Um profeta em sua casa

Naquela manhã, quando Jesus leu as palavras do profeta Isaias na pequena sinagoga de Nazaré, seus vizinhos se enfureceram contra ele. Em seguida, levantaram gritos de protesto e maldições. A algazarra cresceu tão rápido que, quando o rabino quis pôr ordem naquele vespeiro, já era tarde demais...

Um vizinho: Profeta, você? Rá, rá, rá... Um profeta esfarrapado!

Uma vizinha: Você diz que vem nos libertar. Mas, quem pensa que é esse janota? E quem raios lhe pediu alguma coisa, filho de Maria. Vai embora e deixe-nos em paz!

Um velho: Botem pra fora esse embusteiro, vamos, botem-no para fora, que ele não perdeu nada por aqui!

Os nazarenos se lançaram sobre Jesus com os punhos para o alto. Quatro braços caíram sobre ele e o baixaram do estrado de onde explicava as Escrituras. Aos empurrões o tiraram pela estreita porta dos fundos. Todos saíram atrás, vaiando e assobiando...

Vizinho: Ao lixão!... Joguem ele no lixão!

Vizinha: Isso mesmo, no lixão!

Os vizinhos empurravam Jesus para um barranco de pouca altura onde as mulheres queimavam o lixo toda sexta-feira...

Ananias: Onde já se viu, chegar a essa idade para ouvir tanta estupidez!

Dom Ananias, o mais rico do povoado, levantou no ar o seu bastão e o descarregou com toda a sua fúria sobre Jesus...

Ananias: Por se meter onde não é chamado!

A coisa estava ficando feia. Eu tratei de acalmá-los, mas...

João: Patrícios, por favor, escutem um momento, não sejam...

... Não pude acabar o que ia dizer. Um nazareno gordíssimo tirou uma de suas sandálias e a arremessou em mim com toda a força...

Vizinho: Segure essa, compadre!

A sandália me pegou bem no meio do rosto e comecei a sangrar pelo nariz. Jesus também sangrava e tinha a túnica feita em tiras...

Vizinha: Ao lixão! Ao lixão! Charlatão vai pro lixão!

Eu me lembro bem daquela refrega. Agora dou risada, mas naquele momento levamos um bom susto. Os vizinhos de Jesus estavam muito furiosos e não queriam saber nada dele. Bom, isso já se sabe. Quando Moisés foi falar com os seus, lá no Egito, também o chamaram de intrometido e o mandaram embora. Outro tanto se passou com Davi, perseguido pelos próprios compatriotas. E a José, que foi vendido pelos próprios irmãos. É assim que sempre acontece. Nenhum profeta é bem recebido em sua casa.

Vizinho: Não precisamos que ninguém venha resolver nossos problemas! E muito menos você, seu bisbilhoteiro!

Vizinho: Ei, pedaço de animal, vê se não empurra!

Vizinho: O que você disse?

Vizinho: O que você ouviu: que é um pedaço de animal!

Vizinho: Repita isso que eu lhe arranco o fígado!

Vizinho: Pedaço de animal, ouviu. pedaço de animal e animal inteiro!

Vizinho: Agora você vai ver!...

Nazaré era um povoado violento e de má fama. O sol não se punha sem que os nazarenos cuspissem sete maldições e se enredassem aos sopapos por qualquer mal entendido. Em poucos segundos, seus vizinhos se esqueceram de Jesus e das palavras que havia dito na sinagoga. A briga era de todos contra todos...

Vizinho: Imbecil, porcalhão, você vai engolir essa língua nojenta!

Vizinho: Pague o que você me deve ou o estrangulo agora mesmo!

Os meninos também se meteram no barulho. Alguns juntavam pedras para os velhos que não podiam usar os punhos. As mulheres, por sua vez, arrancavam os lenços da cabeça, se agarravam pelos cabelos e se arranhavam o rosto...

Suzana: Eu vou te esmigalhar, fedorenta dos infernos!

Suzana estava derrubada no chão, brigando com a noiva do açougueiro Trifão... Vi também Maria, a mãe de Jesus, com os olhos avermelhados e todos os cabelos revoltos, tentando se aproximar de nós... Foi quando se ouviu aquele grito poderoso atrás de nós...

Judas: Chega de briga! Vamos parar com isso!

Eram dois homens, um montado sobre os ombros do outro, como um jóquei sobre um cavalo. O de baixo era um gigantão vermelho e sardento. Chamava-se Simão. O de cima também era jovem e forte. Levava amarrado ao pescoço um lenço amarelo. Em sua mão direita brilhava a lâmina de um punhal. Era Judas, de Kariot. Os dois zelotas se aproximaram dos nazarenos...

Judas: Já chega, companheiros! O que é que estão querendo? Matarem-se, destruírem-se uns aos outros? Esta briga acabou.

Vizinho: E quem é você, se é que se pode saber?

Judas: Um igual a você, amigo. Igual a este, igual àquele outro ali.

Vizinho: E quem mandou você se meter onde não é chamado?

Judas: É o que eu digo: Quem mandou me meter? Ninguém. Mas eu me meto. E sabem por que?... Porque me dói ver os ratos se mordendo enquanto o gato sorri e lambe tranqüilamente os bigodes.

Vizinho: O que você quer dizer com isso?

Judas guardou o punhal debaixo da suada túnica e de um salto desceu dos ombros de Simão... Os nazarenos se esqueceram do motivo da briga e se puseram a ouvir o recém chegado...

udas: Escutem, amigos: havia uma vez um gato com fome. E havia três ratos, um branco, um preto e outro malhado, os três bem escondidos em suas tocas. O gato pensou: o que posso fazer para comê-los? Minhas patas não conseguem entrar na toca. Que farei? Então o gato se aproximou em silêncio do primeiro buraco onde dormia o rato branco e sussurrou: ratinho branco, o ratinho preto disse que você é um vagabundo. Em seguida subiu ao buraco do preto e disse: ratinho preto, o ratinho branco disse que você é um covarde. Depois foi onde estava o terceiro rato: ratinho malhado, os outros dois estão dizendo que você é o mais imbecil dos três.

Vizinha: E o que os ratos fizeram?

Judas: A mesma coisa que nós. Saíram das tocas e começaram a brigar entre si. E acabaram tão cansados que não tinham mais forças para correr e se esconder. Então veio o gato risonho, os agarrou um por um pelo rabo, e zaz!... engoliu os três. É isso que querem esses romanos invasores: fazer com que briguemos entre nós para nos engolir depois. Companheiros, eles nos querem dividir. “Divida e vencerás”: assim diz a águia romana que tem duas cabeças! Estão vendo este lenço que levo no pescoço? Ele me foi dado por Ariel, neto legítimo dos Macabeus. Aqueles sim é que foram bons patriotas. Eles não gastaram suas forças brigando com seus irmãos.

Vizinha: Isso que Judas de Kariot está dizendo é verdade! Os inimigos são outros!

Judas: É isso mesmo, mulher. Guardem o punhal para o pescoço dos estrangeiros. Guardem as pedras para a cabeça de Herodes e sua gente. Guardem as forças para lutar contra eles quando chegar a hora.

Então Judas tirou o punhal. Com uma mão agarrou uma mecha de seus cabelos e com a outra a cortou com um só golpe. Em seguida lançou os cabelos ao ar, com um juramento:

Judas: Livres como esses cabelos que cortei, assim queremos ser!... Que o Deus dos exércitos me corte pelo meio se não lutar pela liberdade dos meus!... Pela liberdade do povo de Israel!

Os nazarenos já tinham bastante sobre o que conversar e entreter-se por aquela tarde. Cada um voltou para sua choça sacudindo a poeira dos mantos. A briga lhes havia aberto o apetite. Judas e Simão, os dois zelotas, se aproximaram de nós...

Judas: Como está este trovão, o filho de Zebedeu?

Simão: A gente conhece essa barba bem de longe, João!

João: E eu também a vocês. Que surpresa encontrar você por essas paradas, Judas. Caramba, Simão, quanto tempo que não o vejo!

Simão: Como vai, João? E os outros rapazes? Ainda jogando redes para pegar caranguejos?

João: Olhem, apresento a vocês um amigo: este moreno é nascido aqui mesmo, em Nazaré. Mas agora está vivendo conosco em Cafarnaum. Chama-se Jesus e tem boas idéias na moleira, sim senhor! Olhe, Jesus, este gigante cheio de sardas é Simão, o zelota mais fanático de todo o movimento. Dá um murro num soldado romano e, antes que ele vire a bochecha direita, já levou outro na esquerda. E este com o lenço amarelo é Judas, um patriota como não há dois. Nasceu longe daqui, em Kariot, mas já sabe cuspir por entre os dentes como nós galileus.

Jesus: Me alegro em saudá-lo, Judas, e... também lhe agradeço.

Judas: Agradece por que?

Jesus: Como por que? Porque você nos salvou a vida, companheiro. Se vocês não chegassem eu e João já estaríamos moídos a pau...

Simão: Mas, João não disse que eles são seus vizinhos?...

Jesus: Por isso mesmo. Você nunca ouviu aquele ditado que diz que aquele que come com você no mesmo prato é o primeiro que levanta o calcanhar contra você?

Simão: Tem razão, é isso mesmo. Bem, Judas, já é tarde. Vamos embora.

João: Vão para Caná?

Judas: Não, a Séforis. Há um delator no grupo de lá e precisamos averiguar quem é. Não podemos permitir nenhuma traição entre os zelotas.

João: Está certo, Judas. Duro com os traidores.

Judas: Escute, Jesus, gostaria de falar mais com você. Acho que você pode colaborar com a nossa luta.

Jesus: E eu também acho que Simão e você também podem dar uma mão para nós. Também temos planos.

Judas: Claro que sim, companheiro, é para isso que estamos aqui, para nos ajudarmos uns aos outros. João, até a vista. Jesus, eu o verei em Cafarnaum.

João: Até mais, Judas, que o lenço dos Macabeus lhe dê sorte!

Simão: Adeus, rapazes, até outra vez!

Jesus: Adeus, adeus!... Venha, João, vamos logo lá para a casa de minha mãe que a esta hora já deve estar mais preocupada que os pedreiros da torre de Babel!

Jesus e eu fomos caminhando até a casa de Maria... Enquanto isso, nenhum nazareno mantinha a língua quieta...

Um velho: Esse sim tem cara de pau, compadre! Veja só, vir aqui e dar uma de profeta! Rá! Profeta esse moreno que eu vi nascer e de quem limpei o nariz mais de 40 vezes!

Uma vizinha: Eu tenho é raiva desses agitadores de meia tigela. Falam de paz, mas o que trazem é a espada! Muito amor e muita história e vejam só o que armaram!

Um vizinho: Que coisa esse filho da Maria, não?! Tão boa gente, tão complacente... e veja no que foi dar!... Bem, já era de se esperar... Más companhias, sabe, a mãe mole demais...

Maria: Ai, filho, por Deus, que vergonha, que vergonha!

Suzana: Diga melhor: que atrevimento! Parece mentira, Jesus!

Maria: Ai, filho e o que vai acontecer agora?

Jesus: Nada, mamãe. Volto para Cafarnaum. Não se angustie por causa de mim.

Susana: Bem que eu avisei, Maria. Diga-me com quem andas e eu te direi quem és. Olhe só esse cabeludo que veio com ele...

João: Olhe, senhora, eu não...

Suzana: Você é um deles, desses agitadores de Cafarnaum. E também o Pedro atira-pedras, o magricela do André e o Tiago cabelo de fogo... Belos amigos você encontrou. E você não viu aqueles dois que apareceram, encarapitados como cavalos... Ah, que juventude mais bagunceira esta!

Jesus: Vamos, Suzana, pare com isso, que você também sempre bagunça quando tem oportunidade. Eu a vi quando tinha a noiva do Trifão agarrada pelos cabelos.

Maria: Jesus, filho, eu lhe suplico, faça isso por mim, não se meta em mais confusão...

Jesus: Mas, mamãe, se eu não fiz mais que explicar o que dizia a Escritura e começaram as pedradas. Que culpa tenho eu? Diga a Deus que não fale tão claro. Me parece que Deus é que tem ganas de se meter em confusão...

No dia seguinte, bem cedo, Jesus e eu fizemos o caminho de volta a Cafarnaum. Voltávamos doloridos e com hematomas pelo corpo. Mas estávamos contentes. Havíamos estreado a voz para proclamar a boa notícia da libertação dos pobres.

Comentários

A oposição dos patrícios de Jesus que começou não aceitando que “um igual a eles” se apresentasse como profeta para falar-lhes de libertação, degenerou em luta coletiva. É próprio dos vilarejos pequenos estes desabafos de violência em que aparecem à tona ressentimentos e vinganças acumuladas. É preciso também levar em conta que entre os povos orientais são freqüentes estes tumultos, fruto da impulsividade que os caracteriza.

As palavras de Jesus na sinagoga se convertem em sinal de contradição, em escândalo para seus patrícios. O são para os que tinham riquezas, porque são palavras que reclamam justiça, igualdade. Para a maioria, os pobres, o são também, neste primeiro momento, porque resistem em aceitar um pobre como eles como líder. Os longos sofrimentos, muitas vezes, tornam céticos os pobres. E como o primeiro preço a ser pago para alcançar a libertação é o risco de pôr-se a caminho sem saber bem como andar, sempre se encontram resistências. Nesse momento a tarefa do profeta é difícil, pois tem contra, de uma só vez, o opressor e o oprimido que não rompeu ainda sua casca de passividade (Ex 5, 19-22). A fé cristã proclamada e vivida é sempre um sinal de contradição. O evangelho não é um bálsamo eficaz para alcançar uma harmonia universal pelo caminho do amor. É um desencadeador de conflitos. Jesus falou que vinha trazer guerra e não paz. E se a palavra evangélica é espada de dois gumes é porque divide, corta, fere, põe às claras a hipocrisia encoberta de falsa religião, a desigualdade entre os homens, a injustiça que mantém essa desigualdade, e também o medo da liberdade que existe no coração do homem oprimido.

No relato se apresenta Judas, de Kariot (ou Iscariotes). Segundo alguns, esse sobrenome faria referência ao lugar de origem de Judas: “Kariot”, pequena aldeia da região de Judá. No entanto, especialistas no tema dos zelotas vêm em “iscariotes” uma deformação de “sicário”. Os sicários eram um grupo fanaticamente nacionalista do partido dos zelotas que usavam a “sica” (punhal) para cometer atentados terroristas contra os romanos. Judas vem acompanhado de Simão “o zelota”, outro dos doze apóstolos. Tudo isso indica que no grupo de Jesus houve homens de diferentes tendências políticas. Os mais extremistas ainda foram convocados por Jesus, que nunca aparece no Evangelho - expressando-o em termos atuais - como um “homem de partido”, mas como o líder de um movimento popular, marginal às instituições oficiais.

O fato de que Judas tenha traído Jesus, acumulou ao longo da história brasas acesas sobre sua cabeça. Ele passou a ser o mais claro exemplo da perversidade, a própria encarnação do mal. A figura histórica daquele homem foi mitificada ao máximo e, sobre ela, gerações de cristãos descarregaram seus sentimentos de culpa, transformando Judas numa espécie de “bode expiatório”. Há povoados e aldeias onde se malha, se queima ou se enforca um Judas de pano todos os anos. É preciso tirar esta crosta que nos impede de ver em Judas mais um amigo de Jesus, seguramente mais politizado que os outros e, talvez por isso mesmo, mais prático, mais eficaz.

No relato, Judas conta aos seus vizinhos de Nazaré uma história com todas as características das parábolas. Explicar uma idéia, dar um ensinamento valendo-se de imagens - pois é isso que é uma parábola - não era exclusivo do modo de falar de Jesus. É um gênero oriental de expressão, muito comum especialmente entre as classes populares.

Para assinalar politicamente o personagem, Judas aparece trazendo ao pescoço um lenço amarelo pertencente a um neto dos irmãos Macabeus, heróis da resistência judaica contra a dominação dos gregos no país, uns cento e sessenta anos antes do nascimento de Jesus. Os Macabeus foram os organizadores da luta contra o poderoso império helênico. Na memória do povo era um símbolo de valentia, patriotismo e liberdade. (Lucas 4, 28-30)

 

 

Ele se admirava da incredulidade deles

Hoje a Liturgia nos ajuda a descobrir os sentimentos do coração de Jesus: «Ele se admirava da incredulidade deles» (Mc. 6,6). Sem dúvida, aos discípulos devia impressionar a incredulidade dos concidadãos do Mestre e a reação de Jesus. Teria parecido mais natural que as coisas tivessem se sucedido de outra maneira: ao chegar à terra em que havia vivido tantos anos, e tendo eles ouvido contar as obras que realizava, a conseqüência lógica seria que O acolhessem com carinho e confiança, que tivessem mais disposição que os demais para escutar seus ensinamentos. Entretanto, não foi assim, pelo contrário: «E Ele se tornou para eles uma pedra de tropeço» (Mc. 6,3).

O estranhamento de Jesus com a atitude das pessoas de sua terra mostra um coração que confia nos homens, que espera uma resposta e não fica indiferente perante a falta dela, porque é um coração que se doa em vista do nosso bem. Já o expressou bem São Bernardo, quando escreveu: «O Filho de Deus veio ao mundo e fez tais maravilhas, que tirou nossa compreensão do mundano, para que meditássemos e nunca deixássemos de ponderar suas maravilhas. Deixou-nos horizontes infinitos para entretenimento de nossa inteligência, e um rio caudaloso de idéias que é impossível percorrê-lo todo. Há alguém capaz de compreender por que razão a Suprema Majestade quis morrer para nos dar a vida, quis servir para que nós reinássemos, quis viver desterrado para levar-nos à pátria, e quis rebaixar-se ao mais desprezível e ordinário para nos exaltar acima de tudo?».

Poderíamos pensar como poderia ter mudado a vida dos habitantes de Nazaré se tivessem se aproximado de Jesus com fé. Por isso todos os dias temos que pedir como seus discípulos: «Aumenta a nossa fé!»” (Lc. 17,5), para que nos abramos mais e mais à Sua ação amorosa em nós.

p. Joaquim Petit Llimona, L.C.

 

 

«De onde» és tu?

1. O Evangelho deste domingo XIV do tempo comum (Marcos 6,1-6) enlaça no do domingo passado (XIII), pondo Jesus a sair de lá (Marcos 6,1), isto é, de Cafarnaum, da casa de Jairo (Marcos 5,35-43), e a dirigir-se para a sua pátria (pátris) (Marcos 6,1), ao encontro dos seus familiares e conterrâneos, sendo o sábado e a sinagoga (Marcos 6,2) o natural lugar desse encontro. Esta primeira ida de Jesus à sua pátria é também, no Evangelho de Marcos, a última vez que ensina numa sinagoga, e o sábado será mencionado apenas mais uma vez, precisamente na manhã de Páscoa (Marcos 16,1).

2. E, portanto, tudo neste texto, neste encontro, assume um caráter decisivo. Desde logo a escolha do termo «pátria», que carrega consigo um significado mais intenso e mais amplo do que o mais habitual de «povoação». Com esta forma de dizer, este decisivo encontro com Jesus não fica apenas circunscrito a uma pequena região da Galileia, mas prefigura já o encontro de Jesus com o inteiro Israel, e a rejeição que lhe será movida por este. São mesmo já visíveis desde aqui as resistências ao Evangelho radicadas no nosso coração, e que o Quarto Evangelho porá a claro: «Veio para o que era seu, e os seus não o receberam» (João 1,11). Mas também esta última vez a ensinar na sinagoga, e este sábado que aponta para aquele último «passado o sábado» (Marcos 16,1), devem gravar em nós evocações e apelos decisivos. Tudo o que tem sabor a último carrega um particular peso específico.

3. Aventurando-nos um pouco mais dentro do texto, não ficaremos certamente admirados por vermos que estes conterrâneos de Jesus estejam a par das suas humildes e bem conhecidas raízes geográficas e familiares que, na mentalidade antiga, determinam a identidade e a capacidade da pessoa. Notaremos ainda, sem grande espanto, que os conterrâneos de Jesus sabem, em termos anagráficos, muito mais do que o leitor sobre Jesus: dele sabem indicar a família, a profissão, a residência. O que nos deve espantar, isso sim, é que aqueles conterrâneos de Jesus não saibam dizer «de onde» lhe vem aquela sabedoria única e os prodígios que realiza.

4. Às vezes, por termos os olhos tão embrenhados na terra, nas coisas da terra, não conseguimos ver o céu! Veja-se a iluminante cena da cura do cego de nascença (João 9). Em diálogo com o cego curado, os fariseus acabam por afirmar acerca de Jesus: «Esse não sabemos de onde é» (João 9,29), ao que o cego curado responde, apontando a cegueira deles: «Isso é «espantoso»: vós não sabeis de onde Ele é; e, no entanto, Ele abriu-me os olhos!» (João 9,30). Que é como quem diz: só não vê quem não quer! Tal como o cego, e fazendo uso da mesma linguagem, também Jesus «estava espantado» com a falta de fé dos seus conterrâneos (Marcos 6,6). Note-se bem que a falta de fé aqui assinalada não é apenas a negação de Deus. É a rejeição de Jesus em nome de uma errada concepção de Deus. Podemos dizer mesmo: para salvar a honra de Deus. Veja-se bem até onde pode chegar a nossa cegueira!

5. Numa altura em que se fala muito da «recepção» do Concílio II do Vaticano, dado que estamos a três meses da celebração dos 50 anos da sua abertura, ocorrida a 11 de outubro de 1962, podemos falar também, com as devidas distâncias, da «recepção» de Jesus e do seu Evangelho. O texto diz-nos que os seus conterrâneos não o receberam, não se deixaram atravessar por Ele, pelo Céu que Ele indicava e trazia. Ponte para o próximo domingo (XV), em que ouviremos o episódio que se segue imediatamente ao de hoje (Marcos 6,7-11). Aí, Jesus enviará os seus doze apóstolos dois a dois, despojados de meios ou de equipamento, para ressaltar bem a importância do Anúncio do Evangelho. Mas a ponte entre os dois textos e respectivos domingos está em que ouviremos Jesus dizer aos seus apóstolos: «Qualquer lugar que não vos receba…». Os livros dizem que, em Marcos, o verbo «receber» está sempre referido a Jesus. Trata-se de «receber», de «acolher» Jesus. É então também fácil ver qual é o «lugar» que não «recebeu» Jesus. Mas o problema é sempre este: e nós?

6. A figura de Ezequiel, profeta frágil, mas que aponta para um «Deus que dá força» (etimologia do seu nome), por 93 vezes interpelado por Deus com a locução «Filho do Homem», é por Deus incumbido da missão difícil de ser sentinela (tsopeh) (Ezequiel 3,17; 33,7) da casa rebelde de Israel, junto do rio Cobar, em Tel ’Abîb (Ezequiel 1,1-3; 3,15), na Babilónia. Tel ’Abîb significa «colina da primavera» ou das «espigas». É um lugar duro de exílio, mas, porque lembra a primavera, é também um nome carregado de esperança. Os judeus deram este nome significativo a uma das primeiras colónias que fundaram na Palestina, junto da costa Mediterrânica, em finais do século XIX, onde se situa hoje a capital política de Israel. O rio Cobar é um canal de irrigação, hoje chamado Shatt Ennil, que parte do Eufrates para irrigar a cidade de Nippur, onde os Babilónios instalaram deportados oriundos de diferentes proveniências, entre os quais se contam os deportados de Judá. Na sua fragilidade e na rejeição que experimenta, o profeta Ezequiel ajuda a perceber e a «receber» melhor a figura de Jesus, o Deus feito homem, que a si mesmo se diz nos Evangelhos, por 82 vezes, «Filho do Homem».

7. E são Paulo dá testemunho, na segunda carta aos Coríntios (12,7-10) da força nova de Cristo, que o habita: «Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que se manifesta a minha força». E ainda: «Quando sou fraco, então é sou forte».

dom António Couto

 

 

A difícil condição do profeta!

Poucas vezes o Evangelho se refere a sentimentos de decepção de Jesus. Somente algo muito extraordinário é capaz de provocar uma reação emocional decepcionante em Jesus digna de ser mencionada no Evangelho. Não discutamos o indiscutível querendo argumentar que isso demonstra que Jesus não tinha sentimentos. Os evangelistas preferiram relatar aquelas emoções que chamaram atenção pela amplitude do fato. O que ouvimos no Evangelho deste domingo é exemplo disso: Jesus se admirou da incredulidade do pessoal de sua cidade, seus parentes e seus vizinhos. Jesus se viu diante de um pessoal que colocava tantas barreiras diante de sua pessoa e do seu Evangelho a ponto de ficar admirado da falta de fé. Depois de ver e ouvir falar dos milagres que fizera, o povo veio ao encontro de Jesus com atitudes de surdez, mudez e cegueira. Negavam-se a crer e acolher Jesus. Isso impediu Jesus de fazer milagres e, principalmente, de anunciar o Evangelho.

A recusa da mensagem divina, anunciada pelo profeta, não é um fato extraordinário na Bíblia. Existem várias passagens que o profeta fala para o vazio, para um público de surdos e indiferentes. A 1ª leitura é uma demonstração disso. Ezequiel fala e ninguém o ouve, ninguém presta atenção ao que diz. Preferem ouvir outras vozes e seguir outros ensinamentos que dar ouvidos ao que o profeta anuncia, mesmo sabendo que se trata de uma mensagem divina. Deus demonstra irritação diante da recusa do povo, a quem denomina de “povo teimoso”, “cabeçudo”; “dura cerviz”. O problema da comunicação não está em Deus e, muito menos, na mensagem, mas em quem que se recusa acolher a mensagem. A 2ª leitura trata do mesmo argumento, embora com outro enfoque. Paulo faz referência à indiferença das pessoas, comentando que foi recebido com injúrias e com perseguições, o que lhe rendeu muitas angústias, que hoje poderíamos falar de estresse, de gastrites, de fadiga crônica... tudo isso sofreu por causa da evangelização. 

Considerando essa realidade, da rejeição dos profetas, da rejeição de Jesus e de seu Evangelho, da recusa de Paulo como evangelizador, o salmista grita em sua oração: “tende piedade, Senhor, já é demais esse desprezo! Estamos fartos dos escárnios dos ricaços e do desprezo dos soberbos”. A mesma oração pode ser feita pela Igreja de nossos dias. Os evangelizadores de nossos tempos podem fazer a mesma prece: estamos cansados do desprezo, Senhor; falamos, anunciamos o Evangelho, mas encontramos a indiferença, a surdez e a gozação. A realidade social de nossos dias, que coloca total confiança na tecnologia e na ciência, aumenta a distância entre as pessoas e Deus. Existe uma espécie de auto-suficiência humana que, cada vez mais considera que Deus e religião são desnecessários para nossas vidas. A coisa piora quando aparecem ondas de escândalos, seja na nossa Igreja que entre os evangélicos. Olhe para nossos jovens, a grande massa da juventude (adolescentes e universitários) além de não demonstrarem nenhum interesse pelo Evangelho, cada vez o conhecem menos. Não falo isso para desanimar ninguém e nem é uma confissão de impotência de minha parte e da parte da Igreja. O que pretendo mostrar é como o poder divino age através de nossa fragilidade humana. Como usa a fragilidade humana para evangelizar.

Mas, onde está o problema que tanto dificulta o acolhimento da evangelização? Existem vários desafios, mas vou citar dois apenas.

De um deles já fiz referência acima: o encantamento das pessoas pela tecnologia, a ponto de idolatrar as conquistas e dirigir a vida de muita gente para o entretenimento; tudo é diversão e tudo que interroga nossa existência não é bem-vindo, principalmente se vem do lado religioso.

O outro elemento é a idéia que fazemos de Jesus. No tempo que Jesus viveu na terra, as pessoas imaginavam que o Messias viria com poder, pomposo, descendo das nuvens, com prodígios e milagres. A mesma mentalidade continua em muitos programas religiosos, na televisão e no rádio, com promessas de milagres, de curas, de resolução de todo tipo de problema, até mesmo financeiro. Mas, Jesus escolheu esse caminho; vem como pessoa humana, gente como nós. Hoje, se anuncia demais um Jesus milagroso, enquanto ele se apresenta como Jesus Mestre, que ensina um caminho de vida, que propõe um estilo de viver para se cultivar uma nova mentalidade pessoal e social. É o que diz a conclusão do Evangelho: Jesus ensina, Jesus continua ensinando. É esse Jesus que precisamos buscar e apresentar aos nossos filhos, aos nossos jovens, aos adultos e idosos. Um Jesus que tem uma mensagem que indica o caminho da vida e um modo diferente de viver. Que isso não seja visto por nós como uma montanha intransponível, mas como um desafio, pois a fé é capaz de remover todo tipo de montanha, mesmo que esta seja feita de indiferença.

padre Edson

 

 

Jesus de Nazaré, o Filho de Deus

O evangelista Marcos narra que Jesus foi para “Sua própria terra”, isto é, para Sua cidade de origem, a cidade de Sua família: Nazaré. Para Marcos, esta é a última vez que Ele àquele lugar. É também a última vez que Ele entra numa sinagoga, lugar onde os judeus se reuniam aos sábados para ouvir a Palavra de Deus e rezar. No início, quem se admira são os ouvintes. Porém, a admiração não os leva à fé em Jesus, mas sim a rejeitá-lo. No final desse Evangelho, é Jesus quem se admira com a falta de fé daquele povo. Essa falta de fé no Homem-Jesus impede a realização de milagres, isto é, o Reino acaba não acontecendo em Nazaré.

Marcos dá a entender que o povo estava cansado com esse costume. De fato, quando o Senhor entra, pela primeira vez, numa sinagoga e começa a ensinar (cf. 1,21-28), o povo gosta desse novo ensinamento dado com autoridade (cf. 1,27).

Em Nazaré, terra de Jesus, as coisas tomaram um rumo diferente. É que Ele não havia frequentado nenhuma escola de ensino das Escrituras, não fez nenhuma especialização. Além disso, Seu ensinamento é acompanhado de uma prática que livra as pessoas de qualquer tipo de opressão. Marcos não consegue mostrá-Lo ensinando sem que antes Ele desse a verdadeira liberdade ao homem. Mais ainda: Seu ensinamento é uma prática de autêntica liberdade.

Em Nazaré, num dia de sábado, Jesus está ensinando na sinagoga. Mais uma vez o evangelista não diz o que Jesus ensina. Nós não precisamos de explicações, pois conhecemos que tipo de ensinamento é o d’Ele.

O povo que está na sinagoga manifesta sua perplexidade e descrédito em relação a Jesus. A primeira e a segunda levantam suspeita e ceticismo: “De onde ele recebeu tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria?” Por trás dessas objeções está o início da rejeição de Jesus como Messias. Naquele tempo, especulavam muito sobre a origem do Messias. E a conclusão a que chegaram era esta: “Nós sabemos de onde vem esse Jesus, mas, quando chegar o Messias, ninguém saberá de onde ele vem” (Jo 7,27). Jesus, portanto, não poderia ser o Messias, pois sua origem era conhecida por todos. Além disso, para os conterrâneos de Cristo é impossível “fazer teologia” sem passar pela escola dos doutores da Lei e fariseus.

A terceira pergunta levanta suspeitas sobre quem age por meio de Jesus: “E esses grandes milagres que são realizados por suas mãos?” Um pouco antes, alguns doutores da Lei afirmavam que o chefe dos demônios agia em Jesus, levando-O a expulsar demônios. O povo de Nazaré deixa transparecer essa mentalidade.

A última pergunta sintetiza todas as anteriores: “Esse homem não é o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? Suas irmãs não moram aqui conosco?” É uma pergunta desmoralizante e debochada. Quando se queria desprezar alguém, bastava substituir o nome do pai pelo da mãe. Por isso, a expressão “filho de Maria” (a não ser que José já tivesse morrido) é altamente depreciativa. E a conclusão é muito simples: “Ficaram escandalizados por causa dele”, isto é, seus conterrâneos O rejeitaram.

Jesus, portanto, foi rejeitado, porque se apresentou como um trabalhador que cresceu em Nazaré ao lado de parentes, amigos e conhecidos. Seus conterrâneos não descobriram n’Ele nada de extraordinário que pudesse indicá-Lo como o Messias de Deus, mas a extraordinariedade de Jesus-Messias está justamente aí, na Encarnação, no fato de não ter nada que possa diferir da condição humana comum. O Filho de Deus se fez como qualquer um de nós, e aqui está o “nó da questão”. Muitos afirmam que “não creem, porque não veem”. Os conterrâneos de Jesus não creem, justamente porque veem Jesus trabalhador, o filho de Maria, um homem do povo, que não frequentou nenhuma escola superior, um homem que vem de Nazaré, lugarejo insignificante.

O “escândalo” da Encarnação continua sendo um espinho atravessado na garganta de muito cristão de boa vontade. Por se encarnar nas realidades humanas, Jesus-Messias foi rejeitado. Isso faz pensar no desafio que é a encarnação do Evangelho na realidade do povo. Ficaremos paralisados como os conterrâneos de Jesus?

Pai, abra minha mente e meu coração para eu compreender que o Senhor se serve de meios humanamente modestos para realizar as suas maravilhas.

padre Bantu Mendonça Katchipwi Sayla

 

 

Retiremos a incredulidade do nosso coração

Deus não faz mais em nossa vida por causa da nossa incredulidade, da nossa rebeldia

“E ali não pôde fazer milagre algum. Apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos. E admirou-se com a falta de fé deles. Jesus percorria os povoados da redondeza, ensinando” (Marcos 6,5-6).

A primeira missão de Jesus é ensinar, é formar e educar. A missão de um pai e de uma mãe é ensinar e educar, e a missão da Igreja é a mesma de Jesus. Precisamos ensinar a Boa Nova, precisamos ensinar o modo de Jesus para as pessoas viverem.

.:Participe do Aprofundamento ‘Estudo Orante da Bíblia’ com padre Roger Araújo

É verdade que alguns não vão acolher ou não acolhem os ensinamentos de Deus e da Igreja, assim como muitos não acolhem os ensinamentos do pai e da mãe, manifestando uma total incredulidade. O filho, quando é pequeno, e o coração está formado na obediência e na graça, ele acolhe de bom grado aquilo que vem do coração do pai e da mãe. Quando a rebeldia toma conta daquele coração, ele começa a desprezar o ensinamento dos pais.

Quando o nosso coração está em Deus, acolhemos com amor e ternura os ensinamentos d’Ele e da Igreja. Mas se o nosso coração é tomado pela incredulidade, pela rebeldia de espírito e de mente, não acolhemos o Senhor.

Jesus, na Sua própria cidade, experimentou a incredulidade e a rebeldia, porque muitos O olharam somente de forma humana, não acolheram a novidade que Ele trazia no coração. Ali, Ele não pôde fazer muitos milagres.

Deus não faz mais em nossa vida por causa da nossa rebeldia, porque ficamos muito mais na dúvida e no questionamento do que crendo n’Ele, no que Ele pode fazer e faz por nós.

Quando um coração está fechado e travado, ele não se abre para escutar. A primeira graça e o grande milagre que precisamos, a cada dia da nossa vida, é o milagre de ser ensinado, educado e formado; o milagre de saber escutar Jesus e obedecer aquilo que Ele nos ensina. Se assim fizermos, cresceremos na experiência com Jesus e Ele realizará os milagres e as graças em nossa vida.

Jesus se admirava com a falta de fé daquele povo. Não sejamos tomados pela falta de fé, mas pela total confiança em Jesus, o Mestre que nos ensina a arte de viver.

padre Roger Araújo

 

 

Sábio e curador

Não tinha poder cultural como os escribas. Não era um intelectual com estudo. Tampouco, possuía o poder sagrado dos sacerdotes do Templo. Não era membro de uma família honorável nem pertencia às elites urbanas de Séforis ou Tiberíades. Jesus era um «operário da construção», de uma aldeia desconhecida da Baixa Galileia.

Não havia estudado em alguma escola rabínica. Não se dedicava a explicar a Lei. Não lhe preocupavam as discussões doutrinais. Não se interessou jamais pelos ritos do Templo. As pessoas o viam como um mestre que ensinava a entender e viver a vida de uma maneira diferente.

Segundo Marcos, quando Jesus chegou em Nazaré acompanhado de seus discípulos, seus vizinhos ficaram surpreendidos por duas coisas: a sabedoria de seu coração e a força curadora de suas mãos. Era o que mais atraía as pessoas. Jesus não era um pensador que explicava uma doutrina, mas um sábio que comunicava sua experiência de Deus e ensinava a viver sob o signo do amor. Não era um líder autoritário que impunha seu poder, mas um curador que sanava a vida e aliviava o sofrimento.

Para as pessoas de Nazaré não lhes custou muito desacreditar de Jesus. Neutralizaram sua presença com toda a sorte de perguntas, suspeitas e receios. Não se deixaram ensinar por ele nem se abriram à sua força curadora. Jesus não pôde aproximá-los de Deus, nem curar a todos como havia desejado.

Não se pode entender Jesus a partir de fora. Deve-se entrar em contato com ele. Deixar que vá introduzindo pouco a pouco em nós coisas tão decisivas como a alegria de viver, a compaixão ou a vontade de criar um mundo mais justo. Deixar que nos ensine a viver na presença amistosa e próxima de Deus. Quando alguém se aproxima de Jesus, não se sente atraído por uma doutrina, mas CONVIDADO a viver de uma maneira nova.

Por outro lado, para experimentar sua força salvadora, é necessário deixar-nos curar por ele:

* recuperar pouco a pouco a liberdade interior,

* liberar-nos de medos que nos paralisam,

* atrevermos a sair da mediocridade.

Jesus continua, hoje, «impondo suas mãos». Somente se curam aqueles que creem nele.

 

 

 

A fé pode curar

Durante muito tempo o Ocidente ignorou, quase totalmente, o papel do espírito na cura da pessoa. Hoje, pelo contrário, se reconhece abertamente que, grande parte das enfermidades modernas são de origem psicossomática e tem uma dimensão psicossomática.

No entanto, muitas pessoas ignoram que sua verdadeira enfermidade se encontra em um nível mais profundo que o estresse, a pressão arterial ou a depressão. Não se dão conta de que a deterioração de sua saúde começa a gestar-se em:

* sua vida absurda e sem sentido,

* na carência de amor verdadeiro,

* na culpabilidade vivida sem a experiência do perdão,

* no desejo centrado egoisticamente sobre si mesmo ou

* em tantas outras «enfermidades» que impedem o desenvolvimento de uma vida saldável.

Certamente, seria degradar a religião utilizá-la como um de tantos remédios para ter boa saúde física e psíquica; a razão de ser da religião não é a saúde do homem, mas a sua salvação definitiva. Porém, uma vez estabelecido isto, temos de afirmar que a fé possui força sanadora e que acolher Deus com confiança pode ajudar as pessoas a viver de maneira mais sadia.

A razão é simples. O “EU” MAIS PROFUNDO do ser humano pede sentido, esperança e, sobretudo, AMOR. Muitas pessoas começam a adoecer por falta de amor. Por isso, a experiência de saber-se amado incondicionalmente por Deus cura. Os problemas não desaparecem. Porém, saber, no nível mais profundo de meu ser, que sou amado sempre e em qualquer circunstância, e não porque eu sou bom e santo, mas porque Deus é bom e me quer, é uma experiência que gera ESTABILIDADE INTERIOR.

A partir desta experiência básica, o crente pode ir curando feridas de seu passado. É bem sabido que grande parte das neuroses e alterações psicofísicas estão vinculadas a essa capacidade humana de gravar e armazenar tudo. O amor de Deus acolhido com fé pode ajudar a enxergar com paz erros e pecados, pode libertar das vozes inquietantes do passado, pode afugentar espíritos malignos que, às vezes, povoam a nossa memória. Tudo fica abandonado confiantemente ao AMOR de Deus.

Por outro lado, essa experiência do AMOR DE DEUS pode curar o viver de cada dia. Na vida tudo é graça para quem vive aberto a Deus; pode-se trabalhar com sentido apesar de não obter resultados; tudo se pode unificar e integrar a partir do amor; a experiência mais negativa e dolorosa pode ser vivida de maneira positiva.

O evangelista Marcos recorda em seu evangelho que Jesus não pôde curar em Nazaré porque a muitos faltava-lhes a fé. Esse pode ser também o nosso caso. Não vivemos a fé com suficiente profundidade como para experimentar seu poder curador.

 

 

Rejeitado entre os seus

Jesus não é um sacerdote do Templo, ocupado em cuidar e promover a religião. Tampouco é confundido com um mestre da Lei, dedicado à defesa da Torá de Moisés. Os camponeses da Galileia vêm seus gestos curativos e nas suas palavras de fogo eles percebem a atuação de um profeta movido pelo Espírito de Deus.

Jesus sabe que lhe aguarda uma vida difícil e conflituosa. Os dirigentes religiosos irão enfrentá-lo. Esse é o destino de todo profeta. Não suspeita ainda que seja rejeitado justamente entre os seus, entre aqueles que mais o conhecem desde pequeno.

A rejeição de Jesus em seu povo de Nazaré foi muito comentada entre os primeiros cristãos. Três evangelistas recolhem a cena com todos os detalhes. Segundo Marcos, Jesus chega a Nazaré acompanhado de um grupo de discípulos e com fama de profeta curador. Seus vizinhos não sabem o que pensar.

Ao chegar o dia de sábado, Jesus entra na pequena sinagoga do povo e "começa a ensinar". Seus vizinhos e familiares apenas o escutam. Entre eles nascem todo tipo de perguntas. Conhecem Jesus desde criança: é um vizinho a mais. De onde ele aprendeu essa mensagem surpreendente sobre o Reino de Deus? De quem recebeu essa força para curar? Marcos diz que tudo "resultava-lhes escandaloso". Por quê?

Aqueles camponeses acham que sabem tudo sobre Jesus. Eles fizeram uma ideia dele desde pequenos. Em vez de acolhê-lo tal como ele se apresenta diante deles, ficam bloqueados pela imagem que têm dele. Essa imagem impede-lhes abrir-se ao mistério que esconde Jesus. Eles resistem a descobrir nela a proximidade salvadora de Deus.

Mais há ainda algo a mais. Acolhê-lo como profeta significa estar disponíveis a escutar a mensagem que lhes dirige em nome de Deus. E isso pode lhes ocasionar problemas. Eles têm sua sinagoga, seus livros sagrados e suas tradições. Vivem sua religião com paz. A presença profética de Jesus sempre pode quebrar a tranquilidade da aldeia.

Nós, cristãos, temos imagens bastante diferentes de Jesus. Não todas elas coincidem com aquelas que tinham os que o conheceram de perto e o seguiram. Cada um construiu nossa ideia dele. Essa imagem condiciona nossa forma de viver a fé. Se nossa imagem de Jesus é pobre, parcial o distorcida, nossa fé será pobre, parcial o distorcida.

Por que nos esforçamos tão pouco em conhecer Jesus? Por que nos escandaliza lembrar seus rasgos humanos? Por que nos resistimos a confessar que Deus encarnado é um Profeta? Será que intuímos que sua vida profética nos obriga a transformar profundamente sua Igreja?

 

 

Não desprezar o profeta

O relato não deixa de ser surpreendente. Jesus foi rejeitado precisamente por seu próprio povo, entre aqueles que acreditavam conhecê-lo melhor que todos. Chega a Nazaré, acompanhado de seus discípulos, e ninguém sai ao seu encontro, como acontece às vezes em outros lugares. Tão pouco lhe apresentam os enfermos da aldeia para que os cure. 

A sua presença somente desperta neles assombro. Não sabem quem tenha podido ensinar-lhe uma mensagem tão cheia de sabedoria. Tão pouco se explica de onde provenha a força curadora de suas mãos. A única coisa que sabem é que Jesus é um trabalhador nascido numa família de sua aldeia. Todo o restante "parece-lhes escandaloso".

Jesus se sente "desapreciado": os seus não o aceitam como portador da mensagem e da salvação de Deus. Fizeram uma ideia de seu vizinho Jesus e resistem a abrir-se ao mistério que está nele. Jesus lhes recorda um refrão que, provavelmente, todos conhecem: "Não desprezam um profeta a não ser em sua terra, entre seus parentes e em sua casa".

Ao mesmo tempo, Jesus "estranha a sua falta de fé". É a primeira vez que experimenta uma rejeição coletiva, não dos dirigentes religiosos, mas de todo o seu povo. Ele não esperava isto dos seus. A sua incredulidade chega, inclusive, a bloquear sua capacidade de curar: "não pôde fazer ali nenhum milagre, somente curou a alguns enfermos".

Marcos não narra este episódio para satisfazer a curiosidade de seus leitores, mas para advertir às comunidades cristãs que Jesus pode ser rejeitado, precisamente, por aqueles que acreditam conhecê-lo melhor: os que se fecham em suas ideias preconcebidas sem abrir-se nem à novidade de sua mensagem nem ao mistério de sua pessoa.

Como estamos acolhendo Jesus, aqueles que se creem "seus"? Em meio a um mundo que se tornou adulto, nossa fé não é demasiadamente infantil e superficial? Não vivemos demasiadamente indiferentes à novidade revolucionária de sua mensagem? Não é estranha a nossa falta de fé em sua força transformadora? Não corremos o risco de apagar seu Espírito e desprezar sua Profecia?

Esta é a preocupação de Paulo de Tarso: "Não apagueis o Espírito, não desprezeis o dom de Profecia. Analiseis tudo e ficai somente com o que é bom" (1Ts 5,19-21). Os cristãos de nossos dias não necessitam de algo como isto?

Os cristãos têm imagens muito diferentes de Jesus. Nem todas coincidem com aquela que tinham os que o conheceram de perto e o seguiram. Cada um fazemos nossa idéia dele. Essa imagem condiciona a nossa maneira de viver a fé. Se nossa imagem de Jesus é pobre, parcial ou destorcida, nossa fé será pobre, parcial ou destorcida.

Por que nos esforçamos tão pouco para conhecer Jesus? Por que nos escandaliza recordar seus traços humanos? Por que resistimos a confessar que Deus se encarnou num Profeta? Talvez, intuímos que sua vida profética nos obrigaria a transformar profundamente sua Igreja?

José Antonio Pagola

tradução de Telmo José Amaral de Figueiredo

 

 

"Recebemos, ó Deus, a vossa misericórdia no meio do vosso templo. Vosso louvor se estenda, como o vosso nome, até os confins da terra; toda a justiça se encontra em vossas mãos." (Sl. 47,10s)

Neste domingo, vamos refletir sobre a sorte do profeta: a rejeição. Trata-se de um tema muito atual no continente americano, particularmente no nosso Brasil, que clama por justiça e por dignidade social.

A primeira leitura (Ez. 2,2-5) nos ensina que Ezequiel é enviado a um povo “duro de cerviz”, mesmo enquanto vivia no exílio. Como Jeremias no passado, Ezequiel lembra a Israel seu passado rebelde. O povo hebreu se revolta contra Deus e mata os seus profetas, inclusive o Enviado, Jesus de Nazaré.

Ezequiel é chamado “filho do homem”, o que significa sua pertença à frágil raça humana – não confundir o  “Filho do Homem”, a figura celestial de Dn. 7,13, identificada com Jesus como Juiz escatológico. Ele nada mais é do que um homem, um servo, e nesta humilde condição incumbe-se a ingrata missão de explicar ao “resto de Israel”- o povo desmembrado depois da parcial deportação em 597 aC – sua situação aos olhos de Deus. Não gostarão do recado: rejeitar os profetas é costumes deles, desde Moisés até o próprio Cristo. Mas, pelo menos, saberão que está um profeta no meio deles, isto é, que Deus não fica calado.

O profeta deve marcar presença, por isso o povo deve saber que o porta-voz de Deus esteve no meio dele. Daí a missão do profeta: comer a palavra de Deus, que é doce como mel, mas causa amargura ao profeta. Aceito ou rejeitado, o profeta tem que proclamar, oportuna ou inoportunamente, o Reino de Deus. Profeta não é uma missão de diplomata. Pelo contrário, há um momento em que a palavra deve ser dita com toda a clareza: é o tempo, é o momento do profeta.

O Evangelho (Mc. 6,1-6) relata-nos que o povo de Nazaré não soube enxergar em Jesus o Filho de Deus. Não tiveram fé para enxergar com os olhos da fé e ouvir com os ouvidos da esperança, e entender com o coração repleto do amor.

Nazaré, cidade em que Jesus se criou, era uma cidade sem expressão no Antigo Testamento. Talvez uma vila sacerdotal, uma cidade ignorada por todos os homens do tempo de Jesus. Cidade pobre, lugarejo onde se cultivava trigo, linho, vinhedos, olivais e árvores frutíferas, como a figueira. Naquela localidade, José, pai votivo de Jesus, era carpinteiro e certamente ensinou a seu Divino Filho o mesmo ofício.

Jesus entra na sinagoga no dia de sábado. O povo hebreu reuni-se em sua assembléia, sobretudo no dia do descanso. Depois de uma oração, lia-se um trecho, ou em torno da Lei ou em torno dos Profetas. Depois dessa leitura, alguém com mais de 30 anos fazia um comentário e, por fim, era dada a bênção de Aarão (Nm. 4,24-26).

A sinagoga de Nazaré era um local muito familiar a Jesus, porque a freqüentara desde criança e todos ali o conheciam. Mas, até então, Jesus não tinha a idade exigida para explicar os Profetas. Agora, passando os 30 anos, aceitou o pedido da comunidade que, ao ouvi-lo, espantou-se com sua sabedoria e com a interpretação que dava aos textos sagrados. Como era possível tanto conhecimento, se não fizera nenhum curso especializado com os rabinos e os escribas? Que estalo acontecera?

A primeira reação dos nazarenos deveria ser de reconhecer em Jesus um enviado especial de Deus, como o povo eleito teve Isaías, Jeremias, Moisés e outros grandes homens repletos da ação de Deus. Essa atitude levaria os hebreus a ouvirem Jesus e levar em consideração o seu ensinamento. Uma segunda atitude seria ver em Jesus um momento em que estava possuído pelo demônio. E, por fim, uma terceira atitude, olhando apenas o lado humano, o lado familiar, escandalizando-se como Jesus sendo profeta.

Infelizmente, os nazarenos preferiram rejeitar Jesus.

O que houve?

Foi o escândalo. Os Nazarenos não acreditaram na mensagem de Jesus; suas palavras, ao invés de abrir o coração e a mente daquela gente, fixou-a na incredulidade.

Assim, muitas vezes, vemos se concretizar a palavra de Jesus no Evangelho de hoje: “Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares” (Mc. 6,4).

A experiência de Paulo (2Cor. 12,7-10), relatada na segunda leitura, vai na mesma direção. Paulo descreve as dificuldades de seu apostolado, gloriando-se contra aqueles que se gloriam na observância judaica e outros pretextos para destruir a obra da evangelização que ele está realizando. Pede a seus leitores suportarem um pouco de loucura de sua parte: seu próprio elogio.

Mas que elogio! O currículo de Paulo não está cheio de diplomas, concursos e obras publicadas, mas de loucuras mesmo. Ele se gloria de sua fraqueza, de sua prisão, de suas tentações, de seu remorso do passado de perseguidor de cristãos, “anjo de Satanás”, uma provação semelhante à de Jô.

No entanto, importa-nos a releitura e o sentido que Paulo dá: impedir que se encha de soberba. O evangelho vale mais que ouro; o apóstolo é apenas um recipiente de barro. Se ele produz efeito, é o espírito de Deus que o produz. Para o apóstolo, basta a graça, isto é, que Deus realize a sua redenção, sem depender de nossas qualidades humanas. Em nossa fraqueza é que seu poder se manifesta. Jesus não pode fazer milagres em Nazaré: fraqueza também. Mas Deus realizou seu plano na suprema “fraqueza” de Cristo: sua morte na cruz. Junto a ele há lugar para os “fracos”, que nele tornam-se fortes.

Hoje a Santa Igreja deve ser para o povo o profeta que denuncia os desvios da mensagem do Evangelho e protesta em nome dos mais fracos e injustiçados, lutando por mais justiça social, por mais inclusão de emprego, de moradia, de comida. A voz profética deve também ser ouvida dentro da Igreja para uma vivência cada vez mais autenticamente evangélica. Só assim, estaremos realizando o Reino de Deus neste mundo. Amém!

padre Wagner Augusto Portugal

 

 

Neste tempo de reflexão sobre as coisas que Jesus realizou e seus ensinamentos, ficamos perplexos com a indiferença dos homens em relação ao Filho do Homem que se colocou em nosso meio. O profeta Zacarias já previu que Ele viria e que seria ignorado pelos homens “ficarão sabendo que houve entre eles um profeta”. Que pena! Deus se apresentou e seu povo nem percebeu e ainda O rejeitou como um profeta falido. Que ótica vemos as coisas em nosso redor? Que olhos temos para captar as coisas do alto?

Será que a cegueira do mundo nos influência tanto que não percebemos a ação de Deus em nosso meio e acabamos por ver o mundo destruído pelo pecado e sem remédios? “Estes filhos de cabeça dura e coração de pedra”. Abramos o coração estejamos sensíveis ao Espírito Santo, o que mais nos falta é a docilidade ao Espírito Santo, ser dócil é estar atento as revelações de Deus em nossas vidas e buscarmos uma experiência que possa nos levar a quase ensoberbecer pela revelação de Deus em uma experiência de vida.

Pensemos em são Paulo que nos apresenta que sua experiência com Deus foi tamanha que quase se ensoberbeceu, isto é quase achou que era um santão de Deus. Mas o amor de Deus por ele não permitiu que se esquecesse de suas fraquezas e que era somente Deus seu sustento. Aí, Deus lhe dá um espinho na carne, lhe dá um anjo “de satanás” para que não esquecesse de que barro era formado e não tivesse o desprazer de uma soberba espiritual. Puxa! Até onde Paulo foi nesta experiência? Que profundidade alcançou na elevação de sua alma ao Céu? Ele mesmo diz que foi levado ao terceiro céu. “Conheço um homem em Cristo que há catorze anos foi arrebatado até o terceiro céu. Se foi no corpo, não sei. Se fora do corpo, também não sei; Deus o sabe” (2Cor. 12,2). Olhando para esta experiência vejo que não sou digno de ter um anjo de satanás a me esbofetear e nem um espinho na carne, pois do “chão” eu nunca saí. Mas certamente, como você, tivemos algumas consolações do Espírito que nos refrigerou a alma com seu sopro de amor. Mas vejo que, não querendo ser ambicioso, devemos buscar com todo empenho a “subida de nossa alma” às experiências de Deus em nossa caminhada para que um dia sintamos a alegria de ter combatido um bom combate (2Tm. 4, 7).

É triste vermos Jesus sendo rejeitado em sua terra por aqueles que viveram com ele todos os anos de sua vida. Mas que pessoas duras. Será que naqueles trinta anos de convivência numa aldeia tão pequena que todos se conheciam não teve nem um que visse algo de diferente em Jesus? Em Maria? Em José? Incrível! Deus sabe disfarçar muito bem ou os homens são duros demais, mas hoje é diferente? As pessoas percebem Deus na vida? Na história? No próximo? Nos necessitados? Acho que não. Estão preocupados consigo mesmos e não percebe a glória de Deus e ainda rejeitam. Por isso que devemos estar a serviço de todos sem esperar alguma consolação dos homens, sem esperar retribuição do bem, sem esperar qualquer tipo de agradecimento, afinal estamos fazendo por Deus e para Deus na pessoa do próximo. Foi o Senhor que nos mandou fazer assim. Pois da mesma forma que foi rejeitado e perseguido assim também os que O seguirem serão.

O que nos resta? Servir o próximo e buscar “subir ao Céu” numa experiência de amor que dure por toda eternidade.

Subamos!

Antonio ComDeus

 

 

ESCUTAR

“Filho do homem, eu te envio aos israelitas, nação de rebeldes, que se afastaram de mim...A estes filhos de cabeça dura e coração de pedra vou te enviar” (Ez. 2,3-4).

“É na fraqueza que a força se manifesta” (2Cor. 12,9).

“Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão? Suas irmãs não moram aqui conosco? E ficaram escandalizados por causa dele (Mc. 6,3).

 

MEDITAR

É contada a estória de um rabino que estava indo à loucura por causa de uma mulher da sinagoga que fofocava sobre todo mundo, espalhando estórias desagradáveis. E então um dia ele a levou para o topo de uma torre alta e pediu que ela esvaziasse o conteúdo de um travesseiro. E as penas flutuaram por toda a cidade. E então ele disse: “Agora vá e colete todas as penas”. E ela replicou, “Rabino, isto é impossível; elas estão em toda parte”. E ele disse, “É a mesma coisa com as suas palavras más” (Timothy Radcliffe, 1945-, Reino Unido).

 

ORAR

A cena de Nazaré nos ensina exatamente que Deus se encontra, não no inabitual, mas naquilo que é o mais comum. Pois o que é que choca verdadeiramente as pessoas nesta história? É que Jesus seja como todo mundo. Conhece-se a seus irmãos e irmãs. E quando, numa vila, se conhece a família de alguém, isto que dizer que não há nada de novo, nada que se coloque como superior ao seu lugar, nada que pretenda dizer alguma coisa de inédito ou que acredite ter direito de se subtrair à tradição. É justamente por ser carpinteiro de Nazaré que lhe é interdito ser como um profeta e ter Deus em sua boca. Se fosse verdadeiramente um assunto de Deus – e era como se costumava pensar em Nazaré – Ele assinalaria sua presença de forma original: um cometa à meia-noite, por exemplo, ou um animal com duas cabeças. Sua presença só poderia ser autenticada sob uma forma fantástica e não, sobretudo, por alguém que trabalhou trinta anos no meio dos outros e que, enfim, não fazia nada mais do que lhes ensinar a viver como humanos, liberados da angústia. A simplicidade! O que conta é justamente que, diante de Deus, basta nos mostrar humanos, humildes em nossa pequena medida... Mas, os outros, aqueles que depositam demasiadas esperanças em seu lugar, aqueles que se tomam por fortes, por vigorosos, por justos, deixam de ter enfim o pouco de felicidade que lhes é concedida sobre a terra. Estar em sua terra em Nazaré, descobrir o inabitual no que há de mais habitual, a grandeza no que é simples, o divino no que é demasiado humano, tal é a arte da encarnação de nosso Deus, o segredo de sua revelação (Eugen Drewermann, 1940-, Alemanha).

mano da terna solidão

 

 

 

Perpassam os dois testamentos, com maior ou menor ênfase, segundo o caso, duas correntes de sentido, a profética e a sapiencial. Nas leituras deste domingo prevalece a profética. A função do profeta, já o sabemos, é a de exortar  o ouvinte ou o leitor a respeitar os direitos de Deus e com igual ênfase o direito dos pobres. É o que lemos na primeira leitura com o profeta Ezequiel a exortar o seu povo contra a rebeldia, a cabeça dura e o coração de pedra. É o que vemos também na decepção de Jesus frente ao povo da sua aldeia que o rejeita por ser apenas um deles, como eles e, ainda mais, o filho de uma mero carpinteiro. Paulo, ao contrário dos nazarenos, regozija-se em sua fraqueza porque é nela que fala alto a força de Deus. Se não nos colocarmos na perspectiva do profeta Ezequiel, do apóstolo Paulo e, é claro, na de Jesus, jamais entenderemos a lógica do Reino de Deus expressa nas bem-aventuranças do evangelho e não nas bem-aventuranças do mundo.

1) Ezequiel 2,2-6

Muitos séculos antes do profeta Ezequiel, Abraão, na Caldéia, exatamente para onde os filhos de Israel foram exilados, foi convocado por Deus para fundar uma nova nação regida pelo direito e pela justiça. Esse novo povo deixou-se levar por falsos valores e desviou-se do caminho reto e enveredou-se para o mau caminho, que é  a tentação de todos os indivíduos e nações. Diante disso, Deus dirige-se a Ezequiel e diz: "A esses filhos de cabeça dura e coração de pedra vou-te enviar e tu lhes dirás que. quer te escutem quer não...ficarão sabendo que entre eles houve um profeta”. Estas surpreendentes palavras de Deus ao profeta nos permitem pensar que, malgrado a nossa preguiça espiritual e os nossos ouvidos moucos, Deus continua a interpelar-nos.

2) 2Cor. 12,7-10

Paulo era o tipo de homem que, sem dúvida, poderíamos chamar de brilhante. Era um homem culto, do seu tempo, eloquente, exprimia-se em aramaico e em hebraico clássico, falava o grego,  conhecia e citava os clássicos. Era capaz de convencer os seus leitores e ouvintes, mas apesar de tudo o que o seu zelo apostólico exigia era um homem de saúde frágil como sugere o versículo 12,7: foi espetado na minha carne um espinho que é como um anjo de satanás a esbofetear-me a fim de que eu não me exalte demais. Essa enfermidade poderia ser segundo especialistas epilepsia ou uma inflamação do globo ocular. Paulo, homem de fé, ao invés de ver nessa enfermidade algo de negativo e humilhante via nisso uma razão a mais para identificar-se com o seu mestre e senhor.

3) Marcos 6,1-6

Nazaré era uma pequena cidade rural da Galileia, de onde nada de bom se podia esperar que acontecesse. É importante, para entender o evangelho de hoje, lembrar que quando Marcos  fala na família de Jesus, ele não se refere à família nuclear de Jesus constituída apenas por Jesus, Maria e José. Trata-se aqui da sua família ampla de cunho patriarcal que incluía toda a parentela, ou seja, tios, avós, primos e primas etc. Dizem especialistas que numa cidadezinha como Nazaré uma boa parcela da população era constituída pela família estendida de Jesus. A estranheza de boa parte da população em relação a Jesus na sinagoga explica-se pelo ciúme e pela inveja: por que o filho do carpinteiro José e da Maria, o irmão de Tomé e Joset e não eu? Uma pergunta final: Não é verdade que muitas vezes o que impede a nossa caminhada não são as dificuldades do caminho, mas a nossa pequenez interior?

padre José

 

 

Admirar, essa alegria!

Iludido, busca o homem a felicidade nas sendas do egoísmo, julgando ser tão mais feliz quanto mais pensar em si. Ignora ele que a verdadeira alegria de alma se encontra somente na admiração, no voltar-se enlevado ao que é superior.

I - O profeta, homem que comove as consciências

Ao nos criar, Deus teve em vista nossa participação em sua felicidade eterna. E para esse fim, em nenhum instante nos abandona, sempre velando sobre cada um como se fosse seu filho único. O cuidado da zelosa mãe em relação à criança, por exemplo, que a todos comove, não passa de um belo, mas pálido símbolo do amor divino.

Assim, criados para uma eternidade bem-aventurada, temos gravada em nossa alma a Lei Natural — que nos ordena fazer o bem e evitar o mal — e estamos à procura constante de Deus, como as plantas, pelo heliotropismo, sempre buscam a luz do Sol. Para nos auxiliar neste “teotropismo”, Deus, através de uma pessoa ou de alguma circunstância, nos estimula a procurá-Lo com mais zelo e amor. Tal papel desempenharam desde a Antiga Lei os profetas.

A voz do profeta, auxílio de Deus para atingirmos nossa finalidade

A noção corrente de profeta limita-se à de alguém com capacidade de prever o futuro. Entretanto, é importantíssimo frisar que, embora com frequência seja este um dos seus traços distintivos, contudo não é o principal e nem constitui a essência da sua missão. O principal múnus profético consiste em ser o guia do povo de Deus, indicando os caminhos para a salvação.

Historicamente, tendo quase toda a classe sacerdotal judaica sido infiel à sua missão, “tornou-se necessária a irrupção, na sociedade israelita, desses colossos da espiritualidade denominados profetas - procedentes, em sua maioria, do elemento secular da nação - para sanear religiosamente Israel. [...] Os valores espiritualistas da Lei adquirem então seu verdadeiro relevo, e foi tal a altura moral da pregação profética que só o ideal evangélico a superou”.1

É o que vemos na primeira leitura deste domingo: Deus envia Ezequiel como profeta para alertar aqueles homens de cerviz dura e coração empedernido que se desviaram do reto caminho: “Filho do homem, Eu te envio aos israelitas, nação de rebeldes, que se afastaram de Mim. A esses filhos de cabeça dura e coração de pedra. Quer te escutem, quer não - pois são um bando de rebeldes -, ficarão sabendo que houve entre eles um profeta” (Ez. 2, 3-5).

Ou seja, Israel rebelara-se contra Deus. E, em vez de castigo, por misericórdia, a esse povo é enviado um profeta, porta-voz que transmite a vontade divina advertindo contra os desvios cometidos e chamando à penitência. Por isso, não poderão os israelitas alegar a atenuante do desconhecimento, da inadvertência, pois “houve entre eles um profeta”.

Diante do profeta, submissão ou revolta

Ensina-nos a doutrina católica que, pelo Batismo, todos participamos do sacerdócio de Cristo e de sua missão profética e régia.2 Assim, enquanto batizados, somos profetas perante a sociedade, pois devemos, pelo exemplo de vida, testemunhar a verdadeira Fé, indicando o caminho para a salvação eterna e, se preciso, alertando contra os erros. Se isto se aplica a todo fiel leigo, a fortiori, o sacerdote que fala do púlpito, lembrando as verdades eternas, exerce a missão profética.

Ora, assim como, muitas vezes, por nossas misérias não somos dóceis à voz da consciência — que atua dentro de nós, como um profeta a nos lembrar o dever — e criamos sofismas para sufocá-la, também pode ser que nos irritemos com quem em relação a nós exerce o papel profético e nos invectiva justamente. Pois salvo uma graça, a tendência em geral do homem ao ser admoestado é a revolta interior.

É o que ocorre quando ao ouvir um sermão ou fazer uma leitura espiritual sentimos o aguilhão da consciência contra algum vício ou defeito e, por apego a este, não queremos dar ouvidos nem assentimento à voz da graça.

Esta triste situação de alma, mais comum do que se pode pensar, encontra sua arquetipia no Evangelho recolhido pela liturgia deste domingo: é o Profeta por excelência, Jesus Cristo, o qual veio anunciar a Boa Nova e indicar o Caminho que é Ele mesmo, “causa de queda e elevação de muitos em Israel” e “um sinal de contradição” para serem “revelados os pensamentos de muitos corações” (Lc 2, 34-35).

II – Reação do espírito humano diante da Superioridade

“Naquele tempo, 1 Jesus foi a Nazaré, sua terra, e seus discípulos O acompanharam. 2 Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga”.

II – Reação do espírito humano diante da Superioridade

“Naquele tempo, 1 Jesus foi a Nazaré, sua terra, e seus discípulos O acompanharam. 2 Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga”.

Em Nazaré, Nosso Senhor viveu por cerca de trinta anos, desde a volta do Egito, após a morte de Herodes (cf. Mt. 2, 15.23), até o início de sua vida pública com o Batismo no Jordão (cf. Mt. 3, 13-17). Nessa cidade, nunca Se manifestara enquanto Deus, mas apenas como o filho de José e de Maria; uma pessoa comum, portanto.

Ora, em certo momento, Ele desapareceu e nessa Nazaré apenas chegavam os ecos de seus grandiosos milagres. A Galileia estava certamente em alvoroço pelas repercussões relativas aos feitos de Jesus, como a ressurreição da filha de Jairo e a cura da hemorroíssa, realizadas havia pouco conforme relata São Marcos (5, 22-42), e tantas outras ações extraordinárias. E deveriam também ouvir falar das maravilhosas doutrinas inéditas pregadas pelo Divino Mestre, bem como das encantadoras parábolas que tanto entusiasmavam os homens de boa fé.

Não obstante, podemos supor, por um lado, ser o ceticismo uma reação não incomum diante desses relatos, pois à natureza humana custa a dar crédito a algo de notável relacionado com quem participa de nosso convívio diário. Mas, por outro lado, os habitantes de Nazaré sentiam um certo orgulho, porque sua cidadezinha ia adquirindo celebridade em razão do Nazareno.

Nessas circunstâncias, chega Jesus à sua terra. Podemos imaginar o burburinho provocado ao verem-No entrar na sinagoga, onde nunca havia pregado, e começar a comentar a Escritura de um modo jamais ouvido.

Admiração, primeiro movimento diante da superioridade

2b “Muitos que O escutavam ficavam admirados...”.

São Lucas acrescenta importantes pormenores relativos a este episódio. Convidado a falar, Jesus abriu o livro do profeta Isaías onde está escrito: “O Espírito do Senhor está sobre Mim, pois Ele Me ungiu, para anunciar a Boa Nova aos pobres”. A seguir, afirmou: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”. E o Evangelista conclui: “Todos testemunharam a favor d’Ele, maravilhados com as palavras cheias de graça que saíam de sua boca” (cf. Lc 4, 18-22).

A primeira reação, portanto, foi de admiração geral, tão ricas, densas e originais devem ter sido as palavras proferidas pelo Salvador, certamente não registradas em sua totalidade pelo Evangelista. De fato, é este o primeiro movimento de toda criatura humana no seu relacionamento social, ao encontrar alguém que se sobressai a algum título. Em seguida, contudo, em razão do instinto de sociabilidade que nos impele a entrarmos em contato com os demais, a inevitável tendência natural é a comparação: “Seríamos também capazes de realizar o mesmo?”. O teor afirmativo ou negativo da resposta determinará como consequência imediata uma reação interna de alegria ou de tristeza.

No caso afirmativo, ficamos satisfeitos por nos julgarmos aptos para igualar, ou até superar, o outro. E podemos tomar duas atitudes. Uma boa, de compreender que se trata de dom gratuito de Deus — pois o Espírito Santo “distribui a cada um seus dons conforme quer” (I Cor 12, 11) —, e temos o dever de utilizá-lo para ajudar os outros a se santificarem, conforme ensina o Apóstolo: “A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem de todos” (I Cor 12, 7). E uma outra ruim, de orgulho, desprezando aquilo que os outros possuem.

No caso negativo, sentiremos tristeza ao constatar nossa inferioridade. E aqui também são possíveis duas atitudes. A primeira, boa, consiste em passar por cima dessa instintiva tristeza e admirar a qualidade do outro, nos encantando com a sua superioridade. A segunda, má, de ter um certo ressentimento, consequência da inveja perante o valor alheio.

As duas atitudes boas nos trazem paz de alma, pois propiciam reconhecer a grandeza do Criador através de seus reflexos nas pessoas. Assim procede quem se habitua a considerar os aspectos da vida cotidiana elevando-se a partir deles a superiores cogitações. São aqueles que, no passo seguinte à admiração, sempre estão desejosos de louvar, estimar e servir aquilo que é bom, verdadeiro e belo.

Ora, dada a natureza humana decaída, sem auxílio da graça, as reações posteriores à comparação são ordinariamente ruins. Arquetípico exemplo disto, encontramos nos versículos seguintes, nos quais o Evangelista resume a reação dos nazarenos diante da pregação de Jesus.

A consequência do egoísmo

2b “... e diziam: ‘De onde recebeu Ele tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses grandes milagres que são realizados por suas mãos? 3 Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? Suas irmãs não moram aqui conosco?’. E ficaram escandalizados por causa d’Ele”.

Na cidade de Nazaré, excetuando Nossa Senhora, não houve provavelmente quem tomasse a atitude correta de admirar a superioridade de Jesus. Depois da primeira reação boa, passaram eles a considerar apenas os aspectos humanos, e logo surgiram as dúvidas de má fé, seguidas de inveja.

Uns se perguntavam de onde vinha tanto conhecimento, uma vez que o Pregador não estudara com nenhum dos mestres conhecidos na região. Dentre estes, alguns até poderiam estar presentes na sinagoga naquele momento, e considerassem intolerável Jesus sobrepujá-los no saber, justamente eles que tanto haviam estudado.

E, quiçá, se perguntavam quais as artimanhas empregadas pelo jovem Mestre para adquirir tão grande conhecimento em tão breve espaço de tempo.

Misturava-se neles a inveja com um fundo de falta de fé, ao quererem julgar as coisas pelas suas aparências primeiras. Não souberam transcender a figura do filho do carpinteiro, que ali havia vivido tantos anos exercendo um trabalho artesanal, numa situação inteiramente ordinária e que, de repente, surge como Sábio, Taumaturgo e Exorcista.

Ao mesmo tempo, não podiam negar serem verdadeiros os retumbantes milagres atribuídos ao Redentor, mas, em sua cegueira espiritual, preferiam fechar os olhos para a realidade superior, e se refugiar numa explicação natural, que não lhes cobrava uma mudança de vida.

Assim, “ficaram escandalizados por causa d’Ele”. É o desprezo a consequência necessária da falta de amor e da inveja. Com severidade, São Basílio invectiva esse defeito de alma: “A inveja é um gênero de ódio, o mais feroz, porque os benefícios aplacam quem por alguma outra causa é inimigo nosso, mas o bem que se faz ao invejoso irrita-o mais; e quanto mais ele recebe, mais se indigna, se entristece e se exacerba. Isso porque o desgosto que sente pelo poder do benfeitor é maior que a gratidão pelos bens que dele recebe. [...] Os cães tornam-se mansos se alguém lhes dá de comer; os leões se domesticam, quando se cuida deles; mas os invejosos se enfurecem mais com os benefícios”.3

O perigo de não ver o sublime

4 “Jesus lhes dizia: ‘Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares’”.

Anteriormente, relata São Marcos estarem alguns parentes de Jesus envergonhados d’Ele, a ponto de, em certa ocasião, irem à sua procura “para detê-Lo, pois diziam: ‘Está ficando louco’” (Mc 3, 21).

Sem dúvida, encontravam-se na assembleia vários de seus familiares, máxime considerando ser pequenina a cidade. E talvez eles próprios se comparassem com Jesus, imaginando serem a Ele equivalentes dada a consanguinidade. Constatando, porém, sua evidente inferioridade, nascia a inveja e o desejo de destruir o bem visto no outro, por julgar que este lhes fazia sombra. Tal é a natureza humana que, em geral, a pessoa não tem inveja de um desconhecido, mas sim do amigo, daquele com quem convive.

Por isso, à semelhança de Nosso Senhor, quem abraça as vias da virtude pode ser muito bem considerado em alguns ambientes, mas nem sempre o será entre os seus íntimos.

A divindade de Nosso Senhor deveria transparecer

Assueta vilescunt - a rotina pode acabar envilecendo até as coisas mais grandiosas. Ora, Jesus, Deus e Homem verdadeiro, encontrava-Se onde vivera tanto tempo como pessoa comum, desejoso de fazer bem a seus mais próximos.

Não podemos crer, entretanto, que o convívio com Ele não tivesse dado margem a transparecer algo de incomum em incontáveis ocasiões. Em virtude da íntima união entre a natureza humana e a divina em Cristo, por debaixo dos véus de sua Perfeitíssima Humanidade, deveria com frequência transluzir de alguma forma a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, ultrapassando em tudo qualquer capacidade humana de perfeição, de modo a ficar patente tratar-Se Jesus de um Ente completamente fora do comum. “Enquanto em seu puríssimo Corpo a natureza evoluía devagar para a plenitude, ‘a sabedoria divina enchia sua santa alma e a graça aí esgotava todos os seus dons’. [...] Ele temperava as manifestações exteriores de suas perfeições ocultas, como a árvore nova que desdobra pouco a pouco seus brotos, suas folhas e flores antes de formar seus frutos; como o Sol que, depois de clarear ligeiramente o horizonte, colore-o com os vermelhos crescentes da aurora antes de inundar o espaço com seus raios vitoriosos e mostrar sua face resplandecente” 4, comenta Monsabré.

Nosso Senhor deveria ser a perfeição nos gestos, nas atitudes e até no caminhar. E o que dizer de sua voz incomparável? A beleza de sua alma espelhava-se maravilhosamente em sua face e, sobretudo, em seu olhar. Dotado de todas as qualidades humanas possíveis, Ele era belo, nobre e distinto no mais alto grau. Tudo n’Ele transluzia uma misteriosa e inefável superioridade.

Por que não viram: egoísmo e mediocridade

Entretanto, quando Ele foi anunciar a salvação aos parentes e aos conhecidos, estes não creram. Vemos nisto quanto é terrível a tendência da natureza humana de julgar as coisas pela aparência, e não aceitar o que é superior.

Essa cegueira espiritual é fruto da mediocridade. O medíocre nunca reconhece os valores que não lhe dizem respeito; ele é arquiegoísta. E todo egoísta é medíocre, porque são defeitos recíprocos e inseparáveis. A mediocridade leva a pessoa a não querer prestar atenção em nada mais elevado. E a logo procurar denegrir. Por isso, com intuito de humilhá-Lo, os nazarenos chamam Jesus de “o carpinteiro”. Não há referência a São José, pois este, segundo alguns comentaristas, já deveria ter falecido.

A admiração justifica

Muito diversa teria sido a história do início da Igreja se os nazarenos tivessem admirado e seguido Nosso Senhor.

O papel da admiração e do amor é ressaltado por São Tomás ao afirmar que quem, mesmo não batizado, orienta a sua vida segundo o seu verdadeiro fim, amando um bem honesto mais do que a si mesmo, obtém pela graça a remissão do pecado original.5 E comenta sobre este particular Garrigou-Lagrange: “Está justificado pelo batismo de desejo, porque esse amor, que já é o amor eficaz a Deus, não é possível no estado atual da humanidade sem a graça regeneradora”.6 Poderíamos então inverter a afirmação do Doutor Angélico e dizer que quando uma pessoa ama a si mesma mais do que a um bem, torna-se medíocre e egoísta, e, portanto, abre-se a toda forma de mal, passando a ser cega de Deus. Assim como une-se a Deus aquele que ama um bem superior mais do que a si mesmo, quem ama-se a si mesmo acima de todas as coisas e mais do que a Deus, liga-se ao demônio.

Portanto, neste sentido, o limite que separa o Céu do inferno é traçado por uma palavra: admiração. A admiração por algo mais elevado me aproxima do Céu; e a admiração a mim mesmo, me aproxima do inferno.

As consequências da cegueira de Deus

5a“E ali não pôde fazer milagre algum”.

Mostra-se muito cuidadoso o Evangelista ao precisar, neste versículo, que Jesus não Se negou a fazer milagres, mas sim que “não pôde”, ou seja, não houve condições de fazê-los. Ele, cuja simples sombra ou manto tantas vezes haviam curado, em Nazaré, nenhum milagre operou. Ou os fez poucos, conforme relata São Mateus (cf. Mt 13, 58).

Por quê? Para que se realize um milagre são requeridas duas condições: em primeiro lugar a fé dos beneficiários e, em segundo, a intercessão daquele por meio do qual Deus exercerá o seu poder. Ora, o Divino Mestre não precisava de intercessão, pois o poder é d’Ele; mas era necessária a fé dos outros.7 A inveja dos nazarenos impedia que Jesus fosse aceito, e tudo o que Ele fizesse seria analisado por um prisma meramente humano.

Ademais, se Ele realizasse algum milagre grandioso, muito provavelmente, os nazarenos iriam se revoltar e com isso agravariam o seu pecado, ofendendo ainda mais ao Pai. Portanto, uma manifestação do poder de Jesus poderia condená-los irremissivelmente. E Ele não queria perdê-los, mas sim salvá-los.

Colhe-se aqui um importante ensinamento para o nosso apostolado: devemos fazer o possível para que os outros não pequem e com isso não ofendam ao Pai, pois, antes de tudo, é a glória de Deus o nosso objetivo. Então, algumas vezes poderemos mostrar os dons que a Providência nos deu para fazer bem ao próximo; em outras, pelo contrário, será necessário velá-los se forem causa de condenação para alguns.

5b  “Apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos. 6 E admirou-Se com a falta de fé deles. Jesus percorria os povoados das redondezas, ensinando”.

Tais curas não tinham o caráter estrondoso de um milagre que subverte as leis da natureza. Com efeito, era frequente entre os sacerdotes hebreus a prática da imposição das mãos para curar algumas doenças ou expulsar demônios. Deste modo, Nosso Senhor ali desempenhou apenas o papel de um simples sacerdote. Enquanto nas povoações vizinhas Ele ensinava e operava todo tipo de milagres, de sua própria terra foi expulso pelos seus! (cf. Lc. 4, 29).

III – Admiração, antídoto contra a mediocridade

Se não formos cuidadosos em combater a tendência ao egoísmo e à mediocridade, manifestada pelos nazarenos nessa ocasião, teremos dificuldade em admitir e admirar os valores alheios. Por isso, devemos nos exercitar na virtude do desprendimento de nós mesmos. E o melhor meio para tal consiste em sempre reconhecer os pontos pelos quais o próximo é superior a nós, desejando admirá-lo e estimulá-lo. A admiração deve ser para nós um hábito permanente. E, se notarmos em nós alguma superioridade real, devemos, sem jamais nos vangloriar, utilizá-la para ajudar os demais. É o convite sempre atual à virtude da humildade.

Bem a propósito, diz a Igreja, na Oração do dia: “Ó Deus, que pela humilhação do vosso Filho, reerguestes o mundo decaído...”. Assim como Deus agiu em relação ao mundo, devemos nós proceder em relação a todos quantos nos são inferiores a algum título. Cristo tomou-Se de compaixão pela humanidade e, tendo sempre a alma na Visão Beatífica, assumiu uma carne padecente por amor aos homens.

O plano de Deus com o instinto de sociabilidade

Este é o grande plano de Deus para a sociedade humana: ao criar os homens com o instinto de sociabilidade tão arraigado, teve em vista proporcionar-lhes a possibilidade de uns ajudarem os outros, na admiração recíproca dos dons recebidos, de maneira que, sobrepujando comparações e invejas, cada qual culmine no desejo de servir e louvar aquilo que lhe é superior.

Dessas verdades deflui uma importante consequência: o perdão, fruto da caridade. Caso alguém nos faça ofensa, deve logo brotar do fundo de nosso coração um perdão multiplicado pelo perdão. Assim agindo, daremos nossa contribuição para termos uma sociedade na qual todos se perdoam mutuamente, pois sem cessar uns querem elevar os outros.

Este é um dos modos mais sapienciais de praticarmos o amor a Deus em relação ao nosso próximo: querendo que este se eleve sempre mais na virtude e rendendo nossa admiração e louvor às suas qualidades.

Uma sociedade constituída com base neste princípio extraído do Evangelho eliminaria tantos horrores que grassam hoje, e tornar-se-ia a mais feliz que possa existir neste vale de lágrimas ao fazer com que todos se unam em função do amor a Deus.

Quando essa sociedade se tornar realidade, bem poderá ser denominada Reino de Maria, pois estará pervadida pela bondade do Sapiencial e Imaculado Coração da Mãe de Deus. Reino no qual a Santíssima Virgem comunicará a todos uma participação no supremo instinto materno que Ela tem por cada um de nós.8 E aí compreenderemos inteiramente o que Ela mesma disse em Fátima: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará!”.

mons. João Clá Dias, EP

1 GARCIA CORDERO, OP, Maximiliano. Biblia comentada. Libros proféticos. Madrid: BAC, 1961, t.III, p.4.

2 Cf. CCE 1268.

3 SÃO BASÍLIO, O GRANDE. De envidia. Homil.11: MG 31, 371.

4 MONSABRÉ, OP, Jacques-Marie-Louis. Exposition du Dogme Catholique. Vie de Jésus-Christ. 9.ed. Paris: P. Lethielleux, 1903, p.71.

5 Ensina São Tomás que, “começando a ter o uso da razão”, a primeira coisa que ocorre ao homem pensar é “deliberar sobre si mesmo”. E afirma: “Se ele se ordenar ao fim devido, conseguirá pela graça a remissão do pecado original” (SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I-II, q.89, a.6).

6 GARRIGOU-LAGRANGE, OP, Reginald. El Salvador y su amor por nosotros. Madrid: Rialp, 1977, p.34.

7 Ensina São Tomás que “não era conveniente fazer milagres entre incrédulos” (SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q.43, a.2, ad.1).

8 Cf. SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Traité de la vraie dévotion à la Sainte Vierge, n.144. In: Œuvres complètes. Paris: Seuil, 1966.

 

 

A derrota do preconceito

O preconceito cega e endurece o coração. Os conterrâneos de Jesus em Nazaré (cf. Mc. 6,1-6) não conseguiram enxergar nele a plenitude do amor de Deus em pessoa, presente, vivo no meio deles. Viram tão somente com os olhos banhados de preconceito: “Este não é o carpinteiro, filho de Maria?”, questionavam.

De um modo global, com alguma frequência se ouve dizer que o brasileiro gosta muito do que é de fora. Os que se consideram ricos e costumam esbanjar o que nem têm em viagens – por exemplo, em turismo por Miami, nos Estados Unidos – voltam com as sacolas cheias de compras, quase sempre no intuito de ostentar, de mostrar que é bonito usar grifes famosas. Por vezes, tudo que se refere ao Brasil consideram como feio, atrasado e de mau gosto. Isso se pode notar nos burburinhos das chama- das redes sociais na internet e nos discursos comuns nas mesas de bares, shoppings e outros espaços de convivência.

Há até quem desvalorize determinadas regiões, lugares e pessoas do país, bem ao modo daquela atendente em uma ótica na cidade de São Paulo, quando notou que o cliente era do Maranhão: “Mas você nem parece ser do Nordeste, é tão instruído!” Percebe como o preconceito deixa as pessoas sem noção?

Diz o evangelho que Jesus não conseguiu realizar nenhum milagre em Nazaré, sua terra natal. Isso por causa do endurecimento do coração de seus conterrâneos. A falta de fé daquelas pessoas, na verdade, era por causa do preconceito arraigado nelas, que as impedia de ver em Jesus o Messias prometido.

Ocorre que eles esperavam não um “filho de Maria” ou aquele que a vida toda estava ali, no trabalho de carpinteiro com seu pai, José. Almejavam um Messias grandioso, nascido de família influente, alguém de posses. Mas a maior riqueza de Jesus era ele mesmo presente, totalmente integrado na missão, impelido pelo Espírito, fazendo a vontade de Deus. Nisso se fundamentavam as curas e os milagres por ele realizados.

O risco da recusa pode ocorrer também em nossas comunidades e famílias. Não que tenhamos de ser bairristas ou ufanistas. Não se trata disso. Nem é bom entrar nessa onda. Mas é sempre saudável reconhecer os dons e talentos dos nossos pares. Às vezes, pode acontecer que elogiemos o padre famoso da TV e não percebamos o empenho do pároco e dos agentes de pastoral em nossa paróquia.

Peçamos a Deus que nos ajude a reconhecer Jesus nos irmãos e irmãs de comunidade.

padre Antonio Iraildo Alves de Brito, ssp

 

 

Saberão que um profeta esteve entre eles 0

Estas palavras encerram o final do trecho do livro do profeta Ezequiel que ouvimos este domingo, como primeira leitura da celebração da Eucaristia. Logo depois de uma visão inicial (cf. Ez 1), o profeta recebe de Deus a sua vocação. Depois de ter ouvido “a voz” que lhe “falava”, o profeta recebe o “Espírito” que vem até ele e o coloca de pé, em posição de prontidão, de escuta. Nessa passagem, o uso da raiz hebraica dbr (donde o substantivo dabar e o verbo diber) é muito importante. Esse verbo, traduzido em nossos lecionários como “falar” se refere quase sempre a um conteúdo concreto [1], sendo muitas vezes utilizado para comunicar o “pensamento e a vontade de Deus” [2].

O profeta se coloca de pé, em atitude de prontidão e escuta, para “ouvir” a Palavra de Deus, a expressão da sua vontade. E a Palavra de Deus que vem até o profeta é o seu envio a uma “nação de rebeldes”, ou “casa de rebeldes” como diz o texto. O profeta é enviado ao povo de Israel que se “rebelou” contra Deus, que tem “faces duras” e “coração empedernido”. “Faces duras/coração empedernido” ou “cabeça dura/coração de pedra”, como prefere traduzir nosso lecionário, são imagens para demonstrar o quanto o povo de Israel estava obstinado no seu pecado. Obstinados no pecado, eles fecharam o coração à Palavra de Deus. Ou melhor seria dizer, talvez, que o próprio fechamento à Palavra Divina foi seu pecado mais terrível, pois assim a conversão tornava-se cada vez mais difícil.

Deus, contudo, não desiste do seu povo. O profeta é enviado para proclamar ao povo a Palavra Divina. “Quer escutem, quer não – pois são uma casa de rebeldes – ficarão sabendo que houve entre eles um profeta” (cf. Ez 2,5). Mesmo sabendo que o povo pode não dar ouvidos à sua Palavra, Deus envia o seu profeta, porque ele não se deixa vencer em misericórdia e generosidade. Deus espera sempre que o homem ouça a sua Palavra e se volte para Ele de todo o coração. Mesmo quando a Palavra do profeta é dura e fere, o objetivo de Deus nunca é deixar o homem ferido. Ao contrário, o objetivo de Deus é sempre curar o homem e trazê-lo de volta à amizade com Ele. A ferida aberta pela Palavra Divina, ajuda a curar a ferida que o distanciamento de Deus produz.

O Salmo 122(123), salmo responsorial dessa liturgia da Palavra, se encaixa muito bem com essa leitura. Se a leitura mostra a misericórdia de Deus que envia seu profeta, mesmo sabendo que sua Palavra será rejeitada, o Salmo, por sua vez, manifesta a confiança do israelita fiel, que suplica a misericórdia do Senhor diante da humilhação que o povo está sofrendo. O Salmista proclama a sua esperança na misericórdia de Deus que virá em seu socorro. Ele “levanta os olhos” para Deus, que “habita nos céus” e suplica: “tende piedade de nós, ó Senhor, tende piedade”.

O grito do salmista e de gerações inteiras foi, sem dúvida, ouvido por Deus. Deus não somente teve misericórdia de nós, mas nos enviou seu Filho, nosso Salvador. O Filho que veio até nós não somente nos manifesta a misericórdia de Deus, mas “Ele é a misericórdia de Deus”.

No trecho do evangelho que ouvimos hoje, Jesus aparece numa situação semelhante à do profeta Ezequiel na primeira leitura. Assim como o profeta foi enviado aos seus conterrâneos, uma “casa de rebeldes”, Jesus também vai a Nazaré, a cidade onde havia crescido. Ali também o Senhor encontrará um povo de “cabeça dura” e “coração de pedra”.

Jesus entra na sinagoga e prega a Palavra. Diante da sua pregação as pessoas ficam admiradas. Mas a admiração não leva à conversão. Ao contrário, eles começam a “questionar”: De onde recebeu ele tudo isso? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses milagres que são realizados por suas mãos? Este não é o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão? (cf. Mc 6,2-3).

No seu Evangelho Marcos destaca um aspecto muito particular a respeito de Jesus: Jesus é o Messias incompreendido. Na primeira parte do seu Evangelho (Mc 1,14 – 8,26), Marcos mostra três momentos fortes onde Jesus não é compreendido: primeiro, em Mc 3,1-6, onde os fariseus não o compreendem e começam a “conspirar” contra ele; depois, no trecho que ouvimos hoje, Mc 6,1-6, onde são os conterrâneos de Jesus que não o compreendem; essa “incompreensão” atingirá seu ápice em Mc 8,14-21, onde são os seus discípulos que não conseguem compreender quem, de fato, ele é.

A incompreensão dos conterrâneos de Jesus faz com que eles se “escandalizem”. O termo utilizado por Marcos significa, literalmente, “tropeçar”. Eles “tropeçam” na sua incredulidade e, por causa da mesma “incredulidade” - denunciada por Jesus em Mc 6,6, onde o Mestre se admira da sua “falta de fé” - ali não é feito nenhum milagre, apenas alguns doentes são curados, porque Jesus é cheio de misericórdia e não podia deixar de atender a estes grandes sofredores. Os sinais, contudo, que poderiam confirmar a fé dos habitantes de Nazaré não acontecem, porque nem adiantaria realizá-los. Afinal, a “incredulidade”, a “apistia” ou seja, a completa ausência de fé, já havia tomado o coração deles.

A Palavra de Deus, proclamada no Evangelho e na Primeira Leitura nos serve em dois sentidos. Em primeiro lugar, como Ezequiel e como o próprio Cristo, somos também enviados a anunciar a Palavra de Deus. Muitas vezes aqueles a quem somos enviados são uma “casa de rebeldes”; um povo “sem fé”. Mas, não devemos desistir. Devemos anunciar a boa nova do Evangelho, porque Deus nos constituiu também como “profetas”, desde o dia do nosso Batismo. Afinal, quando o óleo do Crisma foi aplicado à nossa testa, o sacerdote/diácono fez a seguinte oração: Que ele [o Senhor] te consagre com o óleo santo para que, inserido(a) em Cristo, sacerdote, profeta e rei, continues no seu povo até a vida eterna. Não devemos desanimar diante da possibilidade de não sermos ouvidos. Se fosse assim, Ezequiel não teria dito uma Palavra e Cristo também não. Ao contrário, confiando que o Senhor está conosco, que nos envia e, também, nos acompanha em nossa missão, anunciemos com destemor sua Palavra, certos de que Ele a fará produzir frutos no tempo devido, no coração de quem a ela se abrir com generosidade.

A Palavra proclamada hoje pode, também, nos servir num segundo sentido. Muitas vezes somos nós que temos a “cabeça dura” e o “coração de pedra”. Deus nos fala sempre, mas se nosso coração está fechado, se nos enclausuramos nas nossas próprias certezas, a Palavra de Deus não produzirá efeito nenhum em nós. Por isso, a Palavra de hoje pode também nos servir como um sério exame de consciência. De que modo temos ouvido a Deus que nos fala por meio da sua Palavra? Não será o nosso coração empedernido e a nossa cabeça demasiado dura?

Se constatarmos em nós essa triste realidade, a saber, a dureza de coração, não devemos desanimar. Façamos nossa a oração do salmista e supliquemos “Tende misericórdia, ó Senhor, tende misericórdia!” Basta que isso seja dito com sinceridade! Como diz São Paulo, que também constatou sua fraqueza: Basta-nos a graça de Deus (cf. Segunda leitura). Com certeza, do mesmo modo como Deus enviou o seu Espírito sobre Ezequiel e esse o colocou de pé para ouvir o que Ele tinha a lhe dizer, também Deus não resistirá às nossas súplicas: Ele enviará sobre nós seu Espírito, que também nos colocará de pé, a fim de sermos verdadeiros ouvintes e praticantes da sua Palavra.

padre Fábio Siqueira

[1] F. GERLEMAN, G. Dabar. In: Diccionario Teologico Manual del Antiguo Testamento. Vol. I, p. 619

[2] F. GERLEMAN, G. Dabar. In: Diccionario Teologico Manual del Antiguo Testamento. Vol. I, p. 625

 

 

Naquele tempo

«[Jesus] estava admirado com a falta de fé daquela gente». Assim termina o Evangelho deste domingo, com esta constatação da falta de fé dos habitantes da terra de Jesus. «Como é possível que Deus nos fale através deste homem?», perguntavam-se os seus conterrâneos. «Quem acha Ele que é para estar aqui a querer ensinar-nos?», diziam aqueles que O conheciam.

Às vezes pensamos: «que sorte tiveram as pessoas que conheceram Jesus de Nazaré. Se também eu O tivesse conhecido teria mais fé». Nada de mais falso! Os seus conterrâneos rejeitaram-No precisamente porque achavam que O conheciam. Como é para nós fácil fazer juízos sobre os outros com base naquilo que pensamos conhecer acerca deles. Foram os preconceitos que impediram estas pessoas de O reconhecerem. Foram os preconceitos que impediram que nelas a fé crescesse. Acham que sabem tudo sobre Jesus, mas o conhecimento segundo a carne não nos leva a lado nenhum. Podemos até saber muitas coisas acerca de alguém, podem até ser objetivamente verdadeiras e, mesmo assim, não conhecemos a pessoa. Para a conhecermos realmente precisamos de a ver para lá daquilo que os nossos olhos e os nossos ouvidos nos revelam. É imprescindível reconhecê-lo no Espírito, que é Amor, para podermos ver o outro tal como é verdadeiramente. Não há nada de mais mentiroso do que dizer de alguém: «Este é assim, já o conheço. Não se pode confiar». Quando assim pensamos, verifica-se que ainda não conseguimos ver nem os outros nem nós próprios para além do olhar. Só com o Amor se vê a verdade, porque Deus é amor.

Como é difícil aceitar que o nosso Deus Se manifeste através da banalidade de uma pessoa comum, um filho de um carpinteiro... Com Jesus, somos colocados diante do escândalo de Deus que Se faz carne da nossa carne, que Se faz verdadeiramente um de nós, assumindo a nossa natureza e não escolhendo para Si nenhum privilégio material. Ficamos realmente muito felizes por sabermos que Deus nos chama a sermos cada vez mais como Ele, mas custa-nos aceitar um Deus que partilha a nossa realidade, a nossa banalidade quotidiana.

A fé não é simplesmente aceitar que Jesus é Deus (o Deus que pensamos nós e depois projetamos n’Ele), mas antes aceitar, acreditar, confiar que Deus é este homem Jesus. O Deus omnipotente faz-Se um de nós na impotência de um amor feito carne, frágil, crucificado, quotidianamente banal, fiel e «ferial». Jesus é sinal de contradição, o filho do carpinteiro que acabará derrotado, preso numa cruz, é sinal do poder e da sabedoria de Deus.

 

 

Enxergar as pessoas com os olhos da fé

Na liturgia deste domingo, XIV do tempo comum, na 1ª leitura (Ez. 2,2-5), Ezequiel nos diz que todos somos chamados por Deus a desempenhar a missão de profetas. O profeta ensina em nome de Deus, ensina não só com a palavra (discurso), mas com o testemunho de vida. Não haverá humanidade nova, se não houver em primeiro lugar pessoas novas que firmaram suas vidas na potência divina. “O homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres, ou então se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas” (papa Paulo VI, Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi sobre a Evangelização no Mundo contemporâneo, 41).

O profeta não só fala coisas ‘amargas’, mas é aquele que anuncia, denuncia e propõe caminhos alternativos para que todos atinjam a dignidade humana. Devido a experiência com a Palavra de Deus o profeta recebe o mandato de ir não só onde lhe agrada, mas também às realidades complexas: “eu te envio diante de um bando de rebeldes, gente de cabeça dura e coração de pedra”, por isso, muitas vezes, ele põe em risco sua própria vida. Não há previsão de elogios, adulações e aplausos, apesar de tanto esforço, às vezes, se deparará com pouco resultado, então ele pode cair em grande sofrimento, pois ele prevê o futuro, analisando os fatos do presente.

O profeta pode ter a tentação de desistir e cair numa solidão profunda: “Seduziste-me, Senhor, e eu me deixei seduzir! Tu me dominaste e venceste... A palavra do Senhor tornou-se para mim motivo de insultos e escárnios, dia após dia... Maldito seja o dia em que eu nasci! Não seja abençoado o dia em que minha mãe me deu à luz!... Porque não me deu Ele a morte no ventre materno? Então, minha mãe teria sido o meu túmulo e o seu ventre permaneceria grávido para sempre! Porque saí do seu seio? Somente para contemplar tormentos e misérias, e consumir os meus dias na confusão?” (Jr. 20,7-18). Mas por ser pessoa de oração, o profeta recebe de Deus o alento e ternura de que necessita: “Naqueles dias, depois de me ter falado, entrou em mim um espírito que me pôs de pé”.

Em Deus ele recobra as forças para prosseguir sua caminhada de fé e esperança: “Antes que eu te formasse no ventre te conheci, e antes que nascesses te consagrei e te designei como profeta às nações... irás a todos a quem eu te enviar e falarás tudo quanto eu te ordenar. Não temas diante deles, pois estou contigo...Ponho as minhas palavras na tua boca... te estabeleço sobre as nações e sobre os reinos, para arrancares e derrubares, para destruíres e demolires, e também para edificares e plantares” (Jr. 1,4-10).

Na 2ª leitura (2Cor. 12,7-10) o Apóstolo Paulo vence o conflito interior e ao seu redor, não se fecha em si mesmo, segue a caminhada confiando na graça e não em suas capacidades. Nós, também, podemos, pela oração, vencer as tentações e os obstáculos: “Tal combate e tal vitória não são possíveis senão pela oração. Foi na oração que Jesus venceu o tentador. Jesus se une a nós, nos guarda em seu nome, constantemente nos diz: Coragem eu venci o mundo” (CIC, 2849).

No Evangelho (Mc. 6,1-6), o Evangelista Marcos nos questiona: diante dos profetas que Deus nos envia, estamos dispostos a ouvi-los? A quem ouvimos? Não ter profetas é ruim, pior é não os reconhecer, rejeitá-los porque são humanos. Rejeitando o profeta, estaremos rejeitando à Palavra e o próprio Deus. Neste trecho do Evangelho, as pessoas rejeitam Jesus porque só enxergam a imagem que haviam construído de Deus, um Messias forte, um Deus do espetáculo, “ficaram admirados” (espetáculo não leva a fé os que estão longe, enaltecer os que estão longe, é fácil), rejeitam Jesus pela sua humanidade e pela sua humildade, “filho de Maria, o carpinteiro e ficaram escandalizados”, não creem porque veem, debocham, não acreditam que um humilde possa ter capacidades, ideias: “Entre nós está e não o conhecemos”. Sabemos que Deus escolhe os fracos e humildes para confundir os fortes e poderosos e realizar suas obras. Devido a dureza do coração e a falta de fé, podemos concluir, com Jesus: “Santo de casa não faz milagres”, mas por quê? A culpa é dele ou é nossa?

Hoje somos convidados a renovar nossa profissão de fé, não apenas em Deus, mas também com quem convivemos, aí poderemos modificar o provérbio e dizer: “Santo de Casa, também faz milagres”.

Tomemos cuidado para que o preconceito não nos feche o coração, pois, naquele tempo, muitos não perceberam a ação de Deus em Jesus. Vejamos a pessoa e não somente os ‘penduricalhos’.

padre Leomar Antonio Montagna

 

 

Sábios e inteligentes aqueles que se voltam para Deus

"Provai e vede como é bom o Senhor. Ditoso aquele quem n'Ele se refugia", convida a experimentar nestes tempos de crise, o cântico da

comunhão do 14º domingo do tempo comum.

As relações humanas têm, às vezes, o seu quê de estranho. Ilógico, mesmo! Senão, vejamos. No fim do capítulo 5º de São Marcos, lemos que as multidões ficavam “extremamente maravilhadas” ao verem as ações extraordinárias realizadas por Jesus. E logo, no princípio do capítulo 6º, os habitantes de Nazaré ficam escandalizados com a muita “sabedoria” de Jesus. É bem verdade o que diz um provérbio francês: “plus ça change, plus c’est pareil – quanto mais as coisas mudam, mais ficam na mesma. Também nos nossos dias, para muita gente, a sabedoria e a bondade infinitas do Filho de Deus, Jesus Cristo Salvador da humanidade, são tomadas como ocasião de escândalo e de rejeição. E dói vermos certos cristãos rejeitarem o Senhor Jesus, ou reduzirem-no a um simples indivíduo humano, sem merecimento das honras divinas que lhe pertencem.

Mais sábias e inteligentes são muitas outras pessoas que, cada vez mais, se voltam para Deus e para o Salvador da humanidade como única prancha de salvação numa sociedade em que a fé nos mandamentos da Lei de Deus se afunda sempre mais nas areias movediças do ateísmo destruidor. Gente que, como Agostinho, veem em Deus a “Beleza sempre antiga e sempre nova”, aquele único “em quem pode descansar o nosso coração.” No dizer de tantos, a descoberta que mais realização dá à sua vida é precisamente essa descoberta da presença ativa e amorosa do Criador-Salvador nas suas vidas. “Felizes são eles porque são convidados de honra para o banquete das núpcias do Cordeiro”, canta O Apocalipse 19,9.

É natural que, por vezes, nos perguntemos quando acabam as crises pessoais ou da sociedade. Claro que todos, como indivíduos ou membros da sociedade, devemos contribuir para a solução das crises. Mas é também necessário escutar a Palavra que ouvimos no evangelho de hoje: Em Nazaré, Jesus não pôde fazer milagres por causa da falta de fé daquela gente. Para cada um de nós que quer viver com Deus e na sua felicidade, a fé é condição essencial. Deus está sempre pronto a aumentar a nossa fé, se lho pedirmos, com fé. Não podemos esquecer que Jesus Cristo está no meio de nós. Ele prometeu: “Estarei sempre convosco até ao fim dos tempos”. É confortante sabermos que Ele nunca muda de atitude, mas sente sempre compaixão por todos aqueles e aquelas que precisam da sua ajuda e lha pedem. Poderíamos muitas vezes ouvir no nosso coração as suas palavras ao pegar na mão da menina morta, a filha de Jairo, a dizer-nos também a nós: “Talitha kûm: filho, filha, eu te ordeno, levanta-te!”. E caminha na senda da esperança e da confiança. Ou as suas palavras à viúva da Naim, antes de ressuscitar o filho dela: “Filha, não chores!”. Cada oração bem feita é um verdadeiro tocar no coração do Senhor Jesus e receber a sua ajuda.

padre Aventino Oliveira

 

 

A missão incômoda do profeta!

Após termos vivido duas solenidades nos últimos dois domingos (são João Batista e são Pedro e são Paulo), voltamos às celebrações do tempo comum e, retomando a nossa reflexão, quero recordar que o objetivo principal desse tempo é nos proporcionar caminhos, a partir da Palavra de Deus, que nos conduzam à Santidade de Vida: "sermos santos e santas como nosso Pai do céu é santo!"

Para tanto, importante é quebrar aquela visão de que a santidade é alguma coisa inalcançável pelos simples mortais como nós e própria para homens e mulheres dotados de dons extraordinários! No tempo comum vamos aprendendo com o Senhor que ser santo e santa é possível quando conseguimos adequar a nossa vida à sua Vontade, quando conseguimos realizar as nossas atividades comuns, do dia a dia para a maior honra e glória de Deus. Viver o comum como Deus gostaria que cada um (a) de nós vivêssemos é o caminho seguro para a santidade de vida.

Nesse XIV domingo do tempo comum, a Palavra nos revela que a vida do fiel neste mundo não é uma tarefa simples e fácil pois, o mundo no qual estamos inseridos não fez a sua opção pelo Senhor e, assim sendo, todo (a) aquele (a) que fizer tal opção por Ele acabará recebendo do mundo as contrariedades, perseguições, dificuldades ... uma vez que esta pessoa se colocará como uma pedra no sapato e, estas não são agradáveis e quem a percebe deseja, logo, retirá-la.

A primeira leitura (Ez. 2,2-5) já começa a nos revelar as dificuldades do Profeta.   Estamos no período inicial do Exílio na Babilônia e, este produz uma série de questionamentos por parte do povo sobre os motivos que o conduziu para esta situação trágica (talvez, a mais trágica da sua história). O que teria acontecido?De quem é a culpa pela catástrofe que se abatera sobre o povo? Aonde estava Deus?   Por que Deus deixou que o mal se abatesse com tanta brutalidade sobre o Seu Povo? Teria Deus se cansado do Povo?   Estaria Deus sem condições para agir em seu favor? Essas e muitas outras questões dominam o cenário no início do Exílio e, pouco a pouco, Deus vai respondendo às indagações por meio dos seus profetas: Ezequiel é um desses escolhidos e enviados por Deus para falar ao seu povo. No primeiro capítulo temos a narrativa da visão de Deus que Ezequiel teve junto ao rio Cobar (terra estrangeira). Esta visão o deixou caído, prostrado... sem saber o que fazer. Nossa leitura, segue a esse episódio e nos revela o espírito de Deus entrando em Ezequiel e o colocando de pé. A prostração não facilita a missão mas, ao contrário, a impede. Ezequiel precisa ficar em pé pois o Senhor quer enviá-lo aos israelitas. A leitura segue deixando claro que o povo é uma nação de rebeldes, que se afastou de Deus. Aqui, a dificuldade profética: falar, em nome de Deus, para um povo que Dele se afastara e, por isso, parece não querer escutá-Lo. A causa principal do Exílio está nesse afastamento do povo (os pais e os filhos) dos caminhos propostos por Javé. São uns filhos de cabeça dura e coração de pedra mas que necessitam saber que Deus, o Pai, não os abandonou e por isso lhes envia o profeta. Aqui, o profeta é a garantia de que Deus não abandona os seus mas, está sempre disposto a refazer com os mesmos a Aliança quebrada pelo pecado que endurece a cabeça e o coração.

Jesus é, por excelência o grande profeta, o enviado, o Messias, Deus presente na história do mundo e, assim sendo, não terá uma vida fácil. No Evangelho de hoje (Mc. 6,1-6) temos essa revelação.   As pessoas esperam um Deus que aja em seu favor com poder e que não seja igual e, por conta disso, encontram enorme dificuldade para aceitar que Jesus é o filho de Deus! A encarnação do Senhor, que O igualou de certa forma a cada um (a) de nós é um obstáculo à nossa fé: Quem ele pensa que é? De onde lhe veio toda essa sabedoria?  Ele não é o filho de Maria? Seus irmãos e irmãs não moram entre nós? Não é ele o carpinteiro? e, por aí vão as perguntas à respeito do Senhor. Essa igualdade do Senhor com a gente nos impede de ver Nele o Messias esperado. Assim como no passado, muitas vezes, a nossa fé está enraizada na imensa ilusão de que Deus deve ser intocável, inacessível e esteja pronto para vir de algum lugar não identificado e, sobretudo, não se confunda conosco.   O fato de Jesus ter vindo pobre e ficado no meio dos mesmos, nos impede de vê-Lo como Deus. Jesus se indigna com seu povo e não realiza ali milagre algum por conta da falta de fé do mesmo! Precisamos compreender que Deus não é do jeito que queremos mas do jeito que é e, assim sendo, não é  Ele quem deve se adequar aos nossos critérios mas, ao contrário, somos nós quem devemos nos adequar ao que Ele quer e é.

Por fim, a segunda leitura (2Cor. 12,7-10) nos apresenta o apóstolo Paulo nos apresentando um exemplo de humildade pois, sem essa característica, sem esse dom ninguém conseguirá cumprir a vontade de Deus e, portanto, não será santo (a). São Paulo nos fala de espinho espetado em sua carne que parece ser um anjo de Satanás que o esbofeteia, a fim de que ele não se ensoberbeça. É preciso compreender que na vida do Profeta, do Crente, do fiel tudo é graça  e, não seríamos nada sem a força divina a nos conduzir. Só há uma coisa ou situação que nos é própria: a nossa fraqueza!   Reconhecer tal situação é o primeiro passo para nos colocarmos no caminho do Senhor e percebermos a sua força agindo em nós e por meio de nós no mundo!

padre Ezaques

 

 

Um homem vindo do meio do povo candidatara-se a um alto cargo. Seus conterrâneos passaram a considerá-lo, além de despreparado, pretensioso e o criticavam duramente. Como poderia pleitear aquele lugar sendo um deles e não fazendo parte das elites que historicamente exerciam tal função?

As sociedades organizadas em castas costumam chocar. Mas será que somente elas são assim? Um olhar mais de perto sobre as reações costumeiras das pessoas poderá mostrar que também aqui, no meio da gente, não é raro que se tenha criado “sutis castas”. Expressões denotando surpresa por encontrar alguém que tenha superado esse tal muro invisível, podem carregar uma delicada, ou mesmo abrutalhada, carga de preconceitos.

Tal lugar é só para quem possua determinada cor de pele, é para tal sexo, ou tenha vivido em um específico ambiente e mesmo haja frequentado tais e tais escolas. Recados assim podem estar, sub-repticiamente, sendo passados. Sem dúvidas que ainda há muito preconceito por aí.

Notemos como os que são oriundos das cidades consideradas mais chiques e importantes, acabam por herdar essas características do seu lugar de nascimento e de moradia. Em contrapartida, estados, cidades e regiões mais simples e pobres passam, nessa forma enviesada e não cristã de comportamento, a dar a impressão de serem incapazes de gerar gente preparada para assumir grandes responsabilidades.

Era assim também nos tempos de Jesus. Havia o centro e a periferia e, como hoje, as pessoas e mesmo as coisas advindas do núcleo central, terminavam sendo mais valorizadas do que aquelas nascidas ou criadas pelo interior. O que, ou quem, vinha de Jerusalém, Roma ou de Atenas era mais elegante e considerado. Nada muito diferente de hoje quando se costuma valorizar muito mais, por exemplo, a moda e os comportamentos irradiados desde Paris, Nova York e Rio.

Nazaré era povoado que não possuía nenhuma importância. A terra na qual viveu o nosso Salvador nem é citada no Primeiro Testamento da Bíblia. Simples lugarejo considerado como lugar de passagem para cidades mais importantes. Local onde nem valeria a pena uma parada. Era como se nem merecesse constar dos mapas de então.

Ao verem então voltar à sua cidade, tão desconsiderada, aquele homem que conheceram e com quem conviveram desde criança, descreem dele, numa clara demonstração também de baixa autoestima. Não, este nós conhecemos e sabemos quem ele é. É como se dissessem: “não esperem muito da gente. Somos medíocres, afinal somos de Nazaré...”

Mas aquele não era só lugar de gente assim. Naquele povoado sem atrativos viveu sua vida simples e oculta o nosso Salvador. Como deve ter sido grande a decepção de Jesus com o seu povo. Com certeza que doía bastante nele a descrença da sua gente de Nazaré. Jesus sofreu na pele o ditado popular tão conhecido de que “santo de casa não faz milagre”.

É muito complicado ser profeta entre os seus. A vida em comum, as dificuldades e os defeitos compartilhados e conhecidos, fazem com que não se aceite o conhecido como mestre ou líder. Por isto Jesus irá dizer que não é fácil profetizar em sua própria terra.

Nazaré não aceita que Jesus tenha crescido. Os nazarenos queriam-no tal qual havia partido dali um dia. Mas é bem significativo que Ele volte. No seu retorno há um recado para que não desistamos, mesmo não sendo aceitos, de continuar pregando o Reino entre os mais próximos.

Mas não é só Nazaré que descrê de Jesus. O que viveu em sua terra nada mais foi do que um anúncio daquilo que algum tempo depois iria ocorrer no centro do mundo judaico. Em Jerusalém a realidade se fará muito pior. Não será somente a simples descrença que causará dor em nosso Senhor, mas a violência absurda e gratuita da cruz no Calvário que consumará tudo.

Acaso Jesus viesse hoje à nossa cidade – seja ela das mais consideradas, ou alguma dessas mais simples e pouco conhecidas – como iria ser acolhido? Nossa gente teria os ouvidos, braços e corações abertos para recebê-lo? Ou desconfiaríamos daquele homem que vem falar de coisas tão conflitantes em relação ao que se vive modernamente? No meio de nós aconteceriam milagres?

É interessante essa questão dos milagres no Evangelho desse Domingo. Pré-requisito para que aconteçam é crer neles. O povo não acreditou em Jesus e por isto, não pôde observar os prodígios que Ele realizava. Milagre só acontece com quem crê. Para quem não tem fé o maior prodígio terá sempre uma explicação.

Mantenhamos os olhares bem abertos e atentos para perceber e aceitar os profetas que o Senhor continua enviando ao mundo. Pode bem ser que haja alguns desses homens e mulheres de Deus bem próximos de nós. Mais ainda, é capaz de que necessitem do apoio de quem os reconheça nessa sua tão árdua missão.

Fernando Cyrino

 

 

A primeira leitura da missa de hoje fala para nós de Ezequiel, um profeta do Antigo Testamento. Ezequiel foi chamado por Deus para ser profeta.

Mas quem é o profeta? Qual é a sua missão no meio do povo de Deus?

O profeta é alguém enviado por Deus para transmitir a sua vontade. Ele é como que a boca de Deus. Deus fala por ele.

A missão de profeta não é fácil para Ezequiel: os filhos de Israel são “uma nação de rebeldes, de cabeça dura e coração de pedra”.

Como Ezequiel, também outros profetas tiveram que sofrer por serem fiéis à sua vocação.

 Como os enviados de Deus do Antigo Testamento, Jesus também tem dificuldade em ser reconhecido e acolhido, sobretudo entre os seus conterrâneos: “Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares”. “E admirou-se com a falta de fé deles”.

O profeta do A.T. não foi acolhido porque faltou fé. Jesus não foi acolhido entre os seus porque faltou fé. E os profetas de hoje também muitas vezes não são acolhidos porque falta fé.

 E, então, a reflexão: como temos acolhido aqueles que hoje nos vêm falar de Deus, os profetas de hoje?

O anúncio da vontade de Deus sempre encontrou e encontra também hoje a oposição dos planos dos homens. Como é difícil também hoje ser profeta!  Como é difícil também hoje fazer prevalecer a vontade de Deus.

Também hoje tantas vezes o profeta é objeto de gozações, de zombarias… também hoje o profeta pode ser vítima de perseguição e até de morte.

Mas Deus continua querendo falar através desses seus enviados. Na Igreja, desde o seu começo, sempre se manifestou esta presença especial do Senhor.

Ao longo de toda a história da Igreja, vamos encontrar homens de Deus que nos fazem lembrar os antigos profetas.

E não podemos nos esquecer também que todo cristão participa da missão profética de Jesus.

Quando no batismo o sacerdote unge o batizando com o óleo do Crisma ele diz: “que Ele vos consagre com o óleo santo para que, como membros de Cristo, sacerdote, profeta e rei, continueis no seu povo até a vida eterna”.

Todo cristão é chamado a ser profeta. Todo cristão é chamado a falar de Deus. A anunciar, com a sua palavra e com o seu testemunho de vida, a vontade do Pai.

E então reflitamos: Como temos acolhido aqueles que hoje nos vem falar em nome de Deus? Temos escutado e acolhido no coração com fé a palavra de Deus?

E temos também com a nossa palavra e com a nossa vida buscado ser profetas para os outros, para aqueles que Deus colocou perto de nós? Pode ser que muitas vezes nos desanimamos disso, pensando na nossa pequenez, na nossa falta de capacidade. É preciso olhar para São Paulo e aprender das suas palavras: “quando eu me sinto fraco, então é que sou forte?

 

 

"Jesus em Nazaré!”

Esta narrativa de Marcos tem como núcleo a proclamação de Jesus: "Um profeta só não é valorizado na sua própria terra". É a sua rejeição pelos frequentadores da sinagoga e por seus familiares. É uma ruptura com as tradicionais estruturas sociorreligiosas de parentesco do judaísmo, que se afirma como povo eleito a partir dos vínculos carnais de consanguinidade, comprovados por genealogias. Já João Batista em sua pregação advertia: "Produzi fruto de arrependimento e não penseis que basta dizer: 'Temos por pai Abraão'". Com Jesus a família fica caracterizada pela união em torno do cumprimento da vontade do Pai.

No evangelho de Marcos, esta é a terceira e última vez que Jesus vai a uma sinagoga, cada vez tendo ocorrido um conflito com os chefes religiosos. Jesus exerce seu ministério na Galileia e territórios gentílicos vizinhos, tendo a "casa" como centro de irradiação da missão.

Percebe-se, bem, como os evangelhos deixam transparecer a dificuldade que os discípulos, e os demais que conviveram com Jesus, tiveram em compreender sua identidade. Quem é Jesus? Durante cerca de trinta anos Jesus viveu com sua família, na Galileia, sem nada excepcional que chamasse a atenção sobre sua pessoa. É o Filho de Deus presente no mundo, em comunicação com as pessoas, certamente de maneira humilde, digna e com amor. É a condição humana, na simplicidade do dia a dia, que é valorizada pelo Pai, o qual, em tudo que nela há de bom, justo e verdadeiro, a assume no seu amor e na sua vida eterna. Após ser batizado por João, Jesus durante cerca de três anos passa a revelar ao mundo este projeto vivificante do Pai. É o Reino de Deus presente entre nós. Ao fazer, com sabedoria, o seu anúncio profético do Reino, seus conterrâneos se admiravam, mas não o valorizaram, pois sempre o conheceram na sua simplicidade de carpinteiro, filho de Maria. Esta reação do povo indica que Jesus não tinha nenhuma origem davídica, pelo que, se fosse o caso, seria exaltado por todos.

O judaísmo tinha uma expectativa messiânica segundo a qual um dia viria um líder que, com carismas especiais, conduziria a nação judaica e a elevaria a um status de glória, riqueza e poder acima das demais nações. Era um ungido (messias, do hebraico; cristo, do grego) à semelhança de Davi, ungido rei, que, segundo a exaltação da tradição, teria criado um glorioso império, o que foi incorporado na memória do povo. Ao longo do ministério de Jesus, os seus discípulos de origem do judaísmo começaram a ver nele este messias poderoso. Esta falta de compreensão foi frequentemente censurada por Jesus.

O crer em Jesus é ver, na sua humildade e em seus atos de amor, a presença de Deus, cumprindo a vontade do Pai de comunicar a vida aos empobrecidos e marginalizados, os quais são assumidos como filhos, em Jesus. O verdadeiro ato de fé é ver Deus, despido de poder, vivendo entre nós, humildemente, na plenitude do amor.

Paulo testemunha que a missão é feita com humildade e não com atos de poder (segunda leitura). Foi, também, na simples condição da fragilidade humana, como "filho do homem", que Ezequiel foi enviado a profetizar a um povo rebelde (primeira leitura).

 

 

Foi para a sua pátria (Mc. 6,1-6)

Em Mc. 6,1-3 diz: “Saindo dali, foi para a sua pátria e os seus discípulos o seguiram. Vindo o sábado, começou ele a ensinar na sinagoga e numerosos ouvintes ficavam maravilhados, dizendo: ‘De onde lhe vem tudo isto? E que sabedoria é esta que lhe foi dada? E como se fazem tais milagres por suas mãos? Não é este o carpinteiro, o filho de Maria, irmão de Tiago, José, Judas e Simão? E as suas irmãs não estão aqui entre nós?’ E escandalizavam-se dele”.

Edições Theologica comenta Mc 6,1-3.

Jesus é designado aqui pelo seu trabalho e por ser “o filho de Maria”. Indicará isto que São José já tinha morrido? Não o sabemos, ainda que seja provável. Em qualquer caso, é de sublinhar esta expressão: nos Evangelhos de são Mateus e de São Lucas tinha-se narrado a concepção virginal de Jesus. O Evangelho de São Marcos não refere à concepção e nascimento virginais, na designação “o filho de Maria”.

“José, cuidando daquele Menino como lhe tinha sido ordenado, fez de Jesus um artesão: transmitiu-Lhe o seu ofício. Por isso, os vizinhos de Nazaré falavam de Jesus chamando-Lhe indistintamente faber e fabri filius: artesão e filho de artesão” (são Josemaría Escrivá, Cristo que passa, n.° 55).

“Esta verdade, segundo a qual o homem mediante o trabalho participa na obra do próprio Deus, seu Criador, foi particularmente posta em relevo por Jesus Cristo, aquele Jesus com quem muitos dos Seus primeiros ouvintes em Nazaré ‘ficavam admirados e exclamavam: ‘Donde Lhe veio tudo isso? E que sabedoria é esta que lhe foi dada? Porventura não é Ele o carpinteiro?’ (Mc. 6,2-3). Com efeito, Jesus não só proclamava, mas sobretudo punha em prática com obras as palavras da Sabedoria eterna, o ‘Evangelho’ que Lhe tinha sido confiado. Tratava-se verdadeiramente do ‘evangelho do trabalho’ pois Aquele que o proclamava era Ele próprio homem do trabalho, do trabalho artesanal como José de Nazaré (cf. Mt. 13,55). Ainda que não encontramos nas Suas palavras o preceito especial de trabalhar – antes pelo contrário, uma vez, a proibição da preocupação excessiva com o trabalho e com os meios de subsistência (Mt. 6,25-34) – contudo, a eloquência da vida de Cristo é inequívoca: Ele pertence ao ‘mundo do trabalho’ e tem apreço e respeito pelo trabalho humano. Pode-se até afirmar: Ele encara com amor este trabalho, bem como as suas diversas expressões, vendo em cada uma delas uma linha particular da semelhança do homem com Deus, Criador e Pai” (João Paulo II, Encíclica Laborem exercens).

São Marcos dá uma lista de irmãos de Jesus, e fala genericamente da existência de umas irmãs. Mas a palavra “irmão” não significava necessariamente filho dos mesmos pais. Podia indicar também outros graus de parentesco: primos, sobrinhos, etc. Assim em Gn. 13,8 e 14,14.16 chama-se a Lot irmão de Abraão, enquanto por Gn. 12,5 a 14, sabemos que era sobrinho, filho de Arão, irmão de Abraão. O mesmo acontece com Labão, a quem se chama irmão de Jacó (Gn 29, 15), quando era irmão de sua mãe (Gn. 29,10); e noutros casos: cf. 1Cr. 23,21-22, etc. Esta confusão deve-se à pobreza da linguagem hebraica e aramaica: carecem de termos diferentes e usam uma mesma palavra, irmão, para designar graus diversos de parentesco.

Por outros passos do Evangelho, sabemos que Tiago e José, aqui nomeados, eram filhos de Maria de Cléofas (Mc. 15,40; Jo 19,25). De Simão e de Judas temos menos dados. Parece que são os Apóstolos Simão, o Zelotes (Mt. 10,4; Mc. 3,18) e Judas Tadeu (Lc. 6,16), autor da epístola católica em que se declara “irmão” de Tiago. Por outro lado, ainda que se fale de Tiago, Simão e Judas como irmãos de Jesus, nunca se diz que sejam “filhos de Maria”, o que teria sido natural se tivessem sido estritamente irmãos do Senhor. Jesus aparece sempre como filho único; para os de Nazaré. Ele é “o filho de Maria” (Mt. 13,55). Jesus ao morrer confia Sua mãe a São João (cf. Jo 19,26-27), o que revela que Maria não tinha outros filhos. A isto acrescenta-se a fé constante da Igreja, que considera Maria como a sempre Virgem: “Virgem antes do parto, no parto, e para sempre depois do parto” (Paulo IV, Const. Cum quorumdam).

 

O padre Gabriel de Santa Maria Madalena comenta esse trecho do Evangelho de São Marcos.

Nazaré era sua cidade, sua pátria, onde vivera desde a infância, onde tinha os parentes e era bem conhecido; era de esperar que tudo isto facilitasse seu ministério; foi, no entanto, ocasião de rejeição. Após o primeiro momento de espanto, ante sua sabedoria e seus milagres, os incrédulos nazarenos o repelem: “Não é este o carpinteiro, o filho de Maria’... E se escandalizavam dele”. Um secreto orgulho, egoísta e mesquinho, impede-os de admitir que um como eles, crescido sob seus olhos, operário pobre, pudesse ser profeta, e, além disso, Messias, Filho de Deus!

Marcos 6,1-3 é comentado pelo padre Juan Leal.

Nazaré pode ser chamada a cidade “natal” de Jesus, porque ali Ele viveu principalmente. Jesus prega na sinagoga no sábado Lc. 4,17-21 conta mais detalhadamente o ocorrido.

Há duas variantes importantes no versículo três.

1) O carpinteiro, o filho de Maria;

2) O filho do carpinteiro. Esta lição era a que lia Orígenes, pois contestado por Celso, disse que nenhuma parte do Evangelho se lê que Jesus fora carpinteiro (Contra Celso 1,28). Mateus disse: Não é este o filho do carpinteiro? Não se chama sua mãe Maria? (Mt. 13,55). Lucas disse: Não é este filho de José? (Lc. 4,22). Nesta insegurança da tradição é difícil saber qual foi a frase original. Provavelmente, o carpinteiro, o filho de Maria, é a lição original, e as outras variantes poderiam explicar-se por um desejo dos copistas de evitar aos leitores algo que estes pudessem considerar como ofensivo a Jesus: ser ele mesmo um carpinteiro. Outros (Klostermann), em compensação, têm por mais primitiva a lição de Orígenes (o filho do carpinteiro), e consideram outras lições como correções dogmáticas em favor da concepção virginal.

O não nomear mais que Maria, pode indicar que José já havia morrido.

O padre Manuel de Tuya comenta Mc. 6,1-3.

Cristo sai provavelmente de Cafarnaum, e vai para a “sua pátria”. Esta é Nazaré (Mc. 1,9.24; Lc. 4,16).

“Como são realizados tais milagres por sua mão?” Os nazarenos ouvem falar dos milagres de Cristo e reconhecem que os realiza, porém como um simples instrumento ou mediador. Por isso, a sabedoria que tem “lhe foi dada”, e os “milagres são realizados por sua mão”. É o mesmo que se diz de Moisés (2Cr. 35,6). Porém, sua crença n’Ele, ainda como taumaturgo, é muito rudimentar. Por conhecê-Lo, os seus familiares desestimam seus poderes e se “escandalizam”. Provavelmente desconfiam do valor de suas obras. É um caso de dificuldade em aldeia e na família.

Faz-se a Cristo “artesão”. A palavra grega usada significa um artesão que trabalha principalmente com madeira. Porém, naquele vilarejo, os ofícios de um “artesão” podiam estender-se a outras pequenas ocupações.

Citam-se “irmãos” e “irmãs” de Cristo. Estes são “parentes” em grau diverso do mesmo. Precisamente no mesmo Evangelho se dá o nome da mãe destes “irmãos” de Cristo. A razão de chamá-los “irmãos” e não parentes, ou especificamente com o grau de parentesco que tivessem, se deve a quem, em hebraico, não há termos específicos para isto. Só se usa para todos os graus de parentesco a palavra irmão.

Lúcio Navarro comenta Mc. 6,3: “Não é este o carpinteiro, o filho de Maria, irmão de Tiago, José, Judas e Simão?”

Sabemos que a Bíblia não somente designa com o nome de irmãos aqueles que são filhos do mesmo pai ou da mesma mãe, como eram Caim e Abel, Esaú e Jacó, são Tiago Maior e são João Evangelista (que eram filhos de Zebedeu), etc.; mas também aqueles que são parentes próximos, como tios e primos.

A Bíblia está cheia destes exemplos.

Abrão chama de irmão a Lot: “Que não haja discórdia entre mim e ti, entre meus pastores e os teus, pois somos IRMÃOS” (Gn. 13,8). Mais adiante a própria Bíblia o chama assim: “Abraão, tendo ouvido que Lot, seu IRMÃO, ficara prisioneiro...” (Gn. 14,14). Pois bem, Lot era apenas sobrinho de Abraão, pois já antes disto se lê no Gênesis: “Abrão partiu, como lhe disse o Senhor, e Lot partiu com ele. Abrão tinha setenta e cinco anos quando deixou Harã. Abrão tomou sua mulher Sara, seu sobrinho Lot...” (Gn. 12,4-5).

Labão diz a Jacó: “Acaso, porque tu és meu IRMÃO, deves tu servir-me de graça?” (Gn. 29,15). E, no entanto, Jacó era SOBRINHO de Labão: “Isaac chamou a Jacó e o abençoou e lhe pôs por preceito dizendo: Não tomes mulher da geração de Canaã; mas vai e parte para Mesopotâmia..., e desposa-te com uma das filhas de Labão, SEU TIO” (Gn. 28,1-2). Realmente, Jacó era filho de Isaac com Rebeca (Gn. 25,21-25)  Rebeca era irmã de Labão: Rebeca, porém, tinha um irmão chamado Labão (Gn. 24,29). E, no entanto, não só como vimos acima, seu tio, o chama IRMÃO, mas também quando Jacó se encontra com Raquel, que é filha de Labão (Gn. 29,5-6), diz à moça que é irmão de Labão: “E lhe manifestou que era irmão de seu pai e filho de Rebeca” (Gn. 29,12).

É dentro deste costume hebreu de designar com o nome de IRMÃOS, não só os que têm os mesmos pais, senão também os parentes próximos como tios, primos e sobrinhos, pois o hebraico não possuía palavras próprias para designar esses parentescos, que o Novo Testamento fala em IRMÃOS DE JESUS e é  o próprio Novo Testamento QUE SE ENCARREGA DE DEMONSTRÁ-LO.

Dá alguma vez o Evangelho os nomes desses irmãos de Jesus para que possamos identificá-los?

Sim, dá. Sabe-se dos nomes, pelos menos de 4: TIAGO, JOSÉ, JUDAS e SIMÃO: “Não é este o carpinteiro, filho de Maria, IRMÃO de TIAGO, e de JOSÉ e de JUDAS e de SIMÃO? Não vivem aqui entre nós também suas irmãs?” (Mc. 6,3), e: “Porventura não é este o filho do carpinteiro? Não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos TIAGO, JOSÉ, SIMÃO e JUDAS? E suas irmãs não vivem todas entre nós?” (Mt. 13,55-56).

Pois bem, este TIAGO que encabeça a lista é um Apóstolo, pois diz São Paulo na Epístola aos Gálatas: “E dos outros APÓSTOLOS não vi a nenhum, senão a TIAGO, IRMÃO do SENHOR” (Gl. 1,19).

Temos 2 Apóstolos com o nome de TIAGO: TIAGO MAIOR e TIAGO MENOR. Vamos ver se algum deles era filho de José com Maria.

SÃO TIAGO MAIOR era irmão de São João Evangelista e ambos FILHOS de ZEBEDEU: “... e também de TIAGO e JOÃO, FILHOS de ZEBEDEU” (Lc. 5,10).

SÃO TIAGO MENOR, IRMÃO de JUDAS, era FILHO de ALFEU. Entre os Apóstolos, que são enumerados por São Mateus, estão: “TIAGO, FILHO de ZEBEDEU e TIAGO FILHO de ALFEU” (Mt 10, 2-3). Que tem a ver Maria Santíssima com este ALFEU ou com este ZEBEDEU? Logo, este Tiago, IRMÃO do SENHOR, NÃO é SEU FILHO.

Por aí se vê que a mesma Maria que é apresentada por São João como tia de Jesus (irmã de sua mãe) é apresentada por São Mateus e São Marcos como mãe de TIAGO MENOR e de JOSÉ. E é claro que não se trata de Maria Salomé, que é a mãe dos FILHOS de ZEBEDEU e, portanto, é mãe de TIAGO MENOR.

TIAGO MENOR e JOSÉ são, portanto, PRIMOS de Jesus, e são os primeiros que encabeçam aquela lista:

TIAGO, JOSÉ, JUDAS e SIMÃO.

São Judas Tadeu era irmão de são Tiago Menor, pois ele diz no começo de sua Epístola: “Judas, servo de Jesus Cristo e IRMÃO de Tiago” (Jd. 1).

E assim cai por terra fragorosamente a alegação de certas pessoas de que Maria teve outros filhos além de Jesus Cristo. Não só provamos que entre os hebreus se chamavam IRMÃOS os parentes próximos, mas também mostramos que a lista dos nomes apresentados como sendo destes irmãos é logo encabeçada por dois PRIMOS, filhos da irmã da mãe de Jesus.

A única dificuldade, esta agora já sem importância, que pode fazer certas pessoas é que Tiago Menor é filho de Alfeu, e sua mãe é apresentada como MULHER de CLÉOFAS.

Temos que observar o seguinte:

1. O texto original não diz mulher de Cléofas, mas diz simplesmente: a irmã de sua mãe, Maria a do Cléofas (texto grego de João 19,25); podia chamar-se Maria, a do Cléofas, por causa do pai ou por outro qualquer motivo.

2. Não repugna que a mesma Maria se tenha casado com Alfeu e dele tenha tido São Tiago Menor e depois se tenha casado com Cléofas e tido outros filhos ou mesmo deixado de ter. Tiago é o único apontado nos Evangelhos como filho deste Alfeu, pois o Alfeu, pai de São Mateus (Mc. 2,14) já deve ser outro.

3. Não repugna que o mesmo Alfeu seja o mesmo Cléofas. É muito comum nas Escrituras uma pessoa ser conhecida por 2 nomes diversos: O sogro de Moisés é chamado Raguel (Ex. 2,18-21) e logo depois é chamado Jetro (Ex. 3,1). Gedeão, depois de ter derrubado o altar de Baal é chamado também de Jerobaal (Jz. 4,32). E no Novo Testamento o mesmo Mateus é chamado Levi: Viu um homem que estava assentado no telônio chamado Mateus (Mt. 9,9), viu a Levi, filho de Alfeu, assentado no telônio (Mc. 2,14). O mesmo que é chamado José é chamado Barsabás (At. 1,23).

Seja Alfeu o mesmo Cléofas ou não, isto pouco importa. O que é fato é que Maria de Cléofas é irmã de Maria, mãe de Jesus e é ao mesmo tempo mãe de Tiago e de José, que são chamados irmãos do Senhor.

E, no entanto, o Evangelho, descrevendo a família em Nazaré, relatando a ida de Jesus ao templo de Jerusalém, quando o Menino  Deus já tinha doze anos (Lc. 2,42), não faz a mínima referência a irmão nenhum que Jesus tivesse. Se Maria teve assim tantos filhos, nessa ocasião já deveria ter alguns.

Os Evangelhos só vêm falar em irmãos de Jesus, quando Ele aparece na sua vida pública.

Mais ainda: na hora da sua morte, é a são João Evangelista, filho de Zebedeu e de Salomé que Ele encarrega de ficar tomando conta de sua Mãe Santíssima: “Jesus, pois, tendo visto sua mãe e ao discípulo que Ele amava, o qual  estava presente, disse à sua mãe: Mulher, eis aí o teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis aí a tua mãe. E desta hora em diante a tomou o discípulo para sua casa” (Jo 19,26-27).

Se Maria teve tantos filhos e filhas, como se explica que ela tenha sido entregue aos cuidados de São João Evangelista e que este a tenha levado para sua casa? Dizer que esses irmãos do Senhor tenham morrido dentro daqueles três anos da vida pública do mestre não é possível, pois são Paulo continua a falar em irmãos do Senhor que ainda estão vivos depois da morte de Jesus (1Cor. 9,5; Gl. 1,19).

Estas considerações levam a concluir que a expressão “Irmãos de Jesus” não obriga a dizer que Maria teve outros filhos além de Jesus. Pode-se mesmo afirmar que somente a falta de conhecimento exato da linguagem bíblica e dos textos concernentes ao assunto fundamenta a tese de que Maria foi mãe dos “Irmãos de Jesus”. O estudo preciso e objetivo das Escrituras dissuade de tal sentença.

O padre Juan de Maldonado comenta Mc. 6,1-3.

6,1. E saindo dali. – Ou seja, da casa do chefe da sinagoga, onde havia ressuscitado a filha deste (5,41), ou também da cidade de Cafarnaum, onde devia estar a dita casa, como se deduz são Mateus 9,23.

Ele foi à sua pátria. – A Nazaré, onde se havia criado... a julgar pela Escritura e a observação de autores de nota, pode-se chamar pátria de Cristo a três cidades: Belém, a cidade própria de seu nascimento; Nazaré, de sua educação, e Cafarnaum, de sua permanência e pregação. Aqui neste lugar não se refere a Belém, a qual não acredito que seja citada como tal em toda a Escritura, nem a Cafarnaum, pois ali estava quando se diz que partiu para sua pátria; senão somente a Nazaré, onde viviam seus irmãos e irmãs, como se lê no versículo três e em são Mateus 13,55.

E seus discípulos o seguiam. – Talvez nota isto aqui o evangelista para dar razão de havê-los enviado logo a pregar pela Judéia, posto que viessem com Ele à sua pátria.

6,2. E chegado o sábado. Quando chegou o dia de sábado, em que os judeus se reuniam na sinagoga (Mc. 1,21).

Perguntam alguns por que Cristo quis ir à sua pátria e pregar na sinagoga, pois sabia que não havia de ter aceitação nem sua doutrina nem seus milagres, como se vê em seguida (vv. 3, 4 e 5). Teofilacto e Eutimio respondem: para que não tivessem ocasião de se desculparem, dizendo que se Ele tivesse ido ali, teriam acreditado.

Admiravam-se de sua doutrina.  A construção da versão latina, in doctrina eius, é um hebraísmo que põe ablativo em vez de acusativo, com preposição.

E não podia realizar ali nenhum grande milagre. – Chama virtutes aos milagres porque neles resplandece principalmente o poder de Deus.

Parece causar escândalo o dizer que “não pode fazer em sua pátria nenhum milagre”, como se não tivesse Cristo poder para fazer tudo o que quer e onde quer que seja. Entenderá muito bem pelo que ensina São Gregório Nazianzeno: “Um dos vários modos porque algo não se pode ou é impossível, segundo a Sagrada Escritura, é quando se diz que não podemos fazer o que não queremos: v. gr., os irmãos de José, diz o Gênesis, não podiam dizer-lhe uma  palavra pacífica pelo ódio que lhe tinham (Gn. 34,4), ou seja, que não lhe queriam; e neste sentido dizia Cristo (Jo 7,7): Não pode o mundo vos odiar, ou seja, não quer nem tem razão, porque sois mundanos. E neste mesmo sentido se diz que Cristo não podia fazer milagres em sua pátria, ou seja, não queria, por causa da incredulidade daqueles homens, e, para exagerá-la, o evangelista preferiu dizer que não pode, ao invés de dizer que não quis, como se houvessem impedido a Cristo de realizar milagres, não por defeito d’Ele, senão dos ouvintes”.

Com efeito: duas coisas ocorrem para fazer milagres, se não por necessidade, se por conveniência; o poder suficiente no taumaturgo e a fé no que recebe o milagre. Se faltar algum destes dois requisitos, se diz que não pode haver o milagre, como apoiados no mesmo são Gregório notaram Teofilacto e Eutimio.

Se diz também que não se pode fazer (como ensina o mesmo são Gregório) o que não é conveniente, como quando disse Cristo: Porventura podem chorar (ou seja, não é conveniente nem decente) os filhos do esposo enquanto está o esposo com eles? (Mt. 9,15). Assim se pode entender também este lugar, como se dissesse que Cristo não podia então fazer milagres porque não era conveniente nem justo. Desta maneira respondeu Cristo em outra ocasião aos filhos de Zebedeu  que não podia conceder-lhes postos de honra que lhe pediam, porque não era justo fazê-lo naquele tempo: Todavia, o sentar-se à minha direita ou à minha esquerda não cabe a mim concedê-lo, mas é para aqueles a quem está preparado (Mc. 10,40). Neste mesmo sentido disse aqui o evangelista que não pode fazer milagres, a saber, porque não parecia justo fazê-los a homens ingratos e mal dispostos, como interpreta Teofilacto. Queria guardar em si mesmo aquela regra que havia dado a seus discípulos: Não deis aos cães o que é santo, nem atireis as vossas pérolas aos porcos, para que não as pisem e, voltando-se contra vós, vos estraçalhem (Mt. 7,6).

Observa Orígenes que são Mateus e são Marcos não só dizem que não pode Cristo fazer milagres em sua pátria, senão que realizou alguns e nada mais: E não fez ali grandes milagres, disse o primeiro; somente a cura de alguns enfermos, impondo-lhes as mãos, acrescenta o outro; para que entendêssemos que fez alguns milagres, porém, que não pode haver mais pela má disposição daqueles homens.

Opinam são Beda e Teofilacto que Cristo não fez muitos milagres entre aqueles incrédulos para não dar-lhes gosto. Porém, a meu entender, se há de atribuir esta reserva de Cristo a sua justiça mais que a sua misericórdia, privando de seus milagres àqueles indignos, como castigo merecido.

Em Mc. 6,4-6 diz: “E Jesus lhes dizia: ‘Um profeta só é desprezado em sua pátria, em sua parentela e em sua casa’. E não podia realizar ali nenhum milagre, a não ser algumas curas de enfermos, impondo-lhes as mãos. E admirou-se da incredulidade deles”.

Edições Theologica comenta Mc. 6,4-6.

Jesus não fez ali milagres: não porque Lhe faltasse poder, mas como castigo da incredulidade dos Seus concidadãos. Deus quer que o homem use da graça oferecida, de sorte que, ao cooperar com ela, se disponha a receber novas graças. Em frase gráfica de Santo Agostinho: “Deus que te criou sem ti, não te salvará sem ti” (Sermão 169).

Esse trecho do Evangelho de São Marcos é comentado pelo padre Gabriel de Santa Maria Madalena.

A modéstia, a humildade de Jesus é a pedra de escândalo em que esbarram, fechando-se à fé. E Jesus observa com tristeza: “Um profeta não é desprezado senão na sua terra, entre os seus parentes, na própria família”. A incredulidade dos seus impede-O de operar ali os grandes milagres feitos em outros lugares, porque Deus usa da onipotência só em favor de quem crê. Alguém, porém – provavelmente entre os mais humildes -, certamente creram, também em Nazaré, pois nota Marcos: “Curou um pequeno número de enfermos, impondo-lhes as mãos”. Isso mostra que Jesus está sempre pronto para salvar quem o aceita como Salvador.

O padre Juan Leal comenta Mc. 6,4-6.

Diz–se que por causa da incredulidade dos nazarenos, Jesus não pode fazer nenhum milagre, mas sim, a cura de uns poucos enfermos. É que seus milagres estão ligados como condição à fé daqueles que deve experimentar seu poder salvífico.

O padre Manuel de Tuya comenta Mc. 6,6.

Esta “admiração” verdadeira que Cristo tem por causa da “incredulidade” que tinham d’Ele, em nada vai contra a plena sabedoria que tem por sua ciência “beatífica” e “infusa”, já que isto não é mais que um caso do exercício de sua ciência “experimental”, como a teologia ensina.

padre Divino Antônio Lopes FP.