Jesus não aceito, desprezado em Nazaré.

Os estudiosos costumam dizer que a primeira parte do Evangelho de Marcos (que termina da “Confissão de Pedro”) se divide em varias partes menores; cada uma destas partes começa com um resumo – normalmente chamado “sumario” – da vida de Jesus; depois de cada uma delas vem uma referencia aos apóstolos. Nesse esquema, o evangelho de hoje é o fim da segunda das três pequenas partes que se caracterizam por um aumento progressivo no conflito que Jesus provoca ao encontrar-se com ele.

O texto marca o ponto chave: Jesus – que é apresentado aqui como profeta – se encontra com a absoluta falta de fé dos seus amigos e parentes. O “fracasso” de Jesus vai se acentuando: na terceira parte já começa a pressentir a “derrota” do Senhor  antecipada na morte do Batista. É característica do Evangelho de Marcos apresentar a seus destinatários o aparente fracasso, a solidão, o escândalo da cruz de Jesus. Essa cruz é partilhada com todos os perseguidos por causa do seu nome, como o é a comunidade de Marcos.

Em toda a segunda parte do Evangelho encontramos Jesus tratando – a sós com os seus – de revelar-lhes o sentido de um “Messias crucificado” que será plenamente descoberto pelo centurião – na ausência de qualquer sinal exterior que o justifique – como o “Filho de Deus”. Os habitantes de Nazaré não dão crédito a seus ouvidos: de onde lhe vem isso que ensina na sinagoga? “A este nós o conhecemos e também a seus parentes”. A sabedoria com a qual fala, os sinais do Reino que saem de sua vida, não parecem coerentes com o que eles conhecem. Aí está o problema: “com o que ele s conhecem”.

É que a novidade de Deus sempre está mais além do conhecido, sempre mais além do aparentemente “sabido”; porém, não um mais além do “celestial”, mas um “mais além” do que esperávamos, porém “mais aqui” do que imaginávamos; não estamos longe da alegria de Jesus porque “Deus ocultou estas coisas aos sábios e prudentes e as revelou aos simples”, não estamos longe da incompreensão das parábolas: não por serem difíceis, mas precisamente ao contrário, por serem simples.

O “Seus sempre maior” desconcerta e isto leva a que falte a fé se não estamos abertos à gratuidade e à eterna novidade de Deus, à sua proximidade. Por isso, pela falta de fé, Jesus não pode fazer ali muitos milagres. Quem não descobre nele os sinais do Reino, não poderão crescer em sua fé e não descobrirão então, que Jesus é o enviado de Deus, o profeta que vem anunciar um Reino de Boas notícias. Isto é escândalo para quem não pode aceitar Jesus porque nenhum profeta é bem recebido em sua própria pátria.

E talvez também a nós nos escandalize. Jesus é olhado com os olhos dos seus conterrâneos como uma pessoa a mais. Não souberam ver nele um profeta. Um profeta é alguém que fala em nome de Deus. Custa muito reconhecer em quem é visto como um de nós: é difícil reconhecer nele alguém que Deus escolheu e enviou. Custa pensar que estes tempo em que vivemos são tempos especiais e preparados por Deus (kairós) desde sempre. Porém, nesse momento específico, Deus escolheu um homem específico, para que pronuncie sua palavra de Boas Noticias para o povo, cansado e abatido por tantas noticias más.

Não é fácil reconhecer a passagem de Deus pela nossa vida, especialmente quando essa passagem se reveste de roupagem comum, como um de nós. Às vezes gostaríamos que Deus se manifestasse de maneira espetacular, tipo “Hollywood”, porém o enviado de Deus, seu próprio Filho, participa de nossas mesas, caminha nossos passos e veste nossas roupas. É alguém que conhecemos, porém não o reconhecemos. Sua palavra é uma palavra que Deus pronuncia e com a qual Deus mesmo nos fala. Suas mãos de trabalhador comum são mãos que realizam sinais, porém com muita freqüência nossos olhos não estão preparados para ver nesses sinais a presença da passagem de Deus em nossa historia.

Muitas vezes não conseguimos perceber a passagem de Deus em nossa historia, não conseguimos reconhecer nossos profetas. É sempre mais fácil esperar os casos extraordinários e espetaculares ou olhar alguém de fora. É muito mais “espetacular” olhar um testemunho em Cualcutá do que cem mil irmãos e irmãs pelas terras da América Latina que trabalham, se gastam e se desgastam trabalhando pela vida, ainda que lhes custe a vida.

É muito mais maravilhoso olhar os milagres anunciados pelos pregadores itinerantes e televisivos, que aceitar o sinal cotidiano da solidariedade e a fraternidade. É muito mais fácil esperar e escapara para uma manhã que talvez venha, do que ver a passagem de Deus em nosso tempo e semear a semente de vida e esperança no tempo e no espaço de nossa própria historia. Tudo isso será mais fácil, porém, não estaríamos deixando Jesus passar longe?

Oração: Ó Deus, Pai nosso, que continuamente nos convidais à conversão, nós te pedimos que abras nossos ouvidos e nossos corações a fim de que estejamos sempre atentos à tua palavra para que nos deixemos transformar por ela e a pratiquemos com entusiasmo.

 

 

“Um profeta só não é estimado em sua pátria!”

Jesus foi para sua terra, acompanhado de seus discípulos. Chegado o sábado, pôs-se a ensinar na sinagoga. Muitos que o ouviam se admiravam e diziam: “Donde lhe vem tudo isso? Que sabedoria é essa que lhe foi dada? E estes milagres que se fazem por suas mãos? Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria o, irmão de Tiago, de José, de Judas e Simão? E as suas irmãs não vivem aqui entre nós?” E não queriam acreditar nele. Jesus, porém, lhes dizia: “Um profeta só é desprezado em sua terra, entre seus parentes e em sua própria casa”. E não pôde fazer ali nenhum milagre. Curou apenas alguns doentes, impondo-lhes as mãos. E ficou admirado com a falta de fé deles.

Comentário

Vamos iniciar nossa meditação de hoje desejando muita paz para você conterrânea e conterrâneo amigo. Conterrâneo... essa palavra é bastante utilizada no norte e nordeste do Brasil e tem o mesmo significado de concidadão, compatriota ou patrício. São pessoas nascidas na mesma terra, na mesma cidade.

No evangelho de hoje, Jesus aparece entre seus amigos, muitos talvez, amigos de infância. Rodeado por pessoas, de todas as idades, que o conheciam desde pequeno. Muitos dos presentes devem ter frequentado a mesma escola e partilhado, com Ele, dos mesmos brinquedos.

Sabendo de tudo isso, não conseguiam aceitar que um "conterrâneo", alguém nascido e criado ali, pudesse demonstrar tanta sabedoria e realizar milagres. É muito difícil de aceitar que as virtudes possam estar presentes nas pessoas humildes ou num simples carpinteiro da região.

Esse modo de analisar as pessoas também é utilizado para analisar os produtos industrializados. Assim como eu, você também já deve ter comprado eletro-eletrônicos, eletrodomésticos, roupas, relógios, brinquedos e outras centenas de produtos importados, crente que eles nunca iriam quebrar.

O simples fato de serem importados traz a sensação de serem superiores em qualidade e resistência. Parecem até mais bonitos e bem acabados que os nossos. Chega a ser desleal a concorrência quando comparamos esses produtos com os nacionais. Por mais que se queira disfarçar, existe um grande preconceito quanto aos produtos fabricados internamente em relação aos importados.

O mesmo acontece com as pessoas, profissões e entidades. Não vamos contestar os recursos técnicos e a capacidade de alguns profissionais, mas a verdade é que esperamos verdadeiros milagres dos médicos do exterior e, diante de uma simples dor de cabeça, não acreditamos no poder de cura do analgésico, só porque foi receitado pelo médico do Posto de Saúde.

Os mais abastados fretam avião, hospedam-se em hotéis luxuosos e pagam "fortunas" por uma consulta médica no exterior, enquanto em sua terra estão excelentes profissionais, muito conhecidos e afamados lá fora.

Mas, pelo visto, não é novidade esse modo de pensar e agir. Jesus também foi rejeitado, teve que exercer seu ministério longe da sua terra.

O evangelista diz que: "Ficaram escandalizados por causa dele". Seus amigos e vizinhos se escandalizaram com a sabedoria, com as palavras e com os milagres que estava fazendo um simples jovem, filho daquela terra.

Também não é novidade que o profeta não é bem aceito. As palavras do profeta incomodam, machucam. Geralmente, não é bem vindo quem diz verdades, quem luta por igualdade e prega honestidade e amor. Esse é simplesmente afastado, expulso de nosso convívio.

Não quero parecer maldoso, mas quantas vezes recebemos como verdadeiro herói aquele mau caráter de colarinho branco. Cheios de admiração enaltecemos aquele que lesa as pessoas e o patrimônio público. Não raro, até banda de música está presente na recepção.

Jesus ficou admirado com a falta de fé que encontrou, e ali não fez nenhum milagre. Magoado com tudo que presenciou, diante da incompreensão do povo, Jesus foi procurar nos povoados da redondeza, pessoas que fizessem por merecer seus milagres. Dois mil anos se passaram. Imagine Jesus chegando agora em nosso “povoado”... será que não irá se decepcionar novamente?

Jorge Lorente

 

 

Jesus em sua terra

Saindo dali, foi para a sua pátria e os seus discípulos o seguiram. Vindo o sábado, começou Ele a ensinar na sinagoga e numerosos ouvintes ficavam maravilhados, dizendo: "De onde lhe vem tudo isso? E que sabedoria é esta que lhe foi dada? E como se fazem tais milagres por suas mãos? Não é este o carpinteiro, o filho de Maria, irmão de Tiago, José, Judas e Simão? E as suas irmãs não estão aqui entre nós?". E escandalizavam-se dele. E Jesus lhes dizia: "Um profeta só é desprezado em sua pátria, em sua parentela e em sua casa". E não podia realizar ali nenhum milagre, a não ser algumas curas de enfermos, impondo-lhes as mãos. E admirou-se da incredulidade deles. E Ele percorria os povoados circunvizinhos, ensinando.

O trecho do evangelho nos descreve a visita de Jesus a Nazaré, a cidade em que cresceu, onde havia trabalhado e tinha muitos parentes. Retornava agora como mestre, já aclamado pelas multidões e precedido também pela firma de operador de milagres: seguia-o um grupo de discípulos que já acreditavam em sua palavra.

Como sempre, Jesus vai à sinagoga, justamente no dia de sábado, quando os hebreus a frequentavam em grande número, e coloca-se a falar. Marcos não nos diz o que Jesus falou; mas quase certamente terá comentado qualquer trecho da bíblia, no qual se podia entrever a figura do Messias prometido, esperado por todo o Israel, como nos atesta o trecho paralelo de Lucas (4,14-30). Todo o povo ficou "admirado" com as novas e interessantes coisas que ele dizia e também pela "graça" (Lc. 4,22) com que falava. E se perguntavam curiosos: "De onde vem tudo isto? Onde foi que arranjou tanta sabedoria? E esses milagres que são realizados pelas mãos dele?" (v. 2).

Mas neste ponto da cena se transtornam: da admiração passam a uma tomada de distância, a uma espécie de difamação, pois conhecem bem a sua família e seus parentes, todas pessoas muito modestas para se pensar que daquele ambiente pudesse surgir o Messias (v. 3).

O escândalo não significa aqui algo moralmente indecoroso; mas algo pior: remete a uma "pedra de escândalo", em que se tropeça, que nos faz cair, que atrapalha nosso caminho. É o escândalo da fé, que não nos permite ir além daquele pouco que se vê ou se toca com as mãos, como se o mistério de Deus fosse encerrado nos sistemas lógicos do nosso pensar!

A admiração inicial, que fazia entrever algo grande naquele conterrâneo, apagou-se diante das considerações mesquinhas que colocavam Jesus em dimensões meramente provincianas.

Jesus fica evidentemente contrariado com a acolhida de seus conterrâneos (v. 4). E como reação, parece querer puni-los renunciando a operar milagres.

Na verdade, é que naquelas condições não se podia operar milagres!

O milagre, de fato, se põe em um contexto de fé, que pressupõe confiança e entrega ao enviado de Deus; na falta destas condições, o milagre reduzir-se-ia a um mero espetáculo de circo.

Por outro lado, Jesus bens sabe que os profetas têm logo, quase todos, um destino de rejeição e de martírio, ao longo de toda a história de Israel.

padre Fernando Armellini - Celebrando a Palavra

 temas de pregação dos padres dominicanos

Revista “O Mílite”

 

 

Os missionários do reino

A palavra de Deus brota das páginas do livro Sagrado com a limpidez e a serenidade da água que escorre de uma fonte. E vai matando nossa sede de bem e de verdade. Hoje estamos lendo, na redação de São Marcos, um episódio narrado pelos três sinópticos: Jesus enviando os apóstolos numa primeira viagem missionária. Não era ainda a missão definitiva. Era uma missão que podemos chamar de experimental, destinada ao ambiente judeu e não estendida ainda ao mundo dos gentios. Os conselhos e as recomendações que Jesus Ihes dá valem para eles e, com as devidas transposições, valem também para todos os pregoeiros do Evangelho.

E poderíamos começar lembrando que eles são enviados, são mandados por Deus. Como no Antigo Testamento Deus mandava seus profetas, no Novo Testamento Jesus - que é o Deus-conosco - manda seus apóstolos. Aliás, "apóstolo" é o nome grego correspondente ao latim "missus", que significa exatamente "aquele que é enviado". No caso, enviado por Deus. É lamentável que haja por aí tanto "missionário", que se arroga esse direito - inclusive por deploráveis interesses pecuniários - e vão iludindo os simples e provocando a maior confusão de idéias sobre os valores espirituais.

Noutro .lugar do Evangelho Jesus nos acautela sobre os falsos profetas. Houve-os sempre. Como houve no tempo do profeta Amós, como se pode depreender do breve trecho de seu livro que a liturgia nos oferece como primeira leitura. Amós não era um profeta áulico, como era o sacerdote Amasias do santuário de Betel, a serviço do rei Jeroboão.

Seu poder vinha de Deus, que o chamara de seu humilde ofício de pastor e de cultivador de sicômoros para anunciar a palavra do Senhor, não os caprichos do Rei. Por isso mesmo ele tem palavras do fogo para condenar os abusos dos grandes, que com seu luxo e sua cobiça oprimiam os humildes.

Amós, profeta não por sua vontade mas pela vontade de Deus, gozava de uma nobre independência. Não estava ligado a compromissos com a corte, nem com quaisquer interesses mundanos. Como devem ser os pregoeiros do Evangelho. Desapegados de qualquer empecilho terreno. Leves no corpo e no espírito, para o perfeito cumprimento de sua tarefa sobrenatural. Como disse Jesus aos seus apóstolos para a sua missão inaugural: "Que nada levassem para o caminho, a não ser um cajado apenas; nem pão, nem alforje, nem dinheiro no cinto. Mas que andassem calçados com sandálias e não levassem duas túnicas" (Mc 6,8-9).

E só transpor isso para os costumes de hoje, e teremos a figura de um missionário sóbrio, sem exigências, cheio de entrega nas mãos da Providência.

E de Jesus receberam a missão de anunciar o Reino de Deus e pregar a conversão. Onde entra o Reino, que é feito de amor, de verdade e de justiça, os corações se vão mudando.

Acontece a "metanoia", isto é a mudança de mentalidade. Como a Luz dissipa as trevas, os valores do Reino vão afastando o erro e a mentira, a Injustiça e a discriminação, o ódio e a violência. Receberam ainda o poder de expulsar os demônios, sinal certo de que tinham chegado os tempos messiânicos. Faziam também curas, ungindo os enfermos com óleo, preludiando o sacramento dos enfermos, como diz o Concílio Tridentino a respeito desse sacramento: instituído por Cristo, insinuado no Evangelho de Marcos, promulgado e recomendado aos fiéis pelo apóstolo são Tiago (cf. Conc. Tridentino, sessão XIV).

E não deixa de ter um profundo significado também o fato de Jesus os enviar dois a dois. Era a caridade fraterna em ação. Era a condenação do egoísmo e da auto - suficiência. Isso também falava eloqüentemente ao coração dos ouvintes desses profetas do Novo Testamento.

A Igreja, que é toda ela missionária, enviada para o mundo dentro do qual vivemos, tem que ter sempre diante dos olhos a lição que o Divino Mestre deixou para os seus apóstolos. E cada pastor da Igreja -e por que não dizer também cada catequista, e cada pai, e cada mestre? - deve assumir em sua vida as santas lições do Evangelho, para que Deus esteja presente em tudo aquilo que pregam e ensinam.

padre Lucas de Paula Almeida, CM

 

 

A Voz de Deus

Na realização dos seus planos, Deus sempre chama e envia pessoas para serem a sua voz no meio do Povo. As leituras falam de três escolhidos por Deus para serem instrumentos de sua Palavra:

- um profeta desterrado;

- um "carpinteiro", filho de Maria;

- um que reconhece suas fraquezas.

A 1ª leitura fala da missão de Ezequiel (Ez. 2,2-5). Vemos os elementos da vocação profética:

- a iniciativa é sempre de Deus;

- o chamado é um "filho de homem";

- a missão é ser a voz de Deus no meio do povo.

Na 2ª leitura, Paulo fala da sua experiência: as dificuldade encontradas no seu apostolado (2Cor. 12,7-10).

Paulo assegura aos cristãos de Corinto, que Deus atua e manifesta seu poder no mundo através de instrumentos fracos e limitados.

Deus garante a Paulo e a todos os que têm algum tipo de "espinho": "Basta-te a minha graça; pois é na fraqueza que a força se realiza plenamente".

No Evangelho, encontramos a experiência de Cristo (Mc. 6,1-6). Jesus volta a Nazaré e ensina na sinagoga. O povo se admira da sabedoria, dos milagres… e, perplexo, se pergunta: "Quem é esse homem? Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria?" Este Jesus não podia ser o Messias esperado.

Eles esperavam um guerreiro como Davi, sábio como Salomão. Não um humilde carpinteiro. Eles o conheciam muito bem: o carpinteiro, filho de Maria, não poderia ser o enviado de Deus…

Sua Palavra escandaliza, sua mensagem gera oposição e sua vida cria conflitos. Não conseguem reconhecer em Jesus o Messias esperado e o rejeitam. Até os parentes de Jesus não aderem à sua mensagem.

Como ficaria uma visita de Jesus, hoje?

Jesus, decepcionado, concluiu: "Um profeta não é estimado entre os seus".

Mas apesar da incompreensão, continuou fiel aos planos do Pai...

Quem são os profetas? Os "profetas não são pessoas extintas do passado, mas são uma realidade com que Deus continua a contar ainda hoje para intervir no mundo.

Todo "batizado" tem a sua história de vocação profética...

O profeta não é o encarregado de fazer milagres e prever o futuro. Deus espera dele uma coisa: que transmita a sua palavra. Deus não tem boca e precisa de alguém para ser a sua "Voz". Para isso, deve escutar a mensagem de Deus e deixar que ela penetre até o íntimo do coração… E depois anunciá-la com entusiasmo e fidelidade.

Como desempenhar a missão de profeta? Ele deve estar em comunhão com Deus e atento à realidade humana. Intervém, em nome de Deus, para denunciar, para avisar, para corrigir.

A denúncia profética implica, muitas vezes, a perseguição, o sofrimento, a marginalização e, em muitos casos, a própria morte...

Normalmente, Deus não se manifesta na força, no poder, nas qualidades que os homens admiram tanto. Ele vem ao nosso encontro na fraqueza, na simplicidade, nas pessoas mais humildes e despretensiosas...

As nossas limitações humanas não podem servir de desculpa para não realizar a missão que Deus nos confia.

Se ele nos pede um serviço, também nos dará a força para superar os nossos limites e para cumprir o que nos pede.

Jesus não fez milagres em Nazaré, porque não acreditaram nele... Só a fé dá condições para que os milagres aconteçam...

Hoje, afirma-se que "Santo de casa não faz milagre". Por que será? A culpa é dele ou nossa?

Conhecemos pessoas, ignoradas ou rejeitadas na própria comunidade, que fazem grande sucesso lá fora?  Por que será?

A liturgia de hoje nos apresenta três exemplos bonitos: Ezequiel, Paulo e Jesus.

Diante das dificuldades, nenhum desistiu. Lutaram e venceram.

Nós também podemos nos sentir na mesma situação: o testemunho, que Deus nos chama a dar, realiza-se, muitas vezes, no meio de incompreensões e oposições…

Frequentemente nos sentimos desanimados e frustrados porque não somos entendidos, nem acolhidos. Temos a sensação de que estamos perdendo tempo…  Jesus nos convida a nunca desanimar, nem desistir: Ele sabe como transformar um fracasso num êxito.

Qual a nossa atitude? Nós continuamos a ser a "Voz" de Deus na comunidade, na família, mesmo diante das contrariedades e adversidades?

Valorizamos as pessoas que atuam com dedicação em nossa comunidade, acolhendo-as como a "Voz" de Deus?

Façamos nossa profissão de fé, não apenas em Deus, mas também nas pessoas com quem convivemos…

E veremos, que os santos de casa também farão milagres…

padre Antônio Geraldo Dalla Costa

 

 

Quer te escutem, quer não, ficarão sabendo que

houve entre eles um profeta (Ezequiel 2,5)

Ezequiel, Paulo, Jesus de Nazaré

O trecho de hoje (Ez. 2,2-5) refere-se à Vocação do profeta (séc. 6º a.C). São enormes as dificuldades para realizar sua missão. Também Paulo (2ª carta Coríntios 12,7-10) sofreu com as acusações contra ele. Delas se defende com firmeza, certo do lugar que ocupa na comunidade. Na leitura de Marcos (6,1-6) vemos o próprio Jesus de Nazaré de volta à sua terra natal, estranhando o desprezo de seus conterrâneos para com sua atuação profética. Diante da pergunta deles: “como é que pode alguém de nossa aldeia possuir tanta sabedoria?” o Mestre de Nazaré (essa era a sua aldeia!) se espanta com a falta de fé das pessoas e encontra, como única explicação, o provérbio “um profeta só não é valorizado em sua própria terra, entre seus familiares e parentes”.

A exigência de milagres acabava esvaziada – predominava de fato a incredulidade – pois nem vendo as maravilhas que Jesus fazia, ou antes, quem era, como se comportava, a sabedoria que nele havia, chegavam a nele acreditar. No evangelho de João aparece mutias vezes esta contradição. Jesus critica a “cegueira” dos adversários (fariseus, escribas, doutores da lei) os quais afirmam não não ser cegos, mas na verdade são “o pior cego”, aquele que não quer ver (creio que nosso provérbio derivou desta cena evangélica – João 9).

Comunicação e comunicadores

O problema não está na mensagem. Não está no mensageiro. A questão está dentro do ouvinte, que pode escutar ou não. Que pode considerar, refletir e decidir ou arranjar pretextos para não se abrir aos milagres na vida, começando pelo milagre da Vida.

Tomando o sentido bíblico mais amplo de “profeta”, ou seja, alguém que proclama uma mensagem (que se diz originada em Deus), podemos dizer que, no panorama atual brasileiro, parece haver uma “inflação de profetas e pregações”. Na Mídia, principalmente televisiva, inúmeros programas e emissoras rivalizam a busca de maior audiência com uma fantástica multiplicidade de mensagens – todas sob o título genérico de “evangelização”. Mas, seja em programas religiosos, seja em outros (os noticiários em geral expõem violência e crimes diários) esta atividade é intensa e multiplicada por tecnologias avançadas e popularizadas. Ela já foi além da suave melodia das “aves que aqui gorjeiam”, como escreveu o poeta. Agora chega a ser “tuitar” contínuo, martelando uma mensagem atrás de outra nos dispositivos movei. Num fixo (na sala ou no quarto) outro martelar ideológico “controla” todos os familiares, que talvez pouco conversem enquanto hipnotizados pelo “Big brother” (o da ficção – livro “1984” de Blair/G.Orwell – embora muitos sigam sua réplica atual em “reality shows”.

Nos textos indicados, Ezequiel, Paulo e o próprio Cristo parecem lembrar que a responsabilidade maior em discernir e reconhecer o que é (ou não) a “voz” que provém de Deus recai sobre os ouvintes da Palavra. Da colheita não se leva tudo à mesa: é preciso separar a palha do trigo. Um resumo do cristianismo segundo Paulo: na perseguição e na fraqueza manifesta-se a força do anúncio, não necessariamente no crescimento e sucesso.

Vozes e sons na pequena aldeia de Nazaré

Frequentemente nós não percebemos a presença do Mestre, que veio de Nazaré, quando o ouvimos no meio da vida comum e quotidiana da aldeia real em que vivemos. Apesar de situados hoje numa “aldeia global” – conforme a expressão criada pelo filósofo Marshall MacLuhan na década de 60 – creio que nossa existência se decide mesmo é no dia a dia, onde habitamos o microcosmo de nossas famílias, trabalhos, igrejas e relacionamentos. Em casa, no bairro, no condomínio, na escola das crianças, nos ônibus, no comércio, na fila do SUS ou do caixa onde pagamos contas é por aí que vamos escutando sons e muitas vozes. Aí o lugar onde procuramos discernir a “vontade salvadora de Deus” para os seres humanos.

Nesse espaço-tempo de nossas vidas percebemos (ou não) sinais, milagres e palavras, com ajuda de nossa atenção inteligente e pela mediação de seus “profetas”. É preciso reconhecer os verdadeiros entre os falsos. Seja conhecidos e familiares de nossa terra natal – contudo distraídos – seja entre desconhecidos e forasteiros – contudo nem todos dignos de atenção. A “aldeia global” está cheia de ambulantes, sempre oferecendo algum elixir maravilhoso.

Nota pessoal e alguns pedidos de oração

Como Francisco sempre lembra, precisamos pedir uns pelos outros. Na minha “aldeia real”, depois de festas familiares de aniversário (aqui referidas há 2 semanas) chegou o inverno trazendo frios e doenças. Mas quem precisa de oração são alguns amigos da família. Um colega meu de colégio deixou-nos há poucos dias e mais tristeza deixou em todos quantos o conheceram, principalmente para sua esposa, S. M encontra-se em recuperação de cirurgia delicada seguida ainda de tratamento. Outros passam também por terapêuticas difíceis (B, G, I, De, A, X, Di) ou tiveram agravadas suas condições de saúde. Para todos pedimos a cura e, em todas as circunstgâncias, o conforto da fé e da presença dos amigos.

Permanecemos intercedendo pelos migrantes diariamente resgatados no Mediterrâneo e pelos haitianos que procuram trabalho em S.Paulo e no sul do país. Por muitos milhares de desempregados da construção civil e de outros setores no Brasil. Pelos sírios e iraquianos fugidos da guerra contínua e do terror do E.I. Pelos idosos morrendo sob a onda de calor no Paquistão. Pelas meninas raptadas pelo Boko Haran e pelas vítimas de castração feminina (apesar de leis recentes ainda não obedecidas no Egito e também praticada em outros países). Pelo povo grego, seus jovens sem trabalho e pelos aposentados: os mais sofridos na grave situação atual.

Pessoalmente recebi luz e tive o coração pacificado, após angústias e preocupações com parentes, ao escutar domingo passado esta palavras do pregador: “Deus nos fez diferentes; então, respeitar as diferenças e gostar da diversidade, riqueza da comunidade. Ele acolhe no Reino gente de todos os povos e de todas as tribos”. Citou Romanos 14 onde Paulo recomenda à comunidade tolerância entre grupos que se contestavam mutuamente por adesão a diferentes costumes de comida e bebida... Chegavam a ser escândalo e tropeço para a fé e a caridade. É o que deveriam preservar, propõe o apóstolo, mesmo abrindo mão de opiniões e preferências pessoais: um crê que de tudo se pode comer, e outro, que é fraco, só come legumes. O que come não despreze o que não come; e o que não come, não julgue o que come (...) Quem és tu, que julgas o servo alheio? Para seu próprio senhor ele está em pé ou cai. Mas estará firme, porque poderoso é Deus para o firmar. (...) Assim não nos julguemos mais uns aos outros; antes seja o vosso propósito não pôr tropeço ou escândalo ao irmão. (...) Sigamos, pois, as coisas que servem para a paz e para a edificação de uns para com os outros (cf.Rom14. Esta foi uma experiência pessoal do escutar e aprender com uma palavra profética.

 

 

2Cor. 12,7-10

Por causa das grandes revelações e a fim de não ficar arrogante me foi dado um espinho na carne - pedi ao Senhor para me livrar. Ele me disse: Basta-te a minha graça pois é na fraqueza que a força se manifesta. - Então me glorio das fraquezas para ter a força de Cristo - quando fraco é que sou forte!

Mc. 6,1-6

Jesus foi a Nazaré, sua terra. No sábado ensinou na sinagoga. Muitos que o escutavam ficavam admirados e diziam:De onde recebeu ele tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria? E os milagres de suas mãos?

O mesmo olhar de costume É mais comum do que parece: alguém ser desprezado em sua própria terra natal, pelos seus próprios parentes e vizinhos. Não importa o que ele faça nem mesmo que seja admirado: os da aldeia de Jesus viram sua sabedoria e o poder de suas mãos curando doentes. Eles ficaram “escandalizados”, isto é, ofendidos ou, ao pé da letra, tinham Jesus como um estorvo, ocasião de queda, motivo para tropeçar e cair. Por que não o contrário? Por que não se orgulhavam dele? Por que não estavam felizes ao ver um parente ou conterrâneo cheio de sabedoria nos lábios e poder de cura nas mãos? Era porque olhavam com preconceito. Afinal já era conhecido por eles, era o filho da sua vizinha, Dona Maria de Nazaré, tinha sido carpinteiro na aldeia. Já conhecido antes, tinha um rótulo, um endereço, uma posição definida na comunidade. Não era para ter sabedoria nem podia realizar as maravilhas que realizava.

A “mesmice” e a sabedoria. Jesus mudou. Saiu, como Abraão, de sua casa e de sua parentela. Assumiu a missão de anunciar a Boa Notícia = Deus ama. Mas não arranjou emprego como profissional do Templo nem da Lei. E seus parentes e vizinhos não mudaram. Continuaram olhando o mundo do mesmo jeito. Não queriam aprender nada pois já sabia tudo (o pior obstáculo para aprender é achar que já se sabe e nada mais se precisa aprender). Jesus usa o provérbio popular: ninguém é recebido como profeta em sua terra. De fato, ele não voltou como escriba ou doutor, não era um intelectual importante nem político de fama. Não tinha uma autoridade religiosa nem era um líder como tantos (na antiguidade como muitos hoje também, eram autoritários e arrogantes). O próprio apóstolo Paulo contou que não virou arrogante (ele tinha extraordinárias experiências místicas) porque tinha “um espinho na carne” que só agüentava porque o Senhor lhe dizia: basta-te minha graça. Nunca saberemos que “espinho” era esse, mas Paulo até se gabava de suas limitações: na fraqueza aparecia a força do alto. Se Jesus se comportasse como outros políticos do seu tempo ou como outras autoridades (por exemplo, como certos hipócritas “piedosos”), teria logo multidão de fãs, ou seguidores e bajuladores. E o aplauso certo de seus parentes.

Pior cego é o que não quer ver. A cura é passagem de uma situação de mal para o bem, também chamada de “milagre”. Milagre é um “sinal”. Sinal só presta se é entendido, senão é enigma incompreensível. Se não aponta para nada, não serve pra nada. Só reconhece curas e transformações quem aprende um “novo olhar”. O povo daquela aldeia via mas não enxergava. Se admirava (à toa) com as palavras e curas dele. Para ter um novo olhar é preciso curar primeiro o interior. A cura começa na alma. Experimentar a saúde e o bem dentro de si para reconhecer a cura nos outros. Parece a instrução dada em viagem de avião: se precisar, ponha primeiro sua máscara de oxigênio e depois ajude outros.

Admirados Os parentes e conterrâneos de Jesus estavam admirados (quem sabe queriam, como nós, uma explicação científica: de onde? Como? Como é que pode?). Jesus, diz o narrador, também se admirava, mas era com a falta de fé, pois o Mestre de Nazaré achava que mais do que “explicar” era preciso curar. Até hoje fica tão admirado que não se cansa de tentar de novo, chama cada um pelo nome, atende todos (como no sermão da Montanha: o Pai faz chover sobre justos e injustos).

Sabedoria e cura. Façamos uma oração olhando as mãos (dá no mesmo se olhamos a própria vida). Acreditemos que palavras e mãos (no trabalho, família, vizinhança, cidade) estão sempre fazendo o bem (se cuidamos, curamos). Basta escutar a Palavra dele, e deixar-se curar pelas mãos dele. Todos têm seus “espinhos na carne”. Alguns se tiram como farpas. Para outros, basta-nos a força que ele dá.

prof. Fernando Soares Moreira

 

 

A incredulidade dos nazarenos

Em Nazareth Jesus ficou decepcionado com a descrença de seus concidadãos e lhes dizia: “Um profeta não é desprezado senão em sua terra” (Mc 6,1-6). Como mestre Ele já havia deixado lições magníficas, ensinando as multidões inclusive através de significativas parábolas. Como Deus poderoso que era, numerosas as curas que operava, mostrando-se o grande Profeta, taumaturgo onipotente, a quem os espíritos imundos obedeciam. Seus ouvintes ficavam admirados e exclamavam: “Uma doutrina nova ensinada com autoridade” (Mc 1,27). Entretanto, indo a sua terra Ele percebeu que lá sua missão não fora decodificada “e não podia fazer ali nenhum milagre”. Hoje, como outrora, Jesus vem a cada um, mas Ele não se impõe, não força ninguém a acatá-lo como Messias e único salvador. Está escrito no Apocalipse> “Eis que estou à porta e bato. Se algum ouve a minha voz e abre a porta, eu entrarei e tomarei a refeição com ele e ele comigo! (Ap. 3,20),. Ele exige uma abertura do coração, um acolhimento cordial. Ele não observa em cada pessoa o seu coração. Se este está disposto a recebê-lo se dá o que ocorreu um dia com Zaqueu: “hoje a salvação chegou a esta casa”.(Lc 19,9). Em Nazaré muitas portas se fecharam para Jesus É o que ocorre com quem não crê na redenção de Deus, na sua ternura, na sua misericórdia, no seu amor. Ficam, como os nazarenos, fechados na sua incredulidade. Somente aos que o acolhem escutam o que foi dito a São Paulo: “Basta-te a minha graça, pois é justamente na fraqueza que a força da graça mostra sua potência” (2 Cor 12,9). Na existência do cristão surge muitas vezes o conflito entre a visão da fé e a vida cotidiana; entre o desejo de Deus e o peso dos hábitos; entre a liberdade oferecida por Cristo e o apego às coisas materiais; entre o que Jesus ensina e o que se faz, se diz e se pensa. Trata-se de uma tensão que tantas vezes atordoa o fiel, mas este pode reagir com sucesso por entre as tarefas de cada hora. É no cerne de nossas obrigações que cumpre louvar e servir a Deus, guardando sempre um tempo para Ele a quem se deve consagrar tudo que se faz. Assim como Jesus foi a Nazaré, ele vem a cada coração e deixa o apelo de nossa conformidade com a vontade divina, com tudo o que Ele ensinou. É em sua vida concreta que o cristão precisa reconhecer Cristo num ato de profundo amor. Eis porque é tão importante viver na presença de Deus. Jesus fará então que cresça o entusiasmo pelo progresso espiritual na certeza de que podemos amá-lo onde estivermos, tais como somos, com todas as nossas energias apesar de todas as misérias do corpo de da alma. Isto numa luta perseverante porque os sentimentos humanos são muito flutuantes. Os habitantes de Nazaré pensavam que conheciam Jesus, mas, de fato, não o reconheciam somente como o carpinteiro, um concidadão como outro qualquer. No entanto Ele já se apresentava num contexto muito maior, contexto anunciado pelos profetas. Por isto, ele foi embora de Nazaré sem aí fazer grandes coisas. Continuou em outros lugares sua missão no encontro com pessoas que nele creriam e por Ele seriam salvas. Num outro horizonte um encontro maravilhoso para multidões que apinhoariam em seu derredor e proclamariam que Ele era o Filho de Deus. Em Nazaré sua mensagem estava bloqueada. Esta situação de incompreensão ou de não aceitação do Evangelho seria vivida por muitos através dos tempos. Muitos que diante das aflições, dos problemas na família, no trabalho, na sociedade em geral haveriam de desprezá-lo. Jesus foi a Nazareth e foi recusado. Isto serve de alerta, pois bem se expressou Santo Agostinho: “Temo a Jesus que passa e pode não voltar”. Cumpre que sempre percebamos Jesus passando às portas de nosso coração que só se abre por dentro, dado que Ele respeita a liberdade de cada um. Cristo não arromba a porta, mas bate suavemente. Pede acolhida e quer um diálogo amigo, salvador, mas exige muita sinceridade da parte de cada um. Ele deseja que tenhamos sempre a disposição e a maleabilidade à graça de sua presença. A Deus que vem até nós é preciso dizer com Davi: “Fazei-nos ver, Senhor, teu amor e dai-nos vossa salvação” (Sl 84,8). Segundo o salmista, “o que Ele diz é a paz para seu povo e seus fiéis e que eles não voltem nunca a sua loucura” (Idem, v 9).”. Não se pode, realmente, nunca deixar passar a hora de Deus que continuamente distribui suas mensagens salvíficas. Não é necessário realizar grandes coisas para que Jesus nos convide a estar com Ele. É preciso saber captar suas inspirações e segui-las com fé e prontidão. O importante é saber acolher sua misericórdia infinita com alegria e perseverança. Ofereçamos a Ele nossa disposição de progredir sempre mais espiritualmente e ele fortificará o nosso espírito, solidificará nossas resoluções e nos cumulará de graças maravilhosas que não lhe foi possível dar aos habitantes de Nazaré.

cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho

 

 

Vitória nas fraquezas

O texto de são Paulo deste domingo apresenta-se como um incentivo, uma esperança ou um consolo importante para enfrentar todas as consequências, quando tomamos a coragem de defender a verdade e até quando ousamos simplesmente opinar sobre alguma coisa que vá contra o pensamento único e dominante deste mundo. Não é nada fácil estar contra a corrente. Não nos deve calar nem sossegar a mentira que se torna verdade e a verdade que se torna mentira, para dominar e fazer prevalecer o poder de alguns.

Mas, são Paulo adverte que aquilo que recebemos de Jesus Cristo não nos deve ensoberbecer. A simplicidade e a humildade na missão que Deus nos concede realizar, devem ser qualidades tomadas muito a sério. Por isso, perante as injustiças da vida devemos sem medo proclamar o bem para todos. Não devemos estar quietos enquanto a vida se resumir a viver por viver, porque as condições para tal são, o maior dos egoísmos, o individualismo e a soberba de alguns que tudo dominam em detrimento do bem comum.

Tomar a sério a opção pela verdade e pela justiça que o Evangelho proclama arrasta muitos dissabores, que podem ser a calúnia, a vingança, a incompreensão, a prisão e até a morte. Mas, nada disso nos deve derrotar. Perante tais fraquezas são Paulo diz o seguinte: "Alegro-me nas minhas fraquezas, nas afrontas, nas adversidades, nas perseguições e nas angústias sofridas por amor de Cristo, porque, quando sou fraco, então é que sou forte" (2Cor. 12,10). Face a esta convicção não deve entrar o medo na nossa vida. Mas, a coragem para proclamar bem alto a maravilha do amor de Deus em favor da humanidade toda.

A coragem deve ser um valor que todos devem assumir, porque o nosso mundo precisa de gente corajosa na luta contra a guerra, isto é, precisa o mundo de um pacifismo militante contra a soberba dos poderosos que tudo querem dominar, esmagando os mais frágeis, os pobres da sociedade, que, afinal, às vezes lhes convém alimentar com migalhas  ou com esmolas ao invés de se fazer o melhor que era levar à prática a justiça. É disto que precisamos e não de singela caridade que alimenta e faz crescer a pobreza.

O nosso tempo está anestesiado com festas, pão e todo o gênero de animação para se manter como que inebriado para nada reclamar e nada fazer contra tudo o que tem direito para ser gente a sério. É um retrato dramático do que hoje vivemos, antepomos a prosperidade econômica à eliminação radical da violência e da morte. Não será que fazemos como os conterrâneos de Jesus, desejamos que se ponha andar, que se afaste e nos deixe sossegados, por mais que junto a nós existam tantos demônios de violência e morte?

As fraquezas desta luta pela justiça, não devem falar mais alto, mas devem ser um incentivo, um impulso, porque deve a utopia do amor ser o alimento da nossa vida. Não devemos permitir que tais fraquezas nos dominem e nos deixem atrofiados. Parece contradição, mas o alimento de Deus, ajuda a tomar coragem e a enfrentar tudo o que seja contrário à beleza da vida. Por isso, cada um e cada qual, pode fazer ação na sua família, no seu trabalho e em qualquer lugar do mundo, onde esteja presente, sem sombra de medo de represálias ou de vir a ficar mal. Vamos dizer alto e bom som que a força de Deus está aí, fazendo das fraquezas um alimento essencial para a luta da vida. Só deste modo seremos felizes. 

padre José Luís Rodrigues

 

 

O profeta não é bem aceito em sua casa

 “DEUS NOS AMA INDEPENDENTE DE NOSSA ORIGEM OU CONDIÇÃO SOCIAL”.

A Palavra de Deus exige de nossa parte uma aceitação plena. O plano de Deus sempre será um grande mistério para nossa vida enquanto estivermos neste mundo. Jesus não é valorizado em sua terra porque as pessoas não estavam olhando para o bem que realizava, mas sim para sua origem e condição social. Ele está presente nas nossas comunidades e em nossa vida. Precisamos reconhecê-lo para fazermos a sua vontade que é fonte da verdadeira felicidade para nós.

Evangelho: Mc. 6,1-6

Naquele tempo, Jesus foi a Nazaré, sua terra, e seus discípulos o acompanharam. Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga. Muitos que o escutavam ficavam admirados e diziam: “De onde recebeu ele tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses grandes milagres que são realizados por suas mãos? Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, de Joset, de Judas e Simão? Suas irmãs não moram aqui conosco?” E ficaram escandalizados por causa dele. Jesus lhes dizia: “Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares”. E ali não pôde fazer milagre algum. Apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos. E admirou-se com a falta de fé deles. Jesus percorria os povoados das redondezas, ensinando.

“Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares”.

A pregação da Boa Nova de Cristo é um grande desafio para nós em todos os ambientes, especialmente entre aqueles de maior convivência conosco. Somos desafiados mais em nível de “ser” do que “fazer”. Devemos dar um verdadeiro testemunho do que acreditamos a partir de nossa vida, da forma como vivemos aceitando o que Deus nos pede. O cristão muda a realidade através da alegria de ser consagrado pelo santo batismo sentindo-se profundamente amado por Deus.

A afirmação de Jesus pode nos parecer inicialmente dura demais considerando a força e o poder que ele tinha por ser o Filho de Deus. Dentro do contexto do cristianismo é mais fácil de entendermos sua missão. Mas no judaísmo não é fácil compreender que Jesus seja o verbo encarnado, a segunda pessoa da Santíssima Trindade com a missão salvífica universal. Ele é verdadeiramente Deus e homem. Seremos felizes convivendo com ele como nosso verdadeiro amigo. Precisamos de um encontro pessoal com o Senhor. A partir daí irá nascer um cristianismo autêntico.

Deus se serve da simplicidade para se manifestar. Não deseja o luxo e as aparências externas que infelizmente muitas vezes arrastam a humanidade a sua própria destruição. Jesus trabalhou antes de sua vida pública. Foi uma pessoa comum dentro de sua cidade. Sua fama cresceu com os milagres que realizava e sua infinita sabedoria que era capaz de confundir as pessoas mais preparadas intelectualmente da época.

Os irmãos e irmãs de Jesus eram os seus parentes, que conviveram com sua vida simples e alegre em meio a sua família. Não podiam compreender os seus concidadãos que este jovem simples fosse verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Este é o centro de nossa fé cristã. Aceitar Jesus como sendo o Cristo (Ungido), é fundamental para a doutrina cristã. Através de sua aceitação descobrimos o Pai e vivemos a vida nova no Espírito Santo.

Somos desafiados hoje e sempre a trazer Jesus para a realidade em que vivemos. Cremos verdadeiramente na sua presença no meio de nós, nos Sacramentos, na Palavra e na comunidade dos que acreditam na Boa Nova? Será que a nossa atitude não é semelhante à atitude dos que rejeitaram a Cristo? Aceitá-lo de verdade é estarmos atentos a nossa conversão. Abertos ao que ele nos ensina através de sua Igreja.

Só poderemos “conhecer” a Cristo através da dimensão transformante do amor. Deus se revela aos humildes de coração. Aos que desejam a verdadeira felicidade que se encontra na coincidência da Vontade de Deus com a nossa vontade.

“Senhor Jesus que possamos aceitá-lo em nossa vida e em nosso coração.”

padre Giribone - OMIVICAPE

 

 

Nenhum milagre… (Mc. 6,1-6)

Jesus fez o primeiro milagre em Caná, bem pertinho de Nazaré. Fez milagres em Cafarnaum, à beira do lago. Fez milagres em Jerusalém, junto ao Templo. Fez milagres nas estradas e encruzilhadas. Fez milagres e prodígios por toda parte. Mas viu-se impotente em sua própria cidade, diante da incredulidade de seus conterrâneos. Daí o ditado que ainda repetimos: ninguém é profeta em sua terra…

Jesus esteve ali o tempo todo, imerso na rotina de uma aldeia do interior. Homens e mulheres iam e vinham, esbarrando os cotovelos no Filho de Deus. Mas eles só enxergavam o filho do carpinteiro…

Será que vamos repetir o mesmo erro? Será que ficaremos cegos à presença de Deus na rotina diária que vivemos? Será que nós faremos parte dessa multidão que se deixa seduzir pela ilusória promessa de milagres com hora marcada? Será que nossa religião estará sempre à espera de um Cristo espetacular?

Ah! Triste Nazaré! Foste privilegiada com a visita do anjo… Foste honrada com a presença da Mãe de Deus… Foste enobrecida com as mãos calejadas de José, o justo… Teu solo foi pisado pelo Verbo Criador… E não percebeste nada disso? Pobre Nazaré!

Por outro lado, quando Jesus abriu a boca e semeou uma Palavra cheia de sabedoria, os parentes e vizinhos prestaram mais atenção no aprendiz de carpinteiro do que na mensagem de salvação. E perderam o bonde da história, todo o leque das oportunidades oferecidas na plenitude dos tempos.

Deus se manifestava, oferecia gratuitamente o novo Caminho, fazia-se carne. E esse oferecimento impensável rolava na sarjeta, desprezado. Faremos o mesmo?

São pequenas coisas, talvez, pequenos gestos… A matéria humilde dos sacramentos, um pedacinho de pão, uma gotinha de vinho… A antiga prece ao anjo da guarda, o velho cântico cantado pela avó… E era Deus que se manifestava na simplicidade mais rotineira…

Sim, Deus quer fazer milagres em nossa vida. Quer que nossa vida seja um milagre. Mas o maior milagre é o próprio Jesus Cristo, nascido de Mulher, revestido de nossa carne, abraçado às nossas cruzes. E essa Presença velada é a certeza de que não estamos sós.

Antônio Carlos Santini

 

 

Os estudiosos costumam dizer que a primeira parte do Evangelho de Marcos (que termina da “Confissão de Pedro”) se divide em varias partes menores; cada uma destas partes começa com um resumo – normalmente chamado “sumario” – da vida de Jesus; depois de cada uma delas vem uma referencia aos apóstolos. Nesse esquema, o evangelho de hoje é o fim da segunda das três pequenas partes que se caracterizam por um aumento progressivo no conflito que Jesus provoca ao encontrar-se com ele.

O texto marca o ponto chave: Jesus – que é apresentado aqui como profeta – se encontra com a absoluta falta de fé dos seus amigos e parentes. O “fracasso” de Jesus vai se acentuando: na terceira parte já começa a pressentir a “derrota” do Senhor  antecipada na morte do Batista. É característica do Evangelho de Marcos apresentar a seus destinatários o aparente fracasso, a solidão, o escândalo da cruz de Jesus. Essa cruz é partilhada com todos os perseguidos por causa do seu nome, como o é a comunidade de Marcos.

Em toda a segunda parte do Evangelho encontramos Jesus tratando – a sós com os seus – de revelar-lhes o sentido de um “Messias crucificado” que será plenamente descoberto pelo centurião – na ausência de qualquer sinal exterior que o justifique – como o “Filho de Deus”. Os habitantes de Nazaré não dão crédito a seus ouvidos: de onde lhe vem isso que ensina na sinagoga? “A este nós o conhecemos e também a seus parentes”. A sabedoria com a qual fala, os sinais do Reino que saem de sua vida, não parecem coerentes com o que eles conhecem. Aí está o problema: “com o que ele s conhecem”.

É que a novidade de Deus sempre está mais além do conhecido, sempre mais além do aparentemente “sabido”; porém, não um mais além do “celestial”, mas um “mais além” do que esperávamos, porém “mais aqui” do que imaginávamos; não estamos longe da alegria de Jesus porque “Deus ocultou estas coisas aos sábios e prudentes e as revelou aos simples”, não estamos longe da incompreensão das parábolas: não por serem difíceis, mas precisamente ao contrário, por serem simples.

O “Seus sempre maior” desconcerta e isto leva a que falte a fé se não estamos abertos à gratuidade e à eterna novidade de Deus, à sua proximidade. Por isso, pela falta de fé, Jesus não pode fazer ali muitos milagres. Quem não descobre nele os sinais do Reino, não poderão crescer em sua fé e não descobrirão então, que Jesus é o enviado de Deus, o profeta que vem anunciar um Reino de Boas notícias. Isto é escândalo para quem não pode aceitar Jesus porque nenhum profeta é bem recebido em sua própria pátria.

Talvez também a nós nos escandalize. Jesus é olhado com os olhos dos seus conterrâneos como uma pessoa a mais. Não souberam ver nele um profeta. Um profeta é alguém que fala em nome de Deus. Custa muito reconhecer em quem é visto como um de nós: é difícil reconhecer nele alguém que Deus escolheu e enviou. Custa pensar que estes tesmpo em que vivemos são tempos especiais e preparados por Deus (kairós) desde sempre. Porém, nesse momento específico, Deus escolheu um homem específico, para que pronuncie sua palavra de Boas Noticias para o povo, cansado e abatido por tantas noticias más.

Não é fácil reconhecer a passagem de Deus pela nossa vida, especialmente quando essa passagem se reveste de roupagem comum, como um de nós. Às vezes gostaríamos que Deus se manifestasse de maneira espetacular, tipo “Hollywood”, porém o enviado de Deus, seu próprio Filho, participa de nossas mesas, caminha nossos passos e veste nossas roupas. É alguém que conhecemos, porém não o reconhecemos. Sua palavra é uma palavra que Deus pronuncia e com a qual Deus mesmo nos fala. Suas mãos de trabalhador comum são mãos que realizam sinais, porém com muita freqüência nossos olhos não estão preparados para ver nesses sinais a presença da passagem de Deus em nossa historia.

Muitas vezes não conseguimos perceber a passagem de Deus em nossa historia, não conseguimos reconhecer nossos profetas. É sempre mais fácil esperar os casos extraordinários e espetaculares ou olhar alguém de fora. É muito mais “espetacular” olhar um testemunho em Cualcutá do que cem mil irmãos e irmãs pelas terras da América Latina que trabalham, se gastam e se desgastam trabalhando pela vida, ainda que lhes custe a vida.

É muito mais maravilhoso olhar os milagres anunciados pelos pregadores itinerantes e televisivos, que aceitar o sinal cotidiano da solidariedade e a fraternidade. É muito mais fácil esperar e escapara para uma manhã que talvez venha, do que ver a passagem de Deus em nosso tempo e semear a semente de vida e esperança no tepo e no espaço de nossa própria historia. Tudo isso será mais fácil, porém, não estaríamos deixando Jesus passar longe?

Reflexão apostólica

Sempre é importante enaltecer e convidar-nos a eterna vigilância. Não somente a vigilância da oração, mas das coisas que saem da boca. Jesus um dia mencionava que pior são os males que saem da boca e não aqueles que entram. É um fato: quantos desistem de caminhar sucumbindo pela inveja e pela maldade dos que nos cercam?

Não sei bem se serve de conforto, mas notem a situação de Jesus no evangelho de hoje: Ele incomoda por fazer o bem. Seria mesmo por que ele fazia o bem ou por que fazia?

Como vemos isso no nosso dia a dia! Quando menos percebemos, já falamos… É contra isso e tantas outras que devemos nos monitorar, pois sem perceber ela nos arrasta a uma série de outros problemas e complicações. Essa inveja, disfarçada de “ciúme” esta dentre as coisas que devem ser banidas do nosso coração está a inveja (CIC § 2538).

Vamos iniciar nossa reflexão de hoje desejando muita paz para você conterrânea e conterrâneo amigo. Conterrâneo… essa palavra é bastante utilizada no norte e nordeste do Brasil e tem o mesmo significado de concidadão, compatriota ou patrício. São pessoas nascidas na mesma terra, na mesma cidade.

No evangelho de hoje, Jesus aparece entre seus amigos de infância. Rodeado por pessoas, de todas as idades, que o conheciam desde pequeno. Muitos dos presentes devem ter freqüentado a mesma escola e partilhado, com Ele, dos mesmos brinquedos.

Sabendo de tudo isso, não conseguiam aceitar que um “conterrâneo”, alguém nascido e criado ali, pudesse demonstrar tanta sabedoria e realizar milagres. É muito difícil de aceitar que as virtudes possam estar presentes nas pessoas humildes ou num simples carpinteiro da região.

Assim como eu, você também já deve ter comprado eletro-eletrônicos, eletrodomésticos, roupas, relógios, brinquedos e outras centenas de produtos importados, crente que eles nunca iriam quebrar. Infelizmente é assim que pensamos. O simples fato de serem importados traz a sensação de serem superiores em qualidade e resistência.

Parecem até mais bonitos e bem acabados que os nossos. Chega a ser desleal a concorrência quando comparamos esses produtos com os nacionais. Por mais que se queira disfarçar, existe um grande preconceito quanto aos produtos fabricados internamente em relação aos importados.

O mesmo acontece com as pessoas, profissões e entidades. Não vamos contestar os recursos técnicos e a capacidade de alguns profissionais, mas a verdade é que esperamos verdadeiros milagres dos médicos do exterior e, diante de uma simples dor de cabeça, não acreditamos no poder de cura do analgésico, só porque foi receitado pelo médico do Posto de Saúde.

Os mais abastados fretam avião, hospedam-se em hotéis luxuosos e pagam “fortunas” por uma consulta médica no exterior, enquanto em sua terra estão excelentes profissionais, muito conhecidos e afamados lá fora.

Mas, pelo visto, não é novidade esse modo de pensar e agir. Jesus também foi rejeitado, teve que exercer seu ministério longe da sua terra.

O evangelista diz que: “Ficaram escandalizados por causa dele“. Seus amigos e vizinhos se escandalizaram com a sabedoria, com as palavras e com os milagres que estava fazendo um simples jovem, filho daquela terra.

Também não é novidade que o profeta não é bem aceito, pois suas palavras incomodam, machucam. Geralmente, não é bem vindo quem diz verdades, quem luta por igualdade e prega honestidade e amor. Generalizando: esse nós afastamos, ou dele nos afastamos.

Não quero parecer maldoso, mas quantas vezes recebemos como verdadeiro herói aquele mau caráter de colarinho branco, aquele “ficha suja” comprovado e confesso. Cheios de admiração enaltecemos aquele que lesa pessoas e o patrimônio público (vejam a “turminha” da Comissão de Ética do Senado e de certos integrandes da CPMI do Cachoeira). Batemos palmas quando os ouvimos faalar. Não raro, até banda de música está presente na recepção.

Jesus fica admirado com a falta de fé que encontra ali e, diante da incompreensão do povo, deve ter dito para si próprio: “Só mesmo tentando nos povoados da redondeza, pois em lugar como este, não dá para fazer milagres!”

Sejamos vigilantes para podermos admirar no irmão coisas que vem de Deus e denunciar a bandidagem que circula livremente entre nós.

Sidnei Walter John

 

 

“A verdade é um direito”

O mistério da rejeição

Jesus vai a Nazaré onde passou sua vida oculta antes do início de seu ministério. Por mais que sejamos abertos a todo o mundo, nosso cantinho guarda sempre uma mística diferente. É justamente ali que Jesus recebe a recusa de sua pessoa e de sua missão. Recusam-No por não admitirem que alguém igual a eles possa ter sabedoria e fazer milagres e ser um enviado de Deus. O bloqueio foi tanto que Jesus “não pode fazer ali milagre algum” (Mc. 6,5). Parece dar a entender que a rejeição bloqueia a ação de Deus. Jesus sentiu isso na pele da parte de seus conterrâneos e familiares. Ele dirá: “Os inimigos do homem são seus próprios familiares” (Mt 10,36). Diz também: “Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus familiares” (Mt 6,4). Esta rejeição a Deus é fruto da dureza do coração, como podemos ler no profeta Ezequiel que ouviu de Deus esta recriminação: “Filho do homem, eu te envio aos israelitas, nação de rebeldes, que se afastaram de mim. Eles e seus pais se revoltaram contra mim até o dia de hoje. A estes filhos de cabeça dura e coração de pedra, vou enviar-te… Quer escutem, quer não – pois são um bando de rebeldes – ficarão sabendo que houve um profeta entre eles” (Ez 2,3-5). Podemos considerar essa mesma leitura diante do fechamento da sociedade à Palavra de Deus anunciada pela Igreja, nas situações concretas. De onde vem essa rejeição, endurecimento e cabeça dura? É fruto da adoração de ídolos que estão pululando por aí. Quando se fecha o coração a Deus, os ídolos se multiplicam e se justificam. Mas é necessário que saibam que há alguém que pensa diferente, tem uma mensagem clara e é um profeta que transmite a Palavra de Deus. Os frutos virão. Reconhecer a dádiva de Deus é sempre um benefício para amolecer a dureza do coração e a cabeçudice. Tudo isso é influência do maligno que provoca ao mal.

Espinho na carne

O profeta também participa da rejeição feita a Cristo. Paulo afirma que trazemos em nossos corpos as marcas de Jesus (Gl 6,18). São as cicatrizes dos maus tratos suportados por Cristo. Na leitura da Segunda Carta aos Coríntios, descreve essa participação nos sofrimentos de Cristo: “… Para que eu não me ensoberbecesse, foi espetado na minha carne um espinho que é um anjo de satanás a esbofetear-me…” (2Cor 12, 7). Não sabemos o que seja. Parece ser um problema nos olhos, pois escreve aos Gálatas: “Se vos fosse possível, teríeis arrancado os olhos para dá-los a mim” (Gl 4,15). Paulo sofre ainda a perseguição dos falsos irmãos (2Cor 11,26), que pode ser esse espinho da rejeição. Jesus lhe garante apoio quando se sente fraco: “Basta-te minha graça, pois é na fraqueza que a força se manifesta” (2Cor 12,9). A Palavra de Deus é sempre doce ao paladar, mas amarga no estômago (Ap 10,8-11). É preciso continuar profetizando. A ressurreição de Cristo garante a ressurreição do profeta.

Nossos olhos estão fitos no Senhor.

A crise que o anunciador do Evangelho pode passar diante da rejeição da Palavra de Deus é respondida pelo salmo 122: “Nossos olhos estão fitos no Senhor”. O apóstolo deve desenvolver a dimensão espiritual. Não se trata de uma atitude espiritualista que se caracteriza pelo se sentir bem. A espiritualidade autêntica é fruto união a Cristo sofredor. É ter uma vida coerente com a Palavra anunciada. Há uma tendência a criar um pseudo espiritualismo que nos satisfaz, mas não nos converte a Cristo. Não quer dizer que seja só cruz, pois o auge da espiritualidade é a ressurreição, mas não sem a cruz.

 

 

 

Refletimos na liturgia de hoje a rejeição que Jesus sofreu em sua pátria. Eles não admitiam que Ele fosse o profeta de Deus. A recusa foi tanta que nem pode fazer milagre. A rejeição que é também apresentada pelo profeta Ezequiel é fruto da dureza de coração e da rebeldia. Essa mesma atitude, podemos ver na sociedade de hoje que é fechada à Palavra de Deus. É fruto da adoração de tantos ídolos. Mesmo assim é preciso continuar anunciando.

O profeta participa da rejeição feita a Cristo. Paulo diz que suas cicatrizes são as marcas de Cristo. Há também um sofrimento físico ou perseguição por parte dos falsos irmãos que o faz sofrer. Jesus lhe garante: “Basta-te minha graça, pois é na fraqueza que a força se manifesta. A palavra é doce ao paladar, mas amarga no estômago. É preciso continuar anunciando.

Para viver as crises da rejeição, é preciso ter os olhos fitos no Senhor. A rejeição não é simplesmente humana. É preciso uma atitude espiritual que é a união a Cristo em seus sofrimentos e ter uma vida coerente. Não uma atitude espiritualista que é simplesmente um sentir-se bem e criar uma capa sem coerência de conversão a Cristo. Não se trata só de dor, mas de ressurreição. 

Lar, amargo lar 

Jesus foi a sua terrinha. Coitado! Que desilusão! Foi pregar na sinagoga e seus compatriotas O rejeitaram e ficaram escandalizados por verem Aquele que até pouco era igual a eles e agora era um profeta pregador e fazia milagres. Onde é que arranjou essa sabedoria e esse poder de milagres? Nós conhecemos sua família que ainda está por aqui. E não O aceitaram.

Deus, quando enviou o profeta Ezequiel já falou dessa cabeça dura do povo: “Eu envio-te aos israelitas, nação de rebeldes… Eles e seus pais se revoltaram contra mim até o dia de hoje” e diz também: “A estes filhos de cabeça dura e coração de pedra vou enviar-te… Quer escutem ou não, ficarão sabendo que dentre eles nasceu um profeta”.

Isso acontece também em nossas comunidades. A cabeçudice é um privilégio de quem não está aberto a Deus. Por isso o salmista nos leva a rezar: “Nossos olhos estão fitos no Senhor”.

Paulo, mesmo vivendo grandes dificuldades, tinha a certeza que lhe era dada por Jesus: “Basta-te a minha graça. É na fraqueza que a força se manifesta”. As perseguições são um atestado que Deus está do nosso lado. Nosso lar é bom. Quando se buscamos o Reino de Deus, encontramos dificuldades dentro de nossas próprias casas.

padre Luiz Carlos de Oliveira

 

 

Deus está conosco no nosso cotidiano

O episódio narrado no texto do Evangelho deste domingo acontece numa sinagoga na pátria de Jesus (não se menciona Nazaré). Em Marcos, Jesus aparece três vezes na sinagoga com suas próprias conseqüências de cada aparecimento.

Primeiro, Mc. 1,21-28 relatou o aparecimento de Jesus  na sinagoga e houve um grande sucesso. Neste episódio os ouvintes se maravilhavam pois ele ensinava como quem tem autoridade. Além disso, ele libertou um possesso na sinagoga.

Segundo, em Mc. 3,1-6 houve uma grande tensão entre Jesus e os fariseus junto com os partidários de Herodes a ponto de eles quererem matar Jesus, só porque ele curou uma pessoa de mão seca no sábado.

Terceira, Mc. 6,1-6 relatou a última vez que Jesus foi à sinagoga onde os seus conterrâneos tentaram desmoralizar totalmente as palavras e ações de Jesus.

Deus nos ama encarnando-se e habitando entre nós: consequências da encarnação

O episódio numa sinagoga de Nazaré tem um significado profundo para o evangelista Marcos. O evangelista  coloca este episódio cuidadosamente neste ponto do seu evangelho. Uma situação pungente no início da Igreja era, de fato, que os pagãos aceitavam a Boa Nova, enquanto os judeus recusavam (cf. Rm. 9-11). Logo no início deste evangelho Jesus enfrentou a dura oposição das autoridades (Mc. 2,1-3,6). Além disso, Jesus foi mal-entendido pela própria família (Mc. 3,20-35). Agora, perto do ministério da Galiléia, seus próprios conterrâneos são desafiados para mudar sua mentalidade diante da reivindicação de Jesus. Mas eles o recusaram. A recusa de Jesus é uma antecipação de sua rejeição pela nação judaica (Mc. 15,11-15). Essa rejeição é o fruto da cegueira do homem diante da revelação divina que já tem sido presente desde o início: “...o mundo foi feito por meio dele, mas o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu e os seus não o receberam”(cf. Jo 1,10-11).

Quais são as razões pelas quais Jesus foi rejeitado pelos próprios compatriotas?

Primeira razão, porque Jesus não freqüentou nenhuma escola formadora de doutores da Lei. Por isso, eles perguntam: “De onde lhe vem tudo isso? E que sabedoria é esta que lhe foi dado?”(v.2bc). Eles tentam desmoralizar Jesus por não ter “título acadêmico”, como os doutores da Lei e os outros.

A formação acadêmica é importante. Mas o mais importante é a formação do caráter, da ética-Mora. O mais importante é como traduzir, na vida cotidiana, a experiência acadêmica em atos concretos: como bondade, solidariedade, compreensão, compaixão. Em outras palavras, em atos éticos. Como eu posso fazer do meu conhecimento acadêmico em amor ao próximo. Que contribuição devo oferecer para o bem da sociedade a partir da minha formação acadêmica? O mundo precisa muito mais das testemunhas da bondade, da ética, da caridade, da solidariedade etc. do que dos mestres. Não precisamos ser “superiores” desprezando o “inferior”. Uma lata vazia normalmente faz muito mais barulho do que outra que tem conteúdo. A grandeza do homem consiste em fazer os outros grandes, em estender a mão para levantar os caídos, em viver com sabedoria na convivência com os outros, e não em demonstrar o que não deveria ser demonstrado, ou em mostrar o que não é. Como diz René Juan Trossero, um escritor e psicólogo argentino: “Se te dizes filósofo, não me fales de filosofia: mostra-me teu amor à verdade. Se te dizes teólogo, não me fales de teologia: mostra-me o que significa Deus em tua vida. Se te dizes pensador, não me fales do que pensam os pensadores: mostra-me o que pensas tu. Se te dizes bom, não me fales da bondade: mostra-me como amas. Se te dizes crente, não me fales de teu credo ou de tua religião: mostra-me teu modo de viver. Convenhamos em não nos enganarmos fugindo, com o ruído de palavras ocas, da vertigem que nos causam os vazios de nossa vida”.

Segunda razão, os nazarenos questionam os milagres operados por Jesus: “E como se fazem tais milagres por suas mãos?” (v.2b). Esta pergunta tem objetivo de desmoralizar Jesus. Quem está por trás desta pergunta são os doutores da Lei. Para entender esta pergunta temos de voltar para Mc 3,22 onde os doutores da Lei diziam que Jesus era possuído de Belzebu, príncipe de demônios, e por isso, conseguiu expulsar os demônios. É uma calúnia em forma de pergunta retórica. A difamação ou calúnia, como já sabemos, presta-se somente a humilhar quem errou, a irritá-lo. A difamação pode destruir o homem, como diz o Eclesiástico: “Um golpe de chicote deixa marca, mas um golpe de língua quebra completamente os ossos” (Eclo. 28,17). A difamação (pecado de língua) pode matar um irmão, pode arruinar uma família e pode destruir um casamento e qualquer convivência.

É preciso viver e falar com sabedoria. O verdadeiro "sábio" é aquele que escolhe escutar as propostas de Deus, as propostas do bem, aceitar os seus desafios, e seguir os caminhos do bem que ele indica. A sabedoria simplesmente significa a capacidade de fazer as escolhas corretas, de falar o que deve, de tomar as decisões certas, de escolher os valores verdadeiros que conduzem o homem à sua realização, e à sua felicidade.

Terceira razão, porque para os nazarenos Jesus é apenas um deles (de origem humilde). Por isso, não merece nenhuma credibilidade: “Não é este o carpinteiro, filho de Maria...? E ficaram escandalizados por causa dele”. “Carpinteiro” em grego (tékton) não significa apenas a pessoa que trabalha com madeira, mas também com ferro (serralheiro) e pedra (pedreiro). Tudo isto é uma informação que Jesus trabalhava com estas coisas, pois Nazaré era uma aldeia insignificante com pouca oferta de trabalho. Para os seus compatriotas, Jesus é simplesmente “este homem”. Os compatriotas não conhecem a identidade profunda de Jesus a não ser somente sua família de Nazaré, e não são capazes de ingressar-se na verdadeira família de Jesus. Eles não conseguem ultrapassar o obstáculo à fé. Eles param no habitual e por isso, não chegam ao extraordinário. Os compatriotas não são capazes de abrir-se ao novo que se manifesta em sua prática sem precedentes. Jesus, na verdade, convida qualquer um a ir além do aspecto cotidiano para encontrar o sentido mais profundo do mesmo, da superficialidade à profundidade. “Avança mais para o fundo” “Duc in altum!” (Lc. 5,4), diz Jesus a Simão.

Mas os leitores sabem muito bem que Jesus não é simplesmente um “carpinteiro” e “filho de Maria”, mas o Filho eleito de Deus(Mc 1,11;9,7) e que sua verdadeira família, sua mãe e seus irmãos e irmãs são os que “fazem a vontade de Deus” através do seguimento do “caminho” de Jesus (Mc. 3,20-21;31-35). Os discípulos de Jesus fazem parte desta nova família, pois eles seguem a Jesus (cf. Mc. 2,15;10,32;15,41).

Diante disso tudo, Jesus cita um provérbio conhecido por todos: “Um profeta só não é valorizado na sua própria terra, entre os parentes e na própria casa”(v.4). Em contraste com a designação dos compatriotas sobre ele como um simples “carpinteiro”, Jesus se revela como “profeta”, uma pessoa inspirada e enviada por Deus para falar a Palavra de Deus. Através do anúncio dessa rejeição, Jesus está preparando os seus seguidores para a mesma rejeição no futuro. Além disto, aprendem também que onde um esperaria encontrar alento, coragem, participação, pode também encontrar indiferença, incompreensão até hostilidade.

Na sua pátria Jesus não fez nenhum milagre por causa da incredulidade dos compatriotas. A origem dessa incredulidade é a incapacidade de acolher a manifestação de Deus no quotidiano em nome de um pretenso respeito pela dignidade e prestígio divinos, onde, porém, a dignidade de Deus é pretexto para o próprio prestígio. Esta pretensão hipócrita faz com que os dirigentes judaicos condenarão Jesus à morte. A incredulidade se constitui em obstáculo decisivo à atuação de Jesus. Para acontecer milagre deve ter uma relação íntima de correspondência entre milagres  e a fé de quem dele se aproxima.

Para os judeus, então, não é possível, não é aceitável que um igual a eles seja portador da mensagem do amor da suprema santidade. Por isso, Jesus se admira da incredulidade deles. Não é apenas uma incredulidade perante Jesus, mas é uma profunda desconfiança da vida normal de cada dia. O drama dos judeus que é sua falta de fé, tornou impossível o que Jesus queria fazer em benefício deles(Mc 6,5).

Marcos quer mostrar nesta recusa um exemplo de relação dos homens diante da maneira que Deus escolhe para se revelar. Os homens podem rejeitar a revelação de Deus e a maneira que ele escolhe para se revelar.

Os homens querem ver a Deus só nos sinais e prodígios muito maravilhosos. Mas Deus escolhe revelar-se de maneira simples, nos gestos da vida  até nas nossas  fraquezas, como diz São Paulo: “Pois é na fraqueza que a força de Cristo se manifesta. Por isso, quando me sinto fraco, é então que eu sou forte”(2Cor 12,9-10). A nossa própria debilidade ajuda-nos a confiar mais, a procurar com maior presteza o refúgio divino, a pedir mais forças, a ser mais humildes. Felizmente, Cristo Jesus é mais forte do que nossa fraqueza, maior que nossas limitações, mais audaz que nossos medos e mais luminoso que nossa obscuridade. A fé em Jesus é luz para perceber as cores das coisas e da vida. Cristo é a luz que se deixa ver por quantos sabem olhar seus semelhantes com sinceridade, pureza, amor no olhar, sem julgamento e com fraternidade. Toda graça e salvação nos vêm dele, que faz filhos de Deus a quantos o aceitam pela fé. Pois, nenhum outro pode nos salvar(At 4,12). Deus se revela no Homem de Nazaré que é a palavra do Pai. É esta simplicidade da revelação que as pessoas não aceitam. Portanto, elas mesmas impedem que a Palavra poderosa de Deus se manifeste com toda a sua grandeza.

Jesus usa de seu poder para as pessoas que vêm até Ele com um ato de fé: o milagre nunca é um meio de forçar a fé: quando muito é um sinal indicativo. Sem a fé Jesus não pode fazer milagre(Mc 6,5). A fé é muito mais importante do milagre. Ela é o maior milagre de todos os milagres. A base da incredulidade é a cegueira e o egoísmo do próprio homem que livremente não quer aceitar que Deus venha até ele na humanidade e simplicidade.

Muitas vezes o escândalo dos judeus se repete em nossos dias. Por termos uma mentalidade de megalomania é que acreditamos que só o extraordinário possa trazer uma mensagem. Muitas vezes não somos capazes de crer que Deus escolhe também o “pequeno” para se glorificar, o humilde para se manifestar. Marcos mostra exatamente que o inaudito está no cotidiano, o extraordinário na ordem simples de cada dia, o Deus transcendente está entre quatro paredes de uma casa de cada família. Lá pode acontecer qualquer milagre se nessa casa tem espaço para Jesus. Às vezes também falamos de Deus só oscilando entre os extremos, falando como se não soubéssemos do mistério divino que se revela no fundo de cada ser humano, de cada família, de cada coisa que tem o aspecto cotidiano. A revelação divina não precisa do super-homem, mas do homem mais humano. Será que sabemos parar para pensar e para refletir, assim que poderemos captar mensagem de Deus em cada acontecimento ou experiência, em cada homem etc.

A ternura da graça de Deus pode nos dar o privilégio de termos em alguém da própria família ou da própria comunidade um verdadeiro amigo espiritual: um irmão, a mãe, o pai ou outro parente. Como é belo ver, de forma mais visível e mais patente a verdade da divina mensagem que encanta a nossa vida, na existência consagrada de um amigo ou amiga a Cristo. Também Jesus experimentava a mais plena beleza do Reino de Deus na sua própria mãe e nos seus amigos fiéis ao pé da cruz e na pecadora convertida.

Em Nazaré o povo ficou admirado pelo ensinamento de Jesus, mas ficou desiludido por causa de sua origem: “De onde é que este homem consegue tudo isso? De onde vem a sabedoria dele? Como é que faz esses milagres? Por acaso ele não é o carpinteiro, filho de Maria? Não é irmão de Tiago, José, Judas e Simão? As suas irmãs não moram aqui? Por isso ficaram desiludidos com ele”.

Os nazarenos, apesar de conhecer as Escrituras, não conseguiram recordar aquilo que Moises havia dito: “O Senhor, teu Deus, te suscitará dentre os teus irmãos um profeta como eu: a ele que deveis ouvir” (Dt. 18,15). Os nazarenos não conseguiram captar a novidade de Deus em Jesus; não reconheceram nele o enviado de Deus. Somente são os discípulos que fazem a seguinte pergunta: “Quem é este?” (Mc. 4,41), mas a multidão nunca e os nazarenos nem sequer  sonhavam uma pergunta semelhante, pois eles sabiam quem era Jesus: um artesão, o filho de Maria; conheciam seus parentes. Mas não quiseram ir além disso; eles ficaram presos em juízos puramente humanos; eles encontraram em Jesus um obstáculo para a fé.

E Jesus “ficou admirado com a falta de fé que havia ali”.  O amor oferecido é recusado. Mas o amor não pode resignar-se diante da recusa. O amor continua a existir mesmo tendo a recusa, pois é eterno. “Deus é amor”, afirmou São João (1Jo 4,8.16). Diante dessa recusa, Jesus precisa ir a outras aldeias onde o amor é bem acolhido.

O evangelista Marcos acrescenta um provérbio citado por Jesus para explicar a incompreensão e a falta de fé de seus conterrâneos: “Um profeta é respeitado em toda parte, menos na sua terra, entre os seus parentes e na sua própria casa”. A fé não se adquire por ativismo ou por herança. A fé precede aos milagres, nunca ao contrário. Por isso, é inútil montar uma apologética para “provar” a divindade de Jesus partindo da existência de uns fatos superiores às forças da natureza. Quem vive sua vida profundamente e com muita consciência, quem leva seu ser a sério, não tem como não ter fé em Deus que está muito além da inteligência humana.

Reconhecer em Jesus o Messias, o Ungido de Deus, não é fácil. Somente quem crê, O reconhece, aceita suas palavras e admira suas obras. Muitos olham sem ver e ouvem sem escutar. Cristo continua desconcertando: sua palavra escandaliza, sua mensagem gera oposição e sua vida e obras criam conflitos. Outros O conhecem, O aceitam e sua vida adquire um novo sentido. A fé madura caminha à descoberta e não evita as perguntas e a obscuridade. Hoje o Senhor nos pede mais fé n’Ele para realizar coisas que superam nossas possibilidades humanas.

Este Evangelho leva-nos a refletir sobre a qualidade de nossa fé em Jesus Cristo. A nossa adesão a Cristo só será possível quando se der uma ruptura com tudo aquilo que exerce domínio sobre nós. Por isso, na sua oração, quando se coloca diante do Senhor, mostra-lhe as suas mãos e seu coração se estão vazios de qualquer apego ou não. É a fé que produz em nós esse esvaziamento, esse lugar que Deus pode vir habitar. Este olhar da fé deve guiar também o nosso comportamento para com o próximo pois a graça de Deus nos basta(cf. 2Cor 12,9). Os olhos da carne talvez só percebam fraquezas, defeitos e misérias no próximo. Os olhos do Espírito ou da fé, porém, descobrirão em cada pessoa humana a imagem e semelhança de Deus. Então, também ele poderá fazer coisas admiráveis, verdadeiros milagres.

Você vê Deus no cotidiano ou sempre precisa de sinais extraordinários para percebê-lo ?  Como é que Jesus se manifesta hoje, na sua vida, no seu trabalho, na sua família, no seu casamento, no seus estudos até nos seus sofrimentos etc. ? Você sabe se abandonar em Jesus Cristo ?

Deus Está No Nosso Cotidiano: Abramos o Coração e Os Olhos!

Jesus está de volta para sua terra, Nazaré. Mais ou menos durante trinta anos vivendo em Nazaré, convivendo com as pessoas comuns de Nazaré, vivendo com elas e Ele era tão comum como seus conterrâneos. Mais ou menos trinta anos mantendo-se tão semelhante àquele povo que não se notava diferença alguma entre Ele e Tiago, José, Judas ou Simão. Mais ou menos durante trinta anos morando num lugar desconhecido e desprezado. Até um dos futuros discípulos de Jesus, Natanael, lançará esta pergunta: “De Nazaré pode sair algo de bom?” (Jo 1,46). Jesus está de volta para Nazaré depois que instituiu os Doze (Mc 3,13-19). Ele volta para suas raízes antes de continuar sua missão itinerante. Agora é a hora de se manifestar e de receber o juízo de seu povo sobre ele. O que pensa o povo de Nazaré sobre Jesus? Quem é Jesus para seus conterrâneos? Será que Deus tem um aspecto tão humano? Será que é possível Deus estar tão próximo dos homens comuns como os de Nazaré? Será que Deus não pode estar tão perto dos homens no seu dia a dia como em Nazaré? Ou onde está Deus? Onde Deus habita?

É preciso abrir os olhos e deixar o coração aberto para poder experimentar Deus e sentir Sua presença no cotidiano, no aspecto cotidiano da vida. Deus está aqui e agora. Sinta e experimente Sua presença! Aprenda a saborear o momento, mesmo que ele não dure para sempre. Há momentos de nossas vidas que podem ser eternos mesmo que não sejam permanentes, por causa da presença da própria eternidade que é Deus. Deus sempre nos surpreende, porque na sua atuação ele não tem esquemas prévios, métodos preestabelecidos, lógica precisa ou raciocínio bem lógico. Pode desistir de uma lógica, mas não desista da vida cuja origem está em Deus! Deus está sempre acima de nosso raciocínio, “Pois meus pensamentos não são os vossos, e vosso modo de agir não é meu” diz o Senhor (Is. 55,8). Por isso, onde menos O esperamos, onde O menos imaginamos, Ele aparece, comunicando-se conosco e convivendo conosco (Jo 1,14). “No meio de vós está quem vós não conheceis”, alerta-nos o evangelista João (Jo 1,26). Deus habita e está no homem e não nas paredes de um templo ou de uma igreja (cf. Mt 25,40.45). Os animais não questionam o sentido da vida, mas as pessoas sim porque em cada um de nós há uma dimensão divina e somos imagem de Deus (Gn 1,26) que nos faz perguntar porque estamos vivos. Deus quer encontrar seu povo onde este vive e atua.

A encarnação de Deus em um carpinteiro de Nazaré nos descobre que Deus não é um exibicionista que se oferece em espetáculo. Deus não é um “Show”. Deus não é o Ser todo-poderoso que se impõe, mas propõe e convida. Podemos descobrir Deus nas experiências mais normais de nossa vida cotidiana: em nossas tristezas inexplicáveis, na felicidade insaciável; na solidão em busca da comunhão; em nosso amor frágil, mas apaixonante; na saudade de uma presença de quem se foi, mas que está presente fortemente na sua ausência; nos sonhos de uma vida de paz e serenidade; na reconciliação por amor; nas perguntas mais profundas sobre a vida e seu sentido; em nosso pecado mais discreto; nas nossas decisões mais responsáveis ou irresponsáveis; na nossa busca sincera do bem e da verdade; no nosso “bom dia, boa tarde, boa noite” endereçado às pessoas para o seu bem; no nosso “obrigado” pelo bem que o outro fez por nós; no nosso agradecimento pelo novo dia que nos é dado por puro amor de Deus. Por isso, a raiz da incredulidade é precisamente esta incapacidade de acolher a manifestação de Deus no cotidiano. Quem vive profundamente, quem leva a sério o seu ser, não tem como descobrir e experimentar a mão de Deus em cada vida, em cada coisa e em cada acontecimento.

O que necessitamos são uns olhos mais limpos, simples e menos preocupados em ter coisas. As coisas são meios e jamais são fim de nossa vida. Um ônibus é um meio que me leva até o centro da cidade, mas o ônibus não é o centro da cidade. O que necessitamos é uma atenção mais profunda e desperta para o mistério da vida que não consiste somente em ter “espírito observador” e sim em saber contemplar e acolher com simpatia as inumeráveis mensagens e chamadas que a mesma vida irradia permanentemente. Deus não está longe dos que O buscam. Deus está no centro de nossa vida. Deus nos visita diariamente (Lc. 1,68; 7,16) como visitou seu povo em Nazaré que jamais ele abandonou. Deus está conosco todos os dias (MT. 28,20). É preciso abrir a porta de nosso lar e de nosso coração para a visita do Senhor como a própria sinagoga em Nazaré aberta para o Senhor entrar nela e falar das coisas essenciais da vida para seu povo reunido nela.

Em Nazaré o povo ficou admirado pelo ensinamento de Jesus, mas ficou desiludido por causa de sua origem: “De onde é que este homem consegue tudo isso? De onde vem a sabedoria dele? Como é que faz esses milagres? Por acaso ele não é o carpinteiro, filho de Maria? Não é irmão de Tiago, José, Judas e Simão? As suas irmãs não moram aqui?

Por isso ficaram desiludidos com ele”. Quando seus conterrâneos falam dele, não pronunciam seu nome, o designam somente com pronomes depreciativos para sua pessoa e sua atividade (ele, este etc.). E Jesus “ficou admirado com a falta de fé que havia ali”.  O amor oferecido é recusado. Mas o amor não pode resignar-se diante da recusa. Jesus precisa ir a outras aldeias.

Crer em Jesus Cristo significa confrontar-se com Deus santo e próximo, entregar-se a sua invisível e santa presença. Crer em Jesus Cristo é saber encontrar Deus nas coisas simples, nos acontecimentos humildes, nas amizades despretensiosas e humildes, no puro sorriso de uma criança no berço, na velhice de um homem e de uma mulher vivida na sua dignidade e gratidão e assim por diante. O que é pequeno, cotidiano, despretensioso e fiel simplesmente é portador do extraordinário e estupendo milagre da presença de Deus entre nós.

Ele não é o carpinteiro, filho de Maria? Comentou Santo Agostinho: “Se o orgulho nos faz sair, a humildade nos faz entrar… Como o médico, depois de estabelecer um diagnóstico, trata o mal em causa, tu, cura a raiz do mal, cura o orgulho; então, já não haverá mal algum em ti. Para curar eu orgulho, o Filho de Deus se abaixou, se fez humilde. Por que tu te orgulhas? Para ti, Deus se fez humilde. Talvez tu tenhas vergonha de imitar a humildade do homem; imita pelo menos a humildade de Deus. O Filho de Deus se humilhou fazendo-se homem. Tu, homem, conhece que és homem. Toda sua humildade consiste em conhecer quem és. Escuta a Deus que te ensina a humildade: ‘Eu desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou’ (Jo 6,38). Ele, humilde, veio para ensinar a humildade, como Mestre de humildade. Aquele que vem a Mim se faz um comigo; se faz humilde. Quem se aderir a mim será humilde. Não fará sua vontade e sim a vontade de Deus. E não será tirado fora (Jo 6,37), como quando era orgulhoso” (santo Agostinho [354-430] bispo de Hipona).

padre Vitus Gustama,svd

 

 

Qando sou fraco é que sou forte

A primeira leitura nos ensina o que é um profeta e qual sua função, quando Deus, como nos relata o livro de Ezequiel, o convoca e o envia aos israelitas para lhes dizer: “Filho do homem, eu te envio aos israelitas, nação de rebeldes, que se afastaram de mim.” Mais adiante, acrescenta: “e tu lhes dirás: Assim diz o Senhor Deus.”

O profeta é um homem comum, escolhido dentre os demais, que se dirige a todos com a autoridade recebida de Deus, para alertar os mesmos, com o objetivo de salvá-los da infelicidade.

Do mesmo modo como costuma acontecer conosco, quando alguém vem nos alertar de algum erro que estamos cometendo, nós não gostamos e até agredimos o amigo. Também o povo de Israel não gostava dos profetas porque eles os incomodavam, fazendo mudar de vida e retomar o caminho certo.

No Evangelho, Marcos nos fala que Jesus é esse profeta. Os presentes na sinagoga não o aceitam, pois além de perturbar a ordem, corrigindo as interpretações da Lei feita pelos doutores, ele era não apenas um homem comum, mas filho de pessoas muito simples. Isso causou uma admiração negativa, um espanto. Como o filho do José carpinteiro e de Dona Maria, vem nos ensinar? Que escola ele frequentou? Quem ele pensa que é?

Assim Jesus foi rejeitado até ser crucificado, apesar de suas palavras de carinho, de perdão, apesar de seus milagres e de seu ensinamento trazer a felicidade ao coração das pessoas. Mas apesar disso, seu ensinamento exigia mudança de vida, reconhecer-se pecador, deixar a vidinha acomodada e egoísta para ser feliz de verdade.

Na segunda leitura temos aquele famoso trecho da Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios, onde ele fala de que lhe foi dado um espinho na carne, que é como um anjo de Satanás. Muito já se escreveu sobre isso. Mas afinal, que espinho é esse?

Certamente Paulo se refere à fragilidade do profeta, do apóstolo, do missionário, do catequista, do cristão, quando ser humano que é, sente-se em conflito quando, exercendo sua função, é confrontado pelas atitudes hostis daqueles a quem é enviado. E a resposta de Deus para Paulo e para todos nós que vivenciamos nossa humildade, nossos limites é: “Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que a força manifesta todo o seu poder.”

Foi na cruz de Jesus que se manifestou a força de Deus!

Portanto, concluindo nossa reflexão, deixemos Paulo falar em nós: “Por isso, de bom grado, eu me gloriarei das minhas fraquezas, para que a força de Cristo habite em mim. Pois, quando sou fraco, então é que sou forte.”

padre Cesar Augusto dos Santos, SJ

 

 

Profeta Hoje

Quem é o profeta? O profeta é alguém que fala em nome da divindade.[1] Muitos pensam que profeta é alguém que prediz o futuro. Você não? Muita gente pensa, mas não é necessariamente. O profeta pode até anunciar algo futuro, mas ele é, essencialmente, alguém que fala em nome da divindade. Nesse contexto é capaz de anunciar e denunciar coisas presentes ou coisas futuras. Ele é um enviado.

Missão - Você se acha um enviado de Deus ao mundo de hoje? Não, não é uma  pergunta descabida. Todo cristão é discípulo e enviado. Enviado a que? A uma missão específica: “Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,19). Eis a missão dos discípulos.

Atender -  “Esta não é, por conseguinte, a missão dos sacerdotes e dos bispos?” pode estar perguntando você.  Sim, por função ministerial. Mas, é missão de todo discípulo. Todo batizado é enviado ao seu ciclo de convivência a ensinar a observar tudo o que Jesus prescreveu. Assim, todo cristão é chamado como Ezequiel. Lembra como Ezequiel foi chamado?  O Senhor se manifestou a Ezequiel e disse: “Filho do homem, põe-te de pé! Quero falar contigo!”(Ez 2,1). Assim fez Ezequiel. Ele entendeu e atendeu  à manifestação divina. É o que cabe a nós fazermos como ele e como os discípulos enviados.

Sem rebeldia - O Senhor disse a Ezequiel: “Filho do homem, eu te envio aos israelitas, nação de rebeldes que se revoltaram contra mim. Eles e seus pais se rebelaram contra mim até o dia de hoje” (Ez 2,3). Comumente Deus nos fala através da boa inspiração que sentimos, através das Sagradas Escrituras, através da prece, num  momento qualquer em que sentimos algo que nos impele, através do contexto vivenciado…  enfim, por diversos modos acabamos por reconhecer  que era o Senhor ali se manifestando. Importa não sermos rebeldes, mas ouvi-lo.

 Espanto - Que faz o Senhor que chama? Envia. E o que, muitas vezes, faz o enviado? Deixa o Senhor falando sozinho. Exatamente isto. Que fizeram com Jesus seus conterrâneos? Ficaram comparando o que sabiam dele e o que ele dizia. “Que sabedoria é esta que lhe foi dada? E esses milagres realizados por  suas mãos? Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria, irmão de Tiago, Joset, Judas e Simão? E suas irmãs não estão aqui conosco?” E mostravam-se chocados com ele (Mc 6,23-4). Apenas chocados; não receptivos. Por isso  “não conseguiu fazer ali nenhum milagre, a não ser impor as mãos a uns poucos doentes” (Mc 6,5). Ficaram perplexos e não lhe deram crédito. A falta de abertura de coração impediu que o Senhor fosse acolhido. Teríamos feito diferente? Não basta nos espantarmos ao ver aquilo que o Senhor opera. É preciso nos convencer e mudar de vida.

Humildade - Mas Jesus compreendeu:  “Um profeta só não é valorizado na sua própria terra, entre os parentes e na própria casa” (Mc 6,4). E saiu a pregar em outros lugares. Não podia desistir diante deste primeiro obstáculo. Ele era o grande profeta. O profeta sabe que uma missão lhe foi dada e não pode desanimar. Também não pode encher-se de orgulho perante os outros, em razão da grandeza de sua missão, como ensina Paulo. “E para que a grandeza das revelações não me enchesse de orgulho, foi-me dado um espinho na carne” (2Cor 12,7). Algo físico causava sofrimento a Paulo e isto fazia com que ele não se orgulhasse do que havia conseguido, mas se sentisse humilde.

Ezequiel, Jesus e Paulo, foram escolhidos. Você, batizado, também é um escolhido por Deus para ser profeta, para ir ao mundo anunciar a boa nova para que as pessoas se salvem.  Você anuncia?  Cuidado: Quem se omite deixa de cumprir sua missão! Hoje faltam mais pessoas que falem em nome do Senhor com palavras e com a vida. Que sejamos, para aqueles com quem convivemos, sinais de uma novo modo de vida, de acordo com o reino.

 

 

O profeta desprezado

"Ninguém é profeta em sua terra!" A sabedoria popular fez desta afirmação um provérbio. Segundo a tradição judaica, todos os grandes profetas do Antigo Testamento foram martirizados. Jesus, no seu tempo, foi rejeitado pêlos seus conterrâneos, desprezado pêlos seus parentes. Nada de novo com ele! Mas, qual é a missão do profeta, seja ele judeu ou cristão?

O profeta não é um homem que prediz e anuncia o futuro, mas um homem que abre os olhos do povo sobre a realidade presente e denuncia, em nome de Deus, as condutas iníquas ou hipócritas, a violência e a mentira. Assim procederam os profetas de Israel. Não se cansaram de denunciar a infidelidade dos reis e do povo, que se voltavam para a adoração de ídolos e, com insistência, os chamavam para a conversão.

Jesus ensina nas sinagogas, proclama a chegada do Reino, apela a cada um para que mude de vida e se volte para Deus. Como os habitantes de Jerusalém, como os conterrâneos e parentes de Jesus, nós não gostamos de ser criticados, chamados à atenção. É duro acolher uma palavra que abala nossas certezas, mexe com nossos hábitos e, sobretudo, denuncia a autosatisfação secreta que nos protege. Recusamos ouvir a quem nos propõe um caminho diferente.

Pois bem! Somente a escuta e a confiança podem abrir nossos corações à ação de Deus. É-nos preciso aceitar crer naquele que nos propõe a prática da misericórdia e do perdão. Somente assim é que veremos acontecer milagres em nossa vida e sentiremos a alegria da fé que transforma nossas vidas e nossos corações. Paulo bem o sabia, pois descobriu no mais profundo de sua fraqueza e de seus fracassos a forca do amor do Cristo, que o sustentava e levava a retomar a missão: "Basta-te minha graça. Pois é na fraqueza que a força (de Deus) se manifesta".

tradução de "Prions en Église”

 

 

1) O profeta é um sinal de contradição porque com a sua presença interpela, incomoda e exige uma nossa revisão e mudança de vida: abandonar os caminhos errados para os certos.

O profeta exerce com a sua presença a missão recebida, presença que não pode ser desconhecida porque marcada na consciência daqueles aos quais é dirigida a palavra: “Quer te escutem, quer não – pos são um bando de rebeldes – ficarão sabendo que houve entre eles um profeta” (Jr. 2,5).

As situações de pouca consideração dada aos profetas no Antigo Testamento se representam com Jesus: “E ficaram escandalizados por causa dele” (Mc. 6,3) e continuam também hoje quando os “profetas” que defendem a verdade e a justiça recebem insultos ou palavras de comiseração por uma “cultura” cuja preocupação não é aquela de unir e dialogar, mas, ao contrário, de criar conflitos ideológicos em lugar de um legitimo confronto e dialogo.

A sabedoria do profeta – em particular com Jesus - encontra obstáculos numa mentalidade fechada no restrito ambiente do egoísmo e incapaz de acolher a novidade da salvação: “Ficaram escandalizados por causa dele” (Mc. 6,3).

O egoísmo e a mentalidade restrita dos habitantes de Nazaré, escandalizados por causa de Jesus, são presentes também hoje em multiformes realidades e são a expressão de uma falta de fé (cf. Mc. 6,6).

É pela falta de fé e de estima que Jesus “Não pode fazer milagre algum” (Mc. 6,5)

Hoje em algumas situações aparecem tendências pelas quais se colocam obstáculos para o acolhimento da graça que é oferecida: Jesus é considerado um grande pensador ou filosofo, cujas palavras são importantes, um benfeitor da humanidade, sem que seja reconhecido como Ele é realmente, o Salvador da humanidade.

Falta a atitude decisiva: a docilidade para deixar-se transformar, porque há o temor de perder as "certezas" (riquezas) baseadas no mundo, como aquele jovem rico que triste não acolheu o convite de Jesus para segui-Lo (cf. Mt. 19,16-22).

2) Na multiforme procura de felicidade – também “felicidades”, tanto é indefinida – falta não raramente a referência essencial: Cristo, o único que pode dar a resposta plena quando diz: “Basta-te a minha graça. Pois é na fraqueza que a força se manifesta” (2Cor. 12,9).

É pela graça recebida e pela aquela que esperamos, que tudo é transformado e renovado, e nos deixamos guiar também “nas angustias sofridas por amor a Cristo” (2Cor. 12,10).

padre Ausilio Chessa

 

 

É na fraqueza que manifesta todo o meu poder

A liturgia da palavra do XIV domingo do tempo comum convida-nos a refletir sobre a vocação. Na verdade, quando falamos de vocação há sempre muitas perguntas que nos vem à mente: quem é que aquele que chama? A quem chama? Para que missão chama? As leituras deste domingo oferecerem-nos a resposta a estas interrogações.

A liturgia da Palavra deste domingo começa com o relato da vocação de Ezequiel. Ezequiel foi um profeta que viveu na época do exílio da Babilônia e que exerceu a sua missão no meio dos exilados, missão essa que se pode dividir em duas fases. Numa primeira fase, o profeta anunciou ao povo que o exílio não era uma situação provisória, acabando assim com as falsas expectativas e esperanças de alguns exilados, e denunciou as infidelidades a Deus que o povo que não tinha sido deportado continuava a cometer. Por sua vez, na segunda fase da sua missão, o profeta Ezequiel foi o profeta da esperança. Na verdade, a um povo que vivia exilado e que sofria a ausência do templo e se sentia desalentado, o profeta anuncia que Deus é o salvador e o libertador e não se esqueceu do seu povo.  

No início do livro do profeta Ezequiel encontramos o relato da sua vocação. Este texto, através de uma linguagem específica, quer mostrar que Ezequiel é um instrumento escolhido e enviado por Deus a desempenhar uma missão particular. No relato da sua vocação, encontramos três elementos importantes para compreendermos a vocação: a vocação é um chamamento de Deus dirigido a um homem concreto tendo em vista uma missão particular.

Em primeiro lugar, o relato da vocação do profeta Ezequiel recorda-nos que a vocação não é uma iniciativa humana mas é Deus quem chama. Na verdade, a primeira leitura afirma: “O Espírito entrou em mim e fez-me levantar. Ouvi então alguém…”. É verdade, que na leitura proclamada não se afirma que esse alguém seja Deus mas pelo contexto podemos concluir que é Deus que chama. Na verdade, o livro do profeta Ezequiel, antes do trecho proclamado neste dia, apresenta uma manifestação de Deus e a expressão “O Espirito entrou em mim e fez-me levantar” recorda-nos a força divina que Deus concedia aqueles que foi chamando ao longo da história da salvação (juízes, reis e profetas). Assim sendo, a primeira coisa que a leitura do livro de Ezequiel deixa bem claro é que a iniciativa do chamamento, da vocação é de Deus e não humana.

Mas quem é que Deus chama? Deus dirige o seu chamamento a pessoas concretas. Na verdade, nesta leitura, Deus dirige-se a Ezequiel utilizando a expressão “Filho do homem”. Esta expressão hebraica não designa alguém que seja um super-homem mas um homem frágil e limitado. Assim sendo, vemos que Deus não chama os capacitados mas vai capacitando aqueles que chama. A fragilidade, a indignidade e a limitação daquele que é chamado não são um impedimento para Deus porque é Deus que ajuda e dá força, alento e coragem àqueles a quem chama.

Ilustra-nos bem esta realidade a segunda leitura proclamada neste domingo da segunda carta do Apóstolo Paulo aos cristãos de Corinto. Depois de um conflito entre a comunidade de Corinto e Paulo, causado por uns missionários itinerantes que afirmavam que Paulo era inferior aos outros apóstolos e que a sua doutrina não estava em consonância com a dos apóstolos, os cristãos, por intermédio de Tito, voltaram a comunhão com o Apóstolo Paulo e este escreveu-lhes uma carta onde faz uma apologia do seu apostolado e pede que os coríntios participem numa coleta em favor dos cristãos de Jerusalém. 

É nesta carta que o apóstolo Paulo, reconhecendo que o Senhor também se revelou a Ele, mostra a sua fragilidade e as suas limitações: “foi-me deixado um espinho na carne, um anjo de satanás que em esbofeteia.” Não sabemos em concreto que limitações são essas a que Paulo se refere. Pode referir-se a uma doença ou às dificuldades que o apóstolo tem de ultrapassar para anunciar o evangelho. O apóstolo diz-nos que por três pediu ao Senhor que afastasse dele esse espinho cravado na carne, esse anjo de satanás que o esbofeteia. No entanto, o Senhor não realizou o pedido de Paulo e disse-lhe: “Basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que se manifesta o meu poder”. É por isto que o apostolo se gloria das suas fraquezas, porque elas são a prova de que Paulo não age por si próprio. É o poder de Cristo que age nele. 

Assim sendo, a debilidade, as fragilidades e as limitações do chamado não são algo impeditivo para que Deus o chame. O que realmente conta é a graça, o amor de Deus. É a graça de Deus que conforta, anima, estimula e ajuda o chamado a realizar a sua missão. As debilidades do chamado são a prova de que Deus não o chamou porque ele era bom, forte e capaz. Na nossa vida de fé, temos muita dificuldade em aceitar isto. Nós somos o que somos pela graça de Deus. A nossa vida de fé não é uma vida de conquistas pessoais mas é uma vida de acolhimento da graça de Deus que nos vais animando, capacitando, fortalecendo e moldando.

A terceira característica da vocação é que Deus chama o eleito para uma missão específica. No caso do profeta Ezequiel, Deus chamou-o para anunciar ao seu povo a sua palavra. No entanto, as dificuldades não estarão ausentes e Deus adverte o profeta disso: “Podem escutar-te ou não … mas saberão que há um profeta no meio deles”. Apesar das dificuldades, o profeta deverá continuar a desempenhar a sua missão, deverá continuar a ser uma presença interpelante.

Exemplo concreto da rejeição do povo ao grande enviado de Deus, Jesus de Nazaré, mas também de fidelidade à sua missão é o evangelho deste domingo. São Marcos transmite-nos, no evangelho deste domingo, a reação negativa, a oposição e a incompreensão que Jesus encontrou na sua cidade de Nazaré. Depois de Jesus ter entrado num sábado na sinagoga e de ter lido e explicado a palavra de Deus, os seus conterrâneos tem para com ele uma reação negativa. Na verdade, não percebem a origem e a qualidade das palavras e ações de Jesus de Nazaré. Para eles, Jesus é o carpinteiro, o filho de Maria e o familiar de Tiago, de José, de Judas e de Simão. A imagem que o povo tinha do Messias ou dos profetas não era compatível com a vida profissional e familiar de Jesus. Os conterrâneos de Jesus são incapazes de reconhecer naquilo que Jesus diz e faz a presença de Deus. Por isso todos estavam perplexos com Jesus, melhor dizendo, escandalizados.

Que faz Jesus ante esta rejeição? Desiste da sua missão? Não! Ante a rejeição dos seus conterrâneos Jesus toma duas atitudes concretas. Em primeiro lugar, Jesus, adaptando provérbio, responde deixando bem claro que é um enviado e que atua em nome de Deus: “Um profeta só é desprezado na sua terra, entre os seus parentes e em sua casa”. A este ponto o evangelista diz-nos que Jesus não realizou em Nazaré nenhum milagre, à exceção de umas curas de doentes, e que estava admirado com a falta de fé daquela gente. Na verdade, Deus sempre propõe mas nada impõe. Deus respeita a nossa liberdade. Em segundo lugar, Jesus, ante a rejeição dos seus conterrâneos, não desiste da sua missão mas prossegue-a: “e percorria as aldeias dos arredores, ensinando”. A rejeição não impede que Jesus continue a proclamar a boa nova do Reino e a antecipa-lo com os seus milagres.

Também a nós nos interpela esta atitude de Jesus. Na verdade, muitas vezes desanimamos na nossa missão quando aparecem algumas dificuldades e pensamos logos em desertar. No entanto, devemos manter-nos fiéis à nossa vocação e, contra todos os ventos e marés, devemos cumprir a missão encomendada pelo Senhor.

Todos os cristãos receberam do Senhor uma vocação, uma missão: a santidade, a construção, no aqui e no agora da história, do Reino de Deus. Acolhamos a chamada que Deus nos faz, cooperemos com a sua graça e não desistamos da nossa vocação quando aparecerem as dificuldades, as incompreensões e o cansaço. A vocação é uma escolha de Deus sustentada pela graça divina que nos ajuda a superar todo e qualquer obstáculo.

padre Nuno Ventura Martins

 

 

Um Deus próximo

Aconteceu em uma comunidade do interior: um padre novo, recém ordenado e nomeado para determinada paróquia, ainda nos primeiros dias naquela cidade, foi cortar seu cabelo. Enquanto estava no barbeiro, dois homens conversavam entre si: “Esse aí é o padrezinho novo que mandaram pra cá?” – perguntou um – “Sim” – “respondeu o outro”. “Mas o que é que ele está fazendo aqui numa barbearia?”, “Pois é, veja só”, “Não, não, não. Esses padres novos estão muito modernos pro meu gosto!”

Meus caros, o espanto em ver um padre cortando o cabelo numa barbearia é o mesmo espanto que eu vejo no rosto das pessoas cada vez que vou ao supermercado fazer compras ou quando vou treinar na academia – o espanto de ver que os cabelos do padre crescem como os de qualquer mortal, e de ver que o padre também tem que se alimentar, como qualquer pessoa, e de var que o sem exercícios físicos o padre engorda como qualquer mortal. E esse espanto é reflexo de uma atitude interior que também era comum aos conterrâneos de Jesus – a atitude de não conseguir compreender, lá no fundo, como a realidade do que é divino possa estar tão entranhada na realidade humana.

Vimos hoje descrita no evangelho o escândalo que Jesus causou quando voltou à sua comunidade na qual se criou. Quando, lá chegando, Ele começou a ensinar na sinagoga e a fazê-lo com uma autoridade nunca antes vista, aquela gente que o ouvia ficou escandalizada. Não é Ele o carpinteiro, o filho de Maria, parente de alguns dos nossos vizinhos? – E, ao invés de se alegrarem com a prodigalidade de um filho daquela terra, ficam escandalizados e não o aceitam. E qual o motivo? Ele era humano demais para falar de Deus com tal autoridade!

Meus caros, nos demos conta de que em toda a história da salvação Deus quis comunicar-se com os homens através de instrumentos humanos, muitas vezes débeis e imperfeitos, mas que precisamente por isso são capazes de mostrar toda a força de Deus.

Deus se fez homem, um de nós, e somente porque assumiu integralmente nossa humanidade – excetuando o pecado – é que fomos salvos. São Gregório Nazianzeno nos diz: “Aquele que não foi assumido não foi salvo; mas aquele que foi salvo, é aquele que estava unido a Deus”. Ora, a natureza humana foi salva porque unida a Deus em Jesus Cristo. Tertuliano afirma que a salvação da pessoa humana foi o motivo pelo qual o Verbo assumiu a humanidade. Sem uma carne verdadeira por parte do Verbo, a humanidade não tem nenhuma esperança se salvação.

Parece algo que é sabido por todos, mas nem sempre todos se dão conta de que nossa fé é uma fé que se vive no dia-a-dia, nos afazeres mais simples, mais comuns. O cristianismo não existe à margem da dura realidade cotidiana. A fé cristã está enraizada no caminho humano, ela é radicalmente humana! E isso causa admiração entre nós assim como causou admiração aos conterrâneos de Jesus, porque como outrora muitos hoje preferem viver uma fé feita somente de “coisas celestes”, extraordinárias, fantásticas. Mas Deus não se revelou celestialmente. Ele se revelou humanamente!

E se humanamente Deus se revelou, humanamente é que vamos viver também a nossa fé, sobretudo fazendo de nossa vida um sacrifício agradável a Deus através de nosso trabalho bem feito, bem acabado, seja ele na chefia de um grande número de pessoas, seja ele um trabalho que passa despercebido dentro de nossas casas ou diante de algum computador escondido entre tantos; seja ele como professor, diante de uma turma exigente, seja ele em uma classe escolar no meio de dezenas de colegas.

Por fim, e não menos importante, notemos um detalhe do evangelho de hoje: Jesus não operou ali nenhum milagre pela falta de fé daquela gente. Eles estavam tão acostumados com Jesus, a quem conheciam desde jovem, que não receberam sua mensagem como algo de novo, pois Jesus já lhes era familiar. Hoje pode acontecer de nós também estarmos já tão familiarizados com Jesus que dá a impressão que Ele já não tem nada de novo para me ensinar. Não permitamos cair na tentação de nos acostumarmos com Jesus. Ele sempre quer e pode nos surpreender. Sempre haverá algo que ainda devo aprender e viver. Mas não esperemos que o Senhor nos revele esse algo de forma extraordinária, mandando-nos um anjo ou algo parecido. Ele o revelará da forma mais humana possível, seja através de um homem ou uma mulher que aqui da mesa da Palavra proclama uma leitura, seja através da pregação de um sacerdote, ou ainda com alguma situação que a vida nos impõe. Afinal, o Evangelho é como um baú, donde tiramos coisas novas e velhas.

Que Santa Maria nos ajude a vivermos de forma bem concreta e palpável a nossa fé, fazendo bem o que nos compete fazer, ordenando a Deus nosso Senhor todas as nossas atividades humanas. Amém.

padre Jacques Rodrigues

 

 

A PALAVRA É MEDITADA

“Chega Jesus!”: a notícia deve ter chegado a Nazaré com a velocidade de um relâmpago ou – dir-se-ia hoje - de uma sms, saltando do mercado dos cananeus, para o tanque público, a escola junto da sinagoga, passando de casa in casa, correndo de boca em boca. A fama de mestre sábio e de poderoso curador, ligada ao seu nome, espalhava-se praticamente há tempo em toda a Galileia, mas na aldeia aquelas vozes eram sempre acompanhadas de sorrisos maliciosos e um encolher de ombros entre o cético e o curioso: como é que durante trinta anos ninguém se tinha dado conta do verdadeiro cabedal daquele jesus, o filho de Maria, que na aldeia tinha sempre passado por um normalíssimo carpinteiro, mas que nos arredores vinha sendo decantado já há algum tempo como um astro de primeira categoria em questão de inteligência, sabedoria e poder prodigioso?

1. Naquele sábado deve ter estado toda a aldeia esmagada na sinagoga e na praça em frente a ouvir Jesus, o qual desde que se tinha ido embora a pregar nos lugares vizinhos de Nazaré, não tinha mais regressado. Mas paradoxalmente aquilo que devia parecer um sucesso garantido, muito rapidamente se transformou num clamoroso desastre: “e não pôde ali realizar nenhum prodígio”, anota amargo e seco o evangelista. A trajetória da recusa é cuidadosamente e minuciosamente reconstruida por Marcos: parte-se da escuta (“muitos escutavam”), passa-se à admiração (“ficavam admirados”), por fim à perplexidade (“donde lhe vêm todas estas coisas?”), para acabar no desprezo (“um profeta só é desprezado na sua pátria”). Porque é que os conterrâneos de Jesus saltam da admiração á incredulidade? O evangelista ajuda-nos a encontrar a resposta: porque “se escandalizavam dele”. O escândalo é uma pedra na qual se tropeça e se cai. Deus – segundo os nazarenos – era demasiado grande para se abaixar e falar através de um homem tão simples! É o escândalo da incarnação: com Jesus esbatemo-nos contra o evento desconcertante e um “Deus feito carne”, que pensa com mente de homem, trabalha e age com mãos de homem, ama com coração de homem, um Deus que sua, come e dorme como nós. Como é possível? Nós gostaríamos de o ver como um super-homem, e gataríamos de ser pelo menos um pouco como pensamos que Ele seja; não aceitamos que ele seja como efetivamente somos.  

Eis a raiz da incredulidade. Afinal de contas é fácil dizer: “este jesus é mesmo um Deus!”; é muito difícil reconhecer: “Deus é mesmo este Jesus!”. Nós pensamos que devia resultar bastante simples para os seus conterrâneos acreditar nele, porque o viam na sua frente em carne e osso, enquanto nós devemos acreditar nele sem o ver, e não nos damos conta que a fazer esbarrar os nazarenos foi precisamente o excesso de familiaridade com o seu conterrâneo que se tornou ilustre. Precisamente porque conheciam a humildade das origens de Jesus e da sua condição, os habitantes de Nazaré recusaram-se a entrar na “lógica” humanamente tão ilógica de Deus o qual, para se tornar próximo de nós, se despojou da sua glória, “assumindo a condição de escravo, e fazendo-se semelhante aos homens” (Fil 2,7). Assim, em vez de se deixar meter em questão por Jesus, os seus conterrâneos metem em questão a Ele: porque é que Deus haveria de se revelar “neste” e não num outro concidadão, talvez mais rico, mais nobre ou mais poderoso? A conclusão, dramática, é aquela que tira S. João no prólogo do seu evangelho: “Veio aos seus, mas os seus não o receberam” (Jo 1,11).

2. Também para muita gente de hoje, mesmo dizendo-se cristã, se verifica uma situação análoga à dos habitantes de Nazaré relativamente a Jesus: o seu evangelho não suscita a impressão de qualquer coisa de novo e desconcertante para que se julgue conhecê-lo e dá-se por descontado. Hoje muitos cristãos, quando ouvem o evangelho, têm muitas vezes a sensação de se encontrar diante de qualquer coisa que já sabem de cor, e assim a sua reacção não é mais a admiração, mas o abrir a boca, não é a maravilha, mas a dependência: é aquele cansado e satisfeito apagamento das cosias já ouvidas e mil vezes, sabidas e ressabidas. Escrevia João Paulo II: “Muitos europeus contemporâneos pensam de saber o que é o cristianismo, mas não o conhecem realmente. Frequentemente os elementos e as próprias noções fundamentais da fé já não são conhecidos. Muitos baptizados vivem como se Cristo não existisse: repetem-se os gestos e os sinais da fé, mas a eles não corresponde um real acolhimento do conteúdo da fé e uma adesão à pessoa de Jesus”.

A conclusão é que “há necessidade de um renovado anúncio mesmo para quem é bapizado”. Há urgência de “nova evangelização”. Mas fazer a nova evangelização não é fazer uma evangelização nova, diversa, mas é sim fazer nova – isto é diversamente – a evangelização. Em concrecto a questão nodal: como restituir frescura ao anúncio a quem pensa que já acredita?

Antes de mais é preciso partir de novo do coração da fé, que não é uma série de formulas a aceitar, ou de normas a observar ou de ritos a praticar, mas é uma pessoa: Jesus Cristo, único Senhor e Salvador de todos. Mas para que Jesus - a sua obra, a sua pessoa – seja de verdade uma feliz notícia de salvação, é necessário não o reduzir a objecto ou argumento de que discutir, mas é indispensável deixar-se encontrar por Ele como sujeito vivente, que “me amou e se deu por mim” (Gal 2,20), que vem ao meu encontro como o caminho, a verdade e a vida.  

Além disso, é preciso nunca esmagar o desconcertante paradoxo do evangelho sobre o bom senso corrente, caso contrário sai um “evangelho modelado sobre o homem” (Gal 1,11). “Não se pode falar de Jesus Cristo de modo óbvio. A realização das esperanças humanas da parte do evangelho é sempre surpreendente e passa primeiro pela sua reversão, coisa que é motivo de fé para alguns e de escândalo para outros. Todas as religiões dizem que o homem deve estar pronto a dar a vida por Deus, mas o evangelho fala antes de mais que o Filho de Deus deu a vida pelo homem. O movimento foi revirado. Não são os discípulos que lavaram os pés ao senhor, isto seria óbvio; mas o Senhor que lavou os pés aos discípulos, isto é verdadeiramente surpreendente. A revolução feita por Jesus compromete o crente a, por sua vez, revolucionar o modo de pensar Deus e a sua glória” (CEI, Questa è la nostra fede).

Quanto foi dito até aqui não se poderia realizar sem o testemunho vivo e concreto, belo e atraente de pessoas famílias e comunidades cristãs que vivem “paradoxalmente”, segundo critérios que estão em nítida antítese com o senso comum. É o fascínio de uma vida nova que aponta para a que João Paulo II chamava a “medida alta” da santidade.  

Ora o Senhor vem ao nosso encontro no sinal pobre de um pedaço de pão partido: a sua presença não é menos verdadeira e intensa de quando Ele aparecia só como um simples homem entre os homens. Felizes de nós se soubermos reconhecê-lo! Felizes de nós se soubermos fazer-nos reconhecer como seus discípulos e testemunhas!

A PALAVRA É REZADA

Deveria ser um regresso em grande estilo,

na tua aldeia, Jesus.

Já te acompanha a fama dos milagres realizados

e à tua palavra são reconhecidas

uma sabedoria e uma força especiais.

Ma as coisas vão bem noutro sentido…

Se existem, pelo menos no inicio, admiração entusiasmo,

depois manifestam-se dúvidas e incompreensões.

Porquê? Porquê um acolhimento deste género?

Porquê uma incredulidade que bloqueia

a força prodigiosa do teu amor que cura e levanta?

A suscitar escândalo entre os teus conterrâneos,

entre quantos julgam conhecer-te desde sempre

é precisamente o facto que te consideram um deles, como eles.

E parece-lhes impossível que Deus fale 

e actue não através de personagens das altas esferas, 

ou dignitários prestigiosos, ou chefes de famílias sacerdotais,

mas por meio de um homem 

que partilhou em tudo a sua existência.

Ajuda-me, Jesus, a acolher com alegria e gratidão

a acção do Espirito, mesmo e sobretudo quando me surpreende. Ámen.

(In Qumran e La Chiesa: tradução livre de fr. José Augusto)

 

 

1º Esquema

 O profeta não é estimado em sua pátria... Os seres humanos não conseguem ver os sinais de Deus em sua própria vida, como diz o profeta Ezequiel há um coração duro no povo que impede de ouvir a Deus e ver seus sinais, e assim sendo não se submetem, da mesma maneira os conterrâneos de Jesus se prendem a humanidade de Jesus, aquilo que eles conheciam e não assumindo a própria fraqueza não conseguem ver a ação de Deus, portanto não tem fé, ter os olhos fitos no Senhor.

 

2º Esquema

E admirou-se com a falta de fé deles... Fé é entrega nas mãos de Deus, para isso ser feito temos que contemplar a Deus em nossa própria vida, na medida que nos apegamos às aparências não conseguimos ter fé por não “ver” a ação de Deus, por isso é necessário muitas vezes espinhos na carne, esbofeteamento de satanás para aceitando a própria fraqueza, aquebrantando corações possamos aí sim, a partir da nossa fraqueza deixar Deus agir em nós, experimentar a piedade do Senhor.

 

3º Esquema

“De onde recebeu tudo isso?” Como humanos que somos na nossa vida, percorrendo os anos, temos que transpor muralhas, isto é, ultrapassar as aparências humanas e ver a ação bondosa de Deus nos sinais de amor, das curas e milagres, porém nosso orgulho, a nossa autossuficiência provocam uma dureza de coração e uma cabeça dura que não se dobra perante Deus, por isso como São Paulo, devemos nos comprazer na fraqueza para que a graça de Deus habite em nós e assim podermos ter os olhos fitos no Senhor até que Ele tenha de nós piedade.   

Caemem São Miguel Arcanjo

 

 

“Piedade Iaweh! Tende piedade. Estamos fartos, saciados de desprezo! Nossa vida está farta por demais dos sarcasmos dos satisfeitos (Sl. 123/122,3-4)

Reunidos para celebrar a páscoa semanal de Jesus. A missão de Jesus encontra-se em muitas dificuldades. Pelo fato de ser simples e não querer privilégios, sofre rejeição. Revelar que Deus é humilde é um escândalo para os que querem poder. Certamente Jesus mexeu com os sentimentos mais profundos de vaidade do ser humano. Os caminhos da simplicidade encontram ainda hoje muitas barreiras. Fama e poder são muito mais atraentes e tende facilmente a nos desviar da proposta trazida por Jesus.

1. Situando-nos brevemente

A comunidade se reúne para celebrar a festa da vida que vence a morte, ouvindo a Palavra e repartindo o pão eucarístico. Ao celebrar a Eucaristia, oferecemos a Deus os frutos da semana e viemos nos reabastecer para seguir na missão. A liturgia é o “cume para onde converge toda a ação da Igreja e a fonte de onde emana toda a sua força” (SC n.10).

Neste domingo, Marcos nos fala da rejeição dos contemporâneos de Jesus, que o enxergam somente com olhos humanos. Somos convidados a renovar nossa fé e adesão a Ele, o Filho de Deus, encarnado na história humana, em que, somos convidados a passar da morte para a vida, a realizar a vontade do Pai e a fazer memória da páscoa do Senhor, que experimentou a rejeição do seu povo em sua terra natal, e ainda continua rejeitado em tantas pessoas marginalizadas e excluídas da vida social, mesmo em nossas comunidades.

2. Recordando a Palavra

Encontramos Jesus em sua terra natal, acompanhado pelos discípulos. Pela última vez, vai à sinagoga no sábado, conforme o costume do seu povo. Como adulto, tem o direito de usar da palavra e aproveita para ensinar. Há grande interesse em ouvi-lo. Muitos o imaginam todo-poderoso investido de poderes políticos especiais. Mas o conteúdo de sua fala causa perplexidade porque todos o conhecem como um simples homem, um carpinteiro, parente e familiar de seus vizinhos e amigos.

Jesus logo percebe o que baila em suas cabeças e declara com certa tristeza: “um profeta só é desprezado em sua terra”. Com esta afirmação, se apresenta como profeta, explicita a que veio e declara o sentido de sua missão. Proclama o alcance de sua vocação, pois foi enviado pelo Pai para visitar o mundo, trazer-nos a salvação e oferecer em plenitude a vida.

É contraditório que, no início da missão na Galileia, tenha sido aceito com entusiasmo pela multidão que ouvia a Boa Nova, sobretudo os pobres e doentes. Mas sofre rejeição em sua terra natal, por parte de seus familiares e vizinhos. Seus conterrâneos esperavam por um messias forte dominador e não podiam imaginá-lo simples carpinteiro e filho de Maria.

O que é extraordinário em Jesus-Messias é o fato de em nada ser diferente da pessoa humana comum: sua encarnação. O Filho de Deus se fez como qualquer um de nós, inseriu-se na história de seu povo, onde aprendeu e cresceu em humanidade.

A primeira leitura mostra que Deus sempre envia profetas para nos chamar à conversão, mesmo quando não queremos escutá-los. A atividade de Ezequiel pode ser situada entre 593-751 a.C., período de dificuldades e sofrimentos para o povo de Deus, exilado na Babilônia.

Em ambiente difícil e hostil, Ezequiel precisa manter a lucidez profética. Sua missão é dramática: está junto do povo, mas não para dizer palavras agradáveis. É chamado de “filho do homem”, o que significa que pertence à frágil raça humana. Ele nada mais é que um homem, um servo.

Ezequiel, caído prostrado como todo o povo exilado, recebe o espírito de profecia que o põe de pé e lhe permite discernir, em meio a situações difíceis e obscuras, o que Deus fala. Gostando ou não, deve ser porta-voz de Deus.

Profeta não é diplomata. Sua missão tem duplo sabor: experimenta a doçura do mel que brota da Palavra de Deus, mas esta mesma Palavra lhe causa amargura. Deve proclamá-la, sendo aceita ou não, oportuna ou importunamente, mesmo rejeitado.

Ser profeta é por em risco a própria vida. Para ele, não há elogios nem aplausos. O exílio não foi fruto do acaso, como não o é a miséria, a dependência e a opressão em que vive o povo hoje. O sofrimento de muitos era responsabilidade da elite que também se encontrava na Babilônia: a “nação de rebeldes, filhos de cabeça dura e coração de pedra”. Ela se torna surda aos apelos que Deus faz por meio de Ezequiel. Mesmo sem ser ouvido, o profeta é um sinal de que Deus não abandona seu povo.

O Salmo 122 (123 é uma súplica confiante que convida a “levantar os olhos” para o Senhor em meio às aflições, ao desprezo e às humilhações. Como os romeiros, o salmista mantém os olhos fixos em Deus enquanto caminha e espera a salvação diante dos poderosos e opressores.

A segunda leitura mostra quem ampara o discípulo de Jesus em sua missão. Paulo experimenta um “espinho na carne”; conflitos que acompanham quem segue Jesus; resistências que encontra dentro e ao redor de si mesmo. E, ainda dentro, a pessoa se sente repleta de fraqueza e de necessidades. Por outro lado, há os conflitos que vêm de fora: “fraquezas, injúrias, perseguições e angústias sofridas por amor de Cristo”.

“A você, basta a minha graça”. Nasce, assim, uma espiritualidade do conflito, uma mística que descobre Deus não no sucesso, mas justamente no aparente fracasso de pessoas e projetos, pois o próprio Deus se manifestou vitorioso no suposto fracasso de Jesus na cruz. É uma presença que é graça, força, dinamismo. “Quando sou fraco, então é que sou forte”, porque o que o ampara na missão é a graça de Deus.

3. Atualizando a Palavra

A sabedoria das palavras de Jesus de Nazaré e as ações compassivas de suas mãos deixavam as pessoas maravilhadas. O Papa Francisco fala que Nosso Senhor conquistou o coração das pessoas com a Palavra. De todas as partes vinham para ouvi-Lo (cf. Mc. 1,45). Ficavam maravilhados, “Bebendo” seus ensinamentos (cf. Mc. 6,2). Sentiam que lhes falava como quem tem autoridade (cf. Mc. 1,27). Os apóstolos que Jesus estabelecera “para que ficassem com Ele e para que os enviasse a anunciar a Boa-Nova” (Mc. 3,14), atraíram para o seio da Igreja todos os povos com a Palavra (cf. Mc. 16,15.20); (cf. EG, n.16).

Jesus não pôde, porém, realizar muitos milagres junto a seu povo, porque lhes falava a fé para acolher e reconhecer o dom salvífico. O acolhimento da Palavra proporciona a experiência profunda da fé, o encontro com Cristo que cura e liberta integralmente. Paulo ensina a deixar-se conduzir pela graça do Senhor, em meio aos desafios decorrentes da missão apostólica. O Exemplo de Jesus que continuou a proclamar a Boa Notícia do Reino de Deus, mesmo diante a incompreensão e incredulidade, impele à perseverança no anúncio e no testemunho de sua mensagem libertadora.

O profeta Ezequiel denunciou as infidelidades à Palavra, que causaram a catástrofe do exílio na Babilônia. Enviado por Deus, ele anunciou a Palavra que não pode silenciar diante das injustiças e das opressões. Ezequiel, como Jeremias e outros profetas, passou por sofrimento por causa da missão a serviço do projeto do Senhor. Suas tribulações prefiguram a rejeição que Cristo experimentará até a cruz. Muitos seguidores e seguidoras tiveram o mesmo destino de Jesus, ao longo da história.

Em várias partes do mundo, sobretudo na Síria e no Iraque, os cristãos continuam perseguidos e martirizados por causa da Boa-Nova de Jesus. Os verdadeiros profetas encontram rejeição na sociedade e na religião.

4. Ligando a Palavra e a Eucaristia

Jesus de Nazaré foi motivo de escândalo para os que o viram só com olhos humanos. Para quem não quer crer, Ele nada revela. Mas a nós, aqui reunidos na fé, Ele se revela em toda sua profundidade. Ele é tão grande que supera toda expectativa, a ponto de estar no meio de nós como alimento e bebida. Para quem não crê, isto não deixa de ser um escândalo.

A Palavra de Deus nos convida a renovar nossa adesão a Jesus, consagrando-o mais generosamente à causa do Reino. Essa nossa profissão de fé nos levar a confirmar que seguimos aqueles que foi rejeitado por ser trabalhador, filho de Maria, uma pessoa comum de seu tempo, vindo de uma aldeia e, por isso, motivo de desprezo e rejeição.

Movidos por essa fé, reunimo-nos em assembléia onde, pela sua Palavra, Jesus nos leva a assumir nossa evidente fragilidade, sem precisar mascará-la com falsa grandeza, e a buscar em sua graça a nossa força. Hoje, particularmente, nossas preces precisam expressar essa realidade.

Alimentados e nutridos no Senhor, renovamos nossa missão profética, assumida no Batismo. Mais do que nunca, o mundo hoje precisa de pessoas de fé e coragem, para que a Boa Notícia seja anunciada e o mundo seja transformado, de acordo com o plano divino de salvação.

dom Vilson Dias de Oliveira, DC 

 

 

“Os milagres se cumpriram entre os crentes”

A respeito da exclamação “De onde lhe vem toda esta sabedoria?”, ela mostra claramente a sabedoria superior e perturbadora das palavras de Jesus, que mereceu o elogio: Eis aqui quem é maior do que Salomão. E os milagres que realizou foram maiores do que os de Elias e Eliseu; até maiores que aqueles, mais antigos, de Moisés e de Josué, filho de Num. Murmuravam assombrados, sem saber que ele nasceu de uma virgem, e, mesmo que o tivesse dito, não teriam acreditado, enquanto supuseram que ele fosse o filho de José, o artesão: Não é ele o filho do carpinteiro?

E cheios de desprezo por todo aquele que poderia parecer sua parentela mais próxima, disseram: Sua mãe não se chama Maria, e seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas, e as suas irmãs não estão todas entre nós? E consideraram, portanto, que fosse filho de José e de Maria. Quanto aos irmãos de Jesus, alguns pretendem, apoiando-se no chamado “Evangelho segundo Pedro” ou no “livro de Tiago”, que eles são os filhos de José, nascidos de uma primeira esposa que teve antes de Maria [1].

Os partidários desta teoria querem salvaguardar a crença na virgindade perpétua de Maria, não aceitando que aquele corpo, considerado digno de estar ao serviço daquela palavra que diz: O Espírito Santo descerá sobre ti, e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra, conhecesse o leito de um homem, após ter recebido o Espírito de santidade e o poder descido do Alto, que a revestiu com a sua sombra. Da minha parte, penso que seria razoável ver em Jesus as primícias da castidade viril no celibato, e em Maria, as da castidade feminina. Realmente seria sacrílego atribuir a outra pessoa tal primícias da virgindade...

As palavras “E as suas irmãs não estão entre nós?” parecem-me ter o seguinte significado: a sabedoria deles é como a nossa, não aquela de Jesus; não há nada de estranho, de excepcional compreensão, como Jesus. É possível que, por estas palavras, surja uma dúvida quanto à natureza de Jesus, que não seria um homem, mas um ser superior, porque, mesmo sendo, como eles creem, filho de José e de Maria, e embora tendo quatro irmãos, inclusive algumas irmãs, não se parece a alguns de seus próximos, e, sem ter recebido instrução e sem mestres, alcançou tal grau de sabedoria e de poder.

Na verdade, eles disseram em outro lugar: Como ele faz para conhecer as Escrituras sem ter estudado? Está aqui um texto similar ao reportado. Contudo, aqueles que falavam deste modo, cheios de dúvidas e de surpresa, bem longe de acreditar, escandalizaram-se a seu respeito, como se os olhos de suas mentes fossem escravizados pelas forças das quais ele triunfaria sobre o lenho, na hora da sua Paixão...

Chegou o momento para esclarecer a passagem: Naquele lugar ele não fez muitos milagres por causa de sua incredulidade. Estas palavras nos ensinam que os milagres se cumpriram entre os crentes, porque se dará ao que tem e terá em abundância, enquanto que entre os incrédulos os milagres não somente não produziram efeito, mas, como escreveu Marcos: Não poderia fazê-lo. Muita atenção, de fato, a estas palavras: Não pode realizar nenhum milagre; realmente, não disse “não quis”, mas “não pode”, porque se agrega ao milagre que está para cumprir-se uma eficaz colaboração proveniente da fé daquele sobre o qual o milagre atua, e que a incredulidade impediria a ação. No caso de - é o caso de destacá-lo -, para aqueles que disseram: “Por que não podemos expulsá-lo?”, ele respondeu: “Por causa de vossa pouca fé”.

Orígenes

Comentário sobre o Evangelho de são Mateus

Lecionário patrístico dominical pp. 422-423

[1] Esta interpretação baseada nos apócrifos não é mais aceita atualmente. Em hebraico os parentes próximos são chamados genericamente de “irmãos”. Portanto, o texto se refere na verdade aos “primos” de Jesus.

 

 

Rejeitar a Deus é desagregar-se

A liturgia deste domingo revela que Deus chama, continuamente, pessoas para serem testemunhas no mundo do seu projeto de salvação. Não interessa se essas pessoas são frágeis e limitadas; a força de Deus revela-se através da fraqueza e da fragilidade desses instrumentos humanos que Deus escolhe e envia.

A primeira leitura apresenta-nos um extrato do relato da vocação de Ezequiel. A vocação profética é aí apresentada como uma iniciativa de Jahwéh, que chama um “filho de homem” (isto é, um homem “normal”, com os seus limites e fragilidades) para ser, no meio do seu Povo, a voz de Deus.

Na segunda leitura, Paulo assegura aos cristãos de Corinto (recorrendo ao seu exemplo pessoal) que Deus atua e manifesta o seu poder no mundo através de instrumentos débeis, finitos e limitados. Na ação do apóstolo – ser humano, vivendo na condição de finitude, de vulnerabilidade, de debilidade – manifesta-se ao mundo e aos homens a força e a vida de Deus.

O Evangelho, ao mostrar como Jesus foi recebido pelos seus conterrâneos em Nazaré, reafirma uma idéia que aparece também nas outras duas leituras deste domingo: Deus manifesta-Se aos homens na fraqueza e na fragilidade. Quando os homens se recusam a entender esta realidade, facilmente perdem a oportunidade de descobrir o Deus que vem ao seu encontro e de acolher os desafios que Deus lhes apresenta.

1ª Leitura – Ez 2,2-5

Naqueles dias, depois de me ter falado, entrou em mim um espírito que me pôs de pé. Então, eu ouvi aquele que me falava, qual me disse: 'Filho do homem, eu te envio aos israelitas, nação de rebeldes, que se afastaram de mim. Eles e seus pais se revoltaram contra mim até ao dia de hoje. A estes filhos de cabeça dura e coração de pedra, vou-te enviar, e tu lhes dirás: 'Assim diz o Senhor Deus. `Quer te escutem, quer não - pois são um bando de rebeldes - ficarão sabendo que houve entre eles um profeta'.

MENSAGEM

O nosso texto apresenta alguns dos elementos típicos dos relatos de vocação e que fazem parte de qualquer história de vocação.

Sugere-se, em primeiro lugar, que a vocação profética é um desígnio divino. Não se nomeia Jahwéh diretamente; mas aquele que chama Ezequiel não pode ser outro senão Deus… O nosso texto é antecedido (cf. Ez 1,1-28) de uma solene manifestação de Deus. Depois, o profeta ouve uma “voz” que o chama (vers. 2) e que revela a Ezequiel que deve dirigir-se a esse Povo rebelde que se insurgiu contra Deus. Há também uma referência ao “espírito” que se apossou do profeta e o fez “levantar”; de acordo com a reflexão judaica, era Deus que comunicava uma força divina – o seu “espírito” – àqueles que escolhia para enviar a salvar o seu Povo, como os juízes (cf. Jz 14,6.19; 15,14), os reis (cf. 1 Sam 10,6.10; 16,13) e os profetas (no caso de Ezequiel, esse “espírito” aparece como uma manifestação especialmente violenta de Deus, que se apossa do profeta e o destina para o seu serviço). A vocação é sempre uma iniciativa de Deus e não uma escolha do homem. Foi Deus que chamou Ezequiel e que o designou para o seu serviço.

Em segundo lugar, aparece a idéia de que o chamamento é dirigido a um homem. Ezequiel é chamado “filho de homem” (vers. 3) – expressão hebraica que significa simplesmente “homem ligado à terra, fraco e mortal. Deus chama homens frágeis e limitados, não seres extraordinários, etéreos, dotados de capacidades incomuns… O que é decisivo não são as qualidades extraordinárias do profeta, mas o chamamento de Deus e a missão que Deus lhe confia. A indignidade e a limitação, típicas do “filho do homem”, não são impeditivas para a missão: a eleição divina dá ao profeta autoridade, apesar dos seus limites bem humanos.
Em terceiro lugar, temos a definição da missão. Ezequiel, o profeta, é enviado a um Povo rebelde, que continuamente se afasta dos caminhos de Jahwéh. A sua missão é apresentar a esse Povo as propostas de Deus. O mais importante não é que as palavras do profeta sejam ou não escutadas; o que é importante é que o profeta seja, no meio do Povo, a voz que indica os caminhos de Deus (vers. 4-5).

A vida de Ezequiel realizou integralmente o projeto de Deus. Chamado por Jahwéh, ele foi, no meio do Povo exilado na Babilônia, uma voz humana através da qual Deus apresentou ao seu Povo o caminho para a vida plena e verdadeira. É essa a missão do profeta.

 

2ª Leitura – 2Cor 12,7-10

Irmãos: Para que a extraordinária grandeza das revelações não me ensoberbecesse, foi espetado na minha carne um espinho, que é como um anjo de Satanás a esbofetear-me, a fim de que eu não me exalte demais. A esse propósito, roguei três vezes ao Senhor que o afastasse de mim. Mas ele disse-me: 'Basta-te a minha graça. Pois é na fraqueza que a força se manifesta'.

Por isso, de bom grado, eu me gloriarei das minhas fraquezas, para que a força de Cristo habite em mim. Eis porque eu me comprazo nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições e nas angústias sofridas por amor a Cristo. Pois, quando eu me sinto fraco, é então que sou forte.

MENSAGEM

Assumindo essa condição de debilidade e de vulnerabilidade, Paulo fala aos Coríntios de uma limitação que transporta no seu corpo, um “anjo de Satanás” que lhe recorda continuamente a sua finitude e fragilidade (vers. 7). De que é que se trata, em concreto? Não o sabemos. Provavelmente, trata-se de uma doença física crônica (em Gal 4,13-14 Paulo fala de uma grave enfermidade física, que fez com que o corpo do apóstolo fosse, para os Gálatas, “uma provação”; mas nada garante que essa enfermidade física esteja relacionada com este “anjo de Satanás” de que ele fala aos Coríntios). O fato de Paulo chamar a essa limitação que o apoquenta um “anjo de Satanás” deve ter a ver com o fato de a mentalidade judaica ligar as enfermidades aos “espíritos maus”. De acordo com outra interpretação, esse “espinho na carne” que é um “anjo de Satanás” poderia referir-se também aos obstáculos que Satanás põe a Paulo no que diz respeito ao anúncio do Evangelho.

Em todo o caso, o problema pessoal de Paulo mostra como a finitude e a fragilidade não são determinantes para a missão; o que é determinante é a graça de Deus… Com a graça de Deus, Paulo tudo pode, apesar da sua debilidade. Deus não eliminou o problema, apesar dos insistentes pedidos de Paulo; mas é Ele que dá a Paulo a força para continuar a sua missão, apesar dos limites que esse “espinho na carne” lhe impõe. Na verdade, o problema pessoal de que Paulo sofre dá testemunho de que Deus atua e manifesta o seu poder no mundo através de instrumentos débeis, finitos e limitados. No apóstolo – ser humano, vivendo na condição de finitude, de vulnerabilidade, de debilidade – manifesta-se ao mundo e aos homens a força de Deus e de Cristo.

 

EVANGELHO – Mc 6,1-6

Naquele tempo: Jesus foi a Nazaré, sua terra, e seus discípulos o acompanharam. Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga. Muitos que o escutavam ficavam admirados e diziam: 'De onde recebeu ele tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses grandes milagres que são realizados por suas mãos? Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, de Jose, de Judas e de Simão? Suas irmãs não moram aqui conosco?' E ficaram escandalizados por causa dele. Jesus lhes dizia: 'Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares'. E ali não pôde fazer milagre algum. Apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos. E admirou-se com a falta de fé deles. Jesus percorria os povoados das redondezas, ensinando.

MENSAGEM

Os ensinamentos de Jesus na sinagoga, naquele sábado, deixam impressionados os habitantes de Nazaré, como já tinham deixado impressionados os fiéis da sinagoga de Cafarnaum (cf. Mc 1,21-28). No entanto, os de Cafarnaum, depois de ouvir Jesus, reconheceram a sua autoridade mais do que divina (e que, segundo eles, era diferente da autoridade dos doutores da Lei); os de Nazaré vão chegar a conclusões distintas.

Depois de escutarem Jesus, na sinagoga, os seus conterrâneos traduzem a sua perplexidade através de várias perguntas… Duas das questões postas dizem respeito à origem e à qualidade dos ensinamentos de Jesus (“de onde lhe vem tudo isto? Que sabedoria é esta que lhe foi dada?” – vers. 2); uma outra questão refere-se à qualificação das ações de Jesus (“e os prodigiosos milagres feitos por suas mãos?” – vers. 2).

Numa espécie de contraponto à impressão que Jesus lhes deixou, eles recordam o seu ofício e a “normalidade” da sua família (vers. 3a)… Para eles, Jesus é “o carpinteiro”: não é um “rabbi”, nunca estudou as Escrituras com nenhum mestre conceituado e não tem qualificações para dizer as coisas que diz. Por outro lado, eles conhecem a identidade da família de Jesus e não descobrem nela nada de extraordinário: Ele é o “filho de Maria” e os seus irmãos e irmãs são gente “normal”, que toda a gente conhece em Nazaré e que nunca revelaram qualidades excepcionais. Portanto, parece claro que o papel assumido por Jesus e as acções que Ele realizou são humanamente inexplicáveis.

A questão seguinte (que, no entanto, não aparece explicitamente formulada) é esta: estas capacidades extraordinárias que Jesus revela (e que não vêm certamente dos conhecimentos adquiridos no contacto com famosos mestres, nem do ambiente familiar) vêm de Deus ou do diabo? Desde o primeiro momento, os comentários dos habitantes de Nazaré deixam transparecer uma atitude negativa e um tom depreciativo na análise de Jesus. Nem sequer se referem a Jesus pelo próprio nome, mas usam sempre um pronome para falar d’Ele (Jesus é “este” ou “ele” - vers. 2-3). Depois, chamam-Lhe depreciativamente “o filho de Maria” (o costume era o filho ser conhecido em referência ao pai e não à mãe). Como cenário de fundo do pensamento dos habitantes de Nazaré está provavelmente a acusação feita a Jesus algum tempo antes pelos “doutores da Lei que haviam descido de Jerusalém e que afirmavam: «Ele tem Belzebu! É pelo chefe dos demônios que ele expulsa os demônios»“ (Mc 3,22). Marcos conclui que os habitantes de Nazaré ficaram “escandalizados” (vers. 3b) com Jesus (o verbo grego “scandalidzô”, aqui utilizado, significa muito mais do que o “ficar perplexo” das nossas traduções: significa “ofender”, “magoar”, “ferir susceptibilidades”). Há na vila uma espécie de indignação porque Jesus, apesar de ter sido desautorizado pelos mestres reconhecidos do judaísmo, continua a desenvolver a sua atividade à margem da instituição judaica. Ele põe em causa a religião tradicional, quando ensina coisas diferentes e de forma diferente dos mestres reconhecidos. Conclusão: Ele está fora da instituição judaica; o seu ensinamento não pode, portanto, vir de Deus, mas do diabo. Os conterrâneos de Jesus não conseguem reconhecer a presença de Deus naquilo que Jesus diz e faz.

Jesus responde aos seus concidadãos (vers. 4) citando um conhecido provérbio, mas que Ele modifica, em parte (o original devia soar mais ou menos assim: “nenhum profeta é respeitado no seu lugar de origem, nenhum médico faz curas entre os seus conhecidos”). Nessa resposta, Jesus assume-Se como profeta – isto é, como um enviado de Deus, que atua em nome de Deus e que tem uma mensagem de Deus para oferecer aos homens. Os ensinamentos que Jesus propõe não vêm dos mestres judaicos, mas do próprio Deus; a vida que Ele oferece é a vida plena e verdadeira que Deus quer propor aos homens.

A recusa generalizada da proposta que Jesus traz coloca-o na linha dos grandes profetas de Israel. O Povo teve sempre dificuldade em reconhecer o Deus que vinha ao seu encontro na palavra e nos gestos proféticos. O fato de as propostas apresentadas por Jesus serem rejeitadas pelos líderes, pelo povo da sua terra, pelos seus “irmãos e irmãs” e até pelos da sua casa não invalida, portanto, a sua verdade e a sua procedência divina.

Porque é que Jesus “não podia ali fazer qualquer milagre” (vers. 5)? Deus oferece aos homens, através de Jesus, perspectivas de vida nova e eterna… No entanto, os homens são livres; se eles se mantêm fechados nos seus esquemas e preconceitos egoístas e rejeitam a vida que Deus lhes oferece, Jesus não pode fazer nada. Marcos observa, apesar de tudo, que Jesus “curou alguns doentes impondo-lhes as mãos”. Provavelmente, estes “doentes” são aqueles que manifestam uma certa abertura a Jesus mas que, de qualquer forma, não têm a coragem de cortar radicalmente com os mecanismos religiosos do judaísmo para descobrir a novidade radical do Reino que Jesus anuncia.

Marcos nota ainda a “surpresa” de Jesus pela falta de fé dos seus concidadãos (vers. 6a). Esperava-se que, confrontados com a proposta nova de liberdade e de vida plena que Jesus apresenta, os seus interlocutores renunciassem à escravidão para abraçar com entusiasmo a nova realidade… No entanto, eles estão de tal forma acomodados e instalados, que preferem a vida velha da escravidão à novidade libertadora de Jesus.

Este fato decepcionante não impede, contudo, que Jesus continue a propor a Boa Nova do Reino a todos os homens (vers. 6b). Deus oferece, sem interrupção, a sua vida; ao homem resta acolher ou não esse oferecimento.

Jose Inaldo Lima

 

 

«O próprio Senhor disse de si: Um profeta só não é estimado em sua pátria (Mc. 6,4; Jo. 4,44). Profeta é o Senhor, e Palavra de Deus é o Senhor: profeta algum profetiza sem a Palavra de Deus, pois a Palavra de Deus está com os profetas, e profeta é a Palavra de Deus. Os primeiros tempos mereceram profetas inspirados e cheios da Palavra de Deus. Nós merecemos ter como profeta a própria Palavra de Deus. Ora, Cristo é profeta e Senhor dos profetas, assim como é anjo e Senhor dos anjos, já que foi chamado “anjo do grande conselho” (cf. Is. 9,5, segundo LXX)

Todavia, o que diz um profeta noutra passagem? Que não há de ser um legado nem um anjo, mas ele próprio, quem virá para salvar os que o ouviam (cf. Is. 35,4), isto é, que para salvá-los não enviará legado, não enviará anjo, mas virá ele próprio. Quem virá? O próprio anjo. Não por meio de um anjo, certamente, a não ser pelo fato de ele não só ser anjo, como também Senhor dos anjos. Com efeito, o termo ‘anjos’ significa, em latim, mensageiros. Se Cristo não trouxesse mensagem alguma, não seria chamado de anjo. Se Cristo nada profetizasse, não seria chamado de profeta. Ele exortou-nos à fé e a alcançar a vida eterna: anunciou uma mensagem presente e predisse algo futuro. Por anunciar mensagem presente era anjo, por predizer o futuro era profeta. E porque a Palavra se fez carne, constituiu-se em Senhor tanto dos anjos, como dos profetas».

santo Agostinho (In Io. ev. 24, 7)

tradução: Luciano Rouanet, OAR