O vencido é vencedor

O vencido é vencedor! Na mentalidade de hoje, dificilmente se crê na vitória dos vencidos. Mas é núcleo da fé cristã. Crer em Jesus significa crer na vitória do vencido, na glória do humilhado, no poder do derrotado. Para uns é tolice, para outros é um absurdo, mas é a sabedoria de Deus, é a força de Deus.

O maior fracasso se transformou no maior sucesso. Antes das palavras, os fatos: os apóstolos que, paralisados de medo, abandonaram o Mestre agora estão cheios de vigor. Diante dos fatos não há argumentos, Pedro, antes paralisado de medo diante de uma empregada do chefe, agora se levanta e dá testemunho do Ressuscitado diante da multidão.

A consequência é a necessidade de mudança de cabeça, de mentalidade; é preciso começar a crer que a vida nasce da morte, que o fracassado é esperança de vitória. Isso vai mexer com toda a vida das pessoas e do mundo. A missão agora é anunciar este novo modo de pensar, esta metanoia.

Isso não é uma fantasia; o Ressuscitado não é um fantasma, é o mesmo crucificado. O Cristo, o Messias, a esperança da humanidade é Jesus, é o pobre Galileu crucificado. Essa é a única realidade capaz de reverter os caminhos que estão levando a humanidade à morte. O caminho da vida está aberto porque o derrotado saiu vitorioso, o massacrado está vivo e atuante.

1ª leitura (At. 3,13-15.17-19)

O livro dos Atos dos Apóstolos coloca nos lábios de Pedro o resumo da primeira pregação do cristianismo. Jesus, massacrado pelos do-nos da situação, foi aprovado por Deus na ressurreição. Ele é o Messias, a salvação da humanidade.

O mesmo Pedro que, diante de uma jovem empregada do sumo sacerdote, tinha negado ser discípulo, agora, cercado pela multidão curiosa que se ajuntou em torno do paralítico curado, acusa essa multidão de ter entregado e renegado Jesus diante de Pilatos, que estava inclinado a libertá-lo.

Ele justifica, contudo, a atitude do povo e das autoridades, que ignoravam quem era Jesus. Agora, porém, está claro. O fato da cura do paralítico, se não também do próprio Pedro, antes paralisado de medo e agora encarando a multidão, testemunha que Javé, o Deus dos antepassados, aprovou e confirmou Jesus como Messias, ressuscitando-o dos mortos.

A conclusão é a necessidade de mudança de mentalidade, de cabeça, a metanoia – metá, como em “metamorfose”, e noia, como em “paranóia”. A mudança de mentalidade é que vai fazer que Deus os livre dos pecados. Apagar os pecados é uma obra de Deus, mas exige que, primeiro, se mude a cabeça.

2ª leitura (1Jo. 2,1-5a)

Em algumas comunidades da rede do Quarto Evangelho dizia-se que quem crê em Jesus não peca, pois, segundo o evangelho, ele é o Cordeiro que tira o pecado do mundo e o único pecado é não crer nele (Jo 16,9). Quem crê, portanto, está totalmente isento de pecado. Isso era a consequência prática de dar pouca importância à humanidade de Jesus, à sua morte física, à sua “carne”.

Depois de dizer que, se afirmamos não ter nenhum pecado, estamos enganando a nós mesmos e tachando a Deus de mentiroso, o autor passa a dizer que, se pecamos e reconhecemos nosso pecado, temos um advogado nosso junto do Pai, Jesus, o único justo.

Ele invoca a bondade, a misericórdia, a compaixão, o perdão de Deus pelos nossos pecados. Sua morte verdadeira, seu sangue foram o sacrifício pelos nossos pecados. A palavra ilasmos no Segundo Testamento só ocorre duas vezes e ambas nesta carta de João. No Primeiro Testamento (LXX), a palavra tem geralmente o sentido de sacrifício pelo pecado. O nosso Advogado (aqui Jesus, não o Espírito Santo, cuja possessão possivelmente justificasse a idéia de ausência de pecado) se sacrifica verdadeiramente para conquistar para nós a condescendência do Pai.

O único justo sacrifica verdadeiramente a sua vida pelos nossos pecados, não só pelos nossos, mas pelos de todo o mundo. É na verdadeira morte (sangue) de cruz que ele se torna o Cordeiro que tira o pecado do mundo.

Outra consequência do destaque exagerado dado à divindade de Cristo é não considerar o exemplo do seu comportamento (v. 6) e nem mesmo seus mandamentos. “Quem diz que o conhece, mas não observa os seus mandamentos, é um mentiroso.” Conhecê-lo não é ter noção teórica, nem mesmo momentos sentimentais de intimidade com ele. É ter afinidade, consonância, agir como ele agiu.

Evangelho (Lc. 24,35-48)

Temos, neste domingo, a narrativa inicial da última aparição de Jesus ressuscitado no Evangelho segundo Lucas.

O relato vem confirmar que o ressuscitado é o mesmo crucificado, não é um espírito, um fantasma, uma alma do outro mundo. Talvez fosse mais interessante traduzir: “Eu sou o mesmo”, em vez de: “Sou eu mesmo”. Os detalhes todos convergem para isso.

O episódio começa com o relato feito pelos discípulos de Emaús: o acontecimento do caminho foi Jesus aproximar-se, ver a decepção dos discípulos diante da cruz, julgar, trazer a luz da Escritura para iluminar os acontecimentos. O reconhecimento, porém, deu-se ao “partir do pão”, no gesto que, com a palavra, significou o agir, que foi assumir novamente aquela morte, causa da decepção.

Quando os discípulos estão reunidos, ao entardecer do domingo, Jesus se põe no meio deles com uma saudação litúrgica: “A paz esteja convosco!” A impressão de estarem vendo o que se costuma chamar de “alma do outro mundo”, fantasma, assombração, deixa-os assombrados, apavorados.

Os sinais da morte de cruz nas mãos e nos pés confirmam que o ressuscitado é o mesmo crucificado, ele continua o mesmo. A alegria se mistura ao medo que os discípulos ainda têm. Não é fácil, mesmo, crer que a vida nasça da morte, que a vitória possa vir da derrota. A alegria, porém, já está presente, na perspectiva de ser mesmo verdade, de ser o ressuscitado o mesmo que foi crucificado.

O peixe, alimento comum da Palestina, muito cedo se tornou símbolo de Jesus e da eucaristia. Não é totalmente fora de propósito interpretá-lo assim no evangelho escrito por volta do ano 85. Jesus come com os discípulos o alimento deles, o alimento que é ele (ICTHYS: Iesous Christos Theou Yios Soter).

Mais uma vez está tudo esclarecido. Agora vem a Escritura com a palavra de Jesus confirmar que este era mesmo o projeto de Deus (Is 53,10): o Messias passar por todo o sofrimento e, só então, ressuscitar dos mortos ao terceiro dia, o dia da aliança de Deus com o povo (Ex. 19,16).

Consequência é a missão dos discípulos. O mesmo Deus que suscitou os profetas e o próprio Jesus, agora, depois de sua morte de cruz, o suscita de novo, para que em seu nome seja anunciada indispensável mudança de mentalidade para livrar a humanidade da escravidão do pecado.

Dicas para reflexão

– Segundo a primeira pregação do cristianismo, Jesus, massacrado pelos donos da situação, foi aprovado por Deus na ressurreição. Ele é o Messias, a salvação da humanidade. A salvação passa pela cruz. O Crucificado é “re-suscitado”, Deus lhe dá novamente a missão.

– Crer em Jesus não é crer somente na sua divindade, é crer também na sua humanidade; é crer que o Filho de Deus, o Messias enviado pelo Pai, é Jesus, é o crucificado, é o derrotado, o humilhado, mas vitorioso, por fim. O Cristo é Jesus, o Filho de Deus é Jesus, o Advogado nosso é Jesus.

– A fé no Crucificado “re-suscitado” exige mudança de mentalidade para a libertação dos pecados. O reino do pecado é o da vitória do mais competente, do mais forte, do mais poderoso, do mais brilhante. O sucesso do fracassado, a vida que vem da cruz exigem que se mude esse modo de pensar, senão o pecado continua prevalecendo.

– O Cristo, o Messias, a esperança da humanidade, é Jesus, é o pobre Galileu crucificado. Essa é a única realidade capaz de reverter os caminhos que estão levando a humanidade à morte. O caminho da vida está aberto porque o derrotado saiu vitorioso, o massacrado está vivo e atuante.

– Buscar somente a satisfação imediata, o prazer ou o bem-estar do momento – o que hoje é comum até mesmo em movimentos religiosos –, não leva a nada, não traz salvação, nada muda, apenas reforça o egoísmo avassalador. Sem humildade, sem uma disciplina, sem a pessoa se pôr limites, sem entender o que a cruz significa, nada se constrói e tudo se destrói.

– Celebramos a entrega que Jesus faz de si à pior das mortes, entrega que trouxe a plenitude da vida. Quando Jesus viu que os inimigos queriam dar-lhe a morte de cruz, apesar do pavor que isso lhe causava, não recuou, entregou-se. Como pão partido e vinho repartido, ele se faz alimento da verdadeira fraternidade universal.

padre José Luiz Gonzaga do Prado

 
 

Testemunhando a fé no nome de Jesus ressuscitado

Somos chamados a viver como testemunhas da vida de Jesus Cristo. É possível dizer que as pessoas desejam ler a vida de Jesus refletida em nós. Nesse sentido, somos as cartas vivas do evangelho. A força da ressurreição é companheira do movimento de Jesus. O Deus conosco se faz presente agora como o Ressuscitado. O espaço que se pensava que ficaria vazio, sendo habitado episodicamente pelo sentimento de saudade, seria de novo preenchido pelo Cristo ressuscitado. A missão tanto dos primeiros discípulos quanto de todos nós – discípulos e missionários de Jesus – seguirá e se desenvolverá com base na certeza da ressurreição e na força do Espírito: “Eis que enviarei sobre vocês o que meu Pai prometeu. Portanto, fiquem na cidade, até serem revestidos da força do alto” (Lc 24,49).

1ª leitura: At. 3,13-15.17-19

Pedro, nos Atos dos Apóstolos, depois de recordar a paixão de Jesus, declara na presença de todo o povo: “Deus o ressuscitou de entre os mortos e nós somos testemunhas”. As testemunhas se apresentam de acordo com a substância da mensagem que anunciam. Os discípulos viveram essa mensagem até as últimas consequências, selando muitas vezes sua pregação com o martírio. O testemunho da vida é a prova mais incontestável da verdade do evangelho. Se somos discípulos missionários de Jesus, somos também as testemunhas preferenciais da boa-nova da sua ressurreição por meio de nossa palavra e ação. As pessoas somente acreditarão na palavra do evangelho quando virem esse mesmo evangelho refletindo e atuando em nossa existência.

O episódio aconteceu na porta do templo e causou profundo impacto tanto naquele que pedia esmola quanto nas pessoas que transitavam pelo local: “E ficaram cheios de admiração e de espanto com o que lhe havia acontecido” (v. 10). Pedro e João eram discípulos comprometidos com a oração e sabiam de sua responsabilidade de discípulos. E bem ali, no pórtico de Salomão, aproveitando a oportunidade, testemunham sobre o Ressuscitado. Todavia, Pedro faz questão de que as pessoas desviem o olhar dele, para se fixarem em Jesus. Pedro sabe que não é ele próprio o centro das atenções: “E por que ficam olhando para nós tão atentamente, como se nós, com nosso próprio poder e piedade, tivéssemos feito esse homem caminhar?” (v. 12). Pedro redireciona o olhar da multidão. Ao apontar para Jesus, Pedro e João se afastam dos holofotes e afirmam que a cura somente aconteceu em decorrência da fé no seu nome e ressurreição, mas simultaneamente indicam que a restituição da saúde daquele homem também se configurava como uma denúncia ao julgamento que condenou a Jesus.

A fé no nome e na ressurreição de Jesus provoca um estado novo nas situações de antivida. A fé em Jesus expulsa os horrores do caos que impõe medo e afasta as pessoas de gestos de solidariedade. A cura de determinado homem acontece não por meio de magia ou de algum conhecimento secreto; assim como também não acontece por causa de Pedro e João. A fonte da cura reside unicamente em Jesus: “Pela fé no nome de Jesus, é pelo seu nome que foi fortalecido este homem que vocês estão vendo e reconhecendo” (v. 16). Diante desse fato inegável, Pedro pode insistir num convite ao arrependimento e à conversão: “Arrependam-se, portanto, convertam-se, para que os pecados de vocês sejam perdoados” (v. 19).

2ª leitura: 1Jo 2,1-5a

Na segunda leitura, João insiste no papel que a ação possui no testemunho: “E nisto sabemos que o conhecemos: em que guardamos seus mandamentos. Quem diz: ‘Eu o conheço’ e não guarda seus mandamentos, é um mentiroso e a verdade não está com ele”. O amor de Deus se realiza plenamente em quem guarda sua palavra. Não se conhece a Deus teoricamente. Não é suficiente saber que ele existe. É fundamental vivenciá-lo no cotidiano, com base na prática de seus mandamentos. A vida de Jesus não pode ser resumida a uma teoria nem muito menos a uma bela história. Discípulos verdadeiros são aqueles que engravidam o cotidiano de Jesus Cristo.

João é muito explícito quando escreve: “o amor de Deus se realiza plenamente em quem guarda sua palavra” (v. 5). A plenitude de Deus e de seu amor em nós passa pela ação e neutraliza a passividade. Um amor que nos tira da zona de conforto e nos leva em direção ao outro. A observância dos mandamentos tem como ponto mais fundamental justamente o amor entre os membros da comunidade. Plenificados do amor de Deus, rompemos com o egoísmo e o isolamento e semeamos solidariedade. No Antigo Testamento, principalmente nos profetas, o conhecimento de Deus passa pelos gestos de solidariedade e de compromisso com os mais fracos. Pode-se dizer, portanto, que tantas e quantas vezes formos em socorro dos mais pobres, também estaremos indo ao encontro de Deus e de seu conhecimento (veja Jeremias 22,13-19).

Evangelho: Lc. 24,35-48

De que valem as testemunhas? O relato de Lucas sugere, antes de mais nada, a insuficiência do contato visual somente. A cena impressiona: assustados, os onze e seus companheiros imaginam que veem um fantasma. A palavra do Ressuscitado é acrescentada à sua aparência e os discípulos passam a compreender melhor. No entanto, os que ouvem ficam ainda mais surpresos com a ação dele: Jesus come diante deles um pedaço de peixe assado.

Jesus ressuscitado aparece em meio ao cotidiano dos discípulos. Eles estavam conversando sobre os últimos acontecimentos quando o Mestre se apresenta. Não se tratava de um delírio ou de mera sugestão da mente. Jesus faz questão de que, diante do medo e da perturbação sentida, eles o toquem. Não, realmente não se tratava de um espírito. Trata-se, sim, da restauração da dignidade plena e total do ser humano. A morte e a ressurreição de Jesus são a leitura que a comunidade dos discípulos faz de sua solidariedade numa situação limite do ser humano. Um Deus que não abandona o ser humano numa situação crítica e ainda infunde esperança. A ressurreição é consequência de Jesus preso à cruz; e a cruz simbolicamente não está ligada a nenhum bem: nela reside o encontro da dor, do sofrimento e do fracasso. Entretanto, na ressurreição nasce a promessa e a esperança de que não haja mais pobres.

A dúvida e o receio a que Jesus faz referência: “Por que vocês estão perturbados? E por que surgem dúvidas no coração de vocês?”, certamente dizem respeito à sua inusitada presença, mas também podemos refletir sobre os medos que rondavam os discípulos relativamente às ameaças que pairavam no ar por conta do assassinato de Jesus, bem como sobre as dúvidas que povoavam os corações: “Que será de nós e de nosso movimento? Será que tudo acabou?”

Nota-se algo fundamental nas palavras de Jesus para entender a qualidade radical do seu projeto – a presença central das Escrituras: “‘São estas as palavras que eu lhes falei quando ainda estava com vocês. Tinha de se cumprir tudo o que sobre mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos’. Então abriu a inteligência deles, para que compreendessem as Escrituras” (Lc 24,44-45). Definitivamente, não há como ser discípulo distanciado das Sagradas Escrituras. Nela nos alimentamos diariamente com o projeto libertador e salvador de Jesus Cristo, manifestado desde a ação solidária de Javé libertando os escravos no Egito.

Pistas de reflexão

– Descobrimos mais sobre Jesus e seu projeto meditando nas Sagradas Escrituras. Jesus nos dá clara indicação de que devemos nos relacionar com as Sagradas Escrituras diariamente. Meditar nelas dia e noite (cf. o Salmo 1) deveria ser nosso objetivo. Mas, para alcançar esse objetivo, não basta ir à Igreja. Faz-se necessário, também, frequentar um grupo de reflexão ou um círculo bíblico, a fim de mergulhar na Palavra de Deus e, a cada dia, conhecer mais de Jesus e de seu projeto de vida.

– Ser testemunha é viver uma vida diferenciada. Mas diferenciada de quê? Basta pensarmos que, em meio a uma sociedade de morte, devemos semear vida; em meio a uma sociedade que gera medo, devemos semear esperança; em meio a uma sociedade fundamentada no acúmulo, devemos viver a prática da partilha; em meio a uma sociedade que marginaliza os pobres e cria desigualdades, devemos viver o projeto de uma comunidade inclusiva. Quando testemunhamos a Jesus, estamos dizendo à sociedade que há um modo de vivermos em grande fraternidade!

Luiz Alexandre Solano Rossi

 
 

Aquele que veio dar a paz

O Ressuscitado apareceu a testemunhas previamente escolhidas para que estas pudessem transmitir de boca e boca, de vida em vida, de geração em geração, na força do Espírito, a certeza de que  Jesus de Nazaré havia vencido a morte e estava vivo para sempre.  Os discípulos de Emaús, depois da especialíssima experiência que haviam tido, encontraram novamente o  Senhor.  “Os dois discípulos contaram o que tinha acontecido no caminho e como tinham reconhecido Jesus ao partir do pão. Ainda estavam falando quando o próprio  Jesus apareceu no meio deles e disse: A paz esteja convosco”.

Guiados por Pedro Crisólogo meditemos sobre esta paz que trouxe o Ressuscitado, palavras dirigidas de modo especial a Pedro e João, mas que se dirigem a todos nós: Voltando da mansão dos mortos, Cristo para dar a paz ao mundo exclama: “A paz esteja convosco!”. Os discípulos falavam ainda quando Jesus se colocou no meio deles e lhes disse:  “A paz esteja convosco”.  Com toda justeza disse:  esteja convosco, porque a terra já estava consolidada, o dia havia voltado, o sol havia retomado seu esplendor e o mundo reencontrado sua ordem e coesão.  No coração dos discípulos, no entanto, ainda havia guerra: fé e falta de fé se digladiavam violentamente. A terra estava tranqüila, mas o coração dos discípulos experimentava turbulência. Fé e falta de fé devastavam sua alma numa guerra sem trégua;  inumeráveis pensamentos assediavam sua mente. Seu coração parecia esmagado numa luta entre esperança e desesperança, apesar de fortes que pareciam ser. Sentimentos e pensamentos dos discípulos estavam como que dilacerados entre os milagres que Jesus havia operado e as inúmeras humilhações de sua morte, entre os sinais de sua divindade e a fraqueza de sua carne, entre o horror da morte e a graça da vida. Por momentos sua alma era elevada ao céu, em outros descia ao mais baixo da terra. Com a fúria do coração não encontravam porto tranqüilo, lugar algum de paz.  Vendo isto  Cristo que escruta os corações, dá ordem aos ventos, governa as tempestades e com um simples sinal muda a tempestade em céu sereno, confirma-os na paz dizendo: “A paz esteja convosco”.  Sou eu. Nada tendes a temer. Sou eu: o que morreu e foi sepultado.  Sou eu.  Para mim Deus, para vós homem. Sou eu.  Não um espírito revestido de um corpo.  Mas a própria verdade feita  homem. Sou eu.  Sou eu, o vivo entre os mortos, celeste no âmago dos ínferos.  Sou eu  que espantou a morte e fez temer a mansão dos mortos.  Os seus habitantes me proclamaram Deus, no seu espanto. Nada tendes a temer, Pedro e João, e todos os que me abandonaram e traíram, todos que ainda não acreditais em mim, mesmo me vendo. Nada temereis.  Sou eu  que vos chamei por graça, que vos escolhi perdoando-vos, que vos sustentei com minha compaixão. Tenho a vós em meu coração e agora vos acolho com minha bondade. O Pai não o mal praticado  quando acolhe um filho.

A fé no Ressuscitado coloca paz no coração do discípulo.

frei Almir Ribeiro Guimarães

 
 

“Era preciso que o Cristo padecesse”

Nas leituras de hoje, encontramos alguns títulos do Cristo aos quais estamos pouco acostumados: o Servo, o Santo e o Justo. Referem-se ao Servo Padecente do Dêutero-Isaías. Revelam um acontecimento importante no seio da primitiva comunidade cristã: a releitura das Escrituras (AT) à luz dos eventos da morte e ressurreição de Cristo. Tal releitura é, propriamente, a obra do Espírito nos primeiros anos da jovem comunidade. Porém, Cristo mesmo preside a esta obra, como nos mostra o evangelho de hoje (a aparição aos Onze reunidos no cenáculo). Jesus lhes mostra o que “na Lei de Moisés, nos profetas e nos salmos” (as três partes das escrituras) está escrito a respeito do Messias, especialmente, que ele deve sofrer e morrer e, no terceiro dia, ressuscitar.

A comunidade dos primeiros cristãos esforçou-se para reconhecer naquele que os judeus entregaram e mataram (cf. At. 3,13-14 - 1ª leitura) aquele que as Escrituras anunciaram. Tiveram que descobrir um fio escondido, que os outros judeus (pois também eles eram judeus) não enxergaram: a figura do justo oprimido, do servo sofredor, do messias humilde, do pequeno resto, do profeta rejeitado… Enquanto o judaísmo em geral lia as Escrituras com os óculos de um messianismo terrestre (geralmente nacionalista), os primeiros cristãos descobriram na aniquilação e ressurreição de Cristo a atuação escatológica de Deus, a nova criação, o início do Reino de Deus por meio de seu “executivo”, o Filho do Homem (cf. Dn. 7), que – acreditavam – voltaria em breve com a glória e o poder do Céu. E este Filho do Homem era, exatamente, o messias des­conhecido, presente em textos que não descrevem o poderoso messias davídico, mas aquele que devia sofrer e morrer.

Esse trabalho da primitiva comunidade, iluminada pelo Espírito do ressuscitado, é um exemplo para nós. Eles fizeram essa releitura para poder dizer aos judeus, em categorias judaicas, que Jesus era, mesmo, o esperado, o dom de Deus, o sentido pleno, a última palavra de nossa vida e de nossa história. Nós, hoje, devemos anunciar a mesma mensagem utilizando as categorias de nosso tempo. Isso não é simples, pois as catego­rias determinam em parte a percepção das coisas e, portanto, também o conteúdo da mensagem. Devemos ler o “Antigo Testamento” de nosso tempo, isto é, a linguagem em que nosso tempo exprime suas mais profundas aspirações. Nem sempre é uma lin­guagem religiosa. Pode ser uma linguagem política, “histórico-material” até! Como recuperá-la para dizer: “Jesus é o Senhor”? Tarefa difícil, mas não impossível.

Nenhu­ma página do A.T. era estritamente adequada para traduzir a mensagem das primeiras testemunhas de Cristo, nem mesmo as páginas do Dêutero-lsaías (p. ex. o Servo de Is. 53,12 aparece como recompensado, em sua vida, pela fama, a honra etc.; isso não se aplica diretamente a Jesus). A mensagem transbordava das categorias. Isso acontece também hoje, quando dizemos que em Jesus temos a “libertação”, categoria socioeco­nômica da dialética materialista. Porém, a inadequação das categorias não nos dispen­sa de usá-las  para dizer aos nossos contemporâneos, numa linguagem que neles encontre ressonância, o que devemos testemunhar. Exatamente para superar a limitação da linguagem e transmitir algo que é “revelação”, algo que não está no poder de nossa palavra, age em nós, até hoje, o Espírito, que, nos primeiros cristãos, completou o que Jesus havia iniciado naquela tarde: a releitura das Escrituras.

A história pós-pascal é uma história de meditação e interpretação do evento de Jesus Cristo. Devemos continuar essa história. Mas ela é, também e sobretudo, a história da encarnação de sua mensagem no amor fraterno, conforme o preceito de Jesus (cf. 2ª leitura). Esta encarnação é, certamente, a melhor “tradução” da mensagem pascal. No amor fraterno da comunidade cristã, o mundo enxerga o Ressuscitado, o Cristo vivo.

padre Johan Konings "Liturgia dominical"

 
 

Era necessário Cristo sofrer tanto?

1ª leitura (At. 3,13-15.17-19) “Deus glorificou seu servo Jesus, que vós entregastes...”

– Pedro curou em aleijado “em nome de Jesus” (At 3,1-10) e agora explica ao povo a força deste “nome, que supera a todos” (Fl 2,9-11): o anúncio da ressurreição de Jesus. Fala também da culpa do povo de Jerusalém, para que se converta e receba perdão e salvação. Mas o gesto e a pregação de Pedro vão provocar o primeiro conflito com o Sinédrio. * 3,13-15 cf. Ex. 3,6; Is. 52,13; Lc. 23,17-25 *3,17-19 cf. Lc. 23,34; 1Tm. 1,13; Mt. 3,2; At. 2,38.

2ª leitura (1Jo 2,1-5a) Cristo, o Justo, propiciação dos pecados de nós e de todos

1) A admoestação para rompermos com o pecado, inclui uma palavra de conforto: temos um Mediador que assumiu nosso pecado (2,1-2).

2) Segue um esclarecimento: o ser cristão se resume em conhecer Cristo, mas não conhecer de modo intelectual e teórico, porém, do modo da comunhão da fé, que se verifica na observação de sua palavra, na caridade perfeita (cf. também o resto do cap.).

* 2,1-2 cf. 1Jo 3,16; Rm. 8,34; Hb. 7,25; 1Pd. 3,18 * 2,3-5 cf. 1Jo 5,2; Jo 14,20-21; 17,3.

Evangelho (Lc. 23,35-48) Jesus aparece aos Onze na refeição e explica as Escrituras

– Um sepulcro vazio não convence ninguém... Os onze precisaram da presença do Ressuscitado para que seus olhos e coração se abrissem. A fé na ressurreição é dom de Jesus e do seu Espírito. Implica a descoberta do fio escondido das Escrituras, o surpreendente plano de Deus. Mas esse plano ainda não chegou ao fim. Estamos agora “no meio do tempo”, em que Deus oferece a restauração, em nome de Jesus, para que todos possam viver para ele, enquanto os que creem levam o testemunho disso ao mundo. * cf. Jo 20,19-23 * 24,36-43 cf. Lc. 24,16; Jo 21,5-10; At. 10,40 * 24,44-48 cf. Lc. 9,22; 24,26-27; Mt. 28,19-20.

Nas leituras de hoje, encontramos alguns títulos do Cristo aos quais estamos pouco acostumados: o Servo, o Santo e o Justo. Referem-se ao Servo Padecente do Dêutero-Isaías. Revelam um acontecimento importante no seio da primitiva comunidade cristã: a releitura das Escrituras (A.T.) à luz dos eventos da morte e ressurreição de Cristo. Tal releitura é, propriamente, a obra do Espírito nos primeiros anos da jovem comunidade. Porém, Cristo mesmo preside a esta obra, como nos mostra o evangelho de hoje (a aparição aos Onze reunidos no cenáculo). Jesus lhes mostra o que, “na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (as três partes das escrituras está escrito a respeito do Messias, especialmente, que ele deve sofrer e morrer e, no terceiro dia, ressuscitar).

A comunidade dos primeiros cristãos esforçou-se para reconhecer naquele que os judeus entregaram e mataram (cf. At. 3,13-14; 1ª leitura) aquele que as Escrituras anunciaram. Tiveram que descobrir um fio escondido, que os outros judeus (pois também eles eram judeus) não enxergaram: a figura do justo oprimido, do servo sofredor, do messias humilde, do pequeno resto, do profeta rejeitado... Enquanto o judaísmo em geral lia as Escrituras com os óculos de um messianismo terrestre (geralmente nacionalista), os primeiros cristãos descobriram na aniquilação e ressurreição de Cristo a atuação escatológica de Deus, a nova criação, o início do Reino de Deus por meio de seu “executivo”, o Filho do Homem (cf. Dn 7), que – acreditavam – voltaria em breve com a glória e o poder do Céu. E este Filho do Homem era, exatamente, o messias desconhecido, presente em textos que não descrevem o poderoso messias davídico, mas aquele que devia sofrer e morrer.

Esse trabalho da primitiva comunidade, iluminada pelo Espírito do ressuscitado, é um exemplo para nós. Eles fizeram essa releitura para poder dizer aos judeus, em categorias judaicas, que Jesus era, mesmo, o esperado, o dom de Deus, o sentido pleno, a última palavra de nossa vida e de nossa história. Nós, hoje, devemos anunciar a mesma mensagem utilizando as categorias de nosso tempo. Isso não é simples, pois as categorias determinam em parte a percepção das coisas e, portanto, também o conteúdo da mensagem. Devemos ler o “Antigo Testamento” de nosso tempo, isto é, a linguagem em que nosso tempo exprime suas mais profundas aspirações. Nem sempre é uma linguagem religiosa. Pode ser uma linguagem política, “histórico-material” até! Como recuperá-la para dizer: “Jesus é o Senhor”? Tarefa difícil, mas não impossível. Nenhuma página do A.T. era estritamente adequada para traduzir a mensagem das primeiras testemunhas de Cristo, nem mesmo as páginas do Dêutero-Isaías (p.ex., o Servo de Is 53,12 aparece como recompensado, em sua vida, pela fama, a honra, etc.; isso não se aplica diretamente a Jesus). A mensagem transbordava das categorias. Isso acontece também hoje, quando dizemos que em Jesus temos a “libertação”, categoria socioeconômica da dialética materialista. Porém, a inadequação das categorias não nos dispensa de usá-las para dizer aos nossos contemporâneos, numa linguagem que neles encontre ressonância, o que devemos testemunhar. Exatamente para superar a limitação da linguagem e transmitir algo que é “revelação”, algo que não está no poder de nossa palavra, age em nós, até hoje, o Espírito, que, nos primeiros cristãos, completou o que Jesus havia iniciado naquela tarde: a releitura das Escrituras.

A história pós-pascal é um história de meditação e interpretação do evento de Jesus Cristo. Devemos continuar essa história. Mas ela é, também e sobretudo, a história da encarnação de sua mensagem no amor fraterno, conforme o preceito de Jesus. Esta encarnação é, certamente, a melhor “tradução” da mensagem pascal. No amor fraterno da comunidade cristã, o mundo enxerga o Ressuscitado, o Cristo vivo.

ERA NECESSÁRIO CRISTO SOFRER TANTO?

O sofrimento de Jesus é entendido de muitas maneiras, nem sempre aceitáveis. Há quem diga que Jesus teve de pagar nossos pecados com seu sangue. Mesmo se é verdade que o sofrimento de Jesus nos resgatou, não é porque Deus exigiu que ele pagasse com seu sangue a nossa divida. Seria injusto e cruel. Os homens é que “castigaram” Jesus, mas Deus o reabilitou. “Aquele que conduz à vida, vós o matastes, mas Deus o ressuscitou dentre os mortos” (1ª leitura). Era preciso que o Cristo padecesse (evangelho), não porque Deus o desejava, mas porque as pessoas o rejeitaram e o fizeram morrer. Mas Deus quis mostrar publicamente que Jesus, assumindo a morte infligida ao justo, teve razão. É isso que significa a ressurreição. O próprio Ressuscitado cita aos discípulos os textos da Escritura que falam nesse sentido (Lc. 24,44).

Muitas vezes, a gente só descobre o sentido profundo das coisas depois que aconteceram. Assim também foi preciso primeiro o Cristo morrer e ressuscitar, para que os discípulos descobrissem que nele se realizou o modo de agir de Deus, do qual falam as Escrituras. Muitas vezes o Antigo Testamento fala do justo perseguido ou rejeitado (p.ex. Sl. 22, Sl. 69; Sb. 2), do Servo Sofredor (Is. 52,13–53,12). Esses textos nos ensinam que aquele que quer praticar a justiça segundo a vontade de Deus há de enfrentar perseguição e morte. Ora, esses textos encontraram em Jesus uma realização inesperada e incomparável: aquele que Deus chama seu Filho morre por estar comprometido com o amor e a justiça de Deus. Em frente dessa morte, a ressurreição é a homenagem de Deus a seu Filho. O que foi rebaixado pelos injustos, é reerguido por Deus e mostrado glorioso aos que nele acreditaram. A ressurreição é a prova de que Deus dá razão a Jesus e de que seu amor é mais forte que a morte.

Se Deus dá razão a Jesus, se Deus endossa a prática de vida que Jesus nos ensinou por seu exemplo, já não podemos hesitar em alinhar nossa vida com a sua. Jesus “ressuscitou por nós”, isto é, para nos mostrar que o certo é viver e morrer como ele. Quem, morrendo ou vivendo, dá a vida pelos irmãos, não é um ingênuo; Deus lhe dá razão.

Que significa então: “Ele é a vítima de expiação pelos nossos pecados” (2ª leitura)? À luz do que dissemos acima, esta expressão não significa que Jesus é um sacrifício oferecido para pagar a dívida em nosso lugar, mas que aquilo que os antigos queriam realizar pelas vítimas de expiação – reconciliar-se com Deus – foi realizado de modo muito superior pela vida de justiça que Jesus viveu até à morte por amor. E, na medida em que o seguirmos nessa prática de vida, guardando seu mandamento, o amor de Deus se torna verdade em nós (1Jo 2,3-5). 

padre Johan Konings

 
 

Jesus abre as Escrituras (Lc. 24)

Conta-nos o evangelho de Lucas, ao descrever a aparição pascal aos onze Apóstolos, que Jesus “abriu-lhes as Escrituras” (Lc. 24,25). Ou, em outros termos: “Jesus disse-lhes: ‘O que vocês agora estão vendo corresponde ao que eu lhes falei estando com vocês: que se deve realizar tudo o que está escrito a meu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos’” (24,44).

Entender as Escrituras, para nós, cristãos, é encontrar nelas Jesus. E isso, não apenas no Novo Testamento. As Escrituras que Jesus abriu para os Apóstolos a fim de nelas mostrar o que lhe dizia respeito são as Escrituras do Antigo Testamento. Pois o Novo Testamento ainda não estava escrito naquele momento. Jesus fala à maneira dos judeus, que chamam às suas Escrituras “a Lei, os Profetas e os Escritos” (os cristãos, mais tarde, dirão: “o Antigo Testamento”).

Na divisão da Bíblia hebraica, a “Lei” - a Torá, em hebraico - são os cinco primeiros livros da Bíblia, os “livros de Moisés” (Gn, Ex, Lv, Nm, Dt). Os “Profetas” são os escritos que trazem a história e as palavras dos profetas, desde Moisés até por volta do exílio babilônico, quando Israel era governado sucessivamente pelos juízes e pelos reis (Js, Jz, 1-2Sm, 1-2Rs, Is, Jr, Ez e os “Doze Profetas”). Os “Escritos” são os demais livros do Antigo Testamento, geralmente livros sapienciais e poéticos, mas também alguns históricos (Sl, Jó, Pr, Rt, Ct, Ecl, Lm, Est, Dn, 1-2Cr, Esd, Ne).

O que Jesus quer dizer é o seguinte: quem lê com atenção certos textos do Antigo Testamento encontra neles a “lógica” que se realiza na vida, morte e ressurreição de Jesus, mesmo se o sentido original visado pelo autor não foi exatamente esse.

Na história dos discípulos de Emaús, Lucas narra o seguinte: “Jesus lhes disse: ‘Como vocês são lentos para entender tudo o que os profetas disseram! Não devia o Messias (Cristo) sofrer tudo isso para entrar na sua glória?’ E então, a partir de Moisés e todos os profetas, explicou-lhes o que se disse a seu respeito em todas as Escrituras” (Lc. 24,25-27).

A “lógica” que está escondida nas Escrituras do Antigo Testamento e que nem os discípulos de Emaús, nem os Onze no cenáculo conheciam, consiste em que Jesus, dando a sua vida por amor até o fim, realiza de modo pleno o que as Escrituras dizem a respeito do Messias - para quem sabe interpretá-las! Mostrar essa lógica é oferecer uma chave de leitura para as Escrituras e, quando aplicamos esta chave, admiramos a multidão de textos do Antigo Testamento que assim recebem um sentido novo, além da história que contam. Anunciam o que vimos realizar-se na vida, morte e ressurreição de Jesus.

Não devemos pensar que com Jesus o Antigo Testamento não tem mais sentido. Pelo contrário, recebe um sentido novo, seu sentido pleno.

padre Johan Konings "Descobrir a Bíblia partir da liturgia"

 
 

A Ressurreição de Jesus para nós é a paz pela segurança da vida eterna

O Evangelho de hoje nos relata a aparição e Jesus Ressuscitado aos apóstolos logo depois que foram ao encontro deles os dois discípulos de Emaús.

Esta aparição de Jesus teve dois objetivos importantes:

- foi a primeira vez que Jesus apareceu aos apóstolos reunidos. A importância desta aparição está também marcada pela repreensão de Jesus: os apóstolos não tinham acreditado nas pessoas que O tinham visto Ressuscitado antes.

- Além disto, não se tratou de uma aparição a poucas pessoas, mas ao menos a dez apóstolos, se levarmos em conta a possível ausência de são Tomé.

Ora, depois que os apóstolos se convenceram de que a aparição era de Jesus mesmo, pois diante deles comeu um pouco de peixe assado, uma coisa mais importante Ele ainda ia anunciar. Do que se tratava nesta aparição planejada por Jesus?

Ele veio dizer aos apóstolos como deviam interpretar Sua Morte e Ressurreição em benefício de toda a humanidade.

Este benefício era não só a conversão; era também o perdão dos pecados.

Uma coisa era saber que Jesus uma vez Ressuscitado não morria mais.

Outra coisa era saber que Sua Morte merecera, da parte de Deus, a Graça da conversão e perdão dos pecados para toda a humanidade: “O Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia, e no Seu Nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações [ ...]” (Lc. 24,46c-47).

Sabemos, é claro, que Deus oferece a conversão e o perdão a toda a humanidade, embora nem todas as pessoas os aceitem. O fato de muitos não aceitarem a conversão, o perdão, a Salvação, a Vida Eterna, em nada invalida a generosidade divina e em nada impede a ação poderosa de Deus em benefício dos que acolhem Jesus Ressuscitado e sua mensagem salvadora.

Consideremos, no entanto, o valor e o efeito da conversão e do perdão dos pecados que Jesus mereceu para todos nós. O que acontece quando nos convertemos de verdade e somos perdoados de nossos pecados?

O perdão dos pecados nos leva à intimidade com Deus, porque todas as barreiras entre nós e Ele foram derrubadas. Nosso acesso a Deus é direto, por intermédio de Jesus Cristo.

É aqui que encontramos o grande benefício da Ressurreição de Jesus para nós.

São Paulo diz que todos nós perdoados plenamente no Batismo já passamos a participar da Ressurreição de Jesus Cristo. Mas como entender isto, se ainda não morremos e vivemos nesta terra? É o mesmo são Paulo quem explica em Cl 2,12: “[....] tendo sido sepultados, juntamente com Ele, no Batismo, no qual igualmente fostes ressuscitados mediante a fé no poder de Deus que O ressuscitou dentre os mortos”.

São Paulo sabe que está falando a pessoas ainda vivas.

Se diz que ‘[...] no Qual fomos ressuscitados’, entende que a ação salvadora que nos conduz à Vida Eterna já está agindo em nossa vida, mesmo antes de morrermos materialmente, em nosso corpo de carne.

O ‘sepultamento’ de que São Paulo fala aqui é o de nossos pecados, perdoados no Batismo. E tudo isto somente aconteceu por efeito do poder de Deus que agiu em nós porque tivemos fé nesta ação salvadora de Deus por meio de Jesus.

Na Segunda Leitura é São João Evangelista que repete a mensagem também presente no Evangelho de hoje: “Ele é a vítima de expiação pelos nossos pecados, e não só pelos nossos, mas também pelos do mundo inteiro” (1Jo 2,2).

São João Evangelista escreveu esta carta a pessoas de sua comunidade que tinham a consciência de terem cometido pecados depois do Batismo. Ele quer dizer que mesmo os pecados cometidos depois do Batismo são perdoados pela Morte de Jesus que diante de Deus cancela os pecados dos que se convertem para receberem o perdão divino.

Na primeira leitura é são Pedro quem diz à multidão de judeus arrependidos por terem participado na condenação e morte de Jesus:

“Vós matastes o Autor da Vida, mas Deus O ressuscitou dos mortos,[ ...] ” (At. 3,15ab).

Esta é a primeira vez que no Novo Testamento uma acusação ao Povo Eleito é feita por causa da morte injusta de Jesus. Diante de são Pedro estava uma multidão. Seu discurso foi direto. Ele afirmou que aquele Povo era responsável pela condenação de Jesus por Pilatos. Era um pecado de homicídio. Como conseguir perdão de Deus? São Pedro termina seu discurso com estas palavras:

“Arrependei-vos, portanto, e convertei-vos, para que vossos pecados sejam perdoados” (At. 3,19).

É aqui que entendemos a parte que compete ao pecador no Plano Salvador de Deus:

- arrependimento e conversão,

- e pedido de perdão.

Tudo o mais está nas mãos misericordiosas de Deus: precisamente para a conversão e perdão dos pecados que o Pai quis a Morte de Seu Filho.

Uma vez arrependidos, convertidos e perdoados, o que acontece conosco?

Acontece a plena reconciliação com Deus Pai. É como a volta do ‘filho pródigo’ à casa do pai, tendo recuperado tudo o que tinha perdido, e, mais do que tudo, o amor redobrado do pai por ele.

A sensação de ser perdoado, de estar na intimidade com Deus, de ter a futura Salvação garantida é o grande motivo de alegria para todos os batizados.

Como expressar esta alegria?

Ouçamos o Salmo Responsorial de hoje:

“Eu tranquilo vou deitar-me e na paz logo adormeço, pois vós, ó Senhor Deus, dais segurança a minha Vida!” [Sl. 4(5),9].

A segurança que Jesus Cristo nos obteve junto de Deus Pai é a da Vida Eterna.

Podemos continuar nossa vida na terra com esta segurança. A Vida Eterna nos é garantida, porque Jesus a trouxe para nós que nos arrependemos de nossos pecados, e estamos perdoados de todos eles.

padre Valdir Marques, SJ

 
 

Aparição em Jerusalém

Os dois a que se refere o Evangelho são os discípulos que estavam a caminho de Emaús e tiveram um encontro pessoal com o Cristo ressuscitado. Um deles é Cléofas que talvez tenha exercido um papel importante na comunidade cristã.

Eles voltam para Jerusalém junto dos outros discípulos e, enquanto contam sobre o acontecido, Jesus aparece pela quinta vez estabelecendo relações diretas com eles.

Este acontecimento se passa à noite, não necessariamente no seu sentido comum, mas como ‘noite das dúvidas’ que os impede de enxergar com os olhos da fé. “Então Jesus abriu os olhos dos discípulos para entenderem as Escrituras.”

Mesmo diante da realidade de Jesus presente, os discípulos ainda duvidam, têm medo e também se sentem arrependidos de O terem abandonado na Sua Paixão. Ao mesmo tempo estão muito alegres com a presença Dele, não conseguem acreditar e ficam confusos. O divino ofusca a mente humana! E Jesus oferece a paz para mostrar o seu perdão e seu infinito amor por eles.

Jesus ajuda-os a acreditar apresentando-se fisicamente e mostrando seu corpo palpável que foi martirizado e crucificado, trazendo as marcas de Sua Paixão. Ele não é apenas um espírito como os discípulos pensam e, por isso, sentem medo. O corpo físico de Jesus é ao mesmo tempo glorioso embora possa tornar-se presente onde, quando e como Ele desejar.

Ele pede que os discípulos o toquem com suas mãos, pois o que se apalpa não pode ser imaginário. E, adaptando-se à psicologia deles, ainda dá outra prova de sua presença real quando pede algo para comer. O Seu corpo glorioso não necessita alimento, mas Ele usa deste argumento para que se aproximem sem medo e apreensão. Com o alimento, Jesus quer manter uma relação fraterna e íntima com seus amigos, e, neste clima amoroso, reafirma o que já havia dito, colocando a importância de se cumprir o que está nas Escrituras sobre Ele.

Por isso, quando a Igreja lê o Antigo Testamento, procura nele o que o Espírito, “que falou pelos profetas”, quer falar-nos a respeito de Cristo.

Jesus quer dizer a eles que todas as Escrituras se realizam Nele. É na Sagrada Escritura que se confirma a missão redentora de Cristo. Porém, antes da Paixão ela era apenas um anúncio, e após a Paixão ela se abre à compreensão das profecias que se cumprem em Jesus, o Cristo.

Quando Jesus diz ‘o que está escrito’, Ele quer lembrar e abrir a mente dos discípulos para que entendam que a ressurreição é o cumprimento, a realização das promessas do Antigo Testamento.

Jesus é a Palavra viva de Deus, diferente daquilo que está apenas escrito, mudo e sem expressão. Jesus Cristo é a plenitude, é a vida da Palavra que foi escrita.  À Luz do Espírito Santo, Ele faz com que todos compreendam as promessas que precisam se realizar, e os envia, em Seu Nome, a anunciar o arrependimento dos pecados e a reconciliação com o próximo. E confirma a missão dos discípulos dizendo que a paz que vem Dele só chegará a todos através do Evangelho que precisa ser anunciado através do testemunho deles.

 
 

Após o encontro do túmulo vazio pelas mulheres, Lucas narra as aparições do ressuscitado aos discípulos de Emaús, e, agora, aos onze apóstolos e companheiros. Este texto, exclusivo de Lucas, tem um sentido catequético. As comunidades de cristãos de origem judaica devem reler as escrituras sob a ótica da ressurreição, para perceberem a plenitude da vida de Jesus e o distinguirem do tradicional messias glorioso esperado por Israel. O núcleo da narrativa é a comunicação da paz, a afirmação da realidade corpórea do ressuscitado e o testemunho missionário. As comunidades de discípulos devem viver na paz, conscientes da presença de Jesus. A paz é aspiração de todos os povos e religiões. Quem faz a guerra contra a paz são os poderosos, para conquistar mais riqueza e poder. A paz só pode ser encontrada em Jesus, que tem a vida eterna e a comunica a todos. A vida eterna, ultrapassada a condição temporal, como ressuscitados, envolve a totalidade da pessoa, corpo e alma, e não como um espírito desencarnado. O ressuscitado não é um espírito. Apresentando-se em "carne e osso", identifica-se com o próprio Jesus de Nazaré. É o Jesus que partilhou o pão com o povo, que trouxe paz a todos e que continua presente na comunidade. Agora, os discípulos devem testemunhar a todas as nações a conversão à justiça para a remoção dos pecados (primeira leitura). A conversão à prática da justiça leva à construção de um mundo de paz, liberto do pecado, assumido por Deus. A conversão à justiça é a prática do mandamento do amor (segunda leitura). E pelo amor se entra em comunhão com Deus em sua vida eterna.

padre Jaldemir Vitório

 
 

O Ressuscitado convida a reler a história à luz do evento pascal

O evangelho de hoje é a sequência do relato dos discípulos de Emaús. Trata-se, ainda, da manifestação de Jesus ressuscitado aos apóstolos, reunidos no Cenáculo. A comunicação espiritual da experiência do Ressuscitado é ocasião em que o próprio Senhor se faz presente. Mas sua presença não é evidente a todos nem nas mesmas circunstâncias. A presença do Ressuscitado não é desvario ou ilusão; ela é real. Ele não é um fantasma; ele tem um corpo. Jesus sabe que os apóstolos estão assustados e que eles têm dificuldade em aceitar essa nova realidade de sua presença. Os apóstolos têm dificuldade de compreender o que é realmente a ressurreição. Eles têm dúvida. Por isso, Jesus ressuscitado convida a olhar as suas mãos e os seus pés e a tocá-lo. Ele é um homem com um corpo e uma alma. Mas o seu corpo de ressuscitado é bem diferente do corpo que tinha quando de sua existência terrestre. Do ponto de vista bíblico, o corpo é um instrumento que Deus colocou à nossa disposição para que possamos viver a nossa vida em plenitude. A experiência que faz sentir uma alegria que perdura para além de um momento aprazível é o modo de conhecer que o Senhor está presente. Nosso texto de hoje afirma uma identidade diferenciada: o Crucificado é o Ressuscitado. Essa é a mensagem contida no convite a olhar as mãos e os pés que trazem a marca da paixão. Embora o seu corpo traga as marcas de sua paixão, trata-se de um corpo glorioso para o qual não há lugar nem situação onde ele não possa estar. É um modo de presença que ultrapassa os limites do visível e do imediatamente perceptível. Ele exige fé. A vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo são indissociáveis. A presença de Jesus ressuscitado ilumina a memória e convida a reler a história à luz do evento pascal. A manifestação de Jesus ressuscitado aos apóstolos, no cenáculo, os abre para o futuro. Quando da sua existência terrestre e finita, a missão de Jesus se limitava às ovelhas perdidas da casa de Israel. Após sua paixão e ressurreição, a missão dos apóstolos se estende para o mundo inteiro. A liturgia deste dia nos convida a aprofundar nosso engajamento e nossa adesão a Cristo ressuscitado e nossa disposição em realizar a sua vontade salvífica.

Carlos Alberto Contieri,sj

 

 

Um mundo de amor e paz é possível

A narrativa dos discípulos de Emaús é exclusiva de Lucas. A estrutura da narrativa assemelha-se à estrutura celebrativa da eucaristia: a escuta da palavra e a partilha do pão, na qual se reconhece a presença de Jesus.

Os dois discípulos retornam a Jerusalém para contar o que havia acontecido no caminho, e comunicam aos apóstolos reunidos o reconhecimento de Jesus na partilha do pão. Quando estão falando, o próprio Jesus aparece no meio deles. O encontro com Jesus é o encontro com a paz. É a paz em plenitude, a paz da participação da vida eterna do Pai, que Jesus traz a todos.

Mesmo depois da crucifixão de Jesus, os discípulos continuavam com dúvidas sobre o sentido de sua vida. Agora se evidencia que Jesus não foi destruído pela morte e sua missão de anunciar a conversão para participar da vida eterna deve ser continuada pelos discípulos em todas as nações. Jesus tem a vida eterna. Ele continua vivo. Não se trata de um espírito, como era admitido aos mortos em várias culturas e religiões, mas continua vivo em sua corporalidade. É o próprio Jesus de Nazaré, com o qual os discípulos conviveram por alguns anos.

Este texto de Lucas tem um sentido catequético para as comunidades de cristãos de origem judaica, as quais devem reler as escrituras sob a ótica da ressurreição, para perceberem a plenitude da vida de Jesus, e o distinguirem do tradicional messias glorioso esperado por Israel. O equivoco desta tradicional expectativa messiânica fica em evidência na fala de Pedro aos "homens de Israel", diante do Templo de Jerusalém, declarando que eles mataram Jesus, o qual, contudo, foi ressuscitado por Deus (primeira leitura).

As comunidades de discípulos devem viver na paz, conscientes da presença de Jesus. A paz é aspiração de todos os povos e religiões. Quem faz a guerra contra a paz são os poderosos na conquista de mais riqueza e poder. A paz pode ser encontrada em Jesus, que tem a vida eterna e a comunica a todos.

O anúncio da conversão para o perdão dos pecados tem sua origem na pregação de João Batista. Jesus a assume e a aponta como o caminho para a vida eterna. Trata-se da conversão à prática da justiça, na plenitude do amor, pela qual o pecado é removido do mundo. Na observância da palavra de Jesus, o amor de Deus é plenamente realizado (segunda leitura).

Os discípulos de Jesus, em todos os tempos e povos, são convocados a testemunhar que um mundo novo onde reinem a paz e o amor, revestido de eternidade, é possível.

José Raimundo Oliva

 
 

A Palavra de Deus deste domingo do tempo pascal recorda-nos um fato histórico tremendo, ao mesmo tempo misterioso e doloroso: os judeus, povo que esperou o Messias, não acolheu o Messias! E tudo terminou num desastre: "Vós rejeitastes o Santo e o Justo. Vós matastes o Autor da vida. Vós o entregastes e o rejeitastes diante de Pilatos”. Eis, caríssimos: misteriosamente o Povo de Deus do Antigo Testamento não foi capaz de reconhecer o Messias que lhe fora enviado e o entregou a Pilatos, que o mandou crucificar. Não culpemos os judeus. A própria Palavra do Senhor afirma: “Eu sei que agistes por ignorância, assim como vosso chefes. Deus, porém, cumpriu desse modo o que havia anunciado pela boca de todos os profetas: que o seu Cristo haveria de sofrer”. Que mistério, amados irmãos: na rejeição dos judeus, que terminou levando Cristo à cruz, o plano de Deus estava sendo cumprido! O próprio Senhor ressuscitado afirma a mesma coisa no Evangelho de hoje: “Assim está escrito: ‘O Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia, e no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações”.

Mas, por que deveria ser assim? Por que o plano de Deus deveu passar pela cruz, tão feia, tão humilhante, dolorosa e sofrida? Com piedade e unção, procuremos contemplar um pouquinho tão grande e santo mistério. A cruz fazia parte do plano de Deus, caríssimos, primeiramente porque nela se manifesta o que o pecado fez com o homem e do que o homem pecador se tornou capaz: de matar Deus e se desgraçar. A humanidade pecadora – esta, que vemos hoje – de tal modo se fechou para Deus que o está matando (recordem a mais recente punhalada: uma obra de arte blasfema numa exposição no Centro Cultural do Banco do Brasil no Rio de Janeiro. Lá apresentaram dois terços da Virgem Maria em forma de órgão genital masculino. Os católicos protestaram. E o ministro da cultura do Governo Lula, o Gilberto Gil ficou indignado com os católicos; e muitos artistas foram à rua protestar contra esses católicos reacionários. É a lógica do mundo atual: massacrar Deus, ridicularizá-lo, matá-lo no coração dos homens e do mundo). Desde o início da história temos matado Deus, renegando-o, desobedecendo-o, colocando-o em último lugar... Mas, quando fazemos isso, nos destruímos, nos desfiguramos, edificamos a nossa vida pessoal e social sobre a areia. Na cruz de Jesus, Deus nos mostra isso: a gravidade do nosso pecado, o desastre que é fechar-se para o Senhor. Num mundo que brinca com o pecado e já não leva a sério a gravidade de pecar, olhemos a cruz e veremos o que nosso pecado provoca! Não deixará nunca de impressionar a frase de São Pedro na primeira leitura de hoje: “Vós matastes o Autor da Vida!” – Eis! Com o nosso pecado, matamos aquele que é a Vida e nos matamos a nós!

Mas, a cruz revela também, com toda a força, até onde Deus é capaz de ir por nós: ele é capaz de se entregar, de dar sua vida por nós! No seu Filho o Pai nos entrega tudo de precioso que ele tem! No Filho feito homem de dores, humilhado e derrotado, nós podemos compreender o quanto somos amados por Deus, o quanto ele nos leva a sério, o quanto é capaz de descer para nos procurar! Contemplemos a cruz e sejamos gratos a Deus que se entrega assim!

Finalmente, a cruz revela a estupenda, desconcertante, fidelidade de Deus: nela descobrimos o verdadeiro nome do nosso Deus. E o seu nome é fidelidade, o seu nome é amor. Primeiramente fidelidade e amor do Pai em relação ao Filho. Ao Filho amado que se entregou ao Pai por nós, Deus-Pai o ressuscitou e deu-lhe toda glória. É o que anuncia a primeira leitura de hoje: “O Deus de nossos Pais glorificou o seu servo Jesus. Vós matastes o Autor da Vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos!” Que mistério! O Filho, entregue ao Pai com toda a confiança e todo o abandono, o Filho, feito homem de dores, agora é glorificado pelo Pai e colocado no mais alto da glória. Deus jamais abandona os que a ele se confiam. Podemos imaginar o Senhor Jesus dizendo as palavras do Salmo de hoje: “Eu tranqüilo vou deitar-me e na paz logo adormeço, pois só vós, ó Senhor Deus, dais segurança à minha vida!” O nosso Salvador adormeceu no sono da morte certo que o Pai o despertaria para a vida da glória! Sim, o Pai é fidelidade, o Pai é amor! Mas, é também fidelidade e amor para conosco. Efetivamente, tudo quanto aconteceu com o Filho na cruz foi por nós, para nossa salvação, para que o nosso pecado, a nossa situação de miséria, encontrasse expiação. Eis como a Palavra de Deus deste hoje insiste nisso: “Se alguém pecar, temos junto do Pai um Defensor: Jesus Cristo, o Justo. Ele é a vítima de expiação pelos nossos pecados, e não só pelos nossos, mas também pelos do mundo inteiro”. E o próprio Jesus afirma no Evangelho que “no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações”. Na cruz e ressurreição do Senhor, Deus, amorosamente nos concedeu o perdão dos pecados!

Então, que temos de fazer para corresponder a tanto amor, a tão grande graça? Três coisas: primeira: crer em Jesus, o Enviado do Pai, que por nós morreu e ressuscitou: “Convertei-vos para que os vossos pecados sejam perdoados!” Quem crer em Jesus, quem diante dele reconhecer-se pecador e o acolher como o Salvador e nele colocar a vida, nele encontrará o perdão que vem pela cruz e a ressurreição. Segunda coisa: viver na Palavra do Senhor: “Para saber se o conhecemos, vejamos se guardamos os seus mandamentos. Naquele que guarda a sua palavra, o amor de Deus é plenamente realizado”. A fé, caríssimos, não é um sentimento nem uma teoria. Nossa fé em Jesus morto e ressuscitado deve levar a um compromisso sério e radical com o Senhor na nossa vida concreta. Quem não guarda os mandamentos, não crê! Quem não crê, fecha-se para a salvação! Terceira coisa: testemunhar Jesus morto e ressuscitado: “Vós matastes o Autor da vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos. Disso nós somos testemunhas!” E Jesus diz: “Vós sereis testemunhas de tudo isso!” Caros meus, nós não conhecemos Jesus de um modo teórico. Nós o experimentamos na força da sua Palavra e na graça dos seus sacramentos, sobretudo na participação na Eucaristia. Jesus, para nós, não é um fantasma! “Por que estais preocupados tendes dúvidas no coração? Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo!" Sim, meus caros, quantas vezes tocamos Jesus, sentimo-lo vivo, caminhando conosco! Tenhamos, então a coragem de nele crer, de nele viver e dele dar testemunho onde quer que estejamos e onde quer que vivamos. Jesus não é um fantasma! Jesus está vivo! Jesus é Senhor! E que a sua paz, a sua vitória e o seu perdão estejam sempre conosco.

dom Henrique Soares da Costa

 
 

Jesus ressuscitou verdadeiramente? Como é que podemos fazer uma experiência de encontro com Jesus ressuscitado? Como é que podemos mostrar ao mundo que Jesus está vivo e continua a oferecer aos homens a salvação? É, fundamentalmente, a estas questões que a liturgia do 3° domingo da Páscoa procura responder.

O Evangelho assegura-nos que Jesus está vivo e continua a ser o centro à volta do qual se constrói a comunidade dos discípulos. É precisamente nesse contexto eclesial - no encontro comunitário, no diálogo com os irmãos que partilham a mesma fé, na escuta comunitária da Palavra de Deus, no amor partilhado em gestos de fraternidade e de serviço - que os discípulos podem fazer a experiência do encontro com Jesus ressuscitado. Depois desse "encontro", os discípulos são convidados a dar testemunho de Jesus diante dos outros homens e mulheres.

A primeira leitura apresenta-nos, precisamente, o testemunho dos discípulos sobre Jesus. Depois de terem mostrado, em gestos concretos, que Jesus está vivo e continua a oferecer aos homens a salvação, Pedro e João convidam os seus interlocutores a acolherem a proposta de vida que Jesus lhes faz.

A segunda leitura lembra que o cristão, depois de encontrar Jesus e de aceitar a vida que Ele oferece, tem de viver de forma coerente com o compromisso que assumiu D Essa coerência deve manifestar-se no reconhecimento da debilidade e da fragilidade que fazem parte da realidade humana e num esforço de fidelidade aos mandamentos de Deus.

1ª leitura: At. 3,13-15.17-19 - AMBIENTE

A primeira leitura do 3° domingo da Páscoa situa-nos em Jerusalém, à entrada do templo. Pedro e João (esta "dupla" aparece, frequentemente associada na primeira parte do Livro dos Atos dos Apóstolos - cf. At. 4,7-8.13.19) tinham subido ao Templo para a oração da "hora nona" (três da tarde). Um homem, coxo de nascença, que estava à entrada do Templo a mendigar (junto da porta "chamada Formosa"), dirigiu-se aos dois apóstolos e pediu-lhes esmola. Pedro avisou-o de que não tinha "ouro nem prata" para lhe oferecer; mas, "em nome de Jesus Cristo Nazareno", curou-o. "Cheia de assombro e estupefata", a multidão reuniu-se "sob o chamado pórtico de Salomão" para ouvir da boca de Pedro a explicação para o estranho fato (cf. At. 3,1-11). O "assombro" e a "estupefação" traduzem o estado daqueles que testemunham a ação de Deus manifestada através dos apóstolos; é a mesma reação com que as multidões acolheram os gestos libertadores realizados por Jesus. A ação dos apóstolos aparece, assim, na continuidade da ação de Jesus. O nosso texto é parte do discurso que, segundo Lucas, Pedro teria feito à multidão (cf. At. 3,12-26).

Nas figuras de Pedro e João, Lucas apresenta-nos o testemunho da primitiva comunidade de Jerusalém, apostada em continuar a missão de Jesus e em apresentar aos homens o projeto salvador de Deus. Lucas está convencido de que esse testemunho se concretiza, não só através da pregação, mas também da ação dos discípulos. As palavras e os gestos das "testemunhas" de Jesus mostram como o mundo muda quando a salvação chega e como o homem escravo passa a ser um homem livre. O "testemunho" dos discípulos irá provocar, naturalmente, a oposição daqueles que, instalados nos velhos esquemas, recusam os desafios de Deus. Por isso os discípulos de Jesus, arautos desse mundo novo, irão conhecer a perseguição (cf. At. 4,1-22).

MENSAGEM

Pedro, dirigindo-se aos israelitas, dá-lhes a entender que o gesto libertador que beneficiou o homem coxo foi realizado em nome de Jesus. Ele mostra que o projeto de Jesus continua a realizar-se e demonstra que Jesus está vivo. Enquanto percorreu os caminhos da Palestina, Jesus manifestou, em gestos concretos, a presença da salvação de Deus entre os homens e essa salvação continua a derramar-se sobre os homens doentes e privados de vida e de liberdade, é porque Jesus continua presente, oferecendo aos homens a vida nova e definitiva. Os discípulos são os agentes através dos quais Jesus continua a sua obra libertadora e salvadora no mundo.

No seu "testemunho", Pedro começa por se referir aos dramáticos acontecimentos que culminaram na morte de Jesus, explicando-os como o resultado da rejeição da proposta salvadora de Deus por parte dos israelitas e Deus ofereceu-lhes a vida e eles escolheram a morte; preferiram preservar a vida de alguém que trouxe morte e condenar à morte alguém que oferecia a vida ("negastes o Santo e o Justo e pedistes a libertação de um assassino. Destes a morte ao Príncipe da vida” – vs. 14-15a). Deus, no entanto, ressuscitou Jesus, demonstrando como a proposta que Jesus veio apresentar é uma proposta geradora de vida. A ressurreição de Jesus é a prova de que o projeto de Deus - projeto apresentado por Jesus e que os israelitas rejeitaram - é uma proposta geradora de vida e de vida que a morte não pode vencer (v. 15b). Estará tudo terminado para Israel? O Povo não terá mais oportunidade de corrigir a sua má escolha e de fazer uma nova opção, uma opção pela vida? A oferta de Deus terá caducado, face à intransigência dos chefes de Israel em acolher os dons de Deus?

Não. Pedro "sabe" (e se Pedro "sabe" é porque Deus também o sabe) que o Povo agiu por ignorância. O comportamento do Povo, em geral, e dos líderes judaicos, em particular, face a Jesus tem, pois, atenuantes. Na legislação religiosa de Israel, as faltas "involuntárias" tinham um tratamento especial e mereciam um tratamento diferente das faltas "voluntárias" (cf. Lv. 4). Assim Deus, na sua imensa bondade, continua a oferecer ao seu Povo a possibilidade de corrigir as suas opções erradas e de escolher a vida, aderindo a Jesus e ao projeto por Ele apresentado. A prova disso é que o homem coxo recebeu de Deus o dom da vida.

O que é preciso fazer para que essa oferta de salvação que Deus continua a fazer se torne efetiva? É necessário "arrepender-se" e "converter-se". Estes dois verbos definem o movimento de reorientar a vida para Deus, de forma a que Deus passe a estar no centro da vida do homem e o homem passe a "dar ouvidos" às propostas de Deus e a viver de acordo com os projetos de Deus. Ora, uma vez que Cristo é a manifestação de Deus, "arrepender-se" e "converter-se" significa aderir à pessoa de Cristo, crer n'Ele, acolher o projeto que Ele traz, entrar no Reino que Ele anuncia e propõe. Os israelitas podem, portanto, "apanhar a carruagem" da salvação, se deixarem a sua auto-suficiência, os seus preconceitos, o seu comodismo (que os levaram a rejeitar as propostas de Deus) e se aderirem a Jesus e à vida que Ele continua a propor (através do testemunho dos discípulos).

ATUALIZAÇÃO

• Para os cristãos, Jesus não é uma figura do passado, que a morte venceu e que ficou sepultado no museu da história; mas é alguém que continua vivo, sempre presente nos caminhos do mundo, oferecendo aos homens uma proposta de vida verdadeira, plena, eterna. Como é que os nossos irmãos que caminham ao nosso lado podem descobrir que Jesus está vivo e fazer uma experiência de encontro com Cristo ressuscitado? Através de documentos históricos que demonstrem cientificamente a realidade da ressurreição? Para Lucas, o fator decisivo para que os homens descubram que Cristo está vivo é o testemunho dos discípulos. Jesus está vivo e apresenta-se aos homens do nosso tempo nos gestos de amor, de partilha, de solidariedade, de perdão, de acolhimento que os cristãos são capazes de fazer; Jesus está vivo e atua hoje no mundo, quando os cristãos se comprometem na luta pela paz, pela justiça, pela liberdade, pelo nascimento de um mundo mais humano, mais fraterno, mais solidário; Jesus está vivo e continua a realizar aqui e agora o projeto de salvação de Deus, quando os seus cristãos oferecem aos coxos a possibilidade de avançar em direção a um futuro de esperança, oferecem aos que vivem nas trevas a capacidade de encontrar a luz e a verdade, oferecem aos prisioneiros a possibilidade de ter voz e de decidir livremente o seu futuro. Os meus gestos anunciam aos irmãos com quem me cruzo nos caminhos deste mundo que Cristo está vivo?

• A existência humana é uma busca incessante de vida - de vida eterna, plena, verdadeira. Essa busca, contudo, nem sempre se desenrola em caminhos fáceis e lineares. Por vezes é cumprida num caminho onde o homem tropeça com equívocos, com falhas, com opções erradas. Aquilo que parece ser garantia de vida gera morte; e aquilo que parece ser fracasso e frustração é, afinal, o verdadeiro caminho para a vida. Lucas garante-nos, neste texto, que a proposta que Jesus veio apresentar é uma proposta geradora de vida, apesar de passar pelo aparente fracasso da cruz. É de vida vivida na doação, na entrega, no amor total a Deus e aos irmãos, a exemplo de Jesus, que brota a vida eterna e verdadeira para nós e para aqueles que caminham ao nosso lado.

• O apelo ao arrependimento e à conversão que aparece no discurso de Pedro lembra-nos essa necessidade contínua de reequacionarmos as nossas opções, de deixarmos os caminhos de egoísmo, de orgulho, de comodismo, de auto-suficiência em que, por vezes, se desenrola a nossa existência. É preciso que, em cada instante da nossa vida, nos convertamos a Jesus e aos seus valores, numa disponibilidade total para acolhermos os desafios de Deus e a sua proposta de salvação.

2ª leitura: 1Jo 2,1-5ª - AMBIENTE

A liturgia do terceiro Domingo da Páscoa continua a propor à nossa consideração a primeira Carta de João.

Já vimos no passado domingo que este escrito de tom polêmico - destinado provavelmente às comunidades cristãs da parte ocidental da Ásia Menor - procura combater doutrinas heréticas pré-gnósticas e apresentar aos cristãos o caminho da autêntica vida cristã.

Os adeptos das heresias em causa pretendiam "conhecer Deus" (1Jo 2,4), "ver Deus" (1Jo 3,6), viver em comunhão com Deus (1Jo 2,3) e, não obstante, apresentavam uma doutrina e uma conduta em flagrante contradição com a revelação cristã. Recusavam-se a ver em Jesus o Messias (cf. 1Jo 2,22), o Filho de Deus (cf. 1Jo 4,15) e recusavam a encarnação (cf. 1Jo 4,2). Para estes hereges, o Cristo celeste tinha-se apropriado do homem Jesus de Nazaré na altura do batismo (cf. Jo 1,32-33), tinha-O utilizado para levar a cabo a revelação e tinha-O abandonado antes da paixão, porque o Cristo celeste não podia padecer. As doutrinas destes hereges punham em causa a teologia da encarnação e a cristologia cristã.

O comportamento moral destes hereges não era menos repreensível: pretendiam não ter pecados (cf. 1Jo 1,8.10) e não guardavam os mandamentos (cf. 1Jo 2,4), em particular o mandamento do amor fraterno (cf. 1Jo 2,9).

São estas pretensões que o texto que hoje nos é proposto denuncia. Quem diz que não comete pecados, é mentiroso; e, ao mesmo tempo, faz Deus mentiroso. Que necessidade teria Deus de enviar ao mundo o seu Filho com uma proposta de salvação, se o pecado não fosse uma realidade universal (cf. 1Jo 1,8-10)?

MENSAGEM

Na primeira parte do nosso texto (vs. 1-2), o autor critica veladamente esses hereges que consideravam não ter pecados e sugere aos cristãos a atitude correta que Deus espera de cada crente, a propósito desta questão.

O cristão é chamado à santidade e a viver uma vida de renúncia ao pecado. Deus chama-o a rejeitar o egoísmo, a auto-suficiência, a injustiça, a opressão (trevas) e a escolher a luz. No entanto, o pecado é uma realidade incontornável, que resulta da fragilidade e da debilidade do homem. O cristão deve ter consciência desta realidade e reconhecer o seu pecado. Não fazer isto é fechar-se na auto-suficiência, é recusar a salvação que Deus oferece (quem sente que não tem pecado, também não sente a necessidade de ser salvo) e é, portanto, "pecar".

O cristão é aquele que reconhece a sua fragilidade, mas não desespera. Ele sabe que Deus lhe oferece a sua salvação e que Jesus Cristo é o "advogado" (literalmente, "parakletos", que podemos traduzir por "defensor") que o defende. Ele veio ao mundo para eliminar o pecado - o pecado de todos os homens.

Na segunda parte do nosso texto (vs. 3-5a), o autor da carta refere-se à pretensão dos hereges de conhecer a Deus, mas sem se preocuparem em guardar os seus mandamentos. Na linguagem bíblica, "conhecer Deus" não é ter de Deus um conhecimento teórico e abstrato, mas é viver em comunhão íntima com Deus, numa relação pessoal de proximidade, de familiaridade, de amor sem limites. Ora, quem disser que mantém uma relação de proximidade e de comunhão pessoal com Deus, mas não quer saber das suas propostas e indicações para nada, está a mentir. Não se pode amar e não considerar as propostas da pessoa que se ama. O "conhecer Deus" exige atitudes concretas que passam pelo escutar, acolher e viver as propostas de salvação que Deus faz, através de Jesus.

ATUALIZAÇÃO

• A questão fundamental que o nosso texto põe é a da coerência de vida. O cristão é uma pessoa que aceitou o convite de Deus para escolher a luz e que tem de viver, dia a dia, de forma coerente com o compromisso que assumiu Não pode comprometer-se com Deus e conduzir a sua vida por caminhos de orgulho, de auto-suficiência, de indiferença face a Deus e às suas propostas. A vida do crente não pode ser uma vida de "meias-tintas", de comodismo, de opções volúveis, de oportunismos, mas tem de ser uma vida conseqüente, comprometida, exigente. Na minha vida procuro viver, com coerência e honestidade, os meus compromissos com Deus e com os meus irmãos, ou deixo-me levar ao sabor da corrente, das situações, das oportunidades?

• Essa coerência de vida deve manifestar-se no reconhecimento da debilidade e da fragilidade que fazem parte da realidade humana. O pecado não é algo "normal", para o crente (o pecado é sempre um "não" a Deus e às suas propostas e isso deve ser visto pelos crentes como uma "anormalidade"); mas é uma realidade que o crente reconhece e que sabe que está sempre presente ao longo da sua caminhada pelo mundo. Hoje, fala-se muito da falta de consciência do pecado e falta de consciência do pecado cria homens insensíveis, orgulhosos e auto-suficientes, que acreditam não precisar de Deus e da sua oferta de salvação. O autor da Carta de João convida-nos a tomar consciência da nossa realidade de pecadores, a acolher a salvação que Deus nos oferece, a confiar em Jesus, o "advogado" que nos entende (porque veio ao nosso encontro, partilhou a nossa natureza, experimentou a nossa fragilidade) e que nos defende. Reconhecer a nossa realidade pecadora não pode levar-nos ao desespero; tem de levar-nos a abrir o coração aos dons de Deus, a acolher humildemente a sua salvação e a caminhar com esperança ao encontro do Deus da bondade e da misericórdia que nos ama e que nos oferece, sem condições, a vida eterna.

• A coerência que o autor da primeira Carta de João nos pede deve manifestar-se, também, na identificação entre a fé e a vida. A nossa religião não é uma bela teoria, separável da nossa vida concreta. É uma mentira dizer que se ama Deus e, na vida concreta, desprezar as suas propostas e conduzir a vida de acordo com valores que contradizem de forma absoluta a lógica de Deus. Um crente que diz amar Deus e, no dia a dia, cria à sua volta injustiça, conflito, opressão, sofrimento, vive na mentira; um crente que diz "conhecer Deus" e fomenta uma lógica de guerra, de ódio, de intransigência, de intolerância, está bem distante de Deus; um crente que diz ter "a sua fé" e recusa o amor, a partilha, o serviço, a comunidade, está muito longe dos caminhos onde se revela a vida e a salvação de Deus. A minha vida concreta, as minhas atitudes para com os irmãos que me rodeiam, os sentimentos que enchem o meu coração, os valores que condicionam as minhas ações, são coerentes com a minha fé?

Evangelho: Lc. 24,35-48 - AMBIENTE

O episódio que Lucas nos relata no Evangelho deste domingo situa-nos em Jerusalém, pouco depois da ressurreição. Os onze discípulos estão reunidos e já conhecem uma aparição de Jesus a Pedro (cf. Lc. 24,34), bem como o relato do encontro de Jesus ressuscitado com os discípulos de Emaús (cf. Lc. 24,35).

Apesar de tudo, o ambiente é de medo, de perturbação e de dúvida. A comunidade, cercada por um ambiente hostil, sente-se desamparada e insegura. O medo e a insegurança vêm do fato de os discípulos não terem, ainda, feito a experiência de encontro com Cristo ressuscitado.

Nesta última secção do seu Evangelho, Lucas procura mostrar como os discípulos descobrem, progressivamente, Jesus vivo e ressuscitado. Ao evangelista não interessa tanto fazer uma descrição jornalística e fotográfica das aparições de Jesus aos discípulos; interessa-lhe, sobretudo, afirmar aos cristãos de todas as épocas que Cristo continua vivo e presente, acompanhando a sua Igreja, e que os discípulos, reunidos em comunidade, podem fazer uma experiência de encontro verdadeiro com Jesus ressuscitado.

Para a sua catequese, Lucas vai utilizar diversas imagens que não devem ser tomadas à letra nem absolutizadas. Elas são, apenas, o invólucro que apresenta a mensagem. O que devemos procurar, neste texto, é algo que está para além dos pormenores, por muito reais que eles pareçam: é a catequese da comunidade cristã sobre a sua experiência de encontro com Jesus vivo e ressuscitado.

MENSAGEM

A ressurreição de Jesus terá sido uma simples invenção da Igreja primitiva, ou um piedoso desejo dos discípulos, esperançados em que a maravilhosa aventura que viveram com Jesus não terminasse no fracasso da cruz e num túmulo escavado numa rocha em Jerusalém?

É, fundamentalmente, a esta questão que Lucas procura responder. Na sua catequese, Lucas procura deixar claro que a ressurreição de Jesus foi um fato real, incontornável que, contudo, os discípulos descobriram e experimentaram só após um caminho longo, difícil, penoso, carregado de dúvidas e de incertezas.

Todos os relatos das aparições de Jesus ressuscitado falam das dificuldades que os discípulos sentiram em acreditar e em reconhecer Jesus ressuscitado (cf. Mt. 28,17; Mc. 16,11.14; Lc. 24,11.13-32.37-38.41; Jo 20,11-18.24-29; 21,1-8). Essa dificuldade deve ser histórica e significa que a ressurreição de Jesus não foi um acontecimento cientificamente comprovado, material, captável pela objetiva dos fotógrafos ou pelas câmaras da televisão. Nos relatos das aparições de Cristo ressuscitado, os discípulos nunca são apresentados como um grupo crédulo, idealista e ingênuo, prontos a aceitar qualquer ilusão; mas são apresentados como um grupo desconfiado, crítico, exigente, que só acabou por reconhecer Jesus vivo e ressuscitado depois de um caminho mais ou menos longo, mais ou menos difícil.

O caminho da fé não é o caminho das evidências materiais, das provas palpáveis, das demonstrações científicas; mas é um caminho que se percorre com o coração aberto à revelação de Deus, pronto para acolher a experiência de Deus e da vida nova que Ele quer oferecer. Foi esse o caminho que os discípulos percorreram. No final desse caminho (que, como caminho pessoal, para uns demorou mais e para outros demorou menos), eles experimentaram, sem margem para dúvidas, que Jesus estava vivo, que caminhava com eles pelos caminhos da história e que continuava a oferecer-lhes a vida de Deus. Eles começaram a percorrer esse caminho com dúvidas e incertezas; mas fizeram a experiência de encontro com Cristo vivo e chegaram à certeza da ressurreição. É essa certeza que os relatos da ressurreição, na sua linguagem muito própria, procuram transmitir-nos.

Na catequese de Lucas há elementos que importa pôr em relevo:

1. ao longo da sua caminhada de fé, os discípulos descobriram a presença de Jesus, vivo e ressuscitado, no meio da sua comunidade. Perceberam que Ele continua a ser o centro à volta do qual a comunidade se constrói e se articula. Entenderam que Jesus derrama sobre a sua comunidade em marcha pela história a paz (o "shalom" hebraico, no sentido de harmonia, serenidade, tranqüilidade, confiança, vida plena - verso 36).

2. Esse Jesus, vivo e ressuscitado, é o filho de Deus que, após caminhar com os homens, reentrou no mundo de Deus. O "espanto" e o "medo" com que os discípulos acolhem Jesus são, no contexto bíblico, a reação normal e habitual do homem diante da divindade (v. 37). Jesus não é um homem reanimado para a vida que levava antes, mas o Deus que reentrou definitivamente na esfera divina.

3. As dúvidas dos discípulos dão conta dessa dificuldade que eles sentiram em percorrer o caminho da fé, até ao encontro pessoal com o Senhor ressuscitado. A ressurreição não foi, para os discípulos, um fato imediatamente evidente, mas uma caminhada de amadurecimento da própria fé, até chegar à experiência do Senhor ressuscitado (v. 38).

4. Na catequese/descrição de Lucas, certos elementos mais "sensíveis" e materiais (a insistência no "tocar" em Jesus para ver que Ele não era um fantasma – vs. 39-40; a indicação de que Jesus teria comido "uma posta de peixe assado" – vs. 41-43) são, antes de mais, uma forma de ensinar que a experiência de encontro dos discípulos com Jesus ressuscitado não foi uma ilusão ou um produto da imaginação, mas uma experiência muito forte e marcante, quase palpável. São, ainda, uma forma de dizer que esse Jesus que os discípulos encontraram, embora diferente e irreconhecível, é o mesmo que tinha andado com eles pelos caminhos da Palestina, anunciando-lhes e propondo-lhes a salvação de Deus. Finalmente, Lucas ensina também, com estes elementos, que Jesus ressuscitado não está ausente e distante, definitivamente longe do mundo em que os discípulos têm de continuar a caminhar; mas Ele continua, pelo tempo fora, a sentar-Se à mesa com os discípulos, a estabelecer laços de familiaridade e de comunhão com eles, a partilhar os seus sonhos, as suas lutas, as suas esperanças, as suas dificuldades, os seus sofrimentos.

5. Jesus ressuscitado desvela aos discípulos o sentido profundo das Escrituras. A Escritura não só encontra em Jesus o seu cumprimento, mas também o seu intérprete. A comunidade de Jesus que caminha pela vida deve, continuamente, reunir-se à volta de Jesus ressuscitado para escutar a Palavra que alimenta e que dá sentido à sua caminhada histórica (vs. 44-46).

6. Os discípulos, alimentados por essa Palavra, recebem de Jesus a missão de dar testemunho diante de "todas as nações, começando por Jerusalém". O anúncio dos discípulos terá como tema central a morte e ressurreição de Jesus, o libertador anunciado por Deus desde sempre. A finalidade da missão da Igreja de Jesus (os discípulos) é pregar o arrependimento e o perdão dos pecados a todos os homens e mulheres, propondo-lhes a opção pela vida nova de Deus, pela salvação, pela vida eterna (vs. 47-48).

Lucas apresenta aqui uma breve síntese da missão da Igreja, tema que ele desenvolverá amplamente no livro dos Atos dos Apóstolos.

ATUALIZAÇÃO

• Jesus ressuscitou verdadeiramente, ou a ressurreição é fruto da imaginação dos discípulos? Como é possível ter a certeza da ressurreição? Como encontrar Jesus ressuscitado? É a estas e a outras questões semelhantes que o Evangelho deste domingo procura responder. Com a sua catequese, Lucas diz-nos que nós, como os primeiros discípulos, temos de percorrer o nem sempre claro caminho da fé, até chegarmos à certeza da ressurreição. Não se chega lá através de deduções lógicas ou através de construções de caráter intelectual; mas chega-se ao encontro com o Senhor ressuscitado inserindo-nos nesse contexto em que Jesus Se revela - no encontro comunitário, no diálogo com os irmãos que partilham a mesma fé, na escuta comunitária da Palavra de Deus, no amor partilhado em gestos de fraternidade e de serviço. É nesse "caminho" que vamos encontrando Cristo vivo, atuante, presente na nossa vida e na vida do mundo.

• É que Cristo continua presente no meio da sua comunidade em marcha pela história. Quando a comunidade se reúne para escutar a Palavra, Ele está presente e explica aos seus discípulos o sentido das Escrituras. Não sentimos, tantas vezes, a presença de Cristo a indicar-nos caminhos de vida nova e a encher o nosso coração de esperança quando lemos e meditamos a Palavra de Deus? Não sentimos o coração cheio de paz - a paz que Jesus ressuscitado oferece aos seus - quando escutamos e acolhemos as propostas de Deus, quando procuramos conduzir a nossa vida de acordo com o plano de Deus?

• Jesus ressuscitado reentrou no mundo de Deus; mas não desapareceu da nossa vida e não se alheou da vida da sua comunidade. Através da imagem do "comer em conjunto" (que, para o Povo bíblico, significa estabelecer laços estreitos, laços de comunhão, de familiaridade, de fraternidade), Lucas garante-nos que o Ressuscitado continua a "sentar-se à mesa" com os seus discípulos, a estabelecer laços com eles, a partilhar as suas inquietações, anseios, dificuldades e esperanças, sempre solidário com a sua comunidade. Podemos descobrir este Jesus ressuscitado que se senta à mesa com os homens sempre que a comunidade se reúne à mesa da Eucaristia, para partilhar esse pão que Jesus deixou e que nos faz tomar consciência da nossa comunhão com Ele e com os irmãos.

• Jesus lembra aos discípulos: "vós sois as testemunhas de todas estas coisas". Isto significa, apenas, que os cristãos devem ir contar a todos os homens, com lindas palavras, com raciocínios lógicos e inatacáveis que Jesus ressuscitou e está vivo? O testemunho que Cristo nos pede passa, mais do que pelas palavras, pelos nossos gestos. Jesus vem, hoje, ao encontro dos homens e oferece-lhes a salvação através dos nossos gestos de acolhimento, de partilha, de serviço, de amor sem limites. São esses gestos que testemunham, diante dos nossos irmãos, que Cristo está vivo e que Ele continua a sua obra de libertação dos homens e do mundo.

• Na catequese que Lucas apresenta, Jesus ressuscitado confia aos discípulos a missão de anunciar "em seu nome o arrependimento e o perdão dos pecados a todos os povos, começando por Jerusalém". Continuando a obra de Jesus, a missão dos discípulos é eliminar da vida dos homens tudo aquilo que é "o pecado" (o egoísmo, o orgulho, o ódio, a violência e propor aos homens uma dinâmica de vida nova.

P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho

 
 

O dia do Senhor

I. “No dia chamado do sol, reúnem-se num mesmo lugar todos os que moram nas cidades ou nos campos [...]. E reunimo-nos todos no dia do Sol porque é o primeiro da semana, aquele em que Deus criou o mundo, e porque nesse mesmo dia Jesus Cristo nosso Salvador ressuscitou dos mortos” (1). O sábado judeu deu lugar ao domingo cristão desde os começos da Igreja. A partir de então, comemoramos em cada domingo a Ressurreição de Cristo.

No Antigo Testamento, o sábado era o dia dedicado a Javé. Foi o próprio Deus que o instituiu (2), ordenando que nesse dia o povo israelita se abstivesse de certos trabalhos, para dedicar-se a honrá-lo (3). Era também o dia em que se congregava a família e em que se celebrava o fim do cativeiro no Egito. Com o decorrer do tempo, os rabinos complicaram o preceito divino, e no tempo de Jesus estavam em vigor inúmeras prescrições minuciosas e aflitivas que nada tinham que ver com o que o Senhor havia ordenado.

Os fariseus implicaram freqüentemente com Jesus por essas questões. Mas o Senhor não desprezou o sábado nem o suprimiu como dia dedicado a Javé; pelo contrário, parecia ser esse o seu dia predileto: é nesse dia que vai pregar às sinagogas, e muitos dos seus milagres foram feitos num sábado.

A Sagrada Escritura, em numerosas passagens, tinha formulado um conceito alto e nobre do sábado. Era o dia estabelecido por Deus para que o seu povo lhe prestasse culto público, e a dedicação integral da jornada ao Senhor configurava-se como uma obrigação grave4. Houve ocasiões em que os profetas denunciaram a violação do sábado como causa dos castigos de Deus sobre o seu povo.

De natureza estritamente religiosa, o descanso sabático manifestava-se e culminava na oblação de um sacrifício5. Como as demais festas de Israel, que estavam todas ligadas a um acontecimento salvífico, era sinal da aliança divina e um modo de o povo escolhido expressar o júbilo de saber-se propriedade do Senhor e objeto da sua eleição e do seu amor.

Com a Ressurreição de Jesus Cristo, o sábado dá lugar à realidade que prenunciava: a festa cristã. O próprio Jesus fala do Reino de Deus como uma grande festa oferecida por um rei para celebrar as bodas do seu filho6. Com Cristo surge um culto novo e superior, porque temos também um novo Sacerdote e se oferece uma nova Vítima.

II. Depois da ressurreição, os Apóstolos passaram a considerar o primeiro dia da semana como o dia do Senhor, dominica dies (7), porquanto foi nesse dia que Ele nos alcançou com a sua Ressurreição a vitória sobre o pecado e a morte. E esta tem sido a tradição constante e universal da Igreja, desde o tempo dos primeiros cristãos até os nossos dias. “Por uma tradição apostólica que tem a sua origem no próprio dia da Ressurreição de Cristo, a Igreja celebra cada oito dias o mistério pascal, no dia que é muito justamente chamado o dia do Senhor ou domingo” (8).

Além do domingo, a Igreja estabeleceu as festas que comemoram os principais acontecimentos da nossa salvação: o Natal, a Páscoa, a Ascensão, o Pentecostes, outras festas do Senhor, bem como as festas de Nossa Senhora. E desde o princípio os cristãos celebraram também o dies natalis ou aniversário do martírio dos primeiros cristãos. As festas cristãs chegaram até a ordenar o próprio calendário civil. Com essa sucessão de festas, a Igreja “relembra os mistérios da Redenção, franqueia aos fiéis as riquezas do poder santificador e dos méritos do seu Senhor, de tal sorte que, de alguma forma, os torna presentes em todos os tempos, para que os fiéis entrem em contacto com eles e sejam repletos da graça da salvação” (9).

O centro e a origem da alegria da festa cristã encontra-se na presença do Senhor na sua Igreja, que é o penhor e a antecipação de uma união definitiva na festa que não terá fim (10). Daí a alegria que inunda a celebração dominical, como se percebe na oração sobre as oferendas da Missa de hoje: “Recebei, Senhor, as oferendas da vossa Igreja exultante de júbilo; e já que com a ressurreição do vosso Filho nos destes motivo para tanta alegria, concedei-nos que possamos participar desse gozo eterno”. Por isso, as nossas festas não são uma mera recordação de fatos passados, como pode ser a data de um acontecimento histórico, mas um sinal que nos manifesta Cristo e o torna presente entre nós.

A Santa Missa torna Jesus presente na sua Igreja e é o Sacrifício de valor infinito que se oferece a Deus Pai no Espírito Santo. Todos os outros valores humanos, culturais e sociais da festa devem ocupar um lugar secundário, cada um na sua ordem, de modo a não obscurecerem ou substituírem em momento algum o que deve ser fundamental. A par da Santa Missa, têm também um lugar importante as manifestações de piedade litúrgica e popular, como o culto eucarístico, as procissões, o canto, etc.

Temos de procurar, mediante o exemplo e o apostolado, que o domingo seja “o dia do Senhor, o dia da adoração e da glorificação de Deus, do santo Sacrifício, da oração, do descanso, do recolhimento, do alegre convívio na intimidade da família” (11).

III. Aclamai a Deus, toda a terra, cantai a glória do seu nome, rendei-lhe glorioso louvor, lemos na antífona de entrada (12).

O preceito de santificar as festas corresponde também à necessidade de prestar culto público a Deus, e não somente de modo privado. Alguns pretendem relegar o trato com Deus ao âmbito da consciência, como se não houvesse necessidade de manifestações externas. Mas o homem tem o direito e o dever de prestar culto externo e público a Deus, e seria uma gravíssima injustiça que os cristãos se vissem obrigados a ocultar-se para poderem praticar a sua fé e prestar culto a Deus, que é o seu primeiro direito e o seu primeiro dever.

O domingo e as festas determinadas pela Igreja são, antes de mais nada, dias para Deus e dias especialmente propícios para procurá-lo e encontrá-lo. “Quaerite Dominum. Nunca podemos deixar de procurá-lo. Mas há períodos que exigem que o façamos com mais intensidade, porque neles o Senhor está especialmente perto, e por conseguinte é mais fácil achá-lo e encontrar-se com Ele. Esta proximidade constitui a resposta do Senhor à invocação da Igreja, que se expressa continuamente através da liturgia. Mais ainda, é precisamente a liturgia que atualiza a proximidade do Senhor” (13).

As festas têm uma grande importância para ajudar os cristãos a receber melhor a ação da graça. Nesses dias, exige-se também que o fiel suspenda o seu trabalho para poder dedicar-se com maior liberdade ao Senhor. Mas, assim como não há festa sem celebração, pois não basta deixar de trabalhar para já se ter uma festa, assim também não há festa cristã se os fiéis não se reúnem para dar graças ao Senhor, louvá-lo, recordar as suas obras, etc. Por isso, seria sinal de pouco sentido cristão programar os domingos, as festas, os fins de semana... de maneira que se tornasse impossível ou muito difícil esse trato com Deus. Por esse caminho, alguns cristãos tíbios acabam por pensar que não têm tempo para assistir à santa missa, ou fazem-no de maneira precipitada, como quem se livra de uma obrigação tediosa.

O descanso não é apenas uma ocasião de repor as forças; é também sinal e antecipação do repouso definitivo na festa do Céu. Esta é a razão pela qual a Igreja quer que a celebração das suas festas inclua a suspensão do trabalho, algo a que, por outro lado, os fiéis cristãos têm direito como cidadãos iguais aos outros.

O descanso festivo não deve ser interpretado nem vivido como um simples não fazer nada – uma perda de tempo –, mas como um ocupar-se positivamente e um enriquecer-se pessoalmente em outras tarefas. Há muitas maneiras de descansar, e não convém ficar na mais fácil, que muitas vezes não é a que mais descansa. Se soubermos limitar, por exemplo, o uso da televisão, não repetiremos tanto a falsa desculpa de que “não temos tempo”. Pelo contrário, veremos que nesses dias podemos conviver mais com a família, cuidar melhor da educação dos filhos, cultivar o relacionamento social e as amizades, fazer uma visita a pessoas necessitadas ou que estão sozinhas ou doentes, etc. É talvez a ocasião que andávamos procurando de poder conversar com mais calma com um amigo; ou o momento em que o pai ou a mãe podem falar a sós com o filho que mais necessita disso e escutá-lo. Em geral, é necessário “ter o dia todo preenchido com um horário elástico onde não faltem como tempo principal – além das normas diárias de piedade – o devido descanso, a reunião familiar, a leitura, os momentos dedicados a um gosto artístico, à literatura ou a outra distração nobre, enchendo as horas com uma atividade útil, fazendo as coisas o melhor possível, vivendo os pormenores de ordem, de pontualidade, de bom-humor” (14).

Francisco Fernández-Carvajal

(1) São Justino, Apologia 1, 67; Segunda leitura da Liturgia das Horas do terceiro domingo do Tempo Pascal;

(2) Gn. 2,3;

(3) Ex. 20,8-11; 21,13; Dt. 5,14;

(4) cf. Ex. 31,14-15;

(5) cf. Nm. 28,49-28,9-10;

(6) cf. Mt. 22,2-13;

(7) Ap. 1,10;

(8) Conc. Vat. II, Const. Sacrossanctum Concilium, 106;

(9) ib., 102;

(10) cf. Ap. 21,1 e segs.; 2Cor. 1,22;

(11) Pio XII, Aloc., 7-IX-1947;

(12) Sl. 65,1-2;

(13) João Paulo II, Homilia, 20-III-1980;

(14) Josemaría Escrivá, Questões atuais do cristinianismo, n. 111.

 

 

Uma nova esperança

Celebramos hoje o terceiro domingo da Páscoa. Acabamos de ler e ouvir o texto do Evangelho de Lucas onde nos é proposto refletir para levar a nossa vida quotidiana uma nova aparição de Jesus. Ele se aparece aos discípulos que estão escutando a narrativa sobre o que aconteceu no caminho de Emaús e como foi reconhecido ao partir o pão.

Nesse ambiente especial aparece-se Jesus no meio deles e oferece-lhes a paz como foi oferecida na aparição que meditamos a semana passada, quando os discípulos estavam com as portas trancadas “por medo aos judeus” (Jo 20, 19).

Jesus partilha com eles essa mesma paz que tinha prometido (Jo 14,27) e que ele manteve ao longo de sua vida especialmente nos momentos mais duros de sua paixão e morte na cruz. Mas os discípulos continuam “espantados e cheios de medo” e o “confundem com um espírito”.

Lembremos que na época que foi escrito o Evangelho existiam grupos que tentavam negar a encarnação de Jesus dizendo que seu corpo era só aparente (docetismo). Na semana passada vimos a necessidade de Tomé de tocar ver os sinais dos cravos, de por sua mão no lado para acreditar (cf. Jo 25).

O padre Raymond Gravel  num comentário a este texto bíblico explica porque o Cristo Ressuscitado não é o cadáver de Jesus de Nazaré que foi reanimado. Ele disse: “É o Crucificado transformado pela Páscoa: ‘Vejam minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo. Toquem-me e vejam: um espírito não tem carne e ossos, como vocês podem ver que eu tenho.” (Lc. 24,39).

E continua dizendo “Para dizer que ele é o mesmo sendo completamente diferente daquele que eles conheceram nos caminhos da Galileia, após lhes ter pedido algo para comer (Lc. 24,41), o Ressuscitado: “Jesus pegou o peixe, e o comeu diante deles” (Lc. 24,43), não com eles, mas diante deles, para significar, segundo o teólogo Gérard Sindt, que “comer se torna aqui uma prova da verdade de um ser em relação que abole as distâncias mantendo-as por sua vez” (Páscoa: um novo dia que dura ainda)

Jesús está presente em meio da comunidade. Sua presença é o fruto de uma experiência pessoal que permite vê-lo e reconhece-lo.

Neste texto Jesus come com eles e se relaciona com eles, mas de uma forma diferente como foi quando andavam juntos pregando o Reino para todos/as os/as desfavorecidos nos caminhos da Galileia ou quando estavam em Jerusalém. Mas a pesar disso os discípulos ainda tem dúvidas no seu interior.

Por que Jesus Ressuscitado insiste em mostrar as marcas de sua paixão?

É necessário um entendimento mais diferente e Jesus lhes explica o que falou quando ainda estava com eles e mostra assim como “é preciso que se cumpra tudo o que está escrito a meu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”.

A experiência com Jesus ressuscitado é um raio que ilumina todas as Escrituras. Dá um novo sabor a textos antigos. Este entendimento ajuda a comunidade reunida a realização de uma esperança popular acumulada ao longo de vários séculos.

Assim os seguidores de Jesus compreendem a Cruz como um sinal de vida, não de morte; é um sinal da Vida que vence a morte. Como disse José Antonio Pagola no seu comentário Olhar com fé para o Crucificado “Quando os cristãos olham o Crucificado, não exaltam a dor, a tortura e a morte, mas o amor, a proximidade e a solidariedade de Deus que quis partilhar a nossa vida e a nossa morte até ao extremo”.

E ele continua “ser fiel ao Crucificado não é procurar cruzes e sofrimentos, mas viver como Ele numa atitude de entrega e solidariedade, aceitando se necessário a crucificação e os males que nos podem ocorrer como consequência. Esta fidelidade ao Crucificado não é de dor, mas de esperança. A uma vida “crucificada”, vivida com o mesmo espírito de amor com que viveu Jesus, só lhe espera a ressurreição”.

A ressurreição de Jesus de Nazaré, o Crucificado, abre a esperança para a humanidade inteira. Não existe situação humana, por mais cruel que seja, na qual Deus não esteja presente e operando no silêncio de esse sepulcro sua libertação, gerando vida nova.

“Os cristãos, diz S. Paulo, seguem a Cristo e Cristo Crucificado, loucura e escândalo. Seguir a Cristo Crucificado implica necessariamente sensibilidade para com os crucificados. É, portanto, impossível viver uma espiritualidade fecunda sem abertura aos pobres e sofredores. Pode variar o tipo de sofrimento e o modo ele é enfrentado. Não pode, todavia, carecer de solidariedade (cf. Revista IHU OnLine nº 366 - A delicada ligação entre opção religiosa e ascensão socioeconômica”)

O evangelho de hoje conclui com uma afirmação de Jesus: "E vocês são testemunhas disso." Confia a seus seguidores comunicar com suas vidas e palavras que Jesus de Nazaré morto numa cruz, foi por Deus ressuscitado, rompendo as ataduras da morte! (cf. At,2,24).

A experiência da ressurreição leva implícita em seu seio uma força expansiva, comunicadora. Quem experimentou o Ressuscitado, vive a liberdade dos filhos, filhas de Deus, e é impulsionado/a segui-lo pelo mesmo caminho que ele percorreu, o caminho da cruz.

O Papa Francisco nos pede ser cristãos que não ficam quietos nas adversidades: “Não se pode conceber um cristão quieto – afirmou Bergoglio -, um cristão que permanece quieto está doente em sua identidade cristã, tem alguma enfermidade nessa identidade. O cristão é discípulo para caminhar, para andar”. Esta é a primeira atitude do cristão: “caminhar, e caminhar apesar das dificuldades. Ir além das dificuldades”. ("Que os cristãos sejam cordeiros, não lobos. Cordeiros mas não tontos" prega Francisco).

 

Poema da Paz

O maior obstáculo: o medo

O maior erro: o abandono

A raiz de todos os males: o egoísmo

A distração mais bela: o trabalho

A pior derrota: o desânimo

Os melhores professores: as crianças

A primeira necessidade: comunicar-se

O que traz felicidade: ser útil aos demais

O pior defeito: o mau humor

A pessoa mais perigosa: a mentirosa

O pior sentimento: o rancor

O presente mais belo: o perdão

o mais imprescindível: o lar

A rota mais rápida: o caminho certo

A sensação mais agradável: a paz interior

A maior proteção efetiva: o sorriso

O maior remédio: o otimismo

A maior satisfação: o dever cumprido

A força mais potente do mundo: a fé

As pessoas mais necessárias: os pais

A mais bela de todas as coisas: o Amor! (madre Tereza de Calcutá)

 

Referências

CORALINA, Cora. Vintém de cobre; meias confissões de Aninha. Goiânia: Ed. da Universidade Federal de Goiás, 1985.

KONINGS, Johan. Espírito e mensagem da liturgia dominical. Porto Alegre: Escola Superior de Teologia, 1981.

RUBIO,  Andrés. O Encontro com Jesus Cristo Vivo. São Paulo: Paulinas, 2003.

SICRE, José Luis. O Quadrante. São Paulo, Paulinas, 1999.

SOBRINO, Jon. El Resucitado es el Crucificado

 

 

Nesse ano do ciclo B da liturgia, passamos de Marcos a João e de João a Lucas para mostrar toda a riqueza das manifestações do Cristo Ressuscitado aos discípulos da primeira hora. Depois da sua presença física perto dos seus, Jesus agora não está mais presente segundo a carne, mas segundo o Espírito. E a experiência do primeiro dia da Páscoa ainda dura, porque esse dia não termina: trata-se da experiência do testemunho: “E vocês são testemunhas disso” (Lc. 24,48). Que mensagens podemos tirar das leituras bíblicas de hoje? 

Páscoa – um novo dia que dura ainda

No evangelho de Lucas, o dia de Páscoa é o dia mais longo do ano... é um dia que não termina. De manhã bem cedo, umas mulheres vão ao cemitério para visitar um morto e recebem uma mensagem dizendo que ele está vivo e elas recebem como missão anunciá-lo aos discípulos (Lc. 24,1-10). Os discípulos não acreditam nelas; eles dizem que as mulheres deliram (Lc. 24,11). Chegada a noite, dois discípulos caminham até Emaús, a duas horas a pé de Jerusalém, e no caminho eles encontram um estrangeiro que lhes acalenta o coração com a sua Palavra. Os dois discípulos convidam o estrangeiro para ir a sua casa, pois está tarde e eles reconhecem o Ressuscitado nesse estrangeiro, quando ele parte o pão e o divide com eles (Lc 24,13-32). Logo, esses dois discípulos voltam para Jerusalém (mais duas horas de caminhada), para reencontrar os outros discípulos reunidos (Lc. 24,33-34). Chegados a Jerusalém, segundo o evangelho de hoje, os discípulos de Emaús contam aos outros discípulos a sua experiência do Ressuscitado (Lc 24,35). Estamos no mesmo dia; já está ficando tarde... Enquanto eles contam, Cristo se faz presente no meio deles, desejando-lhes a paz, como no evangelho de João, na semana anterior (Lc. 24,36). E lá São Lucas nos dá uma catequese sobre a missa; ele nos faz assistir a uma eucaristia como lugar de encontro e de reconhecimento do Ressuscitado (Lc. 24,37-48). Depois dessa eucaristia, o Cristo Ressuscitado leva os discípulos a Betânia, outra pequena cidade no sul de Jerusalém, desta vez para abençoá-los e elevar-se no céu (Lc. 24,50-51). Após a Ascensão, sempre no mesmo dia, os discípulos voltam para Jerusalém, ao templo, para bendizer a Deus (Lc 24,52). Finalmente, Lucas salienta: “E estavam sempre noTemplo, bendizendo a Deus” (Lc. 24,53).

Em 1991, na revista Sinais de hoje (Signes d’aujourd’hui), o teólogo Marcel Metzger formula a seguinte pergunta: “A que horas os discípulos de Emaús foram deitar na noite da Páscoa?” É uma boa pergunta, se fizermos uma leitura literal do texto... Ao mesmo tempo, encontramos várias incoerências: no tempo bíblico, à noite, não dá para circular... Não há luz. Se todos esses movimentos na noite foram sem luz, como eles conseguiram ver Jesus subir ao céu em plena noite? No fundo, o que Lucas quer nos fazer compreender através dessa narrativa é que a Páscoa é uma nova aventura, um novo dia para a Igreja que é um sinal da presença do Ressuscitado através dos seus discípulos, os cristãos de todos os tempos. Essa nova aventura não se termina; ela continua na Igreja de hoje. É um dia novo que ainda dura... Nós estamos sempre no domingo de Páscoa!

A morte-ressurreição – uma mesma realidade

Como no evangelho de João, a morte-ressurreição de Jesus são dois eventos inseparáveis para a fé cristã. Que devemos reter dessa presença do Ressuscitado? Há semelhanças em todos os evangelhos em relação à Ressurreição de Cristo: todos afirmam que o sepulcro está vazio, que Jesus está vivo, que aqueles e aquelas que o viram não o reconheceram imediatamente e que a dúvida e o medo fazem parte da experiência de fé daqueles e daquelas que o encontraram. O que significa que o Cristo Ressuscitado não é o cadáver reanimado de Jesus de Nazaré; é o Crucificado transformado pela Páscoa: “Vejam minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo.Toquem-me e vejam: um espírito não tem carne e ossos, como vocês podem ver que eu tenho” (Lc 24,39). E para dizer que ele é o mesmo sendo completamente diferente daquele que eles conheceram nos caminhos da Galileia, após lhes ter pedido algo para comer (Lc 24,41), o Ressuscitado: “Jesus pegou o peixe, e o comeu diante deles” (Lc 24,43), não com eles, mas diante deles, para significar, segundo o teólogo Gérard Sindt, que “comer se torna aqui uma prova da verdade de um ser em relação que abole as distâncias mantendo-as por sua vez”.

Mas por que essa insistência sobre a materialidade do Ressuscitado no evangelho de Lucas? São Lucas conhece muito bem a teologia de São Paulo que diz que a Igreja é o Corpo de Cristo Ressuscitado através dos seus discípulos, que são seus membros. É, então, através deles que Cristo pode se manifestar não como fantasma, mas como ser humano, de carne e osso: “Espantados e cheios de medo, pensavam estarvendo um espírito” (Lc 24,37). “Então Jesus disse: Por que vocês estão perturbados, e por que o coração de vocês está cheio de dúvidas? (Lc 24,38). “Vejam minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo.Toquem-me e vejam: um espírito não tem carne e ossos, como vocês podem ver que eu tenho” (Lc 24,39). Mas quem é ele então? Ele é aqueles e aquelas que levam as marcas da sua paixão (nós estamos em plena perseguição), que anunciam a sua Palavra abrindo os espíritos à inteligência das Escrituras, que repartem o pão, e que proclamam, em seu nome, o perdão dos pecados para todos. Esses são as primeiras testemunhas da Páscoa.

Testemunhas oficiais para os cristãos de hoje

Por que as narrativas das aparições aos discípulos? Simplesmente para fazer dos discípulos da Igreja primitiva testemunhas oficiais da Páscoa: “E vocês são testemunhas disso” (Lc 24,48). Ainda hoje é possível fazermos a experiência do Ressuscitado como no primeiro tempo da Igreja. A única diferença é que fica impossível para nós compararmos essa presença do Ressuscitado com aquela de Nazareno, tal como os primeiros cristãos podiam fazer. Porém, seus testemunhos deveriam nos bastar.

Os discípulos da primeira hora conheceram a Jesus de Nazaré; eles lhe viram morrer, eles o reencontraram na Igreja do século I e eles puderam verificar a autenticidade do Ressuscitado como a continuidade de Jesus de Nazaré que eles conheceram, amaram e seguiram. Então, eles se tornam testemunhas privilegiadas, e as experiências ulteriores do Ressuscitado se fundam necessariamente nos seus testemunhos. É sobre a fé das primeiras testemunhas que se exprime nossa própria fé em Cristo. No século IV, Santo Agostinho tinha uma forma bem característica dele de expressar essa realidade. No seu sermão 116, sobre o evangelho de hoje, ele escreve. : “O Cristo total se deu a conhecer a eles (seus discípulos) e se deu a conhecer a nós. Eles viram a cabeça (Jesus) e eles acreditaram no corpo (Igreja). Nós vimos o corpo (Igreja) e acreditamos na cabeça (Jesus). Porém, o Cristo não se oculta para ninguém: ele é e está completamente inteiro em nós e, portanto, seu corpo permanece unido a ele”.

Para concluir, na 2ª leitura de hoje, São João lembra que para conhecer Jesus Cristo, precisamos fazer a experiência do Amor: “Quem diz que conhece a Deus, mas não cumpre os seus mandamentos, é mentiroso, e a Verdade não está nele” (1 Jo 2,4). “Por outro lado, o amor de Deus se realiza de fato em quem observa a Palavra de Deus. É assim que reconhecemos que estamos com ele” (1 Jo 2,5). Deixemos de materializar as narrativas de Páscoa, para não reduzir o conteúdo e o significado profundo. Essas narrativas nos dizem respeito, pois temos a possibilidade de reencontrar o Ressuscitado e a obrigação de testemunhar para que outros possam também encontrá-lo... E é pelo amor que nós faremos que os outros o reconheçam.

Raymond Gravel (+ 2014)

no sítio Culture et Foi - tradução: Susana Rocca

 

 

Testemunhas

Lucas descreve o encontro do Ressuscitado com os Seus discípulos como uma experiência fundadora. O desejo de Jesus é claro. A Sua tarefa não terminou na cruz.

Ressuscitado por Deus depois da Sua execução, toma contato com os Seus para colocar em marcha um movimento de «testemunhas» capazes de contagiar todos os povos com a Sua Boa Nova: «Vós sois as Minhas testemunhas».

Não é fácil converter em testemunhas aqueles homens afundados no desconcerto e no medo. Ao longo de toda a cena, os discípulos permanecem calados, em silêncio total. O narrador só descreve o seu mundo interior: estão cheios de terror; só sentem perturbação e incredulidade; tudo aquilo lhes parece demasiado bonito para ser verdade.

É Jesus quem vai regenerar a sua fé. O mais importante é que não se sintam sós. Sentem-no cheio de vida no meio deles. Estas são as primeiras palavras que escutam do Ressuscitado: «A paz esteja convosco... Por que surgem dúvidas no vosso interior?».

Quando esquecemos a presença viva de Jesus no meio de nós; quando o ocultamos com os nossos protagonismos; quando a tristeza nos impede de sentir tudo menos a Sua paz; quando nos contagiamos uns aos outros com pessimismo e incredulidade... pecamos contra o Ressuscitado. Assim não é possível uma Igreja de testemunhas.

Para despertar a sua fé, Jesus não lhes pede que olhem o Seu rosto, mas sim as Suas mãos e os Seus pés. Que vejam as Suas feridas de crucificado. Que tenham sempre ante os seus olhos o Seu amor entregue até à morte. Não é um fantasma: «Sou Eu em pessoa». Ele mesmo que conheceram e amaram pelos caminhos da Galileia.

Sempre que pretendemos fundamentar a fé no Ressuscitado com as nossas elucubrações convertemo-lo num fantasma. Para nos encontrarmos com Ele temos de recorrer ao relato dos evangelhos; descobrir essas mãos que abençoam os doentes e acariciavam as crianças, esses pés cansados de caminhar ao encontro dos mais esquecidos; descobrir as Suas feridas e a Sua paixão. É esse Jesus o que agora vive ressuscitado pelo Pai.

Apesar de vê-los cheios de medo e de dúvidas, Jesus confia nos Seus discípulos. Ele mesmo lhes enviará o Espírito que os sustentará. Por isso lhes encomenda que prolonguem a Sua presença no mundo: «Vós sois testemunhas destas coisas». Não têm de ensinar doutrinas sublimes, mas sim contagiar com a Sua experiência. Não têm de predicar grandes teorias sobre Cristo, mas sim irradiar o Seu Espírito. Têm de se mostrar credível com a sua própria vida, não só com palavras. Este é sempre o verdadeiro problema da Igreja: a falta de testemunhas.

José Antonio Pagola

 

 

O caminho da fé

Longo é o caminho da Cruz; longo, o caminho da fé. Os discípulos de Emaús reconheceram Jesus ao partir o pão. Quando contaram a sua aventura aos Apóstolos, estes lhes anunciaram que o Senhor tinha aparecido a Simão. Aparição esta, aliás, ausente dos nossos relatos. E eis que, de repente, está Jesus bem ali, no meio deles. O que não deveria tê-los surpreendido, pois estavam falando justamente dos seus encontros precedentes com ele. Não acreditando, no entanto, em seus olhos, tomaram-no por um «espírito», como se a um «espírito» se pudesse ver. A palavra espírito, aqui, equivale a irreal. O evangelista quer fazer-nos compreender duas coisas especialmente: primeiro, que a fé não chega à maturidade de uma vez. Somente encontra a sua forma perfeita ao final de um longo itinerário. E devemos dar graças a Deus se, em seu ponto de partida, possa ter o tamanho de um grão de mostarda. Além disso, nunca é adquirida como um bem inalienável: podemos ser crentes às 8 horas da manhã e descrentes cinco minutos depois. À fé, de fato não a possuímos, mas a recebemos sem cessar. Supõe, portanto, da nossa parte uma abertura permanente, que não é outra senão a consciência da presença do Outro, esta presença que nos faz ser. Acreditamos ter matado Deus! E muitos de nossos contemporâneos imaginam ter acabado com Ele. E, no entanto, Ele está aí, Ressuscitado. Para os crentes, a morte definitiva do Cristo, a Palavra criadora feita carne, equivaleria ao nosso retorno pessoal ao nada; sua ressurreição é a garantia da nossa «vida eterna».

A glória da carne

A palavra «carne» nas Escrituras mostra-se ambígua. Designa tanto o corpo humano quanto simplesmente o ser humano, como nas expressões «toda carne verá a salvação de Deus» ou «derramarei o meu Espírito sobre toda a carne». Pode designar também, e isto acontece com frequência, o que em nós se opõe ao espírito, permanecendo-lhe impermeável. Mais ainda que os outros evangelistas, Lucas insiste no  caráter corporal da Ressurreição. Neste evangelho, Jesus não se contenta em mostrar as suas chagas, como faz em João 20,20, mas procura por alimento e come um pedaço de peixe assado “diante dos seus discípulos”. Esta insistência no lado carnal da Ressurreição encontra em nós sérias dificuldades. Os primeiros cristãos já se perguntavam: «Como ressuscitam os mortos? Com que corpo voltam?» (1 Coríntios 15,35). Paulo responde que há tantas diferenças entre o corpo morto e o corpo da Ressurreição quanto entre o grão semeado na terra e a planta em sua maturidade. É uma metáfora, bem entendido, mas que tem o mérito de oferecer-nos a imagem de uma continuidade e de uma descontinuidade interligadas. O mesmo torna-se outro. Jesus se alimenta, conserva as suas chagas, mas não está mais submetido às leis do espaço e do tempo. Assim, pois, aqui estamos nós, convidados não apenas a crer sem ver, mas também a crer sem entender. Não podemos descrever nem sequer pensar o corpo da Ressurreição. E, no entanto, está aí o corpo. Aliás, a natureza está cheia de imagens da Ressurreição: a sucessão das estações, o sono e o estado de vigília, etc. São passagens ao contrário, nas quais um está no outro.

Abrir as Escrituras

Da mesma forma que na estrada de Emaús, Jesus «abriu a inteligência dos discípulos para entenderem as Escrituras». O conjunto da Bíblia, sob a forma de uma sucessão de histórias particulares datadas e localizadas, às vezes simbólicas, revela-nos o sentido, a substância de toda aventura humana. Como diz o Apocalipse, este é um livro selado e somente o Cristo pode romper os selos. Ele faz isto através da sua morte e de sua ressurreição, o acontecimento chave e a palavra final da história. Por aí ganha sentido tudo o que o tem precedido e daí se forma o projeto de tudo o que a humanidade viveu, vive e viverá. Ficamos sabendo que toda a diversidade, todas as contradições, todos os conflitos, todo o bem e todo o mal se encontram assumidos pelo Cristo, que nos reúne num só corpo. E este corpo é o seu. Quanto a nós, temos de fazer certo esforço para evitarmos pensar que o Cristo não ressuscitou em sua carne pessoal, mas sim na «carne» deste novo corpo que é a Igreja. Pois um não caminha sem o outro. E, se Cristo pessoalmente não ressuscitou, vãs são as nossas palavras, vã é a nossa fé, conforme diz Paulo na primeira carta aos Coríntios (15,17). Vã é a nossa vida. Vã também é toda a história bíblica. E Deus, esta realidade ativa que funda toda a humanidade e tudo o que existe, não seria amor. Como podemos ver, a Ressurreição é o ponto final da Bíblia, o ponto extremo e também a substância da nossa fé. Da nossa vida. O universo inteiro está sob este molde da ressurreição escondida, que trabalha em segredo e que, aos poucos, vai ganhando as suas diversas formas.

Marcel Domergue (+)

no sítio Croire - tradução: Francisco O. Lara, João Bosco

 

 

“Toquem-me e vejam”

A Liturgia continua oferecendo-nos uma aparição de Jesus em meio aos discípulos. Os dois discípulos que iam a caminho de Emaús voltam para Jerusalém e narram aos outros discípulos “o que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus ao partir o pão”.

Quando eles iam a caminho do povoado e conversavam a respeito de tudo o que havia acontecido, Jesus começa a caminhar com eles. Jesus faz-lhes uma pergunta que os incomoda e eles respondem impressionados pelo seu desconhecimento do acontecido recentemente em Jerusalém. Sua resposta é uma breve descrição de tudo o que havia acontecido com Jesus, “o profeta poderoso em palavras e obras”, e narram ainda sua morte e ressurreição, mas sem acreditar nela. Para eles a história acabou e por isso ficam desolados e tristes.

Jesus fica com eles e estando à mesa toma o pão e o abençoa, parte-o e dá a eles. É nesse momento que “os olhos dos discípulos se abriram, e eles reconheceram Jesus”, mas ele desapareceu da frente deles.

Uma vez mais a comunidade está reunida e Jesus aparece no meio deles. Os evangelhos narram diferentes “aparições” de Jesus Ressuscitado. Fica claro que o motivo não é fazer uma crônica de suas aparições, porque cada evangelho narra diferentes situações considerando as pessoas para quem é escrito seu texto. No evangelho de Marcos, o primeiro evangelho escrito, é um jovem vestido de branco que diz às mulheres: “Ele não está aqui. Ele ressuscitou”. No evangelho de Mateus, Jesus aparece às mulheres que vão ao túmulo e manda-lhes anunciar aos discípulos que voltem para Galileia e aí o verão. Logo serão enviados a predicar e batizar.

O evangelho de Lucas, e mais ainda João, escrevem relatos com uma narrativa mais detalhada.

No Evangelho que foi lido hoje, Jesus aparece no meio deles, come com eles e diz: “Toquem-me e vejam: um espírito não tem carne e ossos, como vocês podem ver que eu tenho”.

O verbo usado neste texto e geralmente quando se fala das aparições é “deixar-se ver”. Apesar dos discípulos terem reconhecido o seu Mestre, eles estão com dúvidas e ficam “espantados e cheios de medo”. Uma vez mais Jesus dá-lhes sua paz. A paz do consolo, a paz que cura as feridas dos momentos da dor, da incerteza que os levou a abandoná-lo, a paz que fortalece internamente além das dificuldades externas.

A iniciativa das aparições é sempre de Jesus. A comunidade está reunida, contando o que tinha acontecido para alguns deles em diferentes situações. Podemos pensar que alguns dos que falavam mostravam uma certeza absoluta para tentar convencer aos outros. “Sim, foi assim! Eu tinha como uma certeza interior que não sabia como explicar”. Cada grupo procuraria apresentar sua “visão do Ressuscitado de forma convincente”, com certezas interiores as quais de fato não tinham.

Neste momento Jesus aparece no meio deles e todos ficam com medo. Não o reconhecem, não é tão fácil acreditar que Jesus está vivo! Pelo contrário, eles ficam espantados, cheios de medo, e todas suas certezas caem por terra! Já não servem para mais nada, parece que caducam todas num instante.

Neste momento eles não têm medo das autoridades dos judeus ou dos sacerdotes, senão de Jesus mesmo! Um olhar um pouco superficial pode pensar que no fundo eles não acreditaram no caminho de Emaús, mas os diferentes relatos das aparições nos mostram as dificuldades que cada comunidade tinha para acreditar progressivamente em Jesus Ressuscitado e mais ainda nas narrativas dos Evangelhos.

No século XXI podemos perguntar-nos onde “se deixa ver” Jesus neste momento histórico? Como comunidade reunida que escuta, somos chamados a deixar-nos questionar pela pergunta: Onde nos convida a tocar, a colocar nossas mãos nas suas feridas e ser assim testemunhas desta mensagem?

Nossas comunidades procuram ir ao encontro dos mais pobres e desprotegidos do mundo de hoje e reconhecer nas suas chagas as feridas de Jesus Crucificado?

O papa Francisco chamou a atenção para a tentação de considerar-se alheio ao próximo em dificuldades, pensando: "Não me diz respeito, não é problema meu, é culpa da sociedade". Uma atitude que consiste em "olhar para o outro lado quando o irmão passa necessidade é mudar de canal quando um problema sério nos incomoda", e também "indignar-se com o mal, mas sem fazer nada. Deus, no entanto, não nos perguntará se sentimos justa indignação, mas se fizemos o bem". (Papa Francisco. “Os pobres são o nosso passaporte para o paraíso”)

O Brasil é um país profundamente desigual e a desigualdade gritante se dá em todos os níveis. Seja por diferentes regiões do país, por gênero - as mulheres ganham, em geral, bem menos que os homens mesmo exercendo as mesmas funções -, por raça e cor: os trabalhadores pretos ou pardos respondem pelo maior número de desempregados, têm menor escolaridade, ganham menos, moram mal e começam a trabalhar bem mais cedo exatamente por ter menor nível de escolaridade. IBGE: 50 milhões de brasileiros vivem na linha de pobreza

Jesus Ressuscitado aparece continuamente diante de nós, e nossas comunidades devem acreditar na sua presença no meio de nós.

Acreditamos que Jesus Crucificado é o Ressuscitado? O evangelho de hoje conclui com uma afirmação de Jesus: “E vocês são testemunhas disso.” Confia a seus seguidores comunicar com suas vidas e palavras que Jesus de Nazaré, morto numa cruz, foi por Deus ressuscitado, rompendo as ataduras da morte! (cf. At. 2,24).

Ana Maria Casarotti

 

 

Crer na palavra do Senhor

O Evangelho deste domingo narra outro evento, após a visita de madrugada das mulheres ao túmulo vazio (cf. Lc. 24,1-11), a corrida de Pedro ao sepulcro (cf. Lc. 24,12), a manifestação do Ressuscitado “como um forasteiro” (Lc. 24,18) aos dois discípulos no caminho rumo a Emaús (cf. Lc. 24,13-35).

No mesmo dia, “o primeiro da semana” (Lc. 24,1), o dia único da ressurreição, mas à noite, os dois discípulos que retornaram a Jerusalém estão no andar de cima (cf. Lc. 22,12; Mc. 14,15), contando aos Onze e aos outros “como reconheceram Jesus ao partir o pão” (Lc. 24,25).

E eis que, de repente, percebem que Jesus está no meio deles e faz ouvir suas palavras: “A paz esteja convosco!”. Não lhes profere palavras de reprovação pela sua fuga no momento da sua prisão, não repreende Pedro pela negação, não diz nada sobre o fato de eles não serem mais os Doze, como ele os havia chamado e constituído em comunidade (cf. Lc. 6,13; 9,1), mas apenas Onze, porque o traidor foi embora.

Não, ele lhes diz: “Shalom ‘aleikhem! Paz a vocês!”, saudação habitual para os judeus, mas que, naquela noite, ressoa com uma força particular. Essa saudação, dirigida aos discípulos profundamente abalados e perturbados pelos acontecimentos da paixão e morte de Jesus, significa sobretudo: “Não tenham medo!”.

A ressurreição transformou Jesus radicalmente, transfigurou-o, tornou-o “outro” no aspecto, porque ele já “entrou na sua glória” (cf. Lc. 24,26) e só pode ser reconhecido pelos discípulos através de um ato de fé. Esse ato de fé é difícil, fatigante: os Onze custam a vivê-lo, a colocá-lo em prática...

Não por acaso Lucas anota que os discípulos “ficaram assustados e cheios de medo, pensando que estavam vendo um fantasma”, do mesmo modo que os discípulos no caminho de Emaús acreditavam ver um peregrino.

Então Jesus os interroga: “Por que estais preocupados, e porque tendes dúvidas no coração? Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo! Tocai em mim e vede! Um fantasma não tem carne, nem ossos, como estais vendo que eu tenho”.

Ao dizer isso, mostrou-lhes as mãos e os pés com os sinais da crucificação. Sim, o Ressuscitado não é outro senão aquele que foi crucificado! Essa ostentação, por parte de Jesus, das suas mãos e dos seus pés transpassados pela crucificação é um gesto que pede que os seus discípulos o encontrem acima de tudo nos sinais do sofrimento, do padecimento e da morte. A carne chagada de Cristo é a carne chagada da humanidade, é a carne do pobre, do faminto, do doente, do oprimido, da vítima da injustiça da violência! Sem esse encontro muito real com a carne dos sofredores, não se encontra Cristo, e a própria ressurreição permanece um mito.

No entanto, apesar dessas palavras e desse gesto, os discípulos não chegam a crer; apesar de uma emoção alegre, não chegam à fé. É verdade, nós, seres humanos, chegamos facilmente à religião, mas dificilmente chegamos à fé; vivemos facilmente emoções “sagradas” ou religiosas, mas dificilmente aderimos a Jesus Cristo e à sua palavra.

Na comunidade dos Onze, devemos ler a história das nossas comunidades, nas quais se vive a fé e se confessa a fé, mas também se manifesta a incredulidade. No entanto, o Ressuscitado tem uma grande paciência e, por isso, oferece à sua comunidade uma segunda palavra e um segundo gesto.

Ele lhes pergunta se eles têm alguma coisa para comer, e eles lhe oferecem um pouco de peixe assado, a comida que costumavam comer juntos, quando viviam a aventura da vida comum na Galileia. Tendo-o recebido, Jesus come na frente deles! Nós ficamos até estupefatos diante desses gestos de Jesus, mas fiquemos atentos: são apenas “sinais” para dizer que a ressurreição de Jesus não é imortalidade da alma e perda total do corpo, não é “a continuação da sua causa” mesmo que ele esteja morto, não é uma memória que se conserva sem que aquele que morreu esteja verdadeiramente vivo.

Jesus dá aos discípulos esses sinais, que, na verdade, contêm verdades indizíveis, para que creiam que o Crucificado realmente venceu a morte. Seu corpo crucificado é um corpo agora vivo, “um corpo espiritual” (1Co. 15,44), isto é, vivo no Espírito, dirá o apóstolo Paulo.

O próprio Lucas escreverá no início dos Atos dos Apóstolos que Jesus “se apresentou vivo aos seus discípulos com muitas provas” (At. 1,3), mas que não pareciam ser suficientes para levá-los à fé. De fato, os discípulos permanecem em silêncio, mudos!

Então Jesus, para fazer com que finalmente cressem, retoma sua pregação, o anúncio do Evangelho que ele fez até a morte. Ele pede para que recordem as palavras ditas enquanto ele estava com eles, porque aquelas palavras eram profecia e a palavra de Deus que devia se realizar, assim como devia encontrar cumprimento tudo o que tinha sido escrito sobre ele, o Messias, na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos, isto é, nas santas Escrituras da antiga aliança.

E eis que, enquanto o Ressuscitado recorda e explica a palavra de Deus contida nas santas Escrituras, ele opera o milagre verdadeiro: “Abriu a inteligência dos discípulos (diénoixen autôn tòn noûn) para entenderem as Escrituras”.

O verbo utilizado aqui (dianoígo), nos Evangelhos, tem sempre um sentido terapêutico: designa a abertura dos ouvidos dos surdos e da boca dos mudos (cf. Mc. 7,34), dos olhos aos cegos (Lc. 24,31). Aqui indica a operação realizada no poder do Espírito Santo, a abertura da mente para a compreensão das Escrituras. Os discípulos, “abertos” assim, podem agora crer e, portanto, ser constituídos testemunhas da ressurreição de Jesus.

Jesus se faz, junto deles, exegeta, intérprete das profecias que lhe diziam respeito, recorda também as suas palavras proferidas durante a pregação na Galileia, mostrando a “necessitas” do cumprimento, da realização na sua vida na sua morte. Ele talvez não tinha conversado com Moisés (a Lei) e com Elias (os profetas) precisamente sobre aquele êxodo pascal que ele devia fazer para Jerusalém (Lc. 9,30-31)?

A fé pascal brota da fé e do conhecimento das santas Escrituras, como ainda professamos no Credo: “Padeceu e foi sepultado. Ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras (cf. 1Co. 15,3-4)” (resurrexit tertia die secundum Scripturas). Os discípulos entenderam que o desígnio salvífico de Deus se cumpriu na paixão, morte e ressurreição do Senhor, e que este é o fundamento da fé cristã, da qual brota o anúncio do perdão dos pecados, da misericórdia de Deus para todos os povos da terra: não só para o povo de Israel, mas para todos...

Com muito esforço, Jesus fez com que aqueles discípulos que haviam desaparecido durante a sua paixão cressem novamente, tornou-os testemunhas da sua morte e ressurreição, tornou-lhes capazes de compreender o que é o perdão dos pecados que eles devem anunciar, em virtude do fato de terem sido os primeiros a receber o perdão do Ressuscitado.

Há um ditado de um Padre do deserto que parece comentar admiravelmente essa página evangélica: “Crer na palavra do Senhor é muito mais difícil do que crer nos milagres. Aquilo que se vê apenas com os olhos do corpo ofusca; aquilo que se vê com os olhos da mente que crê, ilumina”.

Enzo Bianchi

tradução: Moisés Sbardelotto

 

 

Da fé na ressurreição nasce o compromisso com a missão

Continuamos caminhando à luz de Jesus Cristo, o santo e justo preso e assassinado, depois descoberto e experimentado vivo e ressuscitado pela comunidade dos discípulos. As celebrações de cada domingo nos ajudam a ajuntar, pouco a pouco, os fragmentos das diversas experiências e recompor um mosaico capaz de ilustrar como Jesus ressuscitado se manifesta e onde se deixa encontrar. Mas as escrituras revelam também as dificuldades que enfrentamos para organizar nossa vida a partir de um Deus crucificado e assimilar as exigências que essa fé traz consigo.

Impressiona a diferença entre a atitude dos discípulos nos primeiros tempos após a crucifixão e ressurreição de Jesus e nas cenas descritas pelos Atos dos Apóstolos. A cena do Evangelho de hoje ocorre depois do testemunho das mulheres e da comprovação por parte de Pedro de que a sepultura estava vazia (Lc. 24,1-12); depois da manifestação de Jesus aos dois discípulos na estrada de Emaús e na partilha do pão (Lc. 24,13-35); e depois da aparição a Pedro (Lc. 24,34). Apesar disso, a nova manifestação de Jesus espanta, e eles têm dificuldade de acreditar.

A cruz é a verdadeira pedra na qual os discípulos tropeçam. Para eles, é difícil conjugar a idéia de um Deus que se caracteriza pelo poder e pelo saber com um homem que grita impotente e morre abandonado na cruz. Dizer que Jesus não é o Messias, mas um profeta fracassado, ou pensar que Jesus é mesmo o Messias, mas a cruz foi um faz de conta é uma saída fácil, mas também frágil. Ainda hoje muitos cristãos um Cristo vitorioso e glorioso. No máximo, aceitam que ele passou pela cruz, mas muito rapidamente, e seu sacrifício foi compensado pela imensa glória que depois recebeu do Pai...

A ressurreição de Jesus não pode ser vista apenas como uma espécie de prêmio que o Pai dá ao Filho obediente e sofredor. O que se afirma com a ressurreição de Jesus é algo bem mais sério e profundo que a simples ressurreição dos cadáveres. Aquele que ressuscitou não é alguém que morreu com idade avançada num hospital de primeira classe, rodeado de familiares e amigos. O ressuscitado é Jesus de Nazaré, aquele que resgatou a dignidade dos excluídos e foi condenado injustamente. Ressuscitando-o Deus confirma a validade e a justeza da causa que o levou à morte.

Diante do espanto e da perturbação dos discípulos, Jesus mostra-lhes as chagas nas mãos e nos pés e pede para que as toquem. Jesus quer sublinhar a continuidade do amor que o levou a abraçar a cruz. As feridas nas mãos e nos pés do corpo ressuscitado são o sinal eloquente de que Jesus é fiel e se tornou nosso advogado de defesa, como diz São João. Ele não é fruto da fantasia de um grupo de discípulos, e chega instaurando uma paz verdadeira. Para evitar qualquer fantasia, Jesus pede algo para comer, recebe um peixe e o come diante dos discípulos tão alegres quanto espantados.

Ancorado na fé em  Jesus Cristo, Pedro curou e devolveu a dignidade a um miserável paralítico. E diante do assombro da multidão que acorria ao templo, proclama: "A fé em Jesus deu saúde perfeita a esse homem que está na presença de todos vocês." Os cristãos dão testemunho da ressurreição de Jesus à medida em que se deixam guiar pelo dinamismo que animou e deu sentido à sua vida: o amor ao próximo. Esse é o mandamento e o testamento de Jesus, e "quem diz que conhece a Deus mas não cumpre seus mandamentos é mentiroso", diz João.

Na sua manifestação aos discípulos, Jesus lhes abre a inteligência para que compreendam as escrituras. Não se trata de uma longa e completa catequese bíblica, mas de um esclarecimento sobre a imagem de Messias: seu caminho se desvia do poder e da impassibilidade e passa pela aceitação do sofrimento solidário e, em seu nome, as pessoas serão convocadas à conversão e perdoadas. Não é possível adentrar no sentido da ressurreição se não nos movemos num horizonte de esperança, se não aceitamos a possibilidade de uma transformação profunda de todas as coisas, já em curso.

Jesus de Nazaré, Servidor da humanidade e Aurora da liberdade: sabemos que em ti começamos a vencer a morte nas suas expressões mais terríveis, mas temos consciência que a luta continua. Abre nossa inteligência para vivermos como ressuscitados, com olhos abertos às chagas das pessoas que continuam sofrendo e às iniciativas solidárias que ocorrem fora das nossas Igrejas. Faz com que nossa esperança na ressurreição corte pela raiz as tentativas de reduzir nosso cristianismo a um exercício intelectual ou à aceitação de um conjunto de dogmas e preceitos. Assim seja! Amém!

padre Itacir Brassiani msf

 

 

Então seus olhos se abriram...

Será que foi fácil para os discípulos de Jesus acreditar que Jesus tinha mesmo ressuscitado? O Evangelho diz que eles tiveram muita dificuldade para crer nisso. Por que essa dificuldade tão grande? As causas eram diversas: frustração com o fim humilhante de Jesus, vergonha por terem fugido e abandonado o mestre na hora da prisão, desilusão e sensação de que o sonho tinha acabado definitivamente. Por trás de tudo isso, havia a interpretação que faziam da Bíblia. Era comum interpretar os textos bíblicos de um jeito que impedia de ver algum sentido no sofrimento, na derrota, na cruz. Como, então, poderia Jesus crucificado ser o Messias, o encarregado por Deus para libertar o seu povo?

Por isso, uma das preocupações de Jesus ressuscitado foi abrir os olhos e os corações dos discípulos para que entendessem melhor as Escrituras. Caminhando com os discípulos de Emaús, ele lhes recordou e mostrou que a Bíblia tem uma espinha dorsal: os profetas e justos sofrem porque lutam pela vida e pela libertação do seu povo. Mas Jesus também lhes mostrou que a Bíblia anuncia a ressurreição daqueles que assim doam sua vida.

A nova interpretação da Bíblia ajudou muito, mas ainda não foi suficiente. Foi necessário partilhar o pão na mesa da acolhida e da fraternidade. Quando Jesus fez refeição com eles, seus olhos se abriram e eles puderam fazer a experiência da presença viva de Jesus. Era o que lhes faltava. Com isso, eles também ressuscitaram e retomaram o projeto do mestre.

Os discípulos precisavam, portanto, aprofundar sua experiência no seguimento de Jesus. Precisavam superar a crise da cruz. Precisavam experimentar a ressurreição que vem por essa cruz. Mais ainda: foram enviados a testemunhar essa novidade. "Vós sereis testemunhas de tudo isso", disse Jesus aos ainda temerosos discípulos. O Espírito Santo lhes daria a coragem e a lucidez para realizarem essa missão. A Páscoa já aponta para a festa de Pentecostes.

Hoje também comemoramos o dia do índio. Que saibamos reconhecer a presença de Jesus ressuscitado caminhando com os povos indígenas do nosso país.

padre Léo Zeno Konze

 

 

“Vós o rejeitastes... vós o matastes,

mas Deus o ressuscitou e disso nós somos testemunhas!”

1. Acolhida

Deus nos convoca para celebrar a Eucaristia e Jesus nos confia a missão de dar testemunho de sua Ressurreição a todos os povos: “Vós sereis testemunhas de tudo isso!” E o Apóstolo Pedro, deixando de lado o medo, com muita coragem diz: “Vós o matastes, mas Deus o ressuscitou dos mortos, e disso nós somos testemunhas!”.

A Ressurreição do Senhor não é um fato antigo! Ele ressuscitou nesta Páscoa e nós – os discípulos de hoje, somos constituídos testemunhas vivas desta vitória de Jesus.

2. Palavra de Deus.

At. 3,13-15.17-19 – O povo pensava que a morte de Jesus era problema dos sacerdotes e Mestres da Lei; mas Pedro, apontando seu dedo de pescador, disse: “Vos o renegastes... vós o matastes; por isso, arrependei-vos e convertei-vos para serdes perdoados!”.

1Jo 2,1-5 – Para ser salvo é necessário crer na Ressurreição de Jesus e observar seus mandamentos! Quem afirma que ama a Deus mas não observa seus mandamentos é falso.

Lc. 24,35-48 – Jesus ressuscitou, mas seu corpo, agora, é glorioso e espiritual; por isso, Jesus precisou insistir com seus discípulos, mostrou-lhes as mãos e os pés perfurados ... Come um pedaço de peixe assado. Abriu-lhes a inteligência para entender as Escrituras e dar testemunho de sua Ressurreição.

3. Reflexão.

A Ressurreição de Jesus é um artigo de fé, ou seja: precisamos da luz do Espírito Santo para crer nela e para testemunhá-la. Jesus precisou iluminar a inteligência dos discípulos para entenderem as Escrituras e dar testemunho de sua Ressurreição. Falar da Ressurreição corporal de Jesus para o povo de cultura grega significava ser um ignorante, bobo. Mas os Apóstolos falam de Jesus ressuscitado com toda a clareza e coragem: “Nós somos testemunhas de tudo isso!”.

A fé é um dom do Espírito Santo, e os Apóstolos sentem-se iluminados e fortalecidos com sua presença e cumprir missão recebida: “Deste fato nós somos testemunhas, nós e o Espírito Santo, que Deus deu àqueles que lhe obedecem!” (At. 5,32).

Existe um testemunho oficial, próprio da hierarquia (bispos e sacerdotes), mas existe, também, um testemunho que o Espírito Santo suscita no coração dos leigos batizados. Diz o Concílio: “Cada leigo deve ser diante do mundo uma testemunha da ressurreição e da vida de Jesus!” (LG 38).

A Sagrada Escritura fala do sofrimento e da ressurreição do Messias, mas, para entender esta promessa, precisamos da luz do Espírito Santo. Jesus precisa abrir e iluminar para entender a Palavra de Deus. Aliás, Jesus havia prometido o Espírito Santo para recordar e entender seus ensinamentos. (Jo. 14,26;16,13-14) .

“Vós sereis testemunhas de tudo isso!”

frei Carlos Zagonel

 

 

Os discípulos de Emaús contavam o que tinha acontecido no caminho e como tinham reconhecido Jesus ao partir do pão. Contam o que lhes aconteceu e como aquele companheiro de viagem lhes ajudou a compreender a história. Uma história que eles consideravam o maior fracasso de sempre. Esse companheiro ficou surpreendido por não terem entendido nada do que se tinha passado nos últimos tempos. Com as suas palavras, eles fizeram uma revisão pessoal da sua vida até ao momento em que se lhes abriram os olhos e o coração. Enquanto contavam isto, Jesus apresentou-se no meio deles. Eles ficaram cheios de medo, porque julgavam ver um espírito. Mas Ele disse-lhes: “A paz esteja convosco”. É o que acontece connosco. Temos dúvidas. Temos medo. Pensamos sempre que tudo está mal, que não há por onde se lhe pegue. Pensamos que a nossa sociedade está imersa numa sonolência culpável e com dificuldade em distinguir o bem do mal, existindo tantas cumplicidades. É mais fácil apontar culpados e responsáveis por tudo, livrando-nos de tudo. Escutamos as palavras do Evangelho que nos convidam a sair de nós próprios, vencendo a tentação de nos afastarmos de tudo para não termos mais problemas. Tantas vezes nos sentimos sozinhos com os nossos problemas e chegamos a pensar que até Deus se esqueceu de nós, porque não atende aos nossos pedidos, não nos livra das preocupações e dos sofrimentos.

“Porque estais perturbados e porque se levantam esses pensamentos nos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés. Sou Eu mesmo”. Jesus aparece na viagem para Emaús como um companheiro de caminhada, como um amigo que se preocupa com o motivo de tanta tristeza e desilusão. E perante aquele medo dos discípulos, pergunta: “Tendes aí alguma coisa para comer?”. Jesus não se esconde da nossa vida. Se O soubermos descobrir, iremos sentir a sua presença. Jesus Ressuscitado manifesta-se quando os seus amigos mais dele precisam, ajuda-os a descobrir a nova realidade, a nova vida, mais realista e com mais esperança. Os seus amigos não podiam ficar bloqueados pelas dúvidas, pelo medo e pela incerteza do futuro. Tudo aquilo que tinham vivido com o Mestre não era uma história do passado. Agora, era chegado o momento de tomar as rédeas e continuar a obra começada. Já Jesus lhes tinha avisado que segui-Lo não seria fácil. Ser fiel à causa do Reino supõe riscos, conflitos, situações de sofrimento. Os momentos de dor e de renúncia fazem parte da condição humana e do caminho evangélico. Dar-se e entregar-se exige fidelidade, convicção, não olhar para trás, lutar contra as adversidades e sentir que servir com generosidade não significa que recebamos agradecimento ou reconhecimento. Tantas vezes, Jesus foi rejeitado e desprezado. “O Messias havia de sofrer e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia”. Aqui radica o dinamismo do amor: o verdadeiro amor é compassivo, paciente e misericordioso, não é egoísta, nem é vingativo. Responde sempre com mais amor.

Jesus convida-nos a caminhar na esperança e no compromisso. Não pode haver lugar para a decepção paralisante. Há que resistir e permanecer numa atitude de esperança crítica, de esperança transformadora. Há que insistir em restabelecer relações, em voltar a começar. É preciso voltar a construir espaços para a misericórdia e para o perdão. É necessário refazer os projetos solidários e curar as feridas dos que foram assaltados no caminho da vida. Não podemos ser indiferentes àquilo e àqueles que nos rodeiam, mas devemos mudar o coração do pedaço de mundo que nos rodeia e abri-lo à misericórdia e à justiça.

Regressemos à vida com o coração ardente do encontro com Jesus. Com a ajuda do Espírito Santo, abramos caminhos para a solidariedade, partilhemos a luta e a festa, ajudemos os nossos irmãos a ultrapassar os desânimos acumulados. A Eucaristia que celebramos tem de ser novamente aquele entardecer de Emaús, onde reconheceremos Jesus a caminhar connosco, sem nos abandonar. Assim, também poderemos partilhar a nossa experiência do caminho da vida com Ele e como O reconhecemos na fração do pão.

 

 

Evangelho: Lc. 24,35–48

1. Os versículos de hoje revelam, por um lado, as dificuldades encontradas em crer na ressurreição de Jesus, e, por outro, a missão que a comunidade recebe de levar o testemunho “a todas as nações, começando por Jerusalém” (v. 47): testemunhar o que viram e ouviram.

Veremos:

a. dificuldades em crer na ressurreição – vv. 35-43

b. crer para ser testemunha – vv. 44-48

a. dificuldades em crer na ressurreição – vv. 35-43

2. As comunidades – às quais o evangelho é dirigido – eram formadas por pagãos influenciados pela cultura grega, que desprezava o corpo (a matéria). Daí a dificuldade em aceitar e crer na ressurreição de Jesus, (pois foi o corpo que ressuscitou). Para Lucas não basta o testemunho dos dois discípulos de Emaús. A comunidade toda vai entrar em contato com Jesus ressuscitado.

3. A cena se passa de noite, enquanto os discípulos de Emaús relatam o que tinha acontecido no caminho e como tinham reconhecido Jesus ao partir o pão (v. 35). Noite aqui pode ser uma dimensão de tempo, como também “noite das dúvidas” que impede os discípulos de “enxergar” com os olhos da fé (cf. v. 45: “então, Jesus abriu os olhos dos discípulos para entenderem as Escrituras).

4. Nessa noite… o que acontece? Jesus aparece no meio deles e os saúda: “A paz esteja com vocês!” (v. 36). Saudação esta de paz que faz eco ao anúncio dos anjos no nascimento de Jesus: “Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens que Deus quer bem” (2,14). Faz eco também ao cântico de Simeão: “… para iluminar os que vivem nas trevas… para guiar nossos passos no caminho da paz” (1,79).

5. Os discípulos ficam perplexos, assustados e cheios de medo, pensando ver um fantasma (v. 37). Mas Lucas insiste na ressurreição do corpo como um dado concreto, real e palpável. O ressuscitado não é fruto de fantasia de alguns, mas é o próprio Jesus terrestre que vive uma realidade e uma dimensão novas capazes de ser comprovadas pelos que estiveram com ele.

6. Jesus intima os discípulos a olhar, tocar, constatar… e lhes mostra as mãos, os pés e come um pedaço de peixe grelhado (vv. 42-43). O ressuscitado possui identidade corpórea: “olhem minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo. Toquem em mim e vejam. Um fantasma não tem carne nem osso, como vocês estão vendo que eu tenho” (v. 39).

7. E Lucas acrescenta que ainda não podiam acreditar porque estavam surpresos e muito alegres (v. 41). Isso nos alerta para o fato de que a fé em Jesus Ressuscitado não é algo superficial e de momento (alegria e surpresa, euforia!), mas uma adesão duradoura que leva ao testemunho.

b. crer para ser testemunha – vv. 44-48

8. A ressurreição de Jesus é o ponto central de toda a Bíblia e do projeto de Deus: “são estas as coisas de que falei quando ainda estava com vocês: era preciso que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos profetas e nos salmos” (v. 44).

9. Jesus ressuscitado interpreta a Escritura para os discípulos: “assim está escrito: o Messias sofrerá e ressuscitará dos mortos no terceiro dia” (v. 46). Esta frase é uma síntese do capítulo 53 de Isaías, e particularmente do v. 10: “o servo conhecerá seus descendentes, prolongará sua existência, e, por meio dele, o projeto de Javé triunfará”; acoplada com Oséias 6,2: “… no terceiro dia nos fará levantar, e passaremos a viver na sua presença”.

10. E o evangelho termina: “vocês são testemunhas de tudo isso!” (v.48). Testemunho… testemunhar para que o anúncio do ressuscitado, o evangelho chegue aos confins do mundo.

11. Testemunho e universalidade são bagagem e tarefa dos que acreditam no Jesus ressuscitado: “no nome do Messias serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações a começar por Jerusalém” (v. 47). Assim os seguidores do crucificado-ressuscitado darão continuidade à história e sociedade novas – trazidas por Jesus: proclamando que nunca e nenhuma sociedade injusta conseguiu nem conseguirá anular e aniquilar o projeto de vida e liberdade que ele trouxe.

1ª leitura: At. 3,13-15.17-19

12. Lucas resume no discurso de Pedro (após ter curado um coxo de nascença – 3,1-8) a síntese da catequese primitiva sobre Jesus morto e ressuscitado: anúncio, denúncia e convite a aderir a Jesus.

13. Pedro acabara de libertar uma pessoa de sua paralisia e lhe devolvera liberdade e vida. Isso representa o cerne da vida cristã: a comunidade cristã prolonga as palavras e ações libertadoras de Jesus. Mas Pedro deixa bem claro: quem o curou não foram os apóstolos, mas Jesus (= Deus salva), que personifica a fidelidade de Deus, libertando as pessoas. Libertas, as pessoas podem formar história nova e sociedade nova.

14. Dessa fidelidade fala o v. 13a, pois a expressão “o Deus de Abraão, de Isaac, de Jacó, o Deus de nossos antepassados” recorda Êxodo 3,6.15, onde Javé se deu a conhecer a Moisés como o Deus fiel e libertador. Esse Deus “glorificou o seu servo Jesus” (v. 13b).

15. Ao chamar Jesus de “servo”, Pedro estabelece um paralelo com Isaías 52,13:

- Jesus é a personificação do Deus que salva e liberta,

- é o servo, o santo, o justo (v. 14),

- o Autor da vida (v. 15) e o Messias (v. 18). Este é o anúncio da catequese primitiva.

16. O sentido profundo de “Autor da Vida” é: Jesus é aquele que dá origem à vida, aquele que caminha à frente e que introduz a humanidade na vida.

17. É forte a denúncia no pronunciamento de Pedro. Claramente denuncia o pecado da sociedade que entregou (v. 13b), rejeitou (v. 14) e matou (v. 15) Jesus, posicionando-se contra a vida e a favor da morte. E o pecado é grave, pois tentou eliminar o Autor da Vida, a origem e a fonte da vida, Jesus Cristo.

18. Deus, porém, continua fiel ao seu projeto. “Arrependam-se e convertam-se para que seus pecados sejam perdoados” (v. 19). O passado fica absolvido pela misericórdia divina. Resta à nossa frente, um presente e um futuro Presente e futuro marcados pela vida ou pela morte, dependendo da opção por Jesus ou contra ele (adesão ou não) . “Disto nós somos testemunhas!” afirma Pedro. Aqui nasce nossa missão: anunciar – denunciar – convocar à conversão.

2ª leitura: 1Jo 2,1–5a

19. As comunidades da Ásia Menor eram influenciadas pela gnose grega (cuja principal característica era o “conhecimento de Deus”), que dizia que o conhecimento de Deus libertava as pessoas. O corpo não tinha valor. Assim estar com Deus não implicava levar em conta as realidades humanas, as relações sociais marcadas pelo egoísmo, individualismo, ganância e opressão. Isso quer dizer total descompromisso com uma ação transformadora da realidade e com o amor ao próximo. É uma teologia incapaz de perceber Deus agindo no concreto da história humana.

20. O autor fala da confiança que acompanha a caminhada das comunidades. Ela reside no fato de Jesus ser “a vítima de expiação pelos nossos pecados, não só pelos nossos, como também pelos pecados do mundo inteiro” (v. 2). Se a comunidade não reconhece seus pecados acaba acusando Deus de injustiça (cf. 1,8). Se os reconhece, inocenta Deus e descobre que Jesus é seu defensor junto ao Pai (2,1).

21. Os seguidores da gnose diziam que conheciam a Deus mas não traduziam esse conhecimento na prática concreta. João garante que conhecer a Deus é praticar os mandamentos, cuja síntese é o mandamento do amor.

22. Só este é capaz de acabar com as discriminações, as opressões, criando relações de liberdade e vida. Quem diz que ama a Deus e não guarda os mandamentos é mentiroso e a verdade não está nele (v. 4). A religião verdadeira se baseia na obediência a Deus que manda amar sem limites (amor a Deus e amor ao próximo- v. 5a).

R e f l e t i n d o

1. O sofrimento de Jesus é entendido de muitas maneiras, nem sempre aceitáveis. Há quem diga que Jesus teve de pagar nossos pecados com seu sangue. Mesmo se é verdade que o sofrimento de Jesus nos resgatou, não é porque Deus exigiu que ele pagasse com seu sangue nossa dívida. Seria injusto e cruel. Os homens é que “castigaram” Jesus, mas Deus o reabilitou. “Aquele que nos conduz à vida, vós o matastes, mas Deus o ressuscitou dentre os mortos” (1ª leitura).

2. Era preciso que o Cristo padecesse (evangelho), não porque Deus o desejasse, mas porque as pessoas o rejeitaram e o fizeram morrer. Mas Deus quis mostrar publicamente que Jesus – assumindo a morte infligida ao justo – teve razão. É isso que significa Ressurreição!

3. O próprio Ressuscitado cita aos discípulos os textos das Escrituras que falam nesse sentido (Lc. 24,44). Muitas vezes, a gente só descobre o sentido profundo das coisas, depois que aconteceram. Assim também foi preciso primeiro o Cristo morrer e ressuscitar, para que os discípulos descobrissem que nele se realizou o modo de agir de Deus, do qual falam as Escrituras.

4. Muitas vezes, o Antigo Testamento fala do justo perseguido ou rejeitado (Sl. 22, Sl. 69, Sb. 2), do Servo sofredor (Is. 52,13 – 53,12). Esses textos nos ensinam que – aquele que quer praticar a justiça segundo a vontade de Deus – há de enfrentar perseguição e morte.

Ora esses textos encontram em Jesus uma realização inesperada e incomparável: Aquele que Deus chama seu Filho morre por estar comprometido com o amor e a justiça de Deus.

5. Frente a essa morte a ressurreição é a homenagem de Deus a seu Filho. O que foi rebaixado pelos injustos, é reerguido por Deus e mostrado glorioso aos que nele acreditaram.

6. A ressurreição é a prova de que Deus dá razão a Jesus e de que seu amor é mais forte do que a morte. Se Deus dá razão a Jesus, se Deus endossa a prática de vida que Jesus nos ensinou por seu exemplo, já não podemos hesitar em alinhar nossa vida com a sua.

7. Jesus “ressuscitou por nós”, isto é, para nos mostrar que o certo é viver e morrer como ele. Quem morrendo ou vivendo, dá a vida pelos irmãos, não é um ingênuo. Deus lhe dá razão.

8. Que significa então, “Ele é vitima de expiação pelos nossos pecados”? (2ª leitura) À luz do que dissemos acima, esta expressão não significa que Jesus é um sacrifício oferecido para pagar em nosso lugar, mas que aquilo que os antigos queriam realizar pelas vítimas de expiação – reconciliar-se com Deus – foi realizado de modo muito superior pela vida de justiça que Jesus viveu até a morte por amor.

9. E, na medida em que o seguimos nessa prática de vida, – guardando o seu mandamento, – o amor de Deus se torna presente em nós (1Jo 2,3-5).

10. Deus glorificou seu servo Jesus, que vós entregastes à morte. Ao curar um aleijado “em nome de Jesus”, Pedro explica ao povo a força deste “nome, que supera a todos” (Fl. 2,9-11): o anúncio da ressurreição de Jesus. Recorda a culpa do povo de Jerusalém para que se converta e receba perdão e salvação. Mas este gesto e pregação de Pedro vão provocar o primeiro conflito com o Sinédrio.

11. Cristo, o Justo, propiciação dos pecados de nós e de todos: a admoestação para rompermos com o pecado inclui uma palavra de conforto: temos um Mediador que assumiu nosso pecado. Assim, ser cristão se resume em conhecer Cristo, não de modo intelectual, mas do modo da comunhão da fé, que se verifica na observância da sua palavra e na caridade perfeita.

12. Jesus aparece aos Onze… numa refeição … e explica as Escrituras. Um sepulcro vazio não convence ninguém… Os Onze precisaram da presença do Ressuscitado para que seus olhos e coração se abrissem. A fé na ressurreição é dom de Jesus e do seu Espírito. Implica na descoberta do que dizem as Escrituras, o surpreendente plano de Deus. Mas este plano não chegou ao fim. Estamos agora “no meio do tempo”, em que Deus oferece a restauração em nome de Jesus, para que todos possam viver para ele, enquanto os que crêem levam o testemunho disso ao mundo.

13. Informações que ajudam a uma melhor compreensão: sobre os termos expiação, propiciação.

DA BÍBLIA DE JERUSALÉM

13.1. Hebreus 9,11-12: “Cristo, porém, veio como sumo sacerdote dos bens vindouros. Ele atravessou uma tenda maior e mais perfeita, que não é obra de mãos humanas, isto é, que não pertence a esta criação. Entrou uma vez por todas no santuário, não com o sangue de bodes e de novilhos, mas com o próprio sangue, obtendo redenção eterna”.

Comentário letra a: o cerimonial israelita da expiação (v. 7; Lv. 16) é substituído pela única oferenda (7,27+) do sangue de Cristo (v. 14; Rm. 3,24+), que reabre para os homens o acesso a Deus (10,1.19; cf. Jo 14,6+; Ef. 2,18)… A significação profunda da aspersão do sangue sacrifical dentro do Santo dos Santos reside no simbolismo bíblico do sangue como sede da vida: trata-se de renovar a união vital entre Deus e seu povo, a aliança (cf. v. 20) e de reafirmar sua soberania sobre Israel.

Textos bíblicos citados acima para facilitar a leitura:

- Hb. 9,7: na segunda tenda, porém, entra apenas o sumo sacerdote, e somente uma vez por ano; isso não acontece sem antes oferecer sangue por suas faltas e pelas do povo.

- Lv. 16: o grande dia das expiações: este capítulo encerra a enumeração das impurezas com o rito anual de expiação de todas.

- Hb. 7,27: Ele não precisa, como os sumos sacerdotes, oferecer sacrifícios a cada dia, primeiramente por seus pecados, e depois pelos do povo. Ele já o fez uma vez por todas, oferecendo-se a si mesmo.

- Hb. 9,14: …se o sangue de bodes e novilhos… os santifica, purificando seus corpos, quanto mais o sangue de Cristo que, pelo Espírito eterno, se ofereceu a si mesmo a Deus como vítima sem mancha, há de purificar a nossa consciência das obras mortas para que prestemos culto ao Deus vivo.

- Rm. 3,24+: …e são justificados gratuitamente, por uma graça, em virtude da redenção realizada em Cristo Jesus: Deus o expôs como instrumento de propiciação, por seu próprio sangue, mediante a fé.

- Hb. 10,1: … a Lei é totalmente incapaz, apesar dos mesmos sacrifícios sempre repetidos, oferecidos sem fim a cada ano, de levar à perfeição aqueles que se aproximam de Deus.

- Hb. 10,18-19: ora, onde existe a remissão dos pecados, já não se faz a oferenda por eles. Sendo assim, irmãos, temos toda a liberdade de entrar no Santuário, pelo sangue de Jesus.

- Jo 14,6: diz-lhes Jesus: “eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”. Ninguém vem ao Pai senão por mim.

- Hb. 9,20: nele temos um caminho novo e vivo, que ele mesmo inaugurou através do véu, quer dizer, através da sua humanidade.

13.2. Hebreus 8,6: “agora, porém, Cristo possui um ministério superior. Pois ele é Mediador de aliança bem melhor, cuja constituição se baseia em melhores promessas”.

Comentário letra f: o tempo assim atribuído a Cristo tem valor quase técnico(9,15; 12,24; 13,20). Plenamente homem (2,14-18; cf. Rm. 5,15; 1Cor. 15,21; 1Tm. 2,5), possuindo todavia a plenitude da divindade (Cl. 2,9; Rm. 9,5+), Jesus é o intermediário único (Rm. 5,15-19; 1Tm. 2,5; cf. 1Cor. 3,22-23; 11,3) entre Deus e a humanidade, que ele une e reconcilia (2Cor. 5,14-20). É o intermediário da graça (Jo 1,1-2). No céu, continua a interceder por seus fiéis (7,25+).

14. DO DICIONÁRIO BÍBLICO: John L. Mckenzie, Ed. Paulus, 9ª. ed., 2005.

Expiação: teologicamente, compreende os conceitos de expiação do pecado e de reconciliação com Deus.

14.1. Antigo Testamento.

14.1.1. O termo chave – no que se refere à expiação – é o hebraico “kapper”, com seus derivados. Etimologicamente, “kapper” significa “cobrir”, “ocultar” o objeto que ofende, removendo assim o obstáculo à reconciliação. No ritual cultual, o termo é usado em sentido técnico, para indicar um ato de expiação, realizado através da aspersão do sangue da vítima. O sacerdote cumpre um ato de expiação para si mesmo, para outra pessoa ou para todo Israel; o ato representa a expiação do pecado ou da culpa. Esse é o primeiro passo da reconciliação.

14.1.2. O segundo passo é realizado pelo próprio Javé: tendo o sacerdote feito o rito de expiação pelos membros da comunidade, serão eles perdoados” (Lv. 4,20; Nm. 15,25).

14.1.3. Propiciatório

14.1.3.1. Propiciatório cf. Ex. 25,17 letra e: propiciatório é tradução do termo kapporet, da raiz kapar = “cobrir”, mas também “fazer expiação”, “limpar”. O kapporet é apresentado aqui e em Ex. 35,12 como distinto da arca. Ele intervém, sem a arca, no ritual pós-exílico do dia da Expiação (Yon Kippur; Lv. 16,15).

1 Crônicas 28,11 chama o Santo dos Santos de a “sala do propiciatório”. Parece que o propiciatório e os querubins que a ele estão ligados eram, no templo pós-exílico, o substituto da arca e dos querubins do templo de Salomão. A descrição sacerdotal os reuniu (cf. Ex 25,21). Javé aparece sobre o propiciatório e é de lá que fala a Moisés (Ex 25,22; Lv. 16,2; Nm. 7,89). – explicação da Bíblia de Jerusalém, em Ex 25,17 nota letra e.

14.1.3.2. Propiciatório (cf. Ex. 25,17; Hb. 9,5). No grande Dia da Expiação (Lv. 16,1) o propiciatório era aspergido com sangue (Lv. 16,15). O sangue de Cristo cumpriu na realidade a purificação do pecado que este rito só podia significar. – explicação da Bíblia de Jerusalém em Rm. 3,25 nota letra b.

14.1.3.3. O propiciatório de ouro sobre a Arca da Aliança era o “lugar da expiação”, o kapporet, o local onde Javé recebia a expiação. … O efeito do ato de expiação é definido pelo uso metafórico do termo em Isaías 28,18: “a vossa aliança com a morte será rompida”: desse modo, o pecado ou a culpa que constitui a causa da expiação é esvaziado ou anulado, não constituindo mais um obstáculo efetivo para a reconciliação. Também se pode alcançar a reconciliação através do pagamento de uma multa ou de uma indenização, o koper, mas esse conceito conduz à idéia do resgate ou da redenção, que não é o mesmo que a expiação.

14.2. Novo Testamento: principais traduções gregas do hebraico kapper e seus derivados no NT.

14.2.1. Hilaskesthai, hilasmos, hilasterion: em grego clássico, “reconciliar” ou “tornar favorável”, “reconciliação”, “o meio de reconciliação”. Esse uso de kapper é demonstrado em Gn. 32,20, quando Jacó diz de Esaú: “talvez ele me conceda graça”. Em Lc. 18,13; Hb. 2,17, o verbo hilaskesthai é usado no sentido de kapper do AT. O próprio Cristo é hilasmos, reconciliação para os nossos pecados, pois é exatamente para isso que o Pai o enviou (1Jo 2,2;4,10). Deus o colocou (destinou?) como hilasterion, como instrumento de reconciliação no seu sangue (Rm. 3,25); a linguagem que indica que Deus fez dele um sacrifício de expiação.

14.2.2. Katharizein, katharismos: no grego clássico, “lavar”, “purificar”… kapper se reflete em 2Cor. 7,1; Ef. 5,26 e especialmente Hb. 9,22-23; 1 Jo1,7.9, onde “expiação pelo pecado” transforma-se em “purificação pelo pecado”. Em Hb. 1,3: “realizado katharismos pelos pecados deve ser traduzido por “realizada expiação pelos pecados”.

14.2.3. Aphairein: no grego clássico, “tirar”, “levar embora”… tirar os pecados” Rm. 11,27; Hb. 10,4.

14.2.4. Kathalasso, katallage: no grego clássico, “reconcilio”, “reconciliação”. Nós nos reconciliamos com Deus (Rm. 5,10; 2Cor. 5,20); Deus reconcilia a nós e ao mundo con- sigo em Cristo (2Cor. 5,18-19); nós recebemos a reconciliação por meio de Cristo (Rm. 5,11). Os apóstolos possuem o ministério e a mensagem da reconciliação (2Cor. 5,18-19). A rejeição dos hebreus resultou na reconciliação do mundo (Rm. 11,15).

14.2.5. Nesses termos, é superada a idéia do ato ritual de expiação. Deve-se notar que, à exceção de Rm. 11,15, esses termos aparecem somente em dois contextos. Deus é agente de reconciliação mas não de expiação, que é um ato de Cristo enquanto representante dos homens. Isso fica mais claro do que nunca em Hebreus, onde o sacerdócio e o sacrifício de Cristo são comparados ao sacerdócio e ao sacrifício de Aarão, que realizou o ato de expiação pelo povo.

15. No verbete sacrifício – sacrifícios de expiação p. 822

15.1. Sacrifícios de expiação. Estes pressupõem que houve uma ruptura das boas relações entre a divindade e o adorador, e o sacrifício é a propiciação para pacificar a divindade e restaurar o seu favor. O ritual de redação sacerdotal (P) distingue a oferta pela culpa da oferta pelo pecado. O ritual da oblação é exposto em Lv. 4; as diferenças exprimem o simbolismo de expiação. Como nas ofertas pacíficas, uma parte da vítima vai aos sacerdotes e a parte gordurosa é queimada no altar para a divindade … não há banquete sacrifical; o que não é oferecido a Javé ou dado aos sacerdotes é queimado fora do acampamento. Uma santidade especial é atribuída aos sacrifícios de expiação (Lv. 4,13; Ez. 46,20).

15.2. No Novo Testamento. Jesus repete a crítica profética do sacrifício, citando Os 6,6 (Mt. 9,13; 12,7); sua insistência na necessidade de uma piedade interior está inteiramente de acordo com o ensinamento profético. Sacrifícios são metaforicamente as boas obras (“sacrifícios espirituais”, 1Pd. 2,5) ou a submissão a Deus (“oferecei vossos corpos como hóstia viva” Rm. 12,1);

15.3. O caráter sacrifical da morte de Jesus e da eucaristia … O caráter sacrifical da morte de Jesus, dizem eles, foi explicado pela primeira vez pelo autor de Hebreus. Não há dúvida de que os termos sacrificais são raros nos evangelho e nos escritos paulinos; mas há boas razões para crer que Hebreus torna explícito aquilo que era crido e ensinado na primitiva instrução apostólica. Em Hb 9-10, o sacerdócio e o sacrifício de Jesus são contrapostos ao sacerdócio e ao sacrifício de Israel e do judaísmo.

15.4. O sangue expiatório da nova aliança é o sangue de Jesus (9,12-14). Uma aliança não pode ser ratificada sem sangue (9,15-21), e não há perdão dos pecados sem derramamento de sangue sacrifical (9,22). O sacrifício expiatório de Jesus deve ser oferecido uma só vez, visto que é totalmente eficaz (9,25-28). Os sacrifícios da lei não alcançavam a verdadeira libertação do pecado (10,1-5). … Cristo, porém, ofereceu um único sacrifício perfeito que produz perdão e santidade perfeitos (10,5-18); e o cristão pode aproximar-se do santuário com fé e esperança firmes de ser libertado do pecado (10,19-25).

15.5. Essa concepção é expressa em Ef. 5,2: “Cristo nos amou e se entregou por nós como oblação e sacrifício de suave odor”. Hebreus e Efésios enfatizam aqui a oferta voluntária de Jesus; é essencial para o sacrifício que seja oferecido com o livre consentimento do adorador.

prof. Ângelo Vitório Zambon

 

 

O encontro com o Ressuscitado

Os discípulos entraram na plenitude da mensagem pascal, graças ao encontro com o Ressuscitado, fazendo a experiência pascal fundamento da fé cristã. Os cinqüenta dias seguintes da celebração da Páscoa são denominados de “Tempo Pascal”. Neste sentido celebramos no domingo passado a festa da Divina Misericórdia, no 2º domingo do tempo pascal. Consta no diário de santa Faustina que o próprio Jesus expressou seu desejo por esta celebração. O relato da passagem do filho pródigo nos apresenta um Pai Misericordioso e amoroso de que o mundo tão conturbado necessita. Que a Divina Misericórdia seja a garantia e a força para o bom desempenho de nossa missão.

Neste 3º domingo do tempo pascal, o evangelista (Lc. 24,35-48) traz uma mensagem de ânimo e coragem aos desanimados da sua época – e da nossa! A Palavra de Deus é sempre nova e atual. Vejamos: Os Apóstolos se encontram reunidos com a porta trancada dominados pelo medo. Alguns discípulos tristes e desanimados resolvem se afastar da comunidade (Lc. 24,13-48). Para as mulheres, os anjos de Deus perguntam: ”Por que estão procurando entre os mortos Àquele que está vivo? E afirmam: Ele não está aqui! Ressuscitou!” Portanto, nada de tristeza! Esta é a “Boa Notícia”, motivo de alegria. Jesus venceu a morte e está vivo no meio de nós. Em sua pregação aos judeus, foi esta Boa Noticia que Pedro levou dizendo: “O Deus de Abraão, de Isaac, de Jacó... O Deus de nossos antepassados glorificou o seu servo Jesus. Vós matastes o autor da vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos e disso nos somos testemunhas (Atos 3).” O medo dos discípulos, as dúvidas, a perturbação, tudo está perfeitamente em sintonia com o momento daquela gente. Não poderia se exigir que eles estivessem tranqüilos como se nada tivesse acontecido. Esta situação irá mudar a partir do “Pentecostes”, tema de nossa reflexão para o dia 27 de maio. Na passagem de Emaús (Lucas 24,13-48) somos convidados a fazer a experiência da presença de Jesus ressuscitado. Os discípulos reconheceram Jesus na partilha do pão e compreenderam que não devem se afastar da comunidade. De imediato retornaram para a comunidade testemunhando Jesus. A comunidade cristã é lugar por excelência da vivencia do mandamento do amor deixado por Jesus. A liturgia de hoje nos convida a fazer a experiência de Jesus Ressuscitado que se revela à comunidade que apesar de medrosa, reúne-se no Dia do Senhor (domingo). No encontro comunitário, na escuta da Palavra e na partilha do pão com os irmãos, podemos fazer a experiência do Ressuscitado e testemunhar que Ele está vivo e caminha conosco como em Emaús. Portanto, alegremo-nos por ter um companheiro na caminhada pessoal e comunitária.

Pedro Scherer

 

 

Para haver ressurreição é preciso que tudo se cumpra

Os discípulos contaram o que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus ao partir o pão. Ainda estavam falando, quando o próprio Jesus apareceu no meio deles e lhes disse: “A paz esteja convosco!” Eles ficaram assustados e cheios de medo, pensando que estavam vendo um fantasma. Mas Jesus disse: “Por que estais preocupados, e por que tendes dúvidas no coração? Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo! Tocai em mim e vede! Um fantasma não tem carne, nem ossos, como estais vendo que eu tenho”. E dizendo isso, Jesus mostrou-lhes as mãos e os pés. Mas eles ainda não podiam acreditar, porque estavam muito alegres e surpresos. Então Jesus disse: “Tendes aqui alguma coisa para comer?” Deram-lhe um pedaço de peixe assado. Ele o tomou e comeu diante deles.Depois disse-lhes: “São estas as coisas que vos falei quando ainda estava convosco: era preciso que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”. Então Jesus abriu a inteligência dos discípulos para entenderem as Escrituras, e lhes disse: “Assim está escrito: o Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia e no seu nome, serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sereis testemunhas de tudo isso”. Lc. 24,35-48

Era uma mulher triste. A vida deixara de ter sentido após as perdas sofridas. Fora despedida do emprego, seu amor partira, uma amiga a havia traído. Em nada conseguia enxergar coerência e lógica. O absurdo havia tomado conta de tudo. O tempo passou e ela, mesmo triste, um dia tomou a resolução de revisitar o passado. Olhou para trás e assustou-se. Parecia ver um fantasma. Firmou os olhos e o Senhor lhe sorria. Mostrava-lhe as chagas convidando-a para que pusesse nelas os dedos. Num átimo tudo adquiria clareza e sentido. Em cada passo daquele calvário que até então vivera, reparava as pegadas de Jesus dando significado a tudo. Nesse momento a alegria invadiu seu coração e, surpreendida, viu que tudo o que lhe parecera confuso tornara-se preciso. Passou a agradecer a Deus pelo dom da vida, pelo que tinha vivido e que a fizera crescer e pela presença dele em todos os momentos. Sentia não poder ficar quieta. Era preciso testemunhar toda aquela maravilha com as outras pessoas.

Para compreender melhor o Evangelho de Lucas neste domingo é necessário compor a cena, verificando o que havia ocorrido um pouco antes. Estamos diante da continuidade do relato daquele encontro dos dois discípulos de Emaús com o Ressuscitado.

Desanimados eles voltavam de Jerusalém para suas casas porque tudo havia perdido seu sentido. Seu Senhor tinha fracassado, fora pregado na cruz. Aqui os veremos relatando para o grupo de companheiros, ainda receosos e amedrontados, a maneira como reconheceram Jesus quando lhes partia o pão.

O reconhecimento do Cristo pelos discípulos de hoje continua a se dar na partilha do alimento. Esta, para ser completa, deve se dar em três níveis fundamentais e complementares. O primeiro é a reunião da comunidade, para fazer memória de todo o acontecido na história da salvação, até a chegada de Jesus, o salvador.

É assim que acontece conosco na primeira parte da missa. Nela “contamos”, da mesma forma que os discípulos de Emaús relatavam o ocorrido, o que aconteceu na caminhada do Povo de Deus. É a nossa Mesa partilhada a nos trazer o alimento da Palavra.

Em seguida temos a Mesa Eucarística. Nela reconhecemos Jesus na fração do pão e, muito mais ainda, nos alimentamos dele. É o momento daquele reforço tão confortador e necessário de nos sentirmos filhos amados, comunidade de irmãos, os seguidores de Jesus.

Hora de sentir o coração arder porque Ele está conosco, nos dando força e coragem para prosseguir no caminho. O peito fica aquecido, sentimo-nos bem, acolhidos pelos que conosco partilham a mesma fé. Falamos a mesma língua, nos reconhecemos pelos sentidos, ninguém nos contesta e nem nos faz críticas...

Acontece aqui a tentação de permanecer só na alegria e na surpresa do encontro com o Senhor. Temos que superá-la e vencê-la significa ir para o mundo. Colocar-se de novo na estrada sendo testemunhas dele. Alimentados pela Palavra e Eucaristia há que se partir para o irmão que está fora. Aquele que pensa diferente e que não fala a nossa mesma língua, não nos reconhece, nos questiona e muitas vezes nos critica.

Apesar desta casca aparentemente dura, ele está ávido do Senhor. Cabe-nos encontrar a linguagem mais adequada, o carinho e o cuidado na ajuda e apoio, para que também possa se alimentar, igual a nós, das maravilhas de Deus.

Será no reconhecimento do irmão, acontecido mais além da comunidade (no caminho), que o encontro com Jesus Cristo Eucarístico estará pleno de sentido e significado. “A Igreja faz a Eucaristia e a Eucaristia faz a Igreja” é o que nos ensinam os padres da Igreja, mas este mistério não se dá só no Templo.

A Igreja e a Eucaristia se fazem no meio dos homens. Ser Igreja e ser Eucarístico é sair, discípulo missionário, como nos convoca Aparecida, a levar o Senhor – Palavra e pão partilhado - a todos. Para que não haja mais necessitados da Palavra e de alimento, em nosso meio. Estar com Jesus é partilhar comida. Estar com Ele é fazer o que fez, tornando-se sua testemunha.

É interessante reparar que mesmo já tendo visto o Senhor ressuscitado sempre haverá surpresas, e mais ainda, as dúvidas poderão novamente nos acometer. Por isto é tão fundamental a comunidade. Nela reviveremos diariamente a experiência da memória da Palavra e da Partilha do Pão, a nos confirmar ininterruptamente que Ele está vivo e nos convida a seguir adiante. Ouvir a Palavra e comungar é “ver” de novo, é “tocar” as chagas que ainda existem, mas já não doem.

O encontro com Jesus Cristo vivo é causador de paz e alegria, como já tínhamos visto domingo passado. Mas, mais ainda ele será sempre surpreendente. Apesar de que os gestos são conhecidos: o partir o pão, a palavra, o caminhar, eles sempre nos deixarão admirados, eis que Deus em nós é sempre novo. Toda vez que o reconhecermos Ele estará nos ensinando algo diferente e necessário para o caminho. Exato como fazia com seus discípulos neste texto de Lucas.

Em Jesus se cumpre todo o Antigo Testamento: a Lei de Moisés, os profetas e os Salmos. Nele a revelação progressiva do Amor e carinho de Deus se completa. “Eu e o Pai somos um”. É preciso então que o tempo se faça pleno. E este acontecerá também em cada um de nós. Que chegue, como gosta de dizer João, “a hora”.

Esta, aqui é preciso cuidado, não acontece da forma que vimos na paixão porque Deus assim o tenha desejado, mas porque o coração duro da humanidade assim o quis. Pensar diferente é crer num Deus que, definitivamente, está muito distante daquele que Jesus veio nos trazer.

Nascemos e a cada passo do crescimento é preciso haver em nós mais humanidade. Cumprir a humanização, que poderíamos traduzir por santificação, é a tarefa primordial do cristão. Quanto mais nos dermos conta do quão humanos somos mais estaremos sendo precisos neste sentido.

Nessa precisão de que tudo se cumpra é que são experimentadas as vicissitudes da existência. Alegrias e realizações de um lado, dores e fracassos de outro. Esta é a vida e cumpri-la, eis que é necessário que tudo se cumpra, é crescer com tudo que nos aconteça. Foi assim com Jesus. Que seja assim com cada um de nós, para que nos tornemos suas testemunhas.

Fernando Cyrino