É difícil aceitar o projeto de Deus

É são Paulo numa das suas cartas que afirma querer o bem que não é capaz de fazer e odiar o mal que acaba por realizar. Poderia dizer-se que esta é a síntese da Liturgia deste domingo, uma vez que nos três textos aparece o projeto de Deus que, nas diversas circunstâncias, os humanos não são capazes de levar a bom termo. É isto que acontece com o profeta Ezequiel quando, ao chamá-lo, Deus lhe diz que é enviado a um povo rebelde. De fato, o próprio Povo de Deus tinha muita dificuldade em ser fiel ao que Deus lhe pedia (1ª leitura). Quando Jesus entra na sua cidade de Nazaré, e se encontra com os seus concidadãos na sinagoga, todos se admiram com a sua doutrina e com os milagres que fazia. Porém, não aceitavam as orientações que Ele propunha. Isto levou Jesus a dizer que ninguém é profeta na sua terra (Evangelho). Finalmente, até o próprio Paulo Apóstolo sente o “aguilhão da carne”, isto é, as tendências para o mau agir, inclinações contra as quais lutou a vida inteira para ser fiel ao projeto de Deus (2ª leitura).

1. Vocação e missão de Ezequiel

Ezequiel é chamado por Deus para transmitir ao povo as suas mensagens. É a vocação do profeta, o que o levará a falar em nome de Deus a um povo marcado por um grande sofrimento, mas também com dificuldade de aceitar as exigências de Deus. A missão de Ezequiel não é fácil porque vai dirigir-se a um povo rebelde. Aliás, quer no caminho do deserto, depois da libertação do Egito, quer no tempo do cativeiro, na Babilônia, foi sempre frequente o povo revoltar-se contra Deus. É a tentação do regresso ao Egito ou a sensação de abandono como se Deus estivesse longe, é sempre a rebeldia de um povo que quer Deus ao seu serviço. A missão pacificadora de Ezequiel pretende reconquistar o Povo de Deus para o projeto do seu único Senhor. Ezequiel será profeta da esperança mas com a dureza das palavras essenciais para vencer a rebeldia do Povo.

2. Ninguém é profeta na sua terra

Em Nazaré, Jesus estava na sua terra. Todos o conheciam. Tinham acompanhado a sua vida até aos 30 e tal anos. Conheciam a sua família, a sua profissão, os seus amigos. Foi então uma surpresa vê-lo falar na sinagoga. São Lucas no seu Evangelho dirá qual foi o tema do seu discurso: o Espírito Santo ungiu-O para dar a Boa Nova aos pobres (cf. Lc. 4,18). A mensagem é muito exigente, por isso, pela dificuldade em aceitá-la, os cidadãos de Nazaré preferem calar o profeta, afastá-l’O da cidade, porque a sua palavra era incomoda. Jesus então, afastou-se apenas com um lamento “ninguém é profeta na sua terra”. Curiosamente, nem milagres ali quis fazer. Seria sempre incompreendido.

3. Um espinho na carne

Muito se tem discutido sobre o aguilhão na carne de que fala são Paulo. Em última análise, ele, simplesmente, reconhece-se como pecador. E é na sua luta contra o pecado que este seu grito se situa. Paulo vai ao ponto de considerar as razões do seu sofrimento, as fraquezas, as afrontas, as adversidades, as perseguições, as angústias, todo um rol de coisas que o perturbam e que o não deixam entregar-se completamente ao projeto que Deus reservara para si. Confia porém, sempre, quer na misericórdia de Deus para perdoar, quer na força de Deus para o ajudar a vencer. A vida de Paulo é, então, uma luta constante para atingir a perfeição sempre inacessível. É neste contexto que Paulo acaba por dizer: “quando sou fraco, então é que sou forte” (2 Cor. 12,10). A história de Paulo, como a história dos concidadãos de Nazaré, ou a história do Povo de Israel, tudo revela a dificuldade do homem em aceitar incondicionalmente e com alegria o projeto de Deus.

monsenhor Vitor Feytor Pinto

“Revista de liturgia diária”

 
 

"Apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos"

Domingo do profeta Jesus na sinagoga de Nazaré. O domingo é nossa Páscoa semanal em que celebramos a festa da vida que vence a morte. Celebramos a fé naquele que se encarnou no seio de Maria, fez-se homem, sofreu, foi morto, sepultado e ressuscitou. Entramos em comunhão com Ele, assumindo nossa história humana com todos os riscos: indiferença e rejeição, injúrias, perseguições e angústias.

Hoje somos chamados a passar da morte para a vida, comprometendo-nos a agir com mais generosidade para realizar a vontade do Pai na terra, tão bem como no céu.

Celebramos a Páscoa de Jesus que experimentou a rejeição em sua própria terra, de seu próprio povo e, hoje, continua rejeitado na vida de tantas pessoas marginalizadas e excluídas da vida social, política e até de nossas comunidades.

Recebemos, ó Deus, a tua misericórdia no meio da tua casa. Teu louvor se estende, com o teu nome, até os confins da terra. Toda a justiça se encontra em tuas mãos (Salmo 48,10-11), antífona do canto de abertura de hoje.

Primeira leitura - Ezequiel 2,2-5

"Que ouçam ou não, saberão que há um profeta entre eles". A primeira leitura faz parte da longa narrativa da vocação de Ezequiel (capítulos de 1 a 3). Dominado pela magnífica visão da glória divina, o profeta estava prostrado por terra. Ma a voz de Deus lhe ordena que se ponha de pé para ouvir o encargo da missão (2,1). Ezequiel sente-se invadido e dominado pela força do Espírito de Deus (cf. 3,12.24; 8,3; 11,1), à medida dos juízes (Juízes 14,6.19; 15,14) ou dos antigos profetas, Elias (1Reis 18,12; 2Reis 2,16) e Eliseu (2Reis 2,15). Como os profetas que vieram antes de Ezequiel, ele tem consciência clara de ser um enviado de Deus.

Diante de um povo insensível, rebelde, "cabeça dura e coração de pedra (2,4), Ezequiel deverá se apresentar como encarregado de uma missão divina ("tu lhes dirás") a ser autenticada com a fórmula "oráculo do Senhor Deus".

Esta leitura nos mostra que Deus sempre envia profetas para nos chamar à conversão, mesmo quando não queremos escutá-los. A atividade de Ezequiel pode ser situada entre 593-571 a.C., período de dificuldades e sofrimentos para o povo de Deus exilado na Babilônia. Em ambiente difícil e hostil, ele precisa manter lucidez profética. Sua missão é dramática: está junto ao povo, mas não deve dizer palavras agradáveis. É chamado de "filho do homem", o que significa que pertence à frágil raça humana. Ele nada mais é que um homem, um servo.

Ezequiel caído, prostrado como todo povo exilado, recebe o espírito de profecia que o põe de pé e lhe permite discernir em meio a situações difíceis e obscuras o que Deus fala. Gostando ou não, deve ser porta-voz de Deus no meio do povo. Profeta não é diplomata. Sua missão tem duplo sabor: experimenta a doçura do mel que brota da Palavra de Deus, mas esta mesma Palavra lhe causa a amargura. Deve proclamá-la, sendo aceita ou não, oportuna ou inoportunamente, mesmo rejeitado.

Ser profeta é por em risco a própria vida. Para ele não há previsão de elogios e aplausos. O exílio da Babilônia não foi fruto do acaso, como não o é a miséria, a dependência e a opressão em que vive o povo hoje. O sofrimento de muitos era responsabilidade da elite que também se encontrava na Babilônia: a "nação de rebeldes, filhos de cabeça dura e coração de pedra" (2,4). Ela se torna surda aos apelos que Deus faz por meio de Ezequiel. Mesmo sem ser ouvido, o profeta é um sinal de que Deus não abandona seu povo.

Ezequiel, a exemplo dos demais profetas, tem certeza de ser um enviado de Deus. Quando fala não o faz por interesse pessoal, mas por imperativo divino. Como outros profetas foi por isso rejeitado e incompreendido (Ezequiel 33,30-33; cf. Isaias 6,9s; 28,9-22; Jeremias 11,19-21), pois a pretensão de falar em nome de Deus é sempre vista com desconfiança por parte das pessoas. Teve que denunciar o pecado e anunciar o castigo (Ezequiel 4-24), e depois reanimar o povo abatido (Ezequiel 37), na certeza de que o Senhor estava com ele. Teve que lutar sozinho contra a correnteza da opinião pública, acostumada a ouvir as palavras agradáveis dos falsos profetas, anunciadores de uma segurança ilusória (Ezequiel 13). Só com o passar do tempo, quando os fatos históricos dessem razão (Ezequiel 24,25-27; 33,21-22) para Ezequiel, é que o povo "ficaria sabendo que houve um profeta entre eles" (2,5).

Como aconteceu com Ezequiel e outros profetas, haveria de acontecer com Jesus. Também Ele foi investido pelo Espírito no momento do seu batismo no Jordão para anunciar a Boa-Nova do Reino. Os primeiros a rejeitá-Lo foram seus próprios conterrâneos de Nazaré (cf. Marcos 6,1-6). Somente após a sua morte e ressurreição é que a figura de Jesus de Nazaré seria reabilitada.

Salmo responsorial 122/123,1-4

Este salmo data, sem dúvida, dos tempos que se seguiram à volta do Exílio da Babilônia ou da época de Neemias, quando a comunidade renascente era alvo do desprezo e dos ataques pagãos (cf. Neemias 2,19; 3,36). É uma súplica coletiva. É o povo todo ("os nosso olhos", "de nós") que clama ("compaixão de nós", "estamos fartos", "nossa vida"). Clamando a Deus, pedindo compaixão diante de algo que atingiu toda a comunidade.

O rosto de Deus no salmo 122/123. Deus aparece em dois momentos. É apresentado como Senhor do povo, mas um Senhor que, em lugar de dar ordens mudas, atende com respostas de compaixão, traduzida em liberdade e vida. Sua característica  mais importante neste Salmo é, de fato, a compaixão pelo povo, farto de miséria e desprezo dos grandes.

Lucas é o evangelista que gosta de apresentar Jesus e o Pai compadecendo-se (Lucas 7,13; 15,20). Se no Salmo o povo não reclama inocência, confessando a própria culpa com o olhar que pede compaixão, Jesus se apresenta como Aquele que conhece o que há dentro das pessoas e, por isso, perdoa pecados (Lucas 7,36-50; Marcos 2,5). Jesus atendeu a todos os clamores, de uma pessoa ou de várias. Não tratou os seus como servos, mas como amigos (João 15,14-15).

O Salmo 122/123 é expressão do povo cheio de sofrimento e de desprezo. Contudo, em vez de abaixar a cabeça e o olhar, está com os olhos fixos em Deus, até que dele se compadeça. É uma oração coletiva de pedido de socorro.

Cantando este salmo na liturgia desse Domingo, apresentemos ao Senhor o sofrimento de todos os oprimidos da América Latina e do mundo.

Segunda leitura - 2 Coríntios 12,7-10

Talvez ninguém recebeu tantos dons extraordinários como Paulo. Em vez de revelar o seu mundo divino, detém-se em seu mundo humano e fraco. No versículo 5 ele distingue dentro dele dois homens: - o cristão que é divino e se apóia na união vital com Cristo, e - o humano, com suas debilidades. Afirma que poderia gabar-se das revelações divinas, mas prefere se engrandecer de suas fraquezas, que são coisas próprias (vs. 5-6). Além disso, declara algo importante: perante seus privilégios, para não cair na soberba, como contrapeso, foi-lhe posto um como espinho na carne. Segundo os exegetas, tal "espinho na carne" seria uma referência a uma enfermidade corporal que o fazia sofrer de modo exagerado, física e moralmente, impedindo-lhe o bom desempenho de sua missão apostólica; muito se escreveu e pouco se pode afirmar sobre a natureza dessa doença: febre? oftalmia? ataques de nervos? Parece tratar-se da mesma doença de Gálatas 4,13-14. Padres da Igreja, seguidos por modernos, julgam ver ai claramente as perseguições que Paulo passou.  Há quem sugere que o "espinho na carne" significa até as tentações da carne. Todas são posições justificáveis.

Para Paulo, somente a fraqueza exterior desvenda a natureza profunda de sua missão. Por isso, prefere ver a garantia desta última nos mensageiros de Satanás e no espinho da carne (vs. 7-9), que provavelmente também simboliza a inimizade dos falsos irmãos (sentido desta expressão está em Números 33,55; Josué 23,13; Ezequiel 28,24).

O verbo "esbofetear" significa humilhação, desprezo, visando prevenir da vaidade. Paulo pediu por bem três vezes ao Senhor - como Jesus no Getsêmani (cf. Mateus 26,44) - que lhe tirasse o vexame (v. 8). Ele ora "ao Senhor", a Jesus glorioso, cheio de poder sobre as potencias do mal (Mateus 12,29; Colossenses 2,15). Assim Paulo e a Igreja rezam a Cristo, coisa pacífica para nós hoje. Porém nem sempre foi assim: nos primórdios da cristandade, a oração era dirigida de preferência a Deus Pai, sem excluir Jesus Cristo, por isso que os cristãos são os que invocam o Nome do Senhor Jesus Cristo (Atos 9,14) e a Igreja é a comunidade dos que suplicam ao Nome de Nosso Senhor Jesus Cristo (1 Coríntios 1,2).

Esta leitura mostra-nos o que ampara o discípulo de Jesus em sua missão. Paulo experimenta um "espinho na carne"; conflitos que quem segue Jesus encontra e enfrenta dentro e ao redor de si mesmo. Por dentro a pessoa se sente repleta de fraqueza e de necessidades. Por outro lado, já os conflitos que vem de fora: "fraquezas, injúrias, perseguições e angústias sofridas por amor de Cristo".

"A você, basta a minha graça". Nasce, assim, uma espiritualidade do conflito, uma mística que descobre Deus não no sucesso, mas justamente no aparente fracasso de pessoas e projetos, pois o próprio Deus se manifestou vitorioso no suposto fracasso de Jesus na cruz. É uma presença que é graça, força, dinamismo. "Quando sou fraco, então é que sou forte", porque o que o amparo na missão é a graça de Deus.

Evangelho - Marcos 6,1-6

Na passagem de uma viagem missionária, Jesus passa por Nazaré, a cidade de sua família. Toma a palavra no dia de sábado na sinagoga, segundo as regras admitidas então para a homilia da segunda leitura (Lucas 4,16-30), mas só recebe desprezo e recusa.

Na época, a liturgia da sinagoga estava centrada em duas leituras. A primeira, tirada da lei (Pentateuco), era lida e comentada por um doutor da lei; a segunda, de origem mais tardia, devia ser tirada dos profetas e podia ser lida e comentada por qualquer pessoa que tivesse pelo menos trinta anos de idade. Ora, Jesus acaba de celebrar seu trigésimo aniversário e, por isso, reivindica o direito de ler e comentar a segunda leitura. Portanto, seu primeiro discurso público é uma homilia litúrgica (cf. Lucas 4,16-30).

Sua própria família recusa-lhe confiança que Ele reclama (v. 4; cf. João 6,44, a referencia aos seus parentes é própria de Marco).

Os judeus indicam aqui Jesus com o termo de "filho de Maria" (v. 3), modo de falar que faz referencia  a um nascimento ilegítimo. Maria teve que sofrer estes enganos (cf. o sentido a ser dado talvez a Lucas 2,35) e freqüentemente ausentou-se de Nazaré, precisamente no momento de sua gravidez (Lucas 1,56); Mateus 2,21-22). Ser Mãe do Messias não é apenas um privilégio: Maria aprende a carregar a injúria como Jesus aprende a carregar a cruz.

O evangelista apresenta uma teologia da missão da comunidade e da Igreja à qual ele pertence e para a qual ele escreve. A atividade missionária da década de sessenta e setenta depois de Cristo é revista e interpretada à luz da pregação e da sorte de Jesus. O evangelista mostra que Jesus continua presente na pregação do Evangelho em todos os tempos.

"Ficaram espantados". Significa ferir, chocar, espantar e até ficar fora de si. Isto significa que a figura de Jesus e a doutrina dele questionam a assembléia e exigem uma tomada de posição. Pode ser uma posição a favor ou contra Ele, mas exclui-se uma atitude neutra.
Ora, a própria liberdade da fé supõe a ambigüidade da personalidade de Jesus. E esta ambigüidade não se separa pelo fato de que Ele é Deus e homem ao mesmo tempo. A sua humanidade esconde e ao mesmo tempo revela a sua divindade. Marcos em sua teologia quer dizer assim: quanto mais a divindade se esconde por trás da humanidade de Jesus tanto mais ela se revela.

O que o evangelista fez para o seu tempo e ambiente é tarefa contínua da Igreja: rever sua caminhada e sua missão à luz do Evangelho e da memória de Jesus. A religião cristã não consiste em construir e manter uma fachada que enfeita o nosso mundo com recintos sagrados e sinais religiosos e cristãos, nem em varias o ritmo da vida com certas celebrações esotéricas e manifestações públicas religiosas que deixam o próprio mundo, isto é, as pessoas e sua história sem serem atingidos com celebrações alienantes (cf. Mateus 7,21-23; Lucas 13,25-27; 6,46 e textos do Primeiro Testamento como Jeremias e contexto).

Na teologia que Marcos desenvolve entre 1,21-27 e 6,1-6 ele esmiúça bem claramente o que vem a ser a religião cristã. É entrar no processo histórico que Jesus inaugurou; é participar da sorte Dele e entrar no seu caminho, que é o do divino no humano, do sagrado no profano, do transcendente no imanente; em outras palavras é o caminho de encontrar o Reino de Deus na história e da "santificação" do mundo e das pessoas.

No início da missão na Galiléia, Jesus foi aceito com entusiasmo pela multidão que o ouvia e acolhia a Boa-Nova, principalmente entre os pobres e doentes. Mas ao mesmo tempo sofreu rejeição em sua terra natal, por parte de seus familiares e vizinhos. Seus conterrâneos esperavam um Messias forte e dominador e não podiam imaginá-lo simples carpinteiro e filho de Maria. É o símbolo da não aceitação de um povo que mata os profetas enviados por Deus.

Jesus vai a Nazaré e ensina na sinagoga. É uma visita marcada pela admiração. No início, quem se admira são os ouvintes. Porém, tal admiração não os leva à fé em Jesus, e sim à rejeição, pois vêem Nele "uma pedra de tropeço". No final desse Evangelho, é Jesus quem se surpreende com a falta de fé do povo, o que impede a realização de milagres. Fora do contexto da fé, um milagre perde o sentido. O poder da fé não se limita a curas, mas à chegada e à manifestação do Reino de Deus.

O que é extraordinário em Jesus-Messias é o fato de em nada ser diferente da pessoa humana comum: é justamente sua encarnação. O Filho de Deus se fez como qualquer um de nós, inseriu-se na história de seu povo, onde aprendeu e cresceu em humanidade. "Pois ele mesmo foi provado em tudo como nós, com exceção do pecado" (Hebreus 4,15b)

Da Palavra celebrada ao cotidiano da vida

A Palavra de Deus, neste domingo, nos faz um apelo: não depositar a nossa confiança nos grandes. Também não precisamos ter medo de nossa pequenez e fraqueza. Na trajetória de Jesus, o maior fracasso se transforma em vitória e ressurreição. Junto a Ele há lugar para os fracos. Em Cristo somos fortes. Como nos diz Paulo na segunda leitura, podemos descobrir que a nossa força pode estar escondida em nossa própria fraqueza.

Jesus fica admirado com a falta de fé das pessoas de sua terra, as quais não acreditam que Deus possa falar através de pessoas simples. A Palavra de Deus se reveste de roupagem humana e vem a nós com o auxílio da história e de pessoas frágeis, enviadas por Ele. A fraqueza humana dos enviados por Deus cria um espaço de liberdade; quem ouve pode decidir a favor ou contra. Às vezes, gostaríamos que Deus se revelasse mediante atos maravilhosos e assim evitaríamos o trabalho de discernir quando e por meio de quem Deus se revela.

Jesus se fez servo e, por isso, entra em choque com os que preferem o privilégio e o poder. A encarnação continua nos questionado.

Jesus de Nazaré foi motivo de escândalo para os que O viram com os olhos humanos. A quem não quer crer, Ele nada revela, não faz milagre nenhum. Mas a nós, reunidos na fé, Ele se revela em toda a profundidade. A celebração é momento de assumir diante de Deus as nossas fraquezas, acreditando que só o que é assumido, pode ser transformado.

A missão profética se insere numa realidade de conflitos. Hoje as fraquezas e necessidades que batem à porta de quem se dedica ao trabalho pelo Reino de Deus são o medo, diferentes modelo de igreja, insegurança, despreparo, falta de recursos materiais e humanos. Como transformar a fraqueza, a ponto de ser nela que a força de Deus se mostra perfeita?

O documento de Puebla nos fala do "potencial evangelizador dos pobres". O que podem nos dizer os pobres, os deficientes de nosso país? Aceitamos a revelação de Deus vinda na fraqueza de nossos irmãos e irmãs, na simplicidade do dia-a-dia?

A Palavra se faz celebração

A escola de Nazaré

O anúncio de Jesus continua hoje na celebração, isto é, a Palavra se faz celebração. Ele nos reúne, apesar de nossa cabeça dura e nossas limitações, para acolher com fé a sua mensagem. Dirige-nos sua Palavra e nos ensina, ainda que estejamos pouco abertos para acolher a sua Palavra de vida. Coloca-nos ao redor de sua mesa, mesmo que nossos olhos ainda estejam um tanto obscurecidos para reconhecer sua presença ao partir o pão. Nos sinais do pão e do vinho encontramos a verdadeira metáfora da rejeição de Nazaré, narrada pelo Evangelho: como pode um alimento tão cotidiano, tão simples nos transportar à comunhão com a divindade do Filho de Deus? Como um fruto trivial, esmagado e dado como bebida, tantas vezes apreciado nas mesas por puro prazer, leva-nos a realizar a nova e eterna Aliança? Os sinais da fé que nos reúnem são igualmente desacreditáveis. E, de fato, para muitos o são... Mas a fé cristã, que só pode ser compreendida segundo a dinâmica sacramental da salvação, em que Deus se dá a conhecer ao modo humano (simples, simbólico, frágil), indica-nos esse caminho: "é pela humanidade que Ele nos salva" (Constituição Conciliar Sacrossanctum Concilium, sobre a Sagrada Liturgia nº 5. Sem olhar para Nazaré e para a escola que o pequeno vilarejo significou na vida de Jesus, não entenderemos o valor da sua humanidade para a nossa salvação. O saudoso Papa Paulo VI o compreendeu: "Nazaré é a escola onde se começa a compreender a vida de Jesus: a escola do Evangelho. Aqui se aprende a olhar, a escutar, a meditar e penetrar o significado, tão profundo e tão misterioso, dessa manifestação tão simples, tão humilde e tão bela, do Filho de Deus. Talvez se aprenda até, insensivelmente, a imitá-lo. Aqui se aprende o método que nos permitirá compreender quem ó o Cristo. Aqui se descobre a necessidade de observar o quadro de sua permanência entre nós: ... tudo de que Jesus se serviu para revelar-se ao mundo.

A nossa Nazaré

Se quisermos entender quem é Jesus, façamos o caminho inverso daquele palmilhado por seus conterrâneos. Olhemos para a "nossa Nazaré", na qual o Cristo sempre se revela. Nazaré é hoje o nosso lugar, a nossa vida, a nossa cruz. Aqui Jesus se esconde a retorna para nos buscar. A fé vivida na comunidade tem a ver com essa experiência de Jesus, com esse lugar que Ele deseja ocupar. O lugar dos pequenos e dos frágeis que, segundo a norma da fé, não mais nos entristece, mas nos alegra. Com o Apóstolo Paulo, comprazendo-nos "nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições e nas angústias sofridas", assim encontraremos o caminho trilhado por Jesus e encontraremos sua força.

Ligando a Palavra com a ação eucarística

A Palavra de Deus hoje nos convida a renovar nossa adesão a Jesus, consagrando-nos mais generosamente à cauda do Reino de Deus.

Esta nossa profissão de fé nos leva a confirmar que seguimos aquele que foi rejeitado por ser trabalhador, filho de Maria, uma pessoa comum de seu tempo, vindo de uma aldeia e, por isso, motivo de desprezo e rejeição.

Movidos por essa fé, nos reunimos em assembléia celebrante onde, pela sua Palavra, Jesus nos leva a assumir nossa evidente fragilidade sem precisar mascará-la com falsa grandeza e a buscar em sua graça a nossa força. Hoje, particularmente, nossas preces precisam expressar esta realidade.

Acima de qualquer expectativa humana, o Senhor manifesta sua grandeza na singeleza do pão e do vinho, frutos da terra e do nosso trabalho. Na simplicidade da partilha entre nós, ele nos confirma no seu caminho. É em nossa fraqueza que Deus continua manifestando sua força.

padre Benedito Mazeti

 
 

"Nazaré das nossas ilusões"

É bonito quando vemos alguém famoso causando admiração, outro dia em uma festa de casamento, que acontecia em um belo salão, adentrou um artista de grande talento, contratado pela noiva, representando o Elvis Presley e era de se espantar em ver como os seus trejeitos, lembravam realmente o rei do rock, todos os convidados se aproximaram para umas fotos, as mulheres queriam acompanhá-lo na dança ousada, e até os homens se admiravam e a sua presença inusitada, surpreendeu a todos.

Quando Jesus chegou a sua “terrinha” de Nazaré, acompanhado dos discípulos, deve ter causado um verdadeiro “rebuliço”, pois a fama de suas pregações e milagres já tinha chegado por ali, e no sábado, como todo piedoso judeu, foi á celebração da palavra da comunidade, onde qualquer pessoa adulta poderia partilhar o ensinamento sobre a Palavra e Jesus, usando desse direito, começou a pregar á sua gente fazendo a homilia.

O povinho da terra nunca tinha ouvido uma pregação feita com tanta sabedoria, que superava o ensinamento dos Mestres da Lei e Fariseus, imaginemos que na comunidade, algum ministro da palavra pregue melhor do que o padre... E com o estudo teológico acessível aos leigos, isso hoje não seria novidade. Aquilo que causa muita admiração, também logo acabará despertando inveja e ciúmes.

Basta que olhemos para os nossos trabalhos pastorais, onde o carisma das pessoas não deveria jamais perturbar o coração de ninguém, ao contrário, deveria motivar um hino de louvor, por Deus ter dado a alguém um carisma tão belo, colocado a serviço da comunidade. Mas logo surgem os questionamentos maldosos: Como é que ele faz isso? Onde aprendeu? Quem o ensinou, de onde é que vem todo esse saber? Será que o padre o autorizou? (esta última coloquei por minha conta) E a admiração, contaminada por sentimentos de inveja, vai logo se transformando em desconfiança aumentando o questionamento: “Quem ele pensa que é para falar assim com a gente? Será que ele não se enxerga? E ainda tem gente que o aplaude...” Os que não gostam muito do padre, logo vão afirmar que o sujeito faz parte da sua “panelinha”, ou então, irão inventar alguma coisa para que o padre “corte a asinha” do tal.

Jesus deve ter sentido uma frustração muito grande, quando percebeu sentimentos tão mesquinhos em meio á comunidade onde cresceu e fez a sua catequese. Duvidavam da sua sabedoria, e talvez para provocá-lo, queriam que ele resolvesse algum problema da comunidade, “Se ele endireitar a comunidade, daí eu acredito”. Às vezes também nos iludimos quando queremos que alguém que fala “certos milagres”, talvez o cooperador, o coordenador do grupo, o catequista, o ministro da palavra, quem sabe o coitado do Diácono ou o Padre, que têm autoridade. Penso que na sinagoga de Nazaré foi mais ou menos assim que os fatos ocorreram, queriam jogar tudo nas costas de alguém, e como Jesus tinha fama de ser o Messias...

As pessoas, quando enxergam algo de extraordinário no carisma de alguém, começam a fazer do sujeito uma referência importante, acham que a sua oração é especial, que um toque de sua mão poderosa pode realizar curas prodigiosas, e em pouco tempo, a propaganda é tanta, que o tal não pode mais sair as ruas que é logo procurado para resolver os mais complicados problemas, inclusive de relacionamento entre as pessoas, apaziguar casais brigados, aconselhar jovens, e assim a sua palavra se torna poderosa e em conseqüência passa a ter poder religioso paralelo, e se na comunidade não houver um espaço para ele atuar, terão de criar um, pois ele precisa ser o centro das atenções.

Jesus não quis formar um grupo só para ele, para bater de frente com os Doutores da lei, escribas e fariseus, e como ele pertencia a uma das famílias do local, a ponto de sua mãe e seus irmãos serem de todos conhecidos, começaram a vê-lo como um vulgar, que nada de extraordinário tinha feito em Nazaré, para que merecesse toda aquela fama.

Na verdade, Jesus não quis assumir o papel de “Salvador da Pátria”, diferente de muitos cristãos, que se julgam o máximo naquilo que fazem, e pensam que sem eles, a comunidade estaria perdida. Essa rejeição á ele, suas obras e ensinamentos, iria se ampliar e lhe traria conseqüências muito trágicas na cruz do calvário, tudo porque suas palavras anunciavam um reino novo, que exigia uma total renovação e mudança de vida.

Quando a pregação que ouvimos, serve para o vizinho, ou para o marido ou a esposa, ou quem sabe para os filhos, ou para o chefe ou o colega de trabalho, prestamos muita atenção e vibramos, só em pensar que aquelas verdades atingem em cheio a pessoa em quem pensamos. Porém, quando a pregação toca o nosso coração e nos motiva a mudar o nosso jeito de pensar ou de agir, temos duas reações, ou reconhecemos a legitimidade da palavra e abrimos o nosso interior, para uma conversão sincera, ou então rejeitamos o pregador e passamos a querer vê-lo pelas costas.

Na sinagoga de Nazaré foi assim, e nas nossas comunidades, não é muito diferente. Quem prega mudanças de mentalidade e conduta, vai sempre arrumar uma bela de uma encrenca. Enfim, o Jesus que há dentro de nós, criado pelas nossas fantasias, ou fruto de nossas ideologias sociais ou políticas, não coincide com esse Jesus, Profeta de Nazaré, Ungido de Deus. E o pior, é que projetamos tudo isso nas pessoas que lideram a comunidade, nos cooperadores, nos coordenadores, nos ministros, nas catequistas, nos padres e diáconos e assim vai. Um dia, basta um desentendimento mais sério e o nosso Jesus idealizado “vai pro espaço” com a pastoral e o movimento.

Quanto mais somos realistas em nossa fé, mais nos adequamos á comunidade aceitando-a como ela é, quanto mais nos iludimos com o Jesus da nossa fantasia, mais difícil será vivermos em comunidade, aceitando as pessoas do jeito que elas são. Daí, como em Nazaré, nenhum milagre acontece, por causa dessa fé infantil e ilusória...

diácono José da Cruz

 
 

1 – «Um profeta só é desprezado na sua terra, entre os seus parentes e em sua casa». Tendo crescido em Nazaré, Jesus é conhecido de todos, pois é uma cidade pequena, em que todos se conhecem, são vizinhos, têm relações familiares, ao ponto de no Evangelho os Seus parentes serem referenciados como irmãos e irmãs e Ele ser conhecido como filho de Maria e de José, o carpinteiro!

Quando nos conhecemos bem uns aos outros e convivemos amiúde, é natural que não esperemos mais do que aquilo que estamos habituados a ver. A ausência de alguém durante determinado período de tempo pode alterar o conhecimento e as expetativas. Jesus tinha iniciado a Sua vida pública e antes de chegar a Nazaré já lá tinha chegado a fama de pregador, profeta e fazedor de milagres. Alguns dos seus conterrâneos, amigos e familiares vão até Ele com certa curiosidade.

Num primeiro momento, contudo, ressalva-se a admiração provocada pelas suas palavras: «De onde Lhe vem tudo isto? Que sabedoria é esta que Lhe foi dada e os prodigiosos milagres feitos por suas mãos? Não é Ele o carpinteiro, filho de Maria, e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E não estão as suas irmãs aqui entre nós?»

A perplexidade toma conta dos seus ouvintes. O texto não pressupõe qualquer atrito até ao momento de Jesus voltar à carga: «Um profeta só é desprezado na sua terra…».

2 – A sobriedade de Marcos não nos permite saber com exatidão o que terá acontecido entre a admiração inicial dos ouvintes e a reação provocatória de Jesus.

O evangelista São Lucas é mais prolixo nesta passagem. No regresso a Nazaré, Jesus vai à Sinagoga, em dia sábado. Aí, levanta-Se, entregam-Lhe o livro de Isaías onde lê a passagem: «Espírito do Senhor está sobre Mim, porque Me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres…». Jesus conclui que naquele momento se cumpre esta passagem da Escritura. E prossegue: por certo ides citar-me o provérbio «Médico cura-te a ti mesmo… nenhum profeta é bem recebido na sua pátria...». E acrescenta que Elias não foi enviado às viúvas de Israel mas a uma viúva estrangeira... e que no tempo de Eliseu, havendo muitos leprosos, só o sírio (estrangeiro) Naaman foi purificado (cf. Lc 4, 16-30).

Em Lucas, o furor da multidão parece mais razoável, ainda que não haja uma justificação cabal para "dramatização" de Jesus, a não ser pela Sua sensibilidade, pela observação cuidada dos rostos e das expressões, pela capacidade de perscrutar os corações daqueles que estão à Sua frente. Nem sempre precisamos que nos respondam com palavras para percebermos as reações, sentimentos ou emoções que provocamos nos outros, basta um olhar, um sorriso, um encolher de ombros, um franzir das sobrancelhas, a agitação de movimentos corporais...

Na conclusão, o evangelista diz-nos claramente que Jesus estava admirado com a falta de fé daquela gente e, por conseguinte, não podia ali fazer qualquer milagre, "apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos".

3 – Milagres e curas! Jesus, apesar de tudo, curou alguns doentes e prosseguiu por outras aldeias e cidades a ensinar. Questionamo-nos: então as curas não são milagres? Pelo menos são sinais de que Deus continua a agir no mundo. Porém, o verdadeiro milagre, o mais difícil é a conversão, a mudança de vida, a resiliência diante das dificuldades, a aceitação das próprias limitações e fragilidades, a solidariedade nas dificuldades, o apoio aos mais frágeis, o serviço a favor dos mais simples e pobres.

Durante a vida pública de Jesus, a começar pelos Seus discípulos, são frequentes as disputas de poder, a procura do milagre fácil, o desejo de vingança com os que estão no poder, a demarcação dos eleitos de Deus para com os estrangeiros e os impuros, a expetativa de um reino novo que se imponha pela força, substituindo o vigente. Jesus vai mostrando, pelas palavras, pelos gestos e pelas obras, que é necessário amar, trabalhar pelo alimento que perdura até à vida eterna, servir, cuidar do outro, dar a outra face, perdoar em todas as circunstâncias, dar e dar-se a favor dos outros, acolher, incluir, dar a vida! No reino que Ele inaugura, anuncia e preconiza o primeiro lugar é para quem serve!

Nem só de pão vive o homem... mas também do pão e do trabalho, do suor e das lágrimas. Logo no início, Deus deu-nos a tarefa de cuidarmos da terra. O pecado e a ganância sem limites, o egoísmo e a inveja conduziram ao pecado, ao trabalho como castigo e não, como deveria ser, como realização e vocação, como compromisso solidário por todos. Mas ficar à espera que a vida aconteça sem fazermos por isso não cabe nos planos de Jesus: dai-lhes vós mesmo de comer!

4 – Olhando mais diretamente para a nós, para a nossa vida e para o nosso relacionamento com os  outros, em que ponto a Palavra de Deus, sobretudo o Evangelho, nos desafia e compromete?

Os conhecidos, os amigos e familiares de Jesus surpreenderam-se com Ele! Com efeito, o outro é sempre um mistério, nunca o conhecemos totalmente. Não podemos dar o outro como garantido, na família, no trabalho, na profissão, nos grupos a que pertencemos. A pessoa é mistério! Em todo o caso devemos apostar, acreditar, confiar. Mas nunca endeusar. Contar que os outros podem desiludir-nos, pois não são deuses. Contar que em algum momento, por algum deslize, por algum esquecimento, poderemos magoar os outros e desiludi-los. Apesar disso, apostar, acreditar e confiar na bondade e na autenticidade dos outros, como fez Jesus, que escolhe os Seus discípulos, sabendo que pelo caminho podem falhar, mas mesmo assim escolhe-os, prepara-os, previne-os e não desiste deles, nem mesmo depois de O abandonarem, O traírem e de O negarem.

Ninguém é profeta na sua terra ou em sua casa! Todos conhecemos na família, entre os amigos, ou na vizinhança, pessoas extremamente afáveis, simpáticas, generosas para os de fora, mas verdadeiros trastes em casa, indelicadas, indispostas, rabugentas! De fora ninguém sonha. O que se passa no convento só sabe quem está dentro. Por um lado, o convívio coloca-nos mais à vontade, relaxa-nos, dá-nos segurança e confiança. E isso é bom, desde que continuemos a ser atenciosos e capazes de dizer "obrigado", "com licença", "desculpa", as três palavrinhas que fazem bem aos relacionamentos, às famílias, como tem sublinhado o Papa Francisco em diversas ocasiões. É tempo de começarmos por ser profetas na própria casa, pois não podemos ser fora o que não somos em casa. Seria uma hipocrisia tremenda. Mesmo sabendo que há momentos em que o cansaço ou as diferenças geram aborrecimentos. Mas momentos são momentos, não são o tempo todo!

5 – Entre os parentes e os conterrâneos, Jesus apresenta-Se como Profeta. Podem não O escutar, mas Ele não deixa de Se comunicar, de revelar a vontade do Pai, encarnando o Reino de Deus, nas palavras e nos gestos, no apelo à conversão, na denúncia daqueles que espezinham o pobre, e propõe a inclusão de todos a começar pelos mais desfavorecidos. Para Deus todos são filhos, também os pobres, também as mulheres, as crianças, os pecadores, os estrangeiros, os doentes, os cobradores de impostos.

Na primeira Leitura, Ezequiel é impelido pelo Espírito e, como Profeta, é enviado para o meio do povo, a anunciar os desígnios Deus. «Podem escutar-te ou não – porque são uma casa de rebeldes –, mas saberão que há um profeta no meio deles». Ezequiel tem a missão de ser mensageiro de Deus, procurando caminhos de justiça, de verdade e de reconciliação. Mas nem tudo dependerá da sua missão. Pode não transformar aqueles a quem anuncia, mas tem a missão de ser profeta, de fazer o que lhe compete. O mesmo para nós. Não nos cabe mudar o mundo todo, cabe-nos fazer o que está ao nosso alcance para que todo o nosso mundo, a nossa vida, transpareça a bondade de Deus que nos habita.

6 – Na segunda leitura, são Paulo salienta como em toda a sua jornada, não teve a vida facilitada, precisamente, confessa, para não se ensoberbecer pela grandeza da missão: o anúncio do Evangelho. Na oração pede a Deus que o livre de tais tormentos. Deus não lhe retira o sofrimento, mas garante-lhe a Sua graça, pois na fraqueza revela a Sua grandeza.

Paulo conclui dizendo que de boa vontade se gloriará das suas fraquezas, para que nele habite o poder de Cristo. «Alegro-me nas minhas fraquezas, nas afrontas, nas adversidades, nas perseguições e nas angústias sofridas por amor de Cristo, porque, quando sou fraco, então é que sou forte».

Na verdade, a grandeza e a salvação que vem de Deus tem o seu ponto mais expressivo e solene na Cruz, isto é, na aparente derrota, na humilhação e morte de Jesus. É também essa a oração inicial da Eucaristia: «Deus de bondade infinita, que, pela humilhação do vosso Filho, levantastes o mundo decaído, dai aos vossos fiéis uma santa alegria, para que, livres da escravidão do pecado, possam chegar à felicidade eterna».

O próprio Apóstolo, na primeira missiva aos Coríntios, clarifica, dizendo que «o que há de louco no mundo é que Deus escolheu para confundir os sábios; e o que há de fraco no mundo é que Deus escolheu para confundir o que é forte. O que o mundo considera vil e desprezível é que Deus escolheu; escolheu os que nada são, para reduzir a nada aqueles que são alguma coisa» (1Cor. 1,27-28).

 

 

1 – O profeta, pela sua missão, está exposto à crítica, ao boato e à perseguição. Hoje como ontem. Foi assim com os profetas de Israel, com João Batista e com Jesus Cristo, e com todos aqueles que ao longo do tempo "carregaram", com alegria e criatividade, o compromisso de viver segundo os ideais da palavra de Deus, promovendo a justiça, a honestidade, a coerência de vida, anunciando, em palavras e em obras, novos tempos, denunciando situações anquilosadas, pecaminosas, destrutivas da sociedade.

Ontem como hoje, junto dos mais próximos ou dos mais distantes, ora acarinhados e adulados, ora perseguidos e denegridos no seu bom nome, sob pressão, ameaça e chantagem, mas sempre vigilantes e fiéis à verdade, à justiça e ao bem, conscientes de serem portadores das boas notícias de Deus.

Na primeira leitura, o profeta Ezequiel fala-nos da sua vocação. É chamado por Deus e enviado a um povo rebelde, que, em terra estrangeira, no exílio, se afasta cada vez mais dos desígnios de Deus. "O Espírito entrou em mim e fez-me levantar. Ouvi então Alguém que me dizia: «Filho do homem, Eu te envio aos filhos de Israel, a um povo rebelde que se revoltou contra Mim»".

A sua missão não é nada compensadora, e nada fácil, humanamente falando. Tenta a todo o custa relembrar ao povo a sua identidade, denunciando os desvios e acalentando a esperança de regresso à terra da promessa.

2 – Por vezes é entre os nossos que somos mais mal-amados e incompreendidos. Na hora de chamar a atenção somos mais tímidos e comedidos em contextos de amizade, de família, de camaradagem, ora pela grande cumplicidade, ora pelo medo de colocarmos tensão no relacionamento com aqueles com quem contamos. Sublinhe-se, porém, que em muitas situações também nos tornamos mais repentinos, mais espontâneos, menos tolerantes para com aqueles que vivem à nossa beira.

Em sentido inverso, aqueles que se sentem mais próximos poderão pedir/exigir o que sabem não ser exigível por ninguém. Veja-se, como exemplo, as “cunhas” a que (quase) todos recorrem, a troca de influências (muitas vezes decente e honesta).

Ezequiel é enviado para o povo de onde é originário. O fato de alertar para os desvios criar-lhe-á dissabores entre os próprios familiares. Jesus vai experimentar o desconforto entre os seus. Na expectativa, porque O conhecem de pequenino, e porque pensam merecer e exigir mais, bloqueiam a mente e o coração a qualquer novidade.

“Jesus dirigiu-Se à sua terra... «De onde Lhe vem tudo isto? Que sabedoria é esta que Lhe foi dada e os prodigiosos milagres feitos por suas mãos? Não é ele o carpinteiro, Filho de Maria, e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E não estão as suas irmãs aqui entre nós?»... Jesus disse-lhes: «Um profeta só é desprezado na sua terra, entre os seus parentes e em sua casa». E não podia ali fazer qualquer milagre; apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos”.

Jesus, contudo, não deixa de pregar a Palavra de Deus e curar os doentes. Também em Nazaré, Ele quer deixar uma marca de bem, de divino, de milagre, também na sua terra Ele desafia, propõe, também aí Ele leva Deus.

3 – O Mestre dos Mestres regressa a casa, física e espiritualmente. É de casa que parte, pois é em casa que aprende a ser gente, a relacionar-se social e religiosamente, a desenvolver os laços de profunda interdependência, no diálogo tranquilo e afável, na partilha espontânea, na convivência inocente e apaziguadora, na solidariedade alegre para com os mais pobres que passam, na ligação inevitável à terra e à natureza.

É em casa que começamos a ser cristãos e onde primeiro se verifica a autenticidade da nossa fé. É em família e com a família. São as primeiras pessoas que Deus nos deu (e nos dá) para amar, para servir, para acolher, para defender, para abençoar, para proteger, para nos deixarmos enriquecer com a sua presença. É em casa. Primeiro coração, primeiro amor: a família. Conceito só compreendido e extensível à família cristã, à família de Deus, se antes se compreende e se experimenta, em casa, a ternura, a afabilidade e a bondade.

Jesus levou 34 anos a crescer, junto de José e de Maria, e dos seus parentes. Só na idade madura está pronto para alargar a família e para nos ensinar a transpor as fronteiras da nossa, para constituirmos família com os outros que se encontram nas vizinhanças. Em 3 anos, tão curto e tão profícuo tempo, Jesus colocará em ação toda a Sua experiência, criatividade, toda a bagagem que construiu e tornando-Se "semeador" de sonhos, de vida nova, de salvação. É um vendaval. Arrasta multidões. A fama vai à frente. Na sua terra, talvez não se surpreendam, já O conheciam, não vêem diferente, é o filho do carpinteiro. Não se abrem ao ideal, às surpresas de Deus. Mas é Deus Quem Ele anuncia, Quem Ele comunica.

4 – Na nosso frágil e belo peregrinar, não cessemos de ser profetas, propondo o bem que venha de Deus, e acolhendo dos outros o que de Deus nos podem ofertar.

São Paulo empresta-nos palavras de confiança (e desafio):

"Ele disse-me: «Basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que se manifesta todo o meu poder». Por isso, de boa vontade me gloriarei das minhas fraquezas, para que habite em mim o poder de Cristo. Alegro-me nas minhas fraquezas, nas afrontas, nas adversidades, nas perseguições e nas angústias sofridas por amor de Cristo, porque, quando sou fraco, então é que sou forte".

Sem Deus, nada. Com Deus, tudo, e até as fraquezas se converterão em fonte de vida e de salvação, em oportunidade para que Deus reluza através da nossa pobreza.

"Levanto os olhos para Vós, para Vós que habitais no Céu, como os olhos do servo se fixam nas mãos do seu senhor. Como os olhos da serva se fixam nas mãos da sua senhora, assim os nossos olhos se voltam para o Senhor nosso Deus, até que tenha piedade de nós" (Salmo).

Nas cercanias ou nos desertos da nossa vida, confiemos: Deus será a mão que nos segura e nos levanta, o olhar que nos envolve, a nossa esperança, a Luz que nos salva, a terra firme que pisamos, o porto seguro, o nosso abrigo. Como crianças que se deixam guiar pela voz e pelo olhar da/o mãe/pai, em passos hesitantes ou em passos experimentados, assim nós nos deixemos conduzir pela Sua Palavra e pelo Seu amor.

padre Manuel Gonçalves

 
 

O espírito do verdadeiro profeta

1ª leitura: Ezequiel 2,2-5

O profeta, o homem sem medo

1. A primeira leitura deste domingo foi tirada de Ezequiel e é uma espécie de relato da vocação profética. É assim o caso de outros profetas de grande caráter (Isaías, 6 no templo; Jeremias, 1), porque se deve fazer uma distinção muito clara entre os verdadeiros e os falsos profetas. Na Bíblia, o verdadeiro profeta é aquele que recebe o Espírito do Senhor. Por isto mesmo, o profeta não se vende a ninguém, nem aos reis nem aos poderosos, porque o seu coração, a sua alma e a sua palavra pertencem ao Senhor que os chamou para esta missão. Por esta razão, sabemos que os verdadeiros profetas foram todos perseguidos. É provável que padecessem de uma "patologia espiritual" que não é senão viver a verdade e da verdade a que estão abertos.

2. O povo "rebelde" habitua-se aos falsos profetas e vive enganado, porque a verdade brilha pela sua ausência. Por esta razão é tão dura a missão do verdadeiro profeta. Talvez para entender o que significa uma vocação profética, que é uma experiência que parte em mil pedaços a vida de um homem fiel a Deus, devemos estar atentos ao que se lhes é exigido, mais do que a qualquer outra pessoa. Não falam por falar, nem por causa das suas ideias, mas porque a força misteriosa do Espírito os impele para mais além do que é a tradição e o hábito do que deve fazer-se Por isso, o profeta é pois, o que ateia a Palavra do Senhor.

2ª leitura: 2 Coríntios 12,7-10

A força da fraqueza

1. A segunda leitura é, provavelmente, uma das confissões mais humanas do grande Paulo de Tarso. Faz parte da que é conhecida como a carta das lágrimas (conforme o que podemos inferir de 2Cor. 2,1-4; 7,8-12). É uma descrição retórica, mas real. Está a referir-se ao "aguilhão (skolops, qualquer coisa afiada e pungente) na sua carne", toda uma expressão que confundiu muita gente; muitos pensam que é uma doença. É a tese mais comum, de uma doença crônica que já tinha desde os primeiros tempos da missão (cf. Gl. 4,13-15). Mas não se poderia rejeitar um sentido simbólico, o que apontaria talvez para os adversários que põem em dúvida a sua missão apostólica, uma vez que fala de um "agente de Satanás", ainda que seja verdade que, na antiguidade, o diabo protegia os remédios de todos os males, reais ou imaginários. Será qualquer coisa biológica ou psicológica? Em todo o caso, Paulo quer exprimir que aparenta ser "fraco" perante os adversários, que estão cheios de razões. Quer combater, através do Evangelho que ele próprio anuncia, com a sua experiência de fragilidade e as fraquezas que os outros vêem nele e que ele próprio sente.

2. Para isso, o apóstolo recorre, como medicina, à graça de Deus: "basta-te a minha graça (charis), porque a força manifesta-se na fraqueza (astheneia)" (v. 9), uma das expressões mais conseguidas e definitivas da teologia de Paulo. A graça leva-o a auto-afirmar-se, não na destruição, nem na vã glória, mas em aceitar-se como é, quem é, e o que Deus lhe pede. Paulo constrói, em síntese, uma pequena e bela teologia da cruz. É como se dissesse que o nosso Deus é mais Deus quanto menos arrogantemente ele se revela. O Deus da cruz, que é o Deus da fragilidade face aos poderosos, é o único Deus ao qual vale a pena confiarmo-nos. É esta a mística apostólica e cristã que Paulo confessa nesta bela passagem. É como quando Jesus disse: "quem quiser salvar a sua vida para si, há-de perdê-la" (cf. Mc. 8,35). É um desafio ao poder do mundo e de quantos atuam daquela maneira no próprio seio da comunidade.

Evangelho: Marcos 6,1-6

Nazaré: ninguém é profeta na sua terra

1. O texto do Evangelho de Marcos é a versão primitiva da presença de Jesus na sua terra, Nazaré, depois de ter percorrido a Galileia pregando o Evangelho. Lá é o filho do carpinteiro, de Maria, são conhecidos os seus familiares mais próximos: de onde lhe vem o que diz e o que faz? Lucas, por seu lado, fez desta cena em Nazaré o começo mais determinante da atividade de Jesus (cf. Lc. 4,14ss). Já sabemos que o provérbio do profeta enjeitado entre os seus é próprio de todas as culturas. Desde logo, Jesus não estudou para ser rabino, não tem autoridade (exousía) para tal, como já se viu em Mc. 2, 21ss. Mas precisamente, a autoridade de um profeta não é explicada institucionalmente, antes quando se reconhece no que tem o Espírito de Deus.

2. O texto fala de sabedoria, porque exatamente a sabedoria é um dos aspectos mais apreciados no mundo bíblico. A sabedoria não se aprende, não se ensina, vive-se e transmite-se como experiência de vida. Por sua vez, esta mesma sabedoria leva o profeta a dizer e fazer o que os poderosos não podem proibir. No Evangelho de são Marcos este é um momento que origina uma crise na vida de Jesus com o seu povo, pois torna-se evidente " a falta de fé" (apistía). Não realiza milagres, diz o texto de Marcos, porque embora os fizesse não acreditariam. Sem fé, o reino que Ele pregava não pode experimentar-se. Na narrativa do Evangelho este é um dos momentos de crise na Galileia. Por isso, o Evangelho de hoje não é simplesmente um texto que narra a passagem de Jesus pela sua aldeia, onde tinha sido criado. Nazaré, tal como em Lucas, não representa apenas a povoação da sua infância: é todo o povo de Israel que havia muito tempo, séculos, não tinha ouvido um profeta. E agora que isto sucede, a sua mensagem cai no vazio. Não querem um profeta, mas desejam um milagre simples e fácil.

3. Jesus continua a ser o filho do carpinteiro e de Maria, mas tem o espírito dos profetas. Efetivamente, os profetas são chamados de entre o povo simples, são arrancados de suas casas, das suas profissões habituais e rapidamente vêem que as suas vidas têm de tomar outro rumo. Os seus, os mais próximos, às vezes nem sequer os reconhecem. Tudo mudou para eles, profetas, a ponto de a missão para a qual foram escolhidos ser a mais difícil que se possa imaginar. É verdade que o Jesus taumaturgo popular e exorcista é, e continuará a ser, um dos temas mais debatidos sobre o Jesus histórico. Provavelmente, houve excessos na hora de apresentar estes aspectos dos Evangelhos, sendo, como é, uma questão que exige critérios comprovados. Mas no caso presente do texto de Marcos, não podemos negar que se quer fazer uma "crítica" (já naquele tempo das comunidades primitivas) à corrente que considera Jesus como um simples taumaturgo e exorcista. É o profeta do Reino de Deus que chega a todas as pessoas que a este aspiravam. Nisto, Jesus como profeta, colocava em jogo a sua vida, tal como os profetas do Antigo Testamento.

fray Miguel de Burgos Núñez

tradução de Maria Madalena Carneiro

 
 

Confiança e conversão

Quando consideramos a experiência dos discípulos com Jesus no Evangelho, damo-nos conta de que este caminho para Deus não tem nada nem de sereno nem linear. Na nossa vida podem existir tempos de fervor em que a fé parece mais fácil, a presença de Deus quase evidente. É a graça do começo em que nos sentimos quase levados pelo Espírito.

Depois há outros momentos em que as coisas são menos evidentes. É então a crise da confiança ou a da conversão.

A crise da confiança é duvidar de Deus, da sua presença, da sua existência, da sua Palavra, é pensar que a sua promessa é apenas uma ilusão e que nos enganamos no caminho, tantas coisas acontecem ou quando as provações da vida parecem contradizer a bondade de Deus.

Mas é também pensar que há caminhos mais gratificantes. A decisão nunca está definitivamente construída.

Há ainda a crise diante da conversão pedida. Cristo chama-nos a opções que são fáceis de compreender, mas mais difíceis de pôr em prática. Entre os discípulos de Jesus, a crise fez estragos, alguns foram-se embora e deixaram de caminhar com Ele.

Mas o que eu reconheço é que Deus não nos abandona.

Jean-Pierre Ricard

Marie-dominique moliné, O.P.

 
 

Um profeta só é desprezado na sua pátria, entre os seus parentes…

Jesus foi rejeitado em sua própria terra por ser trabalhador e filho de Maria, mulher simples da aldeia de Nazaré. Hoje continua sendo rejeitado em tantas pessoas empobrecidas e excluídas da vida social. Celebrando a sua páscoa, somos convidados a aceitar o fato de que Deus nos fala por meio dos simples, fracos e pobres.

Jesus foi para a sua pátria.

O beato João Paulo II disse que foi em Nazaré que Jesus “passou a maior parte da sua existência terrena. Com a sua operosidade silenciosa na oficina de José, Jesus ofereceu a mais elevada demonstração da dignidade do trabalho. O Evangelho hodierno narra que os habitantes de Nazaré, seus conterrâneos, O receberam com admiração, perguntando-se uns aos outros:  “De onde [lhe] vêm esta sabedoria e estes milagres? Este homem não é o filho do carpinteiro?” (Mt. 13,54-55).

“Começou a ensinar na Sinagoga”

O Papa Bento XVI dirige essa oração a Maria Santíssima: “Apesar de toda a grandeza e alegria do início da atividade de Jesus, Vós, já na Sinagoga de Nazaré, tivestes de experimentar a verdade da palavra sobre o « sinal de contradição » ( Lc 4,28s). Assim, vistes o crescente poder da hostilidade e da rejeição que se ia progressivamente afirmando à volta de Jesus até à hora da cruz, quando tivestes de ver o Salvador do mundo, o herdeiro de Davi, o Filho de Deus morrer como um falido, exposto ao escárnio, entre os malfeitores”.

“Que sabedoria é essa que lhe foi dada”

O papa Bento XVI ensina que Jesus “é a Sabedoria encarnada, o Logos criador que encontra a sua alegria em habitar entre os filhos dos homens, no meio dos quais armou a sua tenda (Jo 1,14). N’Ele aprouve a Deus pôr “toda a plenitude” (Cl. 1,19)”.

A Palavra diz: ”É por sua graça que estais em Jesus Cristo, que, da parte de Deus, se tornou para nós sabedoria, justiça, santificação e redenção.” (1Cor. 1, 30)

O Papa Bento XVI disse também que a Sabedoria “é o Filho de Deus, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade; é o Verbo que, como lemos no Prólogo de João, “no princípio Ele estava com Deus”, aliás, “era Deus” que com o Pai e o Espírito Santo criou todas as coisas e que “se fez carne” para nos revelar aquele Deus que ninguém pode ver”. ( Jo 1,2-3.14.18).

“Como se operam por suas mãos tão grandes milagres?”

O Catecismo (547 ) ensina: “Jesus acompanha as suas palavras com numerosos «milagres, prodígios e sinais» (At. 2,22), os quais manifestam que o Reino está presente n’Ele. Comprovam que Ele é o Messias anunciado”.

Monsenhor Jonas Abib disse que “Jesus fez milagres em muitas cidades, exceto em Sua terra, Nazaré, porque o povo não acreditava. Jesus tinha as sementes, mas não encontrou em Sua cidade um campo preparado para o plantio, tudo o que queria fazer não pôde por causa da incredulidade dos nazarenos. Quando eles viram os milagres que Jesus estava fazendo em todos os outros lugares, perguntaram-se: “Não é Ele o filho do carpinteiro José, o filho de Maria?”.

O Beato João Paulo II disse assim: “Também a vida pública de Jesus reserva provas para a fé de Maria. Por um lado, causa-lhe alegria saber que a pregação e os milagres de Jesus suscitavam em muitos admiração e consenso. Por outro, vê com tristeza a oposição sempre mais enérgica da parte dos Fariseus, dos doutores da Lei, da hierarquia sacerdotal”.

“Não é Ele o filho do carpinteiro…?”

O papa Bento XVI disse: “Tornando-se em tudo semelhante a nós, o próprio Filho de Deus dedicou-se durante muitos anos as atividades manuais, a ponto de ser conhecido como o “filho do carpinteiro” (Mt 13, 55).

Jesus também sofreu por todas as vezes que fomos rejeitados por causa de nossa profissão, de nossa condição social ou de qualquer outra forma de preconceito, peçamos ao Senhor que nos cure e nos restaure. A Palavra diz: “Porque, diante de Deus, não há distinção de pessoas”. (Rm. 2,11)

Um profeta só é desprezado na sua pátria, entre os seus parentes e na sua própria casa”

Maria sofre pelo desprezo das pessoas de sua própria terra ao seu amado Filho – O beato João Paulo II disse que “a Virgem pôde muitas vezes conhecer as críticas, insultos e ameaças dirigidos a Jesus. Também em Nazaré, várias vezes foi ferida pela incredulidade de parentes e conhecidos, que tentavam instrumentalizar Jesus (Jo. 7,2-5) ou interromper a Sua missão (Mc. 3, 21)”.

Temos entre nossos parentes e conhecidos pessoas de muita sabedoria de vida, especialmente os mais idosos. Precisamos ouvi-los e lhes dar atenção para evitarmos tomar atitudes erradas em nossas vidas. Padre Bantu disse assim: “Muitas vezes fechamos os nossos ouvidos para acolher o conselho, a advertência e o ensino daqueles que são nossos parentes, familiares, vizinhos ou conhecidos”.

“Não pôde fazer ali milagre algum”

O beato João Paulo II disse sobre a fé de Maria no poder de Jesus de fazer o milagre nas Bodas de Caná, mesmo que nenhum milagre tenha sido realizado pelo Filho em Nazaré, sua terra: “A escolha de Maria, que teria podido, talvez, providenciar noutro lugar o vinho necessário, manifesta a coragem da sua fé porque, até àquele momento, Jesus não tinha realizado algum milagre, nem em Nazaré, nem na vida pública”. Maria Santíssima confiou, esperou e acreditou em Jesus e o Senhor realizou o milagre. O Senhor quer realizar muitos milagres em nosso favor; basta crer, confiar e esperar.

O Catecismo (548) ensina: “Os sinais realizados por Jesus testemunham que o Pai O enviou. Convidam a crer n’Ele. Aos que se Lhe dirigem com fé, concede-lhes o que pedem”.  A fé é a porta que abrimos para o Senhor fazer milagres em nossa vida.

E o papa Bento XVI ensinou: “A Deus nós pedimos tantas curas de problemas, de necessidades concretas, e é justo que seja assim, mas aquilo que devemos pedir com insistência é uma fé sempre maior, para que o Senhor renove a nossa vida, e uma firme confiança no seu amor, na sua providência, que não nos abandona”.

Conclusão.

Concluímos essa reflexão com as palavras do Beato João Paulo II: “Contemplai Jesus de Nazaré, por alguns, acolhido e por outros, ridicularizado, desprezado e rejeitado: Ele é o Salvador de todos. Adorai a Cristo, nosso Redentor, que nos resgata e liberta do pecado e da morte: é o Deus vivo, fonte da Vida”.

Jane Amábile

 
 

Neste 14º domingo do tempo comum, a Igreja coloca à nossa consideração a rejeição de Jesus por parte das pessoas de Nazaré. A sua passagem por Nazaré foi dolorosa. A que era a sua comunidade agora já não o é. Algo mudou. Os que antes o acolhiam, agora rejeitam-no. Como veremos depois, esta experiência de rejeição levou Jesus a tomar uma decisão e a mudar o seu agir. Desde que começaste a participar na comunidade algo mudou na tua relação com a família e os amigos? A participação na comunidade serviu-te para acolher e ter mais confiança nas pessoas, sobretudo nos mais humildes e nos mais pobres?

Para quem deseja aprofundar mais o tema

O contexto de ontem e de hoje

Ao longo das páginas do seu evangelho, Marcos indica que a presença e a acção de Jesus constituem uma fonte crescente de alegria para alguns e um motivo de rejeição para outros. Cresce o conflito, aparece o mistério de Deus que envolve a pessoa de Jesus. Com o capítulo 6º, encontramo-nos na narração diante de uma espécie de curva. As pessoas de Nazaré fecham-se perante Jesus (Mc. 6,1-6). E Jesus, perante esta postura de fechamento das pessoas da sua comunidade, abre-se às de outras comunidades. Dirige-se às pessoas da Galileia e envia os seus discípulos em missão, ensinando como deve ser a relação com as pessoas, de modo que seja verdadeira relação comunitária, que não exclua, como acontece com as pessoas de Nazaré (Mc. 6,7-13). Quando Marcos escreve o seu evangelho, as comunidades cristãs viviam uma situação difícil e sem horizontes. Humanamente falando não havia futuro para elas. A descrição do conflito que Jesus vive em Nazaré e o envio dos discípulos, que alarga a missão, torna-as criativas. Para os que crêem em Jesus não se pode estar numa situação sem horizontes.

Comentário do texto

Marcos 6,1-3: reação das pessoas de Nazaré perante Jesus. É sempre bom regressar à nossa terra. Depois de uma larga ausência, também Jesus regressa e, como de costume, no dia de sábado vai a uma reunião da comunidade. Jesus não era o coordenador, mas apesar disto tomou a palavra, sinal de que as pessoas podiam participar e expressar a sua opinião. Mas as pessoas não gostaram do que Jesus disse e ficaram escandalizadas. Jesus, conhecido por elas desde criança, como tinha mudado tanto? As pessoas de Cafarnaum aceitaram o ensinamento de Jesus (Mc. 1,22) mas as de Nazaré ficaram escandalizadas e não o aceitaram. Qual a razão da recusa? “Não é este o carpinteiro, o filho de Maria?”. Não aceitavam o mistério de Deus presente numa pessoa tão comum como elas. Para poder falar de Deus deveria ser diferente delas! O acolhimento dado a Jesus não foi bom. As pessoas que deveriam ser as primeiras a aceitar a Boa Nova, são precisamente as primeiras a não a aceitar. O conflito não é só, portanto, com os de fora, mas também com os parentes e com as gentes de Nazaré. Eles não aceitam porque não conseguem entender o mistério que envolve a pessoa de Jesus. “De onde é que isto lhe vem e que sabedoria é esta que lhe foi dada? Como se operam tão grandes milagres por suas mãos? Não é Ele o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E as suas irmãs não estão aqui entre nós?”. E não conseguem acreditar.

A expressão “irmãos de Jesus” causa muita polemica entre católicos e protestantes. Baseando-se neste e noutros textos, os protestantes dizem que Jesus teve muitos irmãos e irmãs e que Maria teve mais filhos. Nós, os católicos, dizemos que Maria não teve outros filhos. O que pensar de tudo isto? Em primeiro lugar, quer as posições dos católicos quer as dos protestantes, retiram o argumento da Bíblia e da antiga Tradição das respectivas Igrejas. Por isso não convém discutir estas questões com argumentos racionais, fruto das nossas idéias. Trata-se de convicções profundas, que têm a ver com a fé e o sentimento das pessoas. O argumento sustentado só por idéias não consegue desfazer uma convicção da fé que encontra as suas raízes no coração. Só irrita e desassossega. Mas ainda que não se esteja de acordo com a opinião do outro, devo contudo respeitá-la. Em segundo lugar, em vez de discutir sobre os textos, todos nós, católicos e protestantes, devemos unir-nos muito mais na luta em defesa da vida, criada por Deus, vida tão ultrajada pela pobreza, a injustiça, pela falta de fé. Devemos recordar outras frases de Jesus: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo. 10,10); “para que todos sejam um, para que o mundo acredite que tu me enviaste” (Jo. 17,21); “Não o proibais. Quem não está contra nós, está connosco” (Mc. 9,39-40).

Marcos 6, 4-6: Reação de Jesus perante o comportamento das pessoas de Nazaré. Jesus sabe muito bem que “santos da casa não fazem milagres” e diz: “Um profeta só é desprezado na sua pátria, entre os seus parentes e em sua casa”. Com efeito, onde não há a aceitação da fé, as pessoas não podem fazer nada. O preconceito impede-o. Mesmo querendo, Jesus não pode fazer nada e permanece atônito perante a falta de fé dos seus concidadãos.

Informações acerca do evangelho de Marcos

Este ano litúrgico apresenta-nos de modo particular o evangelho de Marcos. Vale a pena dar algumas informações que nos ajudem a descobrir melhor a mensagem que Marcos nos quer comunicar.

O desenho do rosto de Deus na parede do evangelho de Marcos

Jesus morreu por volta dos 33 anos. Quando Marcos escreve o seu evangelho nos anos setenta, as comunidades cristãs viviam já dispersas pelo Império Romano. Alguns afirmam que Marcos escreveu para as comunidades de Itália. Outros afirmam que foi para as da Síria. É difícil saber com certeza. De qualquer forma, uma coisa é certa: não faltavam os problemas. O Império Romano perseguia os cristãos, a propaganda do Império infiltrava-se nas comunidades, os judeus da Palestina revoltavam-se contra a invasão romana. Existiam tensões internas devidas a diversas tendências, doutrinas, chefes...

Marcos escreve o seu evangelho para ajudar as comunidades a encontrar resposta para estes problemas e preocupações. Recolhe vários episódios e palavras de Jesus e une-os entre si como ladrilhos de uma parede. Os ladrilhos são já antigos e conhecidos. Vêm das comunidades onde foram transmitidos oralmente em reuniões e celebrações. O desenho formado pelos ladrilhos era novo. Vinha de Marcos e da sua experiência acerca de Jesus. Ele queria que as comunidades, lendo o que Jesus fez e disse, encontrassem resposta para estas perguntas: “Quem é Jesus para nós e quem somos nós para Jesus?”; “Como ser discípulo?”; “Como anunciar a Boa Nova de Deus, que nos revelou?”; “Como percorrer o caminho traçado por ele?”.

Três chaves para entender as divisões no evangelho de Marcos

1ª chave: O evangelho de Marcos foi escrito para ser lido e escutado em comunidade. Quando se lê a sós um livro, pode-se voltar atrás, para unir uma parte com a outra, mas quando se lê em comunidade e uma pessoa está diante de nós a ler o evangelho, não  é possível dizer: “Pára! Lê outra vez. Não entendi bem!”. Como veremos, um livro escrito para ser escutado nas celebrações comunitárias tem um modo diverso de dividir o tema relativamente a outro que é lido a sós.

2ª chave: O evangelho de Marcos é uma narração. Uma narração é como um rio. Atravessando o rio de barco, ninguém se dá conta da divisão das águas. O rio não tem divisões. É constituído por um só fluir, desde o princípio até ao fim. No rio, as divisões fazem-se desde as margens. Diz-se, por exemplo: “Que bela parte do rio a que vai desde aquela casa até à curva onde se encontra a palmeira, que está três curvas depois!”. Mas na água não se vê nenhuma divisão. A narração de Marcos flui como um rio. As suas divisões são encontradas por aqueles que as escutam e as encontram nas margens, como se fosse, nos lugares por onde Jesus passava, na geografia, nas pessoas que encontra, ao longo dos caminhos que percorre. Estas indicações à margem ajudam o leitor a caminhar com Jesus, passo a passo, da Galileia até Jerusalém, do lago até ao Calvário.

3ª chave: O evangelho de Marcos foi escrito para ser lido de uma só vez. Era assim que faziam os judeus com os livros mais pequenos do Antigo Testamento. Alguns entendidos afirmam que o evangelho de Marcos foi escrito para ser lido, todo inteiro, no decurso da longa vigília da noite de Páscoa. Por isso, a fim de que as pessoas que escutassem não ficassem cansadas, a leitura devia ser dividida e ter algumas pausas. Além disso, quando uma narração é longa, como a do evangelho de Marcos, a sua leitura deve ser interrompida a cada passo. Em certos momentos é necessário fazer uma pausa, doutra forma os ouvintes perdem-se. Estas pausas estavam já previstas pelo próprio autor da narração. E fazia-se entre as leituras longas dando alguns resumos prévios. Praticamente como acontece na televisão. Todos os dias, ao começar a telenovela são repetidas algumas cenas do episódio anterior. Quando termina são apresentadas algumas cenas do dia seguinte. Estes resumos são como os eixos ou articulações que unem o que foi lido com o que vai ser lido. Permitem parar e começar de novo sem interromper nem alterar a sequência da narração. Ajudam os que ouvem a colocar-se no rio da narração que flui. No evangelho de Marcos encontram-se vários resumos deste tipo ou pausas, que permitem descobrir e seguir o fio da Boa Notícia de Deus que Jesus nos revelou e que Marcos nos conta. No total trata-se de sete blocos ou leituras mais longas intercaladas de pequenos resumos ou articulações onde é possível fazer umas pausas.

Uma divisão do evangelho de Marcos

Eis uma possível divisão do evangelho de Marcos. Outros dividem-no doutro modo. A importância de uma divisão é que abra uma das muitas janelas para o interior do texto e nos ajude a descobrir a rota do caminho que Jesus abriu para nós em direção ao Pai e aos irmãos.

Mc. 1, 1-13: Começo da Boa Nova.

Preparar o anúncio.

1ª Leitura.

Mc. 1, 14-15: Pausa, resumo, articulação.

Mc. 1, 16-3, 16: Cresce a Boa Nova.

O conflito torna-se presente.

2ª Leitura.

Mc. 3, 7-12: Pausa, resumo, articulação.

Mc. 3, 13- 6, 6: Cresce o conflito.

Aparece o mistério.

3ª Leitura.

Mc. 6, 7-13: Pausa, resumo, articulação.

Mc. 6, 14-8, 21: Cresce o mistério.

Não é compreendido.

4ª Leitura.

Mc. 8, 22-26: Pausa, resumo, articulação.

Mc. 8, 27-10, 45: Eles continuam sem compreender.

A a luz obscura da cruz aparece.

5ª Leitura.

Mc. 10, 46-52: Pausa, resumo, articulação.

Mc. 11, 1-13, 32: Cresce a luz obscura da cruz.

Aparece a ruptura e a morte.

6ª Leitura.

Mc. 13, 33-37: Pausa, resumo, articulação.

Mc. 14, 1-15, 39: Cresce a ruptura e a morte.

Aparece a vitória sobre a morte.

7ª Leitura.

Mc. 15, 40-41: Pausa, resumo, articulação.

Mc. 15, 42-16, 20: Aumenta a vitória sobre a morte.

Reaparece a Boa Nova.

8ª Leitura.

Mc. 16, 9-20.

Nesta divisão os títulos são importantes. Indicam o caminho do Espírito, da inspiração, que percorre o evangelho desde o princípio até ao fim. Quando um artista tem uma inspiração procura expressá-la através de uma obra de arte. A inspiração é como uma força elétrica que corre invisível através do fio e acende a lâmpada da nossa casa. Do mesmo modo a inspiração corre invisível através das letras, da poesia ou das formas das pinturas para revelar e acender em nós uma luz semelhante ou quase semelhante à que brilhou na alma do artista. Por isso, as obras artísticas atraem e causam admiração às pessoas. O mesmo sucede quando lemos e meditamos o evangelho de Marcos. O mesmo Espírito ou Inspiração que levou Marcos a escrever o texto, continua a estar presente nas palavras do seu evangelho. Mediante uma leitura atenta e orante, este Espírito entra em ação e começa a atuar em nós. E assim, pouco a pouco, descobrimos o rosto de Deus que se revelou em Jesus e que Marcos nos comunica no seu livro.

 
 

O perigo da rejeição à Palavra de Deus continua presente em nosso tempo, do mesmo modo que no tempo da missão do profeta Ezequiel, de Jesus e dos apóstolos.

Qualquer um de nós pode ser afetado pelo vírus da auto-suficiência. Quando este vírus nos ataca e nós não resistimos a ele, sofremos com os males do egoísmo, da ganância, da ambição e depositamos nossa confiança em nossas próprias capacidades.

Achamos que somos os donos da verdade, que sabemos de tudo e somos capazes de nos salvar sozinhos.

Quem pensa e age assim não sabe acolher o que Deus tem para lhe comunicar e oferecer.

Age como o povo do tempo do profeta Ezequiel que é classificado como "um bando de rebeldes... filhos de coração duro". Mesmo assim, Deus continua a enviar seus profetas para mostrar que se interessa por nós.

A recusa à Palavra e ao Projeto de Deus faz o ser humano concentrar suas preocupações no que é passageiro. A pessoa torna- se cega pela preocupação em acumular vantagens terrenas. Uma pessoa assim, quando pensa em Deus, é sempre com a intenção de fazer Dele um instrumento para alcançar seus próprios objetivos. Será que ela pode acolher em sua vida a proposta da partilha e da solidariedade que se faz na prática do Dízimo? Se formos contaminados pelo vírus do egoísmo e da auto-suficiência, o que será do mundo e dos pobres que necessitam da solidariedade humana?

O que é que mais ajuda e o que mais atrapalha a caminhada do Dízimo em nossa Comunidade?

Ao chegar a Nazaré, com seus discípulos, Jesus experimentou a rejeição em sua própria terra. Ele se apresentou em sua cidade, não como simples cidadão que faz uma visita à família, mas no pleno exercício de

sua qualidade de Mestre, dotado de sabedoria e de autoridade para ensinar. Entretanto, sua gente se escandaliza com Ele e não O aceita como Messias. A origem simples de Jesus é motivo de escândalo. Seus

concidadãos não o consideram merecedor de confiança, porque eles se classificam em categorias humanas: família, profissão e parentescos.

Não querem mudar de procedimento, aceitando o que se revela em Jesus.

Quantas vezes também nós rejeitamos as pessoas antes mesmo que elas se pronunciem!

Quantas vezes classificamos as pessoas de incapazes, de não serem dignas!

Aceitar Cristo é aceitar sua pessoa, sua proposta de vida, seus ensinamentos e seu sacrifício em favor de toda a humanidade. É reconhecer que sem Ele não chegaremos ao Pai do Céu. Em nossos dias, quando há tanta gente falando em nome de Jesus, é preciso ter cuidado para não confundirmos as coisas e abraçar propostas de vida que são totalmente contrárias ao que Deus quer para nós. Um auxilio necessário é acertarmos o caminho que nos é dado pela Igreja.

Nela fazemos a experiência do amor de Deus por nós. Através dela, Ele cuida de nós e manifesta o grande amor que tem por seus filhos e filhas. Na Igreja de Jesus Cristo, a nossa Igreja, somos educados na fé e fortalecidos na esperança de que um outro mundo é possível. A Igreja é nossa família, é nossa casa. Cuidemos dela com amor e carinho expressando assim nosso louvor e nossa gratidão a Deus que tanto nos ama. Façamos hoje nosso compromisso de adesão ao Dízimo e cresceremos sempre mais na fé.

 
 

Profetas por vocação

O Senhor disse a Moisés: “Farei surgir para eles, do meio dos seus irmãos, um profeta como tu. Porei as minhas palavras na sua boca e ele lhes dirá tudo o que Eu lhe ordenar. Se alguém não escutar as minhas palavras que esse profeta disser em meu nome, Eu próprio lhe pedirei contas” (Dt. 18,18-19).

Moisés aparece na Bíblia como exemplo e modelo do verdadeiro profeta. O que é que isso significa? Significa, em primeiro lugar, que na origem e no centro da vocação de Moisés está Deus. Não foi Moisés que se candidatou à missão profética, por sua iniciativa, não foram as suas ações ou qualidades que lhe deram o direito a ser profeta. A iniciativa é de Deus que, de forma gratuita, escolhe, chama e envia em missão.

De todo e qualquer profeta do nosso tempo podemos afirmar a mesma coisa. Se no Antigo Testamento Deus escolheu homens e mulheres dispostos a tornarem-se consoladores, guias e admoestadores do seu Povo, Ele continua a derramar o seu Espírito para que surjam ainda hoje no mundo outros profetas que, enraizados no próprio batismo, respondam aos apelos de Deus para o nosso tempo. Na vocação cristã que nos é comum há sempre aqueles que, por graça de Deus, excelem em ações de serviço e de amor à humanidade. São aqueles que não se preocupam por transmitir uma mensagem pessoal ou aquilo que as pessoas gostariam de ouvir, mas, com coragem e frontalidade testemunham fielmente as propostas de Deus para os homens do nosso tempo.

Como instrumento através do qual Deus age no meio da comunidade humana, o profeta tem consciência que a missão que lhe foi confiada é para levar muito a sério. O seu testemunho não é um passatempo para as horas vagas, mas um compromisso que deve ser assumido e vivido com fidelidade absoluta e total empenho. Ser profeta é tornar presente no meio dos homens o projeto de Deus. Se é de Deus que parte a sua missão, não a pode utilizar em benefício próprio nem pactuar com os poderes deste mundo ou procurar os aplausos das multidões. A nossa missão profética tem de estar sempre ao serviço de Deus, dos planos de Deus, da verdade de Deus, e não ao serviço de esquemas pessoais, interesseiros e egoístas.

O profeta é, no dizer da Bíblia, “o homem de olhar penetrante, que escuta as palavras de Deus, que tem a visão do Omnipotente, que se prostra, mas de olhos abertos” (Nm. 24,3-4). Ele é antes de mais um contemplativo e um orante, que procura penetrar no mistério de Deus, para conhecer a Sua vontade e anunciá-la aos homens do nosso tempo. Mas, de olhos bem abertos, é por outro lado um conhecedor das situações e problemáticas humanas, que continuamente procura iluminar com a Palavra de Deus. Imbuído do Espírito de Deus, ele anuncia e denuncia. Anuncia a Palavra como proposta de Deus, denuncia o divórcio entre fé e vida e aponta os caminhos da reconciliação e da paz com Deus e com os homens. Com um ouvido Ele ouve as Palavras do Senhor, com o outro ele sabe escutar os gritos do seu povo. É um intermediário entre Deus e os homens. Por eles intercede e aponta caminhos novos de entendimento e de promoção.

Pessoas como dom Oscar Romero, dom Pedro Casaldáliga, dom Hélder Câmara, Madre Teresa de Calcutá ou João Paulo II, só para citar alguns nomes, encaixam nesta reflexão. São profetas do nosso tempo, pessoas esclarecidas e apaixonadas por Deus e pela humanidade. Mas todos nós, no nosso meio, fiéis à nossa vocação cristã, e de olhos bem abertos, podemos sê-lo também: para unir o que anda afastado, para mediar o que anda desavindo, para promover a justiça e a paz.

Darci Vilarinho

 
 

“Estava admirado com a falta de fé daquela gente”! (Mc. 6,6)

1. E baixou, de repente, a temperatura da fé! Jesus, capaz de expulsar demônios, de acalmar a tempestade, de estancar o fluxo de sangue e de acordar os mortos, vê-se impotente, na sua terra e entre a sua gente, de tal modo que não pôde ali fazer nada de extraordinário! Na verdade, é a fé que abre caminho ao milagre que transforma, cura e salva, acorda, ergue e levanta a nossa vida. Mas aquela sua gente, na sua mesquinhez, na sua cegueira obstinada, na sua velha rebeldia, não está capaz de descobrir os sinais de Deus, no seu quotidiano e nos caminhos normais da sua vida. É gente, tão sem fé, que Jesus fica admirado!

2. Mas afinal, de que gente, sem fé, é que nos fala o Evangelho? Aquela que não acreditava em Deus, e por isso se recusava a entrar no Templo para rezar? Não. O grupo de judeus não praticantes? Ainda não. Os indiferentes, para quem Deus, nem é problema, nem é solução? Também não. “Gente, sem fé” eram afinal os numerosos “ouvintes da sinagoga”! São os que até gostavam de ouvir Jesus a falar, os que, por espanto e curiosidade, se perguntavam “donde lhe virá tudo isto”? Era gente que por ali andava, todos os sábados, entre o incenso e os sacrifícios, segura e satisfeita de cumprir a sua religião, mas de cabeça dura e coração obstinado! Gente, portanto, que ouve falar de Deus praticamente todos os dias, mas que nunca O escutou nem experimentou próximo!

3. E julgávamos nós que isto da descrença estava só do outro lado: do lado dos agnósticos, dos ateus, dos indiferentes ou dos não praticantes... Mas não. A falta de fé daquela gente é a falta de fé «desta gente», que é cada um de nós, destes que hoje aqui estamos «a ouvir Jesus», como outrora os fiéis da sinagoga. Por isso, o Papa nos tem alertado – e volto a repeti-lo – para o facto de que a fé não pode dada como adquirida, nem mesmo entre os cristãos praticantes, entre os quais se nota “uma certa lassidão ou cansaço da fé, uma espécie de tédio de ser cristão” (Bento XVI, Discurso, 22.12.2011). “Sucede não poucas vezes que os cristãos consideram a fé, como um pressuposto da sua vida diária. Ora um tal pressuposto não só deixou de existir, mas frequentemente acaba até negado” (Bento XVI, Porta Fidei, 2). Por isso, a fé não pode mais ser pressuposta. Há-de ser continuamente proposta! E proposta, a outros, àqueles que parecem longe, mas que porventura, estão mais recetivos ao dom da fé.

4. Na verdade, o incidente do evangelho deste domingo, espelha bem a crise de fé, que afeta a Igreja, sobretudo aqui e entre nós: “todos vamos notando, como as pessoas que frequentam regularmente a Igreja, se vão tornando cada vez mais idosas e o seu número diminui continuamente; verifica-se uma estagnação nas vocações ao sacerdócio; crescem o ceticismo e a descrença. E então que devemos fazer? Existem discussões, sem fim, a propósito do que se deve fazer, para haver uma inversão de tendência. E certamente é preciso fazer muitas coisas; mas o fazer, por si só, não resolve o problema. O cerne da crise da Igreja, sobretudo na Europa, é a crise da fé. Se não encontrarmos uma resposta para esta crise, ou seja, se a fé não ganhar de novo vitalidade, tornando-se uma convicção profunda e uma força real, graças ao encontro com Jesus Cristo, permanecerão ineficazes todas as outras reformas” (Bento XVI, Discurso, 22.12.2011).

5. Que o ano da Fé, que já se projeta e começará a 11 de Outubro, seja ocasião favorável para “descobrir de novo a alegria de crer e reencontrar o entusiasmo de comunicar a fé” (Porta Fidei, 7).

 

 

1. Vou hoje pregar contra a corrente. Mesmo correndo o risco de ficar sozinho, a pregar, só para mim... Dizem os especialistas, de marketing que o homem de sucesso cultiva a boa imagem, mostra-se forte e seguro, aparenta boa figura, deve ser determinado para vencer, ter jeito para convencer, obra à vista, quanto mais melhor. Seria este, talvez, o perfil exacto do homem do sucesso, do líder vitorioso, do herói, da nossa sociedade pós-moderna. Mesmo que um simples colapso do coração, humilhe qualquer estrela do firmamento terrestre!

2. Mas a Liturgia da Palavra, vai em contra-ciclo, e leva-me a cometer a loucura, de fazer hoje “o elogio da fraqueza”! Uma galeria de figuras bíblicas testemunha a experiência da fraqueza e do fracasso, como um sinal de força e de grandeza.

Comecemos por Ezequiel: É um profeta, derrotado à partida, uma espécie de “pobre tolo” da cidade. Por ele, ficaria em casa. Mas o Espírito fê-lo levantar no seu desânimo e acompanhar o povo no seu exílio. É enviado como profeta, para o meio de um povo rebelde, de cabeça dura e coração obstinado. É chamado a levar o amor de Deus, onde há muito pouco! E a pregar, com pouquíssimas hipóteses de ser ouvido. Mas vai, com uma palavra simples e desarmada, perturbadora e desprezível. O importante não é ter ouvintes! O mais importante é ser fiel à Palavra. A sua presença, de si, foi incômodo pertinente, palavra silenciosa, que fez Deus falar onde outros o quiseram calar!

Paulo: o apóstolo aparece-nos como uma espécie de anti-herói. Não é um derrotado por fora, mas um vencido por dentro. Há nele um «espinho na carne», uma dificuldade invencível, um defeito incorrigível, um problema de saúde, uma questão de temperamento. Não sabemos bem, de que doença, defeito ou sofrimento se trataria. Mas era um espinho na carne, com a dimensão suficiente, para lhe tirar qualquer espécie de vanglória e o tornar mais humilde! Fraquinho, pobre e pecador, rasteirinho, Paulo parte ancorado na graça de Deus. Ele saberá que tudo o que de bom lhe vier a sair das mãos, será sempre obra da graça de Deus e não efeito especial da sua grandeza. «Quando sou fraco, então é que sou forte»! Como quem diz: “Quando sou fraco, deixo cair as minhas armas, confio-me a Deus e é Deus que entra em ação, por mim”. É assim desta debilidade, que Deus precisa, para vencer e manifestar o poder, inerme e enorme, do seu amor!

Por fim, Jesus! Lá vai Ele à sua terra e as coisas correram bem mal. Era conhecido, filho do carpinteiro, primo do amigo, parente do primo... enfim, afinal um homem como os outros, sem estudos, sem ascendência sacerdotal, vindo de uma família normalíssima… comentavam por ali! Como poderia esse Jesus fazer algo de extraordinário? Pensaram os conterrâneos, na sua provinciana e mesquinha visão. Jesus vê-se impotente! E não pôde fazer ali qualquer milagre. De fato, Deus não pode fazer nada, quando nós julgamos poder fazer tudo. Como disse santo Agostinho “esse Deus que te criou, sem ti, não te salvará sem ti”. Por isso, a falta de fé daquela gente, a sua falta de adesão e de correspondência à Palavra, fechava todas as portas ao milagre. Mas Jesus, não se deixa vencer pelo fracasso. Perdendo em casa, sai pelos arredores, ensinando, sem desanimar nem desistir!

Aqui temos, num tríptico ilustrado de figuras bíblicas, com Jesus, ao meio, o elogio da fraqueza! Mas em todas as experiências de fraqueza, abre-se também uma fresta, para a ação de Deus, uma janela de oportunidade para a sua graça!

3. Meus queridos irmãos e irmãs: Estamos num final de ano letivo, laboral e pastoral. E pode acontecer que os nossos resultados, em muitas áreas, não sejam os mais brilhantes. A sensação de fracasso, em várias frentes da vida, pode desmoralizar-nos. Pode ser que sintamos, muitas vezes, a nossa impotência, face aos problemas que nos rodeiam, diante do poder desconstrutor da televisão, frente a um ambiente social e cultural, indiferente ou hostil à fé. Na escola, na empresa, entre os amigos, quantas vezes não nos sentiremos sós, a pregar no deserto, a remar contra a corrente, sem resultados animadores?! Mas não percamos a confiança na força própria do bem, que resiste a qualquer erosão do tempo!

4. Li, por exemplo, no jornal de terça-feira passada (Público, 30.06.2009, 4), que dez anos depois, os portugueses não morreriam por ninguém, a não ser pela família! E que a Bíblia e os lideres religiosos pesam mais nas decisões das pessoas que a ciência ou a comunicação social. Mesmo se o individualismo provoca o desinteresse pelas questões sociais e nacionais, há um capital social de valores, que permanece, tais como a fidelidade, o amar e ser amado, a lealdade! Os sociólogos falam na urgência de uma educação para os valores. Vedes: num mundo, de muitas portas fechadas, abre-se sempre uma janela de oportunidade para o evangelho. Vale a pena pregar e testemunhar a força transformadora da fé, no meio do nosso mundo e no mundo do nosso meio.

5. Façamos então da fraqueza a nossa força, sem nunca desesperar, na convicção firme de que o mal não tem futuro! Só o amor, na sua fraqueza e no seu fraquinho, é digno de fé! Ora, meus queridos irmãos e irmãs, “sem fé não há milagres de amor”!

 

 

1. Jesus não lhes saiu bem como a encomenda! Tinha fama de milagreiro e não pôde ali fazer qualquer milagre. Era aclamado Messias nas ruas da cidade e Filho de Deus, nas aldeias, à beira dos caminhos. Mas na sua terra de Nazaré não passa afinal de filho do carpinteiro.

Ouviam-no muito admirados, na sinagoga, e faziam, em surdina, perguntas bem interessantes. «De onde lhe vem tudo isto? Que sabedoria é esta que lhe foi dada»? Mas em vez de fazer a pergunta de cabeça e entrar de coração no mistério da sua origem divina, começam a medir a família a que pertence, a analisar o tipo de sangue.

Uma pontinha de inveja e uma enorme mesquinhez atrapalham tudo. E o que podia ser, naquelas perguntas fundamentais, um salto para a fé, tornou-se na resposta precipitada, uma enorme pedra de tropeço. Ficavam perplexos a seu respeito.

De facto, Jesus não correspondia ao figurino que tinham desenhado de Deus. E bem podia, pensavam eles, com o poder que tem, tratar de resolver, os problemas da terra. E, com a sua vara de condão, pôr Nazaré no mapa da Palestina. Mas nada. Como é difícil acreditar num Deus assim. Que nada faz sem mim.

2. Jesus estava admirado com a falta de fé daquela gente. Daquela gente, de fé habitual e praticante, que «ia à sinagoga» e sabia a doutrina de cor e salteado e tinha os direitos e obrigações da Lei em dia. Mas uma pobre gente que não tinha olhos para ver Deus, quando Ele passava, vestido com o traje de todos os dias. Em Nazaré, a desilusão não podia ser maior. Mas Jesus não estranha: «Um profeta só é desprezado na sua terra, entre os parentes e em sua casa». Popularmente falando, diria que «santos da casa não fazem milagres». E São João entranha no mistério, vendo mais tarde e mais longe, quando diz de Jesus, o Verbo que veio habitar entre nós: «veio ao que era seu e os seus não o receberam» (Jo.1,11).

3. Continuamos, neste Verão, com alguns pontos de interrogação sobre o mistério de Deus, que são acompanhadas de reticências à fé. De fato, a descrença torna Deus impotente, porque lhe fecha as portas e as janelas. E porque lhe ata as mãos para fazer por nós seja o que for. Como é difícil aceitar um Deus assim, que se revela poderoso na sua fraqueza. Um Deus tão débil e desarmado, que nada pode sem nós. Que precisa até da nossa pouca fé, para poder fazer alguma coisa.

A nossa fé só começará a ser autêntica, quando começar a olhar para Jesus e, em vez de pontos de interrogação, se deixar guiar mais pelos pontos de exclamação. Ao mistério de Deus chega-se mais depressa pela distância do espanto e do maravilhamento, do que pela arrogância das perguntas feitas e das respostas já sabidas.

Este é um tempo e que é mais útil ver e calar do que não ver nada e andar sempre a perguntar…

 

 

1. Santos da casa... não fazem milagres! E o caso de Jesus parece confirmar que esta é uma das regras sem exceção! Desprezado na sua terra, Jesus teve a sorte dos grandes profetas, como Ezequiel. Mesmo sem audiência interessada, o profeta não se cala. E se não ouvirem as suas palavras, ao menos a sua presença incômoda, falará por si! Jesus, admirado com a falta de fé daquela gente, foi pregar para outra freguesia! «Percorria as aldeias dos arredores, ensinando».

2. São ordenados, precisamente neste domingo, na Sé do Porto, três presbíteros e um diácono, para o serviço da nossa Diocese. O número não provoca euforias. Não chega sequer à meia dúzia. E os que já morreram este ano ultrapassa a dezena. Ainda que, esta semana, um Diário, colocasse os Jornalistas, empresários e padres entre as profissões mais reconhecidas socialmente, a vida de Padre não se configura hoje nem fácil, nem rentável, nem atraente. Nada fácil, porque há pouco quem queira ser perturbado com a Palavra que se anuncia. Nada rentável, porque se arrisca a acabar a sua vida a «falar sozinho». Nada atraente, porque o figurino do sucesso não se ajusta nada à sua condição de “ave rara”. Ser Padre não é, de fato, coisa que esteja a dar... para falar em termos de imagem e de marketing... da nossa vida social. Mas parece igualmente claro que quanto menor é a oferta, maior se torna a procura. E a cotação da vida sacerdotal vai subindo, apesar de tudo, no mercado dos valores sociais. Menos padres... maior interesse pelo seu mistério, mais confiança no seu ministério!

3. A sondagem do referido diário pode indicar ou sugerir que o Padre vale tanto mais na sociedade, quanto maior for a sua diferença. Sendo diferente do comum, incomoda o gosto da maioria e atrai o interesse de um pequeno resto, que ainda tem tempo para se interrogar. A afirmação, tantas vezes repetida, de “que o padre é um homem como os outros”, é, por isso, “perigosamente enganadora”. Propagandear uma imagem de padre, homem como os outros, casado como os outros, a viver de um emprego secular, como os outros, é caminho subtil para anular o incômodo da sua diferença, que é da ordem do transcendente, de Deus. Sendo de Deus, o Padre, em si mesmo, é já o sinal desta presença. E mesmo calado, a sua vida fala já de Deus e traz a memória incómoda de Deus, à vida regalada do Homem, que foge de ouvir o rumor dos seus passos...

4. O padre é de fato, profeta escolhido por Deus, à parte, para o serviço de todos. Na maior parte das vezes é enviado por Deus a um povo rebelde, de cabeça dura e coração obstinado. Pode até não poder fazer muito, numa paróquia ou numa sociedade que não tem ouvidos para o essencial, em que interessa o mais fácil, o mais ruidoso... o que é barato e dá milhões... Mas a sua diferença, como Homem de Deus, como Mestre de oração, como Testemunha do Absoluto, constituem um sinal profético de inegável valor e eficácia. «Podem escutar-te ou não – porque são uma casa de rebeldes – mas saberão que há um profeta no meio deles», diz o Senhor a Ezequiel. Di-lo-á aos cinco novos padres e aos padres deste tempo.

5. Direis que são poucos. Pois são. Tão poucos, como poucos os filhos nas famílias, poucos os praticantes na Igreja, poucos os cristãos orantes nas comunidades, poucos os assíduos à Catequese... poucos os interessados em perder a vida pela vida dos outros, poucos os interessados em ouvir. Tão poucos, afinal, como tão pouca a nossa fé! E a pouquidão da fé impediu até o próprio Cristo de fazer qualquer milagre na sua terra! Temos, pois, os padres que merecemos! E se um profeta incomoda muita gente, cinco incomodam muito mais!... Graças a Deus!

 

 

Estava admirado com a falta de fé daquela gente!

1. Gente tão sem fé, que Jesus fica admirado! Afinal, que gente, sem fé, é esta? Aquela que não acreditava em Deus, e por isso se recusava a entrar no Templo para rezar? Não. O grupo dos judeus não praticantes? Não. Os indiferentes, para quem Deus nem é problema, nem é solução? Também não.

“Gente, sem fé” são todos afinal “ouvintes da sinagoga”! São os que até gostam de ouvir Jesus a falar, os que, por espanto e curiosidade, até se perguntam “donde lhe virá tudo isto”?... mas que já não procuram mais, nem esperam nada, gente que ouve com entusiasmo, mas não escuta de verdade. É gente que por ali anda, todos os sábados, entre o incenso e os sacrifícios, segura e satisfeita de cumprir a sua religião, mas de cabeça dura e coração obstinado! 

Gente, portanto, que ouve falar de Deus todos os dias, mas que nunca O experimentou próximo, porque O imagina bem lá no alto. Gente que passa horas no Templo, mas que nunca O descobriu na Vida, porque O teme distante! Gente que nunca O sentiu em seu coração, porque nunca o desejou profundamente... tão cheia se julga dEle! Quer dizer, gente “sem fé”... que  O conhece de ouvir falar, mas que nunca O viu nem descobriu, com os seus próprios olhos! (cf. Job. 42,5).

2. E julgávamos nós que isto da descrença estava só do outro lado: do lado dos agnósticos, dos ateus, dos indiferentes ou dos não praticantes... Mas não. A falta de fé daquela gente é a falta de fé «desta gente», que é cada um de nós, destes que hoje aqui estamos «a ouvir Jesus», como outrora os fiéis da sinagoga. A fronteira entre a fé e a descrença não está portanto à porta ou no adro da Igreja, entre os que entram e os que passam ao lado. Está afinal dentro de nós...

3. Por isso, confesse cada um esse ateu que traz dentro de si. E reconheça, sem medo, a sua pouca fé, ou a sua fé ainda muito por crescer. Cada um se deixe questionar e procurar, interpelar e maravilhar, para poder captar o mistério deste Deus vivo. Um Deus que se revela em Nazaré, simples e discreto, Deus em pessoa, a oferecer-se à liberdade do Homem, a propor-se à relação com Ele. Diante de uma Presença, assim tão pessoal como misteriosa, o homem sempre poderá acolher e seguir, ou recusar e desistir. Acreditar ou descrer!...

4. Para vencer esta descrença, que a todos e sempre nos afecta, proponho um «exercício fé» em três atitudes fundamentais:

1. Buscar com sinceridade: procurar... mesmo que a dúvida cresça e nos visite o cansaço. Nunca deixar de desejar. Mesmo que, tantas vezes, o desejo seja a única coisa a oferecer a Deus. Quer dizer: não fechar nenhuma porta. Não calar nenhum apelo. Não abafar nenhum fundo desejo. Porque a fé não aumenta, passando o tempo a discutir religião, mas cresce no desejo do coração que se abre ao Mistério. Pois quem não encontra Deus no seu íntimo, jamais o descobrirá em parte alguma. Daí o cuidado a ter com a nossa vida interior. Daí mesmo a necessidade de O invocar: Senhor, que eu veja!

2. Acolher com humildade: Porque quem busca a Deus é porque por Ele é procurado e quem O encontra já antes foi alcançado. Quem grita, já foi chamado. Quem caminha para Ele, já foi atraído. Há que deixar-se então surpreender por um Deus que não é o da nossa imaginação. E acolhê-lO tal como é, deixando que ele nos fale «calado»...

3. Caminhar na Verdade: Se é sincero o nosso desejo, se é de coração limpo que O procuramos, mesmo «às apalpadelas», (Hb. 17,27) a nossa fé crescerá. Porque - diz o Senhor - “todo aquele que é da Verdade, escuta a minha Voz”! (Jo. 18,37).

 
 

Saiu dali e viu sua pátria

Quando já se havia tornado popular e famoso por seus milagres e seu ensinamento, Jesus voltou um dia ao seu lugar de origem, Nazaré e, como de costume, se pôs a ensinar na sinagoga. Mas dessa vez não suscitou nenhum entusiasmo, nenhum hosana! Mais do que escutar o que dizia e julgá-lo segundo isso, as pessoas se puseram a fazer considerações alheias: «De onde tirou esta sabedoria? Não estudou; nós o conhecemos bem; é o carpinteiro, o filho de Maria!». «E se escandalizavam dEle», ou seja, encontravam um obstáculo para acreditar nEle no fato de que o conheciam bem. Jesus comentou amargamente: «Um profeta só em sua pátria, entre seus parentes e em sua casa carece de prestígio». Esta frase se converteu em provérbio na forma abreviada: Nemo propheta in pátria, ninguém é profeta em sua terra. Mas isso é só uma curiosidade. A passagem evangélica nos lança também uma advertência implícita que podemos resumir assim: cuidado para não cometer o mesmo erro que cometeram os nazarenos! Em certo sentido, Jesus volta a sua pátria cada vez que seu Evangelho é anunciado nos países que foram, em um tempo, o berço do cristianismo. Hoje correm o mesmo risco que os nazarenos: não reconhecer Jesus: As cartas constitucionais de nossos países não são o único lugar do qual Ele é atualmente «expulso»… O episódio do Evangelho nos ensina algo importante. Jesus nos deixa livres, propõe, não impõe seus dons. Aquele dia, ante a rejeição de seus conterrâneos, Jesus não se abandonou a ameaças e invectivas. Não disse, indignado, como se conta que fez Publio Escipión, o africano, deixando Roma: «Ingrata pátria, não terás meus ossos!». Simplesmente foi para outro lugar. Uma vez não foi recebido em certo povoado; os discípulos lhe propuseram fazer baixar fogo do céu, mas Jesus se virou e os repreendeu (Lc 9, 54). Assim também hoje. «Deus é tímido». Tem muito mais respeito pela nossa liberdade do que temos nós mesmos uns dos outros. Isso cria uma grande responsabilidade. Santo Agostinho dizia: «Tenho medo de Jesus que passa» (Timeo Jesum transeuntem). Poderia, com efeito, passar sem que eu percebesse, passar sem que eu esteja disposto a acolhê-lo. Sua passagem é sempre uma passagem de graça. Marcos disse sinteticamente que, tendo chegado a Nazaré no sábado, Jesus «se pôs a ensinar na sinagoga». Mas o Evangelho de Lucas especifica também o que ensinou e o que disse naquele sábado. Disse que havia vindo «para anunciar aos pobres a Boa Nova, para proclamar a liberdade aos cativos e a vista aos cegos; para dar a liberdade aos oprimidos e proclamar um ano de graça do Senhor» (Lucas 4, 18-19). O que Jesus proclama na sinagoga de Nazaré era, portanto, o primeiro jubileu cristão da história, o primeiro grande «ano de graça», do qual todos os jubileus e «anos santos» são uma comemoração.

mons. Inácio José Schuster

 

 

Evangelho segundo São Marcos 6, 1-6

E partiu dali. Foi para a sua terra, e os discípulos seguiam-no. Chegado o sábado, começou a ensinar na sinagoga. Os numerosos ouvintes enchiam-se de espanto e diziam: «De onde é que isto lhe vem e que sabedoria é esta que lhe foi dada? Como se operam tão grandes milagres por suas mãos? Não é Ele o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E as suas irmãs não estão aqui entre nós?» E isto parecia-lhes escandaloso. Jesus disse-lhes: «Um profeta só é desprezado na sua pátria, entre os seus parentes e em sua casa.» E não pôde fazer ali milagre algum. Apenas curou alguns enfermos, impondo-lhes as mãos. Estava admirado com a falta de fé daquela gente. Jesus percorria as aldeias vizinhas a ensinar.

Neste décimo quarto domingo do tempo comum, mostra-nos o Evangelista Marcos, uma viagem que Jesus realizou em Nazaré, sua cidade Natal, a meio tempo do ministério público. Foi uma falência, foi uma frustração. Que desastre! Em primeiro lugar um espanto geral. O que é isto que estamos vendo? A seguir uma pergunta cética, quase que incrédula, a respeito de sua ciência, dos sinais e milagres que realizava, para finalmente concluírem: “Não é este o filho daquela Maria, que mora na última casa no final da estrada?” Não podiam crer nele. O Evangelista tem o cuidado de dizer que Jesus lá foi acompanhado de seus discípulos, porque a frustração de que foi objeto, deve ser elucidativa para os discípulos também: “Quando tiver que ir de cidade em cidade anunciando o Reino de Deus, muitos aceitarão, mas alguns rejeitarão”. Na verdade o que impedia os Nazaretanos de crerem, é algo que pode ser detectado com certa facilidade, afinal Jesus crescia com eles. Jesus, eles o conheciam, era um garotinho, de calça curta, podemos dizer. Se pertencesse a modernidade, andava com eles, passeava com eles, trepava em árvores, apanhava frutos, corria, ria, ia a sinagoga, aprendia. Mais tarde, mais jovenzinho começou a aprender o oficio do pai. José era um carpinteiro, trabalhava com as suas mãos, fazia cadeiras, arados para serem utilizados no campo pelos agricultores. “Construía janelas, mesas e cadeiras, mas este é um profeta? Este é um representante de Deus? Não! É muito semelhante aos nossos!” Eu conheço poucos sacerdotes que não tenham passado por esta mesma situação. Ele não tem muita ciência, não fala nenhuma língua. Nós conhecemos bem a sua família, ele possui tais e tais defeitos, ou tais e tais limites, Não! Definitivamente não pode ser um enviado de Deus. Os enviados de Deus são sempre homens esquisitos, sempre homens distantes, homens mais admiráveis do que propriamente imitáveis. São homens que se colocam a uma altura tal, que não podem ser atingidos por ninguém. Mas os caminhos de Deus seguem outra direção. Já tive ocasião de dizer que Deus tem uma lógica diferente da nossa. Os caminhos de Deus são sempre os caminhos da encarnação, através de um sacerdote mal equipado, mal preparado, não muito inteligente, pode estar presente e verdadeiramente está presente o Cristo Pastor. Saibamos deixar de lado o que é humano, demasiadamente humano, e olhemos com fé os sinais simples que Deus coloca na nossa presença. Os grandes Santos do passado, são grandes Santos considerados hoje. No passado muitos deles sofreram as mesmas dificuldades.

padre Fernando José Cardoso

 

 

Crer em Jesus atualmente

Muitos não se cansam de dizer: «Se nós tivéssemos vivido na época dos apóstolos e se tivéssemos sido considerados dignos de ver Cristo como eles, também nos teríamos tornado santos como eles». Ignoram que Ele é o mesmo, Aquele que fala, agora como nesse tempo, em todo o universo. […] A situação atual não é certamente a mesma que se vivia então, mas é a situação de hoje, de agora, que é muito mais feliz. Ela conduz-nos mais facilmente a uma fé e convicção mais profundas do que o fato de O ter visto e ouvido fisicamente. Naquela época, com efeito, era um homem que aparecia àqueles que não tinham inteligência, um homem de condição humilde; mas atualmente é um Deus que nos é pregado, um Deus verdadeiro. Naquele tempo, Ele freqüentava fisicamente os publicanos e os pecadores e comia com eles; mas agora está sentado à direita de Deus Pai, nunca tendo estado separado d’Ele de maneira nenhuma. […] Na altura, até as pessoas sem valor o desprezavam dizendo: «Não é o filho de Maria e de José, o carpinteiro?» (Mc 6, 3; Jo 6, 42) Mas agora os reis e os príncipes adoram-n’O como Filho do verdadeiro Deus e o próprio Deus verdadeiro. […] Então, era tido por um homem perecível e mortal entre todos os outros. Ele que é Deus sem forma e invisível recebeu, sem alteração nem mudança, uma forma num corpo humano; mostrou-Se totalmente homem, sem oferecer ao olhar nada mais do que os outros homens. Comeu, bebeu, dormiu, transpirou e cansou-Se; fez tudo o que os homens fazem, exceto o pecado. Não era fácil reconhecer e crer que um homem daqueles era Deus, Aquele que fez o céu, a terra, e tudo o que eles contêm. […] Deste modo, quem hoje escuta diariamente Jesus proclamar e anunciar através dos santos Evangelhos a vontade do Seu Pai abençoado sem Lhe obedecer com temor e estremecimento e sem cumprir os mandamentos também não teria aceitado acreditar n’Ele naquela época.

são Simeão

 

 

É na fraqueza que a força se manifesta

Meus queridos irmãos e irmãs, a liturgia deste domingo quer nos ensinar a reconhecer a presença de Deus onde quer que estejamos. Jesus vai até a sua terra, Nazaré, e ali, aqueles homens que viram Jesus pequenino, que viram Ele brincando como seus filhos, tiveram grande dificuldade de aceitar Jesus como sendo o Filho de Deus, o Messias. Nós que olhamos, ficamos surpresos com isto, aquele pessoal era cego, será que eles não enxergavam a sua sabedoria? Eles enxergavam tudo isto, mas não enxergavam que Deus fosse capaz de tamanha humildade. Jesus não é o Messias esperado, é o Messias inesperado, Ele veio de maneira que ninguém esperasse que viesse, quando falamos que esperamos o Messias, esperamos que venha todo poderoso, e Ele não vem, Ele vem pequeno, frágil. A maior parte das pessoas se escandalizavam de Jesus, porque Jesus é escandaloso, por não ser do jeito que esperavam que Ele fosse. Nós precisamos ser ateus dos deuses falsos, antes de você encontrar Jesus o Deus verdadeiro, é preciso que você abandone todas as idéias de um deus falso, da imaginação de como Deus deveria ser. Jesus não é como o Deus que nós gostaríamos que fosse, Ele que criou todas as coisas, o criador do universo trabalhou na carpintaria, os habitantes de Nazaré viam Jesus fazendo os milagres, e se interrogavam como a mão do carpinteiro poderia fazer isso? Como uma mão que fazia uma cadeira, podia ser a mão que cura? As pessoas ficavam escandalizadas com isto. É assim que Deus se manifesta, de forma imprevista, você precisa se dar conta disso, senão você fará loucuras na sua vida. A criação de Deus é lógica, mas não é tão lógica, é racional, mas não é tão racional, porque Deus é livre para desconsertar você. Existe a liberdade de Deus, quando dizemos liberdade, significa que não é possível deduzir. O que as pessoas não entendem é que Deus é profundamente livre e Ele faz como Ele quer, se fossemos salvar o mundo, salvaríamos de muitas formas, mas eu tenho certeza de que ninguém iria querer salvar o mundo pela cruz.

“Adore a liberdade de Deus quando você tiver que carregar a cruz”

Deus não quer a doença e a morte, Deus pode curar todas as doenças, logo Deus vai curar. Esta é a lógica, este raciocínio é perfeito, isto é herético, isto é heresia. Deus ama do jeito que Ele quer, Deus irá curar todas as doenças na ressurreição dos mortos. Os habitantes de Nazaré viram que não tinha lógica, uma mão que soava, fazia cadeira, curasse doentes. O que devemos fazer a respeito de Deus? Antes de afirmar as coisas a respeito de Deus, precisamos esvaziar nossas lógicas, nossos raciocínios. Adore a liberdade de Deus quando você tiver que carregar a cruz. Porque se você não fizer isso o demônio colocará dúvidas sobre o poder de Deus na sua vida. Não creia em deuses falsos, creia em Jesus Cristo verdadeiro, que nos desconcerta. A Igreja Católica vive isso com muita naturalidade, é difícil ser católico e muito fácil ser herege. Para ser herege precisa apenas conhecer dois versículos, isto é heresia. No livro do Êxodo capítulo 20 está proibindo fazer imagens, e no capítulo 25 Deus manda fazer imagens de querubins. Porque Deus é Deus, é você que tem que fazer força para compreendê-lo e não querer enjaulá-lo na sua mente. O católico abraça a Bíblia toda e não naquele versículo que interessa para ele, e se Deus parece que se contradiz, quem tem que inclinar a cabeça e adorar a Deus, sou eu. Não creia em Deus que cabe na jaula de um raciocínio, creia em um Deus que é verdadeiro. Eu quero que você saia desse PHN, entendendo uma coisa, se você quer saber como Deus é, olhe para Jesus, é um Deus que se fez carne, não olhe para idéias, pois você olha para suas idéias e faz bobagem. Você não pode ser revolucionário do jeito que quer destruir as coisas, que quer ir contra a Igreja, a Deus, ao mundo. É a sua cabecinha “oca”, que tem que mudar, é você que precisa mudar a cabeça, e dizer que se eu não estou entendendo Deus, quem está errado sou eu. É na fraqueza que a força se manifesta, Deus escolheu este caminho, não gostaríamos que fosse assim, queríamos um caminho de glória, mas não é assim que Deus faz, quando Ele quer vencer, Ele nos leva ao ponto mais baixo para que Ele possa nos erguer. Nós não dizemos que somos salvos pela ressurreição, pois a ressurreição é a salvação, nós somos salvos pela cruz, Ele não disse quem quiser triunfar pegue a ressurreição e faça festa, Ele disse pegue a sua cruz e me siga. Você quer me seguir renuncie a si mesmo, renuncie a sua cabecinha, as suas idéias. Deus não vai ficar aprisionado na sua cabecinha, Ele usa da traição de Judas, Ele usa das fraquezas, então abaixe sua cabeça e adore a Deus. Deus age das formas mais estranhas, sei que você é jovem, é ser humano e também sofre, eu sei que jovem não gosta de falar que sofre, ele sai faz festa e quando volta para casa fecha a cara. Aquele que é simpático com todo mundo, em casa é um “jumento” que só sabe dar “coice”. Agora você sabe o porquê disso, porque embora jovem, você também sofre a pressão da vida, porque todo mundo espera que sua vida dê certo e você sofre um pouco esmagado. Eu não sei qual é o seu sofrimento, se você está sofrendo eu tenho a solução: abrace a cruz. Se existe solução para o problema que está vivendo, resolva, mas se não tem solução, abraça a cruz. Você tem duas opções, abrace a cruz ou morra esmagado por ela, só tem essas duas opções, não tem outra, até queríamos que tivesse outra, mas não existe. Jovem, sê forte e corajoso, abrace a sua cruz, essa não é verdade que gostaríamos de ouvir, mas é a verdade verdadeira. Aqui na terra nós não enxergamos a vontade de Deus, Deus poderia ter dado uma resposta do porquê sofremos, mas Ele não veio, Ele preferiu vir sofrer conosco. Você que crê na ressurreição de Cristo, que nos amou até morte de cruz, creia que Ele nos salva.

padre Paulo Ricardo

 
 

Jesus volta à sua terra!

Jesus vai à sinagoga de Nazaré e faz uso do direito que todo o israelita adulto tinha de ler e comentar as Escrituras… e o texto centra-nos na reação do povo face aos seus ensinamentos. Não resiste a ensinar, a falar do que vive e do que lhe brota da abundância do coração! Naquela terra onde Ele tanto aprendeu de Deus pela mão e voz de Maria e José, contemplando os gestos e acontecimentos da vida diária e crescendo na sua relação de intimidade com o Pai… certamente esperaria ser bem recebido!

De facto, ao escutá-lo e ao ver os prodígios que realiza, o povo fica assombrado! É o menino e o homem que viram crescer mas não lhes parece o mesmo! Há algo que não corresponde à ideia pré-concebida que têm a seu respeito! Revelam-se fechados nos seus esquemas, naquilo que já sabem e esquecem-se de deixar espaço à originalidade e criatividade amorosa de Deus! O povo, que nunca se refere a Jesus pelo seu nome próprio, recorda o seu ofício e a “normalidade” da sua família; não lhe reconhecem a autoridade de mestre.

Perante as dúvidas e incredulidade do povo, Jesus afirma a sua missão e deixa transparecer o sentimento de não aceitação com a afirmação: “Um profeta só é desprezado na sua terra”. Jesus assume-se como enviado de Deus, afirmando assim a sua relação e intimidade com o Pai, não ensinando ou atuando em seu próprio nome.

O texto ainda nos dá conta de que Jesus não encontrou fé na sua terra, a ponto de não fazer milagres, ao contrário de outras terras, ao contrário de tantos estrangeiros que confessaram a fé no Deus de Jesus ao escutarem os seus ensinamentos. Podemos intuir o quanto as ideias pré-concebidas nos podem afastar de Deus e das suas manifestações! Por isso, muitos dos que não conheciam Jesus não tinham barreiras no acolhimento da mensagem de Jesus, reconhecendo a sua autoridade!

Perante as dificuldades e as resistências, Jesus não desanima, não se cala e percorre outros caminhos realizando a sua missão!

Jesus vem à terra da Hospitalidade

Jesus continua a vir, de forma surpreendente, à nossa terra, esta terra de hospitalidade que habitamos, que é também a sua terra. Ainda hoje Ele é capaz de nos assombrar! Não nos deixemos levar por tantas vozes, pensamentos e impressões que nos afastam do Deus que nos inquieta, que nos desinstala, que faz abalar as nossas seguranças e convicções, os nossos preconceitos. Deixamo-nos muitas vezes condicionar por aspetos humanos e históricos e não nos abrimos a Deus, à sua graça que nos transcende e potencia o que de melhor há em nós.

Quantas vezes na relação com os doentes a quem assistimos, na relação com os colegas com quem construímos a missão, no convívio com as irmãs com quem partilhamos a vida, achamos que já sabemos tudo, que já conhecemos o suficiente, e nos fechamos à possibilidade de sermos surpreendidos porque nos encerramos na nossa razão e perspetiva! Há que deixar margem para a criatividade de Deus e as maravilhas que Ele pode realizar em cada pessoa.

Sabemos que o nosso Deus é um Deus surpreendente! É um Deus discreto, que passa numa brisa suave; um Deus que se faz presente nos momentos mais difíceis e incompreensíveis e os torna significativos… mas que também nos acompanha nas pequeninas coisas do dia a dia: é o Deus connosco! Ele sempre procura o simples, o frágil, o pobre, o desfigurado… é um Deus surpreendente, esbanjador!

Recordemos que Maria Angústias desejava fundar uma Congregação que fosse a admiração do Universo. E tantos se espantam diante da missão hospitaleira e da sua incompreensibilidade! Deus faz-se presente, revela-se amor e misericórdia para com os mais pequeninos! Deus manifesta-se muitas vezes na fraqueza e na fragilidade, na pobreza, na simplicidade, nas pessoas humildes e despretensiosas; não se manifesta na força, no poder, na riqueza, em qualidades excecionais! Tal como dizia Maria Angustias: “Quanto maior é a obra mais quer que faltem os meios humanos para nos fazer ver como é infinita a sua misericórdia na resposta às necessidades daqueles que lha pedem” (RMA, 62).

Jesus, vem à minha terra!

Quantas vezes me visitarás nesta terra que sou eu, e que é Tua? Quanta Palavra lidas e quantos ensinamentos proferidos por Tuas próprias palavras… e eu encarcerada nos meus preconceitos e na minha incredulidade de Te ter tão próximo, tão perto, que até Te posso tocar… e já não me assombro!!!

Dá-me, Senhor um coração dócil, um coração simples e humilde, dotado com a inocência e ingenuidade das crianças… que não julga, que não pensa que sabe tudo, ou que já sabe o suficiente, que já viu tudo e ouviu tudo… mas onde tenha lugar a fé!

Não uma fé qualquer!… mas uma fé que se deixa surpreender pela Tua forma original e criativa de romper os nossos esquemas; uma fé que Te acolhe como Deus esbanjador de graça e de proximidade!

Dá-me um olhar contemplativo, cheio de esperança, capaz de acreditar de novo e em pleno, a cada momento do meu dia – porque Tu estás perto!

Vem, Senhor à minha terra, à minha vida, que é Tua, e que possas encontrar fé para aí fazeres milagres, para te manifestares como és, capaz de transformar a minha vida, tornando-a semelhante à Tua!

Deixar-me surpreender…

É o meu desejo e a minha tarefa! Quero aprender a reconhecer os sinais da presença de Deus na minha rotina diária. E quando eu achar que sei tudo… que já nada me pode surpreender… mesmo aí, precisamente aí, eu abra espaço para o diálogo com Deus!

Identificar pessoas ou acontecimentos onde penso que já não pode haver outra leitura ou algo de novo… e falar com Deus sobre isso!

irmã Fernanda Oliveira

 
 

“Jesus, Profeta do Pai”

Jesus vai com seus discípulos até sua terra. Sua fama já havia se espalhado por toda a redondeza e fazia com que alguns o seguissem (Mc. 3,7-8). Suas palavras cheias de sabedoria e suas ações maravilhosas provocaram a curiosidade das pessoas sobre a identidade de Jesus, sobre quem ele é, quem são seus parentes. A origem humilde de Jesus é motivo de escândalo para os que o escutam e vêem (cf. Evangelho, v.3). Mas Jesus tem consciência de sua missão: é isso que anuncia a Aclamação ao Evangelho, que retoma o texto de Lucas 4, 18. É o Espírito do Senhor que unge Jesus e o envia para anunciar a Boa-Nova aos empobrecidos. É com essa consciência que Jesus conduz seu ministério, e declara: “um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares” (Mc. 6,4). De fato, a boa notícia que Jesus anunciava era recebida em meio a um conflito entre a aceitação e a rejeição de sua mensagem e de sua pessoa. É nessa perspectiva que a leitura da profecia de Ezequiel nos ajuda a entender ainda mais do ministério de Jesus. Ezequiel ouviu a voz de Deus que o mandou profetizar no meio dos israelitas de “cabeça dura e coração de pedra” (cf. I Leitura, v. 4).

Mas a mensagem do profeta é uma só: transmitir tudo o que ouviu do Senhor, sem o perigo de falsificar ou modificar essa Palavra de Deus. O profeta deve profetizar, ainda que as pessoas “rebeldes”, aquelas que se “afastaram” de Deus (cf. I Leitura, v. 3), não o escutem e nem façam adesão à sua mensagem. Nesse sentido, podemos compreender Jesus como o Profeta do Pai, aquele que é a Palavra de Deus pronunciada ao mundo para nos libertar da escravidão do pecado e nos fazer gozar das alegrias eternas (cf. Oração do Dia). Pela humilhação do Filho de Deus, em sua morte de cruz, é que se orienta a missão dos seguidores e seguidoras de Jesus. É isso que Paulo esclarece na carta aos coríntios (cf. II Leitura): a força se manifesta na fraqueza, precisamente porque os que se colocam no caminho do Senhor, não se exaltam a si mesmos, mas, abandonam-se a Ele para que a sua graça se manifeste.

 
 

“Um sábio que desconstrói saberes”

Neste 14º domingo do tempo comum prosseguimos com a leitura do evangelho de Marcos, interrompida pela festa de Pedro e Paulo, que nos colocou em contato com o evangelho de Mateus, desafiando-nos a uma adesão pessoal e radical a Jesus.

Como se sabe, Jesus não tinha formação cultural como os escribas, não foi aluno das escolas rabínicas, não discutia doutrinas, não possuía o poder sagrado dos sacerdotes e não pertencia a alguma família das elites. Era alguém sem nenhuma projeção social, conforme os padrões da época. Segundo o Evangelista Marcos, quando Jesus chega a Nazaré junto com seus discípulos, após sua jornada missionária, os moradores ficaram admirados pelo que dizia e fazia. Tinha grande sabedoria e suas mãos eram portadoras de uma força extraordinária. Seu ser atraía as pessoas. Não era um mestre da Lei que agregava discípulos, nem um doutrinador, mas um sábio que revelava Deus de uma forma desconcertante. Ensinava a viver pela força do amor que transmite saúde e alivia os sofrimentos. Era o “rosto da misericórdia de Pai”, e não o messias glorioso e poderoso. Assim, as pessoas de Nazaré não acolheram Jesus.

Neutralizaram sua presença, ou com a indiferença, ou com perguntas sem importância. Eram perguntas genéricas, de informações sobre, sinal do bloqueio interior e da autossuficiência de seus saberes. A boa Nova de Jesus encontrou corações bloqueados e Ele não conseguiu aproximar as pessoas do Pai, nem curar dos sofrimentos. O relato desta visita nos surpreende. Jesus foi rejeitado pelos de sua terra, entre aqueles que estavam mais próximos dele. Chegou a Nazaré e ninguém foi recebê-lo, como as multidões faziam em outros lugares. Também não levaram enfermos para que ele os curasse. Não acolhem a sabedoria de quem cresceu com eles e deles aprendeu o que significa o viver cotidiano dos pobres. Ocorreu com Jesus o que ocorre em nossas relações comunitárias e familiares. Não reconhecemos o saber de quem fez uma longa trajetória de aprendizagem no conviver diário. Jesus foi apenas reconhecido pelo seu exterior.

Para o encontro e a confiança mútuas, o caminho a percorrer é a superação do conhecimento somente exterior. Seus concidadãos só reconhecem tratar-se de “um deles”, o carpinteiro, o filho de Maria, irmãs e irmãos conhecidos. Como pode ser sábio assim? De onde vem a força de suas mãos? Jesus não pode ser entendido apenas a partir de fora. É preciso mergulhar no mistério da pessoa e então sim vamos deixar que nos ensine a viver com alegria, compaixão e vontade de criar um mundo mais justo.

irmã Zenilda Luzia Petry - IFSJ

 
 

Para realizar seus planos, Deus chama e envia pessoas para serem sua Voz no meio do Povo. As leituras falam de três exemplos: Ezequiel, Paulo e Jesus, um Profeta desterrado; um carpinteiro, filho de Maria; um que reconhece suas fraquezas.

Ezequiel 2,2-5 fala de sua missão. A vocação do profeta comporta três elementos: a Iniciativa é de Deus; o chamado é um filho de homem; a missão é anunciar a Palavra de Deus ao povo.

Em 2Cor. 12,7-10, Paulo fala da experiência das dificuldades encontradas no seu apostolado. E garante aos cristãos de Corinto, que Deus atua e manifesta seu poder no mundo através de instrumentos fracos e limitados. Deus garante a Paulo e a todos os que têm algum tipo de espinho: Basta-te a minha graça; pois é na fraqueza que a força se realiza plenamente.

Em Mc. 6,1-6, encontramos a experiência de Cristo. Jesus volta a Nazaré e ensina na sinagoga. O povo se admira da sabedoria, dos milagres… e se pergunta perplexo: Quem é esse homem? Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria? Este Jesus não podia ser o Messias esperado. Eles esperavam um guerreiro como Davi, um sábio como Salomão. Não um humilde carpinteiro. Eles o conhecem muito bem: o carpinteiro, filho de Maria, não pode ser o enviado de Deus… Sua Palavra escandaliza, sua mensagem gera oposição e sua vida cria conflitos. Não conseguem reconhecer em Jesus o Messias esperado e o rejeitam. Até os parentes de Jesus não aderem à sua mensagem. Jesus, decepcionado, conclui: Um Profeta não é estimado entre os seus. Mas, apesar da incompreensão, continuou fiel aos planos do Pai.

Quem são os profetas? Não são pessoas extintas do passado, mas uma realidade com que Deus continua a contar ainda hoje para intervir no mundo.

Todo batizado tem a sua história de vocação profética. O Profeta não é o encarregado de fazer milagres e prever o futuro. Deus espera dele uma coisa: que transmita a sua palavra. Deus não tem boca e precisa de alguém para ser a sua Voz. Para isso, deve escutar a mensagem de Deus e deixar que ela penetre até o íntimo do coração, e depois anunciá-la com entusiasmo e fidelidade.

Como desempenhar a missão de Profeta? Estar em comunhão com Deus e atento à realidade humana. Fala em nome de Deus para denunciar, para avisar, para corrigir.

A denúncia profética implica, muitas vezes, perseguição, sofrimento, marginalização e até morte.

Em geral, Deus não se manifesta na força, no poder, nas qualidades que os homens admiram. Ele se revela na fraqueza, na simplicidade, nas pessoas mais humildes e despretensiosas.

As nossas limitações humanas não são desculpas para não realizar a missão que Deus nos confia. Se ele nos pede um serviço, Ele também nos dará a força para superar os nossos limites e para cumprir o que nos pede.

Jesus não fez milagres em Nazaré, porque não acreditaram nele. Só a fé dá condições para que os milagres aconteçam. Diz-se que Santo de casa não faz milagre. Por que será? A culpa é dele ou nossa? Conhecemos pessoas, ignoradas ou rejeitadas na própria Comunidade, que fazem grande sucesso lá fora?  Por que será?

Vimos que Ezequiel, Paulo e Jesus não desistiram diante das dificuldades: lutaram e venceram. Nós também podemos nos sentir na mesma situação: o testemunho, que Deus nos chama a dar, realiza-se, também, nas incompreensões e oposições, ao nos sentir desanimados e frustrados por não sermos entendidos, acolhidos. Se temos a sensação de que perdemos tempo. Jesus nos convida a não desanimar, nem desistir: Ele sabe como transformar um fracasso num êxito.

Qual a nossa atitude? Nós continuamos a ser a “Voz” de Deus na comunidade, na família, mesmo diante das contrariedades e adversidades? Valorizamos as pessoas que atuam com dedicação em nossa comunidade, acolhendo-as como a “Voz” de Deus?

Façamos nossa profissão de fé, não apenas em Deus, mas também nas pessoas com quem convivemos. E veremos, que os santos de casa também farão milagres.

dom Antonio Emidio Vilar

 
 

Teimosia e incredulidade diante da mensagem de Cristo

As três leituras deste domingo nos apresentam um panorama nada agradável e consolador: a incredulidade e a teimosia de tantos diante da mensagem de Cristo. Onde não experimentamos isto, sobretudo nessas terras e nações opulentas, materialistas, empanturradas em si mesmas e fechadas à transcendência?

Em primeiro lugar, o pobre profeta Ezequiel (1ª leitura) experimentou essa teimosia e rejeição diante da mensagem de Deus que ele devia pregar. É enviado aos israelitas, aos rebeldes de Israel, teimosos e obstinados. Rebeldes pela sua apostasia e idolatria e também pela sua oposição contra Nabucodonosor, feita realidade na atitude de Jecomias e Sedecias na dos seus súditos contra o rei de Babilônia. Mas Ezequiel é fiel à sua missão e ele transmite as palavras de Deus, especialmente palavras de juízo, que Deus lhe entrega num rolo e que ele há de comer e assumir para fazê-las próprias. O resultado destas palavras de juízo será para o povo de Israel, lamentações, gemidos e ameaças (Ez. 2,10), mas para o profeta será algo doce como o mel (Ez. 3,3). Isto manifesta o implícito contraste da obediência de Ezequiel à voz divina com a rebeldia do povo de Israel. Ezequiel é um autêntico mártir no duplo sentido da palavra: testemunha e vítima. Mas ele se manterá firme na hostilidade e no isolamento que experimenta.

Em segundo lugar, no evangelho o mesmo Jesus sofreu também essa teimosia na sua própria terra; essa solidão e hostilidade. Que humilhação! Ele mesmo se estranhou porque não esperava isso e nem merecia. Prega na Sinagoga, mas a única coisa que consegue é que os seus paisanos se perguntem de onde lhe veem essa sabedoria e esses milagres que dizem fazer. Felizes deveriam estar e festejar que um grande profeta tenha saído do seu povoado! Mas não, não foi assim. Os seus conterrâneos sofrem de miopia espiritual; não veem nada da grandeza de Jesus, cegados pelas suas mesquinhezes e preocupações diárias. Por isso, não realizou muitos milagres entre eles, pois não são números de circo para sugestionar os curiosos e fazer gritar os exaltados. Não os fez, não porque não pudesse, já que era onipotente, mas porque esse povo não estava disposto para receber a fé que lhe oferecia. Esse povo não aceitou Deus com roupagem humano: detrás desse filho do carpinteiro se escondia o Verbo de Deus e o Salvador da humanidade. Pedra de escândalo foi Jesus para esses homens incrédulos! Desde aquele dia, Jesus se calará no seu povo. Se alguém pensa que na vida tudo são aplausos e saúde, é bom ler de novo o evangelho de hoje, para não se enganar.

Finalmente, também nós experimentamos esta teimosia. Paulo assim o experimentou (2ª leitura): açoites, cárcere, ameaças, perseguições. Quantas humilhações sofrem os pais de família por parte dos seus filhos ingratos! Quantas humilhações podem sofrer os trabalhadores dos seus chefes! E nas paróquias, quanta teimosia e pretensões de soberba de alguns que estão na frente dos grupos. Deus seguirá dizendo o que disse a Ezequiel: continua falando, embora não te deem bola. Se não te dão atenção, será responsabilidade deles. Devemos cuidar e acrescentar a nossa própria fé, e ao mesmo tempo não abrandar no nosso empenho de ajudar os demais também nesse crescimento da própria fé, sem esperar necessariamente frutos à curto prazo.

Para refletir: O que experimento quando sofro teimosias e hostilidade ao meu redor, por pregar e dar testemunho da minha fé em Cristo Jesus? Desanimo-me ou, ao contrário, cresço e peço forças a Deus?

Para rezar: Medita estas palavras: “Filho, se te aproximas para servir ao Senhor, prepara a tua alma para a prova. Corrige o teu coração, e fica firme, e não te angusties no tempo da adversidade. Junta-te a Ele e não te separes, para que sejas exaltado no final da tua vida. Tudo o que te acontecer, aceita, e nas humilhações, sê paciente. Porque no fogo se purifica o ouro, e os que agradam a Deus, no forno da humilhação. Confia Nele, e Ele te ajudará, endireita os teus caminhos e espera Nele. Os que temeis ao Senhor, aguardai a sua misericórdia, e não vos desvieis, não seja que caiais. Os que temeis ao Senhor, confiai Nele, e não vos faltará a recompensa. Os que temeis ao Senhor, esperai bens, gozo eterno e misericórdia” (Eclesiástico 2,1-22).

padre Antonio Rivero

 
 

"Teimosia e incredulidade diante da mensagem de Cristo"

A liturgia deste domingo revela que Deus chama, continuamente, pessoas para serem testemunhas no mundo do seu projeto de salvação. Não interessa se essas pessoas são frágeis e limitadas; a força de Deus revela-se através da fraqueza e da fragilidade desses instrumentos humanos que Deus escolhe e envia.

As três leituras deste domingo nos apresentam um panorama nada agradável e consolador: a incredulidade e a teimosia de tantos diante da mensagem de Cristo. Onde não experimentamos isto, sobretudo nessas terras e nações opulentas, materialistas, empanturradas em si mesmas e fechadas à transcendência?

A primeira leitura apresenta-nos um extrato do relato da vocação de Ezequiel. A vocação profética é aí apresentada como uma iniciativa de Deus, que chama um “filho de homem” (isto é, um homem “normal”, com os seus limites e fragilidades) para ser, no meio do seu Povo, a voz de Deus.

Na segunda leitura, Paulo assegura aos cristãos de Corinto (recorrendo ao seu exemplo pessoal) que Deus atua e manifesta o seu poder no mundo através de instrumentos débeis, finitos e limitados. Na ação do apóstolo – ser humano, vivendo na condição de finitude, de vulnerabilidade, de debilidade – manifesta-se ao mundo e aos homens a força e a vida de Deus.

O Evangelho, ao mostrar como Jesus foi recebido pelos seus conterrâneos em Nazaré, reafirma uma ideia que aparece também nas outras duas leituras deste domingo: Deus manifesta-Se aos homens na fraqueza e na fragilidade. Quando os homens se recusam a entender esta realidade, facilmente perdem a oportunidade de descobrir o Deus que vem ao seu encontro e de acolher os desafios que Deus lhes apresenta.

Comentários dos textos bíblicos

Em primeiro lugar, o pobre profeta Ezequiel (1 leitura) experimentou essa teimosia e rejeição diante da mensagem de Deus que ele devia pregar. É enviado aos israelitas, aos rebeldes de Israel, teimosos e obstinados. Rebeldes pela sua apostasia e idolatria e também pela sua oposição contra Nabucodonosor, feita realidade na atitude de Jecomias e Sedecias na dos seus súditos contra o rei de Babilônia. Mas Ezequiel é fiel à sua missão e ele transmite as palavras de Deus, especialmente palavras de juízo, que Deus lhe entrega num rolo e que ele há de comer e assumir para fazê-las próprias. O resultado destas palavras de juízo será para o povo de Israel, lamentações, gemidos e ameaças (Ez 2,10), mas para o profeta será algo doce como o mel (Ez 3,3). Isto manifesta o implícito contraste da obediência de Ezequiel à voz divina com a rebeldia do povo de Israel. Ezequiel é um autêntico mártir no duplo sentido da palavra: testemunha e vítima. Mas ele se manterá firme na hostilidade e no isolamento que experimenta.  

Em segundo lugar, no evangelho o mesmo Jesus sofreu também essa teimosia na sua própria terra (evangelho); essa solidão e hostilidade. Que humilhação! Ele mesmo se estranhou porque não esperava isso e nem merecia. Prega na Sinagoga, mas a única coisa que consegue é que os seus paisanos se perguntem de onde lhe veem essa sabedoria e esses milagres que dizem fazer. Felizes deveriam estar e festejar que um grande profeta tenha saído do seu povoado! Mas não, não foi assim. Os seus conterrâneos sofrem de miopia espiritual; não veem nada da grandeza de Jesus, cegados pelas suas mesquinhezes e preocupações diárias. Por isso, não realizou muitos milagres entre eles, pois não são números de circo para sugestionar os curiosos e fazer gritar os exaltados. Não os fez, não porque não pudesse, já que era onipotente, mas porque esse povo não estava disposto para receber a fé que lhe oferecia. Esse povo não aceitou Deus com roupagem humano: detrás desse filho do carpinteiro se escondia o Verbo de Deus e o Salvador da humanidade. Pedra de escândalo foi Jesus para esses homens incrédulos! Desde aquele dia, Jesus se calará no seu povo. Se alguém pensa que na vida tudo são aplausos e saúde, é bom ler de novo o evangelho de hoje, para não se enganar.

Finalmente, também nós experimentamos esta teimosia. Paulo assim o experimentou (2 leitura): açoites, cárcere, ameaças, perseguições. Quantas humilhações sofrem os pais de família por parte dos seus filhos ingratos! Quantas humilhações podem sofrer os trabalhadores dos seus chefes! E nas paróquias, quanta teimosia e pretensões de soberba de alguns que estão na frente dos grupos. Deus seguirá dizendo o que disse a Ezequiel: continua falando, embora não te deem bola. Se não te dão atenção, será responsabilidade deles. Devemos cuidar e acrescentar a nossa própria fé, e ao mesmo tempo não abrandar no nosso empenho de ajudar os demais também nesse crescimento da própria fé, sem esperar necessariamente frutos à curto prazo.

Para refletir

O Evangelho deste Domingo apresenta-nos Jesus na sua Nazaré. Ali mesmo, na sua própria cidade, onde nascera e fora criado, os seus o rejeitam: “’Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão? Suas irmãs não moram aqui conosco?’ E ficaram escandalizados por causa dele”. Assim, cumpre-se mais uma vez a Escritura: “Veio para o que era seu e os seus não o receberam” (Jo 1,11). E a falta de fé foi tão grande, a dureza de coração, tão intensa, a teimosia, tão pertinaz, que São Marcos afirma, de modo surpreendente: “Ali não pôde fazer milagre algum!”, tão grande era a falta de fé daquele povo.

Meus caros, pensemos bem na advertência que esta Palavra de Deus nos faz! O próprio Filho do Pai, em pessoa, esteve no meio do seu povo, conviveu com ele, falou-lhe, sorriu-lhe, abraçou-lhe e, no entanto, não foi reconhecido pelos seus. E por quê? Pela dureza de coração, pela insistência teimosa em esperar um messias de encomenda, sob medida, a seu bel prazer… Valia bem para Israel a censura da primeira leitura de hoje, na qual o Senhor Deus se dirige a seu servo: “Filho do homem, eu te envio aos israelitas, nação de rebeldes, que se afastaram de mim. A estes filhos de cabeça dura e coração de pedra, vou-te enviar, e tu lhes dirás: ‘Assim fala o Senhor Deus’. Quer escutem, quer não, ficarão sabendo que houve entre eles um profeta!” Que coisa tremenda, meus caros: houve entre os israelitas um profeta, e mais que um profeta: o Filho de Deus, o Eterno, o Filho amado… E Israel o rejeitou!

Mas, deixemos Israel. E nós? Acolhemos o Senhor que nos vem? Escutamos com fé sua Palavra, quando ele se dirige a nós na Escritura, aquecendo nosso coração? Acolhemo-lo na obediência da fé, quando ele se nos dirige pela boca da sua Igreja católica, ensinando-nos o caminho da vida? Acolhemo-lo, quando nos fala pela boca de seus profetas? Não tenhamos tanta certeza de que somos melhores que aqueles de Nazaré! Aliás, é bom que nos perguntemos: por que os nazarenos não foram capazes de reconhecer Jesus como Messias? Já lhes disse: porque o Senhor não era um messias do jeito que eles esperavam: um simples fazedor de milagres, um resolvedor de problemas… Jesus, pobre, manso, humilde, era também exigente e pedia do povo a conversão de coração. Mas, há também uma outra razão para os nazarenos rejeitarem Jesus: eles foram incapazes de ver além das aparências. De fato, enxergaram em Jesus somente o filho de José, aquele que correra e brincara nas suas praças, aquele ao qual eles haviam visto crescer. Assim, sem conseguir olhar com mais profundidade, empacaram na descrença. Mas, nós, conseguimos olhar com profundidade? Somos capazes de escutar na voz dos ministros de Cristo a própria voz do Senhor? Somos sábios o bastante para ouvir na voz da Igreja a voz de Cristo?

É exatamente pela tendência nossa, tremenda, de sermos surdos ao Senhor, que Jesus tanto sofreu e que Paulo se queixava das dificuldades do seu ministério. O Apóstolo fala de um anjo de Satanás que o esbofeteava. Que anjo era esse? Ele mesmo explica: suas “fraquezas, injúrias, necessidades, perseguições e angústias sofridas por amor de Cristo”. O drama de Paulo é uma forte exortação aos pregadores do Evangelho e a todos os cristãos. Aos pregadores do Evangelho essa palavra do Apóstolo recorda que o anúncio será sempre numa situação de pobreza humana, de apertos e contradições. A evangelização, caríssimos, não é um trabalho de marketing televisivo como vemos algumas vezes nos “missionários” dos meios de comunicação. O Evangelho do Cristo crucificado e ressuscitado, é proclamado não somente pela palavra do pregador, mas também pela carne de sua vida. Como proclamar a Palavra sem sofrer por ela? Como anunciar o Crucificado que ressuscitou sem participar da sua cruz na esperança firme da sua ressurreição? O Evangelho não é uma teoria, não é um sistema filosófico. O Evangelho é Cristo Jesus encarnado na nossa vida, de modo que possamos dizer como São Paulo: “Eu trago no meu corpo as marcas de Jesus” (Gl 6,17) Triste do pregador que pensar em anunciar Jesus conservando-se para si mesmo. Um diácono, um padre, um bispo, que quisessem se poupar, que separasse a pregação do seu modo de viver, que fosse pregador de ocasião, tornar-se-ia um falso profeta, transformar-se-ia em marketeiro do Evangelho, portanto, inútil e estéril. É toda a vida do pregador que deve ser envolvida na pregação: seu modo de viver, de agir, de vestir, de relacionar-se com os bens materiais, sua vida afetiva, seu modo de divertir-se, seu tipo de amizade… Tudo nele dever ser comprometido com o Senhor e para o Senhor!

Mas, essa palavra de São Paulo na liturgia de hoje vale também para cada cristão. Hoje, somos minoria. O mundo não-crente, secularizado zomba de nós e já não crê no anúncio de Cristo que lhe fazemos. Sentimos isso na pela! Pois bem, quando experimentarmos a frieza e a dura rejeição, quando em casa, no trabalho, nos círculos de amizades, formos ignorados ou ridicularizados por sermos de Cristo, recordemos do Evangelho de hoje, recordemo-nos dos sofrimentos dos apóstolos e retomemos a esperança: o caminho de Cristo é também o nosso; se sofrermos com ele, com ele reinaremo; se morrermos com ele, com ele viveremos (cf. 2Tm. 2,11-12) Não tenhamos medo: nós somos as testemunhas, os profetas, os sinais de luz que Deus envia ao mundo de hoje! Sejamos fiéis: o Senhor está conosco, hoje e sempre. Amém.

 

 
 

As leituras deste domingo nos mostram que Ezequiel e mesmo Jesus não foram aceitos. Sim, o próprio Filho de Deus foi rejeitado em sua terra, pelos seus vizinhos e até mesmo  pelos seu parentes. Os profetas não são escutados, são motivos de zombarias, são perseguidos e até mortos. Ou porque não se acredita naqueles que são muito próximos, ou porque a palavra é dura, uma verdade que dilacera a alma.

Não precisamos ir muito longe para encontrar profetas (apesar da sua escassez). Certamente, não muito distante de nós há alguém que grita com sua palavra ou com seu silêncio. Porém, é ainda mais fácil se render ao que causa menos impacto.

A reflexão deste domingo gira em torno da escolha ou da rejeição. E por que escolhemos certas coisas ou não? Nós fazemos opções e nos dedicamos pelo que escolhemos. São essas escolhas certas, e também não tão certas. Por que somos capazes de não escolher o Cristo e seus profetas, para aceitar outras vozes que ecoam ao nosso redor? Certamente o mal nos engana muitas vezes.

Um caminho para melhorar nossas escolhas seria fugir de nossos egos, tentar evitar as escolhas definitivamente más. Mas há outro caminho mais interessante: procurar aplicar energia no que realmente tem valor. Colocar energia no bem, ao invés de gastá-la evitando o mal. As opções concretas da nossa vida, aquilo que escolhemos e daquilo que rejeitamos dependem do nosso desejo.  O que mexe com o centro volitivo de nosso ser, o que é feito por paixão tem mais chance de dar certo, enquanto que as coisas que não mexem com nosso desejo ficam pelo caminho.

Precisamos, portanto, encontrar onde está o nosso desejo e aplica-lo bem. Precisamos mudar a energia de direção, de vez em quando. Enquanto vivermos a esperança de São Paulo, queria fazer o bem e não conseguia, enquanto formos como os galileus que rejeitaram o filho do carpinteiro, precisamos pensar sobre o nosso desejo. A voz do homem velho ainda fala em nós.

São Paulo tinha paixão, tinha desejo. Desejava Deus e brigava pelas suas convicções. Mas em certos momentos, não suportava suas dores e, suas cruzes. Então ele pedia: “Senhor, tira o meu sofrimento” (2Cor. 12,8). E Deus respondia “Basta-te a minha graça” (2Cor. 12,9). E São Paulo entendia que seu desejo ainda não estava totalmente direcionado para o Senhor, compreendia que era um homem  fraco. Mas na sua fraqueza se manifestava a força de Deus. E veja que ele clamou por três vezes. E quem vai dizer que São Paulo não tinha fé para alcançar uma graça? E, certamente, alcançou a graça, segundo o desígnio de Deus.

Na nossa fraqueza, no nosso pecado, no nosso desejo ainda tão egoísta, na nossa rejeição pelo verdadeiro Deus, na nossa cruz, no nosso medo se manifesta a força de Deus. Por isso, aceitamos nossas fraquezas, não a ignoremos. As sombras são em certa medida o que nos faz ver a luz. Tenhamos consciência de nossos desejos, pois isso nos faz humanos. Mas tenhamos a certeza que a fraqueza humana está a força Daquele que se fez fraqueza por nós. Tornou-se fraco para, na nossa fraqueza, fazer-nos fortes.

padre Roberto Nentwig

 

 
 

Fraqueza forte de Deus

Quando o culto era impossível em Israel, naquela situação de diáspora, o sacerdote Ezequiel acompanhou o povo no exílio da Babilônia num mundo pagão (cf. Ez. 2,2-5) sendo investido de uma maior responsabilidade: “Eu te envio aos israelitas, nação de rebeldes, que se afastaram de mim… que se revoltaram contra mim. A estes filhos de cabeça dura e coração de pedra, vou te enviar”.

Deus chama Ezequiel para que com a sua Palavra fortaleça a fé do seu povo no exilio. O envio desse homem é mais um sinal do amor de Deus ao seu povo. Deus queria a sua conversão porque o amava. Até aos dias de hoje, nunca desistiu nem desistirá de chamá-lo aos caminhos da felicidade.

Ao sacerdote e profeta o Senhor não lhe enviava enganado, mas sim o advertiu claramente sobre a possibilidade de que os seus ouvintes não fossem precisamente um “público agradecido”, esse público que desejamos ter à nossa frente. O profeta deverá falar-lhes em seu nome, como seu porta-voz, mesmo ante a fácil previsão de que não o escutarão.

A experiência da presença e da grandeza de Deus e da debilidade do seu profeta foi para Ezequiel tão forte que ele cai por terra, mas “o Espírito entrou em mim e me fez levantar” e o mantém em pé! Ezequiel, cujo nome significa “Deus é forte”, vai necessitar toda essa fortaleza divina para cumprir sua difícil missão profética.

O Apóstolo Paulo (cf. 2Cor. 12,7-10) também aprendeu a reconhecer e a apreciar o mistério da “fraqueza forte” de Deus. É só na fragilidade do apóstolo que pode exprimir-se o poder de Deus. É uma grande revelação para Paulo que grita: “Quando eu me sinto fraco, é então que sou forte”.

Deus manifesta-se à humanidade na fraqueza e na fragilidade. Normalmente, Ele não se manifesta na força, no poder, nas qualidades que o mundo acha brilhantes e que as pessoas admiram e endeusam; mas, muitas vezes, Ele vem ao nosso encontro na fraqueza, na simplicidade, na debilidade, na pobreza, nas situações mais simples e banais, nas pessoas mais humildes e despretensiosas…

É preciso que interiorizemos a lógica de Deus, para que não percamos a oportunidade de encontrá-lo, de reconhecê-lo em sua encarnação na fragilidade humana e perceber os seus desafios, de acolher a proposta de vida que Ele nos faz.

Jesus volta a Nazaré (cf. Mc. 6,1-6) sua terra, rincão risonho e escondido da Galiléia, cenário e marco de sua vida oculta feita de cotidianidade, da simples convivência familiar, sem nada de extraordinário ou fantástico. Dia a dia de pequenos deveres, de um simples trabalho, mas ocasião para oferecer ao Senhor com delicadeza e carinho esses retalhos de vida que vão ora ficando ao lado ora compondo a nossa história de vida.

Como judeu piedoso e cumpridor da Lei Jesus foi à sinagoga de Nazaré no dia de sábado, dia sagrado na lei de Moisés. Fazendo uso da palavra que tinha direito qualquer um dos assistentes na liturgia sinagogal judaica começa a falar. Não sabemos o conteúdo da sua homilia, sabemos apenas que suas palavras transcendem sabedoria, força e luz para quem lhe escuta com boa disposição.

Já para quem ouve com espírito critico, essas mesmas palavras provocam a desconfiança e até o escândalo: “De onde recebeu ele tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses grandes milagres que são realizados por suas mãos? Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria…” (vv. 2-3)

No meio dos seus conterrâneos, entre aqueles que o conhecem desde pequeno e conhecem a sua família Jesus só encontra perplexidade, preconceito, escândalo, enfim rejeição. Como diz o quarto Evangelho: “Veio para o que era seu e os seus não o receberam.” (Jo 1,11)

Nem sempre a pregação de Jesus foi acolhida com entusiasmo e fé, mas certamente foi em Nazaré que obteve um resultado pior do que em qualquer outro lugar. Jesus cita então um antigo provérbio: “Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares”. (v. 4)

A recusa generalizada da proposta que Jesus traz coloca-o na linha dos grandes profetas de Israel. O povo teve sempre dificuldade em reconhecer o Deus que vinha ao seu encontro na Palavra e nos gestos proféticos. O fato de as propostas apresentadas por Jesus serem rejeitadas pelos líderes religiosos, pelo povo da sua terra, pelos seus “irmãos e irmãs” e até pelos da sua casa não invalida, portanto, a sua verdade e a sua procedência divina.

Na recusa dos habitantes de Nazaré, fica claro que não podemos nos deixar levar pelo espírito crítico quando escutamos quem nos fala em nome de Deus. Por trás das aparências da palavra humana temos que descobrir o brilho da Palavra Divina.

Cada cristão deve ser um eco profético da voz de Deus. Mas não é fácil ser profeta, em nenhum tempo o foi. A cristandade acabou na maioria dos lugares do mundo. O catolicismo oficial e massivo passou na história. É melhor que seja assim, para que a vivência da nossa fé seja mais pura.

Não devemos cair num pessimismo injustificável. Jesus não cede, embora criticado, “percorria os povoados das redondezas, ensinando”. (v. 6) É o que deve fazer o cristão ou a Igreja, embora igualmente criticada e rejeitada têem como missão recebida do Alto fazer e pregar o bem, quer escutem, quer não escutem e deve cumprir.  

Esta cena da sinagoga de Nazaré não é algo que se passou e não se repete. É um caso que está se dando constantemente entre nós, entre os que nos sentamos nas nossas reuniões “religiosas” e recusamos rotundamente a pessoa quando não nos agrada e não cumpre os cânones dos quais consideramos perfeitos e consagrados.

O milagre não foi possível em Nazaré. O milagre se encontra principalmente na interpretação de um fato como ação salvadora de Deus. Sem a fé das testemunhas de uma cura não pode haver milagre.

Neste caso, os atos de Jesus não foram “lidos” a partir de uma ótica de fé, e o milagre não foi possível. Só a fé faz possível o milagre.

padre José Assis Pereira

 
 

A liturgia de hoje fala-nos da missão dos profetas através dos tempos.

O Profeta é enviado por Deus para falar em seu nome, apontar caminhos, denuncia do mal, corrigir o que é contra a vontade de Deus. Por isso não é fácil a missão do Profeta. Jesus volta a Nazaré, a terra onde nascera e passara a infância e adolescência. Regressa, depois de 40 dias passados no deserto, de ter recebido o batismo de João e de ter começado a Sua vida pública. A fama dos milagres que fizera, das coisas que ensinava, tinha já chegado a Nazaré. Mas agora, não era apenas uma notícia vaga e abstrata que ouviam. Era Ele mesmo que estava ali, diante deles, ensinando na sinagoga. Encontrava-se no meio dos seus amigos e familiares, entre aqueles com quem convivera durante muitos anos. Todos O conheciam, era o filho do carpinteiro; tinha decerto trabalhado para muitos deles. E o espanto que sentiam depressa se transformou em escândalo. Como é possível que isto aconteça? De onde lhe vem esta autoridade? Há nestas palavras um tom de censura, uma vontade de pôr cobro ao que lhes parecia um abuso de autoridade. Como podia Jesus fazer milagres e permitir-se falar em nome de Deus? Jesus mostra pela consciência da hostilidade com que é recebido ao afirmar: «ninguém é profeta na sua terra». O que querará ele dizer-nos, hoje, através deste episódio da sua vida? Sabemos que, pelo batismo que recebemos, também nós somos chamados a ser profetas; temos a missão de anunciar Deus e o Seu Reino, não necessariamente em terras longínquas, mas no local onde vivemos. Se um de nós não cumpre esta missão, no terreno que pisa todos os dias, entre aqueles com quem trabalha e convive, ninguém o pode substituir aí, nesse local e nesse momento. Por isso a missão profética exige um envolvimento total com a comunidade: a família, os companheiros de trabalho, colegas de escola, um relacionamento aberto, uma partilha de vida e de fé. Mas são precisamente estas condições que tornam difícil esta missão profética de batizados. No nosso meio, na nossa família, em casa, no trabalho e na escola, podemos encontrar resistência, dificuldade em sermos aceites com o testemunho que damos. Tal como aconteceu com Jesus. Mas como diz São Paulo, é quando nos sentimos fracos, que somos fortes. Porque, ao termos consciência das nossas dificuldades e limitações, estamos prontos a abrir o coração a Deus, deixar que o Espírito atue e se manifeste através de nós e faça maravilhas. Com a graça de Deus, que nunca nos abandona, iremos até onde Ele nos enviar, confiantes e seguros de que o Espírito transforma em força a nossa fraqueza.