1. A festa da Páscoa não se esgota no domingo da Ressurreição. A Páscoa celebra-se ao longo de 50 dias, terminando apenas no domingo de Pentecostes. É um tempo privilegiado de alegria em que os cristãos se revêem na surpresa da Ressurreição vivida pelos apóstolos. É também um tempo para recordar a experiência das primeiras comunidades cristãs que se foram constituindo na congregação de quantos, convertidos, queriam partilhar a vida segundo os critérios do Evangelho. Alguns, na sociedade que pretende voltar as costas ao Ressuscitado, quiseram reduzir a Páscoa à festa da primavera. Na Páscoa, porém, não se celebra apenas a ressurreição da natureza depois do inverno, celebra-se a Ressurreição de Cristo depois da morte, celebra-se a ressurreição do mundo depois das trevas que, infelizmente, persistem no tempo presente. A festa da Páscoa não é evocação do passado: contém o dinamismo da construção do homem novo e do mundo novo, que a Ressurreição de Cristo provoca e significa. É neste contexto que a liturgia pascal convida os cristãos a acompanhar as pessoas que acreditaram no Ressuscitado, chamando também os cristãos a uma vida comum semelhante à das primeiras comunidades.

2. Os discípulos de Cristo não tinham entendido as Escrituras nem mesmo tinham compreendido as palavras de Jesus que, expressamente, falara da Ressurreição. Quando vêem Jesus morto no Calvário entram numa terrível depressão. Todos choravam o Mestre mas não achavam possível que voltasse à vida. A surpresa da Ressurreição apanhou-os a todos, pelo que Cristo Ressuscitado acabou por tornar-se a referência absoluta das suas vidas.

• Maria viu o sepulcro vazio e nem sequer reconheceu Jesus. O jardineiro que lhe estava próximo tratou-a afinal pelo seu nome e ela descobriu que este era o Mestre (Rabuni). Não pôde mais parar. Correu a dizer aos discípulos que Jesus estava vivo.

• Pedro e João correm a confirmar o dito daquela mulher. Encontram o sudário e as ligaduras arrumadas a um canto. Tão lógica foi a Ressurreição que eles podem dizer que O viram e acreditaram.

• Os discípulos de Emaús faziam tristes o caminho da desilusão. Criaram amizade com um viajante que ia a seu lado. Convidaram este homem para ficar em sua casa. Sentaram-se à mesa, reconheceram-n’O no partir do pão. Afinal o Senhor estava vivo.

• Os apóstolos no Cenáculo, ali juntos com medo dos judeus, foram surpreendidos pela presença de Jesus que lhes disse: “a paz esteja convosco”. Reconheceram as mãos e os pés feridos, bem como o sinal da lança do centurião. Acreditando n’Ele aceitaram o Espírito para realizar a missão do Evangelho. O Senhor foi claro “como o Pai me enviou, também Eu vos envio” (Jo 20,21).

• Tomé não estava na comunidade, por isso levantou todas as dúvidas. Ao regressar à comunidade, uma vez mais Jesus apareceu. Porque Tomé viu, acreditou. E Jesus poderá dizer-lhe que mais felizes são os que acreditam sem terem visto. Todos continuaram a hesitar. Por isso Jesus os advertiu de que só na fé da Sua Ressurreição poderiam ir por todo o mundo anunciar o Evangelho a toda a criatura. Tinham uma garantia, Jesus estaria com eles até ao fim do mundo.

• Paulo, anos mais tarde, ele que era perseguidor, também ficou rendido à presença de Cristo Ressuscitado. Perante esta realidade que o surpreendeu só soube dizer “Senhor, que queres que eu faça” (At. 22,10).

Qualquer destas pessoas pode ser um de nós; surpreendidos tantas vezes por Jesus, para conseguir deitar fora o homem velho e construir o homem novo à semelhança do Ressuscitado. Se os discípulos mudaram radicalmente a sua vida, passando da tristeza à alegria, da dúvida à certeza, do medo à coragem, só, porque tiveram a certeza da Ressurreição, também cada um de nós pode fazer caminho semelhante celebrando nas atitudes a Ressurreição de Cristo.

3. A vida das primeiras comunidades, na leitura dos Atos dos Apóstolos, é recordada na Liturgia destas semanas pascais. De fato, a maneira como viviam os cristãos estava marcada por uma dinâmica comunitária de extraordinário significado. “Estavam todos unidos na doutrina dos apóstolos, na fração do pão e nas orações” (At. 2,42), chegando mesmo a pôr tudo em comum. Quem olha para vida destas comunidades cristãs reconhece nelas 5 características que deviam ser constantes nas comunidades cristãs de todos os tempos.

• Tinham um só coração e uma só alma, o que quer dizer que viviam em profunda comunhão fraterna, servindo-se uns aos outros e tratando-se como irmãos.

• Tinham a vida em comum, pois para eles havia uma só fé, um só batismo, um só Deus que é Pai de todos. A diversidade de carismas e de funções enriquecia a vida comum que fazia parte da sua vocação cristã.

• Davam testemunho de Cristo em toda a parte, não tendo medo das dificuldades das perseguições e das prisões. Eles sabiam que não tinham que pensar o que dizer diante dos juízes porque o Espírito Santo estaria com eles.

• Tinham a simpatia de todo o povo, a sua forma de estar era de tal natureza que toda a gente os admirava. Daqui resultava, então, que muitos se convertiam aderindo à mesma fé.

• Partilhavam os bens de tal maneira que não havia necessitados entre eles. Chegavam a vender as terras e a pôr o dinheiro aos pés dos Apóstolos para com este ser possível ajudar os mais pobres nas suas dificuldades.

Neste tempo litúrgico lêem-se diariamente os Atos dos Apóstolos. É uma experiência de Igreja que era urgente retomar. Quando se vê nos noticiários que dois milhões de portugueses deixaram de ser católicos sente-se que é necessário refontalizar a fé cristã, voltando às fontes das comunidades cristãs. Pelo testemunho da Ressurreição ter-se-ia a simpatia de todo o povo e muitos iriam acreditar.

4. Cada comunidade cristã é uma parcela do Povo de Deus, tendo dele as mesmas características. O Concílio veio dizer-nos que a Igreja, Povo de Deus, tem 4 características. São estas que podem tornar-nos simpáticos como cristãos. Termos Cristo Ressuscitado como referência única e fonte da nossa alegria; promovermos na cidade a dignidade e liberdade de todos os homens, reconhecidos como filhos de Deus; termos como única lei o amor vivido até às últimas consequências, no perdão e na reconciliação até à unidade; e tendo como objetivo gerar a comunidade de gente feliz. Neste tempo pascal convido todos os cristãos da comunidade paroquial a vivermos com maior intensidade a vida de ressuscitados.

monsenhor Vitor Feytor Pinto

“Revista de liturgia diária”

 
 

"Vós sereis testemunhas de tudo isso"

Celebramos o domingo do encontro dos discípulos com o Senhor ressuscitado. No dia em que celebramos o terceiro domingo da Páscoa, voltamo-nos ao Senhor da vida. Confirmados na fé pelos sinais sensíveis e instruídos pelas palavras da Escritura, podemos perceber a sua presença viva no meio da comunidade dizendo: "A paz esteja convosco".

Celebramos a Páscoa de Jesus Cristo que se manifesta ressuscitado na caminhada dos discípulos, na fração do pão e em todas as pessoas e grupos que promovem a partilha e ajudam a criar laços de comunhão.

O tempo pascal é o período no qual a comunidade se situa no horizonte da ressurreição e da vida nova de Jesus. A vitória de Jesus desencadeia a ressurreição de toda a humanidade e a recriação do universo.

Primeira leitura - Atos 3,12.13.15.17-19

É o segundo discurso missionário de Pedro perante o povo israelita. Pedro em seu discurso diminui a culpa dos judeus porque agiram por ignorância a respeito do mistério divino de Cristo, de sua missão (Atos 3,17), pensando que tratar-se de um blasfemo e transgressor da Lei. Sem perceber, contribuíram para o cumprimento das profecias que se referiam ao Messias sofredor (Isaias 52,13-53,12; Salmo 21,2-19). "Pela boca de todos os profetas"... Os profetas formam um todo, uma unidade. Não significa dizer que o sofrimento de Jesus se encontra em todos e em cada um deles. Assim fez Jesus em Lucas 24,26s, Atos 10,43; assim fez Pedro (1 Pedro 1,11). É o tradicional argumento das profecias. De maneira parecida falou Paulo em Antioquia da Pisídia Atos 13,27; cf. Romanos 10,3; 1 Coríntios 2,7s; 1,23s), inclusive aplicando a si tal ignorância  para desculpar-se da antiga falta de fé (1 Timóteo 1,13).

A comunidade primitiva finalmente descobre Jesus Cristo como o instrumento inocente e sofrendo pela multidão, graças ao qual Deus realiza seu projeto de salvação.

O apelo para o arrependimento e para a conversão (versículo 19) está em função da parusia (v. 20s), e eles são necessários para merecer a Bênção de Deus por meio de Jesus Cristo e o perdão dos pecados. Sinal deles é o batismo. A conversão supõe uma transformação interior da pessoa: para os pagãos é voltar-se sinceramente ao verdadeiro Deus e abandonar os ídolos (1 Tessalonicenses 1,9; Gálatas 4,9; Atos 14,15; 15,19; 26,18-20), para os judeus é aceitar Jesus como Senhor (Atos 9,35; 1 Coríntios 3,16). Já no Primeiro Testamento há referencias à conversão. A novidade na proclamação da Igreja consiste no entrelaçamento da conversão radical e do perdão com a obra salvadora de Jesus Cristo. Aderindo a Cristo pela fé e pelo batismo efetua-se a justificação portadora da salvação. A remissão dos pecados e o fato de conseguir a salvação estão vinculadas ao sacrifício expiatório de Cristo (Lucas 22,19s).

Mas, assim como o Senhor só atingiu sua glorificação pela morte, as pessoas também - a mais concretamente os habitantes de Jerusalém, responsáveis pela morte de Jesus Cristo - só poderão alcançar e regeneração universal passando pela conversão (versículos 19 e 26), reconhecendo Jesus como Senhor (cf. Atos 2,38; 5,31; 17,30) e assegurando assim o perdão de seus pecados (cf. Atos 2,38; 10,43; 13,38-39).

Do ponto de vista bíblico e teológico, a ressurreição de Cristo não aparece apenas como uma volta à vida neste mundo, até mesmo a uma vida melhor, mas, graças às citações bíblicas trazidas para prová-la, como uma real entronização messiânica (Atos 10,38: unção; 13,33: filiação; 3,13: glorificação).

A referência da ressurreição às Escrituras indica que não podemos separá-la do modo pelo qual as pessoas concretas procuram o sentido da vida e esperam que Deus o revelaste, e do modo pelo qual Cristo cumpriu sua vocação messiânica na terra. A ressurreição de Jesus de Nazaré é o núcleo da fé cristã porque desvenda a identidade do Messias esperado: um homem fiel à sua condição humana até à morte, mas cuja vontade de ser parceiro de Deus revela sua qualidade de Filho Único, capaz de colocar no lugar um reino humano-divino.

Apoiando a ressurreição de Cristo nas Escrituras de sua cultura judaica, Pedro dá o exemplo da busca que a fé cristã deveria fazer dentro de cada cultura humana. Este trabalho foi bem feito pelo povo judeu dentro de sua cultura, graças à sucessão prodigiosa de seus profetas, do Messias e dos apóstolos. Mas o esforço deve ser tentado dentro de cada cultura. Certamente, a caminhada da reflexão judaica será sempre um exemplo e, até certo ponto, uma norma a seguir. Mas acontece que ele não é exclusivo e que o querigma apostólico algum dia poderia ser exposto numa argumentação e num vocabulário engajados numa cultura "pagã". Paulo tentou esse esforço no universo da cultura grega; ele está sempre por fazer.

Salmo responsorial - 4,2.4.7.9

Salmo de confiança e gratidão para com Deus, do qual unicamente vem a felicidade. Apesar de apresentar elementos de súplica (vs. 2b.7b), trata-se de um salmo de confiança individual. Uma pessoa envolvida numa tensão social professa sua confiança em Deus (v. 9b). O v. 9 o apresenta como prece da tarde.  O versículo 7b fala a respeito da luz da face de Deus que sempre está em nosso favor. "Levanta sobre nós a luz da tua face". Expressão bíblica, freqüente nos salmos, da benevolência de Deus. A "face" é o aspecto exterior de uma coisa (Salmo 104,30; Gênesis 2,6) ou de uma pessoa, tornando visíveis seus pensamentos (Gênesis 4,5;31,2). Ela pode, portanto, designar a personalidade ("minha face" = eu: Salmo 42,6; 43,5) e a presença de modo especial a propósito de Deus dirigindo-se as pessoas.

O rosto de Deus no Salmo 4. Deus é o aliado que deu a terra ao povo para que pudesse ter vida. Por ser o Deus da Aliança, Ele livra da angústia, faz maravilhas e escuta o clamor, mostrando a luz da sua face e salvando os que suplicam. Finalmente, é o Deus no qual o salmista põe toda a sua confiança, o Deus no qual pode confiar sem temer decepções.

No Novo Testamento Jesus é a certeza do Deus fiel no qual as pessoas podem confiar. Além do que foi dito a esse respeito no Salmo 3, é oportuno recordar a afirmação de Jesus em João 14,6: "Eu sou a Verdade". Na Bíblia, "verdade" significa estabilidade, firmeza, algo que permanece sem se alterar. Em outras palavras, Jesus é a encarnação do Deus fiel em nossa história e caminhada, e Ele veio para que todos tenham vida.

Na oração deste salmo expressemos nossa confiança no Deus de nossos pais, que nos defende e nos salva por Jesus Cristo, vencedor do pecado e autor da vida. E que a luz da sua ressurreição brilhe em nossas vidas.

Segunda leitura - 1João 2,1-5

Ao iniciar a carta, João dá um testemunho ilustre e pessoal sobre Jesus Cristo. Como Deus é luz, o cristão deve caminhar na luz, fazendo o bem e rompendo com o mal. Com o resultado da sua morte e ressurreição de Ele nos purificou com seu Sangue, mas é necessário purificar-se continuamente (isto contra os hereges e gnósticos que se diziam impecáveis). Dizer que não tem pecado é enganar-se a si mesmo, é faltar com a verdade. A auto-suficiência gera o auto-engano. Se pretendermos ser impecáveis, nos seduzimos e enganamos. Ninguém pode dizer-se livre do pecado. A universalidade dele está no Primeiro Testamento (1 Reis 8,46; Jó 4,17; 15,14; Provérbios 20,9; Eclesiastes 7,20; Eclesiástico 19,17; Salmo 142,2) e no Novo Testamento (Mateus 6,12; Romanos 3,9-18; 1 Coríntios 4,4; Tiago 3,2).

Em vez de iludir-se com os pecados, melhor reconhecê-los e confessá-los (1 João 1,9). Como Tiago (5,16), também João aqui parece referir-se a uma prática de confissão em uso entre os judeus e, depois, entre os cristãos (Marcos 1,5; Didaqué 4,14; 14,1).

Todos somos pecadores, mesmo depois da justificação. Negar que não é pecador é tratar a Deus de mentiroso (versículo 10), já que a Escritura a toda hora afirma que o que o ser humano é pecador. Quem não se reconhece como pecador, priva-se da luz que lhe que vem da Palavra de Deus, única a dizer a verdade e a nos libertar.

A universalidade do pecado é conseqüência da fragilidade humana. Isso não é motivo para pessimismos ou desesperos. João, falando ao círculo íntimo dos cristãos, nota-se o diminutivo de afeto: "meus filhinhos", previne de que não se peque, mas, se acontecer, sugere a esperança: Jesus Cristo o Justo, é nosso intercessor e defensor junto a Deus Pai. (1 João 2,1), advogando nossa causa, como vítima de nossos pecados. O cristão, ciente de sua fraqueza, deve recorrer constantemente a tal Advogado e a seu Sangue propiciatório.

Jesus, ainda em vida, prometera este outro defensor junto ao Pai, o Paráclito (João 14,16), sinal de que Ele o era também. A doutrina consoladora da intercessão de Cristo nos céus fazia parte da catequese primitiva (Romanos 8,34; Hebreus 4,14ss; 7,24s; 9,24; 1 Timóteo 2,5). Fácil é pecar, porém, consola saber que há um intercessor, poderoso e amigo; logo, não se trata de um juiz severo, mas de um Pai amável, que escuta seu Filho, quando suplica por nós sem cessar.

Portanto, todos podem salvar-se contanto que saibam aproveitar do perdão que é oferecido (1João 4,14; João 3,16-21; 4,42; 12,47; 1Timóteo 2,4ss). João responde aos gnósticos, que admitiam a eficácia redentora de Cristo só para os bons. Para ser filho de Deus não basta fugir do pecado, mas é preciso guardar seus mandamentos, particularmente o do amor (1,5 ss.). Este é o critério dos verdadeiros conhecedores de Deus (contra os gnósticos). Não é suficiente conhecer a Deus em teoria, como os filósofos. É preciso também conhecer a Deus fazendo experiência, mediante uma fé viva, que envolva a pessoa toda para uni-lo a Deus para que produza muitos frutos, tornando-se assim norma de vida. "Conhecer" significa "saber" e também "saborear algo" ou "estar unido a Ele" (cf. 2 Coríntios 13,6; Gálatas 4,9). Conhecer a Deus á participar de sua vida, é estar em comunhão com Ele.

Pretender conhecer a Deus sem a prática dos preceitos é ser mentiroso (v. 4), é como aquele que está nas trevas e pretende estar em plena luz (1João 1,6). João se refere aos falsos doutores que ostentavam sua ciência (gnosis), mas faltavam aos mais elementares deveres da vida cristã.

O falso cristão (1 João 2,5) difere do verdadeiro. Aquele que é verdadeiro cristão cumpre e guarda a Palavra divina. A caridade, em quem guarda a Palavra de Deus, é bem mais perfeita do que naquele que só observa alguns preceitos. Deus ama primeiro, confere ao ser humano a capacidade de amar a Deus e ao próximo. Na caridade da pessoa se unem o elemento divino e o humano: o amor de Deus para a pessoa e o amor da pessoa para Deus.

Evangelho - Lucas 24,35-48

Lucas apresenta a aparição de Cristo aos discípulos de Emaús como a segunda do dia de Páscoa. Com efeito, ele descreve narra as aparições do Ressuscitado como manifestações sucessivas aos três principais grupos de discípulos de Cristo: às mulheres (Lucas 24,1-12), aos discípulos, e finalmente aos Onze (Lucas 24,36-39).

O rito pelo qual Cristo se faz reconhecer é o da "fração do pão" (v. 30), refeição fraternal das primeiras comunidades cristãs (Atos 2,42.46; 20,7.11). Enfim a narrativa termina com uma profissão de fé, (v. 34) que já é a dos primeiros cristãos.

A ressurreição de Jesus não é uma simples reanimação como a de Lázaro: o corpo de Jesus ressuscitado entrou num modo de existência diferente do modo terrestre: empregando a linguagem mítica judaica, Ele está "sentado à direita do Pai". Jesus ressuscitado tem um corpo, mas este corpo é totalmente diferente do que Ele tinha durante sua vida terrestre. Tudo isso significa simplesmente que não podemos conhecer o Cristo ressuscitado do mesmo modo que o Jesus terrestre e que esse novo conhecimento põe em jogo nossa liberdade 

São João afirma que Ele mostra aos discípulos as "mãos e o lado". Isto significa que o Ressuscitado é o Crucificado e o Crucificado é o Ressuscitado, isto é, era a mesma pessoa e não um espírito de luz (João 20,20; 25-27). No Evangelho de São Lucas Jesus aparece após a ressurreição e mostra aos seus discípulos "as mãos e os pés" e os introduz na plenitude da mensagem da Páscoa. Tanto em São João como em São Lucas, trata-se das chagas da crucificação que o Cristo ressuscitado mostra a eles.

Lucas quer mostrar que a presença permanente de Cristo ressuscitado pode verificar-se na Palavra e na catequese, na fração do pão e na profissão de fé, elementos fundamentais da assembléia litúrgica.

A fé na ressurreição de Cristo não termina no próprio fato da ressurreição, mas também atinge o modo pelo qual Cristo prolonga sua existência de ressuscitado entre nós.

Lucas insiste no fato de que Cristo deixa-se tocar (atitude da qual João 20,19-31 ressalta mais a pobreza) e, além disso, observa que o Ressuscitado come diante deles, mais do que com eles. A narrativa mostra que a ressurreição é um fato real e não uma simples sobrevivência espiritual do Senhor.

Muitas vezes ficamos surpresos quando os textos mencionam a questão do pecado em muitas narrativas das aparições (v. 47; cf. Marcos 16,15-16; João 20,23; 1 João 2,1-2 e o apelo à conversão nos discursos apostólicos). No clima cultural judaico, esta associação entre remissão dos pecados e ressurreição não se separa: se a morte é considerada como o castigo do pecado (Gênesis 3,19) é normal que a ressurreição seja o sinal da abolição do pecado.  O Ressuscitado é que encarrega os apóstolos com a missão de pregar a todos os povos a penitência e o perdão dos pecados em Seu Nome (v. 47).

Lucas acentua muito que em Jesus mesmo está a origem da pregação da Igreja pós-pascal. Isto quer dizer, ele destaca que a corrente de tradição que vive na Igreja não começou com os apóstolos, mas com o próprio Senhor ressuscitado (cf. Gálatas 1,1.11.15 ss.). Foi o Senhor ressuscitado que abriu a inteligência dos discípulos para que compreendessem as Escrituras (v. 45). A interpretação adequada das Escrituras não era pois uma questão de teologia, mas de revelação. Nem o Jesus mortal conseguiu abrir os olhos dos discípulos mais íntimos para a Sua verdadeira missão. Foi o Senhor ressuscitado que lhes revelou o sentido da Cruz (versículo 46). Não existe prova mais clara de que a fé no Messias de Deus exige mudança de mentalidade e perdão dos pecados (v. 47). A revelação de Deus em Jesus revela de um modo assustador a incapacidade e indignidade do ser humano diante do divino. Mas ela não foi dada para condenar e sim para salvar o mundo. Jesus é o Salvador de todas as nações (v. 47b). Para que a salvação alcance realmente a todas elas, Ele encarrega os apóstolos de serem testemunhas desta Boa Nova (v. 48).

Da Palavra celebrada ao cotidiano da vida

Com a sua aparição, hoje, Jesus dá uma base "racional" à fé dos discípulos, mas esta não é o fruto lógico da razão mas da experiência  pascal e do encontro em profundidade com Cristo, que lhes dá uma segurança absoluta e indispensável, tanto que condicionará toda a sua vida e a nossa hoje também.

Não existe a menor dúvida de que sentir a presença e a ação de Deus traz uma alegria e uma satisfação muito grande. Muitas páginas da Sagrada Escritura são um grito de alegria, um testemunho alegre desta experiência. O último versículo do Salmo responsorial diz: "Eu tranqüilo vou deitar-me e na paz logo adormeço, pois só vós, ó Senhor Deus, dais segurança à minha vida!" (Salmo 4,9). O Criador, conhecendo a sua criatura, também usa esse meio para fazer as pessoas crerem e aderirem ao seu projeto, porém não é o suficiente.

Temos, também, as "dúvidas de compreender". Quando falamos de acesso a informações sobre os mais diferentes assuntos, inclusive religiosos, vivemos numa época privilegiada. Para permanecermos no nosso tema, o acesso a explicações sobre a razão da nossa fé não nos falta. Como também não faltam informações sobre outras tantas crenças diferentes da fé católica. Tal pluralidade religiosa e as múltiplas interpretações dos mesmos fatos levantam uma série de interrogações. A interpretação da Igreja Católica é a mais adequada? As novas e muitas interpretações aprofundam ou levam à negação do que aprendi?

As dúvidas provocadas pela pluralidade são oportunidades para que Cristo possa abrir "a inteligência dos discípulos para entenderem as Escrituras" (Lucas 24,45). Quando alguém duvida do que crê, mostra que já foi iniciado. A partir dessa iniciação, pode dispor-se para ser conduzido a uma compreensão mais aprofundada. Os discípulos tinham ouvido, diversas vezes, sobre o que deveria acontecer com o Messias. Será que as explicações dadas não tinham sido suficientes ainda? Ou melhor, faltava uma oportunidade para desestabilizar ou para colocar em crise o que tinham ouvido? O contexto criado permitiu que o Mestre retomasse os ensinamentos para serem assimilados e colocasse uma base, que poderíamos denominar de "racional", para a fé dos seus discípulos.

Confessar: "eu não sei se ainda creio", apresenta-se como uma oportunidade muito favorável. A partir dessa dúvida de fé, o Cristo ressuscitado pode renovar a fé dos seus seguidores.

"A fé é uma posse antecipada do que se espera, um meio de demonstrar as realidades que não se vêem" (Hebreus 11,1). A fé é uma certeza. Uma certeza marcada por uma faixa de incerteza, de risco, de indefinível, não-demonstrável para a nossa inteligência e os sentidos. Crer é usar a razão para entregar-se, confiar. É aceitar Deus através da sua Palavra. É experiência pascal e encontro em profundidade com o Ressuscitado.

Crer é viver toda a nossa vida com espírito pascal, isto é, como ressurreição perene e nascimento constante para a vida nova em Deus (1 Pedro 1,3). Crer é atrever-se, como os apóstolos e os primeiros cristãos, convertermo-nos radicalmente, mudando o rumo de nossa vida e dando a razão de nossa esperança, apesar da dúvida do egoísmo, da injustiça e do desamor, da vulgaridade e da morte. Porque a conversão, como o crer, é tarefa de todo o tempo, inclusive o pascal. Confirmados e reanimados na fé, Jesus nos diz: "Vós sereis testemunhas de tudo isso" (Lucas 24,48).

A Palavra se faz celebração

A celebração é o lugar do encontro com Cristo, onde reunidos fazemos a experiência da sua presença animadora. É ele quem revela o sentido das Escrituras e parte o pão para nós, nos enviando para o testemunho. É ele quem nos revela o sentido dos cantos litúrgicos, dos símbolos, dos sinais, da Oração Eucarística e das outras orações. Repetimos, seguindo o mesmo caminho dos discípulos de Emaús o confronto entre a Lei, os profetas e os Salmos. Verificamos em Jesus a plenitude da revelação pela escuta atenta e piedosa do Evangelho. Por Ele somos arrancados dos nossos desânimos e das nossas incompreensões frente o sofrimento e a dor. Nele robustecemos nossa filiação divina pela oração, pela obediência da Palavra de Deus, pela atitude solidária e amorosa com os irmãos. A vida nova vai tomando lugar em nós, até que Cristo seja tudo, em todos. Quando comungamos o Corpo e Sangue do Senhor, a vida de Deus circula dentro de nós, isto é, a eternidade entra na nossa vida.

Ligando a Palavra a ação eucarística

A Eucaristia é uma oportunidade ímpar de encontrarmo-nos, de modo festivo e comunitário, com o Cristo ressuscitado. Na oração do dia (coleta), rezamos: "Ó Deus, que o vosso povo sempre exulte pela sua renovação espiritual, para que, tendo recuperado agora com alegria a condição de filhos de Deus espere com plena confiança o dia da ressurreição". A comunidade exulta de alegria e por isso eleva ao Deus da vida a sua ação de graças na Oração Eucarística.

A renovação espiritual que acontece faz a Igreja festejar, pois "sois a causa de tão grande júbilo", diz-nos a oração sobre as oferendas. A alegria e a festa são a tonalidade predominante da liturgia deste domingo.

Uma comunidade fortalecida na fé, formada por pessoas que vivem no agora a certeza da ressurreição, a alegria da vida eterna, contagia o mundo com seu testemunho.

Os cristãos, libertados dos fantasmas que preocupam e geram dúvidas, dizem ao mundo que sobre eles brilha a face do Senhor ressuscitado.

padre Benedito Mazeti

 
 

"Vós sereis minhas testemunhas!"

Certa vez um amigo solicitou minha ajuda para atuar como testemunha a seu favor em um processo trabalhista, antes tive de passar pelo advogado, que sendo um ótimo profissional quis saber em detalhes tudo o que eu iria dizer diante do juiz, caso fosse necessário. Um bom testemunho é feito com firmeza, convicção e clareza de idéia, pois naquele momento a palavra é dele, e o advogado, promotor, juiz, júri, e as partes envolvidas, apenas o ouvem, uma palavra errada ou mal colocada, poderá por a perder todo o processo.

O papel de uma testemunha é convencer quem não presenciou o fato, de que o ocorrido é verdadeiro e não há nenhuma outra interpretação, por isso, se Jesus fosse como um advogado altamente profissional e rigoroso, nem os discípulos e muito menos nós, seríamos constituídos suas testemunhas.

No evangelho desse terceiro domingo de páscoa, para início de conversa o confundiram com um fantasma, e olhe que já era praticamente a terceira aparição do Senhor, à comunidade. Os dois que iam para Emaús o confundiram com um forasteiro, na comunidade, as duas primeiras reuniões foram com as portas fechadas, por medo dos judeus, e ele já tinha aparecido uma vez, no evangelho de hoje, mesmo ouvindo o depoimento dos discípulos de Emaús, e vendo Jesus aparecer diante deles, ficaram assustados e cheios de medo. Jesus falou com eles, mostrou as mãos e os pés, deixou-se tocar, ainda assim não acreditaram, a ponto do próprio Senhor lhes censurar porque estavam preocupados e tinham dúvidas no coração.

Em uma audiência diante de um tribunal, essas testemunhas seriam no mínimo desastrosas, dá até para imaginar o diálogo “Vocês viram Jesus ou não?”. “Não sabemos Meritíssimo, se realmente era ele, parecia um fantasma, a gente o viu e o tocou, ele até comeu um peixe assado, pode ser que seja ele mesmo”. Que “belo testemunho”, não afirma e nem confirma...

No final do evangelho, Lucas afirma que Jesus abriu a inteligência dos discípulos, para entenderem as escrituras. O pensamento humano tem uma tampa, um limite aonde chega a lógica humana depois de investigar e estudar muito alguma questão; dali para frente, há um mistério que só pode ser compreendido por aquele que crê, ou seja, ler as escrituras apenas com a nossa inteligência, fechada no horizonte humano, não vamos entender coisa alguma. Mas se as lermos na perspectiva de Jesus de Nazaré, sua vida, sua história, sua morte e ressurreição, iremos compreender o sentido da vida, porque nele encontramos o nosso verdadeiro DNA, a nossa origem e o nosso fim, em Cristo mergulhamos ao encontro daquele que é a Vida em toda sua plenitude, pois nele fomos recriados, mudou-se a referência.

Herdamos sim, o pecado original de Adão e Eva, mas agora já sabemos a verdade, não há possibilidade de a serpente nos enganar, pois conhecemos aquele que é mais Poderoso e Sábio do que a serpente, nós conhecemos aquele que esmagou o mal com a sua morte e ressurreição, não há duas alternativas, só uma e apenas uma, para quem desejar a salvação: Jesus Cristo, o Filho de Deus!

Adão e Eva não sabiam o que iria lhes acontecer, não tinham ainda uma referência. Nós temos: Jesus é alguém da Trindade que se fez homem, que se faz ouvir, que se deixa tocar, que senta conosco em uma mesa e faz uma refeição, coloca todas as cartas na mesa, abre o jogo, nada esconde como o tentador e enganador. Joga às claras, ele é a luz do mundo, o único caminho e a única verdade, Ele só não pode decidir por nós, por isso o seu reino e o seu projeto de vida nos são apresentados como uma proposta, cabendo a nós usarmos o livre arbítrio para aceitá-lo ou recusá-lo.

É esse Jesus Cristo Alfa e Ômega, princípio e fim, Senhor absoluto da História e Salvador do Homem, que nos congrega como Igreja, que nos lava de nossas culpas e nos redime dos nossos pecados, que faz de nossas comunidades um pedacinho do céu prometido, mais ainda, conhecendo nossas fraquezas e limites, sabendo que temos muitas dúvidas no coração, nos alimenta com a eucaristia, fala em sua santa palavra, abrindo a nossa inteligência com o seu espírito que vem do alto.

Embora não sejamos confiáveis para serem suas testemunhas, ele mesmo nos qualifica: nossas palavras nunca caem no vazio, pois é ele próprio que fala, e nós, tocados pela graça da eucaristia, conseguimos superar os limites na nossa relação com o próximo, e se quisermos, o nosso amor será sem limites como o de Jesus, basta aceitar e querer. Isso se chama santidade de vida, que permite o entrelaçamento em nós, do humano e divino, aquele que é santo, aceita participar da nossa vida, mesmo com os seus limites e fragilidades.

Uma vez encarnado em Maria de Nazaré, Jesus se encarna de novo em cada homem, e em cada mulher, que esteja disposto a acolhê-lo, para fazê-lo nascer nos corações de outros homens e mulheres, que ainda não o conhecem, é aí que acontece o testemunho, onde o amor é imprescindível!

“Nisso reconhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”. Qualquer outro testemunho ou revelação, que não trouxer a exigência do amor a Deus e ao próximo, é falso e não será digno sequer de atenção.

diácono José da Cruz

 
 

1 – Jesus caminha connosco. Segue-nos por onde vamos e para onde formos. Nem sempre O reconhecemos, por seguirmos distraídos ou ocupados com muitas coisas; porque o sofrimento não nos deixa abrir os olhos e muito menos o coração; porque estamos saciados de nós mesmos.

A Sua Palavra prepara-nos, ajuda-nos a lavar os olhos quando nos pesam pelo cansaço, pela fraqueza, pela desilusão; quando nos adormecem perante o mal que nos circunda e que julgamos invencível; quando se fecham ao sofrimento e às súplicas dos irmãos.

Ele caminha connosco! Hoje somos nós os discípulos de Emaús.

Os discípulos de Jesus nunca O conheceram bem. Pensavam que Ele Se tornaria um guerreiro, um Rei todo-poderoso. Mas foi morto! E com a Sua morte morreram as suas, as nossas esperanças! Mas afinal, Ele apanhou-nos no caminho, deixou-Se convidar por nós, entrou em nossa casa, sentou-Se à nossa mesa, partilhou o pão connosco. Oferecemos-Lhe o que nos deu, para Ele nos dar o que Lhe oferecemos, o pão de cada dia convertível no Seu Corpo todos os dias até ao fim dos tempos. Foi então que percebemos, foi então que os nossos olhos se abriram! Ele estaria presente no pão partilhado, estará presente no amor dado e na vida gasta a favor dos outros!

Ele não nos faltará, estará connosco até ao fim do mundo, na vastidão de Deus. Os discípulos de Emaús, com a noite a cair, deixam de recear pela vida e saem ao encontro dos outros discípulos, regressam à comunidade! A fração do pão gera comunidade e alarga-a. Não comemos o mesmo pão se não for para sermos o mesmo Corpo! A alegria na partilha do pão, a alegria no anúncio.

2 – Jesus descerra portas e janelas e vem colocar-Se no meio dos discípulos, no meio de nós. O medo, o preconceito e a desconfiança isolam-nos, afastam-nos dos outros, mesmo da família. Os discípulos estão fechados com medo dos judeus, sendo também eles judeus! O medo faz-nos voltar ao modo fetal, enrolados sobre nós mesmos, encolhidos, com o corpo a defender-se, com os braços e as pernas firmes a proteger as partes mais sensíveis e vulneráveis, a nossa frente! Jesus liberta-nos da ansiedade, oxigena a nossa mente, ilumina-nos com a Sua presença, devolve-nos a confiança, envia-nos aos irmãos, faz-nos sentir em casa, Ele está no meio de nós, podemos novamente sentar-nos à volta da mesa e comer do mesmo pão, podemos abrir as portas para que outros possam entrar, sentar-se à mesa, partilhar o pão e a vida, sentindo-se em casa, sentindo-se irmãos. Com as portas e janelas abertas, somos enviados a partir à procura de outros que andem perdidos ou distraídos. Sabemos agora que podemos voltar a casa e à mesa, sem o risco de encontrarmos as portas fechadas. O mundo já não é inóspito, os outros não são inimigos, são irmãos.

«A paz esteja convosco». O Ressuscitado traz-nos a paz. Não a minha ou a tua paz, não apenas a paz entre nós, mas a paz derradeira, definitiva, a paz de Jesus Cristo. A reação, contudo, continua a ser de espanto, de medo, de suspeição. Tinham acabado de ouvir os discípulos de Emaús, mas o encontro com Jesus ultrapassa qualquer realidade. Tal como no Evangelho de São João, que escutámos no domingo passado, também o de Lucas sublinha a presença inequívoca de Jesus através das marcas da Paixão: «Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo; tocai-Me e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que Eu tenho».

Apanhados "em falso" ficamos ainda renitentes. Jesus prossegue: «Tendes aí alguma coisa para comer?». Com efeito, a refeição aproxima-nos, faz-nos perder o medo, solidariza-nos, fortalece os laços que nos unem. Não nos sentamos à mesa com estranhos e se isso acontece, e nos nossos dias é frequente nos grandes centros comerciais, ou continuamos invisíveis uns aos outros, ou sorrimos e vamos trocando algumas palavras, se isso se proporciona, mais não seja para perguntarmos se aquele assento vazio está ocupado! Começando a comer, os discípulos compreendem que Jesus está com eles, continua no seu meio, continua a congregá-los como irmãos.

3 – «Vós sois testemunhas de todas estas coisas».

Jesus relembra o essencial do Seu mistério pascal, mostrando como n'Ele se cumprem as promessas feitas por Deus ao Seu povo. O sofrimento e a morte fazem parte da Sua vida, da Sua entrega a favor da humanidade. Mas não é tudo, como lhes tinha dito, também a ressurreição, que chegará ao terceiro dia, e o consequente anúncio, em Seu Nome, do Evangelho do arrependimento e do perdão dos pecados, a chegar a todos os povos.

Os discípulos presenciaram o viver, o agir de Jesus ao longo de aproximadamente três anos, in loco, acompanhando-O por aldeias, campos e cidades, junto das multidões, mas diante de pessoas concretas, com nome e família. As últimas horas foram as mais penosas. Jesus previra-o e prevenira-os. Ainda assim são surpreendidos pelos acontecimentos. Ninguém está preparado para uma fatalidade! Quantas vezes fomos engolidos pelos acontecimentos apesar de estarmos de sobreaviso?!

O encontro com Jesus Ressuscitado restabelece os laços de amizade que pareciam perdidos com a Sua morte violenta. Agora Ele vive, está no meio, congregando a Igreja, o Seu Corpo, o grupo que antes O seguira, constituído de pessoas perfeitamente "banais", diferentes entre elas, com fraquezas mas abertas aos desafios de Jesus. A debandada foi grande, traição, negação, fuga, dispersão. Mas é com eles que Jesus conta. Eles foram testemunhas de todas aquelas coisas, estão em condições de serem enviados, testemunhando-O em toda a parte.

4 – Os Atos dos Apóstolos narram os primeiros tempos da Igreja, a forma como os Apóstolos encontraram Jesus e perceberam que Ele permaneceria no meio deles.

As portas e janelas foram descerradas, há que deitar mãos às obras e prosseguir com o mandato de Jesus e anunciar a Boa Nova a todos, aos de perto e aos de longe.

As palavras de Jesus são decalcadas por Pedro: «O Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob, o Deus de nossos pais, glorificou o seu Servo Jesus, que vós entregastes... pedistes a libertação dum assassino; matastes o autor da vida, mas Deus ressuscitou-O dos mortos, e nós somos testemunhas disso. Agora, irmãos, eu sei que agistes por ignorância, como também os vossos chefes. Foi assim que Deus cumpriu o que de antemão tinha anunciado pela boca de todos os Profetas: que o seu Messias havia de padecer. Portanto, arrependei-vos e convertei-vos, para que os vossos pecados sejam perdoados».

O intempestivo Pedro anuncia resolutamente a Boa Nova, assume-se, com os outros apóstolos como testemunha de tudo quanto sucedeu a Jesus, glorificado pela morte cruenta, como oferenda, e pela ressurreição, na certeza que o Caminho por Ele iniciado e percorrido nos conduz ao Pai.

Também o Apóstolo São João aviva o mistério da nossa salvação em Jesus Cristo: «Meus filhos, se alguém pecar, nós temos Jesus Cristo, o Justo, como advogado junto do Pai. Ele é a vítima de propiciação pelos nossos pecados, e não só pelos nossos, mas também pelos do mundo inteiro. E nós sabemos que O conhecemos, se guardamos os seus mandamentos». Ele salva-nos com a Sua vida e com a Sua morte, com a Sua ressurreição e ascensão aos Céus. A nós cabe-nos (re)conhecê-l'O e amá-l'O, guardando os Seus mandamentos.

5 – Como podemos tornar-nos Suas testemunhas? Não estivemos lá com eles, não O acompanhámos, não O vimos a ser arrastado para a morte, não O encontrámos no regresso a casa e à mesa?! Não partilhámos os momentos de festa e de luto, de arrebatamento e de desencanto, de intimidade com Ele ou entre as multidões!

Mas Jesus também morreu por nós! Por mim e por ti! Também voltou à vida por nossa causa! Quer que também nós regressemos a casa, nos sentemos à mesa, no banquete da vida, e saiamos a testemunhá-l'O ao mundo inteiro. Ele faz-nos testemunhas destas coisas, pois Ele faz-Se presente, coloca-Se no nosso meio. Recuemos um pouco, na Última Ceia Jesus instituiu o memorial da Sua morte e da Sua presença. Dá-nos a Sua vida por inteiro, antecipando a Sua presença futura. Encarnou, assumindo a nossa carne humana; deixa-nos os Sacramentos, especialmente o da Eucaristia, dá-nos o Espírito Santo que no-l'O dá transformando o pão e o vinho em Seu Corpo e Sangue. Ele está, Ele permanece, Ele vem para o meio de nós, faz-Se "comestível", comungável, sempre que fizermos o que Ele faz, na celebração e no serviço.

Paulo é um dos santos de Deus que não contactou fisicamente com Jesus, mas, no entanto, deixou-Se encontrar por Ele, deixou-se assimilar pela Sua vida nova, tornando-se o Apóstolo por excelência, indo por todo o lado, vivendo e anunciando Jesus em toda a parte, em todas as ocasiões. E assim multidões de homens e mulheres que, ao longo da história da Igreja, reconheceram Jesus nas suas vidas, na comunidade, deixaram-se assimilar por Ele e tornaram-se testemunhas do Seu amor.

Agora é a nossa vez! Cabe-nos a nós, a mim e a ti, ir por todo o mundo e mostrar como Ele nos ama, como continua no meio de nós, a partilhar a Sua vida connosco, sentado à nossa mesa, a fazer com que nos sintamos em casa!

 

 

1 – "Vós sois as testemunhas de todas estas coisas". Vimos e não podemos calar a nossa alegria por encontrarmos Cristo Jesus no meio de nós, vivo, ressuscitado. Ele que dera a Sua vida até ao derramamento de sangue, até à morte cruenta numa cruz, por amor – podia "livrar-se" dos sofrimentos e prosseguir a sua vida comodamente; escolheu amar, em todas as circunstâncias –, está de volta ao mundo dos vivos.

Amar exige muitas vezes sofrer, gastar as energias a favor de quem se ama, dar-se por inteiro, feliz por premiar o destinatário do amor. Amar pode levar à morte, para da morte livrar o(a) amado(a). Exemplo paradigmático, o da mãe pelo filho, que sofreria e morreria em vez dele, não por querer sofrer ou morrer, mas para salvar o seu amor maior!

No caminho de Emaús, dois discípulos são surpreendidos por um estranho, que não é assim não estranho. Jesus vai conosco, percorre os nossos caminhos, envolve-Se nos nossos sonhos e projetos, mas nem sempre O reconhecemos. Há momentos, porém, que é impossível não O ver. Os discípulos reconhecem-n'O ao partir do pão. Vão rapidamente comunicar o sucedido ao grupo dos Apóstolos.

Ainda tentavam conter o entusiasmo e já Jesus Se apresenta no meio deles e lhes diz: «A paz esteja convosco». A surpresa é evidente. Jesus questiona: «Porque estais perturbados e porque se levantam esses pensamentos nos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo; tocai-Me e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que Eu tenho». De novo a dúvida, a hesitação. Será que estamos acordados, não será um sonho, uma ilusão?

Para que não haja dúvidas, Jesus come também uma posta de peixe assado – não é um fantasma –, e explica com a Sagrada Escritura: “Está escrito que o Messias havia de sofrer e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia, e que havia de ser pregado em seu nome o arrependimento e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém".

2 – "Nós somos testemunhas disso".

A ressurreição e os encontros com o Ressuscitado alteram por completo a vida dos Seus seguidores. Antes, na vida pública de Jesus, na pregação, no anúncio do Evangelho, na passagem de uma a outra povoação, eles são discípulos, freqüentam a escola, acompanham-n'O, vão ver onde mora e como mora, aprendem a Sua postura. Com a Sua morte, dá-se um grande vazio e uma enorme incerteza. Mas, três dias depois, eis que Jesus Lhes aparece. E então tudo muda. E, embora não deixem de ser discípulos, agora são Apóstolos, enviados, anunciadores do Evangelho. Então, eles, e agora nós. Ele está vivo e somos nós hoje o Seu olhar, a Sua voz, as Suas mãos, a Sua vida. Somos discípulos e apóstolos, aprendizes e testemunhas.

O temoroso e hesitante Pedro aparece fortalecido com o Espírito do Ressuscitado, dirigindo-se resolutamente ao povo: «O Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob, o Deus de nossos pais, glorificou o seu Servo Jesus, que vós entregastes e negastes… matastes o autor da vida, mas Deus ressuscitou-O dos mortos, e nós somos testemunhas disso. Agora, irmãos… arrependei-vos e convertei-vos, para que os vossos pecados sejam perdoados».

A vida não vai parar. É tempo de arrepiar caminho, deixando no passado o que é passado, convertendo-se de todo o coração, para que os pecados sejam perdoados, e se inicie a vida nova de ressuscitados pela água e pelo Espírito Santo, em que fomos enxertados em Cristo Jesus e no Seu Corpo que é a Igreja, no dia do nosso batismo.

3 – "Vós sois as testemunhas de todas estas coisas".

Viveram com Jesus durante três anos, aprendendo os Seus gestos, a Sua postura, a Sua forma de estar e de Se relacionar com Deus e com as pessoas, tornaram-se Seus amigos. Passaram bons e maus momentos juntos. Partilharam dificuldades e dissabores, saborearam momentos de grande envolvência. Viram o Seu Mestre aclamado, como Rei. Mas para a morte ninguém está preparado. Também eles não estavam preparados para acompanhar o caminho "descendente" d'Aquele que havia de trazer a glória e o sucesso. Jesus vai ao fundo, morre!

Mas não será o fim. Levanta-Se do túmulo, cheio de luz, de amor, de VIDA nova. Nem a pesada pedra trava tamanha força, tamanha revolução. Está de novo no meio deles, no meio de nós. E conSigo introduz-nos numa vida nova, dá-nos o Espírito Santo, envia-nos para o mundo, para toda a parte. Hoje somos nós as testemunhas de todas estas coisas, do Seu projeto de amor e salvação, e também nós beneficiários da Sua entrega.

E agora que nos tornamos filhos e herdeiros em Cristo, é bom que Lhe permaneçamos fiéis para podermos desfrutar da alegria, da graça e do bem que d'Ele recebemos.

São incisivas as palavras de são João: "Meus filhos, escrevo-vos isto, para que não pequeis. Mas se alguém pecar, nós temos Jesus Cristo, o Justo, como advogado junto do Pai... Se alguém guardar a sua palavra, nesse o amor de Deus é perfeito". Guardar os mandamentos do Senhor, permanecer na Sua presença, para que em nós transpareça o Seu rosto, para sermos testemunhas credíveis para os nossos coetâneos.

padre Manuel Gonçalves

 
 

Vós sereis testemunhas de tudo isto

1ª leitura: At. 3,13-19

Anunciar que o Crucificado está vivo. Sem medo!

1. A primeira leitura de hoje é o segundo discurso de Pedro, tirado dos Atos dos Apóstolos, e o segundo discurso kerygmático, depois do Pentecostes, porque "proclama" com clareza a força da mensagem pascal: a morte e Ressurreição de Jesus. A ocasião é a cura extraordinária de um coxo, alguém que está impedido de andar, como se o evangelista Lucas, que tanto interesse pôs no caminho, na sequência dos fatos, nos quisesse dizer que a Ressurreição de Jesus torna possível que todas as impossibilidades (físicas, psíquicas e morais) não sejam impedimento algum para seguir o caminho novo que é estreado especialmente a quando da Ressurreição de Jesus.

2. Pedro, pois, o primeiro dos apóstolos, está encarregado deste tipo de discursos oficiais em Jerusalém para ir espalhando a constância necessária, porque agora não terão medo de seguir Jesus, o crucificado, nem perante as autoridades judaicas, nem romanas. Pelo contrário, devem anunciá-l'O perante o povo, para mostrar que estão com este Crucificado que é capaz de dar um sentido novo à sua existência. É um discurso no qual salienta que o Deus dos "pais", o Deus da Aliança, o Deus de Israel é Ele que faz isso e não outro deus qualquer. Que se quisessem ser fiéis às promessas de Deus, o único caminho seria o de Jesus morto e ressuscitado.

2ª leitura: 1 João 2,1-5

A morte redentora face ao mundo

1. A segunda leitura, tal como no domingo passado, insiste nos mandamentos de Jesus para vencer o pecado. A comunidade joanina enfrenta o "pecado do mundo", sente-se constrangida, e o autor coloca perante os seus olhos a morte redentora de Jesus como possibilidade excepcional da vitória sobre o "pecado do mundo".

2. É verdade que não devemos entender a expiação de Jesus num sentido jurídico, como uma necessidade metafísica para que Deus se sinta satisfeito, uma vez que Deus não precisa da morte do seu Filho. Mas a sua morte é um sacrifício por nós, porque nela está a força que vence o mundo e o pecado do mundo, o pecado no qual se estrutura a história da humanidade e que os cristãos devem vencer com a força da morte redentora de Jesus.

Evangelho: Lucas 24,35-48

Uma nova experiência com o Ressuscitado

1. A leitura do texto lucano quer ligar, à sua maneira, à do domingo passado (o Evangelho de Tomé), uma vez que todo o capítulo de Lucas é uma pedagogia das experiências decisivas da presença do Vivente, Jesus Crucificado, na comunidade. Ele que é mencionado na cena do reconhecimento que os discípulos de Emaús fizeram ao partir o pão, transforma-se numa sugestiva introdução para dar a entender que o Ressuscitado se "apresenta" em determinados momentos entre os seus com uma força irresistível. O relato de hoje é difícil, porque nele se trabalha com elementos dialéticos: Jesus não é um fantasma, mostra as suas feridas, come com eles…, mas não pode deixar-Se tocar como uma imagem; passa através das portas fechadas. Há uma apologética da Ressurreição de Jesus: o Ressuscitado é a mesma pessoa, mas não tem a mesma "corporeidade". A Ressurreição não é uma "idéia" ou uma invenção dos seus discípulos.

2. Esta forma semiótica, simbólica, de apresentar as coisas pretende afirmar uma realidade profunda: o Senhor está vivo; as experiências que tem com os discípulos (embora exageradas pela polêmica apologética de que os cristãos tinham inventado tudo isto) fascina-os, não para as conceberem em termos de fantasia sobre a Ressurreição, mas para os convencer de que agora a eles cabe prosseguir a sua causa, anunciar a salvação e o perdão dos pecados. Acreditar na Ressurreição de Jesus sem estas consequências seria como crer em coisas de espíritos. Não se trata disso, porém, mas de acreditar na realidade profunda de que o Crucificado está vivo, e agora os envia a todos os homens.

3. Não podemos esquecer que as aparições pertencem ao mundo do divino, e não ao das realidades terrestres. Pela mesma razão, a apresentação de um relato tão "empirista" como este de Lucas requer uma verdadeira interpretação. O divino, é verdade, pode acomodar-se às exigências da corporeidade histórica - e assim, o experimentam os discípulos. Mas tal não significa que o Ressuscitado dê, de novo, um salto a esta vida ou a esta história. Se fosse assim não podíamos estar a falar de "ressurreição", porque isso seria como ultrapassar os limites da "carne e do sangue" que não podem herdar o reino de Deus (Cf.1Cor. 15,50). Nós, homens, podemos aplicar ao divino as nossas pré-concepções antropológicas. É claro que houve experiências reais, mas o Ressuscitado não regressou à corporeidade desta vida para ser visto pelos seus. O texto é muito cauteloso ao dizer que Jesus é o mesmo, mas a sua vida tem outra corporeidade; não a de um fantasma, antes a de quem está acima da "carne e do sangue".

4. Atualmente, estão explicados no Evangelho a realidade e o sentido das aparições do Ressuscitado e devemos ter a coragem para "pregar e proclamar" que as aparições de Jesus aos seus não podem ser entendidas como um regresso a esta vida para que os seus discípulos O reconheçam. Tornou-Se presente de outra maneira e eles tiveram a experiência tal como eram e sentiam. É isto que se passa nestas experiências extraordinárias em que Deus intervém. Jesus não podia comer, porque um ressuscitado, se pudesse comer, não teria ressuscitado verdadeiramente. Os alimentos falados no nosso texto fazem referência ao alimento eucarístico, recordando o que Jesus tinha feito com eles, agora notam a sua presença nova. Em definitivo, a "corporeidade" das aparições de Jesus aos seus discípulos não é material ou física, antes reclama de uma realidade nova como expressão da pessoa que tem uma vida nova e que se relaciona também com os seus e estes com o Ressuscitado - que é o que vale a pena acima de qualquer outra coisa.

fray Miguel de Burgos Núñez

tradução de Maria Madalena Carneiro

 
 

Na dúvida

Quando Jesus aparecia diante dos discípulos, conseguia convencê-los menos mostrando-lhes o seu corpo do que insuflando o dom que lhes oferecia.

Como sabemos, quando veio vê-los, portas fechadas, ficou de pé diante deles; ficaram perturbados e amedrontados, julgando estarem a ver um espírito. (Jo. 20,26; Lc. 24, 36-37); mas Ele soprou sobre eles e disse: Recebei o Espírito Santo (Jo. 20,22). Depois enviou-lhes do céu o mesmo Espírito, mas para efeito de um outro dom. Estes dons foram para eles os testemunhos e as provas indubitáveis da sua Ressurreição e do seu regresso à vida.

Com efeito, é o Espírito que testemunha, primeiro no coração dos santos, depois na sua boca, que Cristo é a Verdade (Jo. 5,6), a verdadeira ressurreição e a vida. É por isso que os Apóstolos que primeiro estavam na dúvida mesmo depois de terem visto o seu corpo vivo, deram com grande coragem, testemunho da sua Ressurreição (Act. 4,33) quando tiveram a experiência do Espírito vivificante.

É, pois, muito mais vantajoso conceber Jesus no nosso coração que vê-lO com os próprios olhos ou ouvi-lo falar.

beato Guerric d'Igny

 
 

O Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia

Dois dos discípulos de Jesus tiveram um encontro com o Senhor logo após Sua Ressurreição, no caminho para Emaús (Lc. 24,13-34). Durante essa viagem, os discípulos sentiram seus corações arderem enquanto Jesus Cristo lhes ensinava as Escrituras. Chegando em  Emaús  Jesus entrou na casa e tomou a Ceia com eles.

Já o Evangelho desse domingo narra os dois discípulos de Emaús voltando para Jerusalém, apressadamente, indo ao local onde estavam os demais discípulos para contar sobre o encontro que tiveram com Cristo ressuscitado. O evangelista narra que ”enquanto ainda falavam dessas coisas, Jesus apresentou-se no meio deles e disse-lhes: A paz esteja convosco! “ (v. 36)

O papa Bento  XVI explica:  “O Evangelho refere também que os dois discípulos, depois de terem reconhecido Jesus no partir do pão, “imediatamente voltaram para Jerusalém” (Lc. 24,33). Eles sentem a necessidade de regressar a Jerusalém e contar a extraordinária experiência que viveram: o encontro com o Senhor ressuscitado”.

 

Versículo 35 - “Naquele tempo, os dois discípulos contaram o que lhes havia acontecido no caminho e como o tinham reconhecido ao partir o pão.”

Os discípulos de Emaús foram rapidamente comunicar aos outros discípulos o encontro que tiveram com Jesus e que mudou as suas vidas para sempre: “Exprime com eficácia a determinação dos dois, provocada pela palavra e pela pessoa de Jesus, pelo encontro com ele, e corajosamente colocada em prática numa escolha que significa ruptura com aquilo que eram ou faziam antes, e indica novidade de vida”. (Vaticano)

Do acontecimento de Emaús podemos identificar os fundamentos da Celebração Eucarística: o ensinamento das Escrituras e a Eucaristia: “O que vemos no episódio de Emaús é que uma vez que os discípulos de Emaús tinham acolhido a Palavra de Deus e recebido a Eucaristia em suas vidas, eles podiam então assumir a vida Pascal, que Jesus Cristo deu a eles, para tornarem-se a Sua presença no mundo: “Para mim, de fato, o viver é Cristo” (Fl. 1,21). Eles foram transformados em Cristo. Agora ele continua a viver, por assim dizer, neles e entre eles”. (Vaticano)

Agora somos  nós os continuadores da jornada de Cristo ao longo dos caminhos do mundo. Santa Teresa D’avila, a partir do seu próprio exemplo,  ensinou assim: “Cristo não tem mais corpo além do seu, ele não tem mais mãos, além das suas, nem os pés, além dos teus. Os seus olhos serão os olhos através dos quais a compaixão de Cristo deve olhar para o mundo. Os seus pés serão os pés com os quais Ele caminhará fazendo o bem. Suas serão as mãos com as quais Ele é nos abençoará agora”.

 

Versículos 36-38 - “Enquanto ainda falavam dessas coisas, Jesus apresentou-se no meio deles e disse-lhes: A paz esteja convosco!” Perturbados e espantados, pensaram estar vendo um espírito.  Mas ele lhes disse: Por que estais perturbados, e por que essas dúvidas nos vossos corações”?

A princípio, os discípulos ficaram “perturbados e espantados, pensaram estar vendo um espírito” quando Jesus se apresentou no meio deles, mas a paz, que o Senhor veio lhes trazer com Sua presença, supera tudo. “A paz esteja convosco!” O papa Bento XVI disse assim: “Esta saudação faz os discípulos superarem qualquer temor: a paz, dom da salvação, torna-se para a comunidade fonte de alegria e certeza de vitória. Esta paz, adquirida por Cristo com o seu sangue, deve ser levada pelos os discípulos ao mundo inteiro”.

O Catecismo (2305) ensina:  “A paz terrestre é imagem e fruto da paz de Cristo, o Príncipe da paz” messiânica (Is. 9,5). Pelo sangue de sua cruz, Ele “matou a inimizade na própria carne”, reconciliou os homens com Deus e fez de sua Igreja o sacramento da unidade do gênero humano de sua união com Deus. “Ele é a nossa paz” (Ef. 2,14).

O papa Bento XVI disse também: “A saudação tradicional, com a qual nos deseja o Shalom, a paz, se torna ali algo novo: se torna o dom daquela paz que somente Jesus pode dar, porque é fruto da sua vitória radical sobre o mal. A ‘paz’ que Jesus oferece aos seus amigos é o fruto do amor de Deus que o levou a morrer na cruz, a derramar todo o seu sangue, como Cordeiro manso e humilde, “cheio de graça e verdade” (Jo 1,14)

Do mesmo modo que Jesus ressuscitado fez-se presente na vida dos discípulos de Emaús e dos demais discípulos, também em nossas vidas o Senhor caminha conosco; entra em nossa casa; ceia conosco e liberta-nos do medo, da angústia e dá-nos a paz.

 

Versículos 39-40 - “Vede minhas mãos e meus pés, sou eu mesmo; apalpai e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que tenho. E, dizendo isso, mostrou-lhes as mãos e os pés”.

O Catecismo (645) explica-nos sobre Jesus Ressuscitado se apresentar diante dos discípulos em Seu Corpo glorioso: “Jesus Ressuscitado estabeleceu com os seus discípulos relações diretas, através do contato físico e da participação na refeição. Desse modo, convida-os a reconhecer que não é um espírito, e sobretudo a verificar que o corpo ressuscitado, com o qual se lhes apresenta, é o mesmo que foi torturado e crucificado, pois traz ainda os vestígios da paixão”.

Os discípulos viram o Corpo de Jesus ressuscitado com as marcas das chagas de Sua Paixão e Morte. São Paulo disse assim sobre nossos sofrimentos aqui na terra:  “Trazemos sempre em nosso corpo os traços da morte de Jesus para que também a vida de Jesus se manifeste em nosso corpo.  Estando embora vivos, somos a toda hora entregues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus apareça em nossa carne mortal” (2Cor. 4,10-11)

Versículos 41-43 - “Mas, vacilando eles ainda e estando transportados de alegria, perguntou: Tendes aqui alguma coisa para comer? Então ofereceram-lhe um pedaço de peixe assado. Ele tomou e comeu à vista deles.”

O documento do Vaticano fala assim desse momento de Cristo ressuscitado comendo com  seus discípulos: “Como, sob o efeito da alegria, eles permaneceram ainda incrédulos e como ficassem surpresos, ele lhes disse: Tendes aqui algo de comer?  Eles lhe ofereceram um pedaço de peixe grelhado; ele o tomou e comeu à vista deles”.

Após a ressurreição, Jesus Cristo ceou com seus discípulos em diversos momentos.  A Ceia Eucarística é o Mistério Pascal de Cristo. O Papa Bento XVI disse: “É preciso sentar-se à mesa com o Senhor, tornar-se seus comensais, para que a sua presença humilde no Sacramento do seu Corpo e do seu Sangue nos restitua o olhar da fé, para vermos tudo e todos com os olhos de Deus, na luz do seu amor”.

Como aconteceu com os discípulos, o encontro com Cristo ressuscitado muda a nossa vida terrena e nos prepara para a vida na eternidade. O Catecismo (995) ensina: “A esperança cristã na ressurreição é toda marcada pelos encontros com Cristo ressuscitado. Nós ressuscitaremos como Ele, com Ele e por Ele.”

 

Versículos 44–45 - “Depois lhes disse: Isto é o que vos dizia quando ainda estava convosco: era necessário que se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos profetas e nos salmos. Abriu-lhes então o espírito, para que compreendessem as Escrituras, dizendo”: o próprio Jesus Cristo preparou anteriormente seus discípulos para os acontecimentos de sua paixão, morte e Ressurreição.

O beato João Paulo II disse:  “Para tal exegese da morte e da ressurreição os seus discípulos tinham sido preparados por Cristo mesmo. Temos prova disso no encontro descrito pelo Evangelho de hoje” (Lc.  24,44).

E esses acontecimentos foram também profetizados no Antigo Testamento. Pedro no decorrer de sua pregação, narrada no Livro dos Atos dos Apóstolos, disse assim: “Dessa forma, Deus cumpriu o que antecipadamente anunciara pela boca de todos os profetas: Que o Seu Messias havia de padecer. Arrependei-vos, portanto, e convertei-vos para que os vossos pecados sejam apagados… (At. 3,18-20)”.

Jesus Cristo ensina aos seus discípulos o verdadeiro significado das palavras que foram ditas no Antigo Testamento, sobre Si mesmo. O Beato João Paulo II disse assim: “Jesus introduz os discípulos no sentido misterioso do Antigo Testamento. A nova palavra definitiva de Jesus faz com que resplandeçam as antigas palavras no seu verdadeiro significado profético, todo ele orientado para a vinda e figura do Messias; tudo isso preparado, não por vagas expectativas humanas, mas pela fidelidade generosa de Deus”.

As Sagradas Escrituras

 É preciso abrir o nosso coração e deixa-lo “arder” toda a vez que o Senhor fala conosco. O papa Bento XVI ensinou:  “É então necessário, para cada um de nós, como aconteceu com os dois discípulos de Emaús, deixar-se instruir por Jesus: antes de tudo, ouvindo-o e amando a Palavra de Deus, lida à luz do Mistério Pascal, para que aqueça o nosso coração e ilumine a nossa mente, e nos ajude a interpretar os acontecimentos da vida e dar-lhes um sentido”.

O Catecismo (572) orienta:  “A Igreja permanece fiel à «interpretação de todas as Escrituras» dada pelo próprio Jesus, tanto antes como depois da sua Páscoa «Não tinha o Messias de sofrer tudo isto, para entrar na sua glória?» (Lc. 24, 26).

 

Versículos 46-48 - “Assim é que está escrito, e assim era necessário que Cristo padecesse, mas que ressurgisse dos mortos ao terceiro dia. E que em seu nome se pregasse a penitência e a remissão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas de tudo isso”.

O Papa Bento XVI disse:  “Os discípulos de Emaús, depois de terem reconhecido o Senhor ressuscitado, voltam para Jerusalém e encontram os Onze reunidos juntamente com os outros. Cristo ressuscitado aparece-lhes, conforta-os, vence o seu temor, e as suas dúvidas, senta-se com eles à mesa e abre o seu coração à inteligência das Escrituras, recordando quanto devia acontecer e que constituirá o núcleo central do anúncio cristão”.

O Catecismo (652) ensina:  “A ressurreição de Cristo é o cumprimento das promessas do Antigo Testamento e do próprio Jesus, durante a sua vida terrena . A expressão «segundo as Escrituras» indica que a ressurreição de Cristo cumpriu essas predições”.

“Vós sois as testemunhas de tudo isso” (V. 48) - O papa Bento XVI disse assim das primeiras testemunhas da Ressurreição, os seus discípulos: “Cumprindo o mandato recebido do próprio Cristo, partiram testemunhando a maior história de todos os tempos: que Deus Se fez um de nós, que o divino entrou na história humana para poder transformá-la e que somos chamados a mergulhar no amor salvífico de Cristo que triunfa do mal e da morte”.

Concluímos com as palavras do papa Bento XVI: “A ressurreição de Cristo é o acontecimento central do cristianismo. Essa é  a verdade fundamental que se deve reafirmar com vigor em todos os tempos, porque negá-la como se tentou fazer de várias formas, e ainda se continua a fazer, ou transformá-la num acontecimento meramente espiritual, significa vanificar a nossa própria fé”.

Os ensinamentos do Catecismo da Igreja Católica (571):  “O mistério pascal da cruz e ressurreição de Cristo está no centro da Boa Nova que os Apóstolos, e depois deles a Igreja, devem anunciar ao mundo. O desígnio salvífico de Deus cumpriu-se de «una vez por todas» (Hb. 9, 26) pela morte redentora do seu Filho Jesus Cristo”.

Jane Amábile

 
 

A categoria de caminho ilumina bem em Lucas o itinerário teológico daquele caminho de graça que intervém nos acontecimentos humanos. João prepara o caminho ao Senhor que vem (Lc. 1,76) e convida a aplanar os seus caminhos (Lc. 3, 4); Maria põe-se a caminho e vai apressadamente para a montanha (Lc. 1,39); Jesus, caminho de Deus (Lc. 20,21), caminha com os homens e assinala o caminho da paz (Lc. 1,79) e da vida (At. 2,28), percorrendo-o na sua pessoa com a sua existência. Depois da ressurreição continua o caminho com os seus discípulos (Lc. 24,32) e torna-se o protagonista do caminho da Igreja que se identifica com o seu (At. 18,25). Ela é chamada a vivê-lo e a indicá-lo a todos para que cada um, abandonando o próprio caminho (At. 14,16) se oriente para o Senhor que caminha com os seus.

v. 35 - Os discípulos de Emaús contaram o que lhes tinha acontecido pelo caminho e como Jesus se lhes dera a conhecer, ao partir do pão. A experiência do encontro com a Vida permite voltar sobre os seus próprios passos. Não é o regresso do remorso, nem o retorno do lamento. É o regresso de quem relê a própria história e sabe encontrar, através do caminho percorrido, o lugar do memorial. Deus encontra-se no que acontece. É Ele que vem ao nosso encontro e pára no caminho árido e despido do inacabado. Faz-se reconhecer através dos gestos familiares de uma longa experiência saboreada desde há muito tempo. São os sulcos do já consumado que acolhem a novidade de um hoje sem ocaso. O homem é chamado a tomar a nova presença de Deus sobre o seu caminho naquele viajante que se faz reconhecer através dos sinais fundamentais para a vida da comunidade cristã: as Escrituras, lidas em chave cristológica, e a fração do pão (Lc. 24,1-33). A história humana, espaço privilegiado da ação de Deus, é história de salvação que atravessa todas as situações humanas e o decorrer dos séculos é uma forma de êxodo permanente, carregado da novidade do anúncio.

v. 36 - Enquanto isto diziam, Jesus apresentou-se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco!». Lucas liga sabiamente os acontecimentos para dar fundamento e continuidade à história da salvação. Os gérmenes anunciados florescem e a atmosfera da novidade que sopra suavemente nas páginas destes acontecimentos fazem de pano de fundo ao desenvolverem-se numa memória Dei que surge de novo de tempos em tempos. Jesus volta aos seus. Está no meio deles como pessoa, todo inteiro, também como antes, ainda que numa condição diferente e definitiva. Manifesta-se na sua corporeidade glorificada para demonstrar que a ressurreição é um fato que aconteceu realmente.

v. 37 - Dominados pelo espanto e cheios de temor, julgavam ver um espírito. A reação dos discípulos parece não concordar bem com a narração precedente desde o momento que se acreditava já na ressurreição de Jesus pela palavra de Pedro (v. 34). De qualquer das formas a sua perplexidade não se refere à convicção de que Jesus ressuscitou, mas à natureza corpórea de Jesus ressuscitado. Em tal sentido não há contradição na narração. Era necessário para os discípulos fazer uma experiência intensa da realidade corpórea de Jesus para realizar de um modo adequado a futura missão de testemunhas da boa nova e aclarar as idéias acerca do Ressuscitado; não acreditavam que fosse Jesus em pessoa mas pensavam que o viam só em espírito.

vv. 38-40 - Disse-lhes então: «Porque estais perturbados e porque surgem tais dúvidas nos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo. Tocai-me e olhai que um espírito não tem carne nem ossos, como verificais que Eu tenho». Dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. O Jesus do evangelho de Lucas é quase um herói que enfrenta a sua sorte com segurança e as poucas sombras que permanecem servem simplesmente para compreender e salientar a sua plena realidade. Lucas tinha recordado as origens humildes e a genealogia, completamente comum e despojada de figuras de prestígio, uma multidão de indivíduos desconhecidos dos quais surgia a figura de Cristo. Na perturbação e na dúvida dos discípulos depois da ressurreição aparece evidente que Jesus não é o Salvador dos poderosos, mas de todos os homens, por sobressaltados ou assustados que estejam. Ele, protagonista do caminho da Igreja, percorre os caminhos humanos da incredulidade para os curar com a fé e continua a caminhar no tempo, mostrando as mãos e os pés na carne e nos ossos do crente.

vv. 41-43 - E como na sua alegria, não queriam acreditar de assombrados que estavam, Ele perguntou-lhes: «Tendes aí alguma coisa que se coma?». Deram-lhe um bocado de peixe assado; e, tomando-o, comeu diante deles. Cada convite para comer esconde o desejo de intimidade, é um permanecer, um compartilhar. A ressurreição não tira a Jesus a possibilidade de apresentar-se como o lugar da partilha. Aquele peixe assado, comido durante anos junto dos seus, continua a ser veículo de comunhão. Um peixe cozinhado no amor um pelo outro: um alimento que não cessa de assegurar a fome escondida do homem, um alimento capaz de desbaratar a ilusão de algo que termina entre as ruínas do passado.

v. 44 - Depois, disse-lhes: «Estas foram as palavras que vos disse, enquanto ainda estava convosco: que era necessário que se cumprisse tudo quanto a meu respeito está escrito em Moisés, nos Profetas e nos Salmos». Os momentos de ânsia, de comoção, de pranto pela própria nação (Lc. 9, 41), a fadiga subindo a Jerusalém, as tentações haviam definido a fronteira perenemente presente entre a humilhação-escondimento e a afirmação-glória focalizado nas várias fases da vida humana de Jesus através da luz do querer do Pai. Amargura, obscuridade, dor, alimentaram o coração do Salvador: “Tenho que receber um batismo e como estou angustiado até que se cumpra!” (Lc. 12, 50). Agora é plenamente visível, positiva a obra da graça, porque a obra do Espírito, o eschaton, já atuante em Cristo e no crente, cria uma atmosfera de louvor, um clima de gozo, de paz profunda, próprias das coisas realizadas. A parusia assinalará o final do caminho salvífico, tempo de consolação e de restauração de todas as coisas (At. 3,21).

v. 45 - Abriu-lhes então o entendimento para compreenderem as Escrituras. A fé apostólica na ressurreição de Jesus constitui a chave hermenêutica para a interpretação das Escrituras e o fundamento do anúncio pascal. A Bíblia cumpre-se em Cristo, n'Ele unifica-se no seu valor profético e adquire o seu pleno significado. O homem não pode por si só entender a Palavra de Deus. A presença do ressuscitado abre a mente à compreensão plena daquele Mistério escondido nas palavras sagradas da existência humana.

vv. 46-47 - E disse-lhes: «Assim está escrito que o Messias devia de sofrer e ressuscitar dentre os mortos, ao terceiro dia; que havia de ser anunciada, em seu nome, a conversão para o perdão dos pecados a todos os povos, começando por Jerusalém. Em Lucas a salvação toca todas as dimensões humanas através da obra de Cristo que salva do mal, que liberta das trevas (At. 26,18) e do pecado (Lc. 5,20-26; At. 2,38), da enfermidade e do sofrimento, da morte, da incredulidade, dos ídolos; que realiza a vida humana no ser comunidade de Deus, fraternidade alegre no amor; que não deixa órfãos, mas que se torna presente incessantemente com o seu Espírito do alto (At. 2,2). A salvação radical do homem está em libertar-se do seu coração de pedra e em receber um coração novo que comporta um dinamismo que liberta de toda a forma de escravidão (Lc. 4,16-22). Deus orienta a história: é Ele que opera a evangelização e guia o caminho dos seus. O evangelista dos grandes horizontes – desde Adão ao Reino, de Jerusalém até aos confins da terra – e também o evangelista da quotidianinade. Está em acção o processo histórico-escatológico pelo qual toda a história se realiza transcendendo a história humana e Jesus continua a oferecer a salvação mediante o Espírito que cria testemunhas capazes de profecia que difundem a salvação até que na vinda de Cristo (Lc. 21,28) se torne manifesto a plena libertação do homem. Em Atos 2,37 encontra-se resumido todo o iter salutis que aqui se apontou: acolher a palavra, converter-se, acreditar, fazer-se batizar, obter o perdão dos pecados e o dom do Espírito. A palavra de salvação, palavra de graça, mostra a sua força no coração que escuta (Lc. 8,4-15) e a invocação do Nome do Salvador sela a salvação naquele que se converte à fé. Há complementaridade entre a ação de Jesus por meio do Espírito, atuada sem a mediação da Igreja (At. 9,3-5) e a realizada mediante a Igreja para a qual ele mesmo envia como no caso do chamamento de Paulo (At. 9,6-19).

v. 48 - Vós sois as testemunhas destas coisas. Chamada a traçar na história humana o caminho do testemunho, a comunidade cristã proclama com palavras e obras o cumprimento do Reino de Deus entre os homens e a presença do Senhor, que continua a agir na sua Igreja como Messias, Senhor, Profeta. A Igreja crescerá e caminhará no temor do Senhor, cheia da fortaleza do Espírito Santo (At. 9,31). É um caminho de serviço, traçado para fazer ressoar nos extremos confins da terra o eco da Palavra da Salvação (At. 1,1-11). Pouco a pouco o caminho afasta-se de Jerusalém para se dirigir ao coração do mundo pagão. A sua chegada a Roma, capital do império, Lucas colocará a sua assinatura nos seus passos evangelizadores. Ninguém na verdade será excluído no caminho. Destinatários da salvação são todos os homens, em particular os pecadores, por cuja conversão há grande alegria no céu (Lc. 15,7.10). Como Maria, que para Lucas é o Modelo do discípulo que caminha no Senhor, nós os crentes somos chamados a ser transformados inteiramente para viver a maternidade messiânica, não obstante a própria condição “virginal” expressão da própria pobreza de criatura (Lc 1, 30-35). O sim do Magnificat é o caminho que se tem de percorrer. Caminhando levando em nós a palavra de salvação; caminhando na fé, confiando em Deus que mantém as suas promessas; caminhando na alegria d'Aquele que nos faz ditosos, não pelos nossos méritos mas pela humildade de vida. Seja o itinerário de Maria o nosso próprio itinerário: andar, conduzidos pelo Espírito, para os nossos irmãos, tendo como único equipamento a Palavra que salva: Cristo Senhor (At. 3,6).

 
 

"O Deus de nossos antepassados glorificou o seu servo Jesus... E disso nós somos testemunhas" - escutamos na primeira leitura. "O Messias sofrerá e ressuscitará dos mortos no terceiro dia, e no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. E vocês são testemunhas disso" - acabamos de ouvir no evangelho. O que significa ser testemunha do Ressuscitado?

Os versículos que compõem a 1ª leitura, nos ajudarão responder a esta pergunta. No discurso de Pedro estão presentes as três características da catequese primitiva (querigma), sobre Jesus morto e ressuscitado, formada por anúncio, denúncia e convite a aderir a Jesus. Antes de dizer estas bonitas palavras, Pedro havia libertado uma pessoa de algumas paralisias que a impediam de ter vida em liberdade. É  importante perceber que Pedro faz questão de dizer que é em nome de Jesus que a cura acontece. Jesus (cujo nome significa "Deus salva") é o rosto de um Deus fiel e libertador, lembrado também na expressão "o Deus de Abraão, de Isaac, de Jacó, o Deus de nossos antepassados". Nisto consiste o anúncio: Jesus está vivo, está conosco e a nosso favor. Pedro também lembra que Jesus é o Messias, Servo e Autor da Vida, aquele que dá origem à vida e que caminha à frente de seu povo. A denúncia, que faz parte do discurso, aponta o pecado da sociedade que entregou, rejeitou e matou Jesus, posicionando-se contra a vida. Deus, porém, continua fiel ao seu projeto, e a nossa resposta deve ser um caminho de conversão e arrependimento de nossos pecados. Somos chamados a fazer uma opção verdadeira por Jesus Cristo!

Na segunda leitura, João nos aponta um caminho de conversão e de verdadeira opção por Jesus e seu projeto: AMAR! Conhecer verdadeiramente a Deus é experimentá-lo no amor. Em quem ama de verdade, o amor de Deus se torna gesto, atitude, jeito de ser. Amor que deve ser vivido, sobretudo, aos mais pequeninos, os preferidos de Jesus.

No evangelho, Lucas narra o que aconteceu depois que Jesus apareceu aos discípulos de Emaús. O Cristo ressuscitado apareceu a toda a comunidade reunida. Isto aconteceu de noite. Noite das dúvidas, do medo, que impedem os discípulos de "enxergar" Jesus com os olhos da fé. O Senhor apareceu no meio deles e saudou desejando a paz: "a paz esteja com vocês". É esta a paz que o nosso coração mais deseja! A verdadeira paz, aquela que só Jesus Ressuscitado pode nos dar.

Os discípulos ficaram assustados e cheios de medo, pensando ser um fantasma. Porém, são convidados a perceber que, sem a ressurreição de Jesus, a nova história acabaria num beco sem saída. É por isso que se insiste na ressurreição do corpo. É uma verdade real e palpável. Os discípulos são convidados a olhar e tocar! A partir do momento em que reconhecem Jesus vivo, ressuscitado, os discípulos são capazes de testemunhar. E é assim que os seus seguidores, de ontem e de hoje, continuarão a história e a sociedade novas trazidas por Jesus: proclamando que a sociedade injusta não anulou o processo de vida e liberdade que Ele trouxe. Esta proclamação deve  ser de atitudes e escolhas de fé. As novas Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil nos dizem que: "Este é um tempo de testemunho! Em virtude do enfraquecimento das instituições e das tradições, cresce a responsabilidade pessoal. Em outras épocas, instituições e tradições

protegiam bem mais os indivíduos. Nesta mudança de época... os discípulos missionários sabem que necessitam de rigor ainda maior naquilo que sentem, pensam e fazem" de sua fé e dos valores do evangelho (n° 33).

 
 

Também nós somos testemunhas

O trecho de são Lucas que a Liturgia nos apresenta neste 3º domingo da Páscoa permite-nos, também a nós, reviver a experiência dos discípulos que, enquanto estão reunidos, se encontram com o seu Mestre, Jesus ressuscitado. É Ele mesmo que se coloca no meio deles e lhes oferece a sua “paz”, isto é, a plenitude de todos os dons de Deus. Dá-lhes a fé, que os leva pouco a pouco a reconhecê-lo na alegria, e abre-lhes os olhos e o coração para entenderem as Escrituras. Envia-os como suas “testemunhas” a todos os homens e mulheres da terra e da história.

São Lucas sublinha a missão do testemunho e as condições que o tornam eficaz: conhecer as Escrituras, centradas em Jesus, e anunciar a experiência do Ressuscitado no seio da sua comunidade. É o anúncio pascal. Conhecer Jesus e fazer a experiência de uma conversão pessoal é fundamental para que o anúncio de Jesus tenha eficácia sobre os ouvintes. É interessante notar que todas as vezes que Jesus se encontra com os seus discípulos, também os “envia”. O tema fundamental da Palavra deste Domingo é a missão das testemunhas. O conteúdo da missão é “pregar a todos os povos a conversão e o perdão dos pecados”. É essa a finalidade do anúncio, feito com a boca e com a vida: provocar a conversão, que obtém o perdão de Deus e portanto a plena comunhão com Ele. A missão é essencialmente testemunho: “Vós sois a testemunhas de todas estas coisas”. A testemunha faz-se garante daquilo que diz, com toda a sua experiência, com toda a sua vida pessoal.

Os destinatários deste anúncio são “todas as nações, começando por Jerusalém”. O livro dos Atos dos Apóstolos mostrará como gradualmente, de etapa em etapa, se realizou e se realiza ainda hoje o programa missionário do Ressuscitado, enunciado neste texto e confiado aos Apóstolos antes da Ascensão. O mandato missionário constitui o conteúdo das últimas palavras de Jesus e define a tarefa e a consciência da Igreja missionária na história humana. A Igreja, e nela todo e qualquer cristão, existe para testemunhar a todos que Jesus ressuscitou e está vivo e operante no meio de nós. “Vós sois a testemunhas de todas estas coisas”. Quais são estas coisas? O evento da morte e ressurreição de Jesus e as “palavras que vos dizia enquanto estava ainda convosco”, quer dizer, tudo aquilo que Jesus ensinou e está escrito nos Evangelhos.

Sendo assim, também nós somos testemunhas. Como os discípulos de Emaús, a quem Jesus abriu a inteligência para entender as Escrituras, também nós somos testemunhas da Ressurreição, proclamando que não há outro nome no qual possamos ser salvos. A missão continua hoje na Igreja e em cada cristão. Cada um dos nossos gestos transmite um anúncio de Páscoa. Jesus revela-se em cada Palavra que escutamos, em cada Eucaristia que celebramos, em cada irmão que servimos. A missão continua através de cada um de nós. Quem dera que hoje mesmo o nosso entendimento se abrisse à compreensão da divina mensagem e do tempo em que vivemos. Precisamos todos da luz do Espírito Santo para rasgar as trevas da nossa humanidade. Precisamos todos de nos encher dos seus dons para saborear as coisas de Deus e para as testemunhar pelo mundo inteiro. Que a Igreja seja sempre e cada vez mais Missão. Que o sejam as nossas palavras, os nossos gestos e toda a nossa vida.

Darci Vilarinho

 
 

“E vocês são testemunhas disso”

O evangelho de hoje é a segunda parte do capítulo 24 de Lucas, que relata primeiro a história das mulheres diante do túmulo de Jesus, e agora o incidente do encontro de Jesus Ressuscitado com os dois discípulos na estrada de Emaús. Devemos recordar que Lucas estava escrevendo a sua obra em vista dos problemas da sua comunidade pelo ano 85 d.C. Já não estamos mais com a primeira geração de discípulos - já se passou mais de meio século desde os eventos pascais. A comunidade já está vacilando na sua fé - as perseguições estão no horizonte, ou até acontecendo; o primeiro entusiasmo diminuiu, os membros estão cansados da caminhada e perdendo de vista a mensagem vitoriosa da Páscoa. Parece mais forte a morte do que a vida, a opressão do que a libertação, o pecado do que a graça.

Neste cenário, Lucas escreve este capítulo. Traz uma mensagem de ânimo e coragem aos desanimados e vacilantes da sua época - e da nossa! Para as mulheres, os dois anjos perguntam “por que estão procurando entre os mortos aquele que está vivo?” E afirmam: “Ele não está aqui! Ressuscitou!” Mensagem atual para os nossos tempos - diante da péssima situação da maioria do nosso povo que enfrenta a dura luta pela sobrevivência, com desemprego, baixo salário, falta de terra e moradia, uma herança de décadas de descaso dos governantes com a saúde pública e a educação, é muito fácil perder esperança e coragem. Mas, Jesus venceu o mal, não foi derrotado pela morte, e está no meio de nós!

Os dois discípulos no caminho de Emaús são imagem viva da comunidade lucana - e de muitas hoje! Já sabem do túmulo vazio, mas estão desanimados, desiludidos, sem forças - pois ainda não fizeram a experiência da presença de Jesus Ressuscitado. Pois, a nossa fé não se baseia no túmulo vazio, mas pelo contrário, a nossa experiência do Ressuscitado explica porque ele ficou vazio. Os dois só fazem esta experiência quando partilham o pão! A Escritura fez com que os seus corações “ardessem pelo caminho” (v. 32), mas não lhes abriu os olhos - para isso era necessário formar uma comunidade celebrativa de fé e partilha: “contaram... como tinham reconhecido Jesus quando ele partiu o pão” (v. 35).

Finalmente, o grupo dos discípulos reunidos em Jerusalém é símbolo das comunidades confusas e vacilantes. Tinham dificuldade em acreditar - pois a mensagem da Ressurreição é realmente espantosa! Mas, uma vez feita essa experiência, eles se transformam e se tornam testemunhas vivas do que sentiram, experimentaram e vivenciaram: “E vocês são testemunhas disso” (v. 48). Um grupo de derrotados, desesperançados e desunidos (vv. 20-21) se transformam num grupo de missionários corajosos e convictos, assumindo a tarefa de anunciar “no seu nome a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações” (v. 47).

Hoje em dia, quando muitos cristãos se desanimam, ou restringem a sua fé à esfera particular, sem que tenha qualquer influência sobre a sua vivência social, a mensagem de Lucas nos convida a redescobrirmos a realidade da presença do Ressuscitado entre nós. Mas, essa experiência não serve somente para o nosso consolo pessoal - somos comandados a imitar os dois de Emaús, que, feita a experiência do Ressuscitado, “levantaram na mesma hora e voltaram para Jerusalém” (v. 33). Pois, a nossa experiência religiosa não é algo intimista e individualista, mas algo que nos deve propulsionar para a missão, para a construção de um mundo conforme a vontade de Deus, um mundo de justiça, paz e integridade da criação, sem excluídos e marginalizados!

padre Tomaz Hughes, SVD

 
 

“Vede as minhas mãos e os meus pés! Sou Eu mesmo”! (Lc. 24,39)

1. É bem significativo, que no relato das vivências dos apóstolos com a pessoa real de Jesus vivo e ressuscitado, se insista tanto no olhar e no tocar as suas mãos e os seus pés! Na verdade, a vida, seja ela de quem for, pode descrever-se e avaliar-se sobretudo pelo rumo dos seus passos e pelos gestos e atividades das suas mãos. As de Jesus também: Jesus percorreu o caminho para o Pai fazendo o bem! As suas mãos abençoaram, acariciaram, perdoaram, multiplicaram o bem e a bondade sobre a Terra e estenderam-se, finalmente na cruz, abraçando-nos e salvando-nos por amor, como sinal indelével da aliança de Deus conosco.

2. Por isso, contemplar as mãos e os pés de Jesus é entrar na compreensão do seu Espírito e da sua Missão; implica sobretudo tomar consciência de que, hoje, é também através de nós, seus discípulos, através das nossas mãos e dos nossos pés, que Ele quer manifestar e espalhar esse Espírito e continuar aqui essa missão. Na verdade: “Cristo não tem mãos, tem só as nossas mãos para fazer o Seu trabalho hoje. Cristo não tem lábios, só tem os nossos lábios para falar aos homens de hoje. Cristo não tem pés, tem só os nossos pés, para guiar os homens nos seus caminhos. Cristo não tem meios, tem só a nossa ajuda para conduzir os homens para Si!”

3. Estamos, hoje, a iniciar uma Semana de oração pelas vocações, para nos lembrar a todos, que Cristo, hoje, continua vivo e presente, por meio de nós todos e por meio de cada um dos batizados. Cada um de nós torna presente os seus passos, os seus gestos, as suas palavras, a sua oração, a sua entrega por amor. Jesus quer fazer de nós e de cada um testemunhas do seu amor, daquele amor com que Ele faz e refaz todas as coisas!

4. A todos e a cada um, Jesus chama por amor, a todos e a cada um Jesus chama com amor. A todos e a cada um Jesus chama ao amor. Cada vocação é, por isso, uma dádiva e um fruto daquele amor, com que Deus nos ama primeiro em Cristo. É porque Deus nos ama, que Jesus nos chama!

Nós temos esta certeza, diz o papa Bento XVI: “cada um de nós é fruto de um pensamento e de um ato de amor de Deus: um amor imenso, fiel e eterno (cf. Jr. 31,3). Esta é a descoberta que muda a nossa vida. E faz da nossa vida, uma vida para Deus e para os outros. Este amor é a mola secreta, a causa que não falha, mesmo nas circunstâncias mais difíceis. No terreno de um coração dado e aberto ao amor de Deus, é que nascem e crescem todas as vocações”!

E o Papa explica ainda melhor: «No terreno do nosso coração, Deus plantou primeiro a raiz do amor a Ele e depois, como ramagem, desenvolveu-se o amor ao próximo» (são Gregório Magno, Moralia in Job, VII, 24, 28: PL 75, 780D).

5. Esta “plantinha” da vocação precisa do abrigo e proteção de uma família, que seja casa de comunhão, comunidade de vida e amor, o primeiro e o melhor seminário da vocação. Esta frágil plantinha da vocação precisa também de beber, de enraizar e fortalecer, nas fontes da oração, da Palavra e da fração do Pão (= eucaristia). Só bebendo nestas fontes, nos é possível viver o amor a Deus e ao próximo! Só assim é possível viver a nossa vocação ao amor, no amor, por amor, para o amor!

E «onde não há amor, cada um semeie amor e recolherá amor» (são João da Cruz Epistolário, 26).

 

 

“Porque estais perturbados e porque surgem tais

dúvidas nos vossos corações”? (Lc. 24,38)

1. Espanto e medo, reservas e suspeitas, dúvidas e desconfianças, perturbam ainda o coração e a fé dos discípulos! Não é, à primeira aparição, nem à segunda, que dão por certa a presença real do Senhor Ressuscitado. Apesar das marcas da crucifixão, nas mãos e nos pés, assalta-lhes, ao espírito, a dúvida e a desconfiança. Os discípulos, traumatizados, temem ainda por uma ilusão de momento e desconfiam dos seus próprios sentidos! E, por isso, “ainda não queriam acreditar” (Lc. 24,41)! Conversa à mesa com Jesus, partilha de vidas, e lentamente, na luz da Palavra, os discípulos irão reconhecer a presença de Cristo, encontrar ânimo e confiança, até se tornarem testemunhas da sua ressurreição. Entre esta desconfiança inicial e o testemunho final, vai aquele passo decisivo da fé, aquele salto de confiança, que torna grande e livre a pessoa. Acreditar é ousar, arriscar, fiar, confiar-se, abandonar-se a Alguém! O acto de confiar-se é profundamente humano e essencial à fé. Pela fé, vencemos dúvidas e dificuldades, e pomos a nossa confiança em Deus, respondendo, de modo pessoal e livre, ao seu chamamento, arriscado o seu desafio: “Vós sois as testemunhas de todas estas coisas” (Lc. 24,48)!

2. Esta vitória sobre o medo e a desconfiança é um bom estímulo contra a crise de confiança, que destrói a capacidade de risco e de decisão na vida! A confiança, é hoje como um valor em vias de extinção. E a falta de confiança determina a própria crise: a crise dos mercados financeiros, a dos governos políticos, a dos jovens, no confronto com os adultos, e a dos adultos no confronto com os jovens! Quando falta a confiança, sobra o calculismo frio, a recusa em fazer qualquer coisa que pareça acima das próprias capacidades, uma exagerada timidez, perante a vida! Por falta de confiança, a pessoa acaba por ficar prisioneira dos seus próprios limites, tem medo do outro, ou medo de fazer má figura. Acabará, por falsa prudência, por nunca arriscar e deixará de sonhar em grande.

3. Este fenômeno da desconfiança atinge sobretudo os mais jovens. Os mais jovens sentem angústia, diante de um mundo muito complicado e atroz, tremem, sofrem “ataques de pânico” só de pensar no futuro. Perante o risco de se comprometer para uma vida inteira, quer no matrimônio, quer numa vida de especial consagração, tal como os discípulos, “ficam perturbados e levantam-se pensamentos e dúvidas em seus corações” (Lc. 24,38), dizendo intimamente para si mesmos: «O mundo vive em contínuo movimento e a vida está cheia de possibilidades. Poderei eu dispor agora da minha vida inteira, ignorando os imprevistos que ela me reserva? Não será que eu, com uma decisão definitiva, ponho em jogo a minha liberdade e me deixo prender com as próprias mãos?» Tais são as dúvidas que os assaltam. «Mas quando o jovem não se decide, corre o risco de ficar uma eterna criança» (Bento XVI, Encontro com os jovens, Luanda, 21.03.2009)!

4. Sejamos claros: haverá sempre, em cada decisão importante para a vida, uma zona escura, em que escasseiam as evidências e os apoios, e onde não nos bastam os cálculos e as previsões. Não é possível prever os acontecimentos futuros. Haverá sempre um resíduo de insegurança, que só pode ser superado, ousando e arriscando! Mas é precisamente aí que a escolha se prende com o mistério. Na raiz da decisão, não existe uma evidência matemática, mas um ato livre, que se baseia apenas sobre uma certeza moral. Impõe-se, por isso, a confiança. A confiança é como dar crédito ao outro (no qual confio), é confiar-me, isto é, entregar-me a outras mãos, confiar-me a outro, abandonar-me a outro.

5. E aqui emerge o mistério e a grandeza do ser humano e da sua dignidade: que alguém possa entregar o seu próprio futuro, que não conhece, nas mãos de um outro! É mesmo um «grande mistério», que alguém possa dizer, ao marido ou à esposa ou à Igreja: “Prometo ser-te fiel… em todos os dias da nossa vida”. Tal mistério só se pode explicar com a intensidade do amor. Só amor é digno de fé. E só o que é intenso, é que tem o desejo de se estender e pode abraçar a vida toda, inteira e para sempre. De fato, quem poderá tomar uma decisão de eterna fidelidade matrimonial ou “abraçar a vida consagrada contando apenas com os seus recursos humanos”? Só tocado por este mistério de amor, do amor de Deus em nós e por nós, alguém pode arriscar a sua vida e consagrá-la pelo Reino de Deus, como São Paulo, que nos diz: ”Sei em quem pus a minha confiança” (1Tm. 1,12).

6. Neste início da Semana de oração pelas vocações, e frente a uma cultura da indecisão, desafio sobretudo os mais jovens e os casais: 

“Coragem! Ousai decisões definitivas, porque na verdade são as únicas que não destroem a liberdade, mas lhe criam a justa direção, possibilitando seguir em frente e alcançar algo de grande na vida. Sem dúvida, a vida só pode valer se tiverdes a coragem da aventura, a confiança de que o Senhor nunca vos deixará sozinhos. Jovens, libertai dentro de vós o Espírito Santo, a força do Alto! Confiados nela, como Jesus, arriscai este salto no definitivo e com isso dai uma possibilidade à vida! Tal é a vida que vale a pena ser vivida e que de coração vos desejo a todos vós” (Bento XVI, Idem).

 

 

“Aquele que diz conhecer Deus e não guarda os

seus mandamentos é mentiroso” (1Jo 2,4)!

I. É uma das mais insistentes afirmações da primeira carta de são João! Ao que parece, o apóstolo, já no final da sua vida, viu-se na necessidade de esclarecer um grupo de cristãos, que teria lido à pressa o quarto evangelho. E então, com sábia clareza, vemo-lo, nesta Carta, esforçar-se, por devolver, à palavra “amor” o seu esplendor original! Ontem, como hoje, esta era uma das palavras mais usadas e abusadas.

E a primeira ideia, que fica clara é esta: o amor não é apenas conhecimento, ou sentimento; é também um mandamento. Há, por assim dizer, um dever de amar: «Aquele que diz que está em Deus, deve andar como Ele andou» (Jo 2,6); «Jesus deu a vida por nós, e nós devemos dar a nossa Vida, pelos nossos irmãos» (1Jo 3,16); «Caríssimo, se Deus nos amou assim, também nos devemos amar uns aos outros» (1Jo 4,11). O cristão, porque foi primeiro amado por Deus, sente-se, em resposta, devedor de tão grande amor. Por efeito deste amor divino, tornamo-nos capazes de compreender, de sentir e de cumprir, de bom grado e sem estranhar, os seus mandamentos. “Aquele que diz conhecer Deus e não guarda os seus mandamentos é mentiroso” (1Jo 2,4)!

II. Tomemos, estes esclarecimentos sobre o amor a Deus e relacionemo-los, como São João o fez, com o amor humano. E que poderíamos concluir?

1. Em primeiro lugar - diz o Papa Bento XI, na sua encíclica sobre o amor divino -  “o amor não é apenas um sentimento. Os sentimentos vão e vêm. O sentimento pode ser uma maravilhosa centelha inicial, mas não é a totalidade do amor. É próprio do amor, amadurecer, até tocar, abranger e transformar a pessoa na sua totalidade» (cf. DCE 17). O amor une o pensamento, o sentimento e a vontade.

2. Em segundo lugar, o amor nunca está concluído e completado. Por isso, ele implica o esforço da vontade, até chegar ao ponto de “querer o mesmo, e de rejeitar a mesma coisa”! Este é, segundo os antigos, o autêntico conteúdo do amor: um tornar-se semelhante ao outro, que leva à união do mesmo querer e do mesmo pensar» (cf. DCE 17).

3. Em terceiro lugar, o amor é também um mandamento. Há, por assim dizer, um dever de amar. Eis uma afirmação dura de roer, numa cultura, que exalta o amor, como um impulso espontâneo, momentâneo quando não instantâneo?! «Porque é que a pessoa tem de se "vincular", ao amor, se ele é totalmente impulso e espontaneidade», perguntam-nos?!

Responderíamos assim: Por um lado, «a evolução do amor, para níveis mais altos, faz com que ele procure o definitivo: para sempre e em exclusivo» (DCE 6). Por outro lado, a pessoa quanto mais ama intensamente, tanto mais compreende, com angústia, o perigo que o seu amor corre! Perigo que não vem de outrem, mas de si mesma. De fato, ela bem sabe que é volúvel e que amanhã, poderá cansar-se e deixar de amar ou mudar o objeto do seu amor. E se agora que está na luz do amor, vê com clareza, qual perda irreparável isto comportaria, então que fazer? Há que prevenir-se de qualquer alteração do pensamento, do sentimento, "obrigando-se", a amar. Daí a importância, de se vincular, a um dever, que dê confiança e estabilidade.

O dever de amar protege, de certo modo, o amor de qualquer alteração; protege-o do desespero de não poder amar para sempre. «Dai-me um verdadeiro apaixonado, e ele vos dirá se, no amor, há oposição entre prazer e dever; se o pensamento de "dever" amar durante toda a vida causa naquele que ama receio e angústia, ou se, pelo contrário, lhe dá alegria e felicidade extrema»?!

4. Estas considerações não serão suficientes, para modificar a cultura atual que exalta a liberdade de mudar e a espontaneidade do momento, a prática do "usar e deitar fora", aplicada também ao amor. Mas, pelo menos, que estas considerações sirvam, para confirmar na bondade e na beleza da própria opção, aqueles, de entre vós, que se querem (ou quiseram) vincular e dever, no amor, um ao outro, pelo sacramento do matrimônio. Possam estas palavras e o testemunho da vossa fidelidade, estimular muitos jovens a fazerem a mesma escolha. Para todos nós, chamados ao amor, permanece este apelo fundamental: «Não devamos a ninguém coisa alguma, a não ser o amor de uns pelos outros» (Rm. 13,8)

 
 

Neste terceiro domingo da Páscoa, Lucas tem duas mensagens importantíssimas a transmitir ao povo de Deus, que você faz parte também. Em primeiro lugar, Lucas mais que outros Evangelistas, insiste na corporeidade de Jesus Ressuscitado: “Tocai-me, vede, um fantasma não tem carne nem ossos como estais vendo que Eu tenho e tendes algo a comer?”. E come um peixe assado na frente de todos eles. O corpo de Jesus possui certas semelhanças ao corpo terrestre, é o mesmo Jesus, porém num outro estado, ao mesmo tempo o corpo possui propriedades novas, ele pode aparecer e desaparecer, ele pode tornar-se visível e também as mais das vezes nas nossas comunidades e diante de cada um de nós presente, porém invisível. Lucas tocava os limites da linguagem, como Paulo também ao falar de um corpo espiritual. Parece uma contradição, como pode um corpo ser espiritual, ou como poderia um espírito ser corpo, Paulo está no limite da linguagem. O nosso linguajar é um linguajar deste mundo, deste universo e nós não sabemos nos exprimir a respeito de realidades que fogem este universo; realidades que o superam, realidades que o transcendem como é o corpo de Jesus ressuscitado. Porém, Lucas falando a um auditório grego e escrevendo a pessoas que poderiam possuir uma cultura grega, platônica, para quem o que vale é a alma e não o corpo insiste na corporeidade. Jesus ressuscitado não é uma simples alma que sobrevive após a morte. A ressurreição é mais do que a imortalidade da alma, esta é a sua primeira mensagem. A segunda mensagem que o Jesus lucano nos transmite neste terceiro domingo da Páscoa é esta: “Abriu-lhes então o entendimento para que compreendessem as escrituras, o que d’Ele estava escrito na Torá, isto é na lei de Moisés, nos profetas e nos Salmos”. Os primeiros cristãos buscaram logo uma antologia de textos, escolhidos do Antigo Testamento, que pudessem fazê-los compreender melhor o que se passava na plenitude dos tempos com Jesus morto e ressuscitado. Sem o auxilio das Escrituras, sem o auxilio do Antigo Testamento, a ressurreição de Jesus seria um simples prodígio, um simples milagre de Deus, mas sem nenhuma conexão, sem nenhuma preparação remota na história da salvação. É exatamente esta antologia de textos que de maneira velada, mas suficiente, já os antecipavam, que possibilitou a primeira geração cristã, e nós também conhecermos o plano de Deus e inserir a ressurreição de Jesus dentro deste plano na plenitude da história. Hoje você tem os dois Testamentos. E como diz Santo Agostinho: o Novo se esconde no Antigo, o Antigo se aclara no Novo. Leve a sério a Palavra de Deus, leve a sério a Sagrada e Escritura, a Antiga e o Novo Testamento, e repita a experiência da primeira comunidade cristã, lá buscando os traços antecipados de Jesus.

mons. Inácio José Schuster

 

 

«Sou Eu mesmo. Tocai-me»

Como é que o corpo do Senhor, uma vez ressuscitado, continuou a ser um corpo verdadeiro, podendo, ao mesmo tempo, entrar no local onde os discípulos se encontravam, apesar de as portas estarem fechadas? Devemos estar cientes de que a ação divina não teria nada de admirável se a razão humana a pudesse compreender e que a fé não teria mérito se o intelecto lhe fornecesse provas experimentais. Sendo, por si mesmas, incompreensíveis, tais obras do nosso Redentor devem ser meditadas à luz das outras ações do Senhor, de tal forma que sejamos levados a acreditar nestes Seus feitos maravilhosos por força daqueles que ainda o são mais. Porque o corpo do Senhor, que se juntou aos discípulos não obstante estarem as portas fechadas, é o mesmo que a Natividade tornou visível aos homens, ao sair do seio fechado da Virgem. Por isso, não vale a pena ficarmos admirados de que o nosso Redentor, após ressuscitado para a vida eterna, tenha entrado, estando embora as portas fechadas, porque, tendo vindo ao mundo para morrer, saiu do seio da Virgem, sem o abrir. E, como a fé daqueles que O viam permanecia hesitante, o Senhor fê-los tocar essa carne que Ele fizera atravessar portas fechadas […]. Ora, aquilo que podemos tocar é necessariamente corruptível, e o que não é corruptível é intocável. Porém, após a Sua ressurreição, o nosso Redentor deu-nos a possibilidade de ver, de uma forma maravilhosa e incompreensível, um corpo, a um tempo, incorruptível e palpável. Mostrando-o incorruptível, convidava-nos à recompensa; dando-o a tocar, confirmava-nos na fé. Assim, fez com que O víssemos tão incorruptível como palpável, para manifestar, firmemente, que o Seu corpo ressuscitado continuava a ter a mesma natureza mas tinha sido elevado a uma glória absolutamente diferente.

são Gregório Magno

 

 

Em verdade ressuscitou!

O Evangelho permite-nos assistir a uma das muitas aparições do Ressuscitado. Os discípulos de Emaús acabam de chegar cansados a Jerusalém e estão relatando o que lhes ocorreu no caminho, quando Jesus em pessoa aparece no meio deles: «A paz esteja convosco». Em um primeiro momento, medo, como se vissem um fantasma; depois, estupor, incredulidade, finalmente alegria. E mais, incredulidade e alegria por sua vez: «Por causa da alegria, não podiam acreditar ainda, assustados». A deles é uma incredulidade de todo especial. É a atitude de quem já crê (senão não haveria alegria), mas não se sabe dar conta. Como quem diz: muito belo para ser certo! Podemos chamá-la, paradoxalmente, de uma fé incrédula. Para convencer-lhes, Jesus lhes pede algo de comer, porque não há nada como comer algo juntos que conforte e crie comunhão. Tudo isto nos diz algo importante sobre a ressurreição. Este não é só um grande milagre, um argumento ou uma prova a favor da verdade de Cristo. É mais. É um mundo novo no qual se entra com a fé acompanhada de estupor e alegria. A ressurreição de Cristo é a «nova criação». Não se trata só de crer que Jesus ressuscitou, trata-se de conhecer e experimentar «o poder da ressurreição» (Filipenses 3,10). Esta dimensão mais profunda da Páscoa é particularmente sentida por nossos irmãos ortodoxos. Para eles, a ressurreição de Cristo é tudo. No tempo pascal, quando encontram alguém, saúdam-no, dizendo: «Cristo ressuscitou!», e o outro responde: «Em verdade ressuscitou!». Este costume está tão enraizado no povo que se conta esta anedota ocorrida no começo da revolução bolchevique. Havia-se organizado um debate público sobre a ressurreição de Cristo. Primeiro havia falado o ateu, demolindo para sempre, em sua opinião, a fé dos cristãos na ressurreição. Ao baixar, subiu ao palanque o sacerdote ortodoxo, que devia falar em defesa. O humilde padre olhou a multidão e disse simplesmente: «Cristo ressuscitou!». Todos responderam em coro, antes ainda de pensar: «Em verdade ressuscitou!». E o sacerdote desceu em silêncio do palanque. Conhecemos bem como é representada a ressurreição na tradição ocidental, por exemplo, em Piero della Francesca. Jesus que sai do sepulcro erguendo a cruz como um estandarte de vitória. O rosto inspira uma extraordinária confiança e segurança. Mas sua vitória é sobre seus inimigos exteriores, terrenos. As autoridades haviam posto selos em seu sepulcro e guardas para vigiar, e eis aqui as trancas rompem-se e os guardas dormem. Os homens estão presentes a sós como testemunhas inertes e passivas; não tomam parte verdadeiramente na ressurreição. Na imagem oriental, a cena é totalmente diferente. Não se desenvolve a céu aberto, mas sob a terra. Jesus, na ressurreição, não sai, mas desce. Com extraordinária energia toma da mão a Adão e Eva, que esperam no reino dos mortos, e os arrasta consigo para a vida e a ressurreição. Detrás dos dois pais, uma multidão incontável de homens e mulheres que esperam a redenção. Jesus pisoteia as portas dos infernos que acaba de desencaixar e quebrar Ele mesmo. A vitória de Cristo não é tanto sobre os inimigos visíveis, mas sobre os invisíveis, que são os mais tremendos: a morte, as trevas, a angústia, o demônio. Nós estamos envolvidos nesta representação. A ressurreição de Cristo é também nossa ressurreição. Cada homem que olha é convidado a identificar-se com Adão, cada mulher com Eva, e a estender sua mão para deixar-se aferrar e arrastar por Cristo fora do sepulcro. É este o novo e universal êxodo pascal. Deus veio «com braço poderoso e mão estendida» para libertar seu povo de uma escravidão muito mais dura e universal que a do Egito.

 

 

O terceiro domingo da Páscoa é ainda um domingo de aparições. No ciclo B, neste domingo, toma-se como perícope evangélica a narração de são Lucas sobre a aparição aos Apóstolos. É o único texto que não é de são João em toda Cinquentena Pascal, com exceção do dia da Ascensão. A semelhança da narração de São Lucas com a narração de São João (proclamada no domingo passado) pode originar o perigo da repetição. Então, seria melhor destacar na homilia aquilo que não se fez referência com o texto de São João. Para tal, ajudar-nos-ão as outras leituras. A 1ª Leitura é um fragmento do discurso de Pedro depois de um paralítico ter sido curado. Neste texto, encontramos três afirmações relacionadas com a morte e a ressurreição de Jesus: a) os Apóstolos são testemunhas do que anunciam; b) com as ações dos perseguidores, foram cumpridas as Escrituras; c) toda a humanidade é convidada ao arrependimento e à conversão. A 2ª Leitura apresenta-nos Jesus Cristo Ressuscitado como o “Defensor” dos pecadores junto do Pai. Isto não é motivo para continuar a pecar, mas para corresponder com amor e fidelidade à Palavra de Jesus Cristo. Tendo em conta as leituras, a “temática” da homilia poderia recair na segunda parte da narração: a) o cumprimento das Escrituras no mistério pascal de Cristo; b) a missão da Igreja de pregar em todo o mundo a conversão e o perdão dos pecados; c) a missão dos Apóstolos, como testemunhas da ressurreição. Este domingo é uma boa ocasião para salientar a força da assembléia dominical como experiência e ponto de partida para a missão da Igreja. A Liturgia da Palavra fala-nos sempre do mistério de Cristo. E a pregação deverá ser feita de tal modo que faça ver como as Escrituras nos orientam sempre para Cristo. O mistério de Cristo é “para nós, homens, e para a nossa salvação”. Por isso, o arrependimento e o perdão dos pecados são elementos intrínsecos à mensagem evangélica. Aos membros da assembléia dominical pede-se uma atitude de conversão, de confissão e de arrependimento dos pecados (um retorno batismal). Os Apóstolos são enviados como testemunhas desta realidade. É isto que tem feito a Igreja, através dos tempos com a pregação e a celebração dos sacramentos. O perdão dos pecados (no batismo e na penitência) é o fruto da Páscoa de Cristo. É interessante salientar as referências que se fazem nas orações eucológicas (orações do Missal Romano) do tempo pascal a esta ação da Igreja no mundo. O texto litúrgico é uma pauta para modelar as nossas ações e para fazer surgir uma participação que esteja em harmonia com o que se diz na liturgia: “Mens concordet voci”, “que o nosso interior e o nosso espírito estejam em sintonia com o que dizemos”. Nas orações deste domingo, pedimos: “Exulte sempre o vosso povo, Senhor, com a renovada juventude da alma, de modo que, alegrando-se agora por se ver restituído à glória da adoção divina, aguarde o dia da ressurreição na esperança da felicidade eterna” (Coleta); na Oração sobre as Oferendas, rezamos: “Aceitai, Senhor, os dons da vossa Igreja em festa. Vós que lhe destes tão grande felicidade, fazei-a tomar parte na alegria eterna. Na Oração Depois da Comunhão, pede-se para que o povo fiel, como fruto da comunhão eucarística, alcance também “a gloriosa ressurreição da carne”. Também podemos aqui fazer referência à frase que se repete nos Prefácios Pascais: “na plenitude da alegria pascal, exultam os homens por toda a terra”. Não se trata de uma alegria “fabricada”, mas de pedir ao Senhor a alegria (contemplação e gratidão) dos Apóstolos. Os primeiros cristãos de Jerusalém também sentiam esta alegria, quando “celebravam a fração do pão”. Procuremos celebrar assim também.

mons. Inácio José Schuster

 
 

“Encontrar Jesus na escuta da palavra e na partilha do pão”

Estamos no 3º domingo da Páscoa. A cor do espaço e dos paramentos litúrgicos é branca. Sinal de vida e presença do ressuscitado. A luz do Círio Pascal, continua iluminando os caminhos dos que acreditam em Cristo Ressuscitado.

A Palavra de Deus (Lc. 24,35-48) nos faz refletir sobre o retorno dos discípulos de Emaús. Eles reconheceram Jesus ao partir o pão. Imediatamente retornaram para Jerusalém para partilharem a experiência do encontro com o Ressuscitado. A certeza da ressurreição já não era um conhecimento, mas uma experiência vivida. Importante que os discípulos não retornavam conversando coisas fúteis, mas a experiência do ressuscitado, como o tinham reconhecido ao ouvir suas palavras e ao partir o pão. No caminho Jesus se aproxima e os saúdam: “A paz esteja convosco”. Os discípulos tiveram três reações “ficaram assustados e com medo… e pensavam ver fantasmas. Pois ainda estavam com dúvidas no coração”.

Essas são ainda reações do cristão no mundo moderno. Viver assustado diante das mudanças, da violência e de tantas realidades na família, na sociedade, nas pessoas, nos comportamentos, no testemunho da fé. O cristão é chamado a fortalecer sua convicção e fortaleza no seguimrento de Jesus Cristo para superar o medo, o susto e os fantasmas. A fé cristã, a mensagem de Jesus Cristo, o viver como cristão católico é ter a alegria de fazer a experiência de fé na família, na comunidade, no serviço aos irmãos. Na medida em que o cristão se encontra com Jesus Cristo na Palavra, no partir do pão, no amor aos irmãos, na prática da Justiça, na ética de vida, no respeito aos irmãos vai se libertando dos medos, da insegurança, das dúvidas e das preocupações.

A fé é para libertar a pessoa. Uma religião não é para oprimir, nem para despertar medo e condenação. No mundo moderno e urbanizado cresce uma onda que espalha a religião como opressora, como estraga prazer, como algo que impede a felicidade. Isso não é verdade, tanto assim que as pessoas mais livres, alegres, servidoras são justamente as pessoas que tem fé profunda, que vivem a religião como uma resposta ao chamado de Deus. A fé é dom de Deus que preenche a vida,  acalenta o coração humano, desperta esperança, acende luz na escuridão, seta que indica caminho.

Mesmo que no dia a dia encontramos medos, fantasmas, inseguranças… a certeza da presença de Jesus Ressuscitado no cominho da vida é segurança que nos faz caminhar. É Jesus ressuscitado que nos diz: “No seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém; vós sereis testemunhas de tudo isso”.

Milhões de pessoas durante seguiram e seguem o caminho de Jesus e testemunham a sua fé com coragem, alegria, doação e partilha. Hoje nós estamos reunidos na comunidade, participamos das celebrações, praticamos a caridade, a justiça, a boa conduta; cuidamos da família, das crianças, dos idosos e doentes porque temos a certeza de que todo bem que fizermos a um dos nossos irmãos é a Jesus ressuscitado que está presente.

O autor da vida (At. 3,13-19) morreu pregado na cruz, “mas Deus o resuscitou dos mortos e disso nós somos testemunhas”. Jesus reconstrói as pessoas e as comunidades. Mesmo que tenhamos um coração ferido e machucado pela dor, pelo peso da vida, pela pressão do sistema econômico, pelo pecado, Jesus, o autor da vida nos reanima e nos dá esperança. Porem um esforço é necessário: “Arrependi-vos, portanto, e convertei-vos, para que vossos pecados sejam perdoados”. Deus quer o nosso esforço, nossa participação.

dom Juventino Kestering

 
 

Jesus ressuscitou verdadeiramente? Como é que podemos fazer uma experiência de encontro com Jesus ressuscitado? Como é que podemos mostrar ao mundo que Jesus está vivo e continua a oferecer aos homens a salvação? É, fundamentalmente, a estas questões que a liturgia do 3° Domingo da Páscoa procura responder.

 

A paz esteja convosco

Admiração e o medo invadiram o coração dos discípulos naquele dia de Páscoa. Não se trata do terror que se experimenta diante do perigo, mas do espanto de quem recebe uma revelação de Deus. A admiração e o medo são aqui apresentadas como imagens bíblicas para revelarem a experiencia sobrenatural e inefável dos discípulos que, a certa altura foram inundados de uma luz que não é deste mundo, mas provém de Deus: encontraram o Ressuscitado.

Pouco a pouco a paz vai surgindo, esta paz que não é incompatível com a perplexidade e o medo, a paz interior de quem está envolvido num mistério que o ultrapassa, que continuamente o renova, o impulsiona a comunicar esta boa notícia aos outros.

 

Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo

O Evangelho assegura-nos que Jesus está vivo e continua a ser o centro à volta do qual se constrói a comunidade dos discípulos.

A experiência do Ressuscitado que os discípulos fazem é a mesma que também nós hoje somos chamados a realizar. O Senhor convida-nos a ter fé na vida que é Ele. De fato, muitas vezes queremos fundamentar a nossa fé em coisas palpáveis, em sentir muito, em presenças emocionais, em apetites desordenados… no entanto, Jesus serve-se do que é palpável para nos apontar quem Ele é. O importante é dar mais um passo na fé, necessitamos de mediações, mas tudo para nos ajudar a encontrarmo-nos com a pessoa de Jesus Ressuscitada; Ele é o fundamento da nossa fé e da nossa esperança! É na contemplação destas mãos e destes pés que o ser humano descobre o verdadeiro e único Deus.

O fundamento da fé está nos frutos que a relação com Jesus produz em nós, está na mudança interior, na capacidade de me abrir aos outros e no serviço generoso.

 

Abriu-lhes então o entendimento

É precisamente nesse contexto eclesial - no encontro comunitário, no diálogo com os irmãos que partilham a mesma fé, na escuta comunitária da Palavra de Deus, no amor partilhado em gestos de fraternidade e de serviço - que os discípulos podem fazer a experiência do encontro com Jesus ressuscitado. É através da escuta da Palavra que Cristo continua a mostrar aos discípulos «as suas mãos e os seus pés», ou seja, os seus gestos de amor.

Jesus ressuscitado não está ausente e distante, definitivamente longe do mundo em que os discípulos têm de continuar a caminhar; mas Ele continua, pelo tempo fora, a sentar--se à mesa com os discípulos, a estabelecer laços de familiaridade e de comunhão com eles, a partilhar os seus sonhos, as suas lutas, as suas esperanças, as suas dificuldades, os seus sofrimentos.

 

Vós sois as testemunhas de todas estas coisas

Depois desse "encontro", os discípulos são convidados a dar testemunho de Jesus diante dos outros homens e mulheres. Os discípulos, alimentados pela Palavra, recebem de Jesus a missão de dar testemunho diante de "todas as nações, começando por Jerusalém". O testemunho que Cristo nos pede passa, mais do que pelas palavras, pelos nossos gestos. Jesus vem, hoje, ao encontro dos homens e oferece-lhes a salvação através dos nossos gestos de acolhimento, de partilha, de serviço, de amor sem limites. São esses gestos que testemunham, diante dos nossos irmãos, que Cristo está vivo e que Ele continua a sua obra de libertação dos homens e do mundo.

 

Deixar-se tocar por Jesus na missão hospitaleira

Jesus Ressuscitado está connosco a fazer a experiencia de comunhão, de partilha e de serviço junto de toda a Comunidade Hospitaleira. Tocando as “suas mãos e os seus pés feridos” na entrega ao irmão doente e ferido pela dor psíquica, tocamos o verdadeiro Deus! Obrigada Jesus por esta oportunidade de te encontrar como Senhor ressuscitado no rosto do meu irmão!

São Bento Menni na carta 331 diz-nos: «Não há senão uma coisa que vale e merece a nossa estima: servir e amar a Jesus, trabalhando sempre e sofrendo por seu amor. Esta é a verdadeira dita à qual devemos aspirar; esta é a verdadeira e única vida; nisto e se encerram todos os tesouros».

irmã Paula Carneiro

 
 

A Páscoa de Jesus Cristo: alegria da vida!

A páscoa de Jesus, anunciada pelas Escrituras do Antigo Testamento (cf. Evangelho, v. 43), salva o pecador da morte eterna. Essa é a verdadeira alegria para quem tem fé. A comunidade cristã, que se envolveu e compreendeu as Escrituras, testemunha que Jesus é o vencedor do embate entre a morte e a vida. Ele é o autor da vida (cf. I Leitura, v. 15), ressuscitado por Deus, que comunica o shalom, a plenitude da vida ao ser humano (cf. Evangelho, v. 36). A morte e ressurreição de Jesus, o Santo e o Justo, devolvem ao ser humano sua condição ­ lial (Cf. Oração do dia) que o pecado outrora dilacerou. Ele é a vítima de expiação dos pecados do mundo (II Leitura, v. 2). Em Cristo a humanidade foi reconciliada com Deus e “Ele continua a oferecer-se pela humanidade, e junto de vós [ó Deus] é nosso eterno intercessor.

Imolado, já não morre; e, morto, vive eternamente” (Prefácio da Páscoa III). Precisamente por isso, a Igreja está em festa

(Cf. Oração sobre as oferendas). Sua alegria, pela Vida Nova que o cruci­ficado-ressuscitado continua a oferecer ao ser humano, faz render a Deus a glória e louvor devidos. A fé no Filho de Deus ressuscitado é esperança de ressurreição da carne para cada pessoa. Essa realidade inaugurada na Páscoa de Jesus é experimentada nos sacramentos. A Igreja se alegra e faz festa, pois sabe que Deus é quem dá segurança à vida (cf. Salmo, v. 9).

 
 

O Evangelho de hoje se inicia com os discípulos de Emaús chegando a Jerusalém, onde os apóstolos e alguns outros discípulos se encontravam com Pedro.

Jerusalém foi o lugar onde Deus quis ser louvado, e ali os profetas exerceram o seu ministério. Por vontade divina Jesus Cristo padeceu, morreu e ressuscitou em Jerusalém. Foi a partir de Jerusalém, que o Reino de Deus começou a se estender (cf. Lc. 24,47). No Novo Testamento, há algumas denominações para a Igreja de Cristo, como: “Jerusalém do Alto” (Gl. 4,26); “Jerusalém celeste” (Hb. 12,22); “Nova Jerusalém” (Ap. 21,2).

A Igreja também começa em Jerusalém. Mais tarde, são Pedro, pela Providência Divina, se transfere para Roma, deste modo, se converte no centro da Igreja. Como os discípulos são confirmados na fé por são Pedro, até hoje os cristãos acorrem à Sé de Pedro para confirmar a sua fé, mantendo assim a unidade da Igreja.

“Sem papa, a Igreja Católica não seria o que é, mas porque, faltando na Igreja de Cristo a autoridade pastoral suprema, eficaz e decisiva de Pedro, a unidade se arruinaria. E queiram também considerar que este eixo central, na construção da santa Igreja, não quer constituir supremacia de orgulho espiritual e domínio humano, mas primado de serviço, de ministério e de amor. Não é retórica vã atribuir ao Vigário de Cristo o título de servo dos servos de Deus“. (Ecclesiam suam, n° 62).

Esta aparição de Jesus ressuscitado aos apóstolos nos é narrada pelos Evangelhos de Lucas e são João (cf. Jo 20,19-23). Enquanto João fala da instituição do sacramento da penitência, são Lucas destaca a dificuldade dos discípulos em aceitar o milagre da Ressurreição, apesar do testemunho das mulheres e daqueles que já tinham visto o Senhor ressuscitado.

A porta do local onde se encontravam os discípulos estava fechada, e Jesus aparece de improviso, por isto eles ficam surpresos. “Jesus penetrou no recinto fechado não porque a sua natureza fosse incorpórea, mas porque tinha a qualidade de um corpo ressuscitado” (santo Ambrósio de Milão, † 397). Entre as qualidades de um corpo glorioso, a delicadeza, faz com que o corpo esteja em sua totalidade dominado pelo poder da alma, por este motivo atravessa obstáculos materiais sem nenhuma resistência. E, a cena se reveste de um encanto pessoal quando é descrito pelo evangelista os detalhes do corpo glorioso de Jesus para confirmar a verdade de Sua Ressurreição.

Ainda que o corpo do ressuscitado seja inalterado, e não necessite de alimentos para se nutrir, Jesus quer confirmar os discípulos na verdade da Sua Ressurreição com estas duas provas:

1) convidando a que o toquem;

2) comendo na presença deles.

Diz-nos (santo Inácio de Antioquia † 107): “Sei muito bem e nisto ponho a minha fé que, depois da sua Ressurreição, o Senhor permaneceu na sua carne. E assim, quando se apresentou a Pedro e aos seus companheiros, disse-lhes: Tocai-me e compreendei que não sou um espírito incorpóreo. E prontamente tocaram-No e acreditaram, ficando persuadidos da sua carne e do Seu espírito”.

O evangelista Lucas escreve para os gentios, por isto narra a advertência de Cristo aos discípulos, que declara ter se cumprido tudo o que estava predito acerca d’Ele. Destaca desta maneira a unidade dos dois Testamentos e que Jesus é verdadeiramente o Messias.

“Era necessário que Cristo padecesse, mas que ressurgisse dos mortos ao terceiro dia”: o evangelista põe em destaque a falta de inteligência dos apóstolos, quando Jesus anuncia a sua morte e Ressurreição.

Agora cumprida à profecia, recorda aos discípulos a necessidade de todo seu padecimento e da sua Ressurreição.

A cruz é um mistério não só na vida de Cristo, mas também na nossa. Jesus sofre para cumprir a vontade do Pai… E tu, poderás queixar-te se encontrares por companheiro de caminho o sofrimento?

Aproveitemos o tempo Pascal para contemplarmos em nossas vidas a Ressurreição de Cristo.

 
 

Primeira leitura: At. 3,13-15.17-19

Pedro faz este discurso porque o povo se espantou com a cura do coxo que estava na porta do templo. O que são Lucas (autor dos Atos) quis transmitir com o discurso de Pedro?

1) Pedro atribui a cura não a ele e João como o povo estava pensando, mas ao nome de Jesus. O nome indica a essência da pessoa. Jesus significa “Deus salva”. A cura em nome de Jesus significa que Deus continua a libertar o seu povo através de Jesus. Seu poder e misericórdia se manifestaram no seu Filho Jesus e agora se manifesta naqueles que agem em seu nome. 

2) O mesmo Deus dos judeus continua sendo fiel às suas promessas de libertação e foi ele que glorificou o Servo Jesus. A expressão Servo lembra que em Jesus se realizam as profecias do Servo Sofredor do profeta Isaías; e que Jesus assume os pecados do povo, tira o pecado do mundo e, como cordeiro imolado, liberta o povo através do sofrimento e da morte.

3) Pedro denuncia o crime que o povo cometeu renegando Jesus, o Santo e justo trocando-o por um assassino que era Barrabás.

4) Jesus era o autor da vida e o povo o matou.

5) Mas Deus o ressuscitou dos mortos e os apóstolos são testemunhas disso.

6) Pedro tenta abrir o coração para compreender o pecado do povo e dos chefes deles a partir da ignorância deles a respeito de Jesus.

7) Mesmo através das linhas tortas da ignorância e do pecado do povo, Deus vai escrevendo certo. É assim que se cumprem as profecias a respeito do sofrimento do Messias.

8) Por fim, depois desta bela catequese sobre Jesus, depois da denúncia do mal, depois do desnudamento do pecado do povo, Pedro anuncia a possibilidade de perdão e vida: “Arrependam-se e convertam-se”.

Segunda leitura: 1Jo 2,1-5a

O autor anda preocupado com aqueles que difundem no seio da comunidade um modo de pensar errado, uma salvação através do conhecimento de Deus desvinculado da vida prática através do amor, da boa convivência, da luta pela transformação do mundo. Esse grupo só valorizava o espírito, não valorizava o corpo, as realidades da vida, e achavam que eles não tinham pecado. Eles diziam que conheciam a Deus, mas na prática não guardavam os mandamentos que podem ser sintetizados no amor a Deus e ao próximo. 

O que o autor ensina no trecho de hoje?

1) É preciso que cada um faça o esforço de não pecar, e a leitura da Palavra de Deus é uma grande ajuda. 

2) Se alguém pecar não deve desesperar, pois Jesus Cristo - o justo - é o nosso defensor junto ao Pai.

3) Quem é Jesus Cristo? É a vítima de expiação pelos nossos pecados e pelos pecados do mundo inteiro. Isto quer dizer que Jesus morreu para o perdão dos nossos pecados.

4) Os “gnósticos” carismáticos diziam que conheciam a Deus, mas não guardavam os seus mandamentos. (Gnósticos são aqueles que acreditam na salvação apenas através de um conhecimento especial de Deus e não através do mandamento do amor). O autor, então, afirma que sabemos que conhecemos a Deus pela prática dos mandamentos, do contrário estamos mentindo e a verdade não está em nós.

5) Mas aquele que guarda a palavra de Deus, ou seja, que vive o amor de Deus, é perfeito nele.

Evangelho: Lc. 24,35-48

É noite. Os discípulos de Emaús acabam de retornar a Jerusalém e encontrar com os apóstolos. Eles estão conversando sobre as aparições de Jesus. Apesar de todo o entusiasmo a luz da fé ainda não raiou no coração dos discípulos. Seus olhos ainda estão fechados, eles ainda não amadureceram a fé na ressurreição. Vejamos o tanto de expressões para mostrar que ainda estão na escuridão da fé: “Assustados”, “com medo”, “fantasma”, “preocupados”, “dúvidas no coração”, “não podiam acreditar”, “Jesus abriu os olhos dos discípulos para entenderem as Escrituras”. Vemos assim que a preocupação do evangelho é a fé na ressurreição corporal de Jesus. O que o evangelista apresenta para fortalecer esta fé dos apóstolos no tempo de Jesus, e a fé da comunidade do tempo do evangelista?

1) Jesus aparece desejando a paz - plenitude dos bens messiânicos: fé e vida.

2) Como Jesus percebe a falta de fé, a preocupação e a dúvida, ele mostra suas mãos e seus pés com as marcas do crucificado.

3) Jesus insiste que ele não é um fantasma e pede para eles tocarem no seu corpo, pois fantasma não tem carne nem ossos. 

4) Jesus pede alguma coisa para comer para mostrar que fantasma não come. Eles lhe deram peixe assado e Jesus comeu. Parece que a partir daí os discípulos ficaram mais tranquilos.

5) Então Jesus repete o que havia ensinado para os discípulos sobre o cumprimento das Escrituras a seu respeito. 

6) Depois Lucas diz claramente que Jesus abriu os olhos dos discípulos para entenderem as Escrituras. Jesus é o grande intérprete da Bíblia. É a partir dele que o Primeiro e Segundo Testamento ganham sentido. 

7) Misturando Is. 53,10 com Os. 6,2 Jesus relembra o anúncio profético de sua paixão, morte e ressurreição e o triunfo universal do projeto de Deus. É agora missão apostólica levar o anúncio de conversão e perdão a todos os povos.

8) Jesus apresenta Jerusalém como ponto de partida e o mundo como meta do testemunho apostólico.

dom Emanuel Messias de Oliveira

 
 

“Olhem minhas mãos e meus pés” (Lc. 24,35-48)

O Evangelho do 3º domingo da Páscoa está em continuidade à experiência de Emaús (Lc. 24,13-35). Lá os discípulos, embora instruídos nas Escrituras, só reconheceram Jesus ressuscitado depois que ele abençoou e partiu o pão. Agora, em Jerusalém, um novo reconhecimento se fez necessário. Parece que alguma coisa de estranho acontece com os seguidores de Jesus, pois novamente Jesus aparece e a incompreensão prevalece. Jesus muda de estratégia nesta aparição em Jerusalém. Encontra-se com eles e lhes deseja a Paz (24,36), assim como no Evangelho do segundo domingo da Páscoa (Jo 20,19-31). Não recrimina a dificuldade de compreensão dos dois discípulos de Emaús e nem a incredulidade, como a de Tomé. Desta vez, em Lucas, Jesus provoca o contato com a sua pessoa: Olhai as minhas mãos e os meus pés... Tocai-me... (24,39). Também não mostra o lado aberto como em João. A seguir, pede algo para comer (24,41). Só depois explica as Escrituras. “Abriu-lhes então o espírito, para que compreendessem as Escrituras, dizendo: Assim é que está escrito, e assim era necessário que Cristo padecesse, mas que ressurgisse dos mortos ao terceiro dia”. Por que os discípulos têm tamanha dificuldade de reconhecê-lo? Crer no ressuscitado constitui-se numa difícil experiência, que só pode ser captada a partir da fé que o próprio Jesus desperta em nós. Se não se “tocar as mãos e os pés” de Jesus, ou seja, se não se fizer uma experiência de adesão à pessoa dele e seu projeto, se não houver a alegria profunda, fruto daquele encontro pessoal, a ressurreição permanece um anúncio que soa como “desvario”. Jesus, após sua ressurreição, sem bater, sem atravessar a porta, “se apresenta”, manifesta-se corporalmente. “Mostra suas mãos e seus pés”. Mãos que operaram milagres, que tocaram em pessoas e situações, que revelaram o rosto misericordioso de Deus. Pés de um pregador itinerante, de um missionário incansável. Tanto as mãos quanto os pés do ressuscitado estão marcadas pelo que ele realizou na história. A fé na ressurreição verdadeiramente acontece quando se faz o que Jesus fez e quando se caminha pelos caminhos que Jesus andou. “Mostrou-lhes as mãos e os pés” – “façam o que eu fiz e andem pelos caminhos que eu percorri”!

irmã Zenilda Luzia Petry - IFSJ

 
 

Testemunhas

Na liturgia do tempo pascal temos as primeiras aparições de Cristo Ressuscitado aos apóstolos que tinham a missão de continuar a sua obra salvadora iniciada por Cristo. Eles continuam tendo muitas dúvidas. Cristo vai ao encontro deles, para fortalecer a sua fé profundamente abalada.

Em Lc. 24,35-48 o Ressuscitado aparece à comunidade e quer sua testemunha. Cristo está vivo e continua a ser o centro da comunidade. Jesus toma a iniciativa: aparece aos apóstolos e lhes deseja a Paz: A Paz esteja convosco! Os apóstolos se apavoram pensando ser Ele um fantasma. Jesus apresenta provas de sua identidade: Físicas, mostra os pés e as mãos, come com eles; Bíblicas, abre as inteligências para compreenderem as Escrituras que atestavam que Jesus devia padecer e ressuscitar. Aponta a missão: "Vós sereis minhas testemunhas!" Ser testemunha é conhecer, viver e anunciar a mensagem de Amor de Cristo. Ele continua vivo na Igreja através deles.

Em At. 3,13-15.17-19 vemos São Pedro cumprindo a Missão: Anunciando com coragem o Cristo Ressuscitado diante do povo: O Cristo, que vós matastes, Deus o ressuscitou dos mortos. E disso nós somos testemunhas. Agindo: provando com sinais que Jesus estava vivo. Cura o coxo na porta do Templo em nome de Jesus. – Pedro testemunha Jesus com palavras e gestos e faz um apelo ao arrependimento e à conversão, para o perdão dos pecados.

1Jo 2,1-5 nos lembra que devemos testemunhar, vivendo o que se conhece e se anuncia: Quem diz conhecer o Senhor e não vive a sua mensagem é mentiroso e a verdade não está nele! É um forte apelo à coerência entre Fé e Vida. É com a vida que demonstramos conhecer Deus. Se pecarmos, Jesus é o nosso intercessor junto do Pai.

No Evangelho, a Ressurreição de Jesus aparece como um fato real, mas assim mesmo os apóstolos não conseguiam acreditar facilmente. O caminho foi longo, difícil, penoso, carregado de dúvidas e incertezas. O caminho espiritual para chegar à fé continua o mesmo. Como os apóstolos, também nós podemos ver Cristo ressuscitado, no meio das dúvidas, incertezas e medos.

Quando nos reunimos em comunidade, ele está conosco. Aos poucos os nossos olhos se abrem e nós descobrimos que, quem morre com Ele, com Ele entra na plenitude da vida de Deus.

O texto nos apresenta estes elementos:

Os discípulos descobriram a presença de Jesus, vivo e ressuscitado, na comunidade. Cristo continua a ser o centro onde a comunidade se constrói e se articula.

Jesus Ressuscitado é o Filho de Deus que reentrou no mundo de Deus, mas não desapareceu da nossa vida, nem da vida da Comunidade.

As dúvidas dos discípulos mostram a dificuldade do caminho da fé, até o encontro pessoal com o Senhor Ressuscitado. Foi uma longa caminhada de amadurecimento da fé.

O gesto de tocar e comer mostra que o encontro dos discípulos com Jesus Ressuscitado foi um fato real e palpável.

O Ressuscitado revela as Escrituras. A comunidade deve reunir-se com Jesus Ressuscitado para escutar a Palavra que ilumina nossa vida e ajuda a descobrir os caminhos de Deus na história.

Os discípulos recebem a Missão de serem testemunhas de tudo isso.

A raiz da Missão é o Encontro com o Ressuscitado e a compreensão das Escrituras. Viver e anunciar essa novidade é a Missão da comunidade eclesial, que vive do amor e da presença do Senhor.

Cristo continua precisando ainda hoje de testemunhas: Nós somos chamados a ser testemunhas da presença do Ressuscitado, através de nossas Palavras e Ações. Até que ponto, somos Testemunhas de Cristo: conhecendo, vivendo, e anunciando essa mensagem? Não adianta proclamar que Jesus ressuscitou e não viver o projeto do Reino que ele anunciou e viveu. Cristo ainda hoje continua nos lembrando: Vocês também devem ser minhas testemunhas.

O que pretendemos testemunhar nesta semana?

dom Antonio Emidio Vilar

 
 

A Páscoa nos compromete a uma vida nova em

Cristo Jesus, vivo e glorioso entre nós

Vida nova que implica nos arrepender dos nossos pecados e nos converter (1ª leitura). Vida nova de santidade, graças ao perdão dos pecados oferecido por Cristo como vítima de expiação pelos nossos pecados (2ª leitura). Vida nova que temos que transmitir aos nossos irmãos para voltarem também a Deus (evangelho).

Em primeiro lugar, a Páscoa supõe um encontro com o Cristo ressuscitado e glorioso, através da Igreja, através da carne do nosso irmão em quem palpita a vida divina e, finalmente, através dos sacramentos, onde deixou a sua pegada invisível e presentes visíveis, que o Cristo Pascal nos deixou para derramar e compartilhar conosco a vida divina. O cristianismo é justamente o encontro com uma pessoa viva, Jesus Cristo, quem o Pai ressuscitou vencendo as ataduras do pecado e da morte. Agora bem, o encontro com Cristo ressuscitado pede de cada um de nós um viver a vida nova que Cristo ganhou com a sua morte e ressurreição. Vida nova que implica nos arrepender dos nossos pecados, causantes do sofrimento e da morte de Cristo Jesus; implica deixar a nossa vida antiga e mundana, como tantas vezes nos pede o Papa Francisco. Este arrependimento nos levará a nos ajoelhar diante do sacramento da Penitência, onde o sangue de Cristo nos lava, nos santifica e volta a brilhar em nós a vida nova do Ressuscitado.

Em segundo lugar, esta vida nova nos lança a uma vida de santidade, que não significa ser imaculados, porém uma luta contra o pecado na nossa vida. São João na segundo leitura de hoje nos urge para não pequemos. O pecado ofende a Deus, que ingratidão para com o nosso Pai Deus! O pecado ofende a Cristo, que pena para o nosso Amigo e Redentor! O pecado ofende a Igreja, que falta de amor filial! O pecado ofende a nossa dignidade cristã, que vergonha! Cristo se imolou como vítima de expiação pelos nossos pecados. Portanto, Ele já destruiu o pecado com a sua morte. O que temos que fazer é cumprir com amor e por amor os mandamentos de Deus; seguirá dizendo são João na sua carta. Cumprindo os seus mandamentos e os nossos deveres do próprio estado estamos demonstrando a vida nova em nós.

Finalmente, não podemos guardar a vida para nós. Temos que transmitir aos nossos irmãos esta vida nova, para que todos os que passarem do nosso lado também experimentem os efeitos da vida de Cristo ressuscitado através de nós, do nosso testemunho e da nossa palavra. Somos testemunhas diante do mundo de que Cristo vive, de que ressuscitou, de que está presente na sua Igreja e em cada um de nós que tratamos de levar uma vida santa, cheia de caridade e justiça. Assim fez Inácio de Loiola com Francisco Xavier quando estudavam em Paris. Assim fez José de Anchieta com os índios quando veio para o Brasil no século XVI. Assim fez João Bosco com esses garotos aos quais ensinava artes e ciência, e por isso gritava “dai-me almas, Senhor, e tirai-me o resto”. Assim fez o Cura de Ars ao chegar à sua paróquia, depois de anos abandonada ao pecado e à dissolução de costumes. E assim fazem tantos, missionários, missionárias, consagrados e laicos convencidos de Cristo, que se lançam a pregar a mensagem evangélica, para que ninguém fique fora da salvação trazida por Cristo Jesus, com a sua morte e a sua ressurreição.

 

Para refletir

São Paulo resume assim a vida nova de quem ressuscitou com Cristo: “Sereis assim limpos e irrepreensíveis; sereis filhos de Deus sem mancha no meio de uma geração má e perversa, entre a qual deveis brilhar como lâmpadas no meio do mundo, mantendo com firmeza a palavra de vida” (Flp. 2,15-16).

 

Para rezar

Senhor, revesti-me da vossa vida nova. Que eu lute cada dia com todo o meu ser contra o pecado. E que contagie ao redor de mim esta vida nova de santidade.

padre Antonio Rivero

 
 

"Testemunhando a fé no nome de Jesus ressuscitado"

O Evangelho (Lc. 24,35-48) narra mais uma aparição de Jesus ressuscitado aos discípulos que têm muitas dúvidas e estão atônitos. Cristo vai ao encontro deles para fortalecer-lhes a fé e dizer-lhes: “Vós sereis testemunhas de tudo isso” (Lc. 24,48).

Os discípulos de Emaús contaram o que tinha acontecido no caminho e como haviam reconhecido Jesus na fração do pão. Falavam ainda, quando o próprio Jesus se apresentou no meio deles e disse: “A paz esteja convosco”. Diante da dúvida dos discípulos, Jesus lhes mostra as chagas das mãos e dos pés. Pede-lhes, enfim, de comer. Apresentam-lhe um pedaço de peixe assado. Jesus o tomou e comeu diante deles.

A seguir passa a interpretar as Escrituras: “Era preciso que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”. Então abriu-se-lhes a mente para que entendessem as Escrituras, e disse-lhes: “Assim está escrito que o Messias devia sofrer e ressuscitar dos mortos ao terceiro dia, e que, em seu nome, fosse proclamada a conversão para a remissão dos pecados a todas as nações, a começar por Jerusalém. Vós sois testemunhas disso”.

Esta missão impossível é aquilo que vemos realizar-se no trecho bíblico de At. 3,13-19. Na manhã de Pentecostes, Pedro diz ao povo de Jerusalém: Matastes o Príncipe da Vida, mas Deus o ressuscitou dentre os mortos: disso nós somos testemunhas […]. Arrependei-vos, portanto, convertei-vos, para que vossos pecados sejam apagados. Embora tendo ficado poucos e sozinhos, com o encargo de pregar o Evangelho em todo o mundo (Mc. 16,15), os apóstolos não desanimam; sabiam que sua missão era uma só: dar testemunho do que tinham ouvido e visto cumprir-se em Jesus de Nazaré; o resto o teria feito Ele mesmo agindo junto com eles e confirmando Sua Palavra com os prodígios (At. 1,22). A este Jesus, Deus o ressuscitou: do que todos nós somos testemunhas é o resumo de sua pregação (At 2,32; 5,15; 10, 40). Nós vimos a Vida e lhe damos testemunho (1Jo 1,2).

Esse testemunho levou a todos, um depois do outro, ao martírio; no entanto, porém, em poucos decênios se cumpriu aquilo que antes parecia uma missão impossível aos homens a divulgação do Evangelho em todo o mundo, fazendo discípulos todos os povos.

Os apóstolos não demoraram a descobrir que não estavam sozinhos para dar testemunho de Jesus; outra testemunha, silenciosa, mas irresistível, se unia a eles toda vez que falavam de Jesus, o Espírito Santo: Deste fato nós somos testemunhas, nós e o Espírito Santo, que Deus deu a todos aqueles que lhe obedecem (At 5,32). O Espírito da Verdade, que procede do Pai- tinha predito Jesus -, ele dará testemunho de mim. Também vós dareis testemunho (Jo 15,26).

Ser testemunha é conhecer, viver e anunciar a mensagem de amor, que Cristo trouxe.

A Ressurreição de Jesus, no Evangelho, aparece como um fato real, mas assim mesmo os apóstolos não conseguiam acreditar facilmente. O caminho foi longo, difícil, penoso, carregado de dúvidas e incertezas.

O caminho espiritual para chegar à fé continua o mesmo.

“Tocai em mim”, diz Jesus. O gesto de tocar nos ensina que o encontro dos discípulos com Jesus ressuscitado foi um fato real e palpável.

Também o Ressuscitado revela o sentido profundo das Escrituras.

Cada um de nós, a comunidade, deve reunir-se com Jesus ressuscitado para escutar a Palavra, que sempre ilumina a nossa vida e nos ajuda a descobrir os caminhos de Deus na história…

1 leitura: At. 3,13-15.17-19

Pedro, nos Atos dos Apóstolos, depois de recordar a paixão de Jesus, declara na presença de todo o povo: “Deus o ressuscitou de entre os mortos e nós somos testemunhas”. As testemunhas se apresentam de acordo com a substância da mensagem que anunciam. Os discípulos viveram essa mensagem até as últimas consequências, selando muitas vezes sua pregação com o martírio. O testemunho da vida é a prova mais incontestável da verdade do evangelho. Se somos discípulos missionários de Jesus, somos também as testemunhas preferenciais da boa-nova da sua ressurreição por meio de nossa palavra e ação. As pessoas somente acreditarão na palavra do evangelho quando virem esse mesmo evangelho refletindo e atuando em nossa existência.

O episódio aconteceu na porta do templo e causou profundo impacto tanto naquele que pedia esmola quanto nas pessoas que transitavam pelo local: “E ficaram cheios de admiração e de espanto com o que lhe havia acontecido” (v. 10). Pedro e João eram discípulos comprometidos com a oração e sabiam de sua responsabilidade de discípulos. E bem ali, no pórtico de Salomão, aproveitando a oportunidade, testemunham sobre o Ressuscitado. Todavia, Pedro faz questão de que as pessoas desviem o olhar dele, para se fixarem em Jesus. Pedro sabe que não é ele próprio o centro das atenções: “E por que ficam olhando para nós tão atentamente, como se nós, com nosso próprio poder e piedade, tivéssemos feito esse homem caminhar?” (v. 12). Pedro redireciona o olhar da multidão. Ao apontar para Jesus, Pedro e João se afastam dos holofotes e afirmam que a cura somente aconteceu em decorrência da fé no seu nome e ressurreição, mas simultaneamente indicam que a restituição da saúde daquele homem também se configurava como uma denúncia ao julgamento que condenou a Jesus.

A fé no nome e na ressurreição de Jesus provoca um estado novo nas situações de antivida. A fé em Jesus expulsa os horrores do caos que impõe medo e afasta as pessoas de gestos de solidariedade. A cura de determinado homem acontece não por meio de magia ou de algum conhecimento secreto; assim como também não acontece por causa de Pedro e João. A fonte da cura reside unicamente em Jesus: “Pela fé no nome de Jesus, é pelo seu nome que foi fortalecido este homem que vocês estão vendo e reconhecendo” (v. 16). Diante desse fato inegável, Pedro pode insistir num convite ao arrependimento e à conversão: “Arrependam-se, portanto, convertam-se, para que os pecados de vocês sejam perdoados” (v. 19).

2ª leitura: 1 Jo 2,1-5a

Na segunda leitura, João insiste no papel que a ação possui no testemunho: “E nisto sabemos que o conhecemos: em que guardamos seus mandamentos. Quem diz: ‘Eu o conheço’ e não guarda seus mandamentos, é um mentiroso e a verdade não está com ele”. O amor de Deus se realiza plenamente em quem guarda sua palavra. Não se conhece a Deus teoricamente. Não é suficiente saber que ele existe. É fundamental vivenciá-lo no cotidiano, com base na prática de seus mandamentos. A vida de Jesus não pode ser resumida a uma teoria nem muito menos a uma bela história. Discípulos verdadeiros são aqueles que engravidam o cotidiano de Jesus Cristo.

João é muito explícito quando escreve: “o amor de Deus se realiza plenamente em quem guarda sua palavra” (v. 5). A plenitude de Deus e de seu amor em nós passa pela ação e neutraliza a passividade. Um amor que nos tira da zona de conforto e nos leva em direção ao outro. A observância dos mandamentos tem como ponto mais fundamental justamente o amor entre os membros da comunidade. Plenificados do amor de Deus, rompemos com o egoísmo e o isolamento e semeamos solidariedade. No Antigo Testamento, principalmente nos profetas, o conhecimento de Deus passa pelos gestos de solidariedade e de compromisso com os mais fracos. Pode-se dizer, portanto, que tantas e quantas vezes formos em socorro dos mais pobres, também estaremos indo ao encontro de Deus e de seu conhecimento (veja Jeremias 22,13-19).

Evangelho: Lc. 24,35-48

De que valem as testemunhas? O relato de Lucas sugere, antes de mais nada, a insuficiência do contato visual somente. A cena impressiona: assustados, os onze e seus companheiros imaginam que veem um fantasma. A palavra do Ressuscitado é acrescentada à sua aparência e os discípulos passam a compreender melhor. No entanto, os que ouvem ficam ainda mais surpresos com a ação dele: Jesus come diante deles um pedaço de peixe assado.

Jesus ressuscitado aparece em meio ao cotidiano dos discípulos. Eles estavam conversando sobre os últimos acontecimentos quando o Mestre se apresenta. Não se tratava de um delírio ou de mera sugestão da mente. Jesus faz questão de que, diante do medo e da perturbação sentida, eles o toquem. Não, realmente não se tratava de um espírito. Trata-se, sim, da restauração da dignidade plena e total do ser humano. A morte e a ressurreição de Jesus são a leitura que a comunidade dos discípulos faz de sua solidariedade numa situação limite do ser humano. Um Deus que não abandona o ser humano numa situação crítica e ainda infunde esperança. A ressurreição é consequência de Jesus preso à cruz; e a cruz simbolicamente não está ligada a nenhum bem: nela reside o encontro da dor, do sofrimento e do fracasso. Entretanto, na ressurreição nasce a promessa e a esperança de que não haja mais pobres.

A dúvida e o receio a que Jesus faz referência: “Por que vocês estão perturbados? E por que surgem dúvidas no coração de vocês?”, certamente dizem respeito à sua inusitada presença, mas também podemos refletir sobre os medos que rondavam os discípulos relativamente às ameaças que pairavam no ar por conta do assassinato de Jesus, bem como sobre as dúvidas que povoavam os corações: “Que será de nós e de nosso movimento? Será que tudo acabou?”

Nota-se algo fundamental nas palavras de Jesus para entender a qualidade radical do seu projeto – a presença central das Escrituras: “‘São estas as palavras que eu lhes falei quando ainda estava com vocês. Tinha de se cumprir tudo o que sobre mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos’. Então abriu a inteligência deles, para que compreendessem as Escrituras” (Lc 24,44-45). Definitivamente, não há como ser discípulo distanciado das Sagradas Escrituras. Nela nos alimentamos diariamente com o projeto libertador e salvador de Jesus Cristo, manifestado desde a ação solidária de Javé libertando os escravos no Egito.

Para Refletir

A Palavra de Deus deste Domingo do Tempo Pascal recorda-nos um fato histórico tremendo, ao mesmo tempo misterioso e doloroso: os judeus, povo que esperou o Messias, não acolheu o Messias! E tudo terminou num desastre: “Vós rejeitastes o Santo e o Justo. Vós matastes o Autor da vida. Vós o entregastes e o rejeitastes diante de Pilatos”. Eis, caríssimos: misteriosamente o Povo de Deus do Antigo Testamento não foi capaz de reconhecer o Messias que lhe fora enviado e o entregou a Pilatos, que o mandou crucificar. Não culpemos os judeus. A própria Palavra do Senhor afirma: “Eu sei que agistes por ignorância, assim como vosso chefes. Deus, porém, cumpriu desse modo o que havia anunciado pela boca de todos os profetas: que o seu Cristo haveria de sofrer”. Que mistério, amados irmãos: na rejeição dos judeus, que terminou levando Cristo à cruz, o plano de Deus estava sendo cumprido! O próprio Senhor ressuscitado afirma a mesma coisa no Evangelho de hoje: “Assim está escrito: ‘O Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia, e no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações”.

Mas, por que deveria ser assim? Por que o plano de Deus deveu passar pela cruz, tão feia, tão humilhante, dolorosa e sofrida? Com piedade e unção, procuremos contemplar um pouquinho tão grande e santo mistério. A cruz fazia parte do plano de Deus, caríssimos, primeiramente porque nela se manifesta o que o pecado fez com o homem e do que o homem pecador se tornou capaz: de matar Deus e se desgraçar. A humanidade pecadora – esta, que vemos hoje – de tal modo se fechou para Deus que o está matando (recordem a mais recente punhalada: uma obra de arte blasfema numa exposição no Centro Cultural do Banco do Brasil no Rio de Janeiro. Lá apresentaram dois terços da Virgem Maria em forma de órgão genital masculino. Os católicos protestaram. E o ministro da cultura do Governo Lula, o Gilberto Gil ficou indignado com os católicos; e muitos artistas foram à rua protestar contra esses católicos reacionários. É a lógica do mundo atual: massacrar Deus, ridicularizá-lo, matá-lo no coração dos homens e do mundo). Desde o início da história temos matado Deus, renegando-o, desobedecendo-o, colocando-o em último lugar… Mas, quando fazemos isso, nos destruímos, nos desfiguramos, edificamos a nossa vida pessoal e social sobre a areia. Na cruz de Jesus, Deus nos mostra isso: a gravidade do nosso pecado, o desastre que é fechar-se para o Senhor. Num mundo que brinca com o pecado e já não leva a sério a gravidade de pecar, olhemos a cruz e veremos o que nosso pecado provoca! Não deixará nunca de impressionar a frase de São Pedro na primeira leitura de hoje: “Vós matastes o Autor da Vida!” – Eis! Com o nosso pecado, matamos aquele que é a Vida e nos matamos a nós!

Mas, a cruz revela também, com toda a força, até onde Deus é capaz de ir por nós: ele é capaz de se entregar, de dar sua vida por nós! No seu Filho o Pai nos entrega toudo de precioso que ele tem! No Filho feito homem de dores, humilhado e derrotado, nós podemos compreender o quanto somos amados por Deus, o quanto ele nos leva a sério, o quanto é capaz de descer para nos procurar! Contemplemos a cruz e sejamos gratos a Deus que se entrega assim!

Finalmente, a cruz revela a estupenda, desconcertante, fidelidade de Deus: nela descobrimos o verdadeiro nome do nosso Deus. E o seu nome é Fidelidade, o seu nome é Amor. Primeiramente fidelidade e amor do Pai em relação ao Filho. Ao Filho amado que se entregou ao Pai por nós, Deus-Pai o ressuscitou e deu-lhe toda glória. É o que anuncia a primeira leitura de hoje: “O Deus de nossos Pais glorificou o seu servo Jesus. Vós matastes o Autor da Vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos!” Que mistério, meus irmãos! O Filho, entregue ao Pai com toda a confiança e todo o abandono, o Filho, feito homem de dores, agora é glorificado pelo Pai e colocado no mais alto da glória. Deus jamais abandona os que a ele se confiam. Podemos imaginar o Senhor Jesus dizendo as palavras do Salmo de hoje: “Eu tranqüilo vou deitar-me e na paz logo adormeço, pois só vós, ó Senhor Deus, dais segurança à minha vida!” O nosso Salvador adormeceu no sono da morte certo que o Pai o despertaria para a vida da glória! Sim, o Pai é Fidelidade, o Pai é Amor! Mas, é também fidelidade e amor para conosco. Efetivamente, tudo quanto aconteceu com o Filho na cruz foi por nós, para nossa salvação, para que o nosso pecado, a nossa situação de miséria, encontrasse expiação. Eis como a Palavra de Deus deste hoje insiste nisso: “Se alguém pecar, temos junto do Pai um Defensor: Jesus Cristo, o Justo. Ele é a vítima de expiação pelos nossos pecados, e não só pelos nossos, mas também pelos do mundo inteiro”. E o próprio Jesus afirma no Evangelho que “no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações”. Meus caros em Cristo, na cruz e ressurreição do Senhor, Deus, amorosamente nos concedeu o perdão dos pecados!

Então, que temos de fazer para corresponder a tanto amor, a tão grande graça? Três coisas: primeira: crer em Jesus, o Enviado do Pai, que por nós morreu e ressuscitou: “Convertei-vos para que os vossos pecados sejam perdoados!” Quem crer em Jesus, quem diante dele reconhecer-se pecador e o acolher como o Salvador e nele colocar a vida, nele encontrará o perdão que vem pela cruz e a ressurreição. Segunda coisa: viver na Palavra do Senhor: “Para saber se o conhecemos, vejamos se guardamos os seus mandamentos. Naquele que guarda a sua palavra, o amor de Deus é plenamente realizado”. A fé, caríssimos, não é um sentimento nem uma teoria. Nossa fé em Jesus morto e ressuscitado deve levar a um compromisso sério e radical com o Senhor na nossa vida concreta. Quem não guarda os mandamentos, não crê! Quem não crê, fecha-se para a salvação! Terceira coisa: testemunhar Jesus morto e ressuscitado: “Vós matastes o Autor da vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos. Disso nós somos testemunhas!” E Jesus diz: “Vós sereis testemunhas de tudo isso!” Caros meus, nós não conhecemos Jesus de um modo teórico. Nós o experimentamos na força da sua Palavra e na graça dos seus sacramentos, sobretudo na participação na Eucaristia. Jesus, para nós, não é um fantasma! “Por que estais preocupados tendes dúvidas no coração? Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo!” Sim, meus caros, quantas vezes tocamos Jesus, sentimo-lo vivo, caminhando conosco! Tenhamos, então a coragem de nele crer, de nele viver e dele dar testemunho onde quer que estejamos e onde quer que vivamos. Jesus não é um fantasma! Jesus está vivo! Jesus é Senhor! E que a sua paz, a sua vitória e o seu perdão estejam sempre conosco. Amém.’

 

 
 

Por que ainda duvidas?

Os discípulos de Emaús e voltaram para a comunidade e contaram a experiência que tiveram no caminho. Aqueles que tiveram o coração abrasado pela Palavra e que reconheceram o Senhor no partir do Pão estavam tão maravilhado, que não podiam deixar de contar aos amigos sua experiência. A Igreja faz isso há séculos: conta a história do passado, transmite seu legado marcado pela experiência de fé de homens e mulheres. Mais do que isso: faz a memória do passado, atualiza a história da salvação, a presença do Cristo Ressuscitado.

Porém, o anúncio dos discípulos não foi o suficiente. Mesmo a aparição do próprio Cristo não tirou todas as dúvidas do coração da comunidade reunida. O texto do Evangelho nos diz que estavam tão alegres que ainda não foram capazes de acreditar no que viam. No dizer popular: era bom demais para ser verdade! Jesus deseja dissipar o medo, mas ainda encontra discípulos vacilantes, que tardam em acreditar. Mesmo diante dos sinais da vitória do Senhor, somos ainda tantas vezes tardos em crer.

A aparição de Jesus tem um aspecto pedagógico importante. O Senhor insiste sobre sua presença real: os discípulos podem O tocar e verificar que Ele tem carne e osso, que pode comer peixe assado. Portanto, não é uma aparição fantamasgórica.

Esta insistência de Jesus mostra a continuidade entre o Ressuscitado e o Jesus humano. A ressurreição é uma nova realidade – Jesus não está condicionado ao tempo e ao espaço, mas o Ressuscitado é o mesmo Jesus que comia, bebia e conversava com sua comunidade de discípulos, o mesmo que morreu na cruz. Por isso, traz nas mãos e pés as marcas da crucificação. Os pés surrados que calçavam rudes sandálias e que o levaram pelas estradas empoeiradas da Palestina. As mãos que tanto acolheram e mostraram amor. Mãos e pés agora feridos por chagas estão presentes no corpo do Ressuscitado. Também nossas mãos deveriam ter as marcas do amor, e nossos pés os instrumentos dos passos de entrega.

A Páscoa é a junção da vida, morte e ressurreição de Jesus. Este é o anúncio querigmático dos apóstolos: “Este Jesus que viveu entre nós, por nós condenado e morto, ressuscitou, está vivo!” A Igreja iria proclamar a totalidade do mistério. Seria um erro enfatizar apenas uma destas duas etapas da vida de Cristo. Por um lado, os discípulos poderiam ficar com saudade do Jesus que vivia com eles (em um dos relatos Jesus pede que Maria Madalena não o detenha  no seu retorno ao Pai). Por outro, poderiam ficar com a felicidade da ressurreição e esquecer de todas as ações e palavras de Jesus de Nazaré. Hoje se corre o risco de uma visão unilateral sobre Jesus. Muitos têm apenas o Cristo da Glória e vivem uma fé vertical ou que se limita a uma experiência religiosa sem consequências na vida. Outros têm Jesus como um mestre, mas perderam a dimensão da fé Naquele que venceu a morte e está conosco presente até o fim dos tempos.

Sem isolar alguma dimensão de Cristo, acreditamos que a vida de Deus encarnado se dá no cotidiano, na nossa inserção no mundo e no enfrentamento das cruzes do dia a dia. Por outro lado, temos a certeza que a vida com suas contingências será superada pela vida nova oferecida pelo Senhor ressuscitado. Mas somente chegaremos à glória pela cruz. Assim, não existe vida e morte sem ressurreição, como não existe ressurreição sem a nossa história. A Palavra nos convida a viver a totalidade do mistério cristão, oferecendo nossa vida, enfrentando as lágrimas da existência, enquanto esperamos a vitória de toda dor e sofrimento.

Diante do mistério da cruz e ressurreição, não podemos ficar de braços cruzados. No final do discurso de Pedro, há um convite à conversão. A segunda leitura nos convida a romper com o pecado.  Jesus, o Cristo, convida-nos a não termos medo. Que o Tempo da Páscoa nos traga vida nova de ressuscitados. Que vençamos as mortes diárias e enchamos o mundo  com a Ressurreição, com a vida de Deus.

padre Roberto Nentwuig

 

 
 

Testemunhar a alegria da paz pascal

O domingo é o dia mais importante da semana. Não pelo feriado e pelo descanso. Mas, porque nele celebramos o sentido cristão da vida. Nós amamos Jesus, trazemos em nosso ser desde o batismo o selo, a marca de sua vida nova, a energia de sua ressurreição e vamos à Igreja oferecer-nos no altar do Senhor. E aí “saboreamos” a alegria, a união fraterna, a partilha da fé comum nele. Conforta-nos a paz pascal, a mesma que rompeu os grilhões da morte e do pecado com a glória do Cristo ressurgindo vitorioso do túmulo.  Dedicado a Ele, o domingo é a sua páscoa continuada. Ele é o Senhor!

Em latim a palavra “senhor” se traduz como “dominus”. Aquele que tem o domínio. É o soberano. Desde o começo os cristãos introduziram o domingo no calendário semanal porque viram a ressurreição de Jesus sinalizando um novo começo na história. Um dia novo. O primeiro dia de uma nova criação, o princípio de uma nova humanidade. “Este é o dia que o Senhor fez para nós: alegremo-nos e nele exultemos!” (Salmo 117). Consideraram o corpo glorificado de Jesus Cristo o início e o fundamento da nova realidade do ser humano e de toda a História. O homem, a história, a vida e todo o universo foram resgatados e reconciliados com Deus através da obediência filial fidelíssima que o humano Jesus de Nazaré vivera no seu relacionamento com o Pai celeste. Deus o recompensou e constituiu Senhor dos vivos e dos mortos. Por isso desde os seus primórdios a comunidade cristã apresentava Jesus crucificado sob esse título: o Senhor! Ideia-chave do Novo Testamento. O livro do Apocalipse descreve as relações entre Deus e os homens por causa de Jesus como a “um novo céu e a uma nova terra” (21,1). Jesus ressuscitado “fez novas todas as coisas. Ele é o princípio e o fim” (21,5-6).

O tempo pascal do calendário cristão nos ajuda a sentir e viver a Páscoa de modo concreto, não só celebrativo. É real! Está em nosso poder atualizá-la em todas as situações de sofrimento, violência, injustiça e morte. O que é preciso fazer? Antes de tudo acreditar. É o que nos ensina a comunidade dirigida por São Lucas sobre a nova vida de Jesus ressuscitado. Leia: Lucas, 24,35-48.

Numa só catequese Lucas nos oferece três narrativas das aparições de Jesus. Ele aparece às mulheres que de madrugada foram ao túmulo para terminar o trabalho fúnebre de preparação do cadáver a ser sepultado. Aparece aos dois discípulos de Emaús quando voltavam para casa desconsolados com o final trágico do Mestre. Liga-se a este encontro uma terceira aparição a todos os discípulos reunidos. Justamente quando os dois de Emaús contavam aos outros sua surpresa no encontro e reconhecimento de Jesus na ceia “ao partir o pão”. Ele mesmo surge no ambiente.

O evangelho de Lucas sugere nesta passagem que a fé na ressurreição de Jesus foi se firmando progressivamente nas comunidades cristãs. Só aos poucos os discípulos se desfizeram de suas dúvidas, desconfianças e dificuldades em crer. Escrevendo lá pelos anos 70 DC Lucas se inspira nas tradições conservadas em meio aos grupos cristãos. Inclusive esse contato coletivo dos apóstolos com o Mestre ressuscitado. O ensino subjacente nesta terceira aparição é eliminar toda e qualquer suspeita que perturbasse a fé e a compreensão racional dos cristãos sobre Jesus. Pois as teorias filosóficas gregas sobre o que acontecia após a morte com o homem poderiam causar confusão semeando dúvidas na fé em Jesus. Na ressurreição o seu corpo recebera um estado glorioso. Não se tratava de nenhum “fantasma” ou de um “espírito desencarnado” visível.

Note-se a repreensão que o ressuscitado faz aos discípulos assustados e cheios de medo: “… por que tendes dúvidas no coração? Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo! Tocai em mim e vede!”. E o texto reafirma: mesmo vendo as chagas de Jesus nas mãos e nos pés “eles ainda não podiam acreditar, porque estavam muito alegres e surpresos.” Era uma experiência que de tão maravilhosa não podia ser verdade! Mais um indício de que a fé na ressurreição de Jesus foi se firmando aos poucos. A alegria veio após a insegurança inicial, mas não foi produzida por uma fantasia ou por uma saudade muito grande. A narração nos diz que Jesus apresentou aos discípulos provas de sua corporeidade real, mesmo se incompreensível à inteligência. Comeu diante deles um pedaço de peixe assado. A fé na ressurreição do Senhor não foi obra de imaginação dos apóstolos. Eles compreenderam corretamente os anúncios da Escritura sobre o Messias. Possuídos pela Boa Nova sentiram a necessidade de comunicá-la aos outros como testemunhas do Cristo ressuscitado.

Aplicação mariana

Maria esteve como sempre envolta na simplicidade profunda de sua fé junto à descoberta que os apóstolos e os outros faziam sobre a nova realidade de Jesus. Ela não precisava de “provas” ou raciocínios. Vivia num estado único de amor, à luz da fé confirmada. Hoje precisamos de seu exemplo, de sua presença silenciosa em nossa peregrinação pascal. Mais de dois mil anos depois é a nossa vez de crer e de anunciar a mesma fé vivida por ela. O mundo e os homens estão aí esperando nosso testemunho cristão. Ou ainda temos nossas dúvidas como os apóstolos? Busquemos a alegria pascal da comunidade reunida. Nela se encontra o Senhor vivo e vencedor sobre o pecado e a morte. E nela, Maria é a sob todos os títulos nosso amparo, refúgio e proteção.

padre Antonio Clayton Sant’Anna – CSsR

 
 

A narrativa dos discípulos de Emaús é exclusiva de Lucas (cf. 11 abr.). A estrutura da narrativa assemelha-se à estrutura celebrativa da Eucaristia: a escuta da palavra e a partilha do pão, na qual se reconhece a presença de Jesus.

Os dois discípulos retornam a Jerusalém para contar o que havia acontecido no caminho, e comunicam aos apóstolos reunidos o reconhecimento de Jesus na partilha do pão. Quando estão falando, o próprio Jesus aparece no meio deles. O encontro com Jesus é o encontro com a paz. É a paz em plenitude, a paz da participação da vida eterna do Pai, que Jesus traz a todos.

Mesmo depois da crucifixão de Jesus, os discípulos continuavam com dúvidas sobre o sentido de sua vida. Agora se evidencia que Jesus não foi destruído pela morte e sua missão de anunciar a conversão para participar da vida eterna deve ser continuada pelos discípulos em todas as nações. Jesus tem a vida eterna. Ele continua vivo. Não se trata de um espírito, como era admitido aos mortos em várias culturas e religiões, mas continua vivo em sua corporalidade. É o próprio Jesus de Nazaré, com o qual os discípulos conviveram por alguns anos.

Este texto de Lucas tem um sentido catequético para as comunidades de cristãos de origem judaica, as quais devem reler as escrituras sob a ótica da ressurreição, para perceberem a plenitude da vida de Jesus, e o distinguirem do tradicional messias glorioso esperado por Israel. O equivoco desta tradicional expectativa messiânica fica em evidência na fala de Pedro aos "homens de Israel", diante do Templo de Jerusalém, declarando que eles mataram Jesus, o qual, contudo, foi ressuscitado por Deus (primeira leitura).

As comunidades de discípulos devem viver na paz, conscientes da presença de Jesus. A paz é aspiração de todos os povos e religiões. Quem faz a guerra contra a paz são os poderosos na conquista de mais riqueza e poder. A paz pode ser encontrada em Jesus, que tem a vida eterna e a comunica a todos.

O anúncio da conversão para o perdão dos pecados tem sua origem na pregação de João Batista. Jesus a assume e a aponta como o caminho para a vida eterna. Trata-se da conversão à prática da justiça, na plenitude do amor, pela qual o pecado é removido do mundo. Na observância da palavra de Jesus, o amor de Deus é plenamente realizado (segunda leitura).

Os discípulos de Jesus, em todos os tempos e povos, são convocados a testemunhar que um mundo novo onde reinem a paz e o amor, revestido de eternidade, é possível.

 
 

A liturgia da Palavra deste 3º domingo do tempo pascal recorda-nos um fato histórico, ao mesmo tempo misterioso e doloroso: o povo judeu que esperou o Messias, não O acolheu! E tudo terminou numa negação a Deus: “Vós rejeitastes o Santo e o Justo. Vós matastes o Autor da vida. Vós o entregastes e o rejeitastes diante de Pilatos”, conforme escutamos são Pedro na primeira leitura. O Povo de Deus do Antigo Testamento não foi capaz de reconhecer o Messias que lhe fora enviado e entregou-O a Pilatos, que O mandou crucificar. No entanto, não sejamos demasiado rápidos a culpabilizar os judeus. A própria Palavra do Senhor afirma: “Eu sei que agistes por ignorância, assim como os vossos chefes. Deus, porém, cumpriu o que havia anunciado pela boca dos profetas: que o seu Ungido haveria de padecer”.

Que mistério, amados irmãos: na rejeição do povo judeu, que terminou levando o Senhor à cruz, o plano de Deus estava assim a cumprir-se! O próprio Senhor ressuscitado afirma a mesma coisa no Evangelho de hoje: “Assim está escrito: ‘O Messias há-de sofrer mas ressuscitará dos mortos ao terceiro dia, e no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações”.

Mas, qual o porquê destes acontecimentos? Porquê o plano de Deus tinha de passar pela cruz, tão humilhante, dolorosa e sofrida? Com piedade e unção, procuremos contemplar um tão grande e santo mistério. A cruz fazia parte do plano de Deus, primeiramente, porque na cruz se manifesta o que o pecado fez com o homem e do que o homem pecador se tornou capaz: de matar a Deus e se desgraçar. A humanidade pecadora – esta, que vemos hoje – de tal modo se fechou para Deus que O continua a matar, afastando-O da sua existência. Desde o início da história temos rejeitado Deus, renegando-O, desobedecendo-Lhe, colocando-O em último lugar… Mas, quando fazemos isso, destruímo-nos,  desfiguramo-nos, edificamos a nossa vida pessoal e social sobre a areia. Na cruz do Senhor, é isso que Deus nos mostra: a gravidade do nosso pecado, o perigo que é fechar-se para o Senhor. Num mundo que brinca com o pecado e já não leva a sério a gravidade de pecar, contemplemos a cruz e aí veremos o que nosso pecado provoca! Não deixará nunca de impressionar a frase de São Pedro na primeira leitura de hoje: “Vós matastes o Autor da Vida!” – Com o nosso pecado, matamos aquele que é a Vida e, assim, nos matamos a nós próprios!

Mas, a cruz revela também, com toda a força, até onde Deus é capaz de ir por nós: é capaz de Se entregar, de dar a sua vida por nós! No Seu Filho, o Pai entrega-nos tudo o que de mais precioso tem! No Filho, feito homem de dores, humilhado e derrotado, podemos compreender o quanto somos amados por Deus, o quanto é capaz de descer para nos elevar até Ele!

Na cruz descobrimos a inexorável, a grandiosa fidelidade do nosso Deus; nela descobrimos o verdadeiro nome do nosso Deus. E O seu nome é fidelidade, o seu nome é Amor.

Primeiramente, fidelidade e amor do Pai em relação ao  Filho. Ao Filho amado que Se entregou ao Pai por nós, mas que Deus-Pai ressuscitou, e Lhe concedeu toda a glória. É o que anuncia a primeira leitura de hoje: “O Deus dos nossos Pais glorificou o seu Servo Jesus. Vós matastes o Autor da vida, mas Deus ressuscitou-O dos mortos!”. O nosso Salvador adormeceu no sono da morte na certeza de que o Pai O despertaria para a vida da glória! Sim, o Pai é fidelidade e Amor! Mas é também fidelidade e amor para conosco. Efetivamente, tudo quanto aconteceu com o Filho na cruz, foi por nós, para nossa salvação, para que o nosso pecado, a nossa situação de miséria, encontrasse expiação. Eis como a Palavra de Deus de hoje insiste nisto: “Se alguém pecar, temos junto do Pai um Defensor: Jesus Cristo, o Justo. Ele é a vítima de expiação pelos nossos pecados, e não só pelos nossos, mas também pelos do mundo inteiro”. É na cruz e ressurreição do Senhor, que Deus, amorosamente, nos concedeu o perdão e a remissão dos pecados!

Para corresponder a tanto amor, a tão grande graça devemos realizar três coisas: primeira: crer em Jesus, o Ungido do Pai, que por nós morreu e ressuscitou: “Convertei-vos para que os vossos pecados sejam perdoados!” Quem acredita em Jesus, quem diante d'Ele se reconhecer pecador e O acolher como Salvador, e n'Ele colocar a vida, n'Ele há-de encontrar o perdão que vem pela cruz e ressurreição. Segunda coisa: viver na Palavra do Senhor: “Para saber se O conhecemos, vejamos se guardamos os seus mandamentos. Aquele que guarda a sua palavra, nesse o amor de Deus é perfeito”.

A fé, não é, nem um sentimento nem uma teoria. A fé que professamos, em Jesus morto e ressuscitado, deve levar a um compromisso sério e radical com o Senhor na nossa vida concreta. Quem não guarda os seus mandamentos, não crê! Quem não crê, fecha-se para a salvação! Terceira coisa: testemunhar Jesus morto e ressuscitado: “Vós matastes o Autor da vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos. Disso nós somos testemunhas!” E Jesus diz: “Vós sereis testemunhas de tudo isso!” Amados irmãos, nós não conhecemos Jesus de um modo teórico. Nós O experimentamos pela força da Sua Palavra e na graça dos Seus sacramentos, sobretudo na participação na eucaristia.

“Por que estais perturbado e tendes dúvidas no vosso coração? Vede as minhas mãos e os meus pés: Sou Eu mesmo!” Tenhamos pois, a coragem séria de acreditar no Senhor, de n'Ele viver, e d'Ele dar testemunho, onde quer que estejamos e onde quer que vivamos e que a Sua paz, a Sua vitória e o seu perdão estejam sempre conosco, e pela Sua graça possamos nós caminhar com serenidade e alegria em todos os dias da nossa vida!