as chagas de suas mãos, de seus pés e a refeição.

As chagas de suas mãos, feridas e cravadas de tanto abençoar, elevar, sustentar... os mais frágeis; as chagas de seus pés, feridos de tanto caminhar em busca de quem estava perdido; a refeição, como expressão de fazer-se pão para quem tem fome.

Qual é o testemunho da nova vida de ressuscitado do cristão hoje? Os joelhos calejados de tanto rezar?

Ou também nós precisamos apresentar ao mundo nossas mãos, nossos pés e nosso pão!!!

Nossas mãos feridas na doação, feridas de tanto abrir-se àquele que está caído, de tanto ajudar a quem está cansado, de tanto estendê-las a quem está só, a quem se sente excluído. Precisamos mostrar as mãos feridas pela generosidade da caridade, do amor; mãos cristificadas que abençoam, curam, elevam, apontam horizontes...

E precisamos mostrar as chagas dos pés; Pés cristificados que rompem distâncias, que vão ao encontro do diferente, daqueles que ninguém busca, que transita pelos ambientes excluídos levando a mensagem da vida plena; pés que andam caminhos visitando os enfermos, os anciãos que vivem sozinhos, os presos sem liberdade, que andam caminho buscando aqueles que se extraviaram, que se afastaram...

Para meditar na oração

É curioso que hoje os grandes sinais que nos identificam como seguidores(as) ressuscitados(as) não sejam precisamente nossas explicações, mas nossas mãos e nossos pés.

Frente a uma “cultura da indiferença” que impera entre nós, ser testemunhas da Ressurreição significa viver a “cultura do encontro”; e só vive a “cultura do encontro” quem prolonga as mãos e os pés do Crucificado-Ressuscitado; Anunciar a Páscoa com as mãos e com os pés!

Uma mão esconde entre suas linhas a espessura profunda e o valor impenetrável de uma vivência única e irrepetível; exprime autoridade, elegância, dignidade, credibilidade, bênção...

Uma mão se faz encontro. Vai aproximando, oferecendo, interrogando, esperando, indicando, saudando, acolhendo, bendizendo... Uma mão se abre, se oferece, se doa...

Ponha um pouco de amor em tuas mãos e tudo o que tocares tornar-se-á benção.

 

 

Testemunhas das "mãos e pés" do Ressuscitado

“Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo!”

Lucas descreve o encontro do Ressuscitado com seus discípulos como uma experiência fundante. O desejo de Jesus é claro. Sua missão não terminou na Cruz. Ressuscitado por Deus depois da execução, entra em contato com os seus para pôr em marcha um movimento de “testemunhas” capazes de contagiar a todos os povos com sua Boa Notícia: “Vós sereis testemunhas de tudo isso”.

Não é fácil converter em testemunhas aqueles homens afundados no desconcerto e no medo. Ao longo de toda a cena do Evangelho de hoje, os discípulos permanecem calados, em silêncio total. O narrador só descreve seu mundo interior: estão cheios de medo; só sentem perturbação e incredulidade; tudo aquilo lhes parece muito bonito para ser verdade.

É Jesus quem vai regenerar a fé em seus corações. Apesar de vê-los cheios de medo e de dúvidas, Jesus confia em seus discípulos. O mais importante é que não se sintam sozinhos. Hão de senti-Lo cheio de vida no meio deles. Estas são as primeiras palavras que escutam do Ressuscitado: “A paz esteja convosco!” “...por quê tendes dúvidas em vosso coração?” Ele mesmo lhes enviará o Espírito que os sustentará. Por isso lhes recomenda que prolonguem sua presença no mundo.

Eles não ensinarão doutrinas sublimes, não vão pregar grandes teorias sobre Cristo, mas irradiar seu Espírito, disponibilizando suas mãos e pés a serviço do Reino.

 “Vede minhas mãos e meus pés”: para despertar e ativar a fé dos seus discípulos, Jesus não lhes pede que olhem Seu rosto, mas suas mãos e pés. Quer que vejam suas feridas de crucificado, que tenham sempre diante de seus olhos seu amor serviço entregue até a morte. Não é um fantasma: “Sou eu mesmo!”, o mesmo que conheceram e amaram pelos caminhos da Galileia. Jesus é o mesmo, é o crucificado.

Quando o Senhor Ressuscitado se apresentou diante de seus discípulos, não tinha poder nem prestígio; não veio sentado em um trono de ouro nem desembainhou a espada para derrotar seus algozes. Simplesmente mostrou as feridas da crucifixão, as marcas da doação total. As cicatrizes que ele mostrou em seu corpo depois da ressurreição, nunca mais desapareceram.

Olhando as mãos de Jesus, os discípulos faziam “memória”  das mãos que curavam os doentes, cuidavam dos frágeis, elevavam os caídos, abençoavam e acariciavam as crianças, acolhiam os pecadores e pobres...

Olhando os pés de Jesus, os discípulos faziam “memória” dos pés peregrinos, que rompiam distâncias, que faziam a travessia em direção à “margem”, que O aproximavam dos excluídos, que ultrapassavam fronteiras religiosas e culturais... Com suas mãos e pés Jesus tecia seu dizer e seu fazer.

Contemplando as mãos e pés de Jesus, os discípulos tomam consciência que eles estavam com as mãos atrofiadas e os pés paralisados pelo medo e pela dúvida. As chagas, sinal de seu amor extremo, evidenciam que é o mesmo que morreu na cruz. A permanência dos sinais de sua morte indica a permanência do amor; elas são as cicatrizes de um compromisso com a vida. Além disso, elas garantem a identificação do Ressuscitado com o Jesus Crucificado.

A experiência do encontro com o Ressuscitado destrava as mãos e pés dos discípulos, arrancando-os do lugar fechado e lançando-os para os outros. Suas mãos e pés serão o prolongamento das mãos e pés de Jesus Ressuscitado. Mãos e pés marcados com as feridas da doação, da entrega. Mãos e pés carregados de vida: pés que facilitam fazer-se presentes juntos às vidas feridas, excluídas...; mãos que se fazem vida ao sustentar a vida fragilizada.

O ser humano se define pelas mãos e pés, e não pelo rosto; não adianta ter um rosto se as mãos e os pés estão petrificados. As mãos e os pés expressam aquilo que vem do coração: se o coração está cheio de medo, dúvidas, perturbações, ressentimentos, mágoas... as mãos e os pés revelam-se atrofiados; se o coração está cheio de compaixão, de acolhida, de espírito solidário... as mãos e os pés se expressarão como serviço, colocando a pessoa em movimento em direção aos outros.

É o coração transformado que dirige as mãos santificadas, delicadas, que move os pés solidários. É o coração agradecido que transforma as mãos e pés em instrumentos de graça. Por isso, Ressurreição é movimento e ação: é movimento, porque é saída de si; é ação porque é construção, compromisso em favor da vida, serviço expansivo e criativo.

Para encontrar-nos com o Ressuscitado hoje, temos de percorrer o relato dos Evangelhos: redescobrir essas mãos que abençoavam os enfermos e acariciavam as crianças, esses pés cansados de caminhar ao encontro dos mais esquecidos; redescobrir suas feridas e sua paixão. Esse é Jesus ressuscitado pelo Pai e que agora vive.

A verdadeira identidade do seguidor de Jesus está nas mãos e pés que se fazem vida, que se humanizam e humanizam os outros. Mãos e pés que destravam as mãos e pés petrificados e atrofiados dos outros. Somos chamados a ser testemunhas das mãos e pés do Ressuscitado.

As mãos e os pés são os membros que nos alargam, nos ampliam para o encontro; eles nos tiram de nossa estreiteza de atitudes, de ideias , nos arrancam de nossos preconceitos e de nossos medos...... Mãos e pés ressuscitados que nos fazem sair de nossos lugares fechados , e nos movem em direção a largos horizontes. Por isso são membros que mais nos “humanizam”, ou seja, nos fazem “descer” ao “húmus” de nossa existência, ao chão da vida, abrindo-nos aos outros.

Nossas mãos e pés... sacramento de Deus. Fazem presente as mãos e os pés do Ressuscitado. Seremos a Sua mão amiga e carinhosa, forte e libertadora, criadora de vida, que protege e cuida a vida.

Seremos os Seus pés desgastados para pisar os solos sagrados da humanidade.

padre Adroaldo Palaoro S. J.

 

 

Oremos para que Cristo se digne igualmente abrir a nossa inteligência.

Convém ouvir, com muita atenção, todos os textos das Sagradas Escrituras que são lidos para a nossa instrução e salvação. Devemos, sobretudo, reter na memória aqueles textos mais decisivos no combate aos hereges, cujas ciladas não cessam de armar contra os que são mais fracos ou mais negligentes. Lembrai-vos de que nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo morreu e ressuscitou por nós: foi entregue por causa de nossos pecados e ressuscitado para nossa justificação (Rm. 4,25).

Ouvistes há pouco a narração dos dois discípulos que o Senhor encontrara no caminho, e como seus olhos não o reconheceram. Quando os encontrou, eles estavam sem confiança na redenção operada por Cristo. Acreditavam que o Senhor tinha sofrido e morrido como um homem qualquer. Não faziam idéia de que, como Filho de Deus, haveria de viver para sempre. Julgavam que ele morrera como um dos profetas, de uma morte que não deixava esperança de ressurreição. Assim eram suas palavras, como acabastes de ouvir, se prestastes atenção.

Então, Jesus abriu-lhes o sentido das Escrituras, começando por Moisés e percorrendo todos os profetas, mostrando-lhes que tudo quanto sofrera, fora predito. Agiu desse modo para que sua ressurreição não trouxesse mais perturbação à fé, tornando-a mais difícil ainda, caso os acontecimentos a seu respeito não houvessem sido preditos com antecedência. Certamente, a firmeza da fé em Cristo torna-se maior, pelo fato de tudo quanto aconteceu ao Senhor ter sido predito.

Os discípulos só o reconheceram na fração do pão. Realmente, quem não come nem bebe sua própria condenação, reconhece a Cristo na fração do pão.

Mais tarde, os Onze também pensaram ver um espírito. Jesus deixou-se tocar, ele que se deixou crucificar; entregou-se a seus inimigos para ser crucificado, e a seus amigos para ser tocado. Entretanto, era médico de todos, da impiedade de uns e da incredulidade de outros. Por isso, como ouvistes na leitura dos Atos dos Apóstolos, milhares acreditaram em Cristo, dentre os que o haviam matado. Se mesmo os que o mataram vieram depois a crer nele, como permaneceriam incrédulos aqueles que duvidaram apenas um instante?

Há um fato, porém, sobre o qual peço sobremaneira a vossa atenção, e que deveis guardar presente na memória. Diante de erros insidiosos, Deus quis colocar o fundamento das Escrituras. Contra elas, ninguém que, de algum modo, se considere cristão, ouse falar.

O Senhor não julgou que era suficiente dar apenas seu corpo a tocar. Para confirmar os corações na fé, acrescentou as Escrituras. Ele tinha em vista a nós, que viríamos no futuro; nós que não teríamos seu corpo para tocar, mas algo para ler.

Se, portanto, os discípulos acreditaram porque puderam tocar e apalpar o corpo do Senhor, o que poderemos nós fazer? Cristo já subiu aos céus. Não voltará senão no fim dos tempos, para julgar os vivos e os mortos. Sobre o que repousará vossa fé, a não ser sobre esse fundamento que ele nos dá para apoio da fé dos discípulos quando o tocam?

Com efeito, Jesus revelou-lhes o sentido das Escrituras e mostrou-lhes que era necessário Cristo padecer e realizar tudo o que, acerca dele, fora predito na lei de Moisés, nos profetas e nos salmos. Aí se encontra reunido todo o conjunto do Antigo Testamento. O nome de Cristo ressoa em todos esses textos das Escrituras, mas sob a condição de encontrar ouvidos que entendam.

E o Senhor lhes abriu a inteligência, a fim de que entendessem as Escrituras. Oremos para que ele se digne igualmente abrir-nos a inteligência.

santo Agostinho - comentário sobre a I Carta de são João

In I Epistolam Ioannis, Tractatus 2,1 - Sources Chrétiennes 75, 151-152

 

 

Vocês são testemunhas disso

A liturgia deste 3º domingo de Páscoa mostra-nos de que forma o testemunho de vida dos cristãos deve levar as pessoas ao conhecimento de Jesus Ressuscitado e à conversão. É assim que Pedro, depois de curar um aleijado à porta do templo, fala da morte e ressurreição de Jesus e exorta à conversão (1ª leitura). Por outro lado, João apresenta Cristo como aquele que remiu a humanidade toda do pecado e intercede por nós junto ao Pai (2ª leitura). Finalmente, Jesus mostra o sentido da sua morte na cruz (evangelho) e abre a mente dos discípulos para entenderem as Escrituras.

1ª leitura: Atos dos Apóstolos 3,13-15.17-19

Nesta primeira leitura, podemos perceber como os apóstolos respondem à missão encomendada pelo Senhor Ressuscitado. O discurso de Pedro vem motivado pela reação do povo e do próprio aleijado que tinha sido curado. Pedro faz questão de mostrar que tudo foi feito pelo poder de Jesus e aproveita a oportunidade para anunciar a Ressurreição do Senhor, convidando à conversão e concluindo: “E disso nós somos testemunhas”. O centro do texto é a salvação oferecida em nome de Jesus.

Quem é Jesus? Olhando o Antigo Testamento a comunidade dos discípulos reconhece e anuncia Jesus como o Messias e o Servo de Deus, anunciado pelos profetas, que veio para transformar radicalmente a condição humana, realizando o projeto de Deus e restaurando todas as coisas. De agora em diante, a ação de Deus em favor dos homens só se realiza por meio de Jesus.

2ª leitura: 1João 2,1-5ª

Demonstramos conhecer e amar a Deus quando fazemos a sua vontade. A vontade de Deus foi revelada e concretizada através de Nosso Senhor Jesus Cristo e consiste na prática do mandamento do amor pelo qual salmos do egoísmo e do isolamento, que geram morte, para vivermos as relações fraternas que geram vida.

Para João, fé e vida têm que estar intimamente unidas no dia-a-dia dos cristãos. Se a nossa vida não for coerente com a fé que professamos, estaremos vivendo na mentira. Esta é a verdade nua e crua que São João expressa na sua carta.

Mas, entre o ideal e a realidade, João (já velho e paternal) mostra-se compreensivo com seus “filhinhos” escrevendo que, caso se desviarem do bom caminho, saibam reconhecer seus pecados (porque reconhecer o pecado é o primeiro passo para livrar-se dele pela conversão) e confiem em Jesus Cristo que pagou pelos todos os nossos pecados e é o nosso defensor junto ao Pai. É uma boa reflexão para avançar na vida cristã.

Evangelho: Lucas 24,35-48

Lucas escreve o seu Evangelho principalmente para os cristãos de cultura grega pouco inclinada a acreditar na ressurreição. Por isso faz questão de narrar que Jesus manda comprovar não ser um fantasma (“Toquem-me e vejam: um espírito não tem carne e ossos, como vocês podem ver que eu tenho”) e até come na frente deles para mostrar que a Ressurreição não é fruto da imaginação dos discípulos.

No entanto, mesmo sendo real, o corpo ressuscitado de Jesus não está mais sujeito às leis físicas: Ele aparece e desaparece estando as portas fechadas. Definitivamente, o Jesus físico que morreu na cruz (o Jesus histórico), a pesar de ser Ele mesmo, foi transformado pela Ressurreição. Agora é Jesus Ressuscitado (o Jesus da fé) que vive e se manifesta num corpo glorioso na plenitude do seu ser.

Lucas reconhece que os discípulos só chegaram a entender o alcance da Ressurreição à luz de uma nova compreensão das Escrituras (“Então Jesus abriu a mente deles para entenderem as Escrituras”), segundo as quais “O Messias sofrerá e ressuscitará dos mortos no terceiro dia”. O corpo físico de Jesus está superado. Trata-se, agora, de descobrir a presença do Jesus da fé que abre a comunidade para o futuro e envia os discípulos a dar testemunho da sua Ressurreição e da Salvação, pois “no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações”.

A missão dos cristãos nasce da leitura das Escrituras através das quais descobrem Jesus (no seu mistério de vida, morte e ressurreição) como sendo o centro e o significado último da vida. Essa missão é a continuação na história do anúncio de Jesus a todos os povos, e está chamada a provocar a transformação da sociedade em favor dos pobres e oprimidos.

A conversão e o perdão acontecem ao percorrer o caminho de Jesus na própria vida e nos caminhos da história.

Palavra de Deus na vida

Como os discípulos, nós também nos reunimos “no primeiro dia da semana” (na “primeira-feira” = no “Dominicus dies” = no domingo ou “Dia do Senhor”). Eles começaram esse tipo de reuniões dominicais (que nós chamamos de “missa”) para celebrar permanentemente a Ressurreição do Senhor.

Nessa reunião semanal é que Jesus Ressuscitado se faz presente pela sua Palavra e pela Eucaristia (tanto para eles como para nós). A nossa participação é necessária porque não podemos compreender as Escrituras se o Senhor Ressuscitado não abrir constantemente o nosso entendimento para uma compreensão sempre renovada da sua morte e ressurreição e da extensão universal do perdão e da paz que Ele nos oferece. Só assim poderemos ser verdadeira Igreja, comunidade cristã missionária aberta ao mundo, que aceita o convite do Senhor (“vocês são testemunhas disso”) não para transmitir apenas doutrina mas, sobretudo, experiência de vida e de fé.

Transmitir a nossa fé junto com a nossa experiência de vida (que é onde essa fé se revela) é importante e necessário. Mas não devemos esquecer que o verdadeiro testemunho cristão que podemos e devemos dar aos outros não sai apenas da nossa boca, para ser ouvido; sai, sobretudo, da nossa vida, para ser facilmente percebido por todos aqueles que convivem conosco.

Em tempos passados era comum alguém dar uma palestra sobre temas da vida cristã e, no meio dela, incluir um “testemunho”. O palestrante contava algum fato “edificante” de sua vida e muita gente ficava animada e entusiasmada com as suas palavras. Mas eram fatos do passado, que podiam decepcionar se não se dessem, também, no presente. Eram fatos contados pelo protagonista, muitas vezes arranjados com uma boa dose de imaginação. O testemunho verdadeiro é muito mais que isso. Trata-se de um fato presente que não precisa ser contado porque está sendo visto e percebido pelas pessoas. Aí está toda a sua força: um exemplo de vida vale mais do que mil palavras por bonitas que elas sejam.

Graças a Deus, exemplos-testemunhos de vida não nos faltam. Geralmente acontecem na simplicidade e no silêncio. É só estar abertos e dispostos a valorizar o ser humano para descobri-los..!

padre Ciriaco Madrigal

 

 

Reconciliados e em paz com todos

Enxergar o pecado, os erros, os sofrimentos, as dificuldades e tudo o que se constitui problema para as pessoas e para a sociedade é uma das coisas mais fáceis e mais habituais nas comunidades, nas famílias, nas instituições e na própria Igreja. Entre os cristãos é muito frequente enxergar o cisco no olho do outro, e pior que isso, como diz o Papa Francisco: “Me dói muito comprovar como nas comunidades cristãs se cria oportunidade para o ódio, divisão calúnia, difamação, fofoca, ciúme e até perseguições”

A Palavra de Deus neste domingo é um convite a fazer sério exame de consciência sobre as atitudes pessoais e comunitárias naquilo que se refere a dar testemunho de Jesus e da fé que se acredita. O texto dos Atos do Apóstolos responsabiliza a comunidade inteira, mesmo aqueles que nem conheceram Jesus, mas deixa claro que o pecado de alguns acaba sendo “pecado de todos” na medida em que traz consequências para muitos ao longo do tempo. Mas o mesmo texto é contundente ao dizer: “E agora, meus irmãos, eu sei que vós agistes por ignorância, assim como vossos chefes. Deus, porém, cumpriu desse modo o que havia anunciado pela boca de todos os profetas: que o seu Cristo haveria de sofrer. Arrependei-vos, portanto, e convertei-vos, para que vossos pecados sejam perdoados”. Isso significa que Deus está disposto a recuperar a dignidade perdida e as consequências do pecado desde que os erros passados tenham servido de lição para aqueles que não participaram do pecado de outrora e que estejam dispostos a construir uma nova forma de viver e fazer as coisas.

E João afirma na segunda leitura: “Meus filhinhos, escrevo isto para que não pequeis. No entanto, se alguém pecar, temos junto do Pai um Defensor: Jesus Cristo, o Justo. Naquele, porém, que guarda a sua palavra, o amor de Deus é plenamente realizado”.

O Evangelho narra o reencontro dos discípulos de Emaús com o grupo dos onze. Não se trata de uma crise de fanatismo e loucura, mas de um estilo de vida que a ressurreição de Jesus inspira em todos eles. Acreditar na ressurreição de Jesus implica em compreender que apesar da experiência do pecado e da tristeza que se está sujeito diariamente, o perdão e a graça de Deus são forças poderosas que não deixam sucumbir aqueles que acreditam.

Em resumo, acreditar na graça de Deus e na ressurreição de Jesus implica ser responsável e ser construtor de esperança para que o mundo e as relações entre as pessoas sejam pautadas pela alegre surpresa do bem em lugar de ver erros e pecados alheios, colaborar para que eles sejam evitados e que as pessoas experimentem a reconciliação que se dá pela cooperação e pela solidariedade entre todos.

padre Elcio Alberton

 

 

A Paz esteja convosco

A centralidade do Mistério Pascal de Jesus Cristo exige de cada cristão, de forma responsável e dinâmica, um amadurecimento pessoal e comunitário deste imprescindível acontecimento de salvação.

É na morte e ressurreição de Cristo que Deus nos fala de uma forma bela, amorosa, e responde às questões mais pertinentes do Homem e de Deus.

Na primeira leitura, São Pedro, revela esse acontecimento central. Ele possui uma história de fragilidade e pecado, mas possui também uma experiência forte de acolhimento, de amor. O encontro com o Ressuscitado leva-o a proclamar e a testemunhar as maravilhas da misericórdia de Cristo ressuscitado. Recordemos que depois de ressuscitado, Cristo, tem um dos mais belos diálogos de amor, de vocação e chamamento a Pedro. O diálogo termina com: «segue-me».

Pedro oferece-nos o seu testemunho para que também nós, na nossa fragilidade, possamos ser tocados pela presença de Cristo ressuscitado e sentir a necessidade de amar. Amar somente e para sempre. E nesse amor descobrir a vocação, o chamamento e o compromisso do anúncio.

A experiência de João é também uma experiência de paz que nasce d’Aquele que é superior ao pecado e que intercede por nós. João, na sua fragilidade, também tocou esse amor e por isso nos pede que o guardemos como fonte permanente de conversão e de santidade.

A experiência do perdão do pecado leva-nos a tocarmos o mais profundo do amor de Deus, que tendo descido à nossa miséria nos introduz na santidade e beleza da Sua vida.

Ainda hoje, no sacramento da reconciliação eu toco o amor de Deus. Este sacramento, sinal da presença do ressuscitado, que me faz surgir homem novo, que reconstrói a minha vida é também dinamismo de confirmação da minha vocação e envio como testemunha da Sua pessoa e missão. E sobretudo o Sacramento da Eucaristia, a exemplo dos discípulos de Emaús: O reconhecem, se enchem de alegria e entusiasmo e O anunciam.

Sentimos muitas vezes necessidade de mostrar os nossos os nossos títulos, o nosso recheado curriculum, Mas temos receio de nos mostrar a nós próprios. Temos medo de mostrar a nossa fragilidade. Às vezes a santidade não é realidade em nossa vida porque não lemos os sinais da nossa fragilidade no encontro com o Amor, Jesus Cristo.

Cristo mostrou as mãos e os pés. Eles eram o sinal do seu amor, da sua doação e entrega, o sinal da cruz. Mostrou-se naqueles sinais transformados pelo amor mas que foram infligidos com força de ódio, de violência, de tentativa de destruição do próprio Deus feito Homem. Esses sinais são sinais de liberdade: «ninguém me tira a vida: eu é que a dou».

Mas este gesto de Lucas é a proclamação da fé em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem: em tudo semelhante a nós. Não é fruto da nossa imaginação! É Ele mesmo, diferente, ressuscitado, mas Deus e Homem, uma só pessoa e duas naturezas. É Jesus Cristo em verdadeira comunhão com os seus discípulos, com a comunidade humana.

Todos somos convidados a vê-Lo, a toca-Lo com o profundo olhar da fé que na leva a amar de forma intensa e a comprometer a vida com o seu projeto. Tocaremos e veremos o Senhor Ressuscitado em muitos sinais da sua presença, o mais forte e máximo é a Eucaristia, e depois o irmão, e sobretudo o no mais frágil, os pequeninos, os doentes…

Na realidade é preciso vê-Lo e toca-Lo.

A Igreja vive do seu Senhor Ressuscitado. A experiência com Cristo Ressuscitado compromete o cristão, os seus discípulos: no anuncio, no testemunho, no envio, no compromisso com o seu projeto.

Testemunhas pela vida, pela palavra, pelas opções, pelo compromisso com as pessoas, com a Igreja, com a comunidade.

O dinamismo do mistério pascal de Cristo é uma constante até ao seu ponto final. Também em minha vida, na relação com Cristo vivo e ressuscitado, surge em mim, apesar da fragilidade, a novidade e a vitória do mistério pascal do Senhor. E também no mundo, embora este possa acentuar sinais contrários. Nada nem pode deter a vitória do amor e da vida: Cristo ressuscitado.

A liturgia da celebração deste domingo é um convite à disponibilidade da conversão que dimana do encontro com Cristo ressuscitado. Convite a um compromisso que nos torna suas testemunhas.

Para o cristão, o discípulo que encontrou Jesus Cristo, já não há lugar ao temor, ao medo, à paralisia egoísta, ao calculismo, à corrida aos primeiros lugares, à deturpação da verdadeira imagem de Deus.

É também um convite a amarmos profundamente a Igreja. É nela, comunidade dos crentes, a fazermos a experiência de Cristo ressuscitado e empenharmo-nos com sabedoria e esforço no Seu anúncio.

Maria Santíssima caminha com Igreja de Jesus, comunidade dos seus discípulos, e nos continua a dizer: «Fazei tudo o que Ele vos disser».

dom Antonio Carlos Rossi Keller

 

 

As leituras dos domingos da Páscoa têm em comum o tema da alegria. Em cada Domingo a alegria da Páscoa tem uma característica própria: no dia de Páscoa a novidade da Ressurreição, no domingo passado a alegria que passa pela dúvida e, neste domingo, a alegria que trás consigo um grande desafio: o anúncio. Os que acreditam em Jesus e se dizem cristãos, têm a missão de serem testemunhas de Cristo ressuscitado. Este anúncio de Cristo não se consegue de uma forma exterior a nós, como se de propaganda se tratasse. Estas leituras mostraram-nos bem que o anúncio parte da experiência e da descoberta de que Jesus está no meio de nós. Que caminha conosco. E está no meio de nós como fonte de paz. Estas são as primeiras palavras e o primeiro dom de Cristo Ressuscitado: Ele está no meio de nós para nos dar a sua paz. E é a partir daqui, como disse, que nasce o anúncio. Cada um de nós é chamado a fazer e a contar a sua história, como os discípulos de Emaús, a partir do seu encontro com Cristo. Para isso é necessário conhecer e reconhecer Jesus.

Conhecê-lo pela Palavra que escutamos, e reconhecê-lo nos sacramentos, em especial no da Eucaristia, onde os seus gestos são agora os nossos gestos de bênção e de partilha. A Ressurreição de Jesus veio dizer-nos que a morte não separa mas une. Que entre o abismo da morte e da eternidade se construiu uma ponte, que nos faz perceber uma outra forma de presença, na qual o eterno se faz tempo e o tempo se torna eternidade. Jesus não é, para os que nele cremos, uma alucinação ou ópio, mas será sempre uma presença invisível aos sentidos mas perceptível ao coração. Volto à primeira idéia desta reflexão. Nós, os cristãos do século XXI temos uma grande tarefa a cumprir na Igreja e no mundo. Por palavras e obras, como os primeiros discípulos e como escutamos na primeira leitura. Será sempre fraco se não for vivido e se não for consciente. Sempre sem protagonismos, porque o Espírito Santo é quem nos inspira, com muitas deficiências, certamente, mas com a verdade da nossa vida e do nosso testemunho.

Os temas serão também os que escutamos nas leituras da nossa missa: a conversão e a paz. Do encontro com Cristo nasce a conversão e sentimos a sua paz. Peçamos ao Senhor, neste tempo de Páscoa, que não nos deixe cair na tentação de nos anunciarmos a nós próprios ou de nos ficarmos nos limites do cômodo que é falar de Jesus onde ele já é falado. O que Jesus nos disse no Evangelho: “Sereis minhas testemunhas”, há-de ser a palavra de ordem para que o seu Evangelho seja por nós vivido e anunciado.

frei Filipe, op

 

 

Idéia principal: A Páscoa nos compromete a uma vida nova em Cristo Jesus, vivo e glorioso entre nós.

Síntese da mensagem: Vida nova que implica nos arrepender dos nossos pecados e nos converter (1 leitura). Vida nova de santidade, graças ao perdão dos pecados oferecido por Cristo como vítima de expiação pelos nossos pecados (2 leitura). Vida nova que temos que transmitir aos nossos irmãos para voltarem também a Deus (evangelho).

Pontos da idéia principal

Em primeiro lugar, a Páscoa supõe um encontro com o Cristo ressuscitado e glorioso, através da Igreja, através da carne do nosso irmão em quem palpita a vida divina e, finalmente, através dos sacramentos, onde deixou a sua pegada invisível e presentes visíveis, que o Cristo Pascal nos deixou para derramar e compartilhar conosco a vida divina. O cristianismo é justamente o encontro com uma pessoa viva, Jesus Cristo, quem o Pai ressuscitou vencendo as ataduras do pecado e da morte. Agora bem, o encontro com Cristo ressuscitado pede de cada um de nós um viver a vida nova que Cristo ganhou com a sua morte e ressurreição. Vida nova que implica nos arrepender dos nossos pecados, causantes do sofrimento e da morte de Cristo Jesus; implica deixar a nossa vida antiga e mundana, como tantas vezes nos pede o papa Francisco. Este arrependimento nos levará a nos ajoelhar diante do sacramento da Penitência, onde o sangue de Cristo nos lava, nos santifica e volta a brilhar em nós a vida nova do Ressuscitado.

Em segundo lugar, esta vida nova nos lança a uma vida de santidade, que não significa ser imaculados, porém uma luta contra o pecado na nossa vida. São João na segundo leitura de hoje nos urge para não pequemos. O pecado ofende a Deus, que ingratidão para com o nosso Pai Deus! O pecado ofende a Cristo, que pena para o nosso Amigo e Redentor! O pecado ofende a Igreja, que falta de amor filial! O pecado ofende a nossa dignidade cristã, que vergonha! Cristo se imolou como vítima de expiação pelos nossos pecados. Portanto, Ele já destruiu o pecado com a sua morte. O que temos que fazer é cumprir com amor e por amor os mandamentos de Deus; seguirá dizendo são João na sua carta. Cumprindo os seus mandamentos e os nossos deveres do próprio estado estamos demonstrando a vida nova em nós.

Finalmente, não podemos guardar a vida para nós. Temos que transmitir aos nossos irmãos esta vida nova, para que todos os que passarem do nosso lado também experimentem os efeitos da vida de Cristo ressuscitado através de nós, do nosso testemunho e da nossa palavra. Somos testemunhas diante do mundo de que Cristo vive, de que ressuscitou, de que está presentes na sua Igreja e em cada um de nós que tratamos de levar uma vida santa, cheia de caridade e justiça. Assim fez Inácio de Loiola com Francisco Xavier quando estudavam em Paris. Assim fez José de Anchieta com os índios quando veio para o Brasil no século XVI. Assim fez João Bosco com esses garotos aos quais ensinava artes e ciência, e por isso gritava “dai-me almas, Senhor, e tirai-me o resto”. Assim fez o cura de Ars ao chegar à sua paróquia, depois de anos abandonada ao pecado e à dissolução de costumes. E assim fazem tantos, missionários, missionárias, consagrados e laicos convencidos de Cristo, que se lançam a pregar a mensagem evangélica, para que ninguém fique fora da salvação trazida por Cristo Jesus, com a sua morte e a sua ressurreição.   

Para refletir: São Paulo resume assim a vida nova de quem ressuscitou com Cristo: “Sereis assim limpos e irrepreensíveis; sereis filhos de Deus sem mancha no meio de uma geração má e perversa, entre a qual deveis brilhar como lâmpadas no meio do mundo, mantendo com firmeza a palavra de vida” (Flp 2, 15-16).

Para rezar: Senhor, revesti-me da vossa vida nova. Que eu lute cada dia com todo o meu ser contra o pecado. E que contagie ao redor de mim esta vida nova de santidade.

padre Antonio Rivero, L.C.

 

 

A liturgia deste Domingo nos convida a descobrir esse Cristo vivo que acompanha os homens pelos caminhos do mundo, que com a sua Palavra anima os corações magoados e desolados, que se revela sempre que a comunidade dos discípulos se reúne para “partir o pão”; apela ainda, a que os discípulos sejam as testemunhas da ressurreição diante dos homens.

A primeira leitura mostra (através da história de Jesus) como do amor, que se faz dom a Deus e aos irmãos, brota sempre ressurreição e vida nova; e convida a comunidade de Jesus a testemunhar essa realidade diante dos homens.

A segunda leitura convida a contemplar com olhos e ver o projeto salvador de Deus, o amor de Deus pelos homens (expresso na cruz de Jesus e na sua ressurreição). Constatando a grandeza do amor de Deus aceitamos o seu apelo a uma vida nova.

É no Evangelho, sobretudo, que esta mensagem aparece de forma nítida. O texto que nos é narrado põe Cristo, vivo e ressuscitado, a caminhar ao lado dos discípulos, a explicar-lhes as Escrituras, a encher-lhes o coração de esperança e a sentar-se com eles à mesa para “partir o pão”. É aí que os discípulos o reconhecem.

Na nossa caminhada pela vida, fazemos, frequentemente, a experiência do desencanto, do desalento, do desânimo. As crises, os fracassos, o desmoronamento daquilo que julgávamos seguro e em que apostamos tudo, a falência dos nossos sonhos, nos deixam frustrados, perdidos, sem perspectivas. Então, parece que nada faz sentido e que Deus desapareceu do nosso horizonte. No entanto, a catequese que São Lucas nos apresenta hoje garante que Jesus, vivo e ressuscitado, caminha ao nosso lado. Ele é esse companheiro de viagem que encontra formas de vir ao nosso encontro – mesmo se nem sempre somos capazes de o reconhecer – e de encher o nosso coração de esperança.

Como é que ele nos fala? Como é que ele faz renascer em nós a esperança? Como é que ele nos passa esse suplemento de entusiasmo que nos permite continuar? São Lucas responde: é através da Palavra de Deus, escutada, meditada, partilhada, acolhida no coração, que Jesus nos indica caminhos, nos aponta perspectivas novas, nos dá a coragem de continuar, depois de cada fracasso.

Então, quando é que os olhos do nosso coração se abrem para descobrir Jesus, vivo e atuante? São Lucas responde: é na partilha do Pão eucarístico. Sempre que nos sentamos à mesa com a comunidade e partilhamos o pão que Jesus nos oferece, damo-nos conta de que o Ressuscitado continua vivo, caminhando ao nosso lado, nos alimentando ao longo da caminhada, nos ensinando que a felicidade está no dom, na partilha, no amor.

Sempre que nos juntamos com os irmãos à volta da mesa de Deus, celebrando na alegria e na festa o amor, a partilha e o serviço, encontramos o Ressuscitado a encher a nossa vida de sentido, de plenitude e de vida autêntica.

André Carlos M. Carvalho

 

 

O trecho que acabamos de ler faz séquito à bem conhecida história dos discípulos a caminho de Emaús. Sabemos que eles haviam abandonado Jerusalém e os Doze, dirigindo-se por um outro caminho, queriam percorrer a própria estrada. A decepção, o medo de ter errado tudo seguindo Jesus os impelia a procurar uma outra solução e, com isto, caíram na tentação de resolver de outro modo o que achavam de não ter conseguido confiando em Jesus. Era tarde, quase noite quando haviam saído de Jerusalém; era noite quando voltaram de Emaús... Os fatos que hoje acabamos de ler se deram no mesmo dia, que é o dia da Ressurreição. E mais, para Lucas é neste mesmo dia que se dá a Ascensão de Jesus: é um dia que não termina. É o nosso dia, o dia que pertence à eternidade, é o “dia de Jahvé” como o chamavam os profetas. É preciso, então, que leiamos com um pouco de atenção o nosso trecho para que possamos entender melhor o sentido dos nossos dias, o sentido da missão que os discípulos, (todos, inclusive nós mesmos) receberam de Jesus.

Os dois estavam de volta em Jerusalém, não mais carregados do seu fardo de tristeza, mas sim da alegria que haviam experimentado no encontro com Jesus. Suas palavras eram palavras de confirmação e de esperança. Sim, os mesmos que não acreditavam mais que fosse possível aquilo que tanto haviam sonhado, eram os mesmos que agora estavam voltando para confirmar aos outros que era possível... Confirmar significa “dar firmeza”. Ora, é justamente quando o inicial ato de decepção dos dois discípulos se havia transformado em fonte de caridade, de abertura aos outros foi que «o próprio Jesus esteve com eles». O Senhor se fez presente  quando os dois haviam feito o passo de sair do seu mundo, do seu medo e decepção. Jesus se fez presente para todos quando os mesmos que  haviam desaconselhado o viandante a continuar a viagem porque era noite e, como sabemos, a noite é perigosa para qualquer viandante, esses mesmos haviam enfrentado toda a viagem de volta em plena noite... movidos apenas pela felicidade que a presença de Jesus dá.

Foi nessas circunstâncias, isto é, enquanto esqueceram de olhar para as próprias expectativas ou problemas e “confirmavam” os outros partilhando da própria experiência, que «o próprio Jesus esteve com eles».

Pois bem, aqui já temos como que uma preparação para tudo o que virá depois. Jesus antecipava o êxito que os discípulos teriam na sua missão, ou seja, gerar as condições oportunas para que Ele se faça presente e assim possa ser percebido. A comunidade reunida, confirmada na caridade, mesmo por pessoas que haviam se afastado mas que tinham conseguido superar a si mesmas, essa comunidade seria o lugar onde o Senhor manifestaria para sempre a Sua presença no meio da humanidade.

Obviamente fica complicado entender aquilo que o evangelista quer nos dizer se nos apoiarmos sobre traduções não muito fiéis como: “Jesus apareceu”. Aqui não se trata de uma aparição; a aparição é exatamente o engano do qual Jesus quer preservar os seus discípulos, por isso Ele come e se deixa tocar. A “aparição” é algo confuso, pode se tratar de um fato real como pode perfeitamente ser um delírio da mente, uma visão. Ora, aqui estamos diante de algo bem diferente e com sentido bem diferente. Para entender a profundidade à qual nos quer conduzir o evangelista, prefiro que nos atenhamos a quanto ele diz na língua original: «Jesus esteve presente», ou “se fez presente” (o verbo grego, , indica uma presença estável, firme).

Lucas não explica as modalidades, estas agora são dispensáveis uma vez que os dois, pessoalmente, já sabiam como Jesus se deixaria reconhecer, ou seja nas três circunstâncias que “faziam memória Dele”: o gesto de partir o pão, a escuta da Palavra acompanhados por um gesto de atenção ao outro («fica conosco, pois é noite... »). Eles haviam descoberto assim como alcançar a percepção da presença viva do Ressuscitado.

Mas agora, à primeira experiência privada, feita na Palavra e no Pão no gesto de sentar juntos, estava sendo acrescentada uma outra: o anúncio, que é a outra maneira com a qual Jesus se faz presente.

Bem, temos aqui um belíssimo exemplo da diferença entre a “propaganda” e o anúncio de fé. Propaganda é simplesmente “tornar conhecido” um evento, um produto etc. É claro que esta não é a missão da Igreja, ela não deve fazer divulgação do evento de Jesus. A missão da Igreja é bem mais séria, bem mais complexa. Ela carrega em si um “anúncio” que nasce de um drama pessoal, como aconteceu no coração dos dois. Eram pessoas que haviam conseguido superar as naturais decepções privadas, as discussões que não constroem nada, haviam apreendido a escutar mais do que opinar e, estavam trazendo consigo uma bagagem que se resume, creio eu, numa simples atitude: esquecer o próprio mundo e se deixar envolver por Jesus. Pois bem, esta era a atitude dos dois enquanto se preocupavam com os outros “confirmando-os”. Então, justamente por estar esta atitude em sintonia com a de Jesus, Ele encontrou um contexto apropriado e se fez presente. É isto que cabe à comunidade que crê: realizar as condições próprias para que Jesus possa se “fazer presente” ou, melhor, se fazer perceber como “presente”. É como que um gerar a presença de Jesus no coração de quem está ouvindo. Como não lembrar aqui as palavras da última Ceia: «Se alguém me ama, guardará minha palavra, e o meu Pai o amará, então nós viremos a ele e nele estabeleceremos a nossa morada» (Jo.14,23)? É esse o caráter do anúncio, da missão. A sua força nasce do caminho de conversão pessoal daquele que anuncia. Sem este caminho, os lábios de qualquer um, os nossos lábios, correm o risco de fazer apenas uma agradável propaganda.

Prosseguindo com a nossa leitura encontramos no mandato de Jesus uma expressão realmente muito rica, que soa assim: «Vós sereis testemunhas de tudo isso». Temos aqui a ratificação por parte de Jesus de que a atitude dos dois discípulos é realmente aquela que permitirá que a Igreja continue eficazmente o caminho percorrido pelo Senhor, no meio de todos os povos, apesar de todas as diferenças culturais, apesar de todas as dificuldades.

Precisamos de uma pequena informação para compreender melhor o sentido das palavras de Jesus e encantar-se com a riqueza do seu mandato.

O verbo “testemunhar”, que se encontra pelas primeiras vezes nos poemas de Homero (1.100 a.C.?) e, posteriormente, entra no vocabulário dos hebreus, significa “tomar consciência de um fato que não pode ser esquecido”. Tomar consciência não é “lembrar”, é um pouco mais! Significa penetrar por dentro do ocorrido e descobrir o seu sentido.

Com o tempo, a palavra passou a indicar o ato de “confirmar um evento”, não por ter simplesmente “visto”, mas sim por tê-lo entendido. Disto decorreria outro sentido, que à de “fidelidade à verdade”. Sem dúvida se tornará ainda mais esclarecedor para nós saber que tudo isto se encontra sintetizado na palavra grega: “martírio” da qual deriva “testemunho”. Testemunho é “martírio”. Testemunho não é fazer publicidade nem afirmar alguma coisa sem base e envolvimento pessoal. Sabemos que a Igreja se fundou sobre o martírio, sobre os mártires; sabemos que o sangue dos mártires derramado em terra era recolhido por algumas mulheres para celebrar sobre esse mesmo sangue alguns sacramentos, como o matrimônio que é sinal de fidelidade à verdade do amor que não é transitório e conduzido pelos eventos imediatos.

Nas pessoas que deram a própria vida para o Evangelho e continuam dando-a, encontraremos sempre o “adubo” da Igreja, a sua força vital que «Não nasce de carne...», mas sim do amor sem condições, em detrimento até daquilo que temos de mais precioso. Martírio é testemunho. É uma atitude amadurecida ao longo de uma vida vivida em comunhão com Deus. É o resultado de um amor maduro, não instintivo nem sentimental. Um amor que conduz a dizer, sem palavras, até onde chega a verdade.

Em ambiente judaico, nos dias de Jesus, havia ainda um outro significado, que vinha do Antigo Testamento: a palavra “testemunho” indicava às tábuas da Lei (Ex. 29,4; etc.) isto é, um símbolo “firme como a pedra” que indicava a fidelidade de Deus e a resposta do homem que deseja seguir o caminho proposto. Aos poucos, o mesmo termo foi sendo usado para indicar a Arca da Aliança (Ex. 40,2-3; Lv. 16,2) isto é, o “lugar” onde estava depositado o pacto de fidelidade entre Deus e os homens. Com a destruição da Arca, o Templo acabou recebendo este sentido, assim, na época de Jesus falar de “testemunho” deixava a entender três coisas: a força do anúncio com o envolvimento pessoal, a fidelidade de Deus à sua Aliança, o lugar de encontro com a presença de Deus.

Vejamos agora de aplicar tudo isto ao recado de Jesus, que soa contemporaneamente como um pedido e uma afirmação: é como se o Senhor dissesse: “sejam testemunhas” e: “vocês vão se tornar testemunhas”!

A primeira indica o caminho que a Igreja deve percorrer como sua missão, a segunda indica o resultado ao qual conduzirá a dinâmica do anúncio. Assim sendo, nas palavras de Jesus encontramos um dúplice sentido: por um lado a comunidade dos discípulos é, analogamente às antigas tábuas da Lei, o sinal de que Deus é fiel; de que Ele continua agindo, de que não deixou a humanidade à mercê do aparente triunfo do mal. Por outro lado a comunidade é o lugar onde está presente a verdadeira Lei, Jesus; um lugar não mais restrito a um Templo num determinado território, mas sim em todo lugar onde houver um discípulo anunciando o Senhor Ressuscitado.

Nas palavras de Jesus: «…serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém» é difícil não ver a alusão a que estava se realizando, com o anúncio dos discípulos, o desejo que Isaías expressara num momento de grande dificuldade de Israel: «…de Sião sairá a lei, e de Jerusalém a palavra do Senhor» (Is. 2,3).

padre Carlo Battistoni

 

 

Assustados, pensavam estar vendo um fantasma

«Ouvimos, quando se lia o santo Evangelho, movidos pela admiração, viemos a crer e, crendo, admiramo-nos de que o Senhor tivesse aparecido, uma vez ressuscitado dentre os mortos, oferecendo-se como prova aos que haveriam de morrer e como exemplo aos que haveriam de ressuscitar. Apareceu aos que tinham perdido a esperança e, assustados, pensavam estar vendo um fantasma (Lc. 24, 37)…

Escutai que Ele próprio nos diz: Por que estais preocupados, e por que tendes dúvidas no coração? Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo! Tocai em mim e vede! Um fantasma não tem carne, nem ossos, como estais vendo que eu tenho (Lc. 24, 38-39). Por que te opões? És cristão? Se és cristão, escuta o Cristo que diz: Por que tendes dúvidas no coração? Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo! Tocai em mim e vede! Um fantasma – isto é, o que pensais que eu seja – não tem carne, nem ossos, como estais vendo que eu tenho. Ainda te opões? Se ainda te opões, pensa se haveria algo de mal, talvez, em crer que Cristo é um fantasma, mesmo possuindo Ele uma carne verdadeira. Se nada de mal houvesse nisso, o Senhor teria deixado os seus discípulos no erro. Não desprezes a ferida que tão grande médico tratou de curar.

Se aqueles pensamentos não prejudicassem, como espinhos, o campo do Senhor, o diligente agricultor não os teria extirpado com sua mão. Mas os discípulos se corrigiram, enquanto os maniqueus se perverteram. Aquele pensamento passou pelo coração dos discípulos, como um peregrino, mas possuiu o coração dos maniqueus como senhor, já que como inimigo o invadiu».

santo Agostinho (In Io. ev. tr. 7, 9)

tradução: Luciano Rouanet, OAR

 

 

Testemunhar o Ressuscitado e anunciar a conversão

Celebrando a ressurreição do Senhor Jesus em meio a realidades onde parecemos testemunhar a vitória da morte é motivo de grande alento e ao mesmo tempo apelo a um compromisso que nos desinstala, experimentar, mediante a fé, que Ele está no meio de nós desafiando-os a ver em seu corpo os sinais de sua paixão e nas Sagradas Escrituras o anúncio de sua Páscoa.

A noticia que abriu a semana chamando nossa atenção vem de Sergipe: presos rebelados que fazem reféns de suas visitas de domingo à tarde e clamam por um tratamento um pouco menos desumano. Eles aparecem encapuzados, mascarados, torturando suas vítimas provavelmente por estarem numa situação limite. O que significa testemunhar o Crucificado – Ressuscitado diante de notícias como esta? Que impacto tem em nossa vida de cidadãos a vitória da vida sobre a morte em Jesus Ressuscitado?

É a partir destas questões que a noticia da rebelião pode suscitar, que queremos ler a Palavra de Deus deste domingo. Nos Atos dos Apóstolos Pedro proclama sem temor: “Vós matastes o autor da vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos, e disso nós somos testemunhas” (At. 3,15). Palavra forte e dura que revela a coragem de Pedro e sua resposta concreta à conversão após o medo que o fez negar o Mestre três vezes. Na sua primeira carta, João afirma que é a prática dos mandamentos que revela nosso amor a Deus e aos irmãos. Estas leituras, juntamente com o salmo que invoca o esplendor da face de Deus sobre nós, aquecem nosso coração para adentrarmos no Evangelho.

É Lucas neste domingo que nos relata o reencontro dos discípulos de Emaús com a comunidade reunida, a alegria com que eles contam o que aconteceu no caminho e a partilha do pão como lugar de reconhecer Jesus ressuscitado. Neste pouco é o próprio Jesus que aparece mais uma vez oferecendo a sua paz.

Jesus nos deixa com sua vitória sobre a morte aquela paz, que como diz dom Pedro Casaldáliga em sua poesia “Dá-nos Senhor aquela paz”, denuncia a paz dos cemitérios e a paz dos lucros fartos... que é fome de justiça.. que é paz inquieta e não nos deixa em paz!

Os discípulos ficam assustados e cheios de medo, como ficaríamos também nós. Certamente um morto assassinado que aparece de pé e traz a paz teria sido também por nós considerado um fantasma! Jesus não se intimida com o medo dos seus, ele questiona e convida-os a tocar nele a ver o que parecia impossível: “Um fantasma não tem carne nem ossos como estais vendo que eu tenho!” (Lc 24,39b).

A atitude de Jesus não é ainda suficiente, Lucas diz que eles ainda não podiam acreditar. Então Jesus pede comida, toma e come diante deles e em meio ao clima da refeição próprio das comunidades primitivas, proclama mais uma vez que era preciso que se cumprisse tudo o que estava escrito na Lei, nos profetas e nos salmos, e diz Lucas: “Então Jesus abriu a inteligência dos discípulos para entenderem as Escrituras” (Lc. 24,45).

Ainda hoje Ele vem ao nosso encontro mediante a refeição sagrada da Eucaristia dominical, ainda hoje quer abrir nossa inteligência para compreendermos as Escrituras, ainda hoje quer fazer de nós suas testemunhas em nosso cotidiano.

O Evangelho termina com a ordem que transforma os discípulos em apóstolos, missionários: “Vós sereis testemunhas de tudo isso” (Lc. 24,48).

O que significa ser testemunhas do Crucificado – Ressuscitado num mundo que ainda crucifica, elimina, discrimina, reduz a vida humana a objeto de pesquisa? O que significa ser testemunhas do Ressuscitado quando nos sentimos impotentes diante de atentados, rebeliões, violências e descasos pela saúde dos pequenos? Quais as conseqüências do nosso testemunho?

Estas questões renovam em nosso coração a “paz inquieta”. Ressuscitados e ressuscitadas com Cristo não temos o direito de nos conformar com as situações com as quais nos deparamos como se elas tivessem a última palavra. Somos, como cristãos, homens e mulheres que testemunham a vitória da morte com um estilo de vida sempre aberto ao cuidado com os frágeis, à denúncia dos abusos e ao anúncio de uma esperança que não decepciona.

Nestes dias, em meio à noticias que tocam profundamente nossa sensibilidade e nos desafiam a rever nossa postura diante da vida, os Bispos da Igreja do Brasil estão reunidos em Assembléia Geral. Sejam estes nossos irmãos, profetas do ressuscitado, testemunhas do Cristo que ainda hoje se revela mostrando suas feridas e pedindo um pedaço de pão. Que nossa Igreja, ainda hoje proclame que a paz do ressuscitado é possível e nos leva a lutar pela paz duradoura... a paz que é fruto da justiça e da solidariedade.

Celebremos nossa Eucaristia ouvindo do Ressuscitado a Palavra que ilumina o sentido escondido das Escrituras e celebrando sua presença viva no Pão da Eucaristia que nos sustenta e nos transforma de discípulos medrosos em apóstolos corajosos que testemunham: “O Senhor está no meio de nós!”

irmã Luzia Ribeiro Furtado

 

 

Falar sobre a ressurreição neste ambiente que vivemos, onde a presença religiosa já não está sendo vista como uma cultura formativa, uma forma de viver e de corresponder ao amor de Deus, como algo desconhecido ou até mesmo tratado com prejuízo, com tudo isso, acaba nos levando a buscar outra forma de aproximar ao nosso povo com uma linguagem mais compreensível e ao mesmo tempo assumindo a nossa tarefa missionária convocada pela santa Igreja na nova evangelização. Saber aproximar-se a todos com a mesmo mensagem, porém, com um vigor e uma linguagem compreensível e tentar aproximar aqueles que por algum motivo deixaram de freqüentar a sua comunidade local.

A Igreja deseja que todos nós sintamos respondamos à vocação a sermos discípulos missionários dispostos a estar em plena missão, por mais que seja uma tarefa de conflitos e que ao mesmo tempo desafiante, esta seria a nossa missão, como seguidores e testemunhas da ressurreição, tal como expressava no segundo domingo da páscoa: “Este é o meu desejo para todos neste dia, que reconheçamos a grande Misericórdia de Deus para com todos nós, porque somente assim, reconhecendo este gesto que podemos viver e anunciar sem medo, ou seja, dar testemunho do que realmente é importante para entender a páscoa, que é nada mais que a manifestação de Deus na nossa história”. A partir deste momento começa a nossa missão.

A páscoa nos transmite fatos concretos da vida pessoal e também comunitária, ou seja, que não basta somente organizar e celebrar uma liturgia com muita parafernália para dar um maior esplendor a este acontecimento, ou simplesmente fazer memória daquilo que já sabemos como ocorreu, mas sim de poder entrar dentro na dinâmica deste mistério e da sensibilidade que somos convocados. Deus convoca a todos a experimentar a sua graça, mas esta graça só ocorre a partir da disposição interior de grada um, provocando uma transformação em forma de testemunho coerente e transparente da vida nova. Uma das coisas que jamais me cansarei de repetir nas reflexões, que o mais importante para qualquer seguidor de Jesus sem nenhuma dúvida é a experiência pessoal e transparente com Jesus vivo e ressuscitado, para ter este tipo de experiência cada um sabe por onde começar, de acordo as possibilidades e interesses de cada um.

Com o passar do tempo, a pessoa que teve este encontro com Jesus ressuscitado já não será a mesma, tudo se transforma, porque Jesus transmite luz nas escuridões; cura as feridas provocadas pelo tempo ou pela história; perdoa quem se sente sujo pela mancha incorrupta do pecado que aproveita todas as oportunidades para acorrentar a alma sedenta do amor e da renovação que somente o ungido de Deus poderá depositar no nosso interior.

O que acabo de dizer não é nenhuma novidade, mas nem por isso a nossa liturgia pode deixar de anunciar e celebrar continuamente até nossos dias estas grandes manifestações de Deus através da ressurreição de Cristo e como nos expressa de forma particular no santo evangelho de hoje sobre a manifestação do Ressuscitado aos apóstolos no cenáculo (Lc. 24,35-48). São Lucas relata esta cena logo após o episodio dos discípulos de Emaús. O texto continua insistindo no realismo da ressurreição: “Tocai em mim e vede! Um espírito não tem carne, nem ossos, como estais vendo que eu tenho”. Depois de ter mostrado aos discípulos que era ele de verdade presente naquele corpo, Jesus, somente desejava fundamentar a fé deles, e disse-lhes: “São estas as coisas que eu vos falei quando ainda estava convosco: era necessário que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos profetas e nos salmos”. Somente podemos reconhecer o Ressuscitado a partir do momento que começamos assimilar os ensinamentos da Sagrada Escritura e as suas indicações para a vida do cotidiano.

Depois de um grande incidente e que de um momento a outro acaba dando de cara com o Senhor Jesus, o mais normal seria um grande assombro, ou também incredulidade, porque não seria digno de experimentar tal milagre e de receber tão grande graça, mas depois de tantos impedimentos e de incredulidades provocadas muitas vezes pela falta de fé ou de confiança nas obras salvíficas de Deus, acaba deixando entrar os raios da misericórdia. Este encontro com o Ressuscitado -sobre tudo na celebração da Eucaristia- é a ocasião e a oportunidade para transformar tudo aquilo que é causa de conflito e dúvida nas nossas vidas, como fez na vida dos discípulos de Emaús.

A experiência que tiveram os discípulos com Jesus vivo e ressuscitado, hoje também pode ser a nossa vez, temos a mesma oportunidade, somos convidados a assumir uma vida nova, evitando as ocasiões de pecar e assim assumir as conseqüências daquele que encontrou o Tudo da sua vida, para que um dia correspondamos ao Tudo que Deus nos deixou, porque nos ama.

Na primeira leitura (Atos dos Apóstolos 3,13-19), a atitude surpreendente de Pedro quando começa a anunciar, ou seja, que começa a assumir a sua missão, que começa a colocar em prática tudo aquilo que teria experimentado com Jesus ressuscitado e que agora começa a falar sem medo algum sobre as causas da sua morte na cruz, e que graça a esta morte somos livres das ataduras do mal, porque Ele carregou sobre si os nossos pecados, o seu sangue nos lavou do antigo pecado e assim nos recuperou a identidade originária, mas a pesar de tudo isso, meus queridos irmãos, somente recuperamos esta identidade originária ao confessarmos tudo àquilo que foi ou é causa de queda, de prejuízo, de incredulidade diante dos sacrifícios de Deus por conquistar nossos corações.

A partir deste encontro pessoal com o Senhor e do reconhecimento das nossas fragilidades como seres humanos, podemos assumir a graça que o próprio Deus depositou nas nossas vidas pelo batismo, motivo pelo qual renascemos a uma vida nova, e tudo graças à paixão, morte e ressurreição de Jesus.

padre Lucimar, sf