A realidade histórica da ressurreição

A fé na Ressurreição não deve ser reduzida a uma pura experiência mística, muito menos a uma espécie de conto a ser passado adiante pelos séculos afora. Após a ressurreição de Jesus, constatado o fenômeno sobrenatural, os líderes dos judeus subornaram os soldados para que divulgassem que os discípulos de Jesus tinham roubado o corpo dele enquanto os vigilantes dormiam (cf. Mt. 28,12-13). Foi inútil! O próprio Deus manifestou-se! Por isso a ressurreição não é um mito; é um fato histórico! (Evangelho). Jesus continua vivo na história agindo por meio dos apóstolos (1ª leitura) e seus discípulos são continuamente chamados a se “comportar como ele se comportou” (2ª leitura).

1ª leitura: ATOS 3,13-15.17-19

Jesus atua através dos discípulos

A fé na ressurreição faz dos discípulos, Pedro e João, instrumentos e sinais do poder de Jesus. Pedro e João são conscientes de serem pessoas comuns e, portanto, frágeis e pecadoras, mas como instrumentos animados pelo poder do Ressuscitado fazem coisas maravilhosas. Foi dessa forma que curaram o coxo na entrada do templo (cf. At. 3,1-7). O coxo, uma vez curado, saiu pulando e louvando a Deus; esse fato chamou atenção da multidão (cf. At. 3,8-9) e começaram a pensar que esses discípulos tinham poderes extraordinários. Então, honestamente, “ao verem isso, Pedro se dirigiu ao povo: «Israelitas, por que vocês se espantam com o que aconteceu? Por que ficam olhando para nós, como se tivéssemos feito esse homem andar com o nosso próprio poder ou piedade?” (At. 3,12). “Graças à fé no nome de Jesus, esse Nome acaba de fortalecer este homem que vocês vêem e reconhecem. A fé em Jesus deu saúde perfeita a esse homem que está na presença de todos vocês” (At. 3,16). A fé no Ressuscitado gera, antes de tudo, por parte dos discípulos um profundo senso de honestidade de serem instrumentos, canais das graças de Deus, sinais portadores de bênçãos às aqueles que têm fé; para o povo, acusado da morte de Jesus, a fé no Ressuscitado gera arrependimento dos males cometidos, perdão dos pecados, mudança de vida (cf. At. 3,19), saúde (cf. At. 3,7-8) e esperança da salvação (cf. At. 3,20). Por fim, Lucas, o autor dos atos dos Apóstolos, afirma que a ignorância levou a liderança dos Judeus a condenar Jesus à Morte (cf. At. 3,17). Ou seja, não chegaram a conhecer a verdadeira identidade de Jesus e por isso o trataram daquela maneira. Contudo, o mal cometido não os dispensa de terem sua parcela de responsabilidade, pois se fecharam em si mesmos (cf. Mt. 13,15). A ignorância pode ser “culposa ou dolosa”. Culposa quando levados, pelas circunstâncias e condicionamentos vários, não temos o dever e nem a oportunidade de conhecer algo necessário porque não sabemos; a “ignorância dolosa” é aquela consequente da decisão pessoal pela própria ignorância, pelo não querer saber, por causa do próprio orgulho como mecanismo de autodefesa, ou má fé.

Nossa vida

Jesus não é um personagem do passado: a sua ressurreição o tornou permanentemente presente na história em todas as circunstâncias de nossas vidas através do seu Espírito que nos anima a agir pela fé. Ele continua vivo! A fé é a condição fundamental para que essa presença Jesus seja atualizada no nosso cotidiano; fé no Ressuscitado se traduz em dinamismo, compromisso de vida missionária, de testemunho sobre a identidade de Jesus. A fé leva o coxo à certeza de que só em Jesus está a plena saciedade das nossas necessidades. Essa foi a condição decisiva para que o coxo saísse andando e saltando vendo suas pernas curadas; é por isso que sai da entrada do templo louvando a Deus. Algumas indicações sugestivas do texto: a) a fé gera transformação em nossas vidas; b) quem se faz instrumento da manifestação do poder Deus que intervém nas necessidades humanas, não deve orgulhar-se disso: não deve atrair sobre si os frutos da fé dos fiéis – deve, sim, como fez Pedro e João – pedir aos fiéis para olharem para Jesus (cf. At 3,12), é Ele a fonte de todos os benefícios. c) A ignorância é um mal que, dependendo do seu grau, gera o homicídio. O contrário da ignorância, da indiferença à Verdade, é a fé que gera o fazer o bem.

Salmo 4

Este salmo é uma oração de confiança em que o salmista invoca o senhor Deus como seu defensor, pois o aliviou de sua  angústia manifestando-lhe sua piedade (cf. Sl 4,2-3.4) e lhe trazendo abundante alegria (cf. Sl. 4,8). A certeza do amparo divino leva o salmista a adormentar-se em seu leito repousando em paz, com segurança e a viver com tranquilidade (cf. Sl. 4, 9). Mas o piedoso salmista vai além e suplica a Deus pela conversão dos que vivem confiando na ilusão dos ídolos (cf. Sl. 4,3); estimula-os a não pecar e refletir em silêncio (cf. Sl. 4,5); que ofereçam sacrifícios justos e tenham confiança em Deus (cf. Sl. 4,6-7).

2ª leitura: 1 João 2,1-5

Comportar-se como jesus se comportou

Nesse breve texto o evangelista João nos apresenta Jesus como nosso o advogado, o justo, a vítima de expiação dos nossos pecados e também dos pecados do mundo inteiro (cf. 1 João 2,1-2). O sacrifício de Jesus, à diferença dos sacrifícios caprinos e bovinos dos judeus da época de Jesus, tem validade universal e eterna pelo fato da sua divindade. Deus transcende a tudo e, por isso, suas ações são eternas e universalmente válidas. Mas isso desresponsabiliza os discípulos? Não! A ação de Jesus em nada nos desresponsabiliza de fazer a vontade de Deus. Ter fé no Ressuscitado significa assumir o dinâmico exercício de conhecer a Deus (estar em comunhão) e dinamicamente colocar em prática os seus mandamentos (cf. 1Jo 3,3-4). Com outras palavras o próprio João diz o que isso na prática: é “comportar-se como Jesus se comportou” (1 João 2,7).

Nossa vida

João nos apresenta, mais que fatos, uma espiritualidade: “comportar-se como Jesus se comportou” (1João 2,7); isso deve permear a totalidade da vida do crente. Ela sintetiza as exigências da vida cristã que estão contidas na mentalidade e nos sentimentos de Jesus Cristo (cf. Fl 2,1-5). Para o cristão, não há outro desafio maior que este: “amar como Jesus amou, sonhar como Jesus sonhou, pensar como Jesus pensou, viver como Jesus viver. Sentir o que Jesus sentia, sorrir como Jesus sorria” (Pe. Zezinho).

 

3ª Evangelho: Lucas 24,35-48

A realidade da ressurreição

O texto que nos é apresentado hoje continua a narração da história dos discípulos de Emaús e nos parece constar de três parte bem claras: a primeira (cf. Lc. 24,36-41) é caracterizada pela descrição de emoções vividas pelos discípulos, a segunda pela intervenção de Jesus que se mostra aos discípulos como prova concreta da Ressurreição e abre-lhes a inteligência refazendo a formação deles (cf. Lc. 24,42-46) e a terceira nos apresenta o dever dos discípulos de serem testemunhas do Ressuscitado (cf. Lc. 24,47-49). Todas concorrem para dar ênfase a um único objetivo: confirmar a realidade histórica da ressurreição com seu impacto na vida pessoal dos discípulos e suas consequências. A primeira parte começa colocando em evidência o fato da ressurreição de Jesus ser assunto de reflexão e conversa por parte dos discípulos. Eles, apesar de entristecidos por não terem compreendido o significado das palavras de Jesus, comentam o que aconteceu em Jerusalém (cf. Lc 24,18-19). No caminho, enquanto conversam e partilham seus sentimentos, Jesus aparece no meio deles e deseja-lhes a Paz (cf. Lc. 24,36). Estavam profundamente agitados e, Jesus que conhece o que se passa em cada coração, não podia lhes dar outra coisa que aquilo que mais estavam precisando: a serenidade, o conforto, a segurança, a esperança... a Paz que em hebraico, Shalom, significa um conjunto de bens divinos que traz segurança à alma aflita. Neste primeiro momento Lucas descreve uma verdadeira confusão de sentimentos vivida por parte dos discípulos: eles estavam “espantados e cheios de medo” (cf. Lc. 24,37.41), pensavam estar vendo um fantasma (fantasia), estavam “perturbados” e “duvidosos” (cf. Lc. 24,38), profundamente “alegres” (cf. Lc 24,41). De fato é isso que acontece conosco quando recebemos uma notícia boa e extraordinariamente surpreendente; e aí pensamos: “meu Deus! É verdade? É isso mesmo!??”. A Ressurreição de Jesus é um fato histórico. Quando narramos algo que aconteceu conosco em geral, dependendo do fato, a narração é carregada de emoção, de sentimentos: rimos, choramos, concordamos, avaliamos, nos emocionamos...! Ao contrário, quando falamos de uma fantasia, contamos de modo frio, reflexivo, escolhendo palavras, mas não nos envolvemos emocionalmente! Isso acontece quando estamos fazendo um teatro! A mensagem desta primeira fase é que a fé na Ressurreição deve atingir os sentimentos de quem crê, deve causar impacto dentro da pessoa, ela deve sentir algo diferente dentro de si, caso contrário, quando a dimensão afetiva não é tocada pela fé, também não assumimos os mesmos sentimentos de Jesus Cristo (cf. Fl. 2,5), pois são os sentimentos que dão cor, brilho e dinamismo para a experiência da vida fraterna (cf. 1Cor. 15,5; 2Cor. 13,11). A fraternidade tem coração, tem emoção, tem sentimentos. Do contrário, impera a frieza racional, a lógica, o cálculo... A segunda parte do texto é tão importante quanto a primeira: não basta a fé na Ressurreição baseada nos sentimentos. É necessária a evidência dos fatos comprovada pela razão. Por isso disse-lhes Jesus: “vejam minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo. Toquem-me e vejam: um espírito não tem carne e ossos, como vocês podem ver que eu tenho.» (cf. LC 24,39). Jesus mostrou-lhes ainda “as mãos e os pés” e comeu com eles (cf. Lc 24,40-43). As “mãos e os pés” querem significar a prova material da Ressurreição para seus discípulos; “mãos e pés” significam memória do passado e ao mesmo tempo comprovação da presença viva de Jesus; “mãos e pés” significam o reconhecimento de uma história vivida juntos, sobretudo, testemunhas da morte na cruz em que esses membros foram cravados. As marcas físicas da tortura haveriam de permanecer. A Ressurreição não é um “conto”, não é um “mito”, não é produto da fantasia dos discípulos em estado de carência paterna. A terceira parte é consequência disso: o compromisso do anúncio dessa experiência.Tudo isso quer dizer que a ressurreição é um fato histórico e é sobre isso que se fundamenta a nossa fé e nos compromete. Não é para ficar arquivado na mente. A Ressurreição deve ser testemunhada, e tornar-se a fonte dinamizadora da missão do cristão e de toda a Igreja: “em seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém” (Lc 24,47). Merece uma releitura atenta do capítulo 15 da primeira carta aos Coríntios em que Paulo fala da Ressurreição de Jesus; o autor começa narrando os fatos.

Nossa vida

O capítulo 24 do Evangelho de Lucas tem uma função pedagógica. As mensagens que nos passa são brilhantes: Jesus é o mestre, o pedagogo que educa a humanidade em suas crises e frustrações; a ressurreição é um fato extraordinário, testemunhada pelos discípulos, por isso eles foram envolvidos e animados; não é uma projeção dos sentimentos e fantasia dos apóstolos, Jesus mesmo faz questão que isso não aconteça. Sendo um fato histórico, deve ser também admitido pela razão, comprovado pelos sentidos, acolhido pela Fé, testemunhado pela vida pessoal. Para os discípulos esse evento abraçou a totalidade de suas vidas. A ressurreição é pluridimensional, pois deve abraçar a pessoa por inteiro: redimensiona sentimentos, sensibiliza a razão, potencializa os sentidos, fortalece a fé, fundamenta a esperança e dinamiza a luta pela promoção do Reino de Deus, pois foi para comprovar que Jesus é o Rei da História, o Senhor do mundo, que o Pai Ressuscitou seu Filho (cf. At 2,24; At 2,32; At 3,15; At 4,10). O texto narrado neste domingo nos convida a colocarmos “duas pitadas” a mais na nossa vida de fé: a “pitada emotiva” - mais emoção, mais sentimento, mais paixão, mais alma na vivência da nossa fé na Ressurreição. Sem isso não haverá espaço para o entusiasmo, a ousadia, a coragem, a alegria, o otimismo, a generosidade, a vibração, a ousadia no enfrentamento dos desafios, senso fraterno... A outra, é a “pitada racional” – na vida de fé há espaço para razão: mais reflexão, mais estudo, mais abertura da inteligência, mais compreensão, mas anúncio, mais testemunho... Jesus, de certa forma, promove uma “recuperação da formação” dos discípulos para que pudessem ter mais robustez diante da evidência da ressurreição. Não basta que as coisas estejam objetivamente claras, é necessário que cada fiel discípulo esteja disposto a abri-se para melhor compreender a lógica fé (que é sem lógica!). Sem isso não haverá anúncio e muito menos testemunho, serviço, martírio... A ressurreição é também um compromisso para quem nela crê.

Antônio de Assis Ribeiro - SDB (padre Bira)

 

 

 

Assim está escrito: o Messias sofrerá e ressuscitará dos mortos no terceiro dia.

Na leitura dos Atos encontramos de novo Pedro, que se dirige a todo Israel e o convida à conversão. Pedro tranqüiliza seus ouvintes fazendo-os ver que tudo foi fruto da ignorância, porém ao mesmo tempo, convida a acolher o Ressuscitado como ao último e definitivo dom outorgado por Deus. A morte de Jesus se converte para ele o crente em sacrifício expiatório. Não há ressaibo de ressentimento nem de vingança, mas de convite ao arrependimento para receber a plenitude do amor e da misericórdia do Pai, que se concretiza na confiança e na segurança de ter recuperado aquela filiação perdida pela desobediência.

O crente, exposto às tentações, rupturas e quedas não tem por que sentir-se condenado eternamente ao fracasso e à separação de Deus. São João nos dá hoje em sua primeira Carta, o anuncio alegre do perdão e da reconciliação consigo mesmo e com Deus. O cristão é convidado por vocação a viver a santidade; contudo, as infidelidades a esta vocação não são  motivo de seu amor e de sua misericórdia, ao mesmo tempo que são um motivo de esperança para o cristão, para manter uma atitude de sincera conversão.

No evangelho nos encontramos uma vez mais com uma cena pós pascal que já é conhecida: os Apóstolos reunidos comentam os acontecimentos dos últimos dias. Recordemos que nessa reunião que Lucas menciona, estão também os discípulos de Emaús que haviam retornado a Jerusalém logo depois de ter reconhecido Jesus no peregrino que os instruía e que logo partilhou com eles o pão.

Nesse ambiente de reunião se apresenta Jesus e, apesar de que estavam falando dele, se assustam e até chegam a sentir medo. Os eventos da Paixão não puderam ser assimilados suficientemente pelos seguidores de Jesus. Não conseguem ainda estabelecer a relação entre o Jesus com quem eles conviveram e o Jesus glorioso, e não chegam tampouco a abrir sua consciência à missão que os esperava. Digamos então que “falar de Jesus” implica algo mais que a simples lembrança do personagem histórico. De muitos personagens ilustres se fala e se seguirá falando, incluindo o mesmo Jesus; contudo, já desde estes primeiros dias pós-pascais, vai ficando definido que Jesus não é um tema para uma tertúlia sem transcendência.

Parece que este dado contado por Lucas sobre a confusão e desconcerto dos discípulos não é de todo fortuito. Os discípulos acreditam que se trata de um fantasma; sua reação externa é tal que o próprio Jesus se espanta e corrige: “Por que esse medo... por que esses pensamentos em seus corações?”

Esclarecer a imagem de Jesus é uma exigência para o discípulos de todos os tempos, para a própria Igreja e para cada um de nós hoje. Certamente em nosso contexto atual há tantas e tão diversas imagens de Jesus que não deixa de estar sempre latente o risco de confundi-lo com um fantasma. Os discípulos descritos por Lucas só tinham em sua mente a imagem de Jesus com quem até pouco antes havia partilhado, é verdade que existiam diversas expectativas sobre ele e por isso ele continua instruindo os seus; porém não tantas e nem tão completamente confusas como as que a “sociedade de consumo religioso” de hoje nos está apresentando cada vez com maior intensidade. Eis o desafio para o evangelizador de hoje: esclarecer sua própria imagem de Jesus a força de deixar-se penetrar cada vez mais por sua palavra; por outra parte está o compromisso de ajudar aos irmãos a esclarecer essas imagens de Jesus.

É fato, então, que ainda depois de ressuscitado, Jesus tem que continuar com seus discípulos seu processo pedagógico e formativo. Agora o Mestre tem que instruir a seus discípulos sobre o impacto ou o efeito que sobre eles também exerce a Ressurreição. O evento, pois, da ressurreição não afeta somente a Jesus. Pouco a pouco os discípulos terão que assumir que a eles lhes toca ser testemunhas desta obra do Pai, porém, a partir da transformação de sua própria existência.

A expectativa messiânica dos Atos reduzida somente a um âmbito nacional, militar e político, sempre com característica triunfalista, tem que desaparecer da mentalidade do grupo. Não será nada fácil para estes rudes homens re-fazer seus esquemas mentais “suspeitar” da validade aparentemente inquestionável de todo o legado de esperanças e sonhos de seu povo. Contudo, não fica outro caminho. O evento da ressurreição é, antes de mais nada, o evento da renovação, começando pelas convicções pessoais. Esta passagem deve ser lida à luz da primeira parte: a experiência dos discípulos de Emaus.

As instruções de Jesus baseadas na Escritura infundem confiança no grupo; não se trata de uma invenção ou de  uma interpretação caprichosa. Trata-se de confirmar o cumprimento das promessas de Deus, porém ao estilo de Deus, não ao estilo dos humanos.

De alguma forma, convém insistir que o evento da ressurreição não afeta somente o ressuscitado, afeta também o discípulo na medida em que este se deixa transformar para colocar-se no caminho da missão. Nossas comunidades cristãs estão convencidas da ressurreição contudo, nossas atitudes práticas todavia não chegam a se permeadas por esse acontecimento. Nossas celebrações tem como eixo e centro esse mistério, porém talvez nos falta que elas sejam renovadas e atualizadas efetivamente.

Queremos chamar a atenção sobre o necessário cuidado ao tratar o tema das aparições do ressuscitado e seu diálogo com os discípulos e comer com eles... Não podemos responsavelmente tratar esse tema hoje como se estivéssemos no século passado ou antepassado... Hoje sabemos que todos estes detalhes não podem ser tomados ao pé da letra e não é correto teologicamente, nem responsável pastoralmente, construir toda uma elaboração teológica, espiritual ou exortativa sobre esses dados, como se nada tivesse passado, como se déssemos por descontado que se tratasse de dados empíricos rigorosamente históricos, sem aludir sequer à interpretação que deles se deve fazer... Pode parecer muito cômodo não entrar nesse aspecto e o fato de fazer isto provavelmente não suscitará nenhuma inquietação nos ouvintes, porém certamente não é o melhor serviço que se pode fazer para ele para o povo de Deus...

 

 

O Evangelho de hoje é riquíssimo em sua mensagem. Vamos juntos ressaltar alguns momentos para a nossa reflexão: Primeiro, vamos analisar o comportamento dos discípulos que se dirigiam para Emaús. Estavam arrasados, cabisbaixos e sem rumo. Evidentemente tinham bons motivos para se sentirem assim. Voltavam para as suas terras, derrotados. Suas vidas já não tinham mais sentido. Não havia mais motivo para lutar.

O Mestre, em quem tanto acreditavam, o Messias que viria para aniquilar o inimigo, estava morto. Parecia que ninguém estava se importando com eles. Todos os sonhos e castelos se desmoronaram. Caminhavam conversando sobre isso, quando Jesus lhes aparece e anda com eles os quilômetros restantes. Caminharam vários quilômetros, lado a lado com Jesus, e não o reconheceram.

Quantas vezes nos comportamos da mesma maneira. Parece que nada mais tem jeito e que tudo se acabou. Andamos quilômetros e quilômetros, dias e dias cabisbaixos, sem rumo e totalmente descrentes, sem perceber que Jesus caminha conosco. O Mestre está ao nosso lado pronto, até mesmo, para carregar-nos no colo, e não pedimos ajuda, pois não o reconhecemos.

No entanto, ao repartir o pão, os discípulos reconheceram Jesus. Através da Partilha Jesus se manifesta e mostra sua presença. Só podemos reconhecer Jesus e sentir sua presença na partilha, na distribuição do pão e dos dons.

Para se fazer conhecer, Jesus pede algo para comer. Se alguém duvida, ai está a grande prova de sua presença. Jesus se manifesta no pedinte. Ao repartir com o faminto e maltrapilho, ao dividir com o marginalizado, com o doente e com o excluído, fatalmente nos deparamos com Jesus.

Finalizando, Jesus se coloca no meio de seus discípulos e lhes deseja a paz. Essa saudação de Jesus não é mera formalidade. A Paz de Jesus é alegria da alma, é paz interior. Paz é vida em plenitude, é comunhão, respeito, liberdade e cidadania.

Essa é a Paz de Jesus. Custe o que custar, essa é a paz que devemos buscar. Entretanto, é preciso estar preparado, pois na luta pela paz vamos encontrar milhares de obstáculos. As grandes potências, a indústria da guerra, os interesses econômicos e políticos não respeitam a vida e matam em nome da paz.

Por tudo isso, não é fácil a tarefa de quem luta pela paz. Talvez encontre a própria morte. No entanto, testemunhar e buscar a paz é missão do cristão. Alegre-se, portanto, com esta boa notícia: a morte não é o fim! É o começo da verdadeira vida! Por isso, não tenha receio em lutar por justiça, pois a Glória Eterna é o verdadeiro e único fim para quem caminha com Jesus.

Jorge Lorente

 

 

Nós somos testemunhas

Fulton Sheen, na sua admirável "Vida de Cristo", tem um capítulo que se intitula "A chaga mais séria da terra". É onde ele fala do sepulcro de Jesus encontrado vazio na manhã do terceiro dia. Quando o anjo do evangelho de Mateus diz às mulheres: "Ele não está aqui. Ressuscitou, como havia dito" (Mt. 28,6). O mesmo que dizem os dois anjos resplandecentes da narração de Lucas: "Por que procurais entre os mortos aquele que está vivo? Ele não está aqui. Ressuscitou" (Lc. 24,5-6) O simples sepulcro vazio não seria ainda uma prova suficiente da ressurreição. A rigor, seria possível pensar em outra explicação. Aliás, os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo subornaram os guardas para que espalhassem que o corpo tinha sido roubado pelos discípulos. E a notícia se divulgou por muito tempo (cf. Mt. 28,11-15). Foi a palavra dos mensageiros celestes que garantiu a explicação verdadeira: a ressurreição.

Mas a verdadeira prova, que funda nossa certeza de fé são as aparições, atestadas por Pedro, por Madalena, pelos discípulos. É tão Límpida, por exemplo, esta palavra de Pedro, no seu segundo discurso ao povo de Jerusalém: "O Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, o Deus de vossos pais, glorificou o seu Filho Jesus, que vós entregastes e renegastes diante de Pilatos, quando este achava que o devia libertar. Vós negastes o Santo e o Justo. Vós pedistes graça para um assassino, enquanto fazíeis morrer o Autor da vida. Mas Deus o ressuscitou dos mortos. Disso nós somos testemunhas" (At. 3,13-15). Pedro e os outros viram o Senhor ressuscitado. Não era uma visão. Não era um fantasma. Era o próprio Jesus que eles tinham conhecido em vida. Os relatos evangélicos insistem em elementos histórico - apologéticos, sobretudo no evangelho de Lucas, que escreveu para os gentios, que não admitiam ressurreição: olhar as chagas, tocar, palpar, e até tomar parte na refeição deles. Isto, que pode causar estranheza, tem esta bela explicação de Fulton Sheen: "Este corpo glorioso não comia à semelhança da planta que absorve a umidade da terra por necessidade, mas como o sol que a embebe com a sua intensidade" (o.c., cap. 53). Era um corpo glorioso. Ao mesmo tempo que se deixava ver e tocar, entrava sem que fosse preciso abrir-Ihe as portas e vencia distâncias instantaneamente. E ficava a certeza da Ressurreição. Ressuscitou, como tinha dito.

Na sua apresentação como ressuscitado, Jesus faz questão de dizer que tudo se cumpriu como estava nas Escrituras: "Que o Cristo haveria de sofrer, ressuscitaria dos mortos ao terceiro dia, e que a penitência seria pregada em seu nome, para remissão dos pecados, a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós dareis testemunho disso" (Lc. 24,45-48). Duas verdades estão aí bem explícitas. A primeira é que o Messias predito nas Escrituras, não é um messias triunfante, na glória de um poder político, como era muitas vezes entendido. Cristo era o descendente de Davi e herdeiro de seu trono, mas seu poder era todo espiritual. "Meu reino não é deste mundo", como proclamou diante de Pilatos (Jo 18,36). E é esse Reino que a Igreja deve difundir no mundo. Um reino de valores espirituais, embora com as mais benéficas influências nos valores temporais dos povos. Não devemos pensar numa Igreja triunfalista. Seu caminho será sempre marcado pelo sofrimento. Mas essa é sua verdadeira glória. E, ao longo dos séculos, o sangue de seus mártires - como disse Tertuliano - tem sido e será sempre semente de cristãos.

A segunda verdade que está explícita na palavra de Jesus ressuscitado é que a Ressurreição traz para o mundo uma mensagem de penitência. "Penitência" -"metanoia" -no seu sentido mais fundamental que é "mudança de vida". Aceitá-Io como Salvador e seguir sua doutrina. O mesmo São Pedro o vai dizer ainda mais claramente aos homens do Sinédrio :"Não há sob o céu outro nome dado aos homens, pelo qual possamos ser salvos" (At. 4,12). Aliás, o nome de Jesus significa "Deus salva".

Onde, portanto, se estiver abraçando os ensinamentos de Jesus aí estará acontecendo a ressurreição. E a salvação. E estará , surgindo um mundo novo. "Um novo céu e uma nova terra", preludiando o definitivo céu novo e a definitiva nova terra da eternidade.

padre Lucas de Paula Almeida, CM

 

 

"Testemunhas"

Nesse tempo de Páscoa, a liturgia nos apresenta as primeiras aparições de Cristo ressuscitado aos apóstolos, que tinham a missão de continuar a sua obra salvadora iniciada por Cristo.

Eles continuam tendo muitas dúvidas. Cristo vai ao encontro deles, para fortalecer a fé deles profundamente abalada.

No Evangelho o Ressuscitado aparece à comunidade e a convoca para ser sua testemunha (Lc. 24,35-48)

Cristo está vivo e continua a ser o centro da comunidade. Jesus toma a iniciativa: aparece aos apóstolos, desejando-lhes a "Paz": "a Paz esteja convosco".

A reação dos apóstolos: ficam apavorados pensando ser "um fantasma". Jesus apresenta provas de sua identidade:

- físicas: mostra os pés e as mãos… come com eles…;

- bíblicas: abre as inteligências para compreenderem as Escrituras: Jesus devia padecer e ressuscitar…

Aponta a missão: "Vós sereis minhas testemunhas"

Ser testemunha é conhecer, viver e anunciar a mensagem de amor, que Cristo trouxe. Cristo continuará vivo na Igreja, através deles.

Assim na 1ª leitura, vemos são Pedro, cumprindo essa missão:

- anunciando com coragem o Cristo Ressuscitado diante do povo: "O Cristo, que vós matastes, Deus o ressuscitou dos mortos. E disso nós somos testemunhas..."

- agindo: provando com sinais... que Jesus ainda estava vivo. Cura o coxo na porta do templo em nome de Jesus (At. 3,13-15.17-19)

Pedro testemunha Jesus com palavras e gestos e faz um apelo ao arrependimento e à conversão, para o perdão dos pecados.

E na 2ª leitura, João nos lembra que devemos testemunhar: vivendo o que se conhece e se anuncia: "Quem diz conhecer o Senhor e não vive a sua mensagem é mentiroso e a verdade não está nele...” (1Jo 2,1-5)

É um forte apelo à coerência entre fé e vida... É com a vida que demonstramos "conhecer" Deus. Se pecarmos, Jesus é o nosso intercessor junto do Pai...

No Evangelho, a Ressurreição de Jesus aparece como um fato real, mas assim mesmo os apóstolos não conseguiam acreditar facilmente. O caminho foi longo, difícil, penoso, carregado de dúvidas e incertezas. O caminho espiritual para chegar à fé continua o mesmo. Como os apóstolos, também nós podemos "ver" Cristo ressuscitado, no meio de muitas dúvidas, incertezas e medos.

Quando nos reunimos em comunidade, ele está sempre entre nós. Aos poucos os nossos olhos vão se abrindo e nós vamos descobrindo que, quem morre com ele, com ele entra na plenitude da vida de Deus.

Elementos importantes, que o texto nos apresenta:

1. Os discípulos descobriram a presença de Jesus, vivo e ressuscitado, no meio da sua comunidade.

Cristo continua a ser o centro, onde a comunidade se constrói e se articula.

2. Esse Jesus ressuscitado é o filho de Deus, que reentrou no mundo de Deus, mas não apareceu da nossa vida, nem da vida da comunidade.

3. As dúvidas dos discípulos mostram a dificuldade que eles sentiram em percorrer o caminho da fé, até o encontro pessoal com o Senhor ressuscitado. Foi uma longa caminhada de amadurecimento da própria fé.

4. O gesto de tocar e comer nos ensina que o encontro dos discípulos com Jesus ressuscitado foi um fato real e palpável.

5. O Ressuscitado revela o sentido profundo das Escrituras.

A comunidade deve reunir-se com Jesus ressuscitado para escutar a Palavra, que sempre ilumina a nossa vida e nos ajuda a descobrir os caminhos de Deus na história...

6. Os discípulos recebem a missão de serem testemunhas de tudo isso...

A raiz da missão é o encontro com o Ressuscitado e a compreensão das Escrituras. Viver e anunciar essa novidade é a missão da comunidade eclesial, que vive do amor e da presença do Senhor em seu meio.

Cristo continua precisando ainda hoje de testemunhas…

E nós somos chamados a ser testemunhas da presença do Ressuscitado, através de nossas Palavras e ações.

Até que ponto, somos testemunhas de Cristo: conhecendo… vivendo… e anunciando… essa mensagem?

Não adianta proclamar que Jesus ressuscitou e não viver o projeto do Reino que ele anunciou e viveu.

Cristo ainda hoje continua nos lembrando: "Vocês também devem ser minhas testemunhas..."

O que pretendemos testemunhar nesta semana?

padre Antônio Geraldo Dalla Costa

 

 

Jesus anuncia a sua morte e ressurreição

Assim está escrito: O Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia.

Este Evangelho narra a aparição de Jesus aos onze Apóstolos, após a ressurreição. Jesus procura fortalecer a fé deles, mostrando-lhes suas mãos e pés com as chagas, e comendo com eles.

Apesar das evidências, os discípulos ainda relutavam em acreditar, devido ao forte impacto que lhes causou a morte e o sepultamente de Jesus. Só pode ser um fantasma, isto é, um tipo de alucinação coletiva, pensaram.

"Então Jesus abriu a inteligência dos discípulos para entenderem as Escrituras, e lhes disse: Assim está escrito: O Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia." Esta prova das Escrituras está ao alcance de todos nós, pois quando lemos corretamente a Bíblia, o Espírito Santo abre a nossa inteligência para a entendermos corretamente.

E Jesus pede que "no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações... Vós sereis testemunhas de tudo isso". Os discípulos atenderam bem a esse pedido, como vemos, na primeira Leitura da Missa, Pedro falando em nome de todos os discípulos: "Vós matastes o autor da vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos, e disso nós somos testemunhas" (At. 3,15). Na segunda Leitura (1Jo. 2,1-5a), S. João nos convida a renunciar ao pecado.

A recomendação de Jesus, de anunciar o seu nome a todas as nações, vale também para nós que "cremos sem ter visto". Pela fé, somos testemunhas de que Jesus está vivo, e levamos essa verdade a todas as pessoas. A Comunidade cristã, através da sua alegria, união e vitalidade, é a principal testemunha de que Cristo está vivo e presente nela. É um testemunho que ela dá pela sua própria vida.

Recebemos essa fé dos nossos pais e da nossa Comunidade; e nós a levamos para frente, através da nossa dedicação à Comunidade e do nosso testemunho no meio em que vivemos. "Vós sereis testemunhas de tudo isso".

E se estivermos fraquejando na fé, Jesus terá outros meios de aparecer no nosso meio e nos encorajar novamente. Ele costuma usar para isso os seus próprios discípulos que, capacitados pelo Espírito Santo, têm o dom de fortalecer a fé dos irmãos.

Jesus aproveitou ao máximo os seus dias na terra. Ele não ficava esperando as pessoas, mas ia atrás delas. Anunciava a Boa Nova nas praças, nas sinagogas, na beira dos rios, nas estradas... em qualquer lugar.

Houve, certa vez, um incêndio numa floresta. Um beija-flor ia até o córrego, enchia o biquinho de água, vinha voando bem alto e jogava em cima do fogo para apagá-lo. Um elefante viu a e zombou do beija-flor: "Você acha que, com esse pouquinho de água, vai apagar este incêndio?" "Eu estou fazendo a minha parte" – respondeu o beija-flor – "Se cada um aqui fizer também a sua parte, tenho certeza que apagaremos este incêndio".

Diante dos grandes problemas do mundo, as pessoas costumam ter três atitudes: 1ª) A acomodação: eu não dou conta mesmo, por isso não faço nada. Esta foi a atitude do elefante que, com a sua enorme tromba, poderia jogar muita água no incêndio. 2ª) A revolta: a pessoa fica triste e desiludida diante dos problemas que são maiores do que a sua capacidade de resolvê-los. 3ª) Dar o primeiro passo, por pequeno que seja, na esperança de que Deus entrará no meio, abençoará e maravilhas acontecerão. Esta foi a atitude do beija-flor. Não nos esqueçamos dos cinco pãezinhos que o Apóstolo apresentou a Jesus, para alimentar cinco mil pessoas.

Que Maria Santíssima nos ajude a ser "discípulos e missionários do seu Filho, para que nossos povos tenham mais vida nele".

Assim está escrito: O Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia.

padre Queiroz

 

 

O grande (e central) tema do cristianismo

No livro dos atos dos apóstolos cap. 3,13-15 e 1-19 lemos um discurso de Pedro: o Deus de nossos pais glorificou seu servo Jesus, que vós entregastes e negastes perante Pilatos, quando este resolvera soltá-lo...Matastes o Príncipe da vida, mas Deus o ressuscitou dentre os mortos: disso nós somos testemunhas.

A questão central do anúncio feito pelos primeiros cristãos é esta: aquele que foi rejeitado e assassinado Deus o ressuscitou!!! As primeiras comunidades nascem no meio da cultura e da religião judaica. A maioria das interpretações da época interpretava a vinda de um Messias para restaurar o reino de Davi. Seu reino praticamente só conhecera poucos anos de estabilidade (com Davi e Salomão). Caiu depois em progressiva decadência e durante séculos o povo hebreu voltou à ser dominado por outros impérios. Foi a primeira geração dos cristãos que apresentou outra interpretação das Escrituras por meio da figura do Servo Sofredor (cf. Isaías e outros profetas). Ele veio manifestar como é o amor de Deus. A ressurreição de Cristo é testemunhada pelos primeiros discípulos como a garantia de que nem o sofrimento nem a perseguição, nem o mal nem a morte, têm a última palavra. Pois a Deus nada é impossível.

A entrega amorosa por Jesus supera as antigas religiões de sacrifícios.

Escutamos com muita frequência frases (ou chavões) em linguagem mais próxima da religião judaica do que da experiência cristã, embora uma leitura mais cuidadosa do culto em Israel demonstre um Deus “diferente” como nas figuras de Abel, Abraão, Moisés e no profetismo. Pior quando se repetem frases que são verdadeiros símbolos de paganismo. As religiões pagãs sempre ofereceram sacrifícios e imolação de animais numa economia de trocas e comércio entre o Homem e Deus. Eram uma espécie de “pagamento” aos deuses, em que se manifestava arrependimento para obter favores dos céus (prosperidade, boas colheitas, segurança, proteção contra inimigos, cura de doenças, fecundidade e saúde para si e para os filhos, etc.). Encontrei, a respeito, excelente no comentário do teólogo J. Konings que podem nos ajudar a corrigir modos correntes (referentes à Redenção) “nem sempre aceitáveis”. De fato lembramos que nossa catequese (mais antiga) e a repetição descuidada de muitos sermões pela pregação de muitos padres e pastores trazem a herança maldita da imagem de um Deus sanguinário, sedento de sangue e castigos. Isso se deve, em geral, ao fato de se tomar “ao pé da letra” citações isoladas do estudo do contexto e do estudo da linguagem usada na Bíblia). Até o uso de frases isoladas do catecismo católico (cf. nn.1362 e seguintes), desligadas do contexto da exposição mais completa do “memorial da páscoa de Cristo” pode favorecer uma linguagem dúbia sobre o “único sacrifício” apresentado pelo “sumo sacerdote”, que é Cristo (cf. Hebreus 7,26-27 citado aliás, no n. 1366 do catecismo; Hebreus é carta escrita justamente para evitar em seus leitores a nostalgia do antigo sacerdócio e culto que viveram antes de aderir ao cristianismo). Alguns católicos referem-se à Missa como se Cristo morresse todo dia no altar... A seguir transcrevo o texto de J. Konings (os grifos são meus):

“O sofrimento de Jesus é entendido de muitas maneiras, nem sempre aceitáveis. Há quem diga que Jesus teve de pagar nossos pecados com seu sangue. Mesmo se é verdade que o sofrimento de Jesus nos resgatou, não é porque Deus exigiu que ele pagasse com seu sangue a nossa divida. Seria injusto e cruel. Os homens é que “castigaram” Jesus, mas Deus o reabilitou. “Aquele que conduz à vida, vós o matastes, mas Deus o ressuscitou dentre os mortos” (1ª leitura). Era preciso que o Cristo padecesse (evangelho), não porque Deus o desejava, mas porque as pessoas o rejeitaram e o fizeram morrer. Mas Deus quis mostrar publicamente que Jesus, assumindo a morte infligida ao justo, teve razão. É isso que significa a ressurreição. O próprio Ressuscitado cita aos discípulos os textos da Escritura que falam nesse sentido (Lc. 24,44).

O desafio proposto pelo cristianismo nascente

O contexto cultural e religioso das primeiras comunidades cristãs também é o do mundo antigo onde logo se entendiam termos como “templo ou santuário”, “sacrifícios” e “expiação dos pecados pessoais ou do povo”. A grande reviravolta causada pelos primeiros cristãos (inicialmente no contexto judaico e, a seguir no mundo greco-romano) foi exatamente esta: mostrar que, pela Encarnação de Deus na história é o próprio Filho de Deus que assume na vida humana – e não mais no altar do sacrifício – o que realmente é agradável a Deus (releia-se toda a carta aos Hebreus, por exemplo). Basta lembrar que “o Cristo foi imolado”, como se diz na liturgia, não por sacerdotes num templo, assim como se fazia com os animais sacrificados no altar, mas – como disse Pedro foi “sacrificado” por aqueles que o negaram perante Pilatos: vos o matastes, diz Pedro (cf. 1ª leitura).

Isso não impede de crer que a “expiação” pelos pecados ou maldades humanas foi feita pela entrega de vida feita por Jesus de Nazaré. Entrega plena sem sombra nem poeira de egoísmo (“ninguém tem maior amor...”) que superou todos os sacrifícios e oferta de vítimas e holocaustos em todos os tempos, todas as religiões e culturas da história. Por isso uma comunidade cristã do final do século primeiro preocupa-se em repetir que – mesmo que não se deva voltar a praticar o mal, se alguém “vacilar” – não pode se esquecer de que há um advogado, um defensor nosso junto de Deus. De novo transcrevo a reflexão preciosa de J. Konings (de novo, os grifos são meus ):

“Que significa então: “Ele é a vítima de expiação pelos nossos pecados” (2ª leitura)? À luz do que dissemos acima, esta expressão não significa que Jesus é um sacrifício oferecido para pagar a dívida em nosso lugar, mas que aquilo que os antigos queriam realizar pelas vítimas de expiação – reconciliar-se com Deus – foi realizado de modo muito superior pela vida de justiça que Jesus viveu até à morte por amor. E, na medida em que o seguirmos nessa prática de vida, guardando seu mandamento, o amor de Deus se torna verdade em nós (1Jo 2,3-5). 

Credo: Jesus Cristo... desceu à região dos mortos...e ressuscitou.

E creio (na Igreja, na Comunhão dos santos, na remissão dos pecados) na ressurreição, na vida eterna. Assim como aquele que recebeu a Fé, crê que Jesus (que padeceu sob o poder do império romano no ano I de nossa era) foi crucificado morto e sepultado (não se suicidou, mas outros mataram “o Príncipe da vida” como o chama Pedro no discurso da 1ªleitura), assim os cristãos também acreditam na comunidade dos que foram perdoados e regenerados pelo amor de Deus a ponto de conseguir ressuscitar e ter uma vida que não conhecerá uma segunda morte (“eterna”).

As semanas que seguem a festa da Páscoa propõem-nos a contemplação de Jesus conversando (em geral numa refeição) com os discípulos. É muito lentamente que eles vão superando a frustração que foi a morte do Mestre e o “sonho” messiânico que acabou. Com paciência e carinho o Mestre conversa com os dois desanimados de Emaús, senta-se à mesa, consola os discípulos, mostra-lhes que é um ser vivo de carne e osso, que é ele mesmo. Esse processo pedagógico é lento e constante.

É até engraçado ver como os discípulos (incluídos os que retornavam de Emaús) ao reencontrarem seu Mestre que só fala de Paz, ficam “aterrorizados”, ou, como dizemos: “não acreditando em seus olhos”. E estavam “cheios de medo”. E Jesus continua: podem me tocar, apalpem, sou eu mesmo, em “carne e osso”! E: “ofereceram-lhe um pedaço de peixe assado. Ele tomou e comeu à vista deles”.

É até engraçado ver que, enquanto Jesus diz “Por que estais perturbados, e por que essas dúvidas crescendo nos vossos corações?” eles ainda “se recusavam a crer (de tanta alegria!), maravilhados que estavam”. Até na Páscoa, na alegria, continua a dúvida no ser humano. Crer não é fácil. É um longo processo de confiança que se busca e aos poucos se pratica. É mais difícil a confissão de fé da metade do Credo apostólico em diante: ressuscitou... e, no final: na ressurreição... na vida eterna. Estamos mais acostumados ao que “vemos” neste mundo repetido. E, quem sabe, estamos até mais dispostos a crer nas dores que conhecemos do que na cura definitiva e na libertação que, apesar de tudo, sempre desejamos...

prof. Fernando Soares Moreira

 

 

Ao aparecer aos apóstolos antes de sua ascensão, estes ficaram atônitos e cheios de medo. Jesus indagou-lhes: “Porque estais perturbados?” (Luc 24,35-48). A realidade das manifestações do Divino Ressuscitado afasta qualquer hipótese de uma ilusão por parte dos seus discípulos, como fruto de um anseio profundo de rever o Mestre amado. Jesus se fez diversas vezes presente como e quando quis. Era natural que os onze, como narrou São Lucas, fossem tomados de enorme alegria e ficassem estupefatos. A experiência espiritual dos cristãos através dos tempos lhes ofereceria instantes inefáveis de uma proximidade de Jesus como ocorreu com os Apóstolos. Muitas vezes, porém, falta a capacidade de crer. Para aumentar o merecimento de cada um nem sempre há evidências imediatas. Mesmo diante de Cristo Eucarístico a impressão de sua ausência pode se dar, porque o sacramento visível é sinal de uma realidade invisível. Aí é que entra o ato de fé e almas piedosas percebem então o recado de Jesus: “Não fiqueis perturbados. Eu estou convosco”. No caso dos discípulos, como mostra o Evangelho de hoje, houve certa dúvida, mas Jesus os ajudou e lhes mostrou as mãos e os pés e até se alimentou com um pedaço de peixe à vista deles. O que Ele queria deixar claro era que Ele, Jesus de Nazaré, estava vivo, ressuscitara dos mortos. Nunca se deve esquecer o que está na Carta aos Hebreus: “Jesus Cristo é sempre o mesmo, hoje, amanhã e por todos os séculos” (Hb 13,8). Daí o fascínio que Ele continua a exercer através dos tempos, sobretudo, naqueles que nele creem. O reconhecimento do Ressuscitado leva então o cristão ao perceber sua presença contínua a irradiar esperanças por entre as aflições naturais de um exílio terreno. É quando, assim como aconteceu com os Apóstolos, ele abre os corações que podem nele deparar toda consolação e amparo. Cabe, deste modo, ao seu verdadeiro seguidor ser dele testemunha. Cumpre, de fato, mostrar por toda parte que Jesus está presente na sua Igreja, chamando a todos para a conversão necessária, para o perdão de Deus e para uma vida autênticmante cristã. Testemunhas, no mundo e para o mundo, que Jesus crucificado ressuscitou e afirmou: “Eu estou convosco todos os dias até a consumação dos tempos”. Nada, pois, de perturbações, mesmo porque nada mais paradoxal do que um cristão triste, aflito, entregue a todo tipo de depressão. Jesus quer a todos libertar de qualquer fobia e temores ilusórios. Ele oferece paz, imperturbabilidade, serenidade. É preciso crer no seu amor. Deixar o coração se iluminar com a certeza de sua presença. É preciso passar sempre do temor à fé. O cristão deve tirar todas as consequências teológicas e espirituais das narrativas das aparições de Jesus ressuscitado aos Apóstolos. A morte foi vencida pelo amor de um Deus que se sacrificou pela humanidade. A ressurreição de Jesus foi obra do amor do Pai a fim de que Jesus mostrasse o caminho para a vida eterna, vivendo numa atitude de confiança e amor às realidades sobrenaturais. A Ressurreição de Cristo deve a todos envolver na mais fulgurante esperança. A esperança de que a vida se abre para todos os de boa vontade. Trata-se de segurar na mão de Deus e caminhar corajosamente rumo à pátria definitiva. Aquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos nos ressuscitará também para a vida eterna. Ao comungar Jesus na Eucaristia o fiel recebe o germe da própria vitória sobre a morte e disto deve cada um ser testemunha. O cristão precisa ser um continuador da fé naquele que foi crucificado, mas ressurgiu dos mortos imortal e impassível. Um detalhe na narrativa de São Lucas merece então ser fixado, pois Jesus lembra aos Apóstolos “O Messias devia sofrer e ressuscitar dos mortos”. A Bíblia deixa sempre claro que a glória só virá após muitas tribulações, assim com ocorreu com Cristo. Este foi taxativo: ”Bem-aventurados os que choram, eles serão consolados”. Apenas quem compreende o significado das tribulações terrenas pode entrar na dimensão da ressurreição. São Paulo explicou: “Não há proporção alguma entre os sofrimentos deste mundo e a glória que um dia se manifestará em nós” (Rm 8,18). Assim, a ressurreição de Jesus ilumina as dores da trajetória neste mundo, porque é sempre a vida que triunfa em todas as situações até mesmo sobre a morte, como ocorreu com o divino Redentor.

 

 

Testemunhas de Cristo

Após abrir a inteligência dos discípulos para entenderem as Escrituras, Jesus ressuscitado que lhes  recapitulou os lances finais de sua vida, lhes mostrou  que no seu nome seriam anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, acrescentando: “Vós sereis testemunhas de tudo isto” (Lc. 24,48). Eis aí a sublime missão de todo batizado através dos tempos.

Cumpre a ele, porém, revelar o Mestre divino, antes de tudo pela fé. O atual contexto histórico nega a existência de Deus e o valor da salvação oferecida através de Jesus Cristo sobretudo nos meios de comunicação social. Há um verdadeiro eclipse do Ser Supremo com todas as conseqüências malévolas para a sociedade. Percebe-se o acintoso desprezo dos preceitos divinos, afrontados a cada hora nas novelas, nos filmes, nas propagandas.

Para uma sociedade hedonista o decálogo na prática não existe. É um ateísmo embutido em programações que agridem continuamente aqui e ali  todos os dez mandamentos. Apesar de tudo isto, ou mesmo, por causa de tudo isto, o autêntico cristão  deve procurar não apenas evitar a contaminação do mal, mas também,  através de seu testemunho de vida, demonstrar a grandeza de ser um seguidor daquele que é  “o Caminho, a Verdade e a Vida”. Multiplicam-se dentro da História os episódios daqueles que, testemunhando Jesus na sociedade, influenciam para uma vivência cristã. Notável o fato que se deu com Edith Stein, filósofa alemã, judia, discípula do célebre Hursserl, judeu ateu. Um de seus outros professores que ela muito apreciava foi morto durante a guerra mundial.

Ela foi visitar a esposa deste seu mestre,  que era uma cristã autêntica.  A encontrou serena, tranqüila na sua dor, resignada, forte e imperturbável. Pensou então consigo mesmo, refletindo sobre atitude tão maravilhosa: “O Deus dos cristãos é o Deus verdadeiro”. Converteu-se, pediu o batismo, se tornou uma religiosa carmelita com o nome de Teresa Benedita da Cruz e morreu mártir no campo de concentração nazista  em Auschvitz. Foi canonizada por João Paulo II em celebração na Praça de São Pedro, no dia 11 de outubro de 1998.

Isto lembra que em todas as circunstâncias o cristão deve manifestar sua fé profunda e fará maravilhas para o reino de Deus. É preciso, realmente, manifestar sempre uma crença arraigada na presença de Jesus na Eucaristia, na existência de uma felicidade eterna no céu, procurando exercitar-se em todas as virtudes. Adite-se que reina no contexto atual a inquietude perante tantos crimes, tanta desigualdade social, os governantes malbaratando as verbas públicas e deixando o povo sem saúde, sem segurança.

O papa Bento XVI tem frequentemente convidado, então, os seguidores de Cristo a serem profetas da esperança neste mundo da desesperança. Mister se faz patentear ao mundo que o batizado resiste aos apelos materialista da sociedade de consumo e não se torna escravo das novas tecnologias  e sabe viver sobriamente. Tudo isto efetivado pelos adeptos do Redentor, testemunhando também o amor. Jesus continua morrendo nos pobres, nos desamparados. A miséria se agrava num mundo de tantas incoerências, no qual apenas dez por cento dos habitantes do planeta terra podem usufruir  plenamente dos benefícios dos progressos científicos e tecnológicos.

Pobreza econômica paira para a maioria, muitos vivendo além da linha da miséria. Campeiam por toda parte angústias morais. Testemunham, contudo, o amor de Jesus as Conferências de São Vicente de Paulo, as demais obras sociais das diversas paróquias, mas a esta corrente de amor são chamados todos os cristãos, manifestando a grandeza da dileção para com todas as pessoas que sofrem. O cristianismo é a religião do amor. A Igreja tem por missão neste mundo testemunhar que o amor é a vocação de todo batizado. Na escola de Jesus se aprende a amar e a fazer de cada comunidade a academia da comunhão fraterna.

Isto se dá quando em todos os campos da vida humana há fé, esperança,  justa repartição dos bens,  respeito para com o próximo, tudo isto testemunhando por toda parte a misericórdia do divino Ressuscitado. Deste modo se percebe ao vivo o nexo entre evangelização e testemunho, já que a primeira não é mera transmissão de idéias, mas difusão da mensagem de salvação, ou seja, o conjunto de valores destinados a dar sentido à vida do cristão. Ora, os valores se transmitem pelo testemunho. O testemunho de vida é, de fato, o sinal mais importante de credibilidade, já que atesta a sinceridade do seguidor de Cristo e a presença da força divina transformadora.

cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho

 

 

Jesus ao partir do pão

O calor da presença de Jesus ressuscitado é uma realidade testemunhada pelos discípulos de Emaús, que nos reconforta também e que nos faz sentir que essa presença é muito importante para enfrentar todas as caminhadas da vida neste mundo repleto de contrariedade e perplexidades. O calor da Ressurreição faz arder o coração de alegria, porque não se sente desamparado nem à margem do amor de Deus. Deus aí está e diz-nos: "Tocai-Me e vede…". Eis o melhor que se pode ouvir e sentir do ressuscitado.

Perante esta constante paixão amorosa de Deus por nós, não pode haver medos nem desconhecimentos, que possam eventualmente travar o acolhimento desta proposta que nos torna grandes diante do amor compassivo de Deus-Pai-Mãe, revelado por Jesus Cristo.

Na Eucaristia, Jesus senta-se à mesa, pega no pão, parte o pão e entrega o pão para todos como sinal do Seu Corpo glorioso. Não podemos temer esta entrega e esta disponibilidade para o banquete, porque aí descobrimos Cristo totalmente entregue à causa de salvação designada por Deus-Pai-Mãe, que nos defende e nos protege com o Seu amor infinito e incondicional.

Somos hoje, também chamados pelo nosso nome a tomar parte nesta festa de amor e de vida. Os tormentos dos caminhos da vida, nada são diante desta maravilha que Jesus nos oferece. Como venceríamos o desgosto das caminhadas sem sucesso que muitas vezes encetamos pela vida fora? - Só com a força de Jesus que é alimento eucarístico entregue sobre o que somos e temos. E só nessa entrega podemos encontrar sentido para os altos e baixos deste mundo.

A comunidade que se reúne à volta do altar da Eucaristia descobre-se a si mesma como corpo vivo de Cristo presente na história e descobre também a mediação do Espírito Santo como razão de ser da convocação que Cristo faz todas as vezes que a possibilidade do encontro se manifesta.

Dentro da comunidade cada um descobre a sua vocação ou a sua capacidade de doação aos outros. A comum união fraterna que Cristo deseja e para a qual nos chama em todos os momentos, só é possível mediante a disponibilidade do coração para o acolhimento da fé. Não há outra forma de descobrir Cristo vivo nem há outra forma de salvação.

Ninguém se salva sozinho. Só na comunidade à volta da mesa do pão e do vinho se pode encontrar a possibilidade da redenção, porque Cristo ressuscitado manifesta-se de forma plena na comunidade reunida. Que todos sejam capazes de abrir a sua existência à Palavra do Amor que Cristo nos dirige. Não se encontra o verdadeiro sentido da vida fora de Jesus ressuscitado. E a verdadeira vida só é possível quando todos os homens e mulheres, como irmãos, se juntarem à volta da mesa do banquete que Cristo nos prepara. O comensal do amor de Deus para todos sem exceção. Vinde à mesa da festa da vida.

padre José Luís Rodrigues

 

 

“Somos testemunhas da ressurreição de Jesus”.

O maior desafio e a maior tarefa que temos em nossa vida cristã é testemunhar o fato maravilhoso e único da história: a Ressurreição de Jesus. Este testemunho vem de nossa alegria de saber que esta vida é transitória e que iremos para um lugar muito melhor. Somos criados para o eterno convívio com Deus. Na vida eterna só o amor irá reger nossa vida. Por enquanto devemos remar contra a correnteza provocada pelo nosso egoísmo e pelo mal implantado na humanidade perdida na busca de alegrias momentâneas.

“Vós sereis testemunhas de tudo isto”.

Ser testemunha é confirmar com a face aquilo que se acredita. O grande fato da ressurreição de Jesus é a testemunho principal de todos os cristãos que com suas vidas mostram para o mundo o significado último de nossa existência.

A experiência com o ressuscitado que os primeiros discípulos tiveram teve como objetivo marcar bem a missão futura que teriam de anunciar: A verdade da salvação trazida por Jesus Cristo. A partir do grande sinal da ressurreição que se unirá a efusão do Espírito Santo eles se tornaram os grandes arautos da verdade que liberta.

A personalidade dos que acreditam no Cristo ressuscitado é que tempera o mundo que sofre as conseqüências de sua auto divisão. Para o mundo não há mais saída. Confiar nas riquezas é confiar naquilo que é perecível. Os cristãos devem dar testemunho e anunciar o essencial através de suas vidas. Não podem perder o eixo daquilo que crêem e que é a razão de seu batismo. São anunciadores com a vida do Cristo Ressuscitado. A alegria do cristão contesta os que confiam nas riquezas.

Jesus glorioso oferece “paz” a seus discípulos. A sua saudação é conseqüência da transformação que o contato com o Cristo traz automaticamente. Agora não podemos mais ter dúvidas em nosso coração. O testemunho dos discípulos de Jesus é suficiente para crermos que um dia nós também iremos ressuscitar.

A ressurreição é um processo que iniciamos já nesta vida através da prática do bem assimilando aos poucos os valores de Cristo. Somos desafiados a dar um autêntico testemunho do que Jesus nos ensinou. O nosso testemunho não consiste em falarmos muito, mas sim de vivenciarmos os valores que Jesus nos pede. O cristão tem a obrigação de ser feliz em meio às tribulações que são inerentes ao seguimento de Jesus. Os primeiros mártires impressionavam os não crentes pela alegria que sentiam ao serem executados porque tinham a certeza do encontro definitivo com o Cristo que lhes estava esperando para o abraço eterno.

A mundaniedade hedonista, ou seja, aqueles que confiam nos prazeres momentâneos caem num vazio por perceberem que o que buscam é transitório e efêmero. O que adianta ganharmos o mundo inteiro se perdemos o essencial? Dentro de nosso coração temos sede do permanente. Cansamo-nos com as alegrias momentâneas que o mundo oferece. Queremos algo mais profundo para nossa vida. Este profundo é o encontro com Jesus que está vivo no meio de nós. Ele não nos abandona e precisamos reconhecer sua presença onde estivermos para transformarmos o meio onde nos encontramos.

O maior testemunho que podemos dar a humanidade dividida de hoje é a alegria de sermos consagrados a Deus pelo santo batismo. Termos a certeza que Ele nos ama acima de sua própria vida. A partir deste momento todas as nossas preocupações caem por terra, pois o Senhor nos dá um novo sentido para nossa existência.

Vamos juntos fazer o possível para vivermos o nosso primeiro amor. Sairmos de nossa indiferença e abraçarmos o que realmente irá permanecer. Deus é nosso Pai querido, nos enviou seu Filho para nos salvar e o Espírito Santo para reconhecermos o que realmente somos e vivermos o amor no amor.

Que o nosso coração se encha da verdadeira alegria para podermos ajudar a todos que se encontram perdidos em seu próprio egoísmo.

“Senhor Jesus venha nos ajudar a ver a realidade mais profunda de nossa existência”.

padre Giribone - OMIVICAPE

 

 

Minhas mãos e meus pés…

Como foi difícil para os discípulos aceitar a realidade da ressurreição de seu Mestre! Ainda hoje, temos dificuldade em compreender que a morte não tem mais a última palavra em nossa vida…

É por isso que Jesus ressuscitado precisa “identificar-se” diante dos apóstolos: “Sou eu mesmo! Vejam minhas mãos e meus pés!” Jesus não apresenta seu CPF nem sua Carteira de Identidade. Ele mostra as mãos e os pés…

Que notável processo de identificação! Eu sou minhas mãos. Eu sou os meus pés. Eu sou aquilo que fiz: sou meus atos, meus gestos, meu trabalho. Eu sou a estrada por onde andei, os trilhos que escolhi entre tantos atalhos deste mundo.

Mas as mãos e os pés do Ressuscitado ainda estavam ornadas com as marcas da Paixão: eram mãos e pés perfurados pelos cravos do Calvário. É como se Jesus dissesse: “Eu sou aquilo que sofri…”

Não seria esta uma excelente “identificação” para cada um de nós? Sofremos para nascer, sofremos para crescer, sofremos para morrer. E essa aura de sofrimento nos torna pessoas “apaixonadas”, mergulhadas na Paixão de Cristo. Eu sou aquilo que sofri.

Viktor Frankl, o admirável neurologista vienense, propôs que o homem já não fosse visto como “homo sapiens” (= o que sabe), mas como “homo patiens” (= o que sofre). É ali, diante de sua cruz – pessoal e intransferível - que a pessoa humana revela toda a sua grandeza.

Depois da Paixão de Cristo, o sofrimento humano já não pode ser visto como simples desgraça ou acidente. Como observa François Trévedy, “é um homem perfurado que se apresenta aos discípulos; e se existe um céu, é pelas perfurações desse homem que o céu é visível e respirável. Homem estranho pelas incompletudes irreparáveis de sua carne, estranho Deus, em quem até as ausências são reveladoras, e os vazios, e as lacunas! Certeza desse Deus, garantida por suas faltas e por esse possível lugar que Ele nos reserva em Si mesmo”.

Jesus não se limita a abrir as portas do céu, após rasgar o véu do Templo de Jerusalém. Ele rasga seu próprio Templo, seu Corpo crucificado. E sem esta Porta, ninguém acha o caminho do céu…

Orai sem cessar: “E a mão do Senhor estava com eles…” (At. 11,21)

Antônio Carlos Santini

 

 

Os dois discípulos retornam a Jerusalém para contar o que havia acontecido no caminho, e comunicam aos apóstolos reunidos o reconhecimento de Jesus na partilha do pão. Quando estão falando, o próprio Jesus aparece no meio deles.

O encontro com Jesus é o encontro com a paz. É a paz em plenitude, a paz da participação da vida eterna do Pai, que Jesus traz a todos.

Mesmo depois da crucifixão de Jesus, os discípulos continuavam com dúvidas sobre o sentido de sua vida. Agora se evidencia que Jesus não foi destruído pela morte e sua missão de anunciar a conversão para participar da vida eterna deve ser continuada pelos discípulos em todas as nações.

Jesus tem a vida eterna. Ele continua vivo. Não se trata de um espírito, como era admitido aos mortos em várias culturas e religiões, mas continua vivo em sua corporalidade. É o próprio Jesus de Nazaré, com o qual os discípulos conviveram por alguns anos.

Este texto de Lucas tem um sentido catequético para as comunidades de cristãos de origem judaica, as quais devem reler as escrituras sob a ótica da ressurreição, para perceberem a plenitude da vida de Jesus, e o distinguirem do tradicional messias glorioso esperado por Israel.

O equivoco desta tradicional expectativa messiânica fica em evidência na fala de Pedro aos “homens de Israel”, diante do templo de Jerusalém, declarando que eles mataram Jesus, o qual, contudo, foi ressuscitado por Deus.

As comunidades de discípulos devem viver na paz, conscientes da presença de Jesus. A paz é aspiração de todos os povos e religiões.

Quem faz a guerra contra a paz são os poderosos na conquista de mais riqueza e poder. A paz pode ser encontrada em Jesus, que tem a vida eterna e a comunica a todos.

Os discípulos de Jesus, em todos os tempos e povos, são convocados a testemunhar que um mundo novo onde reinem a paz e o amor, revestido de eternidade, é possível.

No evangelho de hoje, nos encontramos uma vez mais com uma cena pós-pascal que já é conhecida: os apóstolos reunidos comentam os acontecimentos dos últimos dias.

Recordemos que nessa reunião que Lucas menciona, estão também os discípulos de Emaús que haviam retornado a Jerusalém logo depois de ter reconhecido Jesus no peregrino que os instruía e que logo partilhou com eles o pão.

Nesse ambiente de reunião se apresenta Jesus e, apesar de que estavam falando dele, se assustam e até chegam a sentir medo.

Os eventos da Paixão não puderam ser assimilados suficientemente pelos seguidores de Jesus. Não conseguem ainda estabelecer a relação entre o Jesus com quem eles conviveram e o Jesus glorioso, e não chegam tampouco a abrir sua consciência à missão que os esperava.

Digamos então que “falar de Jesus” implica algo mais que a simples lembrança do personagem histórico. De muitos personagens ilustres se fala e se seguirá falando, incluindo o mesmo Jesus. Contudo, já desde estes primeiros dias pós-pascais, vai ficando definido que Jesus não é um tema para uma tertúlia sem transcendência.

Esclarecer a imagem de Jesus é uma exigência para os discípulos de todos os tempos, para a própria Igreja e para cada um de nós hoje.

Certamente em nosso contexto atual há tantas e tão diversas imagens de Jesus que não deixa de estar sempre latente o risco de confundi-lo com um fantasma.

Jesus abriu a inteligência dos seus discípulos para entenderem as Escrituras e veio lhes trazer a paz e o entendimento de tudo quanto lhes dissera antes. Do mesmo modo, acontece conosco: para que nós possamos compreender Jesus precisamos nos aproximar Dele, tocá-Lo e alimentarmo-nos com Ele.

Quando nós temos uma experiência com Jesus e chegamos a tocar no Seu mistério de Amor por meio da Sua Palavra nós também alimentamos a nossa alma e temos a inteligência iluminada para compreendermos a obra que Ele quer realizar em nós.

Na verdade, a primeira manifestação de que estamos tocando Jesus é a paz que invade o nosso coração. Jesus vem também nos dizer que o sofrimento, a dificuldade, a aflição, são os acontecimentos próprios da nossa vida que nos trarão mais tarde a paz, o entendimento, a alegria da superação quando nos apoiamos e temos como exemplo a Sua Ressurreição.

A paz é fruto da justiça. Jesus é o Justo por excelência por isso Ele é o doador da Paz. Porém a paz que Ele nos trouxe Ele a conquistou justamente na Cruz. O Seu sofrimento e a Sua entrega foram por Amor, por Paixão.

Reflexão Apostólica

Interessante que as reflexões desta semana foram direcionadas ao reconhecimento de Jesus em nossas vidas e principalmente em nosso meio.

Algo fantástico pra nossa vida espiritual é o fato de um Deus escolher permanecer entre os seus filhos, servos, amigos, seguidores… Esta graça acontece no Sacramento da Comunhão.

Muitos de nós desejamos isso e o fazemos por força do Espírito Santo, para compreender melhor a palavra as coisas do alto.

Desejo-lhes encorajar a buscarem maior vida eucarística, pois nesta, encontraremos a graça do entendimento das coisas espirituais em nossa vida, caminhada, história.

Muitos questionamentos nos ocorrem no dia a dia da universidade, pois faz parte do desejo do homem encontrar-se com a verdade.

“Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio“ (João Paulo II).

Se desejamos reconhecer Jesus, sabermos mais sobre Ele, suas palavras e sobre nós mesmos temos a oportunidade de o fazermos no sacramento da comunhão, ou seja, na partilha do pão.

Todos nós sabemos que a narrativa dos discípulos de Emaús é exclusiva de Lucas. e a sua estrutura assemelha-se à estrutura da celebração eucarística: a escuta da palavra e a partilha do pão, na qual se reconhece a presença de Jesus.

Esse evangelho apresenta uma pedagogia extremamente confortante a todos que estão enfrentando momentos de dúvida em sua caminhada, seja ela no trabalho, em equipe ou em casa. Ele é auto-explicativo. Entretanto, ainda podemos dar mais uma “exploradinha” nele.

A propósito, com relação a momentos de dúvidas, outro dia alguém questionava que é difícil à nossa compreensão, olharmos para a Hóstia Consagrada e admitirmos que ali está o Corpo e o Sangue de Jesus, não inerte mas vivo.

É aquele mesmo Jesus filho de José, que nasceu na manjedoura em Belém, que conviveu com seus pais em Nazaré, que aos 30 anos deixou sua casa e formou um grupo de seguidores, que realizou grandes prodígios, que foi perseguido e rejeitado, condenado e morto em uma cruz. Esse corpo e esse sangue que comungamos é de um ser histórico.

Se Jesus está presente por inteiro na Eucaristia, com sua humanidade e divindade, em corpo e alma, então é ele mesmo e não um outro ser. Está diferente mas é o mesmo.

Se a nossa fé se fundamentasse em provas cabais com ver e apalpar, a igreja teria acabado quando morreu o último apóstolo. O Senhor se faz presente na Palavra que é anunciada.

A palavra do santo evangelho não é uma narrativa que evoca a lembrança de Jesus na comunidade, mas ela é a palavra do próprio Cristo, é ele quem fala pela boca de quem anuncia. Ao ouvirmos a palavra, vemos a Jesus, com os olhos da fé.

Não é preciso ver o sol, sabemos que ele existe ao vermos a sua luz e sentirmos o seu calor. É exatamente essa a nossa experiência em Jesus Cristo.

O evangelho em seu final associa o Jesus Ressuscitado ao Messias anunciado pelos profetas nas escrituras. O Cristo que os homens mataram, Deus o ressuscitou, assim estava escrito e assim se cumpriu.

Então, se Jesus ressuscitou seguindo as escrituras, e os discípulos podem comprovar isso, também aquilo que diz as escrituras sobre o homem, se cumpre com a mesma fidelidade: em seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados, que é o início do processo da nossa ressurreição.

Deste modo Jesus é a testemunha fiel de que Deus nos ama e de que a nossa vida não termina com a morte porque com Cristo iremos todos ressuscitar.

Basta que guardemos a sua palavra e que confiemos no seu amor que nos converte e nos cura de todos os nossos pecados.

Ser testemunha consiste nisso, em viver na comunidade não como em uma nave extraterrestre, mas em uma igreja inserida no meio do mundo testemunhando que o Senhor está vivo e caminha conosco.

Uma Igreja que não deve nunca se fechar em uma salvação egoísta, mas que deve estar sempre aberta para anunciar que Deus quer salvar a todos.

Você agora entende melhor os acontecimentos que Jesus viveu? E os acontecimentos da sua vida, você compreende-os? Você sente essa paz que Jesus veio nos dar? Ela acontece em você apesar das suas dificuldades? Você tem mostrado isso na sua vida?

Eis o desafio para o evangelizador de hoje: esclarecer sua própria imagem de Jesus a força de deixar-se penetrar cada vez mais por sua palavra; por outra parte está o compromisso de ajudar aos irmãos a esclarecer as imagens de Jesus.

É fato, então, que ainda depois de ressuscitado, Jesus tem que continuar com seus discípulos seu processo pedagógico e formativo. Agora o Mestre tem que instruir a seus discípulos sobre o impacto ou o efeito que sobre eles também exerce a Ressurreição.

O evento, pois, da ressurreição não afeta somente a Jesus. Pouco a pouco os discípulos terão que assumir que a eles lhes toca ser testemunhas desta obra do Pai, porém, a partir da transformação de sua própria existência.

O evento da ressurreição é, antes de mais nada, o evento da renovação, começando pelas convicções pessoais. Esta passagem deve ser lida à luz da primeira parte: a experiência dos discípulos de Emaús.

De alguma forma, convém insistir que o evento da ressurreição não afeta somente o ressuscitado, afeta também o discípulo na medida em que este se deixa transformar para colocar-se no caminho da missão.

Nossas comunidades cristãs estão convencidas da ressurreição contudo, nossas atitudes práticas todavia não chegam a se permeadas por esse acontecimento.

Nossas celebrações têm como eixo e centro esse mistério, porém talvez nos falta que elas sejam renovadas e atualizadas efetivamente.

Gostaria de chamar a atenção sobre o necessário cuidado ao tratar o tema das aparições do ressuscitado e seu diálogo com os discípulos e comer com eles… Não podemos responsavelmente tratar esse tema hoje como se estivéssemos no século passado ou antepassado…

Hoje sabemos que todos estes detalhes não podem ser tomados ao pé da letra e não é correto teologicamente, nem responsável pastoralmente, construir toda uma elaboração teológica, espiritual ou exortativa sobre esses dados, como se nada tivesse passado, como se déssemos por descontado que se tratasse de dados empíricos rigorosamente históricos, sem aludir sequer à interpretação que deles se deve fazer…

Pode parecer muito cômodo não entrar nesse aspecto e o fato de fazer isto provavelmente não suscitará nenhuma inquietação nos ouvintes, porém certamente não é o melhor serviço que se pode fazer para ele para o povo de Deus…

Sidnei Walter John

 

 

“Deus glorificou Jesus”

A luz de uma presença

Os textos evangélicos referentes à Ressurreição de Jesus são unânimes em proclamar: Ele esta vivo, nós O vimos e somos testemunhas. Não importa o modo como se expressam para dizer que O viram. As aparições de Jesus tinham a característica de mudança. É o mesmo, pois até comeu um pedaço de peixe assado diante deles (Lc 24,41-43). É o mesmo que fora crucificado. Os discípulos sentem dificuldades para crer. Primeiro pensam que é um fantasma e depois a alegria é tanta que nem acreditam. Jesus insiste; “Tocai em mim e vede. Um fantasma não tem carne nem ossos como vedes que Eu tenho. Dizendo isso, Jesus mostrou-lhes as mãos e os pés … Eles não podiam acreditar, porque estavam surpresos e alegres. Então Jesus disse: ‘Tendes alguma coisa para comer’?. Deram-Lhe um pedaço de peixe assado. Ele o tomou e comeu diante deles” (Lc 24,39-43).Pareceu-lhes diferente, pois não O reconhecem imediatamente. Diante do diferente torna-se necessário que Jesus lhes abra a inteligência para entenderem as Escrituras “Assim está escrito: ‘O Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia e no seu nome, serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém”’ (Lc. 24,46-48). Somente Ele pode nos fazer compreender sua Paixão, Morte e Ressurreição. A partir desta compreensão podem entender sua missão de anunciar a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações. Jesus é solene: “Vós sereis testemunhas de tudo isso” (Lc 24,48). O vigor missionário dos apóstolos e dos discípulos depois da Ascensão provém da experiência pessoal com Cristo vivo. Os que crerem em Jesus, sem tê-Lo visto poderão dar o mesmo testemunho a partir de sua experiência de fé, pois o Espírito é dado a todos. Podemos notar que esse vigor apostólico continua presente na Igreja que anuncia o Cristo vivo e denuncia os lugares de morte existentes por falta de fé.

Convite à conversão

O perdão é garantido por Jesus que em sua obra redentora expiou nossos pecados. Ele continua a ser nosso Defensor contra o mal. Os apóstolos, liderados por Pedro, anunciam com coragem e sabedoria tudo o que aconteceu com Jesus. Dizem que se cumprem as profecias. O erro dos chefes do povo foi por ignorância, como diz Pedro: “Eu sei que vós agistes por ignorância, assim como vossos chefes” (At 3,17). Agindo assim, cumpriram as profecias. Pedro põe os ouvintes como culpados da morte de Cristo e beneficiários da redenção prometida aos antepassados. Seu pecado é perdoado. Pedro é firme no propósito de ser testemunha: “Arrependei-vos, portanto, e convertei-vos, para que vossos pecados sejam perdoados”.

Caminho de todos

As orações litúrgicas pascais afirmam a destinação de todos: “Dai aos que renovastes pelos sacramentos a graça de chegar um dia à glória da ressurreição da carne” (Pós-Comunhão). Ou, na oração sobre as oferendas lembra que a Igreja em festa pede a eterna alegria. A oração da missa estimula a esperar com plena confiança a ressurreição da carne. Como Cristo ressuscitou, todos nós ressuscitaremos. É um motivo para viver a alegria e a plena experiência da fé. Renovados, recuperamos a condição de filhos de Deus, merecemos exultar de alegria. Pelo amor a Deus correspondemos ao grande dom da Ressurreição. Somente ama Deus quem guarda seus mandamentos.  “Naquele que guarda sua palavra, o amor de Deus é plenamente realizado” (1Jo 2,1-5).

 

Os textos evangélicos proclamam: Ele está vivo, nós o vimos e somos testemunhas. Ele é o mesmo, mas é diferente. Mostra as mãos e os pés (sinais dos cravos) e come um pedaço de peixe. Como tivessem dificuldades para compreender, abriu-lhes a inteligência para entenderam as Escrituras que anunciava seu sofrimento e sua ressurreição. Seria anunciada a conversão e o perdão dos pecados. Seu vigor apostólico se baseia nessa experiência. É o mesmo que o Espírito dá aos que crêem.

O perdão é garantido por Jesus em sua obra redentora. Os apóstolos anunciam com coragem e sabedoria o que aconteceu com Jesus. Pedro acusa a ignorância dos chefes e do povo e acentua que assim se cumpriram as profecias. Seu pecado é perdoado. Pedro anunciava a conversão para o perdão dos pecados.

As orações da liturgia afirmam a destinação de todos: renovados pelos sacramentos possam chegar à glória da ressurreição da carne. Renovados recuperamos a condição de filhos e merecemos exultar de alegria. Pelo amor a Deus correspondemos ao dom da ressurreição da carne. Somente ama Deus quem guarda seus mandamentos. 

Peixe nadou com Jesus 

É simpático que um pedaço de peixe assado tenha entrado como prova que Jesus estava vivo e não era um fantasma. Comer é sinal de vida. Jesus se faz presente. O evangelho vence a tendência de acabar com a recusa da Ressurreição. A morte de Jesus e sua ressurreição são fatos reais e têm uma finalidade muito clara que é de levar à conversão, como lemos também nos Atos dos Apóstolos quando Pedro lembra ao povo que os chefes levaram Jesus à morte, mas por ignorância. Mas insiste no arrependimento e na conversão.

Crer em Jesus é guardar seus mandamentos. Não é possível crer em Deus se não existe a coerência de praticar seus mandamentos. Guardar sua palavra é condição para que o amor seja perfeito.

Jesus é nosso defensor contra o pecado e é vítima de expiação. Pagou por nossos males. Se o peixe foi a prova que era Jesus mesmo que estava com eles, seremos também  testemunho se acreditarmos e formos coerentes.

padre Luiz Carlos de Oliveira

 

 

A passagem do evangelho de hoje é a continuação do texto do evangelho que fala da experiência dos dois discípulos de Emaús (Lc. 24,13-35). Quando os dois discípulos estavam contando para a comunidade reunida em Jerusalém sobre sua experiência de encontro pessoal com Jesus ressuscitado, Este, repentinamente, apareceu no meio da comunidade para dar-lhe a paz (shalom).

Através deste relato Lc quer enfatizar alguns temas importantes como: a identidade de Jesus ressuscitado que tem objetivo apologético, o entendimento das Escrituras e a missão futura dos discípulos. Vamos refletir sobre alguns pontos para nossa reflexão.

1. Para crescer na fé é preciso fazer experiência pessoal com Jesus e o testemunho dos outros.

O v. 35 faz conexão com o episódio de Emaús que precede o texto de hoje. Este versículo encerra o relato de Emaús com a notícia de que os dois discípulos “contaram o que lhes tinha acontecido no caminho e como tinham reconhecido Jesus ao partir o pão”. Agora os Onze entram na plenitude da mensagem graças ao testemunho dos dois discípulos no relato de Emaús. Mesmo assim, eles necessitam da experiência pessoal do encontro com Jesus ressuscitado.

Esta experiência pessoal é o fundamento da fé dos crentes de todos os tempos, embora o testemunho dos outros, que têm crido antes, seja indispensável. As duas coisas são indispensáveis para um crente: o encontro pessoal com Jesus ressuscitado e o testemunho dos outros cuja fé tem alcançado sua maturidade. Aquele que começa a acreditar em Jesus será fortalecido pelo testemunho dos outros e pela própria experiência pessoal com Jesus Cristo. Assim todos crescerão juntos na fé em Jesus e formarão uma comunidade de fé. Conseqüentemente serão testemunhas do Senhor ressuscitado.

2. Shalom / A Paz é que dá segurança e não as armas

Enquanto os dois discípulos de Emaús estão relatando o encontro com o Ressuscitado, Jesus aparece no meio deles e os saúda com estas palavras: “A paz esteja convosco!”.   Só os que sofreram pela violência, os que carregam no corpo a lembrança da dor da perda de uma pessoa querida por causa da violência, os que vivem o medo da violência, sabem como é forte o anseio pela paz, e como a paz pode parecer distante.  O tema da paz percorre todo o Evangelho de Lucas. A paz no Evangelho de Lucas é a expressão máxima da vida, pois ela é a superação da morte, o grande medo e o grande conflito para um ser humano.

Jesus saúda os discípulos com “Shalom”: “A paz esteja convosco”. Shalom é aquela paz que responde aos anseios mais profundos do coração humano. Ela representa aquilo que, às vezes, dizemos ao nos despedirmos dos amigos: “Tudo de bom, para você !” ou shalom. Shalom é estar em harmonia com Deus, com o próximo, consigo próprio e com a natureza. Shalom é o que resume bem o paraíso.

“A paz esteja convosco!”. Eis aqui o grande presente do céu, o presente do Ressuscitado, o maior bem que se pode desejar à Terra. Os romanos desejavam a boa saúde; os gregos, a alegria; os hebreus, o shalom. Cristo deseja e dá a paz. Quando Jesus nasceu, os anjos cantaram o hino da paz: “Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens por ele amados” (Lc. 2,14). Mais tarde, Jesus reservou uma das bem-aventuranças aos edificadores da paz: “Bem aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus”(Mt 5,9). E antes de morrer Jesus deixou a sua paz para os seus discípulos: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou...” (Jo 14,27). E depois da ressurreição Jesus deu a paz para os discípulos reunidos como uma comunidade: “A paz esteja convosco!”.

Todos buscam a paz. Cada um a quer em seu coração; cada família a deseja em seu seio; cada sociedade a procura entre os membros. E com razão: sem paz não há felicidade nem progresso.

Santo Agostinho dizia: “A paz é a tranqüilidade da ordem”. Onde houver ordem, onde as coisas estiverem dispostas de acordo com um fim, as pessoas ocuparem seus lugares e fizerem aquilo que devem, ali haverá paz. Para que haja paz, é necessário haver ordem: cada elemento deve ocupar seu lugar e cumprir sua função. Ao contrário, quando houver a desordem, surge imediatamente a intranqüilidade. Além disso, a busca desordenada de riquezas, honras e prazeres não traz a paz, nem pode proporcioná-la. Neste sentido, a paz consiste em praticar as virtudes e lutar contra os vícios. Aquele que se sente poderoso é o que estraga a harmonia, pois quem se sente poderoso é capaz de praticar coisas destruidoras para a convivência.

Além da tranqüilidade da ordem, outro segredo para alcançar a paz verdadeira é adequar nossa vontade à vontade de Deus. O bispo Fulton J. Sheen dizia: “Se um homem criado à imagem e semelhança de Deus, deseja, com todas as suas palavras, obras, e orações, fazer com que seu ideal coincida com a vontade do Criador, não terá contrariada sua natureza e, portanto, alcançará a paz. Mas o homem que contradiz seu fim aqui na Terra, por meio de uma vida antiespiritual, que deixa seus sentidos buscarem os próprios fins, prescindindo do objetivo máximo de toda a sua natureza, esse homem necessariamente sofrerá a dor da ansiedade, os temores e as desordens mentais”. Por isso, quem procura o Deus da paz, encontrará a paz de Deus. Como aconselhou São Doroteu: “Jamais afaste Deus do seu coração: pense sempre que você o tem presente e vive diante dele”. É a paz que dá a segurança e não as armas. Quem estiver com arma, porque está sem segurança e sem paz. Temos que armar nosso coração com amor. Estar com coração cheio de amor possibilita uma convivência harmoniosa. Deus salva a humanidade amando-a (cf. Jo 3,16). Deus nos ama para nos tornar bons e não porque somos bons é que Deus nos ama.

3. A Identidade de Jesus

Mas como é difícil acreditar na vitória do Deus vivo sobre a morte, o Deus que aparece no meio dos discípulos de Jesus com a saudação da paz. Por ser uma coisa inédita e por não ter aprofundado sua reflexão sobre o anúncio da ressurreição feito por Jesus antes de sua morte, os discípulos, em vez de ficarem alegres, “tomados de espanto e temor, pensavam ver um espírito”(v.37). O termo “espírito” aqui equivale a fantasma.

Mas Jesus ressuscitado não é um fantasma ou um espírito incorpóreo ou produto de alucinação coletiva; não é fruto de fantasia de alguns. Jesus ressuscitado é uma pessoa em plena posse de suas faculdades e na plenitude de sua vida. Por isso, diante da reação suspeita dos discípulos, Jesus os convida a olharem, tocarem, constatarem nele e Jesus lhes mostra as mãos, os pés e come um pedaço de peixe assado: “Vede minhas mãos e meus pés: sou eu! Apalpai-me e entendei que um espírito não tem carne, nem ossos, como estais vendo que eu tenho” (v. 39).

Lucas pode muito bem ter escrito esta cena com um objetivo apologético. O interesse primordial de Lucas é a identidade de Jesus ressuscitado (“Sou eu mesmo!” É o famoso “Ego eimi”, sou eu, que lembra a auto-afirmação soberana do Deus bíblico [cf. Ex 3,14], tão freqüente em Jo [cf. Jo 6,35; 8,12; 10,7; 10,11; 11,25; 14,6; 15,1]), de modo que o fato de os discípulos terem reconhecido o aspecto corporal de Jesus ao comer o peixe (Lc. 24,42-43) não é muito diferente de os dois discípulos de Emaús terem reconhecido Jesus ao partir o pão (Lc. 24,31.35). Tendo sido afastada toda ambigüidade por sua morte, Jesus pode proclamar plenamente o “Eu sou”, dando enfim sua própria resposta à pergunta sobre sua identidade e sendo superadas as dificuldades dos discípulos a respeito da ressurreição de Jesus. Jesus continua a ser “Eu sou”, a ser uma presença para todos os discípulos em qualquer situação em que se encontrarem. Uma parte importante da identidade de Jesus ressuscitado é a continuidade da mesma existência corporal de seu ministério, mas ao mesmo tempo Lucas reconhece que no corpo de Jesus havia diferentes propriedades, uma vez que ele não podia ser visto por todos.

Por que Lucas acentua tanto a ressurreição do corpo de Jesus nesta cena? Para entender a esta questão é necessário saber que Lucas é o único autor de origem gentia do Novo Testamento e escreve especialmente para gentio-cristãos, para o mundo grego. No mundo grego o corpo era cárcere da alma, era algo desprezível. A vida toda não passava de uma luta para libertar-se da matéria e do corpo, uma vez que estes eram considerados desprezíveis. O corpo era peso para a alma. Esta depreciação do corpo tem como conseqüência inevitável a negação da ressurreição do corpo ou da carne. Para o mundo grego é muito difícil crer na ressurreição.

Na verdade, não estamos longe de tudo isso. No nosso tempo, muitas pessoas dão lugar mais importante para a alma do que para o corpo. Fala-se freqüentemente da salvação das almas, esquecendo-se do corpo ou a integridade de um ser humano. Algumas conseqüências da desvalorização do corpo são estas: a redução da prática religiosa ao espiritual; a salvação restringida às almas; o descompromisso com o social e o político; o trabalho braçal visto como tarefa de pessoas inferiores; a visão negativista da mulher como “sedutora” e não como companheira igual ao homem.

Além disso, no nosso tempo, há grupos que se dizem religiosos querem tirar do cristianismo a ressurreição. Se tirarmos a ressurreição do cristianismo, eliminaremos certamente a essência do cristianismo, o coração do corpo humano. O que seria nossa vida sem a fé na ressurreição e como seríamos? Ficaríamos perdidos e viveríamos de todas as fantasias em vez de enfrentar a vida e a morte.

De todos os Evangelhos, só Lucas relata que Jesus ressuscitado come um pedaço de peixe grelhado perante os discípulos porque Jesus ressuscitado não é um fantasma. Ele tem corpo e voz. É um ser ressuscitado. No texto Jesus diz: ”olhem e toquem!” Isto quer dizer que ele provoca os sentidos: o olhar e o tato são convocados para comprovar esse fato. Com isso, Lucas quer nos dizer que a ressurreição é uma realidade concreta. A partir da fé na ressurreição do Senhor, estamos certíssimos de que teremos também a ressurreição; nossa vida está assegurada. A morte nunca será capaz de destruir o nosso verdadeiro ser. Por isso, no Credo professamos dizendo “ Creio na ressurreição da carne; na vida eterna”. Não cremos somente na imortalidade da alma, mas também na ressurreição da carne. Nosso corpo vai ressuscitar, sim, de uma forma gloriosa semelhante ao corpo glorioso de Jesus.

Ao apresentar Jesus estar no meio dos discípulos comendo peixe o evangelista Lucas quer nos transmitir uma mensagem forte de que jamais o Senhor nos abandona. O Senhor está vivo e vive entre nós e está conosco todos os dias até o fim do mundo (cf. Mt 28,20). Não somos mais solitários, mas solidários, pois Deus está conosco e nós estamos com Deus. Se vivermos essa fé profundamente será cumprido aquilo que São Paulo escreveu para os romanos: “Se Deus é por nós quem será contra nós? ... Quem nos separa do amor de Cristo? ... nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem as alturas, nem os abismos, nem outra qualquer criatura nos poderá apartar do amor que Deus nos testemunha em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm. 8,31.35. 38-39).

Se o cristão está com Deus e Deus está com ele solidário, ele não pode afastar-se da convivência, não pode se isolar dos demais. Ao contrário, ele deve ser solidário com a humanidade, especialmente com os necessitados pelos quais Jesus veio a este mundo (cf. Lc. 4,18-21; Jo 10,10). O cristão deve usar suas aptidões para construir e salvar a humanidade. Cada cristão existe para fazer o bem. Cada cristão não somente ajuda o próximo, mas deve estar próximo para ajudar. A verdadeira fé não deixa nenhum cristão ser espectador da dor alheia.

O Papa Francisco nos alerta: “O grande risco do mundo atual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada. Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem. Este é um risco, certo e permanente, que correm também os crentes. Muitos caem nele, transformando-se em pessoas ressentidas, queixosas, sem vida. Esta não é a escolha duma vida digna e plena, este não é o desígnio que Deus tem para nós, esta não é a vida no Espírito que jorra do coração de Cristo ressuscitado” (Exortação apostólica Evangelii Gaudium n. 2).

4. Sobre o testemunho e a missão

Uma característica comum nas narrativas da ressurreição é o envio à missão. A missão é vinculada à ressurreição. Jesus diz para os discípulos: “Vós sereis testemunhas de tudo isso”. Isto quer dizer que o Ressuscitado não é propriedade de ninguém. Cada cristão tem missão de fazê-lo conhecer por todos ou testemunhá-lo. Em grego testemunhar ou ser testemunha significa confirmar com a vida (mártir) e até com o sangue o que foi visto e ouvido. Ser testemunha significa um compromisso concreto e vivencial pelo projeto que Jesus anunciou, pelo qual ele viveu, morreu e ressuscitou. Quem acredita em Jesus tem como conseqüência ser missionário de Jesus ou ser testemunha da vida de Jesus. E “ser testemunhas da ressurreição” quer dizer que Deus quer a vitória da vida para todos em todas as circunstâncias. Ser testemunha significa proclamar não apenas por palavras, mas por gestos concretos o nosso compromisso com a vida plena de todos. Palavras e documentos já temos muitos. Falta ação concreta e efetiva. Falta testemunho de vida. “O testemunho mais válido não é expresso por palavras, mas é aquele que irradia uma luz que dificilmente alguém pode apagar” (Rabi Yaacov ben Shimon). Temos que testemunhar a vida de Cristo através de nossa própria vida e se for necessário com as palavras. Ninguém reflete melhor Jesus do que um bom cristão que partilha e compartilha o pão. Onde se partilha o pão, onde se pratica a justiça e ninguém passa fome, ali está Jesus. Onde se vive o amor, se irradia a alegria, ali está Jesus. “O bem tende sempre a comunicar-se. Toda a experiência autêntica de verdade e de beleza procura, por si mesma, a sua expansão; e qualquer pessoa que viva uma libertação profunda adquire maior sensibilidade face às necessidades dos outros. E, uma vez comunicado, o bem radica-se e desenvolve-se. Por isso, quem deseja viver com dignidade e em plenitude, não tem outro caminho senão reconhecer o outro e buscar o seu bem. Assim, não nos deveriam surpreender frases de São Paulo como estas: ‘O amor de Cristo nos absorve completamente» (2Cor. 5,14); «ai de mim, se eu não evangelizar!’ [1Cor. 9,16] (papa Francisco: Exortação apostólica Evangelii Gaudium n. 9).

padre Vitus Gustama,svd

 

 

Anunciar a Ressurreição e a Redenção de Jesus

A nossa missão como batizados é anunciar a redenção de Jesus, sua ressurreição e amar a todos sem limites.

Padre Cesar Augusto - Cidade do Vaticano

O Evangelho deste domingo relata a dificuldade dos Apóstolos em crer na ressurreição. A influência da dualidade grega, da separação entre corpo e espírito e a superioridade deste em relação à matéria que era considerada como fadada a desaparecer, leva os membros da primeira comunidade cristã a terem dificuldades em crer na ressurreição da carne.

Do mesmo modo que em João, podemos entender a precisão de Lucas, ao falar que a aparição de Jesus aconteceu de noite, como não apenas a noite física da natureza, mas a noite da alma, que está repleta de angústias, de perturbações, de dúvidas.

Jesus aparece no meio deles e faz questão de provar que possui um corpo, o mesmo que traz as marcas da paixão, que se alimenta, que é tangível.

É necessário que o Senhor abra nossos corações e nossas inteligências para podermos crer em sua ressurreição. Não basta vermos e sentirmos, é preciso a graça, o dom de Deus para entendermos as Escrituras.

Em seguida, o Senhor dá aos seus amigos a missão de serem suas testemunhas. Isso nos leva aos Atos dos Apóstolos, onde a ação de Pedro deixa claro o que é viver esse mandato. Pedro faz o anúncio do querigma, ou seja, da novidade eterna: Jesus, o Filho de Deus, morreu e ressuscitou para nos redimir.

Na terceira leitura, João, em sua carta, nos ensina que conhecer Deus, conhecer Jesus, é guardar seus mandamentos e sabemos que seu mandamento maior é amar.

Portanto, nossa missão como batizados é anunciar a redenção de Jesus, sua ressurreição e amar a todos sem limites.

 

 

O Evangelho deste domingo relata a dificuldade dos Apóstolos em crer na ressurreição. A influência da dualidade grega, da separação entre corpo e espírito e a superioridade deste em relação à matéria que era considerada como fadada a desaparecer, leva os membros da primeira comunidade cristã a terem dificuldades em crer na ressurreição da carne.

Do mesmo modo que em João, podemos entender a precisão de Lucas, ao falar que a aparição de Jesus aconteceu de noite, como não apenas a noite física da natureza, mas a noite da alma, que está repleta de angústias, de perturbações, de dúvidas.

Jesus aparece no meio deles e faz questão de provar que possui um corpo, o mesmo que traz as marcas da paixão, que se alimenta, que é tangível.

É necessário que o Senhor abra nossos corações e nossas inteligências para podermos crer em sua ressurreição. Não basta vermos e sentirmos, é preciso a graça, o dom de Deus para entendermos as Escrituras.

Em seguida o Senhor dá aos seus amigos a missão de ser suas testemunhas. Isso nos leva aos Atos dos Apóstolos, onde a ação de Pedro deixa claro o que é viver esse mandato. Pedro faz o anúncio do querigma, ou seja, da novidade eterna: Jesus, o Filho de Deus, morreu e ressuscitou para nos redimir.

Na terceira leitura, João, em sua carta, nos ensina que conhecer Deus, conhecer Jesus, é guardar seus mandamentos e sabemos que seu mandamento maior é amar.

Portanto, nossa missão como batizados é anunciar a redenção de Jesus, sua ressurreição e amar a todos sem limites.

padre César Augusto dos Santos, SJ

 

 

Liame entre a morte e a vida

Testemunhas e mandamentos

Em nosso dia a dia há um duelo entre a morte e a vida. Ninguém quer morrer. Mas há também um liame cristão entre estas duas realidades, pois acreditamos que é passando pela morte que poderemos conhecer a vida eterna. Não foi isso que aconteceu com Jesus? Encarnou-se, viveu e para voltar ao Pai passou pela morte. Nele encontramos o caminho, a verdade e a vida.

Continuação - A vida continua após a morte. Isso, contudo, não esconde o duelo que existe entre morte e vida. Ninguém quer morrer. É instintivo. Quem vence essa luta? No último combate vence a morte. Vence, mas a vida continua de modo diferente. É o que nos mostrou Paulo: “Matastes o Príncipe da vida, mas Deus o ressuscitou dentre os mortos: disso nós somos testemunhas” (At 3,15). Que forte a convicção de Paulo: “disso nós somos testemunhas!” Será que podemos dizer o mesmo para os que não crêem? Quando tudo parecia acabado, a grande novidade que Jesus anunciou começou a acontecer: a vida de ressuscitado. Ou seja, Deus deu vida ao que tinha morrido. Dará também a vida eterna aos que  a merecerem. Veja bem: aos que merecerem. Acha que você poderá estar entre estes? Uma pergunta que vale a pena cada um se fazer. Se merecer, a vida será uma boa continuação. Se não… poderá haver triste surpresa.

Merecimento. Deus lançou mão da morte para nos mostrar o segredo para se viver eternamente. Quem não precisava morrer, morreu. “Era necessário que Cristo padecesse, mas que ressurgisse dos mortos ao terceiro dia” (Lc. 24,46). Com isto Deus mostrou  que a morte não é o fim, mas uma passagem. É um apagar-se da vela desta vida e acender-se da vida de ressuscitado.  Para quem haverá esta boa nova? Para quem viveu e pregou “a penitência e a remissão dos pecados” (Lc. 24,47). Aí está o caminho. Quem deste modo viver, conhecerá a morte, mas apenas como uma passagem para a vida. Quem vive segundo o Mestre pode sonhar com a vida eterna. Estará fazendo por merecê-la.

Mandamentos.  Os preceitos do Senhor pavimentam o caminho para a ressurreição. Sabe quais são eles? Não se assuste se não lembrar de todos. Eles podem ser resumidos em dois: no amor a Deus e ao próximo. O amor é a síntese de tudo. Por isso Jesus disse que somente pelo amor, se sabe quem é filho de Deus. “Nisto se revela quem é filho de Deus e quem é filho do diabo: todo aquele que não pratica a justiça não é de Deus, como também não é de Deus quem não ama o seu irmão” (1Jo 3,10). Observou como Deus não está falando de um amor fantasia ou feito apenas de sonho? Está falando de um amor concreto. Quem diz que ama a Deus, conhece seu desejo e o vive. “Aquele que diz conhecê-lo e não guarda os seus mandamentos é mentiroso e a verdade não está nele” (1Jo 2,4). Quantos mentirosos existem nos próprios templos, hein! “Por isso que não vou a templo”, diz você. Nada disso. Não adianta tomar atitude de crítica aos outros. Isso não absolve você do seu comodismo. A omissão é também um mal. O amor é ação e só ele salva. Então, não fuja da raia. Vá ao templo orar ao Senhor e viva seus mandamentos.

     A morte é um ponto final no jogo da vida. Um instante que assusta. A vivência dos preceitos do Senhor garantem bem-estar neste momento. Ele é o passaporte para a vida de ressuscitados que almejamos. Como não desanimar nessa busca? A eucaristia pode ser nossa força. “Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem come deste pão viverá eternamente “ (Jo 5,51). Também pode nos garantir uma transição confiante na hora da morte. “Quem se alimenta com este pão viverá para sempre” (Jo 6,58). A morte não será, então, apenas um trágico fim. Será uma fugaz passagem. Será o começo de uma outra vida para os que viveram como o Mestre ensinou. Certamente os que derem testemunho do ressuscitado, não serão desiludidos.

Eu, diante desta realidade

Testemunhas da ressurreição

15 Matastes o Príncipe da vida, mas Deus o ressuscitou dentre os mortos: disso nós somos testemunhas (At 3,15).

Por minha vida dou testemunho da ressureição?

Remissão dos pecados

45 Abriu-lhes então o espírito, para que compreendessem as Escrituras, dizendo: 46 Assim é que está escrito, e assim era necessário que Cristo padecesse, mas que ressurgisse dos mortos ao terceiro dia. 47 E que em seu nome se pregasse a penitência e a remissão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém (Lc. 24,45-48).

Como tem sido meu empenho para a remissão dos pecados?

Mentiroso

4 Aquele que diz conhecê-lo e não guarda os seus mandamentos é mentiroso e a verdade não está nele (1Jo 2,4).

Vivo como mentiroso?

Minha prece

Ó Jesus ressuscitado,

Mostraste o caminho para a ressurreição.

Ele é feito de amor, de ajuda ao próximo, de participação ativa junto aos necessitados.

É mentiroso quem afirma que ama e não se solidariza com o próximo.

O amor em atos concretos, a penitência em relação às

próprias iniquidades

São garantias de que se está trilhando o caminho que

conduz à vida. Do contrário, o caminho ilusório estará

levando apenas à morte.

Senhor,

Quero ser testemunha da ressurreição,

vivendo o mais possível o mandamento do amor.

É o que tenho a fazer, se almejo a ressurreição e a glória.

Vem em meu auxílio, Senhor.

 

 

A misericórdia, anuncio de Cristo Ressuscitado

1) O Mistério Pascal estende sua força salvadora para realizar a unidade e a comunhão do povo de Deus, como é possível ver em são Pedro que, pela compreensão com a qual trata os judeus (cf. Atos 3,17), lança as bases do nosso ecumenismo e do dialogo inter-religioso.

Além de estabelecer a verdade dos acontecimentos: “Vós matastes o autor da vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos” (At. 3,15) e a responsabilidade dos judeus, ele propõe a misericórdia de Cristo na Cruz reconhecendo-lhes uma atenuante: “E agora, meus irmãos, eu sei que vós agistes por ignorância, assim como vossos chefes” (At. 3,17).

Dialogo na verdade e na caridade constituem em Pedro o Evangelho da misericórdia.

Ele é modelo para nós que devemos dialogar com varias realidades religiosas segundo o primado da verdade e da caridade.

2) É na primeira carta de são João que podemos entender a misericórdia de Cristo, porque “Ele é a vítima de expiação pelos nossos pecados, e não só pelos nossos, mas também pelos pecados do mundo inteiro” (1Jo. 2,2).

A misericórdia de Cristo não é somente o perdão oferecido, é a pessoa mesma d`Éle como vítima, sacrifício e sacerdote.

3) Uma das preocupações de Jesus é de instruir os discípulos sobre a misericórdia orientada para “a conversão e perdão dos pecados” (Lc. 24,47).

O discípulo e o ministro de Cristo deve ser homem de misericórdia e reconciliação, reconhecido como tal pela graça recebida.

Deve ser testemunha da misericórdia de Cristo Ressuscitado: “Vós sereis testemunhas de tudo isso” (Lc. 24,48).

padre Ausilio Chessa

 

 

Aclamai a Deus terra inteira, cantai a glória do seu nome,

celebrai os seus louvores.

O tempo pascal é o tempo da experiência e do testemunho do Senhor Ressuscitado. Na verdade, ninguém pode testemunhar e anunciar credivelmente aquilo que não experimentou. No entanto, como é que hoje podemos fazer a experiência do Senhor Ressuscitado? Como é que podemos testemunhar a Ressurreição do Senhor e levar os destinatários do nosso anúncio a fazerem a experiência do encontro com o Senhor Ressuscitado? A estas interrogações nos respondem as leituras proclamadas neste terceiro Domingo de Páscoa. 

No evangelho deste domingo, o evangelista Lucas narra-nos a aparição do Senhor Ressuscitado à comunidade dos onze apóstolos e seus companheiros (Lc. 24, 34). Depois de Lucas ter apresentado o anúncio da Ressurreição de Jesus pelo anjo às Mulheres, a aparição do Ressuscitado a Pedro e a experiência do Ressuscitado que os dois discípulos fizeram a caminho de Emaús, apresenta-nos agora a aparição de Jesus aos apóstolos que pretende ser uma catequese sobre a experiência e o encontro com o Senhor Ressuscitado. 

Apesar de ouvirem o testemunho da experiência do Ressuscitado que os dois discípulos de Emaús fizeram, os apóstolos ainda estavam com medo e incrédulos porque ainda não se tinham encontrado pessoalmente com o Senhor Ressuscitado. É neste contexto de dúvida e de temor que o Ressuscitado se apresenta no meio deles com a sua saudação de paz. Na verdade, é na comunidade, no centro da comunidade, que o Senhor Ressuscitado se torna presente. Só em comunidade é que podemos fazer a experiência do encontro com o Senhor Ressuscitado. Na verdade, o Ressuscitado é o centro que congrega a comunidade, é o centro do qual tudo parte e para o qual tudo converge. A saudação que o Ressuscitado dirige a quem se encontra com Ele é uma saudação de paz. Aquela paz que é um dom messiânico e que se traduz na harmonia, na serenidade, na tranquilidade e na vida plena. A Paz é o grande dom do Senhor Ressuscitado. É o Senhor Ressuscitado que nos concede a paz: a paz com Deus, a paz connosco próprios e a paz com os irmãos. A paz é um dom do Senhor Ressuscitado. 

No entanto, as dúvidas também não estão ausentes. As dúvidas dos discípulos mostram-nos as dificuldades que os discípulos tiveram que ultrapassar no seu caminho de fé. As dúvidas são o resultado lógico da ressurreição ser um acontecimento que não pode ser comprovado cientificamente mas que não deixa de ser verdadeiro. Há muita verdade para além da reduzida verdade oferecida pela ciência. 

Diz-nos o evangelho que a aparição do Senhor Ressuscitado produziu nos discípulos espanto, medo, admiração e alegria. O espanto e o medo, na Bíblia, são a reação normal do homem quando entra em contacto com Deus. O evangelista Lucas ao dizer-nos que os discípulos sentiram medo e espanto está-nos a dizer que os discípulos estão ante uma experiência de encontro com Deus. Além do medo, o encontro com o Senhor Ressuscitado também provoca nos apóstolos admiração e alegria. É o Senhor Ressuscitado, e só Ele, que nos traz aquela alegria que nada nem ninguém nos pode tirar e que é a alegria da salvação, da vida em plenitude, de uma vida com Deus e em Deus, da certeza que a vida é mais forte que a morte, que a amor elimina todos os ódios, que a ternura conquista todas as violências e que a esperança ilumina todos os desesperos. A nossa alegria é a Ressurreição do Senhor que se torna Páscoa na nossa vida e Páscoa para o mundo. 

Esta experiência com o Senhor Ressuscitado não é o resultado de uma necessidade psicológica, uma ilusão ou o resultado de uma imaginação fecunda. O evangelista Lucas ao pôr em relevo os elementos sensíveis do convite a tocar em Jesus e de Jesus ter comido mostra que a experiência do encontro com o Senhor Ressuscitado é uma experiência marcante, forte e quase palpável.

Neste encontro com os seus apóstolos, Jesus explica aos seus discípulos as Escrituras e envia-os em Missão. O Ressuscitado não é só o centro e Aquele em quem se cumprem as Escrituras mas também o seu intérprete. É à luz da Ressurreição de Jesus que podemos compreender as Escrituras. 

O encontro com o Senhor Ressuscitado não nos paralisa mas estimula-nos ao anúncio. Quem se encontra com o Senhor Ressuscitado não pode guardar só para si tal alegria. Tem de a anunciar a todo o mundo, tem de tornar todo o mundo participante da festa da páscoa que acontece pelo arrependimento e pelo perdão dos pecados. 

E é isto, exatamente isto, que vemos o apóstolo Pedro a fazer na primeira leitura deste dia retirada dos Atos dos Apóstolos. Depois da cura do coxo no templo de Jerusalém, Pedro, à multidão que cheia de assombro e estupefata se reuniu no pórtico de Salomão, anuncia a Ressurreição de Jesus, daquele Jesus que “vós entregastes e negastes na presença de Pilatos … matastes o autor da vida”. Anunciar a Ressurreição é também denunciar o pecado que nos habita. É denunciar a raiva, a malicia, o ódio, a violência, a mentira e o gosto pela morte que tantas vezes nos habitam. No entanto, tal denúncia mais que ao desespero deve-nos levar ao arrependimento. Na verdade, Pedro termina, o seu discurso convidando o povo arrepender-se e a converter-se para que os seus pecados sejam perdoados. Deus continua a oferecer a todos a oportunidade da salvação. 

Como nos recordava São João na sua epístola, “se alguém pecar, nós temos Jesus Cristo, o justo, como advogado junto do Pai. Ele é a vítima de propiciação pelos nossos pecados, e não só pelos nossos, mas também pelos do mundo inteiro. ” Deus continua a oferecer aos homens a sua salvação. Jesus é o nosso defensor. Na verdade, Ele veio para eliminar todos os pecados de todos os homens. Assim sendo, todos nós diante do anúncio da ressurreição devemos reconhecer os nossos pecados, a nossa debilidade e a nossa fragilidade. No entanto, tal reconhecimento não nos deve levar ao desespero mas à conversão porque está descoberta é feita sob o olhar misericordioso de Deus. Só reconhecendo a nossa debilidade é que podemos ser curados. Assim sendo, não sejamos mentirosos e não digamos que não pecamos. Afirmar que não pecamos é afirmar que não temos necessidade de Jesus que foi enviado para nos salvar dos nossos pecados. Dizer que não pecamos é enganarmo-nos e fecharmo-nos no nosso orgulho e auto-suficiência e recusarmos a salvação que Deus nos oferece. O pecado, infelizmente, é uma realidade incontornável que resulta da nossa debilidade. Temos de ter a coragem de nos reconhecermos pecadores diante de Deus, pois só Ele é que nos pode reanimar e reconstruir as nossas vidas com o seu perdão. No entanto, o fato de admitirmos que somos pecadores não nos deve levar a conformarmo-nos com o pecado. O reconhecimento dos nossos pecados deve ser acompanhado por um esforço sério por pôr em prática os mandamentos de Deus, porque “aquele que diz conhecê-lo e não guarda os seus mentirosos é mentiroso.”

A mensagem deste III Domingo da Páscoa ganha um rosto concreto nos Sacramentos, em especial no sacramento da Eucaristia e da Reconciliação. Na verdade, é na eucaristia que na Palavra proclamada e no sacramento do altar eu me encontro com o Senhor Ressuscitado e sou enviado em missão. É no sacramento da reconciliação, que eu reconheço, à luz do amor de Deus, reconheço a minha debilidade e o meu pecado e recebo o perdão de Deus que recria e reconstrói a minha existência. Não desperdicemos os sacramentos do encontro com o Senhor Ressuscitado, encontros esses que reconstroem a nossa vida e nos enchem de alegria.

padre Nuno Ventura Martins

 

 

Cristo realmente ressuscitou!

O padre Raniero Cantalamessa relata, em um de seus livros, o seguinte episódio: os ortodoxos, durante o tempo pascal, quando se encontram pelas ruas, usam a seguinte saudação: “Cristo ressuscitou!” – ao que se responde: “Realmente ressuscitou!”.

Pois bem, durante a revolução russa foi organizado um debate público sobre a ressurreição de Cristo, na tentativa do partido comunista de convencer os cristãos a abandonarem a fé. Foi escolhido um comunista ateu para abrir o debate. O mesmo falou eloquentemente e considerou por certo que seus argumentos colocariam por terra quaisquer resquícios de fé na ressurreição. Depois dele, foi chamado ao microfone um padre ortodoxo, com a missão de defender o dogma da ressurreição. Os olhos estavam todos voltados para ele. Como ele derrubaria a brilhante argumentação do ateu? O sacerdote olhou para o povo reunido, e saudou a todos dizendo: “Cristo ressuscitou!”. O povo, em massa, respondeu: “Realmente ressuscitou!”. Ao escutar essa resposta, o padre deixou o microfone. Tinha terminado sua argumentação.

Ouvindo os ecos da boa nova da Páscoa, hoje a liturgia continua anunciando: “Vós matastes o autor da vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos, e disso nós somos testemunhas” (At. 3,15) e “O Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia” (Lc. 24,46). Ainda que seja o cerne da fé cristã, não são poucos os “cristãos” que questionam a verdade da ressurreição. “Como podem alguns dentre vós dizer que não há ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação, vazia é também a vossa fé. Mas não! Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que adormeceram” (1Cor 15,12-14.20).

Mas fará alguma diferença aceitar a ressurreição de Cristo – e, por extensão, a ressurreição de todos os que fazemos parte de Seu Corpo?

Sim. Faz toda a diferença. Considerar a morte como páscoa (passagem) para a vida eterna nos coloca numa perspectiva tal que nos faz repensar os atos da vida presente:

Se acreditamos que tudo acaba com a morte, tudo o que nos resta é o tempo presente – pois o passado não tem mais significado e o futuro é imprevisível. Ora, se o que conta é somente o tempo presente, então porque é que alguém se submeterá a quaisquer privações, seja do que for lícito, seja do que for ilícito? Citando Dostoievski, “Se Deus está morto, então tudo é permitido”.

Agora, se creio na ressurreição da carne – como logo mais professaremos no credo, então tanto o passado quando o presente têm valor de eternidade. Existe, nesse caso, um porquê que sustenta meus procedimentos, minha forma de pensar, meus sentimentos, minhas esperanças. Podemos dizer como o salmista de hoje: “Eu tranquilo vou deitar-me e na paz logo adormeço, pois só vós, ó Senhor Deus, dais segurança à minha vida!” (Sl 4).

É bastante simples dizer “O Senhor ressuscitou! Realmente ressuscitou!”. Mas quando observamos na nossa vida todo tipo de permissivismo, o tranquilo convívio com o pecado da fornicação, de práticas antinaturais, de desonestidades, de “dar um jeitinho” em tudo, de “aproveitar a vida” (no sentido corrente da expressão), de vingança, de fofoca e maledicência e outras tantas formas não cristãs de conduta, é hora de nos perguntarmos seriamente: Creio no inferno? Creio na ressurreição? Creio no céu? Creio mesmo? Se creio, vou esperar para mudar de vida até quando? Agora, se não creio, pois “viva a liberdade”. Que cesse a encenação para mim mesmo. Não são as aparências de uma “vida de fé” que me garantirão o céu.

É hora de sair do torpor. É hora de vivermos como criaturas novas! Cristo ressuscitou! Realmente ressuscitou!

padre Jacques Rodrigues

 

 

A PALAVRA É MEDITADA

Conheciam-no bem, depois de três anos passados com Ele, nas estradas, nas oliveiras, nos peixes, nas aldeias, de olhos nos olhos, e no entanto não o reconhecem.

Jesus é o mesmo e é diverso, é o mesmo e está transformado, é aquele de antes e é outro. Porque a Ressurreição não é simplesmente um voltar à vida de antes: é ir em frente, é transfiguração, é adquirir algo a mais. Energia em movimento que Jesus não tem para si, mas que estende a toda a criação, toda tomada e por nós compreendida, dentro do seu ressurgir e arrastada para o alto, para formas mais luminosas.

Paz, é a primeira palavra do Ressuscitado. E repete-a em cada encontro: entro na igreja, abro o Evangelho, desço no silêncio do coração, reparto o pão com o faminto. São muitas as estradas que o Encaminhado percorre, mas de cada vez, sempre, em cada encontro acolhe-nos como um amigo sorridente, de braços abertos, com palavras que oferecem bem-estar, paz, plenitude, harmonia. Acreditar nele faz bem à vida. Quer contagiar-nos de luz e contaminar-nos de paz.

Ele sabe bem que são os encontros que mudam a vida dos seres humanos. De facto, vai ter com os seus, mestre de encontros, com a sua pedagogia real que não prevê pedidos ou injunções, mas comunhão. Vem e partilha pão, olhares, amizade, palavra, paz. O papel dos discípulos é não se defenderem, não s envergonharem, mas despertar do sono: tocai, vede, olhai, comamos juntos.

«Tocai-me, olhai». Mas como tocá-lo hoje, onde vê-lo? Ele está no grito vitorioso da criança que nasce e no último respiro do moribundo, que recolhe com um beijo. ...

«Não sou um fantasma» é a lamentação de Jesus, e aí ressoa o desejo de ser abraçado forte como um amigo que volta de longe, de ser apertado com o entusiasmo de quem te quer bem. Não se ama um fantasma.

«Comamos juntos». Este pequeno sinal do peixe assado, os apóstolos o darão como prova decisiva: comemos com Ele depois da sua ressurreição (At 10,41). Porque comer é o sinal da vida; comer juntos é o sinal mais eloquente de uma comunhão reencontrada, o gesto que liga, guarda e aumenta as vidas. O alimento é uma realidade santa. Santa porque faz viver. E que o homem viva é a primeira de todas as leis, da lei de Deus e das leis humanas.

A PALAVRA É REZADA

Cristo ressuscitou verdadeiramente, triunfa a vida,

abre-se o caminho de uma nova definitiva aventura.

Ressuscitado é o Mestre, ressurge a história,

cores de festa, tudo ao redor ri de alegria.

Cantai, ó céus, a vitória sobre a morte,

cantai irmãos o Cristo Senhor,

a Palavra manteve a palavra, a pedra foi removida,

agora é tempo de desafios exaltantes,

agora o Evangelho corre veloz.

Companheiros do Mestre agarrai o seu Verbo,

anunciai ao errantes o regresso a casa,

o pai está pronto desde sempre,

o anseio preparado para o feliz regresso.

Anunciai que o Senhor se fez ver,

ressuscitado mostrou as chagas passadas,

feridas de cruz, oferta de amor.

Gritai que pelas suas chagas fomos salvos. Ámen.

(In Qumran e La Chiesa: tradução livre de fr. José Augusto)

 

 

1º Esquema

“Jesus abriu a inteligência dos discípulos para entenderem as Escrituras”. Nem diante dos testemunhos, nem vendo Jesus Ressuscitado, serviu para a os discípulos crerem por isso foi necessário abrir a inteligência deles para contemplando todas as promessas entendessem que o Cristo sofreria e ressuscitaria, assim também São Pedro afirma que o Deus dos Pais ressuscitou o seu servo Jesus, dessa forma se tornou o nosso Defensor perante o Pai, que hoje também Deus resplandeça sobre nós sua face e promova uma verdadeira renovação espiritual.

2º Esquema

“A paz esteja convosco” A verdadeira paz somente aquele que tem a Palavra de Deus em si no dizer da carta de João, é o Dom do Cristo Morto e ressuscitado, para acolher essa paz, devemos nos arrepender e nos converter, e aceitar o que diz a Escritura que o Messias deveria sofrer, morrer para ressuscitar, assim a face de Deus resplandece sobre nós e nos abrimos a uma verdadeira renovação espiritual.

3º Esquema

O ser humano pecou e se afastou da fonte de Deus, mas o Deus de Abraão, Isaac e Jacó, ressuscitou o seu servo Jesus Cristo, que deveria sofrer para ressuscitar, nossa conversão a àquele que é o nosso Defensor perante o Pai, nos garante participar do Dom de sua morte e ressurreição, é isto que nos dá sentido à vida, o resplendor de sua face sobre nós que promove nossa verdadeira renovação espiritual. 

 

 

“Sou eu mesmo! Tocai em mim e vede!”

O Tempo Pascal nos ajuda a aprofundar o mistério da Páscoa, a entrar mais profundamente nele. Este já é o terceiro domingo que temos para fazer essa verdadeira mistagogia.

Como aos discípulos reunidos, hoje o Senhor apresenta-se a nós para mostrar a identidade entre o Crucificado e o Ressuscitado: “Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo!” (Lc. 24,39).

Uma ênfase da celebração de hoje deve ser a certeza da presença de Deus, em Cristo, na comunidade e no mundo. “A nossa cultura perdeu a noção desta presença concreta de Deus, da sua ação no mundo; pensamos que Deus Se encontra só no além, em outro nível de realidade, separado das nossas relações concretas” (“Lumen Fidei” – Carta Encíclica do papa Francisco sobre a fé, n.21).

Recordando a Palavra

No Evangelho de Lucas (24,35-48), temos uma narrativa que ajuda a compreender a identidade de Jesus Ressuscitado. Ela está situada após o episódio da caminhada dos dois discípulos para Emaús, donde voltam correndo para anunciar à comunidade reunida o encontro com o Senhor vivo.

A própria ressurreição dá a identidade nova de Jesus, que foi difícil de ser assimilada pela comunidade de discípulos. Podem-se perceber dois momentos dessa perícope: os versículos 35-43 tratam da identidade corporal ou visível de Jesus; já em 44-48 temos o sentido da identidade plena de Cristo, a partir da sua ressurreição.

Jesus mesmo é quem se revela. Aliás, as aparições do Ressuscitado não podem ser provocadas, mas elas acontecem sempre por iniciativa d’Ele. Há uma ênfase em mostrar que Jesus não é um fantasma, como eles pensavam, já que Ele apareceu inesperadamente. E não esqueçamos que há pouco o tinham visto morto e sepultado, o que torna mais difícil crer que esteja vivo e presente ali entre eles.

Com a finalidade de esclarecer que não é um fantasma, Jesus mostra as marcas da cruz nas mãos e nos pés, o que ainda não diminuiu as dúvidas. Pediu, então, algo para comer. E comeu um pedaço de peixe assado que lhe deram. Um fantasma não poderia comer.

Vamos agora ao segundo momento da perícope, onde Jesus revela-se como cumprimento das Escrituras (Escrituras são o que nós designamos Antigo Testamento). O que se quer mostrar aqui é que o Mistério Pascal de Cristo é ponto alto para onde se conduz a história do Povo de Deus. Agora, pelo anúncio da morte e Ressurreição de Cristo e pela fé em seu nome, acontecem a conversão e o perdão dos pecados. Um elemento ainda: a destinação da salvação é universal, para todas as nações, a começar por Jerusalém.

O discurso de Pedro, relatado nos Atos dos Apóstolos, insere-se na mesma perspectiva. Lembremos que Lucas é o autor também desse livro.

Pedro mostra que quem agiu na Ressurreição de Jesus é o Deus de Israel, e que sua morte e Ressurreição são cumprimento das profecias antigas. Pedro atenua a culpa do povo, alegando a ignorância com a qual agiam. E aproveita para o principal: chamar à conversão, donde resultará o perdão dos pecados. Percebamos que a conclusão é semelhante à do Evangelho de hoje: todos são chamados à conversão.

O Salmo 4 é cantado em perspectiva cristológica: “compreendei que nosso Deus faz maravilhas por seu servo” (v. 4). Em alusão à Ressurreição de Cristo, pede-se no refrão que o Senhor faça brilhar sobre nós o esplendor de sua face.

A segunda leitura, da Primeira Carta de João, exorta a comunidade a corresponder ao amor de Deus em Cristo. Mostra Cristo como Defensor nosso junto do Pai. Ele que libertou-nos do pecado por sua morte, intercede por nós ao Pai. O autor recorda que conhecer Deus – que é praticamente sinônimo de “amar a Deus” – desemboca em viver os mandamentos de Deus. A verdade está em quem guarda a palavra de Deus e, vivendo-a, realiza em si o amor.

Atualizando a Palavra

Muitos já devem ter se perguntado: será que tudo o que cremos a respeito de Jesus não é uma invenção, ilusão ou farsa? Parece que Lucas, antevendo essa dúvida nossa, escreveu o seu Evangelho. Vale a pena retomar os versículos 1-4 do primeiro capitulo de Lucas, onde ele deixa claro que investigou antes de escrever, procurando encontrar solidez no que vai ensinar. E de onde vem essa solidez? Das testemunhas oculares da vida, da morte e da Ressurreição de Cristo.

A comunidade dos discípulos demorou a crer. Não estava esperando Jesus aparecer. Pelo contrário, quando Jesus aparece, eles persistem na dúvida. Esse elemento é fundamental: o anúncio do Ressuscitado não parte de uma produção mental, de um transe coletivo dos discípulos. O anúncio do Ressuscitado parte de uma experiência real de encontro com Ele. Esse encontro transformou a vida dos Apóstolos e dos discípulos que estavam com eles.

Outro aspecto forte da Palavra de Deus é que Jesus Ressuscitado não é fantasma, mas é um ser concreto, embora com uma identidade material distinta da nossa: não está preso aos limites do tempo e do espaço e, ao mesmo tempo, não é um fantasma, pois pode ser tocado e se alimenta, para mostrar sua presença real.

Há muitas experiências de fé que parecem crer num Jesus fantasma, puro espírito, não mais humano. A esse respeito, alerta-nos o papa Francisco na Evangelii Gaudium, n. 89: “Mais do que o ateísmo, o desafio que hoje se nos apresenta é responder adequadamente à sede de Deus de muitas pessoas, para que não tenham de ir apagá-la com propostas alienantes ou com um Jesus Cristo sem carne e sem compromisso com o outro”.

O Evangelho e a primeira leitura terminam em perspectiva de futuro, olhando para aqueles que vão crer em Jesus Cristo Ressuscitado que, pela sua morte, livra-nos do pecado. Aqui cabe falar da necessidade de não enxergar a ressurreição como um acontecimento estático, como um fato do passado. Ela é dinâmica, é sempre atual e segue a nos tocar com a graça de Deus que nos renova.

Ligando a Palavra com ação litúrgica

Nossas assembleias litúrgicas se reúnem na certeza da presença do Cristo Ressuscitado. Contudo, não é fácil crer nessa presença. Nós a confessamos logo ao início da celebração, bendizemos a Deus por nos ter reunido no amor de Cristo. Dissemos, também, diversas vezes, que o Senhor está no meio de nós!

“Com a saudação de benção, mesmo a mais simples: ‘o Senhor esteja convosco’, o celebrante ‘anuncia à comunidade reunida a presença do Senhor’ (IGMR, n.36). A Liturgia é um mistério de recíproca presença: o Senhor em meio a seu povo e o povo reunido perante sua face para servi-lo” (Boselli, Gofredo. O sentido espiritual da liturgia. Brasília: Edições CNBB, 2014, p.33).

Essa presença real de Cristo precisa ser sempre reafirmada, para não fazermos da celebração apenas um encontro nosso para lembrar de Jesus, e celebrar a Páscoa, como se fosse algo do passado. A eucaristia alimenta em nós a certeza da presença do Senhor e da sua vitória sobre a morte.

dom Vilson Dias de Oliveira, DC

 

 

Tempo de dúvidas

Somos testemunhas atuais da realidade dos novos tempos. As marcas podem ser entendidas como “sinais dos tempos”, mudança de época e avanço para o futuro. Não conseguimos enxergar o que vem por aí, mas a esperança deve nos convencer de que Deus acompanha a história. Em meio a crises e ignorância da cultura moderna, um mundo melhor e promissor certamente está por vir.

As dúvidas são importantes, porque provocam busca de maiores esclarecimentos. No tempo de Jesus, muitas pessoas tinham dúvidas sobre Ele. Até os apóstolos, seus seguidores mais próximos, viviam numa grande crise. Em certo momento foram infieis e O negaram diante do povo. Parece com as crises do momento, com as inseguranças, dúvidas e medo, que atingem a todas as pessoas.

A infidelidade à Aliança proposta por Deus a Abraão, e realizada plenamente em Jesus Cristo, continua acontecendo. As desconstruções da pessoa humana abafam as riquezas da vida divina nas realidades concretas. As consequências são quase normalmente marcadas por insegurança e sofrimento. Mas não é esse o caminho que proporciona realização e conforto para a vida humana.

Diante das incertezas, o ser humano se desestabiliza, se angustia e se perde nas dúvidas. Nesse contexto as pessoas ficam intolerantes, muito preconceituosas e perdem a capacidade de se autorealizar. Mais ainda em ano eleitoral, porque as dúvidas e incertezas se avolumam tomam conta do nosso imaginário. Ficamos incapacitados para emitir uma decisão com responsabilidade.

Existem dúvidas sobre a fé. Sua base tem fundamentação bíblica e está relacionada com a aliança que Deus fez com o seu povo. O conhecimento da Sagrada Escritura nos leva a amar o Senhor e aos irmãos dentro de uma dimensão de fé. Deus se faz presente na vida das pessoas, principalmente no momento da Celebração Eucarística, fortalecendo-as na prática de fé.

O encontro pascal com Jesus Cristo é revelador de certezas sadias e reconfortantes. Sua Palavra ocasiona confiança e exige fidelidade ao que é proposto como condição para uma vida alegre e feliz. Quem a observa com atenção faz brilhar, no seu entorno, o verdadeiro amor pelo mundo e consegue superar as crises de dúvidas que marcam a vida das pessoas da nova cultura.

dom Paulo Mendes Peixoto

 

 

“A vontade de Cristo, norma de nossa vida”

Quando nos é ensinado que Cristo é a redenção e que para redimir-nos entregou-se a si mesmo como pagamento, ao mesmo tempo confessamos que, ao construir-se em pagamento de cada uma das almas e nos concedendo a imortalidade, nos converteu – a nós que fomos comprados por ele dando vida por morte – em sua própria posse. Contudo, se somos propriedade daquele que nos redimiu, sigamos ao Senhor de forma incondicional, de forma que já não vivamos para nós, mas para aquele que nos comprou custando a sua vida: pois já não somos donos de nós mesmos; nosso Senhor é aquele que nos comprou e nós estamos submetidos ao seu domínio. Em consequência, sua vontade deve ser a norma de nosso viver.

E assim como quando a morte nos oprimia com tirânica dominação, a lei do pecado determinava tudo em nós, assim, agora que estamos destinados à vida, é lógico que a vontade do Todo-poderoso nos governe, e não queira que, renunciando pelo pecado a vontade de viver, caiamos novamente por própria decisão sob a ímpia dominação do pecado.

Esta reflexão nos unirá mais intimamente ao Senhor, sobretudo se escutássemos a Paulo chamar-lhe algumas vezes de “Páscoa”, outras vezes de “sacerdote”: porque Cristo se imolou por nós como verdadeira Páscoa, e, no atributo de sacerdote, o próprio Cristo se ofereceu a Deus em sacrifício. Entregou-se, diz, por nós como oblação e vítima de suave odor, o que é uma lição para nós. Pois quem vê que Cristo entregou-se a Deus como oblação e vítima e converteu-se em nossa Páscoa, ele mesmo apresenta seu corpo a Deus como hóstia viva, santa, agradável, feito um culto aceitável. A maneira de realizar o sacrifício é: não acomodar-se a este mundo, mas transformar-se pela renovação da maneira de pensar, para discernir o que é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito.

De fato, a vontade amorosa de Deus não pode manifestar-se na carne não sacrificada pela lei do espírito, já que a tendência da carne é rebelar-se contra Deus, e não se submete à lei de Deus. Disto se segue que, se antes não se oferece a carne – mortificado tudo o que nela é terreno e com o que concorda com o apetite – como hóstia viva, não se pode consumar sem dificuldade na vida dos crentes a agradável e perfeita vontade de Deus. Da mesma forma, a simples consideração de que Cristo erigiu-se em nossa propiciação a partir de seu sangue, nos induz a constituir-nos em nossa própria propiciação e, mortificando os nossos membros, conseguir a imortalidade de nossas almas.

E quando se diz que Cristo é o reflexo da glória de Deus e imagem de seu ser, a expressão nos sugere a ideia de sua adorável majestade. Com efeito Paulo, inspirado pelo Espírito de Deus e instruído diretamente por Deus, que no abismo de generosidade, de sabedoria e conhecimento de Deus tinha rastreado o arcano e recôndito dos mistérios divinos; e, sentindo-se incapaz de expressar na linguagem humana a claridade daquelas coisas que estão além de toda indignação ou investigação, e que, no entanto, lhe foram divinamente reveladas, para que os ouvidos dos seus ouvintes pudessem captar a inteligência que ele tinha do mistério, faz uso de algumas aproximações, falando na medida em que suas palavras eram capazes de verter seu pensamento.

são Gregório de Nissa

Tratado sobre o perfeito modelo de cristão

Lecionário patrístico dominical, pp. 348-349

 

 

“E vocês são testemunhas disso.”

O evangelho de hoje é a segunda parte do capítulo 24 de Lucas, que relata primeiro a história das mulheres diante do túmulo de Jesus, e agora o incidente do encontro de Jesus Ressuscitado com os dois discípulos na estrada de Emaús. Devemos recordar que Lucas estava escrevendo a sua obra em vista dos problemas da sua comunidade pelo ano 85 d.C. Já não estamos mais com a primeira geração de discípulos - já se passou mais de meio século desde os eventos pascais. A comunidade já está vacilando na sua fé - as perseguições estão no horizonte, ou até acontecendo; o primeiro entusiasmo diminuiu, os membros estão cansados da caminhada e perdendo de vista a mensagem vitoriosa da Páscoa. Parece que é mais forte a morte do que a vida, a opressão do que a libertação, o pecado do que a graça.

Neste cenário, Lucas escreve este capítulo. Traz uma mensagem de ânimo e coragem aos desanimados e vacilantes da sua época - e da nossa! Para as mulheres, os dois anjos perguntam “por que estão procurando entre os mortos aquele que está vivo?” E afirmam: “Ele não está aqui! Ressuscitou!” Mensagem atual para os nossos tempos - diante da péssima situação de tantas pessoas que enfrentam a dura luta pela sobrevivência, com desemprego, baixo salário, falta de terra e moradia, uma herança de décadas de descaso dos governantes com a saúde pública e a educação, é muito fácil perder a esperança e a coragem. Como a Campanha da Fraternidade recente quis animar os cristãos na luta para que todos tenham uma vida digna, vencendo a apatia e a passividade, o nosso texto quer nos lembrar que Jesus venceu o mal, não foi derrotado pela morte, e está no meio de nós!

Os dois discípulos no caminho de Emaús são imagem viva da comunidade lucana - e de muitas hoje! Já sabem do túmulo vazio, mas estão desanimados, desiludidos, sem forças - pois ainda não fizeram a experiência da presença de Jesus Ressuscitado. Pois, a nossa fé não se baseia no túmulo vazio, mas pelo contrário, a nossa experiência do Ressuscitado explica porque ele ficou vazio. Os dois só fazem esta experiência quando partilham o pão! A Escritura fez com que os seus corações “ardessem pelo caminho” (v. 32), mas não lhes abriu os olhos - para isso era necessário formar uma comunidade celebrativa de fé e partilha: “contaram... como tinham reconhecido Jesus quando ele partiu o pão” (v. 35).

Finalmente, o grupo dos discípulos reunidos em Jerusalém é símbolo das comunidades confusas e vacilantes. Tinham dificuldade em acreditar - pois a mensagem da Ressurreição é realmente espantosa! Mas, uma vez feita essa experiência, eles se transformam e se tornam testemunhas vivas do que sentiram, experimentaram e vivenciaram: “E vocês são testemunhas disso” (v. 48). Um grupo de derrotados, desesperançados e desunidos (vv. 20-21) se transformam num grupo de missionários corajosos e convictos, assumindo a tarefa de anunciar “no seu nome a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações” (v. 47).

Nos dias de hoje, quando muitos cristãos se desanimam, ou restringem a sua fé à esfera particular, sem que tenha qualquer influência sobre a sua vivência social, a mensagem de Lucas nos convida a redescobrirmos a realidade da presença do Ressuscitado entre nós. Mas, essa experiência não serve somente para o nosso consolo pessoal - somos comandados a imitar os dois de Emaús, que, feita a experiência do Ressuscitado, “levantaram na mesma hora e voltaram para Jerusalém” (v. 33). Pois, a nossa experiência religiosa não é algo intimista e individualista, mas algo que nos deve propulsionar para a missão, para a construção de um mundo conforme a vontade de Deus, um mundo de justiça, paz e integridade da criação, sem excluídos e marginalizados, sob qualquer pretexto que seja!

UMA REFLEXÃO SOBRE A HISTÓRIA DOS DISCÍPULOS DE EMAÚS

Talvez, um dos relatos mais conhecidos de Lucas seja a história dos dois discípulos na estrada de Emaús. Aqui temos o retrato das suas comunidades - vacilando na fé, descrentes, desanimadas, sem sentir a presença do Ressuscitado entre elas. Lucas procura reanimar o seu pessoal, mostrando que eles não estão abandonados - muito pelo contrário, estão caminhando junto com a presença do Senhor que venceu a morte.

Essa história também nos pode ajudar bastante hoje, pois nos indica como devemos usar a Bíblia para animar a nossa caminhada. Jesus é o mestre da Bíblia; e aqui Ele ensina como aproveitar a Escritura para iluminar os problemas práticos da nossa caminhada, e nos dar coragem na nossa missão de evangelizadores.

O que temos aqui é realmente um pequeno drama em cinco atos - um drama que nos mostra a pedagogia de Jesus. Vejamos mais de perto:

Primeiro ato: vv 13 -19a: “Introdução”

O relato começa com as palavras “nesse mesmo dia”. Devemos já fazer uma parada e nos perguntar “que dia”? Para nós seria o dia da Ressurreição, mas para os dois discípulos era simplesmente o terceiro dia da morte de Jesus! Dia de desânimo, de tristeza. “Os dois iam para um povoado chamado Emaús, distante onze quilômetros de Jerusalém”.

Aqui é bom lembrar que o bom judeu não podia caminhar mais do que um quilômetro no dia de sábado. Portanto, era impossível que eles viajassem no dia anterior. Domingo é a sua primeira oportunidade de sair de Jerusalém, e aproveitaram bem - já estão voltando para sua casa. A cena começa com a desintegração da comunidade cristã. Tudo acabou, a comunidade se dispersa, não há nem alegria nem esperança.

Quem eram eles? Sabemos do relato que um se chamava Cléofas. E o outro? O Evangelho de João nos conta que a irmã de Maria, mãe do Senhor, chamada Maria de Cléofas, estava junto à cruz (Jo 19, 25). Não seria demais acreditar que os dois discípulos fossem um casal, Cléofas e a sua esposa, voltando depois da peregrinação pascal à Jerusalém. Nunca saberemos com certeza, mas é uma hipótese agradável e possível.

De repente, no caminho surge Jesus, sem que seja reconhecido. Com isso, Lucas quer dizer que o Ressuscitado não é um defunto que voltou a viver - mas, Ele tem uma nova maneira de ser, um corpo glorificado. É importante notar como Jesus se comporta, através dos verbos que Lucas usa. Ele “aproximou-se”, “caminhou com eles” e “perguntou”. Ele não veio “dando de dedo”, nem dando explicações bíblicas. Ele criou um ambiente de fraternidade onde seria possível explicar tanto a vida como a Bíblia! Quantas vezes isso falta em nossos grupos, nossas comunidades - não nos aproximamos uns aos outros, mantemos distância! Não caminhamos juntos, queremos dar soluções sem conhecer a realidade dos nossos irmãos e irmãs! Por isso mesmo, muitas vezes não as nossas reuniões têm efeito, os nossos encontros bíblicos.

O “ato” termina com a pergunta d’Ele: “O que é que vocês andam discutindo pelo caminho” (v. 17), ou seja, Ele dá uma oportunidade para que eles exponham a sua realidade, sem julgamento, sem moralismo. Ele parte da realidade dos dois.

Segundo Ato: vv 19b -24: “Os discípulos falam”

Diante da oportunidade de explicitar a sua realidade, Cléofas não titubeia. Ele expõe com clareza a sua situação. Diante da morte de Jesus ele frisa uma coisa importante: “nós esperávamos que Ele fosse o libertador de Israel” (v. 21). Eles “esperavam”, portanto não esperam mais nada. Aqui ressoam traços de decepção, desilusão, desânimo, até de uma certa revolta contra Jesus, pois todas as suas esperanças tinham sido desfeitas. Os seus sentimentos vão muito além de uma simples tristeza!

É importante notar também que Lucas explicita bem quem foi quem matou Jesus - não foi o povo, foram grupos de interesse bem definidos: “Nossos chefes dos sacerdotes e nossos chefes o entregaram para ser condenado à morte, e o crucificaram” (v. 20)

Para não reduzir a morte de Jesus a uma fatalidade qualquer, ou a algo desejado pelo Pai, é bom examinar mais profundamente esta afirmação do Cléofas: Jesus foi morto, assassinado judicialmente pelos “chefes dos sacerdotes” - um grupo de sacerdotes saduceus, que dominavam o comércio do Templo, lucrando muito com a exploração do povo através da religião, e que viu a sua hegemonia ameaçada pela pregação e pelo profetismo de Jesus.

Também foi morto pelos “chefes” ou “magistrados”, ou seja, os membros do Sinédrio, que governava os judeus nos assuntos internos, onde a maioria pertencia ao partido elitista dos saduceus (não dos fariseus), colaboradores com o poder Romano, lucrando bastante com isso. Então, Jesus foi morto não por acaso, mas porque ameaçava os privilégios da elite dominante! A cruz era a consequência lógica da vida de Jesus!

Outro elemento importante é o fato de que eles sabiam do túmulo vazio - dois dos apóstolos já tinham verificado a história das mulheres. Mas, isso não dizia nada para eles! Aqui se destaca que a nossa fé não se baseia no túmulo vazio! É a nossa fé na Ressurreição que explica por que o túmulo estava vazio, e não o túmulo que dá consistência à nossa fé!

Terceiro Ato: vv 25-27: a Bíblia

Agora, e só agora, depois de ter criado o ambiente e escutado a realidade, é que Jesus usa a Escritura. Ele frisa que eles “custam para entender e demoram para acreditar em tudo o que os profetas falaram” (v. 25). Notemos bem - não custaram para “saber”, mas para “entender e acreditar”. Pois eram judeus piedosos, que, mesmo sendo analfabetos, conheciam de cor os salmos e as profecias. O problema deles era, que embora conhecessem o livro da Bíblia, e também o livro da vida, eles não conseguiam ligar as duas coisas. Então Jesus “explica” as Escrituras - isto é, Ele não dá uma aula de exegese, mas faz a ligação entre a vida deles e a Bíblia, iluminando a sua realidade com a Palavra de Deus.

Quarto Ato: vv 28-32: a partilha

Chegando em Emaús, os discípulos convidam Jesus para entrar a e jantar com eles. Se realmente se trata de um casal, então seria entrar na sua casa, no aconchego do seu lar, e não numa hospedaria, como normalmente a gente supõe. Aqui temos o ponto central da história - pois até agora a explicação bíblica, por tão bonita que pudesse ter sido, não mudou a vida deles. Mas, agora sim. Jesus se põe à mesa e: “tomou o pão e abençoou, depois o partiu e deu a eles” (v. 30). De propósito, Lucas usa as palavras que recordam a Última Ceia. É a experiência da partilha, da comunidade! Agora o milagre acontece: “Nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus” (v. 31).

Neste mesmo momento, Jesus desaparece da frente deles! Por quê? Porquê, uma vez feita a experiência da presença do Ressuscitado no meio deles, eles não precisavam mais da “muleta” da sua presença física. Agora eles caem dentro de si e reconhecem que “estava o nosso coração ardendo quando Ele nos falava pelo caminho, e nos explicava as Escrituras?” (v. 32)

A Bíblia é capaz de fazer “arder o coração”, mas para “abrir os olhos” é necessária também a experiência de comunidade, de celebração, de partilha!

Quinto Ato: vv 33-36: a missão

Se a história terminasse aqui, seria a história de uma experiência bonita feita por duas pessoas. Isso não basta. Tal experiência da presença do Senhor Ressuscitado exige a formação de uma comunidade fraterna de missão. Os mesmos dois que de manhã fugiam de Jerusalém, lugar da morte, da perseguição, do fracasso, de tardezinha se põem no caminho de volta! O que mudou em Jerusalém durante o dia? Nada! Continua sendo o lugar de perigo, de morte, de perseguição. Mas, mudou a cabeça dos dois. Em lugar de uma fé pré-pascal, eles agora têm uma fé pós-pascal. Em lugar de desânimo, há entusiasmo e coragem, pois, experimentaram a presença de Jesus Ressuscitado. A história que começou com a comunidade se desintegrando, termina com a comunidade se reintegrando, se unindo, na paz e na alegria, pois puderam confirmar: “Realmente, o Senhor ressuscitou, e apareceu a Simão” (v. 34).

E os dois de Emaús puderam contar: “O que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus quando ele partiu o pão” (v. 36).

Essa história pode servir para nós como paradigma de um círculo bíblico, grupo de reflexão, ou seja, qual for o nome que nós damos às nossas pequenas comunidades. Jesus liga quatro elementos essenciais - a realidade, a Bíblia, a celebração partilhada e a comunidade. É na união entre estes elementos que se revela a presença do Ressuscitado e a vontade de Deus. É na interação destes aspectos da vida cristã que a Bíblia se torna “Lâmpada para os meus pés, e luz para o meu caminho” (Sl. 119, 105). Procuremos unir estes elementos nas nossas reuniões e encontros, e descobriremos como se concretiza o desejo do Salmista: “Oxalá vocês escutem hoje o que Ele diz” (Sl. 95, 7).

 

 

Ressuscitados com Cristo

Jesus ressuscitou verdadeiramente? Como é que podemos fazer uma experiência de encontro com Jesus ressuscitado? Como é que podemos mostrar ao mundo que Jesus está vivo e continua a oferecer aos homens a salvação? É, fundamentalmente, a estas questões que a liturgia do 3° domingo da Páscoa procura responder.

O Evangelho assegura-nos que Jesus está vivo e continua a ser o centro à volta do qual se constrói a comunidade dos discípulos. É precisamente nesse contexto eclesial - no encontro comunitário, no diálogo com os irmãos que partilham a mesma fé, na escuta comunitária da Palavra de Deus, no amor partilhado em gestos de fraternidade e de serviço - que os discípulos podem fazer a experiência do encontro com Jesus ressuscitado. Depois desse "encontro", os discípulos são convidados a dar testemunho de Jesus diante dos outros homens e mulheres.

A primeira leitura apresenta-nos, precisamente, o testemunho dos discípulos sobre Jesus. Depois de terem mostrado, em gestos concretos, que Jesus está vivo e continua a oferecer aos homens a salvação, Pedro e João convidam os seus interlocutores a acolherem a proposta de vida que Jesus lhes faz.

A segunda leitura lembra que o cristão, depois de encontrar Jesus e de aceitar a vida que Ele oferece, tem de viver de forma coerente com o compromisso que assumiu D Essa coerência deve manifestar-se no reconhecimento da debilidade e da fragilidade que fazem parte da realidade humana e num esforço de fidelidade aos mandamentos de Deus.

1ª leitura: At. 3,13-15.17 -19

Para os cristãos, Jesus não é uma figura do passado, que a morte venceu e que ficou sepultado no museu da história; mas é alguém que continua vivo, sempre presente nos caminhos do mundo, oferecendo aos homens uma proposta de vida verdadeira, plena, eterna. Como é que os nossos irmãos que caminham ao nosso lado podem descobrir que Jesus está vivo e fazer uma experiência de encontro com Cristo ressuscitado? Através de documentos históricos que demonstrem cientificamente a realidade da ressurreição? Para Lucas, o fator decisivo para que os homens descubram que Cristo está vivo é o testemunho dos discípulos. Jesus está vivo e apresenta-se aos homens do nosso tempo nos gestos de amor, de partilha, de solidariedade, de perdão, de acolhimento que os cristãos são capazes de fazer; Jesus está vivo e atua hoje no mundo, quando os cristãos se comprometem na luta pela paz, pela justiça, pela liberdade, pelo nascimento de um mundo mais humano, mais fraterno, mais solidário; Jesus está vivo e continua a realizar aqui e agora o projeto de salvação de Deus, quando os seus cristãos oferecem aos coxos a possibilidade de avançar em direção a um futuro de esperança, oferecem aos que vivem nas trevas a capacidade de encontrar a luz e a verdade, oferecem aos prisioneiros a possibilidade de ter voz e de decidir livremente o seu futuro. Os meus gestos anunciam aos irmãos com quem me cruzo nos caminhos deste mundo que Cristo está vivo?

• A existência humana é uma busca incessante de vida - de vida eterna, plena, verdadeira. Essa busca, contudo, nem sempre se desenrola em caminhos fáceis e lineares. Por vezes é cumprida num caminho onde o homem tropeça com equívocos, com falhas, com opções erradas D Aquilo que parece ser garantia de vida gera morte; e aquilo que parece ser fracasso e frustração é, afinal, o verdadeiro caminho para a vida. Lucas garante-nos, neste texto, que a proposta que Jesus veio apresentar é uma proposta geradora de vida, apesar de passar pelo aparente fracasso da cruz. É de vida vivida na doação, na entrega, no amor total a Deus e aos irmãos, a exemplo de Jesus, que brota a vida eterna e verdadeira para nós e para aqueles que caminham ao nosso lado.

O apelo ao arrependimento e à conversão que aparece no discurso de Pedro lembra-nos essa necessidade contínua de reequacionarmos as nossas opções, de deixarmos os caminhos de egoísmo, de orgulho, de comodismo, de auto-suficiência em que, por vezes, se desenrola a nossa existência. É preciso que, em cada instante da nossa vida, nos convertamos a Jesus e aos seus valores, numa disponibilidade total para acolhermos os desafios de Deus e a sua proposta de salvação.

2ª leitura: 1Jo 2,1-5a

A questão fundamental que o nosso texto põe é a da coerência de vida. O cristão é uma pessoa que aceitou o convite de Deus para escolher a luz e que tem de viver, dia a dia, de forma coerente com o compromisso que assumiu. Não pode comprometer-se com Deus e conduzir a sua vida por caminhos de orgulho, de auto-suficiência, de indiferença face a Deus e às suas propostas. A vida do crente não pode ser uma vida de "meias-tintas", de comodismo, de opções volúveis, de oportunismos, mas tem de ser uma vida consequente, comprometida, exigente. Na minha vida procuro viver, com coerência e honestidade, os meus compromissos com Deus e com os meus irmãos, ou deixo-me levar ao sabor da corrente, das situações, das oportunidades?

Essa coerência de vida deve manifestar-se no reconhecimento da debilidade e da fragilidade que fazem parte da realidade humana. O pecado não é algo "normal", para o crente (o pecado é sempre um "não" a Deus e às suas propostas e isso deve ser visto pelos crentes como uma "anormalidade"); mas é uma realidade que o crente reconhece e que sabe que está sempre presente ao longo da sua caminhada pelo mundo. Hoje, fala-se muito da falta de consciência do pecado,  a falta de consciência do pecado cria homens insensíveis, orgulhosos e auto-suficientes, que acreditam não precisar de Deus e da sua oferta de salvação. O autor da Carta de João convida-nos a tomar consciência da nossa realidade de pecadores, a acolher a salvação que Deus nos oferece, a confiar em Jesus, o "advogado" que nos entende (porque veio ao nosso encontro, partilhou a nossa natureza, experimentou a nossa fragilidade) e que nos defende. Reconhecer a nossa realidade pecadora não pode levar-nos ao desespero; tem de levar-nos a abrir o coração aos dons de Deus, a acolher humildemente a sua salvação e a caminhar com esperança ao encontro do Deus da bondade e da misericórdia que nos ama e que nos oferece, sem condições, a vida eterna.

A coerência que o autor da primeira Carta de João nos pede deve manifestar-se, também, na identificação entre a fé e a vida. A nossa religião não é uma bela teoria, separável da nossa vida concreta. É uma mentira dizer que se ama Deus e, na vida concreta, desprezar as suas propostas e conduzir a vida de acordo com valores que contradizem de forma absoluta a lógica de Deus. Um crente que diz amar Deus e, no dia a dia, cria à sua volta injustiça, conflito, opressão, sofrimento, vive na mentira; um crente que diz "conhecer Deus" e fomenta uma lógica de guerra, de ódio, de intransigência, de intolerância, está bem distante de Deus; um crente que diz ter "a sua fé" e recusa o amor, a partilha, o serviço, a comunidade, está muito longe dos caminhos onde se revela a vida e a salvação de Deus. A minha vida concreta, as minhas atitudes para com os irmãos que me rodeiam, os sentimentos que enchem o meu coração, os valores que condicionam as minhas ações, são coerentes com a minha fé?

Evangelho: Lc. 24,35-48

Jesus ressuscitou verdadeiramente, ou a ressurreição é fruto da imaginação dos discípulos? Como é possível ter a certeza da ressurreição? Como encontrar Jesus ressuscitado? É a estas e a outras questões semelhantes que o Evangelho deste domingo procura responder. Com a sua catequese, Lucas diz-nos que nós, como os primeiros discípulos, temos de percorrer o nem sempre claro caminho da fé, até chegarmos à certeza da ressurreição. Não se chega lá através de deduções lógicas ou através de construções de caráter intelectual; mas chega-se ao encontro com o Senhor ressuscitado inserindo-nos nesse contexto em que Jesus Se revela - no encontro comunitário, no diálogo com os irmãos que partilham a mesma fé, na escuta comunitária da Palavra de Deus, no amor partilhado em gestos de fraternidade e de serviço. É nesse "caminho" que vamos encontrando Cristo vivo, atuante, presente na nossa vida e na vida do mundo.

É que Cristo continua presente no meio da sua comunidade em marcha pela história. Quando a comunidade se reúne para escutar a Palavra, Ele está presente e explica aos seus discípulos o sentido das Escrituras. Não sentimos, tantas vezes, a presença de Cristo a indicar-nos caminhos de vida nova e a encher o nosso coração de esperança quando lemos e meditamos a Palavra de Deus? Não sentimos o coração cheio de paz - a paz que Jesus ressuscitado oferece aos seus - quando escutamos e acolhemos as propostas de Deus, quando procuramos conduzir a nossa vida de acordo com o plano de Deus?

Jesus ressuscitado reentrou no mundo de Deus; mas não desapareceu da nossa vida e não se alheou da vida da sua comunidade. Através da imagem do "comer em conjunto" (que, para o Povo bíblico, significa estabelecer laços estreitos, laços de comunhão, de familiaridade, de fraternidade), Lucas garante-nos que o Ressuscitado continua a "sentar-se à mesa" com os seus discípulos, a estabelecer laços com eles, a partilhar as suas inquietações, anseios, dificuldades e esperanças, sempre solidário com a sua comunidade. Podemos descobrir este Jesus ressuscitado que se senta à mesa com os homens sempre que a comunidade se reúne à mesa da Eucaristia, para partilhar esse pão que Jesus deixou e que nos faz tomar consciência da nossa comunhão com Ele e com os irmãos.

Jesus lembra aos discípulos: "vós sois as testemunhas de todas estas coisas". Isto significa, apenas, que os cristãos devem ir contar a todos os homens, com lindas palavras, com raciocínios lógicos e inatacáveis que Jesus ressuscitou e está vivo? O testemunho que Cristo nos pede passa, mais do que pelas palavras, pelos nossos gestos. Jesus vem, hoje, ao encontro dos homens e oferece-lhes a salvação através dos nossos gestos de acolhimento, de partilha, de serviço, de amor sem limites. São esses gestos que testemunham, diante dos nossos irmãos, que Cristo está vivo e que Ele continua a sua obra de libertação dos homens e do mundo.

Na catequese que Lucas apresenta, Jesus ressuscitado confia aos discípulos a missão de anunciar "em seu nome o arrependimento e o perdão dos pecados a todos os povos, começando por Jerusalém". Continuando a obra de Jesus, a missão dos discípulos é eliminar da vida dos homens tudo aquilo que é "o pecado" (o egoísmo, o orgulho, o ódio, a violência e propor aos homens uma dinâmica de vida nova.

Jose Inaldo Lima

 

 

O Evangelho de hoje relata-nos mais uma das aparições de Jesus. Neste dia Jesus, quando apareceu aos Apóstolos começou por saudá-los dizendo: “"A paz esteja convosco."

Eles ficaram tão contentes que nem queriam acreditar. Parecia bom demais para ser verdade, mas Jesus fez questão de lhes dar a certeza e tirar todas dúvidas. Por isso, quis fazer um convívio comendo com eles.

A refeição é sempre uma ocasião favorável para o Senhor se revelar: “comeu à vista deles” (Lc. 24,43). Depois “Depois abriu-lhes o entendimento para compreenderem as Escrituras” (Lc. 24,45) explicando o sentido da Sua morte e ressurreição. Deste modo era necessário que eles pregassem “uma mensagem sobre o arrependimento e o perdão dos pecados a todas as nações, começando em Jerusalém.” (Lc. 24,46) Uma vez que conviveram com Ele durante três anos e O viram ressuscitado deveriam ser testemunhas destas coisas.

E foi isso que os Apóstolos fizeram. Desde muito cedo saíram à rua denunciando a injustiça da condenação de Jesus à morte e apelando a todos que se convertessem. Já no dia de Pentecostes os apóstolos deram testemunho de Jesus com entusiasmo e, ao mesmo tempo que acusavam as pessoas de terem condenado Jesus à morte, por outro lado procuraram logo desculpá-las dizendo que agiram por ignorância. “Desse modo, mataram quem dá a vida. Mas Deus ressuscitou-o, e nós somos testemunhas disso” dizia são Pedro (At. 3,15).

Muitas pessoas levaram a sério as palavras do Apóstolo e perguntaram o que deveriam então fazer e Pedro respondeu:” arrependam-se e mudem de vida, para que Deus vos perdoe os pecados.” (At. 3,19)

Agora somos nós a ouvir a mesma pregação dos Apóstolos convidando-nos ao arrependimento e à mudança de vida. Ninguém pode dizer que ama a Deus se não cumprir os mandamentos. Muita gente afirma-se cristã, mas de cristão só tem o nome. “ A prova de que conhecemos a Deus está em cumprirmos os seus mandamentos. Aquele que disser que conhece a Deus, mas não cumprir os seus mandamentos, é um mentiroso, uma pessoa que falta à verdade.” (1Jo 2,3-4) E os mandamentos são dez e não apenas dois como alguns pretendem. Os dez mandamentos dizem respeito à honra e ao amor que devemos a Deus e aos nossos semelhantes. Ninguém pode dizer que ama a Deus, se não tiver dentro de si um verdadeiro amor a Deus, um amor tão grande que leva a ter pena de ofender a Deus. Nós devemos pedir ao Espírito Santo este dom: o dom do temor de Deus, isto é, amarmos tanto a Deus que não queremos de maneira nenhuma ofendê-Lo. “aquele que obedece à Palavra de Deus mostra que o seu amor a Deus é verdadeiramente perfeito. É assim que podemos saber que estamos unidos a Deus.” (1Jo 2,5)

padre Luís Pinho

 

 

Eis-nos no terceiro domingo da Páscoa. No primeiro domingo da Páscoa, fomos conduzidos a tomar uma opção de fé diante do sepulcro vazio. No segundo domingo, a Palavra de Deus revelou-nos que Jesus ressuscitado se manifesta na comunidade. Este domingo, a Palavra coloca-nos uma nova e essencial questão: como posso experimentar Jesus Cristo ressuscitado? Terá sido a ressurreição de Jesus uma fantasia, um fracasso, uma ilusão?

O Evangelho de Lucas ajuda-nos a esclarecer essa questão. Depois de dois anjos anunciarem a ressurreição de Jesus (Lc. 24,4-5), depois de Jesus ter aparecido no caminho dos dois discípulos que iam a caminho de Emaús, e estes terem invertido caminho e regressado rapidamente a Jerusalém ao encontro dos Apóstolos, o Evangelho apresenta-nos uma nova aparição de Jesus aos onze apóstolos e discípulos (Lc. 24).

“A paz esteja convosco.” Os discípulos ao escutarem estas palavras de Jesus, enchem-se de medo, pois julgavam ver um espírito. A primeira experiência que os discípulos têm, diante de Jesus ressuscitado, é de medo, de perturbação, de dúvida no coração. Jesus não nos quer com medo. Tudo nos oferece para alcançarmos a confiança e a clarividência. Face à reação dos discípulos, que já tinham recebido a aparição do Senhor ressuscitado, Ele não os julgou, não desistiu deles, não os abandonou, chama-os a Si!

“Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo; tocai-Me e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que Eu tenho.” Jesus não se revela como um puro espírito, uma idéia, uma força, mas como um Ser bem real. Os discípulos, ao escutarem essas palavras de Jesus, continuando sem acreditar na Sua ressurreição, encheram-se duma enorme alegria e assombro, ficando fora de si! Os discípulos passaram do extremo do medo ao extremo da euforia, do desvaneio, do irreal. Jesus não nos quer iludir ou entreter com fantasias, nem sequer alhear-nos da realidade do mundo. Face à reação dos discípulos, Jesus não os julgou, não desistiu deles, não os abandonou, colocou-se à mesa com eles.

Jesus disse-lhes: “Tendes alguma coisa para comer?” Enquanto comia com eles, ensinava-lhes que n’Ele se cumpriam as Escrituras. Os discípulos, abrindo nesse momento o entendimento, compreenderam que Jesus deveria ressuscitar dos mortos. Os discípulos saindo do medo e da ilusão chegaram pelo entendimento à fé. Então Jesus, aquele que ao longo do relato sempre toma a iniciativa e o único que fala, é reconhecido como ressuscitado pelos seus discípulos.

A fé unida à razão! A fé é a experiência mais sublime da razão, e esta o meio para a alcançar. A fé e a razão são como duas asas daquela pomba que voa vinda de Deus, e nos leva a Deus. O que é necessário para viver da razão de Deus? É necessário arrependimento, conversão, metanoia, que não é outra coisa senão mudar a mente, abrir o entendimento, pensar como Deus. Quantas vezes insistimos nas nossas idéias e auto-defesas? Quantas vezes insistimos em manter a nossa ignorância ferindo o próximo e esquecendo-nos de Deus? A ignorância dos homens matou Jesus.

Ainda que a experiência da ressurreição de Jesus apareça unida ao entendimento, o evangelista não a apresenta como uma tarefa fácil ou imediata, nem sequer como um dado científico. Ao mesmo tempo, o autor é explícito que a experiência da ressurreição não é uma fantasia ou ilusão, mas algo bem real. O encontro com Jesus ressuscitado requer de nós assumir a nossa fragilidade, a nossa autenticidade, a nossa confiança em Deus. O encontro com Jesus ressuscitado une-se necessariamente à Sua paixão e aos seus mandamentos. Aquele que diz conhecer Deus e não observa os seus mandamentos é mentiroso. Aquele que observa a Sua palavra vive na perfeição o amor de Deus. Conhecer Deus é estar em comunhão com Ele, Tu a Tu, coração a coração, mente a mente. Conhecer Deus é deixar que Ele brilhe sobre nós a luz da Sua face.

Os discípulos reconhecem Jesus ressuscitado na escuta da Sua Palavra e à mesa com Ele. A Eucaristia é o lugar por excelência onde em comunidade reconhecemos Jesus ressuscitado. Jesus, o intérprete e o cumprimento das Escrituras, coloca-se no centro da comunidade, senta-se à sua mesa, alimenta-a, caminha a seu lado. Os discípulos, fortalecidos pela sua Palavra e alimento, reconhecem-nO e d’Ele recebem a missão de testemunhar a todas as nações a sua morte e ressurreição.

Jesus, enquanto se prepara para subir para o Pai, envia os discípulos aos homens. Assim fez Pedro, ao encontrar um homem coxo desde nascença no templo. Pedro, juntamente com João, olhando-o fixamente, disse-lhe: “Não tenho ouro nem prata, mas o que tenho, isto te dou: Em nome de Jesus Cristo, levanta-te e caminha!” E, segurando-o pela mão direita, ergueu-o. Pedro, passando do medo e da euforia ao entendimento de Deus, é enviado pelo poder de Deus a conduzir os homens a Deus.

Essa é a missão da Igreja: dizer à humanidade “caminha!”. Caminha para a casa do Pai, aquela que te formou. Caminha para a casa do Pai, aquela que te acolhe. Caminha para a casa do Pai, aquela que te espera. Por Jesus a humanidade recebe toda a fé, todo o amor e toda a esperança! A Igreja, enviada por Deus, realiza a sua missão quando diz ao homem, ao pai ou à mãe, ao irmão ou à irmã, à comunidade, ao mundo: caminha!

frei Bernardo

 

 

Continuamos a viver o tempo pascal, a alegria da certeza da presença de Cristo Ressuscitado no nosso meio.

O Evangelho traz para nós mais uma aparição de Jesus Ressuscitado aos discípulos. Jesus fala com eles, mostra para eles as mãos e os pés. Come alguma coisa diante deles. Explica para eles as Escrituras É Jesus mesmo em carne e osso. Não é um fantasma.

Jesus ressuscitou! Ele está vivo! Quer ser anunciado às pessoas!

Na primeira leitura o apóstolo Pedro fala da Ressurreição e convida o povo à conversão. É um sermão cheio de fé e de zelo: “O Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, o Deus de nossos antepassados glorificou o seu Filho Jesus. Vós O entregastes, o rejeitastes diante de Pilatos, que já estava decidido a soltá-lo. Vós rejeitastes o santo e o justo e pedistes a libertação para um assassino. Vós matastes o Autor da vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos, e disso nós somos testemunhas”.

E Pedro continuou o seu discurso com fortes convites á conversão e uma promessa de perdão e de participação na graça infinita trazida por Jesus: “Para vós em primeiro lugar, Deus ressuscitou seu servo e o enviou para vos abençoar, para que cada  um se afaste de suas iniquidades”.

Nas palavras de Pedro está a síntese do anúncio cristão: Jesus morreu e ressuscitou; nele se realizou o que estava anunciado nas escrituras: sua morte trouxe a salvação.

Tudo isto é reforçado pela garantia do testemunho de Pedro: “Disso nós somos testemunhas”.

Ele vira o sepulcro vazio e a mortalha de linho por terra. Ele estava no  cenáculo, quando Jesus lá aparecera e provara a realidade de que estava vivo. E do próprio  Jesus ele ouvira que tudo isso acontecia de acordo com o que dele estava escrito na lei de Moisés, nos Profetas e nos salmos. Que o Cristo haveria de sofrer, ressuscitaria de entre os mortos no terceiro dia, e a penitência seria pregada em seu nome para a remissão dos pecados, a todas as nações, começando por Jerusalém”.

Esta é a mensagem que Pedro continuará a transmitir em suas pregações, Paulo irá expor em suas cartas; e todos os apóstolos e seus sucessores irão continuar a levar através dos séculos até o fim do mundo.

A luz da Ressurreição, refletida na face da Igreja, ilumina todo o caminho da história.

Também nós somos chamados a ser proclamadores do Cristo Ressuscitado. Para que o mundo creia e espere a ressurreição final. E possa realizar a ressurreição de cada dia na vitória contra o pecado e contra a maldade. No triunfo da verdade e da justiça.

 

 

“Nós somos testemunhas”

Os discípulos de Emaús, voltando ao Cenáculo, contam aos seus irmãos o encontro que tiveram com Jesus e como Ele se revelou a eles ao partir o pão. Enquanto narravam sua experiência, o próprio Jesus lhes apareceu.

Bem semelhante à aparição de Jesus a Tomé, nesta o Senhor ressuscitado usa praticamente as mesmas expressões: “Vede minhas mãos e meus pés: sou eu! Apalpai-me e entendei que um espírito não tem carne nem osso como estais vendo que eu tenho” (v. 39).

Nesta segunda aparição o Ressuscitado tem uma redação minuciosamente elaborada por Lucas, que não economiza adjetivos para descrever o estado de ânimo dos discípulos: espantados, atemorizados, duvidosos, surpresos, etc. Reações causadas por uma única razão: a grande alegria de ver o Senhor. Para provar que era ele mesmo, Jesus pede-lhes algo para comer. Oferecem-lhe peixe assado: “Tomou-o, então, e comeu-o diante deles” (Lc. 24,43).

A seguir, Jesus dirige-lhes um discurso sobre o testemunho das Escrituras e cita a Bíblia tripartite (Moisés, profetas e salmos) a seu respeito. Um pouco antes, com os discípulos de Emaús, o evangelista diz: “E, começando por Moisés e por todos os Profetas, interpretou-lhes em todas as Escrituras o que a ele dizia respeito” (Lc. 24,27); uma explicação que lhes fazia queimar o coração: “Não ardia o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, quando nos explicava as Escrituras?” (Lc. 24,32).

 A frase-chave desta perícope é: “Vós sois testemunhas disso: hýmeis dè mártyres toúton” (v. 48). Testemunhar o Cristo morto e ressuscitado, kerygma da Igreja primitiva, tornou-se igualmente a grande razão pela qual os cristãos livremente entregaram suas vidas derramando o próprio sangue por Cristo. A semente do Evangelho, fertilizada pelo sangue de tão eminentes testemunhas, cresceu frondosa e, em pouco tempo, se divulgou por todo o mundo.

Proclamadores intrépidos da Palavra de vida, os Apóstolos pregavam abertamente e com imensa alegria a verdade do Evangelho, acrescentando o selo da sua autoridade. A liturgia de hoje recorda o famoso discurso de Pedro que, tendo curado um paralítico na porta do templo chamada Formosa (primeira leitura), passou a ser perseguido pelo povo admirado por essa maravilha. Em seu discurso, exaltando o poder de Deus através da fé em Jesus Cristo, acrescentou: “Disto, nós somos testemunhas” (cf. At 3, 15). O discurso do Apóstolo atualiza o Antigo Testamento naquilo que as Escrituras já anunciavam dos tempos futuros. Pedro faz uma exegese no mesmo estilo dos rabinos, buscando nas Escrituras a explicação para os fatos. Ele, um simples pescador, foi fortalecido pelo Espírito Santo e agora testemunha abertamente o seu amor por Cristo.

Em sua primeira carta (segunda leitura), o apóstolo João apresenta a necessidade de um testemunho ainda mais autêntico e profundo. Se a Palavra que foi anunciada encontrou um bom terreno no coração, é preciso agora produzir fruto de conversão. Um bom sinal é o rompimento com o pecado.

Para isso o Apóstolo usa as expressões “saber que conhecemos” e “guardar os seus mandamentos” (1Jo 2,3).

O conhecimento ao qual se refere implica uma atitude geral, envolvendo atitudes, pensamentos, disposições, compromissos e testemunhos. A vida em Cristo não pode e nem deve ser apenas superficial mas comprometedora.

Neste domingo de Páscoa, as três leituras nos oferecem critérios para um programa de vida verdadeiramente novo. Contemplar as chagas gloriosas do Ressuscitado que igualmente cura as nossas feridas. Nesse sentido, para além das faltas pessoais, somos convidados a contemplar o mundo ferido pelas divisões, guerras e sofrimentos ditados pela fome, pelas injustiças sociais e pela falta de dignidade humana em tantos continentes.

Diante desse quadro e de muitos outros a este semelhantes, é importante saber ouvir o clamor de Pedro que destemidamente anuncia com a sua vida a verdade que proclama. E o que diz Pedro, hoje?

Em sua carta Encíclica Deus caritas est, o santo Padre assim se expressou: “A Igreja não pode nem deve tomar nas suas próprias mãos a batalha política para realizar a sociedade mais justa possível. Não pode nem deve colocar-se no lugar do Estado. Mas também não deve ficar à margem na luta pela justiça. Deve inserir-se nela pela via da argumentação racional e deve despertar as forças espirituais, sem as quais a justiça, que sempre requer renúncias também, não poderá afirmar-se nem prosperar. A sociedade justa não pode ser obra da Igreja; deve ser realizada pela política. Mas toca à Igreja, e profundamente, o empenhar-se pela justiça trabalhando para a abertura da inteligência e da vontade às exigências do bem” (n. 28).

A justiça e a paz são, portanto, frutos da contemplação e da oração que farão brotar no coração do homem a fonte da misericórdia capaz de dar um rosto novo ao homem e ao mundo.

Ricardo Dias Neto