Doutrina admirável

Se combinarmos, entre quatro pessoas, para ir a São Paulo num carro de passeio, por exemplo, caso nunca tenhamos ido a essa cidade, precisaremos de um bom mapa de estradas e também orientar-nos pelas placas que encontraremos pelo caminho. Se não seguirmos rigorosamente essas indicações, ao invés de chegarmos a São Paulo chegaríamos a qualquer outra cidade, a qual não seria, porém, a nossa meta. O mapa não se manipula, se estuda; poderia representar o esforço pessoal para se chegar ao céu. Quanto às placas, essas estão lá, precisamos simplesmente segui-las. Alguém as colocou lá; nós, docilmente, seguindo-as chegaremos, pelo caminho proposto, à meta. Elas poderiam representar a graça de Deus. Ambas, placas e mapas nos indicam por aonde irmos se quisermos alcançar o objetivo proposto.

Para chegarmos ao céu, é importante que lutemos com muito esforço e muita decisão, sem esquecermo-nos que a graça de Deus nos acompanha sempre. Nesse nosso caminho rumo ao céu, uma das grandes graças que nos foi oferecida é o ensinamento de Cristo. Os ensinamentos do Senhor são como boas placas do caminho que, se as seguirmos, chegaremos a bom termo.

Escandalizavam-se porque o carpinteiro, o filho de Maria ensinava com autoridade, com sabedoria. Por outro lado, Jesus deixaria realmente uma impressão muito grata, os que o ouviam ficavam admirados. Gosto de imaginar Cristo ensinando, gosto de imaginar-me lá junto dele escutando as suas palavras sapientíssimas, cheias de unção, são as palavras do Filho sobre o seu Pai. Nós também ficamos admirados porque é simplesmente maravilhoso tudo o que o Senhor fala sobre o Pai, seu Pai e nosso Pai, mas… será que ficamos também escandalizados, isto é, será que suas palavras santíssimas são causa de queda para nós?

Quando as palavras de Cristo seriam causa de escândalo para nós?

Se, ao ler o Evangelho, chego à conclusão que tudo aquilo é impossível para mim, que não posso chegar a metas tão altas, que a santidade é coisa para poucos;

Se, ao escutar o magistério da Igreja ensinando as exigências do amor de Deus, criticamos e não nos dispomos a seguir pelos caminhos que o Senhor deseja e que o Papa e os Bispos em comunhão com ele nos transmitem;

Se a humildade, a castidade, se o aproveitamento do tempo, o serviço aos demais me parecem virtudes de gente retrógrada, de gente do passado, pouco desenvolvida e que não acompanha a modernidade.

Mas, Jesus já tinha mostrado àqueles homens e muitas vezes nos tem mostrado a origem da sua autoridade: o que ele fala verdadeiramente vem de Deus, ele é o Deus feito homem. No batismo escutara-se a voz do Pai que dizia “Tu és o meu Filho amado; em ti ponho as Minhas complacências” (Mc. 1,11); ao começar seu ministério muitos tinham escutado o Senhor com toda a autoridade a dizer-lhes: “Fazei penitência e crede no Evangelho” (Mc. 1,15). Também tinham se maravilhado da doutrina do Senhor quando ele certa vez entrara na sinagoga de Cafarnaum e começara a ensinar, tinham visto lá um ensino com autoridade (cf. Mc. 1,21-22). Essa autoridade do Senhor também fica patente quando ele expulsa demônios, quando ele cura os enfermos. Diante das maravilhas de Cristo, seus ensinamentos e suas ações, as pessoas ficavam pasmadas e davam glória a Deus: “Nunca vimos coisa assim!” (Mc. 2,12). Ainda que nem todos ficassem admirados e a dar glória a Deus, é verdade que muitos tinham essas reações. Nós queremos ser contados entre esses que glorificam a Deus, não entre aqueles para os quais a doutrina de Cristo era motivo de escândalo, de queda. Por quê? Por causa do endurecimento de coração, por causa do comodismo egoísta que não os permitia olhar ao redor de si e para si mesmos de maneira realista.

A escolha dos apóstolos deixa claro que o Senhor os queria “para andarem com Ele e para os mandar a pregar” (Mc. 3,14). A primeira coisa que o apóstolo cristão precisa fazer é andar com o Senhor, ele precisa ser ao entrar em contato com Cristo, outro Cristo, o mesmo Cristo. É preciso que nos identifiquemos com Cristo também na maneira de expressar-nos, isto é, as nossas palavras irão, pouco a pouco, sendo verdadeiros veículos da doutrina de Cristo explicita e implicitamente: a calma e a paz ao falar, a sinceridade, a humildade ao dirigirmo-nos aos demais, todos esses são traços de uma personalidade que se identificou com Cristo nas suas palavras. É um discípulo que ama o seu Mestre. Não se trata de ser fanático, o fanatismo é um desvio da religiosidade; trata-se de apaixonar-se por Jesus Cristo. Toda a nossa vida cristã em todos os seus aspectos será um desenrolar-se do seguimento de uma Pessoa, a de Jesus. O nosso seguimento de Jesus leva-nos a uma entrega da própria vida, de toda a vida! Se tivéssemos mais vidas, mais felizes estaríamos pela ajuda que prestaríamos ao próprio Deus que quer fazer de nós verdadeira placas de sinalização para que os outros dele se aproximem.

padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa

 

 

Basta-te a minha Graça!

O Evangelho (Mc. 6,1-6) mostra o ministério de Jesus junto às multidões. Em vez da adesão, obtém a rejeição em sua terra natal. Nazaré era a sua casa, a sua pátria, onde viviam os seus parentes e Ele era bem conhecido. E foi rejeitado! Cheios de incredulidade dizem os nazarenos: “Não é Ele o carpinteiro, filho de Maria…? E ficaram escandalizados por causa dele” (Mc. 6,3). Um orgulho secreto, baixo, mesquinho, impede-os de admitir que um como eles, criado à vista de todos e de profissão humilde, possa ser um profeta, e nada mais nada menos que o Messias, o Filho de Deus.

E Jesus não fez ali milagres: não porque Lhe faltasse poder, mas como castigo da incredulidade dos seus concidadãos. Deus quer que o homem use da graça oferecida, de sorte que, ao cooperar com ela, se disponha a receber novas graças. É o que expressa santo Agostinho: “Deus que te criou sem ti, não te salvará sem ti.”

O que aconteceu em Nazaré pode acontecer também hoje na Igreja e com cada um de nós. É a falta de fé, incapaz de lançar uma luz superior sobre as pessoas e os acontecimentos. Foi com esses olhos da fé que são Paulo encarava o seu ministério apostólico (2Cor. 12,7-10). Sentia em si a fraqueza, o pecado. Recebeu, porém, de Deus uma resposta: “Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que a força se manifesta”. Ao contar com a ajuda de Deus, tornava-se mais forte e isso fez que Paulo exclamasse: “Eis porque eu me comprazo nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições e nas angústias sofridas por amor a Cristo. Pois, quando eu me sinto fraco, é então que sou forte” (2Cor. 12,10). Na nossa fraqueza, experimentamos constantemente a necessidade de recorrer a Deus e à fortaleza que nos vem dele. Quantas vezes o Senhor nos terá dito na intimidade do nosso coração: Basta-te a minha graça, tens a minha ajuda para venceres nas provas e dificuldades!

Por outro lado, as próprias dificuldades e fraquezas podem converte-se num bem maior. São Tomás de Aquino explica que Deus pode permitir algumas vezes certos males de ordem moral ou física para obter bens maiores ou mais necessários. O Senhor nunca nos abandonará no meio das provocações. A nossa própria debilidade ajuda-nos a confiar mais, a procurar com maior presteza o refugio divino, a pedir mais forças, a ser mais humildes: “Senhor, não te fies de mim! Eu, sim, é que me fio de Ti. E ao vislumbrarmos na nossa alma o amor, a compaixão, a ternura com que Cristo Jesus nos olha – porque Ele não nos abandona -, compreenderemos em toda a sua profundidade as palavras de Apóstolo: “… a força se manifesta na fraqueza! (2Cor. 12,9); com fé no Senhor, apesar das nossas misérias, seremos fiéis ao nosso Pai – Deus, e o poder divino brilhará, sustentando-nos no meio da nossa fraqueza” (são Josemaria Escriva, Amigos de Deus, nº. 194).

Basta-te a minha graça. São palavras que o Senhor dirige hoje a cada um de nós para que nos enchamos de fortaleza ante as provas que tenhamos pela frente.

Quando a tentação, os contratempos ou o cansaço se tornarem maiores, o demônio tratará de insinuar-nos a desconfiança, o desânimo, o descaminho. Por isso, devemos hoje aprender a lição que São Paulo nos dá: nessas situações, Cristo está especialmente presente com a sua ajuda; basta que recorramos a Ele.

Mas, ao mesmo tempo, o Senhor pede que estejamos prevenidos contra a tentação e que lancemos mão dos meios ao nosso alcance para vencê-la: a oração e a mortificação voluntária; a fuga das ocasiões de pecado, pois “aquele que ama o perigo nele perecerá! (Eclo 3,27); exercer com dedicação o trabalho, pelo cumprimento exemplar dos deveres profissionais; horror a todo o pecado, por pequeno que possa parecer; e, sobretudo, o esforço por crescer no amor a Cristo e a Nossa Senhora.

Podemos tirar muito proveito das provas, tribulações e tentações, pois nelas demonstramos ao Senhor que precisamos dEle e o amamos.

Quanto maior for a resistência do ambiente ou das nossas próprias fraquezas, mais ajudas e graças Deus nos dará. Pois, assim a tentação nos conduzirá à oração, à união com Deus e com Cristo: não será uma perda, mais um lucro; “sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm. 8,28).

mons. José Maria Pereira

 

 

Pelo batismo fomos incorporados a Cristo Profeta. A celebração deste domingo interpela-nos, a que atentos à Palavra de Deus e aos seus sinais no mundo de hoje, procuremos de forma consciente e responsável, construir o seu reino.

Num mundo de preconceitos em relação a Cristo, à Comunidade dos seus discípulos, a Igreja, importa dar as razões da nossa fé e abandonarmos as atitudes passivas do «deixa andar». É preciso entender o seguimento de Cristo como compromisso e algo dinâmico.

É necessário ouvir «eu te envio» ou «basta-te a minha graça» para percorrer todos os espaços na perspectiva de semear Evangelho.

Primeira leitura: Ezequiel 2,2-5

A leitura refere a vocação e a missão do profeta Ezequiel, no exílio de Babilônia. É impressionante o contraste entre a grandeza da glória do Senhor antes descrita gongoricamente no capítulo 1º e a debilidade do seu profeta; é Deus que lhe dá força e o anima a dirigir-se a «um povo de cabeça dura».

3 «Filho de homem». Esta expressão, com que repetidamente é designado o profeta, põe em contraste a pouquidão humana com a grandeza divina. Quase só em Ezequiel aparece este título; Jesus há-de assumi-lo para indicar a aparência humilde com que se revela; esta expressão era uma forma discreta de se referir a si (um asteísmo), equivalente a este homem; mas, em parte, a expressão era também um título glorioso (cf. Dn. 7,13). De qualquer modo, é um título exclusivamente usado pelo próprio Jesus, pois mais ninguém assim O chama. O cristológico deste título é belamente exposto por Bento XVI (Jesus de Nazaré, cap. X).

Segunda Leitura: 2 Coríntios 12,7-10

A leitura é tirada da 3ª parte de 2Cor., em que são Paulo entra em polêmica com os que pretendiam desautorizá-lo. Não receia mesmo apelar para «revelações» extraordinárias (12,1-6). O texto é rico de ensinamentos para a vida cristã: a humildade, a confiança no poder da graça de Deus e a necessidade da oração. «Um espinho na carne»: a natureza deste espinho é muito discutida. Parece menos provável que se trate de tentações violentas ou de angustiantes preocupações pastorais. É mais provável que se trate de alguma doença que o afligia (paludismo, doença nervosa, doença nos olhos, sendo esta última explicação a mais seguida, a partir dos elementos deduzidos de At. 9, 8-9.18; 23, 5; Gl. 4,15; 6,11.

Evangelho: Marcos 6,1-6

Por este episódio fica claro que Jesus, embora socialmente aparecesse como um mestre entre tantos, Ele não o era como os restantes, pois não tinha o curriculum de mestre, por isso não vêem nele mais do que um simples carpinteiro, alguém que vivera em tudo uma vida igual à dos seus conterrâneos. «Tiago e José» eram primos de Jesus, filhos duma outra Maria, como se diz em Mt. 27,57 (cf. Mc. 15,47); irmão era uma forma de designar todos os familiares.

3 «O filho de Maria». Alguns deduzem daqui que são José já tinha morrido, o que é mais do que provável; com efeito, em todas as passagens onde se fala de parentes de Jesus, nunca se nomeia S. José. Há porém aqui um pormenor curioso: nos lugares paralelos de Mateus e Lucas, Jesus é chamado «filho do carpinteiro» (Mt. 13,55) e «filho de José» (Lc. 4,22). No entanto, não são os Evangelistas a designá-lo assim, mas os ouvintes do Senhor. Mateus e Lucas, que já tinham deixado clara a virgindade de Maria, nos episódios da infância de Jesus, não têm receio de recolher a designação corrente de «filho de José». São Marcos, que não tinha referido ainda a virgindade da Mãe de Jesus, evita cuidadosamente a designação de «filho de José», para que os seus leitores não venham a confundir as coisas. É pois destituído de fundamento afirmar que Marcos ignorava a virgindade de Maria.

Sugestões para a homilia

1- Vocação e missão do profeta.

O profeta é chamado por Deus para uma missão, quase sempre exigente, trabalhosa e difícil.

Ele deve ter consciência da sua normalidade. Apesar da sua fragilidade, Deus o escolheu e o enviou. A mensagem que irá transmitir não é sua. Por isso se lhe pede escuta, docilidade e fidelidade no anúncio, no ensino e no testemunho.

Perante tal missão e na consciência da sua pobreza e fragilidade ele deve munir-se de profunda confiança em Deus; ser pessoa de oração e de escuta da Palavra de Deus; deve possuir consciência de solidariedade e se preocupar com o destino dos outros. E na fidelidade à verdade da mensagem, estar disponível para se fazer doação total, dando se for necessário, a própria vida.

A mensagem que Deus lhe pede é de convite à conversão, purificador da Aliança, anunciador da santidade e beleza de Deus, trabalhador incansável da dignidade humana, libertador dos esquemas de morte, dinâmico colaborador no apontar para Jesus Cristo.

Quase sempre, na boa tradição profética, o esperará o desprezo, a rejeição, a eliminação, a perseguição e, às vezes, a própria morte.

2- Jesus Cristo: Profeta por excelência.

Jesus Cristo apresenta-se com uma beleza magnífica. O quadro do Evangelho de hoje apresenta-nos a sua dignidade humana, a serenidade e novidade das suas atitudes e palavras, o cumprimento da mais genuína tradição profética.

O filho do carpinteiro, sem nome, talvez a fazer referência a que José já não vivia. E o salientar do «filho de Maria» em que o evangelista apela à sua concepção virginal e sua divindade, realçam quanto o nosso Deus amou a nossa humanidade e se fez igual a nós.

Depois a força reveladora e dinamizadora desse gesto, o «filho do carpinteiro» a traduzir que não são as roupas ou as profissões que traduzem a grandeza da pessoa, mas a sua dignidade e o serviço. Neste gesto de Deus se revoluciona radicalmente a sociedade.

Deus fala-nos por seu Filho. E quantas vezes o Pai dá testemunho d’Ele e nos pede para O escutarmos! E também o Espírito Santo dá testemunho ao conduzir-nos ao ato mais belo da nossa fé: crer que Jesus Cristo é o verdadeiro Filho de Deus e Filho de Maria. E Paulo nos dá um testemunho belo de profunda confiança e entrega.

Em Cristo mensageiro e mensagem se identificam. Ele comunica por palavras e por gestos a novidade do amor de Deus.

3- A missão profética, hoje.

A Palavra de Deus chega hoje até nós através da palavra humana, de pessoas que apresentam garantias e são testemunhas credíveis.

Pelo batismo, em nós nasceu a vocação de profeta. Ser pessoa em quem Deus confia os seus mistérios de amor: anunciando e denunciando; construindo e destruindo.

O encontro com Cristo não é um acontecimento meramente pessoal, fechado no âmbito de uma espiritualidade amuralhada e egoísta. Pelo contrário o encontro e a relação pessoal com Cristo é dinamismo de caminhada, de construção e de anúncio de uma maravilhosa noticia: o Evangelho ao serviço e como proposta para todos.

A consciência de ser profeta desperta a pessoa para um cristianismo vivo, dinâmico e audaz. Um cristianismo dos sentidos, isto é, tudo deve ser afirmação responsável da realização do projeto de Deus. Todos os sentidos devem estar despertos para auscultar os sinais, pelo impulso do Espírito Santo, e serem colocados ao serviço eficiente do Evangelho. Também a inteligência especulativa e emocional devem ser «centrais» dinamizadoras da inteligibilidade da fé e de propostas sérias e convincentes do Evangelho. Mas sobretudo uma vida de autêntica fé que leva a ultrapassar as dificuldades com o júbilo do Espírito Santo. E necessariamente a vida de oração, beleza da vida pessoal e comunitária com os «olhos» e «coração» de Deus.

A nossa vida e missão devem ser compromisso e consciência de que somos enviados a um mundo, muitas vezes, fechado à fé, fechado a Cristo. E ter em conta que apesar das nossas limitações e fragilidades Deus quer contar conosco, desde que nós contemos com Ele.

Mas é preciso ser profeta para ser livre! Convidar à conversão, chamando o pecado pelo seu nome, assinalar os perigos, enfrentar os poderosos ou esquemas de pecado exige verdadeira liberdade. Liberdade dos filhos de Deus!

Ao profeta não se lhe pedem frutos, mas que seja fiel e que se apresente como profeta para que vejam que há um profeta entre eles.

Também não se pode esperar reconhecimento e gratidão. Esse, se Deus quiser, virá mais tarde, traduzindo e gravando, como a palavra foi guardada, acolhida e companheira de caminhada, no mais aparente fracasso!

É um convite fantástico a aceitarmos a graça de Deus. Só n’Ele tudo podemos e a obra não é nossa! Somos, tantas vezes, tentados em colocar o êxito nas técnicas e nos talentos naturais, quando na verdade só Deus basta e quem a Deus tem nada lhe falta.

Maria de Nazaré é modelo do profeta. Ela ensina, educa, cultiva com a sabedoria profunda e com um jeito magnífico de pedagoga: Mãe.

Armando Rodrigues Dias - Geraldo Morujão

 

 

De onde recebeu ele tudo isto? (Mc. 6,2)

Idéias principais: Natureza humana de Cristo. Natureza divina do Salvador. Importância dos Milagres.

Natureza humana de Cristo.

 “De onde recebeu ele tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses grandes milagres que são realizados por suas mãos?”

De onde Jesus recebeu tudo isto: o modo de falar, o conteúdo de Suas falas, o jeito de cativar as pessoas, a caridade para com todos, especialmente os mais fracos e desprotegidos?

Analisemos primeiramente a parte humana de Jesus. E o humano contou muito na Sua santíssima vida terrena. Foi perfeitamente humano, acessível e aberto. Quis ter pais na terra, José e Maria, que foram pessoas muito piedosas, tementes a Deus e caridosas.

Seu pai adotivo, São José, não abandonou Nossa Senhora, mesmo sem entender tudo o que estava acontecendo com a gravidez dela, por ter sido avisado por Deus que o que estava acontecendo era divino. Só quem é verdadeiramente humano pode entender o divino.

Maria Santíssima, assim que soube da gravidez de Sua prima, Santa Isabel, não pensou em ser homenageada porque também estava grávida, e grávida do Redentor, mas pensou em ir correndo ajudá-la. Para ser movida deste modo, por uma caridade divina, só sendo muito humana.

“De onde recebeu ele tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses grandes milagres que são realizados por suas mãos?”

A humanidade de Jesus está bem relatada nos Evangelhos. De fato Ele teve fome 1, dormiu 2 e sofreu física e moralmente (3).

Humanidade perfeita ou natureza humana completa todos a temos, uma vez que somos formados por corpo e alma. O que aumenta a dignidade da natureza humana é a santidade. E santidade não faltava em Jesus. Ele é o Santo dos Santos.

A Santidade em nós é presente por graça de Deus e, claro, por correspondência nossa.

A primeira escola de Santidade, no nosso caso, é a família.

Têm uma importante missão outras instituições como a Igreja, a Escola e até o Estado para a humanização dos indivíduos e das coletividades, porém se não se aprendem valores e virtudes, se não se aprende a ser verdadeiramente humano no lar, se não se aprendem as lições de casa, pouco podem fazer as demais instituições.

Felizmente ainda temos muitas famílias que ensinam modos humanos às suas crianças. O mesmo se diga de muitas escolas. Há também iniciativas louváveis de muitos países em favor da humanização dos cidadãos.

“De onde recebeu ele tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses grandes milagres que são realizados por suas mãos?”

No entanto, infelizmente, muitas vezes estranhamos e até nos escandalizamos pelo relaxamento dos costumes de muitas famílias que não mais se valem da religião para fundamentar e auxiliar os ensinamentos que querem passar aos filhos. Famílias de avós praticantes, na segunda geração já não são reconhecidas como religiosas.

Ouvi, de uma mãe que batizou seus filhos, que não iria matriculá-los na catequese, pois isso seria uma imposição. Mas não deixou de matricular as crianças na escola, no ballet e no futebol. Não seria mais coerente deixar que crescessem para ver se iriam escolher o ballet e o futebol?

Nas escolas hoje se ensina de tudo, até imoralidades. Mas religião, quando se ensina, é algo etéreo, vagando sobre os ares, exotérico, uma espécie de sopa ou de caldo feito de tudo e que não tem gosto de nada, ou seja, todas as crenças e nenhuma religião.

E daqueles que seguem a religião de Cristo, de quem deveríamos esperam palavras de verdade, de formação, de doutrina, tantas vezes ensinam coisas que mais parecem querer curar doenças graves com água e açúcar.

Jesus teve pais tementes a Deus e piedosos praticantes da religião, que formaram o ambiente ideal para o Seu desenvolvimento como Homem neste mundo.

“De onde recebeu ele tudo isto?”

Todas as vezes que nos encontramos com uma criança ou um adolescente educado e até um adulto cortês, imediatamente elogiamos seus pais pela ótima educação que deram àquele filho. Assim aconteceu com Jesus, porque é, de verdade, Filho de Deus.

Natureza divina do Salvador.

Alguém até poderia objetar dizendo que Jesus não era somente humano, mas também divino e, conseqüentemente, não era bem humano, pois não conhecia em primeira pessoa o pecado. A união entre a Natureza Humana e a Natureza Divina na Pessoa de Jesus Cristo supõe e requer que se trate de uma Verdadeira Natureza Humana e de uma Verdadeira Natureza Divina. Não foram duas naturezas incompletas que formaram uma Pessoa completa. E será que o pecado tornaria mais humano Jesus, Nosso Senhor? E será que é o pecado que nos torna mais humanos ou mais completos?

Hoje em dia, estamos assistindo a uma desumanização do mundo. Vemos e ouvimos das portas e janelas de nossas casas meninas ainda novas pronunciando os mais desconcertantes palavrões, adolescentes fumando e consumindo drogas que nossos pais nem sabiam que existiam, redes de televisão fazendo apologia das maiores barbaridades morais e achamos normal que os casais atuais não queiram casar na Igreja, que não queiram ensinar os filhos a rezar, que a Paróquia seja só um lugar para marcar Missa de Sétimo Dia, que religião seja um assunto a ser pensado apenas diante de um altarzinho dentro de casa.

Diante dum ateu, de pessoas que zombam da religião, de homens que não primam pela honestidade, de mulheres que não vivem a virtude da responsabilidade, de pessoas que praticam e incentivam o aborto, o divórcio, nós bem que poderíamos nos perguntar – sem julgar a pessoa, pois é só Deus quem tem este direito – “de onde recebeu ele (ou ela) tudo isto”?

“De onde recebeu ele tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses grandes milagres que são realizados por suas mãos?”

Estamos acostumados a ver Jesus sempre do ponto de vista divino: Deus que resolveu Se fazer Homem. E assim o foi! Não é errado pensar assim. Antes, é corretíssimo. Mas podemos correr o risco de esquecer a Santíssima Humanidade de Cristo e de entender o que a divindade pode fazer com a humanidade.

O Divino Mestre foi possuidor de uma humanidade perfeita, completa e normal. Assim também era a divindade d’Ele. E Deus quis uma família para Seu divino Filho a fim de também nos ensinar que quanto mais humanos formos, mais Deus pode nos elevar até Ele. Assim aconteceu com Jesus. Assim, por analogia, acontece conosco.

Um exemplo: fui por várias vezes e vários anos Capelão de alguns Hospitais e Casas de Saúde. Tive boas e belas experiências com todo tipo de gente, mas sempre me chamaram a atenção a alegria e a esperança dos católicos tementes a Deus. Ateus e até evangélicos expressam no momento da doença uma certa tristeza desproporcionada e uma dificuldade muito grande para sorrir, para levar com bom humor os incômodos da saúde. É a força de Deus se transformando em fortaleza humana a vida difícil dos doentes que têm fé.

Em Cristo, a Sua Natureza Divina, não era somente uma força do alto, uma graça especial, mas fazia parte da Sua Pessoa.

“De onde recebeu ele tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses grandes milagres que são realizados por suas mãos?”

Nós não temos natureza divina, não somos como Deus, mas Jesus nos ensinou no Evangelho que devemos ser perfeitos como nosso Pai celeste é perfeito4. Logo, precisamos ter cada vez mais categoria em nossa humanidade, pois se não somos de natureza divina, temos nossa dimensão espiritual. O homem não é só físico. É espírito também. E, conseqüentemente, quanto mais humanos formos, mais fácil será de cultivarmos a nossa espiritualidade. É a santidade – dom de Deus – que eleva o homem todo até Deus.

Não podemos ser tão ousados a ponto de pedir a Deus que não sejamos invejosos, se não lutamos para extirpar a inveja de nossa vida.

Não tem cabimento acharmos feio nos outros a falta de justiça, se não deixamos de enganar nossos semelhantes.

Não é compatível com nossa dignidade gostarmos de corrigir os outros, mas nunca aceitamos um conselho ou sugestão.

Deus verdadeiro e Homem verdadeiro. Cada vez que escrevemos a palavra Homem nos referindo a Jesus, o fazemos com letra maiúscula, porque o foi de verdade e em plenitude.

Hoje em dia vemos homens que parecem tudo menos homens, mulheres que se assemelham a tudo menos a mulheres. Como aprimorar o âmbito espiritual quando o humano está tão fragilizado?

A graça supõe a natureza e a aperfeiçoa (5).

Sejamos humanos de verdade para que a graça divina possa nos moldar sem obstáculos e nos preparar para a eternidade.

Importância dos milagres.

Os milagres Deus os faz quando julga oportuno e do modo mais adequado, segundo a Sua onisciência. E eles não são magia tampouco truques de mágica, mas são a suspenção das leis da criação ou até da lógica para um fim justo e para que uma determinada mensagem seja passada.

Não são necessários para a fé, pois o mais “normal” é que creiamos sem milagres, pois crer é aceitar o que não vemos.

Porém, não se pode dizer, com isso, que os milagres não sejam importantes. Têm, sim, uma grande importância. Se assim não o fosse, Nosso Senhor não os teria feito, quando da Sua passagem pela Terra Santa, e nem os continuaria a fazer até hoje.

Devemos ter cuidado com os extremos: achar que milagres não existem ou pensar que tudo seja milagre.

Jesus mesmo disse para acreditarmos nos milagres quando nos ensinou dizendo “pedi e recebereis” [6].

Os milagres descritos no Evangelho foram muito importantes e fizeram parte – além do interesse de Deus pelo bem-estar físico e espiritual dos homens de então – da pedagogia divina, pois revelaram a onipotência de Nosso Senhor, ou seja, um dos atributos de Sua divindade.

Se Cristo revelou a Sua Humanidade ou Natureza Humana no falar, no andar, no Se alimentar, revelou a Sua divindade nos prodígios e sinais que realizou como a cura de cegos, paralíticos, mudos, surdos, na expulsão de demônios e assim por diante.

Os milagres continuam sendo importantes, pois quando os pedimos, manifestamos a nossa fé, e quando os conseguimos, Deus demonstra o Seu poder.

Todavia, a divindade do Altíssimo vai muito além dos milagres. Mas, para nós, os milagres são uma forma da demonstração da Sua Natureza Divina.

Convém frisar que eles não são necessários à nossa fé. Muitas pessoas têm fé e vão crescendo a cada dia nesta virtude sobrenatural, mesmo sem nunca ter obtido um milagre.

Ninguém tem o poder de proibir os milagres de Deus, mas também não podemos colocá-los como condição de nossa fé; assim como não podemos colocar como condição de amizade com alguém, que ele nos preste favores. O amigo preza o outro por amizade e não por interesse. A amizade, o amor são gratuitos e não comprados, pedidos ou emprestados. Assim ocorre com a fé. Devemos crer por amor a Deus e não por interesse.

Uma vez ou outra precisamos pedir favores aos amigos, a uns mais a outros menos. É certo que os favores prestados solidificam os laços de amizade, no entanto não podemos colocar nos favores a razão da nossa admiração, estima e amizade pelas pessoas.

De igual maneira os milagres. De vez em quando temos de pedir favores a Deus. Mas o nosso amor por Ele não pode ser em função da utilidade que tem para a nossa comodidade.

Devemos amar a Deus porque O amamos e pronto e ponto final. Ou, visto de outro ângulo, devemos amar a Deus porque somos devedores do Seu amor gratuito por nós. Ele nos criou e nos sustenta pelo único motivo de que nos ama desinteressadamente e, por conseguinte, não espera nem precisa nada em troca. Nosso amor a Ele é um dever de justiça – e a este dever de justiça chamamos Religião – por nos ter criado, conservado e nos ter dado tantos benefícios.

Deveríamos entender este amor que a Deus dirigimos não como uma troca, e sim como algo gratuito.

Amemos a Deus sem esperar nada em troca.

Se milagres nos acontecerem, amemos a Deus. Se demorarem ou nunca vierem, amemos a Ele de igual forma.

Que a Virgem Santíssima nos ajude a termos uma fé e um amor desinteressados. Nosso único interesse seja servir a Deus.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

padre André Luís Buchmann de Andrade

[1] Cf. Mt. 21,18

[2] Cf. Mt. 8,24

[3] Cf. Mc. 15,34

[4] Cf. Mt. 5,48

[5] Santo Tomás de Aquino, SUMMA THEOLOGICA, I, q.1, a.8 ad 2um; q.2, a.2 ad 1um; 2-2, q.188, a.8, corpus.

[6] Jo 16,24

Cf. Mt. 21,18

Cf. Mt. 8,24

Cf. Mc. 15,34

Cf. Mt. 5,48

Santo Tomás de Aquino, SUMMA THEOLOGICA, I, q.1, a.8 ad 2um; q.2, a.2 ad 1um; 2-2, q.188, a.8, corpus.

 

 

Nenhum profeta é bem aceito pelo seu povo

O evangelho deste domingo traz o conhecido trecho onde Jesus afirma: “Nenhum profeta é bem aceito pelo seu povo” (Mc. 6,4). Com efeito, com quase trinta anos, após ter deixado Nazaré e após pregar e fazer curas em muitos lugares, Jesus regressou à sua terra e pôs-se a ensinar na sinagoga, lugar do culto e da adoração. Os seus concidadãos ficaram admirados pela sua sabedoria e, conhecendo-o como o “filho de Maria”, o “carpinteiro” que viveu no meio deles, ficaram escandalizados com seus feitos (cf. Mc. 6,2-3). Devido a este fechamento espiritual, Jesus não pôde realizar em Nazaré milagre algum. Apenas “curou alguns enfermos, impondo-lhes as mãos” (Mc 6,5). Com efeito, os milagres de Cristo não são uma exibição do seu poder, mas sinais do amor de Deus, que se realizam com a reciprocidade da fé das pessoas. Os contemporâneos de Jesus pareciam conceder-lhe escassa consideração (cf. Jo 1,46). Nazaré é, no entanto, a cidade onde Jesus cresceu e onde residia sua família.

A cena principal que nos é apresentada tem lugar na sinagoga de Nazaré, em um dia de sábado. Jesus, como qualquer outro membro da comunidade judaica, foi à sinagoga para participar do ofício sinagogal; e, fazendo uso do direito que todo israelita adulto tinha, leu e comentou as Escrituras.

Os ensinamentos de Jesus na sinagoga, naquele sábado, deixaram impressionados os habitantes de Nazaré. Depois de o escutarem, os seus conterrâneos traduzem a sua perplexidade através de várias perguntas.  Duas perguntas apresentadas dizem respeito à sua origem e à qualidade dos seus ensinamentos: “De onde lhe vem tudo isto? Que sabedoria é esta que lhe foi dada?” (v. 2); uma outra questão se refere à qualificação das ações de Jesus: “E os prodigiosos milagres feitos por suas mãos?” (v. 2). Recordam também o trabalho executado e a sua família (v.3).  Para eles, Jesus é “o carpinteiro”; não é um “rabi” e não tem qualificações para ensinar como ensina. Por outro lado, eles conhecem a identidade da família de Jesus e não descobrem nada de extraordinário. Ele é o “filho de Maria” e os seus irmãos e irmãs são pessoas comuns, sem qualificações excepcionais.

Portanto, parece claro que o papel assumido por Jesus e as ações que ele realizou são humanamente inexplicáveis. A questão será saber se estas capacidades extraordinárias que Jesus revela, não vindas dos conhecimentos adquiridos no contato com famosos mestres, nem do ambiente familiar, viriam de Deus. Desde o primeiro momento, os comentários dos habitantes de Nazaré deixam transparecer uma atitude negativa e um tom depreciativo na análise de Jesus. Nem sequer se referem a Jesus pelo próprio nome, mas usam sempre um pronome para falar dele: Jesus é “este” ou “ele”. Depois, o chamam depreciativamente “o filho de Maria”. O costume era o filho ser conhecido em referência ao pai e não à mãe. Os conterrâneos de Jesus não conseguem reconhecer a presença de Deus naquilo que Jesus diz e faz.

Na resposta aos seus conterrâneos, Jesus se coloca como um enviado de Deus, que atua em nome de Deus e que tem uma mensagem para oferecer aos homens. Como, de fato, os ensinamentos que Jesus propõe não vêm dos mestres judaicos, mas do próprio Deus; a vida que ele oferece é a vida plena e verdadeira que Deus quer propor aos homens. O povo teve sempre dificuldades em reconhecer o Deus que vinha ao seu encontro na Palavra e nos gestos proféticos. O fato de as propostas apresentadas por Jesus serem rejeitadas pelos líderes, pelo povo da sua terra e até pelos seus familiares, não invalida a verdade por ele transmitida e a sua procedência divina. Jesus não realizou ali nenhum milagre porque estavam eles fechados à sua mensagem de salvação.

Jesus assume-se como um profeta, isto é, alguém a quem Deus confiou uma missão. A nossa identificação com Jesus nos faz continuadores desse mesmo ministério que Deus o confiou. O testemunho que Deus nos chama a dar cumpre-se, muitas vezes, no meio das incompreensões e oposições. Frequentemente, os discípulos de Jesus se sentem desanimados e frustrados porque o seu testemunho não é entendido e nem acolhido.  A atitude de Jesus nos convida a perseverar sempre.  Deus tem os seus projetos e sabe como transformar um fracasso em êxito.

É importante lembrar que o termo ‘profeta’ recebeu diversas interpretações ao longo dos anos. Inicialmente, identificava-se o profeta à pessoa que via o futuro e, posteriormente, passou a ser chamado de “rabi”, ou seja, o homem que anuncia. Contudo, a etimologia grega da palavra ‘profeta’, derivada de “pro-femi”, quer dizer, falar em lugar de outro. Daí o sentido do vocábulo profecia: algo dito antes que suceda. Em todo caso, o profeta tem uma missão a cumprir: transmitir a mensagem de alguém superior a ele. A Sagrada Escritura faz referência a muitos profetas, e alguns são conhecidos pelos seus próprios nomes.  Alguns deles nos deixaram uma mensagem por escrito, que chamamos na Sagrada Escritura de livros proféticos. Dentre estes profetas, pode-se destacar quatro, conhecidos como profetas maiores, são eles: Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel.

Mas todo esse profetismo, presente no texto bíblico está orientado para Jesus de Nazaré e nele culmina.  Chegada a plenitude dos tempos, Deus já não nos transmitiu sua palavra por meio de intermediários, mas por seu próprio Filho que é sua Palavra pessoal feita homem (cf. Hb. 1,1s).  Jesus testifica a autenticidade de sua palavra mediante os sinais que são seus milagres.  Assim, aparece diante do povo como profeta enviado por Deus e falando com autoridade própria.  Contudo, como todos os profetas que o precederam, Jesus teve que sofrer a desconfiança e a recusa dos homens, inclusive de seus concidadãos, como nos relata o texto evangélico deste domingo.

A perícope evangélica ainda nos fala em irmãos de Jesus. Isto porque, na linguagem usada naquele tempo eram também chamados irmãos os primos e os parentes, tanto próximos como afastados. Abraão, por exemplo, disse a Lot, seu sobrinho: “Peço-te que não haja contendas entre mim e ti, nem entre os meus pastores e os teus pastores, porque somos irmãos” (Gn. 13,8). Do mesmo modo Labão disse a Jacó: “Acaso, porque és meu irmão, me servirás de graça?” (Gn. 29,15). Jacó era, no entanto, filho da irmã de Labão. Nos tempos atuais usamos também esta mesma linguagem.  Falamos que somos todos irmãos. E, com razão, não somos irmãos de sangue. Mas, somos irmãos porque temos Deus como Pai comum, pela fé e pelo Batismo e somos santificados pelo mesmo Espírito Santo, em Cristo Jesus.

A cena evangélica deste domingo nos remete ainda a uma outra referência que o Evangelista João relata, referindo-se a Jesus Cristo: “Ele veio para o que era seu, mas os seus não o receberam” (Jo 1,11).  É a cada um de nós que, mais uma vez, se dirige a Palavra de Deus.  Podemos admitir que, também entre nós, Jesus não realiza “muitos milagres” e que sua Palavra nem sempre tem eficácia, talvez por falta de confiança e fé da nossa parte no poder do Espírito Santo que sempre faz novas todas as coisas.

Que saibamos receber o Cristo em nossa vida e, em cada Eucaristia, esteja ele presente em nosso coração e que ele mesmo nos conceda uma fé sempre mais firme para seguirmos fielmente os seus ensinamentos.

dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB

 

 

A liturgia deste domingo revela que Deus chama, continuamente, pessoas para serem testemunhas no mundo do seu projeto de salvação. Não interessa se essas pessoas são frágeis e limitadas; a força de Deus revela-se através da fraqueza e da fragilidade desses instrumentos humanos que Deus escolhe e envia.

A primeira leitura apresenta-nos um extrato do relato da vocação de Ezequiel. A vocação profética é aí apresentada como uma iniciativa de Jahwéh, que chama um “filho de homem” (isto é, um homem “normal”, com os seus limites e fragilidades) para ser, no meio do seu Povo, a voz de Deus.

Na segunda leitura, Paulo assegura aos cristãos de Corinto (recorrendo ao seu exemplo pessoal) que Deus atua e manifesta o seu poder no mundo através de instrumentos débeis, finitos e limitados. Na ação do apóstolo – ser humano, vivendo na condição de finitude, de vulnerabilidade, de debilidade – manifesta-se ao mundo e aos homens a força e a vida de Deus.

O Evangelho, ao mostrar como Jesus foi recebido pelos seus conterrâneos em Nazaré, reafirma uma idéia que aparece também nas outras duas leituras deste domingo: Deus manifesta-Se aos homens na fraqueza e na fragilidade. Quando os homens se recusam a entender esta realidade, facilmente perdem a oportunidade de descobrir o Deus que vem ao seu encontro e de acolher os desafios que Deus lhes apresenta.

É possível ser profeta na própria terra?

A vocação profética é uma forma peculiar de vocação religiosa. Na antiga Israel existiam três formas principais de “unção” (o ungido é, precisamente, o “Cristo”, o que representa a Deus): o sacerdote, o rei e o profeta. Porém o profeta, diferentemente do sacerdote e do rei, exerce um ministério não institucional, isto é, carente do suporte de uma instituição (o templo, o poder político) que confere a esse ministério autoridade, poder e proteção. E, embora existissem também profetas da corte, profetas “áulicos”, os verdadeiros profetas de Israel foram, em geral, pessoas separadas dessas instituições sagradas.           

O profeta é, pois, um que, suscitado por Deus, carece, no entanto, de sinais externos da escolha. O sinal do mesmo é só a força da Palavra que transmite. É, por tanto, uma Palavra nua, direta, livre, mas também submetida a risco, precisamente pela falta de apoio institucional. O profeta é “um qualquer”, um do povo, por meio  do qual Deus fala com inteira liberdade. Se expressa assim, ao mesmo tempo, a proximidade de Deus e sua independência da possível dominação tentada pelo poder político ou religioso. Isto é, Deus pode falar por meio de “um qualquer”, e qualquer um pode ser feito disponível para se fazer porta-voz do que Deus nos quer dizer. Não faz falta, necessariamente, que esse “qualquer” seja depositário de revelações ou visões extraordinárias. Basta que ouça e transmita com suas obras e suas palavras o que na escuta descobriu.  

A proximidade tem a vantagem do imediatismo. No verdadeiro sentido, a autoridade do sacerdócio institucional e, com maior motivo, do poder político, estão muito midiatizados, e o mesmo caráter institucional, que protege e dá autoridade, oprime e põe limites à palavra transmitida. Os que ocupam esses postos dizem “o que têm que dizer”, o que se espera deles. E, inclusive transmitem a Palavra autêntica de Deus (a verdade, a justiça, etc.), sempre é possível reagir a essa palavra nos protegendo dela, com um pouco de ceticismo: “Claro! Que vais dizer você, se é cure?”.

No caso do profeta se dá uma liberdade e imediatismo que comportam, no entanto, outros riscos. Como aceitar como palavra “de Deus” o que nos diz um “qualquer”, um “como nós”? Isto é, como aceitar uma autoridade divina de parte de alguém carente da autoridade do poder? A este sempre poderemos lhe dizer, “mas, quem te achas que és”? A este o conhecemos, sabemos quem são seus pais, seus irmãos, e conhecemos também seus defeitos e debilidades, seus “espinhos”, como no caso de Paulo. É outra forma de proteger-se da perigosa Palavra de Deus que com sua luz põe ao descoberto nossas sombras, embora o que pretenda essa mesma Palavra não seja “saquear”, senão nos iluminar e nos curar, nos dar a possibilidade de viver de outra maneira, melhor, com uma plenitude que o pecado nos arrebata.

Jesus escolheu uma forma de presença que harmoniza, sobretudo com a existência profética. Dizemos dele que é Sacerdote segundo o rito de Melquisedec e que é Rei do Universo. Mas sua existência terrena pareceu-se muito pouco ao sacerdócio ministerial (na realidade, exerceu seu sacerdócio na Cruz, na qual foi no tempo sacerdote, vítima e altar); e menos ainda à realeza segundo os parâmetros de nosso mundo: não em vão lhe disse a Pilatos que seu reino não era deste mundo.

Jesus escolheu fazer como “um qualquer” (cf. Flp. 2,8), sem nenhum tipo de proteção institucional, sem poder externo algum, mais o que brotava de sua própria autoridade pessoal e da força de sua Palavra. Por isso, não foram poucos os que o reconheceram como Profeta (Mc. 1,27; Jn. 4,9; 9,17). Mas também, por isso mesmo, foram também não poucos os que o recusaram, e, especialmente, como vemos hoje, os seus, os de seu povo, que não o reconheceram como Messias, precisamente porque achavam o conhecer demasiado bem, até o ponto de que, se nos atemos às palavras do mesmo Jesus, responderam a sua pregação e seus milagres, não só com incredulidade, senão também com desprezo.

Jesus, feito por sua encarnação “um qualquer”, mas também, por isso, alguém próximo, “um dos nossos”, segue falando e atuando por meio de pessoas normais. Podem ser essas mães crentes que recordam a seus filhos os princípios elementares do bem e seus deveres para com Deus; pode ser um amigo que com suas atitudes nos recorda que nem tudo está a venda, que não é obrigatório se adaptar ao que “todo mundo faz”; pode ser um irmão ou irmã de comunidade que com uma palavra ou obra nos avisa de que nosso comportamento se afasta do ideal que nós mesmos afirmamos professar? Todos aqueles que tomam a sério a Palavra de Deus, a escutam e a tratam de pô-la em prática se fazem profetas de Jesus Cristo. Ao fazê-lo, claro, assumem o risco da rejeição, do desprezo, da exclusão. Porque esta Palavra é uma Palavra salvadora, mas também incomoda. E podemos tratar de nos proteger dela recusando a esses profetas, “pessoas qualquer” aos quais achamos conhecer muito bem (quem são, de onde vêm, quais são seus defeitos, seus espinhos), e aos que não lhes consentimos que nos ”dê um sermão”, nem tratem de nos ensinar nada. O problema é que, ao fazer isto, podemos estar recusando a Cristo, que profetiza por eles, impedindo que essa Palavra vivida e operante nos ilumine, nos toque e, nos impondo as mãos, nos cure e faça entre nós milagres. É importante estar aberto ao bem, sem etiquetas, inclusive se vem do mais próximo; este é um elemento essencial da verdadeira fé. E, se abrimo-nos desta maneira, nos iremos convertendo nós mesmos em profetas, pessoas livres, tocadas pela Palavra de Deus, que a transmitem, mesmo com as debilidades e defeitos, com sua forma de vida e também com suas palavras. Mas temos que ter claro o preço que podemos ter que pagar por essa profecia da vida quotidiana. Podemos nos atrair a rejeição ou o desprezo dos demais, às vezes dos mais próximos. Nem por isso temos de nos desalentar. Embora esta Palavra (que não é nossa, senão que no-la tem dirigido Deus) pareça não ser acolhida nem escutada, é importante que soe. Sendo uma Palavra viva e eficaz, mais aguda que espada de duplo fio (cf. Hb. 4,12), é uma palavra “que sai de minha boca e não volta a mim vazia, sem ter feito o que eu queria e ter levado a cabo sua missão” (Is. 55,11). Como nos recorda hoje Ezequiel, a palavra profética pode ser eficaz ou não, mas o mais importante é que esteja sempre presente. E desta Palavra que nos fazemos profetas, é a Palavra encarnada, Cristo, que recusado e desprezado, morto e sepultado, ressuscitou a uma vida nova, e opera (quer operar) em e por nós, os crentes.

José María Vegas, cmf

 

 

A liturgia do XIV domingo do tempo comum revela que Deus chama, continuamente, pessoas para serem testemunhas no mundo do seu projeto de salvação. Não interessa se essas pessoas são frágeis e limitadas; a força de Deus revela-se através da fraqueza e da fragilidade desses instrumentos humanos que Deus escolhe e envia.

A primeira leitura apresenta-nos um resumo do relato da vocação de Ezequiel. A vocação profética é aí apresentada como uma iniciativa de Jahwéh, que chama um “filho de homem” (isto é, um homem “normal”, com os seus limites e fragilidades) para ser, no meio do seu Povo, a voz de Deus.

Na segunda leitura, Paulo assegura aos cristãos de Corinto (recorrendo ao seu exemplo pessoal) que Deus atua e manifesta o seu poder no mundo através de instrumentos débeis, finitos e limitados. Na ação do apóstolo - ser humano, vivendo na condição de finitude, de vulnerabilidade, de debilidade - manifesta-se ao mundo e aos homens a força e a vida de Deus.

O Evangelho, ao mostrar como Jesus foi recebido pelos seus conterrâneos em Nazaré, reafirma uma ideia que aparece também nas outras duas leituras deste domingo: Deus manifesta-Se aos homens na fraqueza e na fragilidade. Quando os homens se recusam a entender esta realidade, facilmente perdem a oportunidade de descobrir o Deus que vem ao seu encontro e de acolher os desafios que Deus lhes apresenta.

Primeira leitura: Ezequiel (2,2-5)

São um bando de rebeldes, e ficarão sabendo que houve entre eles um profeta

1 - Os “profetas” não são um grupo humano extinto há muitos séculos, mas são uma realidade com que Deus continua a contar para intervir no mundo e para recriar a história. Quem são, hoje, os profetas? Onde estão eles?

2 -  No Batismo, fomos ungidos como profetas, à imagem de Cristo. Cada um de nós tem a sua história de vocação profética: de muitas formas Deus entra na nossa vida, desafia-nos para a missão, pede uma resposta positiva à sua proposta. Temos consciência de que Deus nos chama – às vezes de formas bem banais – à missão profética? Estamos atentos aos sinais que Ele semeia na nossa vida e através dos quais Ele nos diz, dia a dia, o que quer de nós? Temos a noção de que somos a “boca” através da qual a Palavra de Deus se dirige aos homens?

3 - O profeta é o homem que vive de olhos postos em Deus e de olhos postos no mundo, em uma mão a Bíblia, na outra a internet. Vivendo em comunhão com Deus e intuindo o projeto que Ele tem para o mundo, e confrontando esse projeto com a realidade humana, o profeta percebe a distância que vai do sonho de Deus à realidade dos homens. É aí que ele intervém, em nome de Deus, para denunciar, para avisar, para corrigir. Somos estas pessoas, simultaneamente em comunhão com Deus e atentas às realidades que desfiguram o nosso mundo? Concretamente, em que situações sou chamado a exercer a minha vocação profética?

4 – É preciso ter consciência que as nossas limitações e indignidades muito humanas não podem servir de desculpa para realizar a missão que Deus quer confiar-nos: se Ele nos pede um serviço, nos da também a força para superar os nossos limites e para cumprir o que nos pede. As fragilidades que fazem parte da nossa humanidade não podem, em nenhuma circunstância, servir de desculpa para não cumprirmos a nossa missão profética no meio dos nossos irmãos.

Segunda leitura: 2ª Carta aos Coríntios (12,7-10)

Gloriar-me-ei das minhas fraquezas, para que a força de cristo habite em mim

1 - O caso pessoal de Paulo nos diz muito sobre os métodos de Deus… Para vir ao encontro dos homens e para lhes apresentar a sua proposta de salvação, Deus não utiliza métodos espetaculares, poderosos, majestosos, que se impõem de forma avassaladora e que deixam uma marca de espanto na memória dos povos; mas, quase sempre, Deus utiliza da fraqueza, debilidade, fragilidade e da simplicidade para nos dar a conhecer os seus caminhos. A Palavra de Deus que hoje nos é proposta garante-nos que é na fraqueza que se revela a força de Deus. Precisamos aprender a ver o mundo, os homens e as coisas com os olhos de Deus e descobrir esse Deus que, na debilidade, na simplicidade, na pobreza, na fragilidade, vem ao nosso encontro e nos indica os caminhos da vida.

2 - A consciência de que as suas qualidades e defeitos não são determinantes para o sucesso da missão, pois o que é importante é a graça de Deus leve o “profeta” a despir-se de qualquer sentimento de orgulho ou de autossuficiência. O “profeta” deve sentir-se, apenas, um instrumento humano, frágil, débil e limitado, através do qual a força e a graça de Deus agem no mundo. Quando o “profeta” tem consciência desta realidade, percebe como são despropositadas e sem sentido quaisquer atitudes arrogantes ou de busca de protagonismo, no cumprimento da missão… A missão do “profeta” não é atrair sobre si próprio as câmaras da televisão ou o olhar das multidões; a missão do “profeta” é servir de veículo humano à proposta libertadora de Deus para os homens.

3 - Como pano de fundo do nosso texto, está a polemica de Paulo com alguns cristãos que não o aceitavam. Ao longo de todo o seu percurso missionário, Paulo teve de lidar frequentemente com a incompreensão; e, muitas vezes, essa incompreensão veio até dos próprios irmãos na fé e dos membros dessas comunidades a quem Paulo tinha levado, com muito esforço, o anúncio libertador de Jesus. No entanto, a incompreensão nunca abalou a decisão e o entusiasmo de Paulo no anúncio da Boa Nova de Jesus… Ele sentia que Deus o tinha chamado a uma missão e que era preciso levar essa missão até ao fim... Frequentemente, temos de lidar com realidades semelhantes. Todos já experimentamos momentos de incompreensão e de oposição (que, muitas vezes, vêm do interior da nossa própria comunidade e que, por isso, magoam mais). É nesse momento que o exemplo de Paulo deve brilhar diante dos nossos olhos e nos ajudar a vencer o desânimo e a tentação de desistir.

4 - Neste texto de Paulo, transparece a atitude de vida de um cristão para quem Cristo é, verdadeiramente, o centro da própria existência e que só vive em função de Cristo… Nada mais lhe interessa senão anunciar as propostas de Cristo e dar testemunho da graça salvadora de Cristo. Que lugar ocupa Cristo na minha vida? Que lugar ocupa Cristo nos meus projetos, nas minhas decisões, nas minhas opções, nas minhas atitudes?

Evangelho: Marcos (6,1-6)

Um profeta só não é estimado em sua pátria

1 - O texto do Evangelho repete uma ideia que aparece também nas outras duas leituras deste domingo: Deus manifesta-Se aos homens na fraqueza e na fragilidade. Normalmente, Ele não se manifesta na força, no poder, nas qualidades que o mundo acha brilhantes e que os homens admiram e endeusam; mas, muitas vezes, Ele vem ao nosso encontro na fraqueza, na simplicidade, na debilidade, na pobreza, nas situações mais simples e banais, nas pessoas mais humildes e despretensiosas… É preciso que interiorizemos a lógica de Deus, para que não percamos a oportunidade de O encontrar, de perceber os seus desafios, de acolher a proposta de vida que Ele nos faz…

2 - Um dos elementos que nos questiona no episódio é que o Evangelho deste domingo nos propõe uma atitude de fechamento a Deus e aos seus desafios, assumida pelos habitantes de Nazaré. Comodamente instalados nas suas certezas e preconceitos, eles decidiram que sabiam tudo sobre Deus e que Deus não podia estar no humilde carpinteiro que eles conheciam bem… Esperavam um Deus forte e majestoso, que se imporia de forma estrondosa, assombrando os inimigos com a sua força; e Jesus não se encaixava nesse perfil. Preferiram renunciar a Deus, que tinha uma imagem diferente da que tinham construído. Há aqui um convite a não nos fecharmos nos nossos preconceitos e esquemas mentais bem definidos e arrumados, e o purificarmos continuamente, em diálogo com os irmãos que partilham a mesma fé, na escuta da Palavra revelada e na oração, a nossa perspectiva acerca de Deus.

3 - Para os habitantes de Nazaré Jesus era apenas “o carpinteiro” da terra, que nunca tinha estudado com grandes mestres e que tinha uma família conhecida de todos, que não se distinguia em nada das outras famílias que habitavam na vila; por isso, não estavam dispostos a conceder que esse Jesus – perfeitamente conhecido, julgado e catalogado – lhes trouxesse qualquer coisa de novo e de diferente… Isto nos deve fazer pensar nos preconceitos com que, por vezes, abordamos os nossos irmãos, os julgamos, os catalogamos e etiquetamos… Somos sempre justos na forma como julgamos os outros? Por vezes, os nossos preconceitos não nos impedirão de acolher o irmão e a riqueza que Ele nos traz?

4 - Jesus assume-Se como um profeta, isto é, alguém a quem Deus confiou uma missão e que testemunha no meio dos seus irmãos as propostas de Deus. A nossa identificação com Jesus faz de nós continuadores da missão que o Pai Lhe confiou. Sentimo-nos, como Jesus, profetas a quem Deus chamou e a quem enviou ao mundo para testemunharem a proposta libertadora que Deus quer oferecer a todos os homens? Nas nossas palavras e gestos ecoa, em cada momento, a proposta de salvação que Deus quer fazer a todos os homens?

5 - Apesar da incompreensão dos seus concidadãos, Jesus continuou em absoluta fidelidade aos planos do Pai, dando testemunho no meio dos homens do Reino de Deus. Rejeitado em Nazaré, Ele foi, como diz o nosso texto, percorrer as aldeias dos arredores, ensinando a dinâmica do Reino. O testemunho que Deus nos chama a dar cumpre-se, muitas vezes, no meio das incompreensões e oposições… Frequentemente, os discípulos de Jesus sentem-se desanimados e frustrados porque o seu testemunho não é entendido nem acolhido (nunca aconteceu pensarmos, depois de um trabalho esgotante e exigente, que perdemos tempo?)… A atitude de Jesus convida-nos a nunca desanimar nem desistir: Deus tem os seus projetos e sabe como transformar um fracasso num êxito.

Saberão que teve um profeta no meio deles

Primeiramente, não é profeta o que prediz o futuro. Os adivinhadores não são profetas. Além disso, na maior parte das vezes costumam-se equivocar. O profeta não diz o que vai acontecer senão que vive e atua de maneira que as coisas aconteçam de outra forma. Tem um estilo de vida diferente e provocativo. Sua palavra conecta realidades que temos esquecido. Ante ele sentimos que o terreno se move debaixo de nossos pés, que o que nos parece normal, ao qual estamos acostumados, não é tão normal assim. E que não deveríamos nos acostumar com isso. O profeta não prediz o futuro senão que nos abre a um novo futuro e nos convida a entrar nele. Em nossas mãos está o escutar e entrar por esse caminho novo ou recusá-lo. Mas sempre, pelo terremoto que suscitou sua palavra e sua presença em nossa vida, saberemos que teve um profeta entre nós.    

Assim foi profeta Jesus. Quando voltou a seu povo, as pessoas não faziam mais que se perguntar e se admirar. Algo novo tinha naquele homem ao qual todos tinham conhecido de criança. As palavras de Jesus estavam ditas com autoridade. Traziam a novidade consigo. Falava de Deus como quem o conhecia de perto e o tratava na intimidade. Oferecia uma esperança nova para os que viviam em uma luta diária simplesmente para chegar ao dia seguinte. Mas escutar suas palavras os obrigava a sair dessa vida rotineira e habitual. As palavras de Jesus tiravam as pessoas do vazio da vida para escuta-lo. Isso fez com que se sentissem desconfortáveis. Os de seu povo preferia pensar que estava louco, que o que dizia não fazia sentido, que era impossível que dissesse algo com sentido o que não era mais que o filho de Maria, o carpinteiro. Por isso Jesus não pôde fazer ali nenhum milagre. Não se abriu nenhum futuro novo para os habitantes de Nazaré. Eles mesmos fecharam o caminho.  

Hoje não faltam profetas. Outra coisa diferente é que os escutemos. Também não os aceitamos como tais. Simplesmente porque os conhecemos. Utilizamos o mesmo argumento que usaram os compatriotas de Jesus. E nos fechamos às novas possibilidades, caminhos e esperanças que Deus nos abre através deles. Porque os profetas são homens e mulheres animados pelo Espírito de Deus. Marcam diferenças, sacam-nos do habitual e fazem-nos intuir formas novas de viver, mais humanas, mais fraternas, mais livres, mais justas. Neles reside a força de Cristo, a força de Deus. Certamente têm suas debilidades. Não são santos de altar. Mas, como diz Paulo na segunda leitura, seguramente aprenderam a viver com elas e a se gloriar em Cristo e não em si mesmos. Através deles fala o Espírito. Se não os escutamos, pior para nós!

Redação

FONTES DE REFERÊNCIA

Liturgia - A Palavra de Deus na Vida – CNBB

Ciudad Redonda: Comunidad Católica - Fernando Torres, cmf

Família Dehoniana

 

 

O Filho de Deus, carpinteiro na oficina de José

São José, guardião de Jesus, esposo castíssimo de Maria, que passaste a tua vida a cumprir o teu dever na perfeição, sustentando a Sagrada Família de Nazaré com o trabalho das tuas mãos, digna-te proteger aqueles que se voltam confiadamente para ti. Tu conheces as suas aspirações, as suas angústias, as suas esperanças; eles recorrem a ti porque sabem que em ti encontrarão alguém que os compreende e os protege. Também tu conheceste as provações, a fadiga, o cansaço; mas, mesmo no meio das preocupações da vida material, a tua alma, repleta da paz mais profunda, exultava com uma alegria inexprimível devido à intimidade com o Filho de Deus, confiado aos teus cuidados, e com Maria, Sua doce mãe.

Faz com que também aqueles que procuram a tua proteção compreendam que não estão sós no seu trabalho; que saibam descobrir Jesus a seu lado, acolhê-l'O com a graça, guardá-l'O fielmente como tu o fizeste. Faz com que em cada família, em cada oficina, em cada estaleiro, onde quer que trabalhe um cristão, todas as coisas sejam santificadas na caridade, na paciência, na justiça, na preocupação de fazer o bem, para que desçam sobre todos com abundância os dons do amor de Deus.

são João XXIII

Mensagem radiofônica de 01/05/1960

 

 

Estranha reacção ao chegar a casa

Jesus, após a primeira experiência da missão pública regressa a casa, à terra natal, a Nazaré, aldeia onde se havia criado. Vem acompanhado pelos discípulos e, o evangelista Marcos (6, 1-6) , deixa em aberto o leque de hipóteses para este regresso. Saudades da Mãe? Dar uma justificação a José, seu pai segundo a lei? Rever amigos? Apresentar a sua nova família, a dos discípulos? Reganhar forças porque sentia já alguma rejeição da parte dos ouvintes? Ou ainda outra que provavelmente será a mais verdadeira e ponderada como a de anunciar o reino de Deus aos seus conterrâneos?

Que indicação preciosa nos dá esta atitude de Jesus. De vez em quando precisamos de regressar a casa, de mergulhar na memória, de procurar o calor dos vizinhos e amigos, de rever com novo olhar rostos familiares e o espaço onde nos criámos, de libertar sonhos que, então, acalentámos e estão em realização. Que humanidade nos deixa e que desafio nos faz! Que forma admirável de viver o tempo de modo saudável! Regressar “ao berço” faz-nos encontrar a identidade e realimentar a esperança, faz-nos realinhar a imaginação e empreender novas ousadias.

O relato de Marcos refere apenas a visita de Jesus à sinagoga onde encontra muita gente. E sem mais ritual, mostra o que acontece. Jesus toma a palavra e faz a sua comunicação. Como e sobre quê? Não é referido. Só se faz o registo da reação dos ouvintes, reacção de admiração, de perplexidade, de dúvida, de desprezo; reacção que leva Jesus a um comentário inspirado nas sentenças de Jeremias: “Um profeta só é desprezado na sua terra, entre os seus parentes e em sua casa”.

O relato não menciona ninguém da casa de Jesus, embora diga que é o carpinteiro, filho de Maria; já os parentes homens têm nome: Tiago, José, Judas e Simão, que o texto refere como irmãos. As mulheres ficam englobadas na designação genérica de irmãs; e os da terra, estavam representados na atitude dos restantes presentes na sinagoga. O desprezo, agora denunciado, vai acompanhar a missão pública e mostra-se, sem pena nem agravo, no processo de julgamento e de morte no Calvário. Então é a rejeição completa.

A narração de Marcos faz-nos ver dois olhares diferentes: O dos nazarenos e o de Jesus. Os nazarenos retinham o estilo de Jesus, vizinho e trabalhador, inserido na família de sangue, frequentador da sinagoga, ordeiro e praticante fiel das antigas tradições. E por isso estranham a sabedoria das suas palavras e o alcance dos seus gestos prodigiosos. Jesus dá uma nova dimensão à experiência adquirida na família, na terra natal, na sinagoga. E abre-a ao anúncio do reino de Deus, à realidade de uma situação germinal que está em curso. E certamente desta novidade lhes terá falado e deixado o apelo a que a descortinem com as razões do coração e o afecto da inteligência. Só ao nível da fé se entra em sintonia com Ele e os olhos humanos encontram a verdade do que está a acontecer.

A surpresa dos nazarenos é natural. Jesus tem um comportamento fora do comum: não fala nem pensa nem vive como era de esperar de um filho daquela família, de um natural daquela terra. “O facto, afirma J. M. Castillo, (La Religión de Jesús, ciclo b, p. 254), é que a conduta de Jesus foi vista como «desviada», merecedora só de desprezo. E ninguém, nem na família mais íntima, confiou nele. Isto é muito duro na vida de uma pessoa. É o preço da liberdade. Sobretudo, a liberdade perante pessoas às que nos sentimos mais ligadas. A dolorosa estranheza de Jesus estava justificada”.

Jesus queixa-se do desprezo a que é votado pelos conterrâneos. A novidade de que é portador não lhes interessa. A sabedoria que revela só desperta admiração e não induz à imitação. Os prodígios que realiza ficam fechados no âmbito dos beneficiários e não provocam a abertura a perguntas de sentido, a Deus que Jesus mostra já presente e quer anunciar. Por isso, vai pregar a outras terras. Diz o texto: “Estava admirado com a falta de fé daquela gente. E percorria as aldeias dos arredores, ensinando”. Que turbilhão de sentimentos terá afluído ao seu espírito e como os terá digerido! Ele ser desprezado como profeta, desconhecido como sábio e incapaz como médico! E dizerem-lho “na cara”, após o terem reconhecido como insinuam as perguntas/exclamações que fazem na sinagoga.

“Tal como Jesus foi reduzido à impotência por aqueles que afirmavam conhecê-lo melhor, adianta Manicardi, Comentário, p. 116, assim a fé pode hoje ser tornada insignificante por aqueles mesmos que pretendem fazer-se seus paladinos e defensores, mas na realidade a reduzem às suas próprias visões do mundo e não aceitam deixar-se pôr em causa”.

A fé faz-nos conhecer Jesus e acolher a sua novidade que nos abre os olhos à verdade da realidade, nos leva a descobrir a presença oculta de Deus nos sofrimentos e fracassos da vida, como afirma São Paulo; que nos mostra portas abertas e caminhos longos onde se fecham as portas da sinagoga.

No entanto cuidado, adverte o comentarista da liturgia dominical, em Homilética, 20\8/4, p. 431, pois “quando conhecemos alguém muito de perto (no tempo, no esspaço…) mas sem haver entrado com verdade na sua realidade mais verdadeira, ficamos fora, não entramos, e chegamos a desprezar o valioso que há nessa pessoa, sem querer reconhecê-lo. A vida traz muitas surpresas e há que aprender a valorar os demais. Toda a pessoa tem uma mensagem para ti”. É muito assertivo o convite de regressar a casa e purificar o olhar. Experimenta!

padre Georgino Rocha

 

 

Na primeira parte do seu Evangelho, Marcos apresenta as diversas interpretações acerca de Jesus. Ninguém consegue reconhecê-lo na sua identidade mais profunda, inclusive os seus familiares que já antes tinham ido à procura dele para o levarem para casa por estarem convencidos que Jesus estava louco (Mc 3,21). Quando o encontram, Jesus parece não lhes ligar importância, apresentando os seus discípulos como a sua nova família (Mc. 3,31-35).

É com esta nova família que agora ele se apresenta em Nazaré. Ele tinha saído dessa pequena aldeia encravada nas montanhas da Galileia para ir morar em Cafarnaum, nas margens do mar da Galileia e perto da Via Maris, onde a sua pregação facilmente começou a chegar a todo o lado. Muita gente vai dando crédito ao seu ensino, reconhecendo a sua autoridade como mestre e como profeta.

A cena passa-se na sinagoga, em dia de sábado. É a terceira e última vez que Marcos refere uma ida de Jesus a uma sinagoga. Da primeira vez (Mc 1,21-28) Jesus teve sucesso: todos se maravilhavam com o seu ensino e até libertou um possesso dum espírito impuro. Da segunda vez (Mc. 3,1-6) já não correu tão bem pois, ao curar um homem com a mão seca em dia de sábado, criou-se forte tensão entre Jesus e os fariseus e partidários de Herodes.

Nesta terceira vez (Mc. 6,1-6), como das duas vezes anteriores, começou a ensinar. Em princípio, qualquer judeu tinha o direito de tomar a palavra para instruir a assembleia, mas na prática ninguém o ousava fazer pois o ensino tinha-se tornado monopólio dos doutores da lei que não admitiam concorrência. Os seus conterrâneos, naturalmente instigados pelos doutores da lei, tentaram desmoralizar e desacreditar totalmente as suas palavras e acções de Jesus.

A primeira reacção dos ouvintes é de espanto e admiração perante o ensino. Porém, começam as interrogações, que soam a ataque: Como é que alguém que não estudou consegue ensinar desse modo? Donde lhe vem tudo isso?

A segunda reacção tem a ver com o que ouviram falar acerca dos milagres realizados pelas mãos de Jesus. Donde lhe vem tudo isso? A pergunta entende-se com o que se leu já em Mc. 3,22 onde os escribas vindos de Jerusalém acusam Jesus de estar possesso de Belzebu, príncipe de demónios, e por isso, conseguir expulsar demónios.

A terceira reacção resume o resto com um insulto, apelando para a sua origem simples e humilde: ele não passa de filho dum carpinteiro, portanto sem qualquer credibilidade. Os seus compatriotas estão incapazes de ir além do aspecto exterior para ir ao encontro do sentido mais profundo. Daí, escandalizavam-se dele.

Diante disso tudo, Jesus cita um provérbio conhecido por todos: «Não há profeta sem honra excepto na sua pátria, entre os seus parentes e em sua casa». Em contraste com a designação dos compatriotas sobre ele como um simples «carpinteiro», Jesus revela-se como «profeta», uma pessoa inspirada e enviada por Deus para anunciar Palavra de Deus. Ele não aprendeu com nenhum mestre humano, pois as suas palavras vêm de Deus.

Jesus admira-se da falta de fé daquela gente que não aceita o seu ensino e, por isso, são culpados de não usufruírem do seu poder miraculoso. Mas outros aceitarão. Por isso, o caminho de Jesus continua noutras aldeias.

padre Franclim Pacheco

 

 

Onde não há fé, Jesus não pode fazer milagre! (Mc. 6,1-6)

Marcos apresenta o crescimento do conflito vivido por Jesus e o mistério de Deus que envolvia sua pessoa. Agora, chegando ao fim, a narração entra numa curva. Começa a aparecer uma nova paisagem. O texto que meditaremos nessa e na próxima semana tem duas partes distintas, como os dois pratos da balança. A primeira descreve como o povo de Nazaré se fecha frente a Jesus (Mc 6,1-6) e a segunda descreve como Jesus se abre para o povo da Galiléia enviando os discípulos em missão (Mc. 6,7-13).

No tempo em que Marcos escreveu o seu evangelho, as comunidades cristãs viviam uma situação difícil, sem horizonte. Humanamente falando, não havia futuro para elas. A descrição do conflito que Jesus viveu em Nazaré é do envio dos discípulos, que alargava a missão, despertava nelas a criatividade. Pois para quem crê em Jesus não pode haver uma situação sem horizonte.

Comentando

Marcos 6,1-3: Reação do Povo de Nazaré frente a Jesus

É sempre bom voltar para a terra da gente. Após longa ausência, Jesus também voltou e, como de costume, no dia de sábado, foi para a reunião da comunidade. Jesus não era coordenador, mesmo assim ele tomou a palavra. Sinal de que as pessoas podiam participar e expressar sua opinião. Mas o povo não gostou das palavras dele e ficou escandalizado. Jesus, um moço que eles conheciam desde criança, como é que ele agora ficou tão diferente? O povo de Cafarnaum tinha aceitado o ensinamento de Jesus (Mc 1,22), mas o povo de Nazaré se escandalizou e não aceitou. Motivo? "Esse não é o carpinteiro, filho de Maria?" Eles não aceitaram o mistério de Deus presente num homem comum como eles! Para poder falar de Deus ele teria que ser diferente deles!

Como se vê, nem tudo foi bem-sucedido. As pessoas que deveriam ser as primeiras a aceitar a Boa Nova, estas são as que se recusam a aceitá-la. O conflito não é só com os de fora de casa, mas também com os parentes e com o povo de Nazaré. Eles recusam, porque  não conseguem entender o mistério que envolve a pessoa de Jesus: "De onde vem tudo isso? Onde foi que arranjou tanta sabedoria? Ele não é o carpinteiro, o filho de Maria, irmão de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão? E suas irmãs não moram aqui conosco?" Não deram conta de crer.

Marcos 6,4-6a: Reação de Jesus diante da atitude do povo de Nazaré

Jesus sabe muito bem que "santa de casa não faz milagre". Ele diz: "Um profeta só não é estimado em sua própria pátria, entre seus parentes e em sua família!" De fato, onde não existe aceitação nem fé, a gente não pode fazer nada. O preconceito o impede. Jesus, mesmo querendo, não pôde fazer nada. Ele ficou admirado da falta de fé deles.

Alargando

A expressão "Irmãos de Jesus"

Essa expressão é causa de polêmica entre católicos e protestantes. Os protestantes dizem que Jesus teve mais irmãos e irmãs e que Maria teve mais filhos! Os católicos dizem que Maria não teve outros filhos. O que pensar disso?

Em primeiro lugar, as duas posições, tanto dos católicos como dos protestantes, ambas têm argumentos tirados da Bíblia e da Tradição das suas respectivas Igrejas. Por isso, não convém brigar nem discutir esta questão com argumentos só de cabeça, pois trata-se de convicções profundas, que têm a ver com a fé e com o sentimento de ambos. Argumento só de cabeça não consegue desfazer uma convicção do coração! Apenas irrita e afasta! Mesmo quando não concordo com a opinião do outro, devo sempre respeitá-la.

Em segundo lugar, em vez de brigar em torno de textos, nós todos, católicos e protestantes, deveríamos nos unir bem mais para lutar em defesa da vida, criada por Deus, vida tão desfigurada pela pobreza, pela injustiça, pela falta de fé.

Carlos Mesters e Mercedes Lopes

 

 

Profetas desconcertantes!

No Prólogo de São João podemos ler que, em relação a Cristo, o Verbo de Deus, "Ele veio para a sua casa, mas os seus não o receberam" (Jo 1,11). Com efeito, eis aqui o drama da Aliança de Deus e os homens; essa aliança é encontro, aceitação, abertura ao outro, transformação, novidade, e essa aliança só pode se expressar através dos profetas, e eles não caem nunca do céu; eles nascem sempre de baixo, na espessura da história humana. É por isso que é difícil reconhecê-los, apreciá-los e escutá-los. As três leituras de hoje nos apresentam profetas: Ezequiel, Paulo e Jesus de Nazaré. Que tipo de profetas eles são eles?

1. O profeta: um ser humano ordinário. Nas três leituras de hoje, nos damos conta rapidamente que os profetas são, antes de tudo, seres humanos bem comuns, com seus limites e fragilidades. Ezequiel, um sacerdote que viveu no tempo de Nabucodonosor e do Exílio de Babilônia (598-587 a.C), é um profeta desconcertante, de genialidade diversa e complexa. Ele é como os israelitas do seu tempo, esmagados pela derrota, desesperados e deportados para a Babilônia. É de joelhos que ele toma consciência de que Deus acompanha seu povo na angústia e que tem necessidade dele para exprimir a sua presença: "Entrou em mim um espírito que me fez ficar de pé. Então eu pude ouvir aquele que falava comigo" (Ez. 2,2).

É o mesmo Paulo que escreve a sua segunda carta aos Coríntios: "Eu estava tão preocupado e aflito que até chorava" (2Co. 2,4). Paulo toma consciência de sua pequenez humana perante a grandeza da missão à qual ele se sente chamado: "Para que eu não me inchasse de soberba por causa dessas revelações extraordinárias, foi me dado um espinho na carne (em grego: skolops), um anjo de Satanás para me espancar, a fim de que eu não me encha de soberba" (2Co. 12,7). Será que é um handicap físico, uma doença crônica ou seus adversários missionários eloquentes e autoritários que, com antecedência, ele havia chamado de "servidores de Satanás" (2Co 11,13-15)? Não sabemos nada sobre isso! Uma coisa é certa: Paulo é muito humano e ele o experimenta na sua carne, (em grego: sarkos), que designa a fragilidade da existência humana.

Jesus de Nazaré não é também um homem comum? De maneira que mesmo a sua família achava que ele era perturbado: "Os parentes de Jesus foram segurá-lo, porque eles mesmos estavam dizendo que Jesus tinha ficado louco" (Mc. 3,21). E no trecho que nós temos hoje o evangelista Marcos, retomando o que as pessoas da sua cidade diziam dele, escreve: "Esse homem não é o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E suas irmãs não moram aqui conosco?" (Mc. 6,3). Dizer que Jesus é o carpinteiro, o filho de Maria, pode querer dizer duas coisas: 1) que seu pai, José, faleceu; se não Marcos haveria escrito que Jesus era o filho do carpinteiro ou, 2) que se trata de uma família de reputação duvidosa, pois, na época, não se dizia nunca que alguém era filho da sua mãe. Uma coisa é certa: Jesus de Nazaré foi um homem completamente comum, de um meio bem comum, de uma cidadezinha escura que fez que o evangelista João dissesse: "Natanael disse: ‘De Nazaré pode sair coisa boa?" (Jo 1,46).

2. O profeta incomoda. Um profeta leva sempre uma mensagem de esperança. Por outro lado, a sua palavra deve necessariamente incomodar. O profeta é aquele que anuncia as situações de injustiça, que questiona, que interpela e que convida à mudança, à novidade. Frequentemente nós somos reticentes às mudanças; atolamo-nos em velhos hábitos e desculpamos a nossa passividade apoiando-nos em doutrinas e regras que determinamos serem a Verdade. Porém, não há verdades totalmente acabadas, absolutas, imutáveis, inalteráveis, e para que lembremos Deus deve necessariamente passar por mulheres e por homens como nós. Daí a rejeição, a negação e a condenação dos profetas. O teólogo Michel Hubaut escreve: "Se Deus tivesse desejado que o homem pegasse o caminho errado como se diz, ele não teria conseguido fugir disso...". Pois se há uma constatação na história da revelação judeu-cristã, ela é exatamente essa propensão do homem a querer encontrar Deus nas manifestações extraordinárias, milagrosas e grandiosas. E, ainda, na linha da história, percebemos que Deus prefere as teofanias do quotidiano mais do que as teofanias do grande espetáculo". E, como prova, seu Filho nasceu como todo mundo: uma criança; ele se tornou carpinteiro como seu pai e ele foi crucificado como um vulgar bandido. Hubaut acrescenta: "Não podemos dizer que esse Messias veio lisonjear a espera das multidões".

Contudo, todos os profetas sabem: a Palavra, a Boa nova que eles têm a anunciar será automaticamente mal recebida. A novidade perturba, incomoda. Ela impede de ficar na monotonia. A novidade suscita perplexidade, rejeição. O profeta Ezequiel experimentou-a: "Criatura humana, vou mandar você a Israel, a esse povo rebelde, que se rebelou contra mim. Eles e seus antepassados se revoltaram contra mim até o dia de hoje. Os filhos são arrogantes e têm coração de pedra" (Ez. 2,3-4). São Paulo o expressa também desta maneira: "E é por isso que eu me alegro nas fraquezas, humilhações, necessidades, perseguições e angústias, por causa de Cristo. Pois quando sou fraco, então é que sou forte" (2Co. 12,10). E o evangelho de Marcos faz dizer a Jesus este célebre ditado: "Um profeta só não é estimado em sua própria pátria, entre seus parentes e em sua família" (Mc. 6,4), pois é preciso reconhecê-lo, alguns dias a humanidade de Deus nos choca. Preferiríamos um Deus autoritário, todo-poderoso, que impõe as suas recompensas e os seus castigos... Felizmente, esse Deus não existe!

3. Um verdadeiro profeta. Como discernir o verdadeiro do falso profeta? Temos de ser prudentes e atentos aos sinais dos tempos. Infelizmente, na Igreja atual, alguns acham que são verdadeiros profetas pela sua intransigência, pela sua severidade e pelo que eles falam. Mas, atenção! O fato de ser criticado, rejeitado ou ainda de deixar indiferentes às pessoas que me rodeiam, não fazem de mim automaticamente um profeta. A Palavra que eu levo deve ser uma Boa Nova, uma Palavra que liberta, que salva e que dá esperança. E é por isso que os verdadeiros profetas não são sempre aqueles que nós pensamos. Eles são dificilmente apoiados pelas instituições, mesmo pela Igreja... Pois a Igreja, ela também não gosta do que incomoda, não gosta de mudança, de novidade, e os profetas são frequentemente suspeitos. O teólogo francês Hyacinthe Vulliez escreve: "Quando queremos nos desfazer de um profeta é habitual tratá-lo de anormal, de atípico e mesmo de estrangeiro, o que permite distanciá-lo e mesmo fazê-lo desaparecer. Não gostamos da pessoa que tem um discurso diferente do convencional. Ele incomoda, ele faz sair da monotonia de sempre, e isso o pessoal não gosta!"

O verdadeiro profeta de hoje deve necessariamente ter a linguagem das mulheres e dos homens de hoje, caso contrário ele deixará indiferentes as pessoas mais vulneráveis da sociedade: os pobres, os pequenos, os desprezados, os feridos da vida. A sua palavra deve denunciar as injustiças que sofrem e lhes permitir de ter esperança. Pode ser que o verdadeiro profeta não seja católico, nem mesmo cristão. A sua pertença a uma confissão particular não tem nenhuma importância. O profeta é aquele que restaura a justiça, que devolve a dignidade aos excluídos e aos feridos da vida e que traz esperança num mundo melhor.

Concluindo, o versículo evangélico que diz: "E Jesus não pôde fazer milagres em Nazaré..." (Mc. 6,5) corre o risco de nos surpreender. Nós temos lá a prova de que um milagre não é um passe de mágica ou um prodígio que vira as leis da natureza; o milagre é um sinal que fala da proximidade daquele que faz com quem vê. O que significa que para que o milagre, o sinal possa se realizar, é preciso uma inter-relação, uma fé, uma confiança entre quem a dá e quem a recebe, se não nem a Palavra nem o sinal poderão produzir seus frutos. Se isso foi verdadeiro no tempo de Jesus, assim também é ainda hoje.

Raumond Gravel

 

 

“Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria?” (Mc. 6,3)

A cidade da infância de Jesus, conforme consta dos Evangelhos segundo Mateus 2,22-23 e Lucas 2,4-5.39, foi Nazaré, cidade da região da Galiléia, voltada para a agricultura e afazeres artesanais.

Segundo o Evangelho de Lucas, Maria, quando jovem, residia em Nazaré, e foi em Nazaré que Maria recebeu a visita do Anjo que lhe anunciou o nascimento do Filho de Deus (Lc. 1,26-38).

Também, foi em Nazaré que Jesus passou a sua infância, adolescência e juventude. 

Foi em Nazaré que Jesus aprendeu a profissão e trabalhou como carpinteiro, como seria conhecido depois:

· “Este homem não é o carpinteiro, o filho de Maria, e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E suas irmãs não moram aqui conosco?” (Mc. 6,3). 

A Galiléia era uma província do norte da Palestina que, no Antigo Testamento, foi chamada de “Galiléia dos pagãos”, como vemos em Mateus quando referencia Isaias: “... para se cumprir o que foi dito pelo profeta Isaias (Is. 8,23): Terra de Zabulon, terra de Neftali, caminho do mar, região do outro lado do rio Jordão, Galiléia dos que não são judeus!” (Mt. 4,14-15).

Nazaré, por sua vez, era uma pequena aldeia, jamais citada no Antigo Testamento e totalmente desconhecida até aparecer nos escritos do Novo Testamento como residência da Sagrada Família, José, Maria e Jesus. 

A cidade de Nazaré estava situada na região da Galiléia, ao norte da Judéia e, por isso, os primeiros cristãos, entre outros nomes com os quais eram identificados, também eram chamados, de “galileus”, amparado na ordem dada por Jesus aos discípulos, tendo como mensageiras as mulheres que o viram ressuscitado:

· “As mulheres se aproximaram e se ajoelharam diante de Jesus, abraçando seus pés. Então Jesus disse a elas: ‘Não tenham medo. Vão anunciar aos meus irmãos que se dirijam para a Galiléia. Lá eles me verão. [...] Os onze discípulos foram para a Galiléia, ao monte que Jesus lhes tinha indicado.”(Mt 28,10.16).

Além de “galileus” eram também conhecidos por “nazarenos”, que acabou sendo um nome depreciativo, como vemos no Evangelho de João:

· “Felipe se encontrou com Natanael, e disse: ‘Encontramos aquele de quem Moisés escreveu na Lei e também os profetas: é Jesus de Nazaré, o filho de José. ’ Natanael disse: ‘De Nazaré pode sair coisa boa?’” (Jo 1,45-46).

· “Jesus tinha cerca de trinta anos quando começou sua atividade pública.”(Lc. 3,23).

Até o início de sua vida pública, aos trinta anos, como disse o evangelista Lucas, Jesus trabalhou como carpinteiro na sua pequena cidade e, com certeza, nas cidades circunvizinhas a Nazaré; então, Jesus era um profissional muito competente e conhecido, tendo herdado a honradez do seu trabalho de seu pai, José.

Daí conclui-se que Jesus teve uma infância e adolescência normal na sua família e na sua cidade, entre seus parentes, vizinhos e toda a população da pequena aldeia de Nazaré, sendo sobejamente conhecido como pessoa e profissional que era, chegando à fase adulta dessa maneira.

· “Jesus foi da Galiléia para ao rio Jordão, a fim de se encontrar com João(Batista), e ser batizado por ele.” (Mt. 3,13).

Depois disso Jesus deixou sua cidade, sua família, seus amigos, seus clientes e partiu, foi morar em outra cidade para iniciar a sua vida pública;

· “Deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, que fica às margens do mar da Galiléia, nos confins de Zabulon e Neftali. [...] Daí em diante, Jesus começou a pregar, dizendo: ‘Convertam-se, porque o Reino de Deus está próximo’. [...] Jesus andava por toda a Galiléia, ensinando em suas sinagogas, pregando a Boa Nova do Reino e curando todo tipo de doença e enfermidade do povo.” (Mt 4,13.17.23).

Mas, como Jesus era humano e tinha sentimentos, e sentia saudade dos locais onde passara sua infância e adolescência, um dia bateu a saudade de casa: saudade da mãe, dos irmãos, dos parentes, dos amigos, das ruelas de sua cidade. Sentiu forte desejo e necessidade de voltar para rever os lugares onde havia passado, despreocupadamente, a sua infância, adolescência, puberdade e o início da vida adulta.

E Lucas irá dizer: “Jesus foi à cidade de Nazaré, onde se havia criado.” (Lc. 4,16).

E voltou para a sua cidade, e para lá levou consigo os amigos e os discípulos que angariara no início de sua vida missionária. Queria que todos conhecessem sua família e a cidade de onde viera.

Quem não sente saudade dos tempos felizes da infância, da adolescência, dos amiguinhos, dos primeiros professores e professoras, dos e das catequistas, dos lugares que marcaram sua vida, e não sente vontade, alegria e orgulho de voltar e mostrar isso para seus novos amigos? Todos somos assim!  Com Jesus não foi diferente.  E Jesus voltou...

Assim como Jesus estava anunciando uma Boa Nova às outras cidades e regiões por onde passava: ‘Convertam-se, porque o Reino de Deus está próximo’.

Com certeza, quis, também, que os seus conhecidos da sua cidade conhecessem e aderissem à Boa Nova do Reino de Deus que estava chegando.

Como Jesus fazia quando morava em Nazaré, no sábado Jesus foi cumprir o preceito religioso judeu de ouvir a palavra de Deus na sinagoga da cidade, mas Jesus não se contentou somente em ouvir; começou a ensinar: “Quando chegou o sábado, Jesus começou a ensinar na sinagoga.” (Mc. 6,2a).

Marcos não especifica o que Jesus se propôs a ensinar. Mas, se ele estava anunciando, em outras localidades, a chegada da Boa Nova e convidando o povo a converter-se porque o Reino de Deus estava próximo, com certeza, era sobre isso que Jesus falava.

A princípio houve um impacto nos ouvintes. Começaram por não acreditar no que estavam vendo e ouvindo.

O carpinteiro, filho de José e Maria, que estudara na mesma escola que todos frequentaram, mudara-se para outra cidade, ficara um tempo fora, e é sabido que não estudara nada além que já havia estudado nas escassas e limitadas escola e sinagoga de Nazaré e nem havia frequentado em outros lugares escolas superiores ou faculdades, começa a ensinar como quem tem autoridade:

· “As pessoas ficavam admiradas com o seu ensinamento, porque Jesus ensinava como quem tem autoridade e não como os doutores da Lei.” (Mc 1,22).

E mais: além dos ensinamentos, Jesus passara a fazer prodígios e até milagres, começando a despertar nos ouvintes admiração passando, da admiração, para a desconfiança: “Muitos que o escutavam ficavam admirados e diziam: ‘De onde vem tudo isso? E esses milagres que são realizados pelas mãos dele?” (Mc. 6,2b).

E brota logo perguntas na cabeça de cada um: “Quem ele pensa que é? Será que ele pensa que é melhor que nós? Afinal das contas, nós o conhecemos, estudamos a mesma escola, frequentamos a mesma sinagoga”.

Iniciando-se pela admiração, passando para a desconfiança, dai para a descrença e desta para a inveja chegando-se ao escândalo e ao ceticismo: “Esse homem não é o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E suas irmãs não moram aqui conosco? ’ E ficaram escandalizados por causa de Jesus.” (Mc 6,3).

Também alimentamos discriminações a respeito de Jesus: é fácil aceitá-lo, nos nossos dias, como Deus que é, mas como é difícil acreditar que ele foi homem, teve família, pai, mãe, irmãos...

E se ele teve família, é tão igual a nós como todos o são, então, quem ele pensa que é? Afinal de contas, ele não passava de um carpinteiro que, possivelmente, tivesse deixado a sua cidade para tentar uma vida melhor em outras localidades.

Está patente a discriminação, porque, para falar das coisas de Deus, existiam os doutores da Lei que eram versados nisso e somente eles tinham respostas para todas as indagações do povo, e o que entenderia um carpinteiro a respeito disso? 

Rotulamos as pessoas de acordo com a sua profissão, aparência e a nossa maneira de pensar, agir e julgar, com a nossa ideologia e com a parca capacidade de entendermos o que Deus quer de cada um de nós, e ignoramos que Deus “não faz diferença entre as pessoas” (At 10,34; 1Pd 1,17).

O Espírito Santo, conforme disse Jesus no Evangelho segundo João, é como o vento: assim ouve-se o vento, mas não se pode dizer de onde ele vem ou para onde vai depois. Assim é com o Espírito Santo.  O vento sopra. Não podemos vê-lo. Vem de algum lugar, embora não saibamos de onde e vai para outro lugar qualquer, embora também não saibamos para onde. E Jesus finaliza: “Acontece a mesma coisa com quem nasceu do Espírito.” (Jo 3,8).

Jesus havia nascido do Espírito e por isso estava pleno do Espírito, conforme disse o Anjo a Maria por ocasião da anunciação:

· “O Espírito virá sobre você, e o poder do Altíssimo a cobrirá com a sua sombra. Por isso, o Santo que vai nascer de você será chamado Filho de Deus.” (Lc 1,35).

O homem quer impor a sua religiosidade popular e a sua ideologia em contraste aos dons e poder do Espírito Santo. Se não entende, não aceita, e ponto final.

Se não entende de onde vem tanta sabedoria no jovem carpinteiro, o melhor a fazer é desacreditá-lo, é ridicularizá-lo diante de todos e, se possível, colocá-lo para fora da sinagoga, da cidade, da vida.

Jesus, como homem, foi discriminado e se escandalizaram com ele, embora jamais homem algum fosse cheio da plenitude do Espírito Santo como ele foi possuidor.

Não aceitamos que a sabedoria de Deus se manifeste no outro se esse outro não se enquadrar no modelo da ideologia e religiosidade popular que projetamos para que Deus manifeste sua sabedoria.

O homem é tão ridículo que impõe normas até para que a sabedoria de Deus se manifeste.

Nesta mesma passagem narrada por Marcos, Lucas complementa dizendo que, na sinagoga, foi dado a Jesus o livro do profeta Isaias, e Jesus, abrindo o livro, encontrou a passagem onde anunciava a realização da plenitude dos tempos, e aquilo que estava reservado para a sua missão desde todos os tempos:

· “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a boa nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor.” (Lc. 4,18-19).

E Jesus complementa, dizendo: “Hoje se cumpriu essa passagem da Escritura, que vocês acabam de ouvir.” (Lc. 4,21). 

Afinal de contas, quem era Jesus para dizer isso, se não passava de um simples carpinteiro, filho de Maria, irmão de Tiago, José, Tadeu e Simão, e de outras irmãs não citadas nominalmente mas que todos da cidade conheciam? 

Mas queiram ou não, escandalizando-se ou não, acreditem ou não, o Espírito do Senhor está sobre ele, e o Espírito Santo age até contrariando frontalmente a maneira de pensar do homem.

Não há nada que se possa fazer a respeito do vento. Não há como coibir ou proibir. Não há como decretar uma lei proibindo o vento de soprar. Não há autoridade que diga: “Aqui o vento não sopra”, porque o vento sopra aonde quer soprar! Assim é o Espírito Santo.  

Ao tomar conhecimento da sabedoria de Jesus, o povo demonstrou todo o seu ceticismo:

· “De onde ele recebeu tudo isso? De onde vem tanta sabedoria?” (Mc 6,2).

Começa ai a rejeição de Jesus como Messias. Começa a incredulidade sobre o mistério da Encarnação, como disse Agostinho de Hipona:

· “Um Deus que se fez homem para que todos os homens se tornassem filhos de Deus”.

Começa-se a colocar em dúvida a concepção de um Deus no ventre de uma mulher; um Deus, de natureza divina que assume a natureza humana e se torna o “Emanuel”, o Deus conosco, o Deus que vem morar no nosso meio, o Deus que instalou a sua tenda entre nós e promete que “estará conosco todos os dias, até o fim do mundo.” (Mt. 28,20),

Se não entendermos Jesus como homem, jamais o entenderemos como Deus.

Se não aceitarmos Jesus como homem, jamais o aceitaremos como Deus porque, como Deus, ele se identifica no homem e toma para si o que se faz a um irmão pequenino:

· “Pois eu estava com fome, e vocês me deram de comer; eu estava com sede e me deram de beber; eu era estrangeiro, e me receberam em sua casa; eu estava sem roupa, e me vestiram; eu estava doente, e cuidaram de mim; eu estava na prisão e vocês foram me visitar. [...]. Todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram.” (Mt 26,35-36.40). 

Se não vermos Jesus como o homem de Nazaré, jamais o reconheceremos na pessoa do irmão, porque no irmão o vemos como o homem que ele foi.

Que decepção a recepção que Jesus teve em sua cidade.

Com certeza, Jesus não esperasse isso; esperava, com certeza, mais calor, mas amizade, mais receptividade, mais aconchego. Mas Jesus chegou à triste conclusão que “um profeta só não é estimado em sua própria pátria, entre os seus parentes e em sua família. [...] E Jesus ficou admirado com a falta de fé deles.” (Mc. 6,4.6).

Sobre esta passagem, no seu Evangelho, Lucas vai além e narra uma discussão entre Jesus e o povo que acaba tendo um fim lamentável e dramático, quase trágico: “Quando ouviram essas palavras de Jesus, todos na sinagoga ficaram furiosos. Levantaram-se, e expulsaram Jesus da cidade. E o levaram até o alto de um monte, sobre o qual a cidade estava construída, com intenção de lançá-lo no precipício. Mas Jesus, passando apelo meio deles, continuou seu caminho” (Lc. 4,28-30).

A rejeição a respeito de Jesus apenas começa ai: rejeitado em Nazaré: “Ninguém é profeta na sua terra.” (Lc. 4,24), e vai se estender por toda a sua vida até culminar no Calvário.

Mais tarde Jesus diria: “Felizes vocês que forem insultados e perseguidos, e se disserem todo tipo de calúnia contra vocês, por causa de mim. Fiquem alegres e contentes, porque será grande para vocês a recompensa no céu. Do mesmo modo perseguiram os profetas que vieram antes de vocês.” (Mt. 5,11-12).

Tenhamos diante dos olhos o ensinamento de Jesus: “Se o mundo odiar vocês, saibam que odiou primeiro a mim [...]. Se perseguiram a mim, vão perseguir vocês também; se guardaram a minha palavra, vão guardar também a palavra de vocês. Farão isso a vocês por causa do meu nome, pois não reconhecem aquele que me enviou.” (Jo 15,18.20-21).

diácono Milton Restivo

 

 

Num mundo de indiferença, ser presença que faz diferença

Marcos não tem relatos da infância de Jesus. Por isso, busca narrar alguns encontros dele com seu povo e sua família. No entanto, para aqueles que melhor O conheciam, Jesus era visto como um homem a mais, um galileu a mais do povo. Seus conterrâneos estavam tão seguros de que Ele era uma “pessoa normal”, que não podiam aceitar Seu modo original de ser. Eram seus companheiros de infância, tinham brincado juntos, trabalhado com Ele, sabiam perfeitamente quem Ele era. “Enquadraram-no” numa família, requisito indispensável, naquela época, para ser alguém. Até esse momento não haviam descoberto n’Ele nada fora do “normal”. Como não esperassem nada extraordinário, de onde Ele tirava tanta sabedoria?

O relato deste domingo é surpreendente. Jesus foi rejeitado precisamente pelos seus parentes e familiares. É a primeira vez que Ele experimenta uma rejeição coletiva, não dos dirigentes religiosos, mas de sua comunidade familiar, com quem convivera tanto tempo. Jesus se sente “desprezado”: os seus não o aceitam como portador da mensagem profética de Deus. Por isso, fecham-se em suas ideias preconcebidas a respeito do seu vizinho Jesus e resistem a abrir-se à novidade revolucionária de sua mensagem e ao mistério que se revela em sua pessoa.

Porque estavam acostumados a ouvir sempre o mesmo, rejeitam-no por ensinar “coisas novas”.

Mas Jesus não se deixou domesticar e nem se acomodou às expectativas de seus conterrâneos.

Sua vida desconcertou a todos; seu modo de falar, seus critérios, seu compromisso em favor da vida, sua liberdade de espírito suscitou um espanto em todos. Sua presença despertou perguntas, dúvidas e até discussões. Quem será Ele? Será o Messias? Ou não será? Como explicar sua vida?

Porque, “sendo um entre tantos”, atuava, pensava e vivia um estilo único que o diferenciava de todos?

Sua postura de mestre e sua atuação desencadearam no seu povo uma crise, ou seja, romperam com a “normalidade doentia” das pessoas e se revelou imprevisível e desconcertante.

Na realidade, a reação dos familiares e parentes de Jesus é expressão da mesma reação que surge em todos nós quando, diante de alguém que se revela original, com um novo modo de ser e viver, manifestamos suspeitas, dúvidas, indiferença... O ser humano, em todos os tempos, tende a instalar-se, acomodando-se facilmente ao conhecido e se deixando levar pela rotina que evita sobressaltos; isso lhe confere uma certa sensação de segurança e tranquilidade: “para quê e por quê mudar...?”

E isso ocorre também com suas ideias, crenças, visões...

Habituado a ver a realidade a partir de uma determinada perspectiva, custa-lhe abrir-se a outras percepções, novas ou desconhecidas. Tem medo de ser diferente e reage com indiferença frente àqueles que são diferentes. E a indiferença mata.

Prefere a vulgaridade de ser como todo mundo à originalidade de ser diferente; prefere a monotonia de ser como todos e passar desapercebido na multidão, sem chamar a atenção por ser distinto a todos, sendo ao mesmo tempo, como todos.

Podemos, então, afirmar que o mais anti-evangélico será sempre uma pessoa, um grupo ou uma instituição instalada em suas ideias, posturas normóticas, preconceituosas, intolerantes...

Todos sabemos que isso constitui um mecanismo de defesa através da qual a pessoa busca proteger-se frente àquilo que poderia questioná-la ou trata de desqualificar a alguém diante de quem se sentiria inferior. Aqui aparece claro como a desqualificação do outro esconde medo ao diferente ou, simplesmente, ao novo, e algum sentimento oculto de inferioridade.

O filósofo Gabriel Marcel escreveu que “a indiferença é o grau mais baixo da liberdade” e o Pastor negro, Martin Luther King Jr, concordava com isso, ao dizer que se assustava mais com a indiferenças dos bons do que com as atitudes dos maus. De fato, ele tinha razão.

Se, por um lado ela é “a maneira mais polida de desprezar alguém” (Mario Quintana), a indiferença, em relação ao outro, é terreno fértil para alimentar o ego, levando-o à cobiça e à inveja.

Não admira o semelhante a não ser para desconstruir ou destruir a sua imagem.

De fato, a indiferença é como uma praga no jardim, vai se espalhando e contaminando e pode revelar, em sua raiz, uma insegurança estonteante em relação ao outro. Psicologicamente, diríamos que a indiferença é um mecanismo de defesa, é negação. Na negação do outro se escondem sentimentos de auto-destruição e um deles é a inveja. Quem cultiva a indiferença, facilmente sente-se alegre ao saber que o outro está numa pior. Nietzsche afirma que não saber voar é a qualidade dos indiferentes que, cada vez menos, enxergam aqueles voam alto e, se os enxergam, é a partir de uma ótica corrompida pela forma ofuscada de ver a vida. Jesus foi aquele que começou a voar alto e sua comunidade tentou cortar suas asas.

Também para nós hoje continua sendo difícil crer n’Aquele que simplesmente se revela “como um de nós”. Não é fácil reconhecer a passagem de Deus por nossa vida, especialmente quando essa passagem se reveste de “roupagem comum”; às vezes, gostaríamos que Deus se manifestasse de maneiras espetaculares, mas o enviado d’Ele, seu próprio Filho, come em nossas mesas, caminhas nossos passos e veste nossas roupas. Rejeitamos, quase que por instinto, a revelação de um Jesus muito humano e que não esteja de acordo com o que aprendemos desde pequenos. Acostumados a ouvir sempre o mesmo, se alguém diz algo diferente, mesmo que esteja mais de acordo com o Evangelho, rejeitamos de imediato.

Estamos seguros de que “tudo o que não corresponde ao sabido, ao esperado, não pode vir de Deus”.

Em outras palavras, temos medo do Jesus humano, porque Ele coloca em questão nossa segurança, nosso estilo de vida e nossa vivência religiosa.

Entrar no caminho do seguimento de Jesus implica estar desapegado de todas as falsas imagens que podemos fazer sobre Ele. Sempre que nos fechamos em ideias fixas sobre Jesus, estamos nos preparando para o escândalo.

O Jesus do Evangelho nunca se apresenta duas vezes com o mesmo rosto. Se O buscarmos de verdade, descobri-Lo-emos sempre diferente e desconcertante. Se esperamos encontrar um “Jesus domesticado”, nos enganamos a nós mesmos, aceitando o ídolo que já nos é familiar. A consequência é uma vida cristã atrofiada e pesada, centrada na doutrina, na lei, na moral, e não no seguimento d’Aquele que, na “normalidade da vida”, deixou transparecer o extraordinário Amor do Pai.

Para meditar na oração

Marcos não narra este episódio em Nazaré para satisfazer a curiosidade de seus leitores, mas para advertir às comunidades cristãs que Jesus pode ser rejeitado justamente por aqueles que acreditam conhece-Lo melhor: aqueles que se fecham em suas ideias pré-concebidas, sem abrir-se à novidade de sua mensagem e nem ao mistério de sua pessoa.

- Esta era a preocupação de Paulo: “Não apagueis o Espírito, não desprezeis o dom de Profecia, mas examinai tudo e ficai só com o que é bom” (1Tes. 5,19-21). Nós cristãos deste tempo pós-moderno estamos precisando alimentar esta atitude. Estamos vivendo demasiado indiferentes frente à novidade revolucionária da mensagem de Jesus. Com o peso do legalismo, do moralismo, do ritualismo... estamos correndo o risco de apagar seu Espírito e desprezar sua Profecia.

- Rezar sua presença cristã no cotidiano da vida: faz diferença? Presença inspiradora e provocativa? Ou presença acomodada, sem deixar-se interpelar pelo modo original de ser e viver de Jesus?...

 

 

“Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares”

Jesus vai a sua pátria, seguido dos discípulos. E, por onde passa faz brilhar a novidade de Deus, nos ajudando a reler o Evangelho com um novo olhar. Ele mostra vigor e coragem de avançar. Ensina na Sinagoga, desencadeando uma crise naquele povo. Ele rompe com a normalidade das pessoas, se torna imprevisível e desconcertante.

Na realidade, o ser humano tende a acomodar-se facilmente ao conhecido e se deixa levar pela rotina; isso lhe confere certa sensação de segurança e tranquilidade: “para quê e por quê mudar…?”  E isso ocorre também com suas idéias, crenças… Habituado a ver a realidade a partir de uma determinada perspectiva, o ser humano custa a abrir-se a outras percepções, novas ou desconhecidas.

Esta crise que Jesus introduz entre os seus visa redimir o ser humano, visa tirar o ser humano do seu horizonte limitado e estreito elevando-o ao plano de Deus, ou seja, um horizonte mais elevado. A crise ocorre quando os dois horizontes se entrechocam.

A mensagem de Jesus provoca uma crise radical para a situação social, religiosa, política e humana da época. Pois Ele proclama o Reino de Deus. E no Evangelho hoje, observamos que Jesus por suas palavras e atitudes produz uma crise, que gera uma ruptura, uma decisão pró ou contra Ele.

Jesus é realmente a crise do mundo. Ele veio para provocar uma derradeira decisão das pessoas pró ou contra Deus, agora manifestado em sua pessoa, em seus gestos e em suas palavras. Ele não foi simplesmente a doce e mansa figura de Nazaré; foi alguém que tomou decisões fortes teve palavras duras e não fugiu a polêmicas.

Jesus foi rejeitado precisamente pelos seus parentes e familiares. Jesus se sente “desprezado”: os seus não o aceitam como portador da mensagem profética de Deus. Por isso, fecham-se em sua idéias preconcebidas a respeito de Jesus e resistem a abrir-se à novidade de sua mensagem e ao mistério que se revela em sua pessoa. Porque estavam acostumados a ouvir sempre o mesmo, rejeitam-no por ensinar “coisas novas”.

Mas Jesus não se deixa domesticar e nem se acomoda às expectativas de seu povo.

Aos olhos de Jesus nada é mais perigoso para o espírito humano do que vidas satisfeitas, que não investem seu tempo alimentando sonhos e esperanças; mentes sem inquietações, sem o impulso das buscas; corações quietos, acomodados, ajustados, medrosos, covardes, petrificados, sensatamente contentes com aquilo que são e têm.

Quando o ser humano não busca um sentido maior, se conforma, têm medo de se expor, têm medo de se arriscar, não se assombra diante dos acontecimentos. “Tudo é tão normal… e sem sal”. Leva uma vida morna, sem sabor, sem criatividade.

O ser humano se acomoda e aparece o medo da mudança. Fecha-se no conhecido com medo do desconhecido. O ser humano é marcado pela normose (doença de ser normal). A pessoa fica presa no interior de uma pequena toca, pois em uma cabeça com medos não há espaço para sonhos.

Estas pessoas possuem idéias fixas, são conservadoras; sabem fazer, mas não sabem criar; fazem o que os outros mandam e fazem bem, mas sem paixão, sem emoção, inspiração; são pessoas perfecionistas, para satisfazer ao outro e não serem criticados. Não vivem a partir do interior, por isto não sonham, não têm projeto. Daí o desânimo.

O que queremos: ousar ou nos conformar? Evoluir ou estagnar? Ser original ou mero repetidor? Em cada um de nós há um desejo de plenitude e, ao mesmo tempo, temos medo de arriscar. É o eterno desafio entre a pulsão da vida e a pulsão da morte. A normose se relaciona com a pulsão da morte, impedindo o fluxo da vida.

Somos convocados a existir, a trazer uma novidade. Viver! E não ter vergonha de ser feliz. Cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz. Não nascemos para morrer e sim para ser. O ser humano é um ser a caminho. Precisamos investir as reservas de criatividade presentes em nosso interior. Se formos capazes de escutar o desejo profundo que habita e atravessar os medos paralisantes, alcançaremos uma identidade pessoal de verdadeiro cristão. Precisamos fazer o êxodo da estreiteza de nosso ser à largueza do coração.

É uma grande aventura tornar-se humano, sujeito da própria existência, ser dotado de um semblante único e assumir a direção dos próprios passos, realizando assim, a aspiração profunda de seu coração.

Como são humanamente repletos de vida aqueles que ainda se encantam com as buscas! Sua vida é penosa, sem dúvida, mas repleta de razões, fervor, criatividade, entusiasmo e vitalidade. O ser humano é um eterno enamorado de esperanças, um ousado, um contestador de tudo.

Ousar também tem a ver com “transgredir”. Nós cristãos seguimos Aquele que é considerado o maior “transgressor” da história: Jesus Cristo. Como o próprio Jesus, precisamos cultivar a arte de transgredir a inércia, o “pensamento único”, a normalidade petrificada. Há sempre um “mais além” com que podemos sonhar.

Que o Evangelho de hoje nos faça mais atentos: viver a palavra com a nossa vida!

padre Adroaldo Palaoro S. J.

 

 

O próprio Pai me enviou

Ouvi, irmãos, a palavra do Senhor, e vede como os persuadiu e o que eles disseram: “Este, nós sabemos de onde ele é. O Cristo, quando vier, ninguém saberá de onde ele é”. Enquanto, pois, ensinava no templo, Jesus exclamou: “Sim, vós me conheceis e sabeis de onde eu sou. Ora, eu não vim por conta própria; aquele que me enviou é verdadeiro, mas vós não o conheceis”. (Jo. 7, 27-28). É como se dissesse: Vós me conheceis e não me conheceis. Sabeis de onde venho: sou Jesus de Nazaré, e conheceis também meus pais.

Aqui estava oculto apenas o mistério do parto da Virgem, do qual o esposo dava testemunho, pois só ele poderia dizer como se dera, sendo o único capaz de zelar por esse mistério. Portanto, com exceção do parto da Virgem, podia conhecer-se tudo sobre a humanidade de Jesus: o seu rosto, a sua pátria, a sua origem. Sabia-se onde nascera.

Com razão dissera ele em relação a sua natureza humana e ao seu aspecto físico: Sim, vós me conheceis e sabeis de onde eu sou. Porém, com relação a sua divindade: Eu não vim por conta própria; aquele que me enviou é verdadeiro, mas vós não o conheceis. Mas, para que o conheçais, crede naquele que me enviou e sabereis que ninguém jamais viu a Deus; o Filho único, que é Deus e está na intimidade do Pai, foi quem o deu a conhecer (Jo. 1, 18). Pois, ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar (Mt. 11, 27).

Enfim, tendo dito: aquele que me enviou é verdadeiro, mas vós não o conheceis, para mostrar-lhes como poderão conhecer o que não conhecem, acrescentou: Eu o conheço (Jo. 7, 29). Portanto, para conhecê-lo, interrogai-me. Por que o conheço?  Porque venho dele e foi ele quem me enviou! (Jo. 7, 29). Vede como mostrou-lhes um e outro de modo admirável: Porque venho dele, disse, porque o Filho procede do Pai, e tudo o que é do Filho pertence àquele de quem é Filho.

Por isso dizemos que o Senhor Jesus é Deus de Deus, mas não dizemos que o Pai é Deus de Deus, porém só Deus. E dizemos que o Senhor Jesus é Luz da Luz, mas não dizemos que o Pai é Luz da Luz, porém só Luz. Por isso ele afirmou: Venho dele. Foi ele quem me enviou: é o que vedes no meu corpo humano. Quando ouvis dizer: Foi ele que me enviou, não entendais que há diversidade de natureza, mas sim como uma referência ao Pai daquele que é gerado.

Tractatus 31, 3-4, in Ioannis Evangelium

(Corpus Christianorum Latinorum 36, 294-295)

 

 

Neste domingo a Palavra de Deus apresenta-nos um profeta sem futuro, um carpinteiro sem pai conhecido, e um apóstolo que não se importa com suas fraquezas. Os três tem a missão de anunciar os desígnios de Deus e denunciar a falta de correspondência da humanidade para com o Criador. Pode dar certo uma coisa dessas?

Ezequiel é enviado por Deus mesmo sabendo que poderá fracassar, mas a missão do profeta independe do seu sucesso; ela se realiza pelo simples fato de anunciar com clareza a verdade (1ª leitura). Paulo, apesar de experimentar suas limitações, sentia-se fortalecido e realizado por ter cumprido a sua missão (2ª leitura). Jesus é rejeitado pelos seus conterrâneos pelo simples fato d'Ele ser uma pessoa comum (um carpinteiro) que não fazia parte da instituição religiosa e sacerdotal, nem da classe dominante (evangelho). Eis os meios que Deus usa para confundir o orgulho dos grandes e manifestar a verdade!

1ª leitura: Ezequiel 2,2-5

Deus envia Ezequiel como profeta para falar em seu nome mesmo sabendo que o povo de Israel (“esse povo rebelde... são arrogantes e têm coração de pedra”) dificilmente aceitará sua mensagem. Será rejeitado por denunciar a situação de pecado em que vive depois de ter abandonado a Aliança com Deus. Sua mensagem irá incomodar as pessoas e, não querendo converter-se, não a aceitarão.

De fato, o profeta entra em choque com aqueles que se negam a escutar a Palavra que convida a deixar velhas seguranças e mudar de caminho. Mas o sucesso pessoal de um profeta não é importante. Pelo menos as pessoas ouvirão a Palavra da Verdade, fácil de entender porque provêm de uma “criatura humana” e, por tanto, não haverá possibilidade de desculpa. Saberão que Deus continua a estar presente e preocupado com seu povo, recordando-lhe o caminho a seguir.

2ª leitura: 2 Coríntios 12,7-10

Para defender a legitimidade de sua missão apostólica, Paulo cita suas experiências místicas, mas explicando que isso não é motivo de orgulho para ele, pois reconhece que “um espinho na carne” o atormenta. Não sabemos ao certo a que se refere Paulo falando assim. Tal vez se tratasse de alguma doença ou alguma fraqueza moral a corrigir para não perturbar sua vida pessoal e sua atividade apostólica.

O certo é que ele reconhece que por mais que tenha pedido ao Senhor ver-se livre disso, seu pedido não foi aceito e terá que continuar lutando, pois “para você basta a minha graça” lhe fez ver o Senhor. Isto o levou a experimentar algo tão contraditório como que “é na fraqueza que a força (de Deus) manifesta todo o seu poder”. Desenvolveu assim a ideia de que o ideal não é viver sem contratempos nem problemas e, sim, permanecer fieis a Cristo e ao Evangelho na luta de cada dia.

Evangelho: Marcos 6,1-6

Nazaré era uma cidadezinha pequena onde todo mundo se conhecia. Lá, na sinagoga, Jesus ensinou de tal forma que todos ficaram impressionados porque, além das palavras cheias de sabedoria, já tinha realizado alguns milagres para os quais não encontravam explicação.

A resistência contra Jesus, porém, se articula ao redor de cinco perguntas que não questionam a validade do seu ensinamento e sim a sua pessoa:

1. A primeira pergunta julga a origem de seus ensinamentos (“De onde vem tudo isso?”).

2. A segunda se refere ao conteúdo e procedência dos ensinamentos (“Onde foi que arranjou tanta sabedoria?”).

3. A terceira julga os milagres (“E esses milagres que são realizados pelas mãos dele?”).

4. A quarta julga sua condição social e profissional (“Esse homem não é o carpinteiro?”).

5. A quinta julga sua origem familiar (“o filho de Maria e irmão de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão? E suas irmãs não moram aqui conosco?”).

São perguntas que não procuram resposta; apenas manifestam o bloqueio da mentalidade mesquinha de seus conterrâneos. Simplesmente, por causa do preconceito, a origem humilde de Jesus não lhes permite aceitar sua pessoa.

Ele não era nem sacerdote nem rabino; como é que um homem do povo, pensava ser mais do que os outros? Não tinha feito estudos na escola rabínica sobre a Lei de Moisés; com que autoridade pretendia ensinar? Era verdade que os milagres não tinham explicação, mas ele não era mais que o carpinteiro (aquele operário da construção que trabalhava a madeira). Além disso, sua família, sem status social, era bem conhecida na cidade. Parecia ser “filho de José”, mas (em Nazaré tudo se sabia) Ele era apenas “filho de Maria” porque já estava grávida dele antes de morar com seu esposo (um judeu sempre era “filho de seu pai”; se apenas era “filho de sua mãe” não tinha destaque social).

Por essas e por outras, “ficaram escandalizados por causa de Jesus”. Sua admiração inicial se transformou em incompreensão e desconfiança. Não quiseram admitir que alguém como eles pudesse realizar sinais da presença de Deus e tivesse sabedoria superior à dos profissionais da religião. O que impediu a fé deles não foi mais que o preconceito, somado à hipocrisia que sempre o acompanha.

Jesus “ficou admirado com a falta de fé deles” e percebeu que não dava para fazer grande coisa na sua cidade porque o milagre exige, como condição prévia, a fé da pessoa. Foi uma pena. Apesar de que “muitos que o escutavam ficavam admirados”, a maior parte deles não permitiu que fosse “estimado em sua própria pátria”.

O preconceito impede o raciocínio e sempre põe tudo a perder!

Palavra de deus na vida

Os habitantes de Nazaré haviam visto Jesus crescer, brincar, ir à escola, trabalhar... Pensavam conhecê-lo bem; mas o essencial d'Ele lhes era desconhecido. É muito parecido com o que acontece hoje. Muitos o reconhecem como uma das grandes figuras da humanidade; um homem extraordinário, lúcido, sábio, promotor da paz e da justiça, mas apenas um homem. Conhecem o personagem, mas não se aproximam do mistério que há n'Ele.

Nós, também, podemos pensar que conhecemos bem Jesus quando, na realidade, poderíamos perguntar-nos se realmente o conhecemos; se, mais do que por suas palavras e suas obras, o conhecemos por termos uma relação pessoal com Ele. Porque, para reconhecer Jesus, não basta uma certa proximidade exterior. O pior para que a fé possa vingar é acostumar-se a viver ao lado do mistério sem deixar-se penetrar por ele. Dai que os que mais conheciam Jesus fossem os mais receosos em confiar n'Ele.

Podemos ser aqueles “católicos de toda a vida” que sabem tudo sobre Jesus, e até proclamam que é Filho de Deus, mas continuamos sem abrir-nos à sua pessoa, sem estar à escuta da sua Palavra sempre nova, sem descobrir os sinais de sua presença na vida de cada dia. Pode parecer mais fácil buscar a Deus naquilo que é espetacular, mágico e extraordinário do que onde realmente Ele está, que é, na simplicidade, no cotidiano e no normal que faz parte da vida.

É preciso muito mais do que conhecer Jesus por fora. É preciso entrar em contato com seu mistério para deixar-se ensinar por Ele e segui-lo. É necessário ser discípulo, aprofundar nossas raízes na pessoa de Jesus, conhecê-lo por dentro.

Pensando bem...

+ Será que pensamos conhecer Jesus e saber quase tudo a respeito d’Ele?

+ Estamos abertos à sua Palavra e cultivamos a amizade com Ele?

+ Somos capazes de escutar sua voz nos pobres e marginalizados?

padre Ciriaco Madrigal

 

 

Nas dificuldades reconhecer a força que está em deus

À medida que a Copa do Mundo vai caminhando para a reta final, os comentaristas esportivos vão apontando como aumenta o grau de dificuldade para cada uma das equipes classificadas para a fase seguinte. Nesta semana também ocupou espaço no noticiário internacional o resgate dos jovens tailandeses presos na caverna e também para este caso não faltaram opiniões sobre as perspectivas e os desafios de resgate e da garantia de vida de todos os envolvidos no episódio. Neste sábado, dia 07, o Papa Francisco teve um encontro com diversos líderes religioso, na cidade Bari no sul da Itália cujo centro das conversas é a preocupação com a paz no Oriente Médio e o doloroso martírio de muitos cristãos naquela região.

Todas estas situações podem ser entendidas como um “caminhar com Jesus” com todas as vantagens e desafios que esta jornada apresenta. Compreendendo todas as dificuldades da vida é possível repetir como São Paulo: “É na fraqueza que a força de Deus se manifesta, pois, quando sou fraco então é que sou forte”.  Deus que se manifestou ao longo da história não mostrou seu poder e sua força no enfrentamento e no desafio, mas na humilhação cujo ponto culminante se deu na crucificação do próprio Filho.

O profeta Ezequiel não teve medo e ousou falar a dura verdade que precisava ser dita ao povo de Israel: “Filhos de cabeça dura e coração de pedra”. E São Paulo faz uma afirmação extraordinária: “Basta-te a minha graça. Pois é na fraqueza que a força se manifesta'. Por isso, de bom grado, eu me gloriarei das minhas fraquezas, para que a força de Cristo habite em mim”. E qual é a força de Cristo se não a sabedoria que recebeu do Pai e que confundia os sábios do seu tempo.

Ontem como hoje, declarar-se seguidor de Jesus Cristo implica compreender que ser cristão é aceitar e estar sujeito a todas as fraquezas e dificuldades do mundo contemporâneo sem fraquejar ou perder a vibração e o entusiasmo. Caminhar com Jesus implica ir removendo as pedras de cada “caverna”, por meio do diálogo honesto construir jogadas confiantes que “tudo é possível naquele que é a única força” para onde se dirige o olhar confiante e se reza como no salmo de hoje: “Eu levanto os meus olhos para vós, que habitais nos altos céus. Como os olhos dos escravos estão fitosnas mãos do seu senhor”.

padre Elcio Alberton

 

 

O profeta rejeitado

Após as celebrações das solenidades de são João Batista e dos apóstolos Pedro e Paulo, nos domingos anteriores, a Igreja retoma a liturgia da Palavra própria dos domingos do tempo comum. Por isso, continuamos a ler e a meditar o Evangelho segundo Marcos, proposto para os domingos do tempo comum deste ano. Estamos hoje meditando o início do capítulo sexto (Mc. 6,1-6), contemplando Jesus em “sua terra”, a pequena cidade de Nazaré, na Galileia, onde ele cresceu e onde residia a sua família. Marcos destaca as reações das pessoas diante da pregação de Jesus na sinagoga: “ficaram escandalizados por causa dele”; não admitiam sua sabedoria e seus milagres, por considerá-lo “o carpinteiro” cuja família humilde era conhecida entre eles. Diante disso, temos as duras palavras de Jesus sobre o profeta que “só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares” e que não podia “fazer ali milagre algum” pela “falta de fé deles” (Mc. 6,5s). Entretanto, a rejeição em Nazaré não impede Jesus de continuar a cumprir sua missão de anunciar a Boa-Nova. Ao contrário, o relato proclamado hoje apresenta, no seu início e no seu final, Jesus “ensinando”.

A rejeição sofrida pelos profetas, mencionada por Jesus, encontra-se exemplificada em Ezequiel, cuja vocação é recordada na primeira leitura (Ez 2,2-5). Ele é enviado a “rebeldes que se afastaram” de Deus, que “se revoltaram” contra Deus, a gente de “cabeça dura e coração de pedra”. Contudo, é ressaltada a iniciativa de Deus, que o envia e sustenta na missão profética.

Na segunda leitura, meditamos o testemunho de São Paulo, que além das perseguições sofridas, refere-se à sua própria fragilidade, aos obstáculos de sua condição pessoal, testemunhando que “é na fraqueza que a força se manifesta” (2Cor. 12,9). Paulo experimenta a força de Cristo nele agindo em meio a “fraquezas, injúrias, necessidades, perseguições e angústias sofridas por amor a Cristo” (2Cor. 12,10). Por isso, jamais desanima diante dos desafios enfrentados, mas prossegue confiante na graça de Deus, que faz crescer aquilo que ele e outros apóstolos plantaram e regaram.

Hoje, em muitas situações, Jesus Cristo continua a ser rejeitado, assim como aqueles que ele envia em missão. Ninguém deve se deixar abater perante as incompreensões e críticas ofensivas que sofrer por causa da fé em Cristo e de sua participação na Igreja. Cada cristão é chamado a permanecer fiel e a dar testemunho corajoso de sua fé, perseverando na Igreja e sendo “sal da terra” e “luz do mundo”, conforme nos recorda o Ano nacional do laicato.

dom Sergio da Rocha

 

 

Um profeta só é desprezado na sua pátria. “Não é ele o filho do carpinteiro?”

O texto do Evangelho deste 14º domingo do tempo comum relata que Jesus foi a Nazaré sua cidade natal acompanhado pelos discípulos e na sinagoga explicava a Sagrada Escritura. O povo comentava dizendo: “Não é ele o filho do carpinteiro? Seu pai não é José e sua mãe Maria?” Jesus passou pela experiência de ser discriminado por ser filho de um humilde carpinteiro. Essa rejeição por parte de seus compatriotas é uma antecipação do calvário no fim de sua vida pública. Alguns diziam: “Como conseguiu tanta sabedoria? E os milagres que realiza?” Jesus ficou triste ao ver que as pessoas de sua comunidade procuram desqualificar seu ensinamento e disse: “Um profeta só não é estimado em sua pátria” (Mc. 6,4). Vejamos: Jesus tinha vivido durante longos anos em Nazaré de maneira simples. A simplicidade era uma característica dos habitantes daquele pequeno e esquecido vilarejo. Em momento algum os nazarenos tinham se importado com Jesus. Bastou assumir a postura de profeta para ser logo questionado. Eles percebiam seus milagres e sua sabedoria, mas recusavam-se a aceitar a grandeza de Deus presente em alguém que tinha saído do meio deles. Não foram capazes de perceber Jesus com os olhos da fé – viram-no apenas com os olhos humanos. Jesus era sim o filho do carpinteiro, mas era também o Filho de Deus que por vontade do Pai tinha assumido nossa natureza humana. Mais de dois mil anos se passaram e ainda existem pessoas com dificuldade de assumir a realidade da divindade de Jesus. Quantas hipóteses esdrúxulas sobre onde Jesus teria passado os primeiros trinta anos de sua vida. Ora, sabemos perfeitamente que Ele os passou como qualquer outro jovem de sua geração – em uma família e comunidade. Em virtude da falta de fé daquela gente, Jesus não pode fazer ali milagre algum. Os milagres não são gestos espetaculares para os curiosos, os milagres não se realizam num clima de mera curiosidade ou de incredulidade. Cheios de preconceitos aquela gente não aceitou Jesus nem como profeta, nem como enviado de Deus. Sem fé não se pode falar em milagre. A liturgia de hoje nos ensina que para aceitar Jesus é preciso vencer o preconceito e a nossa falta de fé. Pense nisto e tenha uma semana abençoada com Jesus no coração.

Pedro Scherer

 
 

1. “Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares” (Mc. 6,4).

O profeta, ou seja a pessoa que si disponibiliza para levar a Palavra de Deus nos ambientes e circunstancias da vida, deve aprender a conviver com as incomprensões sobretudo na própria realidade existencial. Parece ser este o tema central das leituras de hoje.  Porque esta incompreensão entre familiares parentes e amigos? Porque não conseguimos ser credíveis entre eles? A resposta mais imediata é que, talvez, eles não aceitam a nossa mudança, também porque a nossa mudança questiona a vida deles. De fato, se pensarmos atentamente naquilo que aconteceu na época da nossa conversão, as pessoas que mais nos pressionaram, que mais nos criticaram eram mesmo entro as paredes de casa, ou os amigos mais próximos. Nestes momentos a tentação é desistir, recuar, voltar atrás. “será que vale mesmo a pena continuar deste jeito?”. Quantas vezes pensamos isso! As pessoas se afastam de nós, as vezes até parentes ou familiares. O problema maior, porem, é que, nestes momentos de sufoco, nós deparamos com a nossa incoerência, fraqueza, incapacidade de seguir Jesus  com mais intensidade. E, assim, começamos a questionar a nossa mesma vocação, os lindos dias em que o Senhor veio ao nosso encontro para nos chamar, nos envolver do seu amor, a querer falsificar a nossa historia, a deixar que a nossa mente imbanane tudo. São os dias em que perdemos a vontade de rezar, de buscar a Deus e ficamos o tempo todo matutando perdidos nos nossos pensamentos. É exatamente nestes momentos que Deus nos chama a mudar de pele, de identidade, a deixar o homem, a mulher velha, para nos revestir do homem, a mulher nova.

2. “Basta-te a minha graça. Pois é na fraqueza que a força se manifesta” (2Cor. 12,9).

São Paulo é um grande exemplo desta mudança de pele, de identidade. Ele percebeu que aquilo que Deus quer de nós é nos despojarmos da pseudo-força do mundo, para nos revestirmos da gloria de Deus.

“Pois Quando mi sinto fraco, é então que sou forte” (2Cor. 12,10).

Quer dizer isso? Paulo está apontando o dedo contra todo o esforço humano de esconder a própria condição de fraqueza. O homem é um bicho fraco, só que ao longo da vida, faz de tudo para disfarçar esta situação. E assim se reveste de ouro, se protege com palácios suntuosos, busca permanecer sempre jovem, ou melhor mostrar uma aparência de jovem escondendo as marcas  do tempo, e assim em diante. São Paulo, nestes poucos versículos, nos lembra que tudo isso é loucura, estultice. De fato, perante Deus não precisamos nos esconder: Ele sabe de que barro somos feitos. E assim, a verdade do nosso relacionamento com Deus está na capacidade de estar á sua presença do jeito que somos, sem esconder nada, sem tentar nenhuma forma de tapeação. Paulo aprendeu que somente quando o homem aceita perante Deus a própria condição humana de fraqueza, causada pela condição do pecado, recebe a veste da imortalidade, a graça santificante e transformante. Nós tentamos esconder a vergonha do nosso pecado com a força aparente do mundo. Se quisermos voltar a gloria da origem e tirar da nossa vida as conseqüências mortais do pecado, devemos deixar que Deus nos reveste com a vida de Seu Filho Jesus. Depois de termos aprontado, fugimos de Deus (não fizeram isso também Adão e Eva?) como se pudéssemos achar uma solução longe dele. A humildade é não teimar no erro, não piorar uma situação já por si mesma negativa, e parar para que Deus possa encher a nossa vida com a sua misericórdia. Desta maneira podemos também deparar sobre a diferente maneira do mundo e de Deus de considerar a humanidade. De um lado, o mundo exige a minha mentira, a mentira sobre mi mesmo para acolher a sua gloria aparente, que me reveste de morte (não são assim, de fato todas as experiências mundanas que fizemos?). Do outro,  Deus espera que eu me olhe do jeito que sou e peça para ser revestido da Sua mesma gloria.

3.Ligando as duas reflexões que até agora fizemos, podemos afirmar que é nos momentos de tensões, sobretudo com os familiares parentes e amigos, que não aceitam a nossa mudança, que temos a possibilidade de nos despojarmos do homem, a mulher velha, para nos revestirmos das vestes de Cristo. É nesses momentos que Deus nos oferece uma ocasião de ouro para fortalecer e amadurecer a nossa vocação. Ele pede de nós um passo ulterior, uma confiança total nele que necessita de uma rescisão, um corte radical com o passado, para que Deus possa fazer de nós, da nossa vida algo de novo, possa realizar aquilo que sempre Ele sonhou de nós e por nós. Alguém poderia retrucar que esse é um papo muito egoísta, porque devemos pensar nos nossos parentes, pais, amigos e  assim em diante.  Pelo contrario, talvez os grandes egoístas são todos aqueles que pensam de serem indispensáveis, que não confiam na misericórdia e na providencia de Deus. De fato, se é Ele que me chama, será que Ele é tão desprovido pra não saber daquilo que os nossos pais e parentes precisam, não apenas em termos materiais, mas também espirituais? Além disso, quem conhece um pouco a Escritura e a pedagogia de Deus, sabe que o chamado de Deus, não é apenas para a pessoa, mas beneficia o povo todo ( Cf. a experiência de Moisés, José filho de Jacó e assim em diante). Quem sabe que através do nosso chamado, Deus não queira alcançar os nossos familiares e amigos?

4. “E admirou-se com a falta de fé deles” (Mc. 6,6).

A fé é aceitar de entrar na realidade de Deus e abandonar a imaginação do mundo, a sua fantasia. Ser profeta incômodo, não é fazer o dizer grandes coisas: é simplesmente vier e ser do jeito que Deus quer: é isso mesmo que incomoda o mundo e até mesmo os nossos familiares. A vida cristã é um caminho de liberdade: pedimos a Deus que nesta Eucaristia podemos crescer mais neste sentido.

padre Paolo Cugini

 

 

“Levanta-te!” Era o imperativo de Jesus do último domingo. Hoje, Jesus recorda-nos que apenas reconhecendo a nossa condição e compreendendo nela a Sabedoria do olhar de Deus podemos responder-Lhe afirmamente. O Evangelho propõe-nos a sabedoria indivisível do olhar de Deus como o caminho que nos eleva à unidade de Vida.

Jesus desloca-Se a Nazaré, terra natal da Sua mãe e onde cresceu (Mc. 1,9). Nazaré era uma normal e simples localidade. Nem o AT, nem Flávio Josefo ou os escritos rabínicos fazem referência a Nazaré, e alguns judeus do tempo de Jesus desvalorizavam-na (Jo. 1,46). Porém, foi em Nazaré que Deus anunciou o nascimento do Seu filho e aí Jesus quis viver e transformar com a Sua vida aquela simples terra. Jesus participa humildemente na oração na sinagoga em Nazaré, e como qualquer outro judeu habilitado, lê e comenta as Escrituras.

A reação dos membros da sinagoga foi especialmente negativa. Se na sinagoga de Cafarnaúm, por exemplo, os judeus maravilharam-se e reconheceram a autoridade de Jesus (cf. Mc. 1,21-28), aqueles de Nazaré questionam-nO e não acreditaram n’Ele. Se em Cafarnaúm Jesus encontrou fé e libertou um homem de um espírito imundo, em Nazaré encontrou homens fechados em si mesmos e prontos a questionar: “De onde Lhe vem tudo isto? Que sabedoria é esta que Lhe foi dada e os prodigiosos milagres feitos por suas mãos? Não é ele o carpinteiro, Filho de Maria, e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão?

O Evangelho deste domingo esclarece-nos uma questão essencial: donde vem a sabedoria de Jesus? A resposta é simples: Jesus vive totalmente do Pai. O Seu olhar é o olhar do Pai, o Seu saber é o saber do Pai. Jesus vive da Luz do olhar do Pai que O orienta e anima. Jesus vive em constante contemplação com o Pai, quando se apresenta aos homens como o Caminho, apresenta o Seu Caminho para o Pai; quando se oferece como o Pão da Vida oferece a Vida do Pai que O sacia; quando olha, olha-nos com o olhar que recebe do Pai. Essa é a Sua autoridade que O anima e com a qual quer encher o mundo.

Outra questão se coloca: como posso viver a sabedoria que Jesus nos oferece? A autoridade assumida e oferecida por Jesus não se baseia nos livros, nas universidades, nos títulos, nas proveniências, ou nas tradições. Jesus, sem desvalorizar essas mediações, oferece-nos a raiz do saber: a indivisibilidade daquele que tudo recebe e dá no olhar do Pai. A autoridade vivida e oferecida por Jesus é o olhar do Pai, o Seu olhar indiviso, puro, autêntico. O olhar do Pai é pleno em Jesus e n’Ele quer elevar-nos à plenitude do saber.

Apenas o olhar de Deus nos pode realizar, consolar, purificar. Apenas o Seu olhar nos pode ensinar, santificar, e unificar, unificar as nossas ambiguidades, devaneios, o mal que nos persegue, o passado que recebemos do mundo, os pecados passados. Apenas unificados pelo olhar do Pai podemos compreender a nossa condição e contemplar com o Seu olhar cada homem como irmão. Deus é Pai de todos e todos quer congregar na sabedoria do Seu olhar de Amor indiviso.

O primeiro passo para acolher a sabedoria do olhar de Deus é o reconhecer a nossa condição. Assim com um bebé nasce para receber o olhar no regaço de sua mãe, assim cada homem nasceu para viver do olhar materno de Deus. Deus criou-nos e formou-nos frágeis e destinou-nos o Seu olhar de Amor. Apenas o Seu olhar nos pode realizar, sem Ele somos cegos no mundo, sedentos de Amor. Nós fomos destinados a viver do olhar amoroso de Deus que nos criou, o olhar que é o vínculo de unidade do nosso ser e dos seres entre si.

A nossa condição não é prisão, maldição, nem fatalismo. São Paulo clama: “alegro-me nas minhas fraquezas, nas afrontas, nas adversidades, nas perseguições e nas angústias sofridas por amor de Cristo, porque, quando sou fraco, então é que sou forte.” O homem que reconhece a sua condição reconhece a sua grandeza, pois é exatamente aí que Deus opera as Suas maravilhas, para as quais nos destinou desde a criação.

Aquele, como alguns dos membros da sinagoga de Nazaré, que ignora a sua condição e fecha-se à ação de Deus, não experimenta a grandeza à qual foi destinado. Quantas ilusões, fantasias, e projetos nossos, nos iludem com grandezas que nos conduzem ao fracasso? A lógica de Deus é outra. Deus recorda-nos a nossa condição e nela oferece-nos a sabedoria que nos realiza. O mundo ilude-nos com as grandezas e conduz-nos ao fracasso, pois ignora a sabedoria criativa do amor. Deus, que nos criou e criou o mundo, esclarece-nos acerca da nossa condição e nela quer-nos elevar a nossa grandeza.

Um generoso homem quis desfrutar e oferecer aos seus amigos de sempre uma bela viagem. Reservou as melhores pousadas, programas, restaurantes, e alugou um belo carro. Ignorando o tipo de combustível, encheu o carro de gasolina. Enganou-se! O carro rapidamente deu problemas. Aquelas férias pareciam condenadas, pois o carro parou! Para prosseguir viagem, depois de se aperceberem do erro, retiraram toda a gasolina e colocaram o combustível ajustado! Nos nossos belos propósitos, se não reconhecemos a nossa condição, se não nos esvaziamos daquilo que não serve, senão recebemos aquilo que nos move e faz mover, estaremos sempre avariados, a empatar o trânsito, e a protestar! Viveremos dum alimento que não nos sacia nem serve!

O passo para acolher a sabedoria do olhar de Deus completa-se quando o homem descobre na sua condição o desejo da sabedoria destinada a realizá-lo. Essa sabedoria encontra-se, desvela-se, clarifica-se no olhar, olho nos olhos, entre Aquele que nos criou, e desde sempre nos ama e contempla, e o homem, criado e destinado a viver do Seu olhar.

A contemplação é escola do sábio, que no silêncio escuta a Palavra, no eterno saboreia o presente, no perdão oferece a comunhão, no amor se entrega. É o próprio Senhor que nos diz: “Basta-te a minha graça, porque na fraqueza manifesta-se todo o meu poder.” Aquele que contempla Deus, passo a passo, cresce na sabedoria, pois vive do olhar sábio de Deus que chama continuamente à Sua verdade.

O encanto na nossa vida é medido pela nossa fé. Jesus sempre caminhou animado pelo olhar do Pai, e assim nos chama a caminharmos. A sabedoria que do pequeno faz grande, a sabedoria que da fraqueza faz grandeza, na humildade transforma a história. Ainda prevalece a guerra na terra de Jesus e no mundo. Deus, como naquela tarde na sinagoga, admira-Se da ignorância e contradição dos homens que recusam a sua condição de viver do olhar do único e mesmo Amor e persistem em viver dos olhares do terror, do medo, do olhar que dispersa e não congrega, do olhar que mata e não dá vida.

Jesus apresentou-Se e chama-nos a sermos profetas no mundo. O profeta é aquele que reconhece a sua condição humana e dirige o seu olhar para o Amor e oferece-o à humanidade. O profeta vive do Espírito de Deus que o levanta e envia ao mundo rebelde, revoltado contra o Amor, duro e obstinado de coração. O profeta haja o que houver não deixa de olhar face a face o Amor que o move.

O profeta tem os seus olhos postos no Senhor e em cada manhã e ocasião levanta os seus olhos ao Amor e n’Ele fixa o seu olhar. O profeta diz não à arrogância e ao desprezo dos duros de coração. O profeta é humilde como Jesus que sendo Deus cresceu e rezou na humildade com os seus. O profeta é humilde no ser, recebe tudo da contemplação do Pai, e dá-lo na mesma medida à humanidade.

frei Bernardo

 

 

Seguimos com a nossa reflexão dos domingos, não esquecendo que aqui na Europa estamos no verão, isso significa que é tempo de férias, mais longas que as nossas do Brasil nesta época, porém, não deixa de ser um tempo para apropriado para descansar, para sair da rotina, para estar mais perto da família e dos amigos, deixando de lado tudo aquilo que provoca stress psicológico, mental, pessoal ou laboral: assim podemos desfrutar destes dias como dias oportunos para uma renovação do corpo e da mente, mas não olvidemos que também serão dias para renovar a vida espiritual.

A liturgia deste 14º domingo de tempo comum nos apresenta um contraste bastante distinto do que já ouvimos na semana anterior: Jesus estava em Cafarnaum, ali Jesus realizou dois milagres: o primeiro era de uma mulher que já por 12 anos padecia de um fluxo de sangue e já tinha buscado todas as alternativas para se curar, porém, a graça, a cura somente acontece quando ela deixa de lado a lei do Antigo Testamento e abraçar a nova lei que sai de Jesus, assim ela conseguirá voltar a ter uma vida normal. O segundo milagre foi à cura da filha de Jairo, um dos chefes da sinagoga. Que ao vencer todas as dificuldades para salvar a sua filha, a sua fé fui suficiente para que Jesus realizasse a obra da salvação.

A história continua, mas desta vez muda o cenário, “depois, Jesus partiu de Cafarnaum e foi para a sua pátria”, Nazaré. Tal como nos relata o evangelho de hoje (Mc. 6,1-6), Jesus está na sua cidade, está com a sua gente. Todos já lhe conhecem desde a infância. Todos lhe viram crescer, jogar pelas praças e ruas de Nazaré. Conhecem os seus pais, Maria e José. A pesar de tudo, não deixava de ser uma pessoa estranha: “muitos dos que o ouviam se admiravam.“ De onde lhe vem isso?”, diziam. “Que sabedoria é esta que lhe foi dada? E esses milagres realizados por suas mãos? Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria, irmão de Tiago, Joset, Judas e Simão? E suas irmãs não estão aqui conosco?” E mostravam-se chocados com ele” (vs. 2-3). Olham para Jesus com inveja e ciúmes. É o que mais ocorre nas penas cidades e povoados onde todos se conhecem.

O que Jesus realizava, era causa de escândalo e consequentemente não acreditaram n’Ele. Porque esperavam outro Messias, Jesus era muito populista, humilde e preocupado com aqueles que eram considerados os impuros e pecadores da sociedade. A incredulidade sempre esteve presente no meio público e social, seja daquele tempo ou nos nossos dias. A fé acaba se tornando incômodo e exigente. O que Jesus pregava não era o que aquela gente esperava, e muitas vezes acontecem o mesmo quando Igreja fala e é alvo de crítica, porque causam certos descontento social e político, este tipo de reação é uma forma de poder controlar a Igreja.

Jesus se sente desprezado, tal como acontece na atualidade com a comunidade eclesial, que constantemente é alvo de ataques pelos MCS. O desprezo para com Jesus acabou gerando por boca do próprio Jesus uma grave consequência: “‘Um profeta só não é valorizado na sua própria terra, entre os parentes e na própria casa’ E não conseguiu fazer ali nenhum milagre, a não ser impor as mãos a uns poucos doentes. Ele se admirava da incredulidade deles. E percorria os povoados da região, ensinando” (vs. 4-6). O povo de Nazaré não aceita, consequentemente por aquilo que ensinava, porque esperavam outro estilo de Messias. Jesus não era como eles esperavam, não encaixava com os seus pensamentos legalistas, não era um pensador que explicava uma doutrina, porém, ele era o enviado, o ungido que somente comunicava a sua experiência pessoal de Deus como Pai e ensinava a viver sob o signo do amor incondicional. Não é um líder autoritário que impõe o seu poder para tirar proveito á custa dos mais frágeis, mas uma pessoa que passou pelo mundo fazendo o que é bom, como já manifestava no domingo passado, curando e aliviando o sofrimento daqueles que com fé abrem seus corações e as suas vidas á ação salvadora de Deus.

Con este pensamiento ya podemos entender que a Jesús no se le puede entender desde fuera. Hay que entrar en contacto con él. Dejar que nos enseñe cosas tan decisivas como la alegría de vivir, la compasión o la voluntad de crear un mundo más justo. Dejar que nos ayude en la presencia amistosa y cercana de Dios. Cuando uno se acerca a Jesús, no se siente atraído por una dotrina, sino invitado a vivir de manera nueva.

Porém, o povo da antiga aliança não fica atrás, tal como vimos na primeira leitura do profeta Ezequiel (2,2-5) que partilhou com o povo o desterro e ali notou que este povo continuava ‘com a cabeça dura e com o coração insensível’ (v. 4) ao não aceitar a mensagem da vida e da renovação, ao mesmo tempo Deus alertava a Ezequiel dizendo que este povo não iria fazer caso dele, porque ainda estavam fechados interiormente.

Votando uma vez mais ao Novo Testamento, encontramos outro personagem. Paulo na segunda leitura (2Cor. 12,7-10) descreve com toda liberdade a sua natureza humana, assumindo a sua matéria frágil, sem medo das consequências. A pesar de tudo, não perde a confiança naquele que o chamou e enviou a pregar uma mensagem de restauração. Somente assim Cristo manifestará na sua vida.

Diante deste panorama bíblico, podemos dizer que somos sementes e que devemos lançar-nos sem medo nos diferentes terrenos, sejam quais sejam, ou como sejam, e a pesar que não dêem frutos ou não sejam capazes de assumir com humildade ou de abrir a sua vida, o seu coração ou a sua história á proposta d’Aquele Homem que passou pelo mundo fazendo o que era bom e que hoje passa no meio das nossas realidades realizando o mesmo, porém de forma diferente, agora somos nós que levamos a este Jesus, Ele conta com cada um de nós. Para isso devemos cuidar e fazer crescer a nossa fé e não fechar às portas as necessidades dos demais.

padre Lucimar, sf