Enviados por Deus e rejeitados pelos seus

O tema da liturgia de hoje é a rejeição à palavra de Deus. No evangelho, os contemporâneos de Jesus não lhe dão crédito porque não conseguem ver nele nada mais que um carpinteiro. Mas isso não é fato pontual, já havia incredulidade no tempo dos profetas. A primeira leitura menciona a falta de fé dos contemporâneos de Ezequiel, porque têm um coração insensível. O profeta é orientado a insistir na proclamação da palavra de Deus mesmo que seus contemporâneos não queiram ouvi-la. Assim também agiu Paulo, que, em vez de desanimar com as dificuldades, continuou com o anúncio do evangelho e nos ensinou a dizer: “quando sou fraco, então é que sou forte”.

Evangelho (Mc. 6,1-6)

O profeta é desprezado na própria terra

Passando novamente por sua própria terra, Jesus encontrou dificuldade para operar milagres por causa da falta de fé. Ele se dirigiu à sinagoga no dia de sábado, como todo judeu adulto, e tomou a palavra para ensinar. Não se tratava de qualquer instrução, pois o lugar e o dia faziam disso um ensino oficial e litúrgico.

O ensino de Jesus causa duas reações contrárias: admiração e recusa. Essa disposição para com Jesus marca todo o Evangelho de Marcos, tendo como principais protagonistas dessa recusa os líderes religiosos de seu próprio povo, Israel.

A admiração diante do ensinamento de Jesus estava relacionada com sua autoridade, que não vinha de sua profissão. Ele não tinha a profissão de Rabino (mestre), mas de artesão da madeira. O fato de ser carpinteiro não era desonra, pois se tratava de profissão bem considerada. Essa afirmação apenas prova que os seus compatriotas o conheciam bem e se admiravam que fosse sábio e fizesse milagres, quando o normal seria apenas trabalhar com a madeira. O objetivo aqui é mostrar que a sabedoria e o poder de Jesus não vêm das pessoas, não se adquirem como uma profissão, mas vêm de Deus.

Em seguida, a admiração inicial transformou-se em hostilidade, sinal da incredulidade ante as obras de Jesus. O episódio retrata que os galileus estavam marcados pelo preconceito: admiravam as obras de Jesus, mas não o acolheram. Essa falta de acolhimento o impossibilitou de fazer milagres em sua própria terra, uma vez que os milagres significavam o avanço do reino de Deus e o retrocesso do antirreino, e isso só era possível onde havia fé em Jesus como Messias/Cristo. O preconceito fechou os corações, e os galileus não perceberam a ação de Deus em Jesus.

1ª leitura (Ez. 2,2-5)

O profeta anuncia, quer escutem, quer não

O texto diz que o sopro de Deus entrou em Ezequiel: isso significa que agora ele é inspirado e movido pelo dom da profecia e o que vai anunciar é palavra de Deus. O Espírito põe o profeta de pé, em atitude de prontidão, para anunciar ao povo a profecia que vai receber.

Ezequiel é enviado aos filhos de Israel. Algo fora do comum acontece no v. 3: em vez de Israel ser chamado “povo de Deus”, como geralmente acontece na Bíblia, é chamado de “nação rebelde”, literalmente “gentio rebelde”. Na Bíblia, “gentio” está sempre em oposição a Israel, que é sempre referido como “o povo”. Isso significa que, quando Israel rejeita a palavra de Deus, se torna igual aos gentios. 

A rebeldia dos contemporâneos de Ezequiel vinha de longa data, as gerações passadas se comportaram da mesma forma. As perspectivas da recepção da profecia por parte dos destinatários não são nada animadoras para Ezequiel, pois eles têm a face endurecida e o coração obstinado. Quer escutem, quer não, saberão que “houve um profeta entre eles”. Essa expressão significa que Deus é misericordioso e os advertiu, e que eles já não têm desculpas para o erro.

2ª leitura (2Cor. 12,7-10)

Prefiro gloriar-me de minhas fraquezas

Paulo afirma que tem um “espinho na carne”; de maneira geral, essa expressão significa algo que provoca grande angústia. Uma alusão a Ez 28,24, quando se refere aos povos vizinhos (e inimigos) de Israel como espinhos e abrolhos. Com a expressão “espinho na carne”, o apóstolo pode estar se referindo, entre outras coisas, às angústias que tinha suportado com a oposição à sua pessoa, e à sua autoridade, por parte dos coríntios. A rebeldia da comunidade de Corinto contra Paulo foi tão dolorosa que o compeliu a escrever uma “carta entre lágrimas”: “foi levado por grande aflição e angústias de coração que vos escrevi, em meio a muitas lágrimas” (2Cor 2,4). 

A expressão “mensageiro de satanás” é equivalente a “espinho na carne” e significa que, mesmo sofrendo rejeição por parte dos coríntios, o apóstolo não desanimou da missão de exortá-los a viver conforme o evangelho. Paulo aceitou as angústias como uma motivação para exercer a humildade e vencer o orgulho. O apóstolo deixou que Deus se utilizasse da fraqueza humana para mostrar a grandeza do agir divino.

Pistas para reflexão

– A homilia deve levar a comunidade a refletir sobre as graves consequências da rejeição à palavra de Deus. Ainda hoje Deus nos fala por meio de pessoas humildes e modestas. Às vezes a palavra que nos é anunciada questiona nosso agir, e por isso é muito mais fácil rejeitá-la que sair do nosso estado de comodismo ou de pecado. Não raro nos tornamos um espinho na carne, não raro provocamos grandes angústias a quem somente deseja o bem da comunidade e a vivência mais autêntica da mensagem de Jesus.

Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj

 
 

I. Introdução geral

“Santo de casa não faz milagre”: essa é, aparentemente, a lição do evangelho do 14º Domingo do Tempo Comum – Ano B. Porém, não devemos ver isso como uma mensagem negativa, centrada no aparente fracasso de Jesus no meio dos seus. Pelo contrário, esse trecho do evangelho prepara o que vamos ouvir nos próximos domingos: o “santo” não fica em sua casa, mas dirige-se a todos aqueles que esperam a sua mensagem; e os de casa saberão que houve um profeta no meio deles, como diz a primeira leitura. A aparente impotência do “santo” é uma denúncia contra seus conterrâneos que não são tão santos assim. A presença do profeta no meio deles deve conscientizá-los a respeito da vontade de Deus.

II. Comentário dos textos bíblicos

Evangelho: Mc 6,1-6

O evangelho de hoje conta o episódio da pregação de Jesus em sua própria terra. Para ver o significado desse episódio no conjunto da atividade de Jesus, devemos voltar até o início do Evangelho de Marcos. Depois de ser batizado por João, Jesus passa a anunciar a Boa-nova do reinado de Deus na Galileia em geral e, especialmente, na região de Cafarnaum, à beira do mar da Galileia, onde ele chama os primeiros discípulos. Desde o início, a atividade de Jesus é marcada pela expansão, pelo rompimento de fronteiras e pela abertura a todos os que necessitam de libertação. Já no início de seu ministério, Jesus repete, aos que querem segurá-lo para si, que ele deve pregar também nas outras cidades, e o faz de fato (cf. Mc 1,37-39). Ninguém é dono daquele que traz a Boa-nova do reinado de Deus.

É sobre esse pano de fundo que devemos ver o texto do evangelho de hoje. Depois de ter percorrido a Galileia, Jesus chega à sua cidade paterna, onde vivem seus parentes (ou “irmãos”, como a Bíblia chama os membros do mesmo clã). Segundo Lc 4,16, essa cidade é Nazaré (Lucas coloca esse episódio no início do ministério de Jesus, mencionando que Jesus já operou curas nas outras cidades – cf. Lc 4,23).

A chegada de Jesus à sua cidade se dá depois que ele pregou o reinado de Deus, em forma de parábolas, ao povo de toda a Galileia (cf. Mc 4,1-34). Nessa oportunidade Jesus havia dado a entender que seus verdadeiros irmãos não são necessariamente os parentes, os do seu clã, mas aqueles que escutam sua palavra e cumprem a vontade do Pai, o reinado de Deus (cf. Mc 3,34-35). Depois fez gestos admiráveis, milagres vistosos, que atestavam a sua missão profética, em ambos os lados do mar da Galileia (cf. Mc 5). Até chegar à sua cidade paterna (cf. Mc 6,1).

A reação de seus parentes é reticente, por espanto ou por inveja. Jesus é chamado de “carpinteiro”, alguém que faz telhados ou casas (Mt 13,55 diz “filho do carpinteiro”). Como um carpinteiro pode fazer coisas desse tipo? Mesmo sendo mais do que um escravo ou operário braçal, o carpinteiro, não tendo propriedade, era um sem-terra, um andarilho, que ia de lugar em lugar. O ensinamento admirável e as curas impressionantes, contados nos capítulos anteriores, não eram coisa de carpinteiro! Para um bom entendedor, deviam significar que Deus estava com aquele homem como estava com os profetas Elias e Eliseu, que faziam milagres e sinais. Porém, os habitantes de sua cidadezinha não percebem a realidade por esse viés. Alegam que conhecem os “irmãos” e “irmãs”, ou seja, os membros da família ou clã de Jesus, gente que não tem nada de especial. Alguns desses “irmãos” se tornaram importantes na primeira Igreja, principalmente Tiago e Judas, a quem são atribuídos duas epístolas no Novo Testamento; mas, no momento da pregação de Jesus em Nazaré, eles não tinham nada de especial.

Então Jesus clama sua vocação profética, usando como argumento a afirmação de que o profeta só não é reconhecido em sua própria terra. Os sinais do profeta são os milagres, mas, onde não há desejo desses sinais nem abertura para eles, não adianta fazê-los. Por isso Jesus não pôde fazer ali muitos milagres. Deus não queria. O poder maravilhoso que Deus lhe havia dado não servia para esse público.

Na sequência do Evangelho de Marcos, Jesus aparecerá sempre mais como o profeta rejeitado que, contudo, é o salvador do povo e de todos os seres humanos. Assumindo-se como o servo de Deus, dará sua vida pela multidão (cf. 10,45).

I leitura: Ez 2,2-5

A figura do profeta rejeitado é compreendida com maior clareza se olhamos a primeira leitura.

O Espírito de Deus vem sobre Ezequiel, que é chamado “filho do homem”, ou seja, simples filho da raça humana. Aqui, esse tratamento não tem o sentido particular que receberá a partir de Dn 7,13-14: o ser humano poderoso enviado de junto de Deus e, finalmente, identificado com o glorioso Juiz escatológico (cf. Mt 25,31; 26,64 etc.). Em Ezequiel, o termo “filho do homem” significa o homem como criatura humilde, em contraste com a grandeza de Deus. Ezequiel é um servo, encarregado por Deus da ingrata missão de explicar ao “resto de Israel” a sua situação. Esse “resto de Israel” é o povo desarticulado depois da parcial deportação em 597 a.C. Ezequiel sabe que, mesmo em sua situação de desterro, esse povo não vai gostar de seu recado, pois, desde o tempo de Moisés, costuma rejeitar os enviados de Deus (cf. Ex 2,14; 15,24; 16,2 etc.). Mas, pelo menos, eles saberão que no meio deles está um profeta, ou seja, que Deus não fica calado (cf. Ez 2,5).

Algo semelhante acontecerá a Jesus: mesmo se os seus concidadãos não acolherem sua mensagem, ficarão sabendo que ele passou no meio deles como profeta. E o fato de mais tarde alguns deles se terem tornado seus seguidores mostra o efeito dessa conscientização. Por outro lado, tudo isso nos ensina a ter paciência, pois o efeito da profecia e do testemunho não é imediato. Não devemos, porém, ficar sentados para esperar o efeito: Jesus se levantou e continuou sua missão (cf. Mc 6,6b).

II leitura: 2Cor 12,7-10

A figura de Paulo, na segunda leitura, reforça nossa disposição de assumir, apesar de nossa fragilidade, a missão que Deus nos confia, pois, com a missão, ele dá a força. A Jesus, em sua terra paterna, Deus não deu o poder de milagres, que para nada serviria, mas a Paulo, apesar de sua miséria humana, ele dá sua graça, para que tenha força suficiente. Não sabemos quais foram os problemas de Paulo nem o “espinho na carne” – coisa do demônio – que o incomodava. Isso não tem importância. O que importa é a conclusão. Paulo se gloria, felicita-se com sua própria fragilidade, pois ela faz aparecer a graça e a força que Deus lhe concede. Quando, por sua própria condição humana, o apóstolo é fraco, então ele é forte pela graça de Deus (cf. 12,10).

III. Pistas para reflexão

Os antigos israelitas não gostaram quando o profeta Ezequiel denunciou a infidelidade à Lei e à Aliança, infidelidade que provocou a catástrofe do exílio babilônico (1ª leitura). Mas, gostando ou não, Ezequiel entregou o recado: “Saberão que há um profeta no meio deles”. Algo semelhante aconteceu a Jesus quando foi pregar na sua própria terra, Nazaré, depois de ter percorrido Cafarnaum e as outras cidades da Galileia (evangelho). Os seus conterrâneos não aceitavam que esse homem, que conheceram morando no meio deles como operário braçal, lhes pregasse a conversão para participarem do Reino de Deus. Como poderia alguém socialmente inferior – não proprietário rural – ensiná-los com autoridade! Vale recordar a reação de muitas pessoas quando um operário se candidata a prefeito, governador ou presidente da República!

O evangelho nos diz ainda que, depois da rejeição ciumenta, Jesus não pôde fazer lá muitos milagres. Só uns milagrezinhos, umas curas de doentes. “Santo de casa…” A limitação dos milagres era um aviso de Deus para evidenciar a incredulidade dos destinatários, mas a pregação de Jesus não deixava de ser um sinal profético.

O que ocorreu a Jesus em Nazaré prefigura a rejeição que ele experimentará, poucos meses depois, em Jerusalém. Ali, não apenas recusarão sua palavra, mas o pregarão na cruz.

Como seria uma visita de Jesus a nós, católicos do tempo presente? Encontraria ouvidos? Até hoje, muitos seguidores de Jesus conheceram a mesma sorte. Pessoas simples, profetas que surgem, levantando a voz no nosso meio. São mortos por denunciarem as desigualdades, as injustiças sociais, a violência no campo e na cidade. São mortos, às vezes, por “bons católicos”. São considerados pouco importantes, porque não têm poder. Mas sua palavra tem. Sua voz não se cala, mesmo que estejam mortos. Porque a voz da justiça e da fraternidade é a voz de Deus.

Ao profeta não importam posição social ou eloquência (cf. Jr 1,6). Paulo gloria-se em sua fraqueza, pois nela é Deus quem age. Ele só quer anunciar o evangelho do Cristo crucificado e pede que suportemos essa sua loucura. Poder e eloquência não importam. Importa que o profeta seja enviado por Deus. Talvez ele seja um simples andarilho, pouco refinado e muito chato, que sempre insiste na mesma coisa. Talvez não faça milagres vistosos, talvez só levante o ânimo de umas poucas pessoas simples. Talvez seja crucificado, figurativamente, pelos que gostam de se mostrar muito religiosos. Mas o que ele fala é Palavra de Deus.

padre Johan Konings

 
 

A fragilidade e a força dos profetas

“Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares”

Onde estão os profetas?  Será que a Igreja está sendo, aos olhos do mundo, encarnação da mensagem dos profetas e sobretudo do  profeta Jesus da Galiléia?  Uma Igreja vigorosa será aquela que se  faz na  esteira, na força e na aparente fragilidade dos profetas.

A leitura de Ezequiel proclamada na liturgia de hoje  fala do nascedouro e da vocação do profeta. Ezequiel se sente possuído por um espírito. É convocado, chamado para uma missão. O espírito o põe de pé.  Belo ver as representações dos profetas de pé, com rosto forte e firme, semblantes rijos e decididos.  O profeta é enviado aos israelitas, homens e mulheres de coração de pedra e de cabeça dura. O profeta sabe que precisa falar. Quer escutem ou não escutem essas pessoas saberão que um profeta, um enviado da parte de Deus, esteve no meio deles.  Deus renova o mundo e a Igreja pela voz dos profetas. “A esses filhos de cabeça dura e coração de pedra vou-te enviar, e tu lhe dirás: ‘Assim diz o  Senhor Deus’ .  Quer te escutem, que não  – pois são um bando de rebeldes -, ficarão sabendo que houve entre eles um profeta”.

Jesus, no evangelho de Marcos hoje proclamado, se apresenta em Nazaré, sua cidade natal. Não o faz como quem meramente visita sua família. Vai na qualidade de profeta, com seus discípulos, como Rabi, com sabedoria e autoridade.  As pessoas estranham tais dotes porque conhecem suas origens humildes. Sua gente se escandaliza com ele e não o aceita. Era um profeta muito frágil para merecer crédito. Jesus não pode fazer milagres. Saiu decepcionado. “Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre os seus parentes e familiares”. Ali a voz de Jesus, voz que denuncia o mal e constrói a verdade e o bem  não pôde ser ouvida.  Jesus admirou-se da falta de fé de sua gente e passou a percorrer os povoados vizinhos , ensinando. O profeta forte não é levado em consideração.  Ele é apenas o filho de José.

Paulo   exerce também a missão de profeta que denuncia e anuncia. Seu ministério é fecundo e impressionante.  Experimenta fraquezas e fragilidades e lhe é revelado: “Basta-te a minha graça. Pois é na fraqueza que a força se manifesta”.  Paulo compreende que gloriando-se de suas fraquezas terá nele a força de Cristo.  A força do profeta está em sua fragilidade.

Estamos vivendo um delicado momento da vida da Igreja. Necessitamos de profetas com ardor e fogo.  Os sacerdotes e responsáveis pela animação das comunidades haverão de ser pessoas cheias de amor e de intimidade com o Senhor para poderem atingir, com palavras e testemunho, os corações empedernidos e iluminar o caminho dos perplexos.  Precisamos homens e mulheres  com forte densidade humana e grande amor pelo Senhor para constituírem casais luminosos e sólidos formadores de famílias que evangelizem a cultura atual.  Nas pastorais precisamos apontar para um novo que pode e deve explodir  e não apenas para a repetição do obvio. Precisamos de profetas que não estejam preocupados com o próprio protagonismo e façam a experiência de Paulo:  “Quando eu me sinto fraco é que sou forte”.

frei Almir Ribeiro Guimarães

 
 

 O escândalo da encarnação

Jesus, profeta rejeitado na sua terra

A liturgia de hoje mostra a sorte do profeta: rejeição. Tema atual no continente do bispo Romero e de tantos outros mártires da justiça de Deus. Alguns desaparecem até sem deixar traços, mas sabemos que estiveram entre nós (cf. 1ª leitura: Ez. 2,5). Ezequiel é enviado a um povo “duro de cerviz”, mesmo enquanto vivendo no exílio (Ef. 3,12-15). Como outrora Jeremias (Jr. 2,20; 7,24; 22,21; 32,20), Ezequiel lembra a Israel seu passado rebelde. É um povo que se revolta contra Deus e mata seus profetas, inclusive Jesus de Nazaré (cf. Mt. 23,33-35; At. 7,34.39.51-53 etc.).

O profeta deve marcar presença; goste ou não, o povo deve saber que o porta-voz de Deus esteve no meio dele (Ez. 2,5). Daí o duplo sabor da missão profética: o profeta tem que comer a palavra de Deus, que é doce como mel, mas causa amargura no profeta (Ez. 2,8-3,3; 3,14; cf. Ap. 10,8-10). Aceito ou não (Ez. 3,11), tem de proclamar, oportuna ou inoportunamente (2Tm. 4,2). Profeta não é diplomata. Há um momento em que a palavra deve ser dita com toda a clareza: é o momento do profeta.

O evangelho de Mc descreve a manifestação do “poder-autoridade” em Jesus. Ao revelar seu “poder”, Jesus encontrou aceitação da parte dos humildes, doentes e peca­dores, e inimizade junto às autoridades. Agora, chegando à sua terra de origem, Nazaré, encontra tanta incredulidade, que deve dar testemunho contra sua própria gente  (evangelho). Por não existir fé, o espírito profético nele não encontra respaldo; quase não lhe é dado operar sinais (Mc. 6,5-6). Pois sabemos, pelos evangelhos dos domingos anteriores, que os sinais de Jesus são a revelação, para os que nele acreditam, de sua união com o Pai. A uma geração incrédula não se dá sinal algum (Mc. 8,11-14; cf. Mt. 12,38-42 e Lc. 11,29-32). Mas, mesmo se Jesus não pode fazer milagres em Nazaré, ainda revela sua personalidade. O próprio fato de ser rejeitado demonstra que ele é profeta: é em sua pátria, entre sua gente, que o profeta é rejeitado (cf. Ez. 3,6) (*)

A razão por que Jesus não é escutado é a mesquinhez. Gente mesquinha não presta ouvido a quem é da mesma origem. Santo de casa não faz milagre. Para se fazer de im­portante, gente mesquinha exige coisa importada. Os semi-intelectuais brasileiros ado­ram o último grito de Paris e Nova York, mas desprezam a cultura autêntica das tradições de seu próprio povo e odeiam a cultura emergente que nasce da base conscientiza­da e que denuncia a alienação institucionalizada. A flor do orgulho é o espírito estreito e mesquinho, incapaz de admitir que tão perto do brilho enganoso possa florescer flor admirável de verdade.

Devemos ver, também, nas críticas dos nazarenses, as objeções do judaísmo à pre­gação apostólica. Como pode Jesus ser o Messias, se conhecemos seus parentes até o presente dia? Eles nem mesmo ocupam altos cargos no seu Reino (cf. 10,35-40). A in­credulidade de Nazaré representa a incredulidade de uma tradição religiosa e socioló­gica que não quer mudar seus conceitos a respeito daquilo que Deus deveria fazer. Por isso, Deus também não faz nada: não dá sinal.

A experiência de Paulo (2ª  leitura) vai na mesma direção. Paulo descreve as dificuldades de seu apostolado, “gloriando-se” contra aqueles que se gloriam na observân­cia judaica e outros pretextos para destruir a obra da evangelização que ele está reali­zando. Pede a seus leitores suportar um pouco de loucura da sua parte: seu próprio elo­gio (2Cor. 11,1). Mas que elogio! O currículo de Paulo não está cheio de diplomas, con­cursos e obras publicadas, mas de loucuras mesmo (11,8.16.29). Gloria-se de sua fra­queza (11,30). Tem um aguilhão na carne, algo misterioso – os exegetas falam em doença, prisão, tentações, remorso de seu passado, epilepsia … -, “um anjo de Satanás”, uma provação semelhante à de Jó. Importa o sentido que Paulo lhe dá: impedir que se encha de soberba. O evangelho vale mais que ouro, mas o apóstolo é apenas um recipiente de barro (2Cor 4,6ss; cf. 9° dom. T.C. ). Se ele produz efeito, é o espírito de Deus que o produz. Para o apóstolo, basta a graça, isto é, que Deus realize sua redenção, sem depender de nossas qualidades humanas (embora as utilize e absorva). Em nossa fra­queza é que seu poder se manifesta. Jesus não pôde fazer milagres em Nazaré: fraqueza também. Mas Deus realizou seu plano na suprema “fraqueza” do Cristo: sua morte na Cruz (cf.oração do dia). Junto a ele há lugar para os “fracos”; nele, tornam-se fortes (cf. canto da comunhão II).

(*) Aconselhamos o estudo do trecho Ez. 2,1-3,15 inteiro. Ez 3,6 sugere que as nações pagãs, entre as quais Israel agora deve viver, escutariam a palavra (cf. Jonas)

padre Johan Konings

"Liturgia dominical"

 
 

Quando o amor de deus se demonstra preferencialmente pelos pecadores

Podemos extrair muitas lições da liturgia da Palavra deste 14º domingo do tempo comum.

Mas hoje vamos nos concentrar no empenho de Deus pela Salvação de seu Povo Eleito, Salvação que é prova de seu amor eterno, jamais abandonado, mas fielmente mantido.

Quanto ouvimos a expressão ‘Povo Eleito’ tendemos a imaginar um povo escolhido por Deus, sempre dócil e agradecido por esta escolha divina.

Isto é verdade, porque em muitos momentos de sua história o Povo Eleito se mostrou agradecido a Deus e Lhe permaneceu fiel. Seria bom que para sempre o Povo Eleito se comportasse deste modo.

No entanto, este Povo se rebelou contra Deus muitas vezes.

Da parte de Deus quais foram as reações?

Deus muitas vezes se impacientou e puniu Seu Povo.

Mas não deixou, jamais, de amá-lo. Para Deus, Israel sempre foi Seu Povo santo e pecador.

O profeta Jeremias transmitiu ao Povo Eleito estas palavras pronunciadas por Deus a Efraim, que representa todo Israel: “Não é Efraim o meu filho amado? O filho em quem tenho prazer?

Cada vez que Eu falo sobre Efraim mais me recordo dele com grande carinho. Por este motivo, o meu coração se comove por ele e lhe ministrarei a minha total compaixão”, afirma o Senhor (Jr. 31,20).

Maior expressão de amor por seu Povo está em Os. 11,8.9: 8. “Meu coração se comove no íntimo e arde de compaixão 9 Não darei largas à minha ira, não voltarei a destruir Efraim, Eu sou Deus e não homem ...”.

Foi neste contexto de amor incontestável de Deus por seu Povo Eleito que surgiram os profetas.

Em relação a eles, o comportamento do Povo Eleito oscilava entre acolhida e rejeição.
Depois queDeus punira duramente Israel com a destruição do Templo e de Jerusalémpelos babilônios, enviou-lhe o profeta Ezequiel. A este Profeta Deusdera a missão de pregar a conversão de Israel, dizendo: “Filho do homem, eu te envio aos israelitas, a nação de rebeldes, que se afastaram de mim” (Ez. 2,3). É o que lemos na primeira leitura deste domingo.

Ezequiel sabe que, mesmo enviado por Deus, não teria boa acolhida por parte do Povo Eleito. Nem por isso Deus o chama de volta, nem Ezequiel deixa de cumprir sua missão. É precisamente neste momento que vemos quanto Deus ama de maneira divina, e não humana, seu Povo Eleito.O Povo pode ser pecador, mas o amor de Deus por ele não tem fim.

OPovo Eleito reconheceu em Jesus Cristo um grande Profeta. Na verdade,ele foi o maior Profeta de Israel. Ele superou até mesmo Moisés, que profetizou a vinda de Jesus com estas palavras ditas a ele por Deus: “Farei surgir para eles, do meio de seus irmãos um profeta semelhante a ti. Porei em sua boca minhas palavras e Ele lhes comunicará tudo o que Eu Lhe mandar” (Dt. 18,18). Foi assim que Jesus surgiu em Israel como o Profeta preanunciado por Moisés. Por muitos foi reconhecido como o Profeta.

Mas, como todo profeta, foi rejeitado até por seus parentes e conhecidos em sua terra natal, Nazaré. Diz Jesus no Evangelho de hoje: “Um profeta só não é estimado em sua pátria,entre seus parentes e familiares” (Mc. 6,4).

Ora,esta rejeição humilhou Jesus e O impediu de anunciar ali o Reino de Deus, tal como desejaria e como havia muito tinha planejado. Não pôde mostrar a chegada do Reino de Deus porque ... ali não pôde fazer milagre algum (Mc. 6,5).

Éverdade que um dia Nazaré será cristã. Mas não teve o privilégio de receber do seu filho Jesus, o próprio Profeta, a chegada do Reino deDeus.

Depoisde Jesus seus apóstolos percorreram o mundo anunciando o Reino de Deus ea Salvação que Ele trouxera a todos os povos. São Paulo se sentiuchamado como os Profetas de outrora. Ele encontrou pessoas dispostas ao uvi-lo e outras dispostas a matá-lo.

São Paulo se via como os Profetas antigos, pois assim, como Jeremias, descreve sua missão, dada por Deus em Gl. 1,15.16: 15 Quando, porém, Aquele que me separou desde o ventre materno e me chamou por Sua Graça. 16 se dignou revelar-me o Seu Filho,para que eu O pregasse entre os pagãos,não consultei carne nem sangue ...”.

São Paulo saiu pelo mundo dos pagãos como os Profetas antes dele.

E, como os profetas, enfrentou resistências até mesmo das comunidades que tinha evangelizado. Aos coríntios deixou este lamento, que, no entanto, revela como sendo mais um enviado por Deus a ser hostilizado pelos homens. Lemos na segunda leitura: “... é na fraqueza [do homem] que a força [de Deus] se manifesta”.

Por isso, de bom grado,eu me gloriarei de minhas fraquezas,para que a força de Cristo habite em mim (2Cor. 12,9).

Aqui está a marca dos verdadeiros apóstolos como dos verdadeiros profetas.

A força que neles se manifesta não é força humana.

É o poder de Deus agindo por sua conta através de Seus enviados.

Foi destemodo, por sua vez, que São Paulo o instrumento de Deus, para provar aos homens o quanto eram amados como o antigo Israel.

Hoje nós, os batizados, somos o novo Povo Eleito.

Para nós é que o salmo responsorial traz esta demonstração de esperança na salvação de Deus: Como os olhos dos escravos estão fitos nas mãos do seu senhor... assim os nossos olhos, no Senhor, Até que de nós tenha piedade. (Sl. 122/123,2a.cd).

Aguardar a misericórdia de Deus que perdoa sempre nossos pecados é a parte que nos cabe. Pelo perdão Ele nos salva. E salvando-nos, revela seu amor divino, não humano, por todos nós, seu novo Povo santo e pecador.

padre Valdir Marques, SJ

 
 

Jesus chega a Nazaré, Sua terra, lugar onde passou a maior parte da sua vida. Era uma cidade pouco conhecida e desprezada na Galiléia, e foi onde Jesus cresceu e ali viveu, em silêncio, sem se manifestar como “Filho de Deus”. Era, para todos, simplesmente, o filho de José, o carpinteiro. Mas, a extraordinariedade de Jesus está justamente na encarnação, no fato de não ter nada que possa diferir da condição humana comum. O filho de Deus se fez como qualquer um de nós.

Depois de trinta anos, Ele saiu da cidade para ensinar a Verdade e pregar o Amor e, quando voltou para visitar a Sua terra, Jesus começa a ensinar as Escrituras, na Sinagoga, para muitas pessoas, e os discípulos estavam ali com Ele. Mas o Seu povo, Seus familiares e amigos, estes não O receberam com fé, não acreditaram naquilo que Ele pregava e não O reconheceram como o Filho de Deus. Não aceitavam que alguém que conheceram morando no meio deles como operário braçal, lhes pregasse a conversão.

Isso é notado quando perguntam: Ele não é o carpinteiro, filho de Maria? A substituição do nome do Pai pelo nome da Mãe é um sinal de desprezo na época, a não ser que José já tivesse morrido. À expressão ‘irmãos’ de Jesus, dá-se o sentido de seus parentes próximos, visto que a Igreja confessa a virgindade real de Maria.

A falta de reconhecimento pelos da mesma terra aconteceu também com os profetas, e Jesus disse: ‘Um profeta só não é reconhecido e estimado em sua pátria.’

Jesus fica espantado com a falta de fé que encontra em Nazaré. Pela incredulidade das pessoas, Ele não realiza milagres ali, pois estes se manifestam quando se tem fé e certeza da ação de Deus na vida do homem. Porém, enquanto permaneceu ali, curou doentes impondo Suas mãos, gesto comum para Ele e que se repetirá também pelos discípulos em Seu nome.

 
 

O evangelista Marcos narra que Jesus foi para "sua própria terra", isto é, para sua cidade de origem, a cidade de sua família, Nazaré. O fato de os seus discípulos o acompanharem indica que não é apenas uma visita familiar, mas também uma visita já em vista do anúncio de sua Boa-Nova. Neste Evangelho, esta é a terceira e última vez que Jesus aparece no espaço simbólico da sinagoga, e todas as ocasiões em clima de contestação e conflito com os chefes religiosos e sua doutrina. Jesus, exercendo seu ministério na Galiléia e nos territórios gentílicos vizinhos, abandona a sinagoga e tem a "casa" como centro de irradiação da missão. Os que ouviam Jesus "maravilhavam-se" com o que dizia, mas o rejeitaram. E Jesus "espantava-se" com a incredulidade deles. "Não é ele o carpinteiro?" diziam, com desprezo. Faltava-lhes a fé. A sentença "Um profeta só não é valorizado na sua própria terra" é um patrimônio da cultura antiga, sendo citada em documentos do Antigo Egito. Como palavra de Jesus, exprime sua rejeição pelos freqüentadores da sinagoga e por seus familiares. A mensagem central deste episódio é o distanciamento de Jesus em relação às tradicionais estruturas sociorreligiosas de culto e parentesco do judaísmo. Este se afirmava como povo divinamente eleito a partir dos vínculos carnais de consangüinidade, provados por genealogias, com a ascendência abraâmica, e na obediência à Lei de Moisés. Afastando-se das sinagogas, Jesus exerce seu ministério percorrendo os povoados da Galiléia e regiões vizinhas, ensinando. Com ele, o espaço do encontro com Deus é a casa, onde se reúne a comunidade; e a família fica caracterizada pela união em torno do cumprimento da vontade do Pai. Percebe-se bem como os Evangelhos deixam transparecer a dificuldade que aqueles que conviveram com Jesus tiveram em compreender sua identidade. Quem é Jesus? Durante cerca de trinta anos ele viveu com a família, na Galiléia, sem nada excepcional que chamasse a atenção sobre sua pessoa. É o Filho de Deus presente no mundo, em comunicação com todos, certamente de maneira humilde, digna e com amor. É a condição humana, na simplicidade do dia-a-dia, que é valorizada pelo Pai e que, em tudo o que nela há de bom, justo e verdadeiro, a assume no seu amor e na sua vida eterna.

padre Jaldemir Vitório

 
 

O profeta desprezado

O ministério de Jesus foi pontilhado de experiências humanamente negativas. Nem por isso ele desanimou e se deixou levar pela tentação de interromper o exercício da missão recebida do Pai. As contrariedades começaram já em Nazaré, onde se criara. Seu ensinamento, feito com autoridade e profundidade, e seus gestos prodigiosos despertaram uma forte suspeita contra ele. Por um lado, seus conterrâneos se davam conta da sabedoria inaudita que ele possuía, como também dos milagres espetaculares que realizava. Por outro, recusavam-se a aceitar que tudo isto fosse feito por alguém saído do meio deles. Deus não podia ter concedido tamanhos poderes a uma pessoa simples do povo. E o desprezaram.

Um antigo provérbio ajudou Jesus a compreender sua experiência de rejeição. Os grandes profetas de Israel foram colocados sob suspeita e, até mesmo, vistos como inimigos do povo. O cumprimento da missão não lhes reservou aplausos e reconhecimento, mas, contrariedades, perseguições e, em alguns casos, até a morte. A perseverança dos profetas, entretanto, não dependia do humor de seus ouvintes. Eram movidos pela consciência da origem divina da missão que tinham recebido e pelo Espírito ardente colocado por Deus em seus corações. Por isso, nada era suficientemente forte para fazê-los desanimar.

Jesus refez o caminho dos antigos profetas. Seguiu adiante apesar de experimentar a rejeição.

 

 
 

Apesar da incredulidade, Jesus leva adiante a sua missão

O texto não o diz explicitamente, mas, certamente, é para Nazaré que Jesus foi. Jesus é um judeu praticante, piedoso. É o que o evangelho nos dá a entender, quando diz que num dia de sábado ele foi à sinagoga para escutar a Palavra de Deus, meditá-la, ouvir comentários sobre os textos e, por vezes, ele mesmo, comentá-la. O que propriamente Jesus ensinava, Marcos não nos diz. Não somos informados do conteúdo, porque o interesse maior, nesse episódio, está centrado na reação dos ouvintes. O certo é que o seu ensinamento causava admiração nas pessoas, porque certamente fazia sentido e porque ele ensinava como quem tem autoridade (cf. Mc. 1,21-22.27). Não obstante a admiração, vêm a resistência, a dúvida, a incredulidade. “Ele (Jesus) se admirava da incredulidade deles” (v. 6). Se a fé, em certo sentido, é confiança, abertura de coração que permite reconhecer a presença e ação de Deus, a incredulidade é fechamento, impede de ver além das aparências, ou melhor, impede de reconhecer nas palavras e gestos de Jesus os sinais que remetem a Deus, e impede de receber o dom. “De onde lhe vem isso?”; “Que sabedoria é esta que lhe foi dada?” (v. 2). De onde vem a falta de fé? Em primeiro lugar, da estreiteza de visão de que alguém do convívio deles, como eles, pudesse ter tal sabedoria e realizar tais atos de poder, como Jesus o fazia. “Não é ele o carpinteiro”; “Suas irmãs não estão aqui conosco?” (v. 3). Em segundo lugar, do fechamento à surpresa de Deus, o qual impede ultrapassar fronteiras e reconhecer nas palavras e gestos de Jesus os sinais que remetem à vida de Deus que o habita. É por essa incredulidade que Jesus não pode fazer nada ali. Se os concidadãos de Jesus se perguntam sobre a identidade dele, eles nada respondem. A falta de humildade cega. Apesar da incredulidade dos de sua própria pátria, Jesus leva adiante a sua missão. O texto conclui afirmando que Jesus percorria os povoados da região, ensinando. Jesus é um Messias itinerante, está sempre a caminho. Não há quem Jesus não acolha, a todos ouve e socorre em suas aflições.

Carlos Alberto Contieri,sj

 

 

A difícil missão do profeta

Esta narrativa de Marcos tem como núcleo a proclamação de Jesus: "Um profeta só não é valorizado na sua própria terra". É a sua rejeição pelos frequentadores da sinagoga e por seus familiares. É uma ruptura com as tradicionais estruturas sociorreligiosas de parentesco do judaísmo, que se afirma como povo eleito a partir dos vínculos carnais de consanguinidade, comprovados por genealogias. Já João Batista em sua pregação advertia: "Produzi fruto de arrependimento e não penseis que basta dizer: 'Temos por pai Abraão'". Com Jesus a família fica caracterizada pela união em torno do cumprimento da vontade do Pai.

No evangelho de Marcos, esta é a terceira e última vez que Jesus vai a uma sinagoga, cada vez tendo ocorrido um conflito com os chefes religiosos. Jesus exerce seu ministério na Galileia e territórios gentílicos vizinhos, tendo a "casa" como centro de irradiação da missão.

Percebe-se, bem, como os evangelhos deixam transparecer a dificuldade que os discípulos, e os demais que conviveram com Jesus, tiveram em compreender sua identidade. Quem é Jesus? Durante cerca de trinta anos Jesus viveu com sua família, na Galileia, sem nada excepcional que chamasse a atenção sobre sua pessoa. É o Filho de Deus presente no mundo, em comunicação com as pessoas, certamente de maneira humilde, digna e com amor. É a condição humana, na simplicidade do dia a dia, que é valorizada pelo Pai, o qual, em tudo que nela há de bom, justo e verdadeiro, a assume no seu amor e na sua vida eterna. Após ser batizado por João, Jesus durante cerca de três anos passa a revelar ao mundo este projeto vivificante do Pai. É o Reino de Deus presente entre nós. Ao fazer, com sabedoria, o seu anúncio profético do Reino, seus conterrâneos se admiravam, mas não o valorizaram, pois sempre o conheceram na sua simplicidade de carpinteiro, filho de Maria. Esta reação do povo indica que Jesus não tinha nenhuma origem davídica, pelo que, se fosse o caso, seria exaltado por todos.

O judaísmo tinha uma expectativa messiânica segundo a qual um dia viria um líder que, com carismas especiais, conduziria a nação judaica e a elevaria a um status de glória, riqueza e poder acima das demais nações. Era um ungido (messias, do hebraico; cristo, do grego) à semelhança de Davi, ungido rei, que, segundo a exaltação da tradição, teria criado um glorioso império, o que foi incorporado na memória do povo. Ao longo do ministério de Jesus, os seus discípulos de origem do judaísmo começaram a ver nele este messias poderoso. Esta falta de compreensão foi frequentemente censurada por Jesus.

O crer em Jesus é ver, na sua humildade e em seus atos de amor, a presença de Deus, cumprindo a vontade do Pai de comunicar a vida aos empobrecidos e marginalizados, os quais são assumidos como filhos, em Jesus. O verdadeiro ato de fé é ver Deus, despido de poder, vivendo entre nós, humildemente, na plenitude do amor.

Paulo testemunha que a missão é feita com humildade e não com atos de poder (segunda leitura). Foi, também, na simples condição da fragilidade humana, como "filho do homem", que Ezequiel foi enviado a profetizar a um povo rebelde (primeira leitura).

José Raimundo Oliva

 
 

O Evangelho deste domingo apresenta-nos Jesus na sua Nazaré. Ali mesmo, na sua própria cidade, onde nascera e fora criado, os seus o rejeitam: “’Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão? Suas irmãs não moram aqui conosco?’ E ficaram escandalizados por causa dele”. Assim, cumpre-se mais uma vez a Escritura: “Veio para o que era seu e os seus não o receberam” (Jo. 1,11). E a falta de fé foi tão grande, a dureza de coração, tão intensa, a teimosia, tão pertinaz, que São Marcos afirma, de modo surpreendente: “Ali não pôde fazer milagre algum!”, tão grande era a falta de fé daquele povo.

Meus caros, pensemos bem na advertência que esta Palavra de Deus nos faz! O próprio Filho do Pai, em pessoa, esteve no meio do seu povo, conviveu com ele, falou-lhe, sorriu-lhe, abraçou-lhe e, no entanto, não foi reconhecido pelos seus. E por quê? Pela dureza de coração, pela insistência teimosa em esperar um messias de encomenda, sob medida, a seu bel prazer... Valia bem para Israel a censura da primeira leitura de hoje, na qual o Senhor Deus se dirige a seu servo: “Filho do homem, eu te envio aos israelitas, nação de rebeldes, que se afastaram de mim. A estes filhos de cabeça dura e coração de pedra, vou-te enviar, e tu lhes dirás: ‘Assim fala o Senhor Deus’. Quer escutem, quer não, ficarão sabendo que houve entre eles um profeta!” Que coisa tremenda, meus caros: houve entre os israelitas um profeta, e mais que um profeta: o Filho de Deus, o Eterno, o Filho amado... E Israel o rejeitou!

Mas, deixemos Israel. E nós? Acolhemos o Senhor que nos vem? Escutamos com fé sua Palavra, quando ele se dirige a nós na Escritura, aquecendo nosso coração? Acolhemo-lo na obediência da fé, quando ele se nos dirige pela boca da sua Igreja católica, ensinando-nos o caminho da vida? Acolhemo-lo, quando nos fala pela boca de seus profetas? Não tenhamos tanta certeza de que somos melhores que aqueles de Nazaré! Aliás, é bom que nos perguntemos: por que os nazarenos não foram capazes de reconhecer Jesus como Messias? Já lhes disse: porque o Senhor não era um messias do jeito que eles esperavam: um simples fazedor de milagres, um resolvedor de problemas... Jesus, pobre, manso, humilde, era também exigente e pedia do povo a conversão de coração. Mas, há também uma outra razão para os nazarenos rejeitarem Jesus: eles foram incapazes de ver além das aparências. De fato, enxergaram em Jesus somente o filho de José, aquele que correra e brincara nas suas praças, aquele ao qual eles haviam visto crescer. Assim, sem conseguir olhar com mais profundidade, empacaram na descrença. Mas, nós, conseguimos olhar com profundidade? Somos capazes de escutar na voz dos ministros de Cristo a própria voz do Senhor? Somos sábios o bastante para ouvir na voz da Igreja a voz de Cristo?

É exatamente pela tendência nossa, tremenda, de sermos surdos ao Senhor, que Jesus tanto sofreu e que Paulo se queixava das dificuldades do seu ministério. O Apóstolo fala de um anjo de Satanás que o esbofeteava. Que anjo era esse? Ele mesmo explica: suas “fraquezas, injúrias, necessidades, perseguições e angústias sofridas por amor de Cristo”. O drama de Paulo é uma forte exortação aos pregadores do Evangelho e a todos os cristãos. Aos pregadores do Evangelho essa palavra do Apóstolo recorda que o anúncio será sempre numa situação de pobreza humana, de apertos e contradições. A evangelização, caríssimos, não é um trabalho de marketing televisivo como vemos algumas vezes nos “missionários” dos meios de comunicação. O Evangelho do Cristo crucificado e ressuscitado, é proclamado não somente pela palavra do pregador, mas também pela carne de sua vida. Como proclamar a Palavra sem sofrer por ela? Como anunciar o Crucificado que ressuscitou sem participar da sua cruz na esperança firme da sua ressurreição? O Evangelho não é uma teoria, não é um sistema filosófico. O Evangelho é Cristo Jesus encarnado na nossa vida, de modo que possamos dizer como São Paulo: “Eu trago no meu corpo as marcas de Jesus” (Gl. 6,17) Triste do pregador que pensar em anunciar Jesus conservando-se para si mesmo. Um diácono, um padre, um bispo, que quisessem se poupar, que separasse a pregação do seu modo de viver, que fosse pregador de ocasião, tornar-se-ia um falso profeta, transformar-se-ia em marketeiro do Evangelho, portanto, inútil e estéril. É toda a vida do pregador que deve ser envolvida na pregação: seu modo de viver, de agir, de vestir, de relacionar-se com os bens materiais, sua vida afetiva, seu modo de divertir-se, seu tipo de amizade... Tudo nele dever ser comprometido com o Senhor e para o Senhor! 

Mas, essa palavra de são Paulo na liturgia de hoje vale também para cada cristão. Hoje, somos minoria. O mundo não-crente, seculartizado zomba de nós e já não crê no anúncio de Cristo que lhe fazemos. Sentimos isso na pela! Pois bem, quando experimentarmos a frieza e a dura rejeição, quando em casa, no trabalho, nos círculos de amizades, formos ignorados ou ridicularizados por sermos de Cristo, recordemos do Evangelho de hoje, recordemo-nos dos sofrimentos dos apóstolos e retomemos a esperança: o caminho de Cristo é também o nosso; se sofrermos com ele, com ele reinaremos; se morrermos com ele, com ele viveremos (cf. 2Tm. 2,11-12) Não tenhamos medo: nós somos as testemunhas, os profetas, os sinais de luz que Deus envia ao mundo de hoje! Sejamos fiéis: o Senhor está conosco, hoje e sempre.

dom Henrique Soares da Costa

 
 

A liturgia deste domingo revela que Deus chama, continuamente, pessoas para serem testemunhas no mundo do seu projeto de salvação. Não interessa se essas pessoas são frágeis e limitadas; a força de Deus revela-se através da fraqueza e da fragilidade desses instrumentos humanos que Deus escolhe e envia.

A primeira leitura apresenta-nos um extrato do relato da vocação de Ezequiel. A vocação profética é aí apresentada como uma iniciativa de Jahwéh, que chama um “filho de homem” (isto é, um homem “normal”, com os seus limites e fragilidades) para ser, no meio do seu Povo, a voz de Deus.

Na segunda leitura, Paulo assegura aos cristãos de Corinto (recorrendo ao seu exemplo pessoal) que Deus atua e manifesta o seu poder no mundo através de instrumentos débeis, finitos e limitados. Na ação do apóstolo – ser humano, vivendo na condição de finitude, de vulnerabilidade, de debilidade – manifesta-se ao mundo e aos homens a força e a vida de Deus.

O Evangelho, ao mostrar como Jesus foi recebido pelos seus conterrâneos em Nazaré, reafirma uma idéia que aparece também nas outras duas leituras deste domingo: Deus manifesta-Se aos homens na fraqueza e na fragilidade. Quando os homens se recusam a entender esta realidade, facilmente perdem a oportunidade de descobrir o Deus que vem ao seu encontro e de acolher os desafios que Deus lhes apresenta.

1ª leitura: Ez. 2,2-5 - AMBIENTE

Ezequiel, o “profeta da esperança”, exerceu o seu ministério na Babilônia no meio dos exilados judeus. O profeta fez parte dessa primeira leva de exilados que, em 597 a.C., Nabucodonosor deportou para a Babilônia.

A primeira fase do ministério de Ezequiel decorreu entre 593 a.C. (data do seu chamamento à vocação profética) e 586 a.C. (data em que Jerusalém foi conquistada uma segunda vez pelos exércitos de Nabucodonosor e uma nova leva de exilados foi encaminhada para a Babilônia). Nesta fase, o profeta preocupou-se em destruir as falsas esperanças dos exilados (convencidos de que o exílio terminaria em breve e que iam poder regressar rapidamente à sua terra) e em denunciar a multiplicação das infidelidades a Jahwéh por parte desses membros do Povo judeu que escaparam ao primeiro exílio e que ficaram em Jerusalém.

A segunda fase do ministério de Ezequiel desenrolou-se a partir de 586 a.C. e prolongou-se até cerca de 570 a.C.. Instalados numa terra estrangeira, privados de Templo, de sacerdócio e de culto, os exilados estavam desiludidos e duvidavam de Jahwéh e do compromisso que Deus tinha assumido com o seu Povo. Nessa fase, Ezequiel procurou alimentar a esperança dos exilados e transmitir ao Povo a certeza de que o Deus salvador e libertador não tinha abandonado nem esquecido o seu Povo.

O texto que nos é proposto hoje como primeira leitura faz parte do relato da vocação de Ezequiel (cf. Ez 1,1-3,27). Depois de descrever a manifestação de Deus, num quadro que apresenta todas as características especiais das teofanias (cf. Ez 1,1-28), o profeta apresenta um discurso no qual Jahwéh define a missão que lhe vai confiar (cf. Ez. 2,1-3,15). O episódio é situado “no quinto ano do cativeiro do rei Joaquin”, “na Caldeia, nas margens do rio Cabar” (Ez. 1,2).

Seria um erro interpretar este relato como informação biográfica… Trata-se, antes, de mostrar – com a linguagem da época e utilizando os processos típicos da literatura da época – que o profeta recebeu uma missão de Deus e que fala e atua em nome de Deus.

MENSAGEM

O nosso texto apresenta alguns dos elementos típicos dos relatos de vocação e que fazem parte de qualquer história de vocação.

Sugere-se, em primeiro lugar, que a vocação profética é um desígnio divino. Não se nomeia Jahwéh diretamente; mas aquele que chama Ezequiel não pode ser outro senão Deus… O nosso texto é antecedido (cf. Ez. 1,1-28) de uma solene manifestação de Deus. Depois, o profeta ouve uma “voz” que o chama (v. 2) e que revela a Ezequiel que deve dirigir-se a esse Povo rebelde que se insurgiu contra Deus. Há também uma referência ao “espírito” que se apossou do profeta e o fez “levantar”; de acordo com a reflexão judaica, era Deus que comunicava uma força divina – o seu “espírito” – àqueles que escolhia para enviar a salvar o seu Povo, como os juízes (cf. Jz. 14,6.19; 15,14), os reis (cf. 1Sm. 10,6.10; 16,13) e os profetas (no caso de Ezequiel, esse “espírito” aparece como uma manifestação especialmente violenta de Deus, que se apossa do profeta e o destina para o seu serviço). A vocação é sempre uma iniciativa de Deus e não uma escolha do homem. Foi Deus que chamou Ezequiel e que o designou para o seu serviço.

Em segundo lugar, aparece a idéia de que o chamamento é dirigido a um homem. Ezequiel é chamado “filho de homem” (v. 3) – expressão hebraica que significa simplesmente “homem ligado à terra, fraco e mortal. Deus chama homens frágeis e limitados, não seres extraordinários, etéreos, dotados de capacidades incomuns… O que é decisivo não são as qualidades extraordinárias do profeta, mas o chamamento de Deus e a missão que Deus lhe confia. A indignidade e a limitação, típicas do “filho do homem”, não são impeditivas para a missão: a eleição divina dá ao profeta autoridade, apesar dos seus limites bem humanos.

Em terceiro lugar, temos a definição da missão. Ezequiel, o profeta, é enviado a um Povo rebelde, que continuamente se afasta dos caminhos de Jahwéh. A sua missão é apresentar a esse Povo as propostas de Deus. O mais importante não é que as palavras do profeta sejam ou não escutadas; o que é importante é que o profeta seja, no meio do Povo, a voz que indica os caminhos de Deus (vers. 4-5).

A vida de Ezequiel realizou integralmente o projeto de Deus. Chamado por Jahwéh, ele foi, no meio do Povo exilado na Babilônia, uma voz humana através da qual Deus apresentou ao seu Povo o caminho para a vida plena e verdadeira. É essa a missão do profeta.

ATUALIZAÇÃO

• Os “profetas” não são um grupo humano extinto há muitos séculos, mas são uma realidade com que Deus continua a contar para intervir no mundo e para recriar a história. Quem são, hoje, os profetas? Onde estão eles?

• No Batismo, fomos ungidos como profetas, à imagem de Cristo. Cada um de nós tem a sua história de vocação profética: de muitas formas Deus entra na nossa vida, desafia-nos para a missão, pede uma resposta positiva à sua proposta. Temos consciência de que Deus nos chama – às vezes de formas bem banais – à missão profética? Estamos atentos aos sinais que Ele semeia na nossa vida e através dos quais Ele nos diz, dia a dia, o que quer de nós? Temos a noção de que somos a “boca” através da qual a Palavra de Deus se dirige aos homens?

• O profeta é o homem que vive de olhos postos em Deus e de olhos postos no mundo (numa mão a Bíblia, na outra o jornal diário). Vivendo em comunhão com Deus e intuindo o projeto que Ele tem para o mundo, e confrontando esse projeto com a realidade humana, o profeta percebe a distância que vai do sonho de Deus à realidade dos homens. É aí que ele intervém, em nome de Deus, para denunciar, para avisar, para corrigir. Somos estas pessoas, simultaneamente em comunhão com Deus e atentas às realidades que desfeiam o nosso mundo? Em concreto, em que situações sou chamado, no dia a dia, a exercer a minha vocação profética?

• A denúncia profética implica, tantas vezes, a perseguição, o sofrimento, a marginalização e, em tantos casos, a própria morte (Óscar Romero, Luther King, Gandhi…). Como lidamos com a injustiça e com tudo aquilo que rouba a dignidade dos homens? O medo, o comodismo, a preguiça, alguma vez nos impediram de ser profetas?

• É preciso ter consciência, também, que as nossas limitações e indignidades muito humanas não podem servir de desculpa para realizar a missão que Deus quer confiar-nos: se Ele nos pede um serviço, dar-nos-á também a força para superar os nossos limites e para cumprir o que nos pede. As fragilidades que fazem parte da nossa humanidade não podem, em nenhuma circunstância, servir de desculpa para não cumprirmos a nossa missão profética no meio dos nossos irmãos.

2ª leitura: 2Cor.12,7-10 - AMBIENTE

A segunda carta de Paulo aos Coríntios espelha uma época de relações conturbadas entre Paulo e os cristãos de Corinto. As críticas de Paulo a alguns membros da comunidade que levavam uma vida pouco consentânea com os valores cristãos (primeira carta aos Coríntios) provocaram uma reação extremada e uma campanha organizada no sentido de desacreditar Paulo. Essa campanha foi instigada por certos missionários itinerantes procedentes das comunidades cristãs da Palestina, que se consideravam representantes dos Doze e que minimizavam o trabalho apostólico de Paulo. Entre outras coisas, esses missionários afirmavam que Paulo era inferior aos outros apóstolos, por não ter convivido com Jesus e que a catequese apresentada por Paulo não estava em consonância com a doutrina da Igreja. Paulo, informado de tudo, dirigiu-se apressadamente para Corinto e teve um violento confronto com os seus detratores. Depois, bastante magoado, retirou-se para Éfeso. Tito, amigo de Paulo, fino negociador e hábil diplomata, partiu para Corinto, a fim de tentar a reconciliação.

Paulo, entretanto, deixou Éfeso e foi para Tróade. Foi aí que reencontrou Tito, regressado de Corinto. As notícias trazidas por Tito eram animadoras: o diferendo fora ultrapassado e os coríntios estavam, outra vez, em comunhão com Paulo.

Reconfortado, Paulo escreveu uma tranquila apologia do seu apostolado, à qual juntou um apelo em favor de uma coleta para os pobres da Igreja de Jerusalém. Esse texto é a nossa segunda carta de Paulo aos Coríntios. Estamos no ano 56 ou 57.

O texto que nos é proposto integra a terceira parte da carta (cf. 2Cor 10,1-13,10). Aí Paulo, num estilo apaixonado, às vezes cáustico, mas sempre levado pela exigência da verdade e da fé, defende a autenticidade do seu ministério frente a esses “super-apóstolos” que o acusavam.

Como apóstolo, Paulo não se sente inferior a ninguém e muito menos aos seus detratores. Estes orgulhavam-se das suas credenciais e afirmavam por toda a parte os seus dons carismáticos… Paulo, se quisesse entrar no mesmo jogo, podia orgulhar-se de muitas coisas, nomeadamente das revelações que recebeu e das suas experiências místicas (cf. 2Cor. 12,1-4); mas ele quer apenas que o vejam como um homem frágil e vulnerável, a quem Deus chamou e a quem enviou para dar testemunho de Jesus Cristo no meio dos homens.

MENSAGEM

Assumindo essa condição de debilidade e de vulnerabilidade, Paulo fala aos Coríntios de uma limitação que transporta no seu corpo, um “anjo de Satanás” que lhe recorda continuamente a sua finitude e fragilidade (v. 7). De que é que se trata, em concreto? Não o sabemos. Provavelmente, trata-se de uma doença física crônica (em Gl. 4,13-14 Paulo fala de uma grave enfermidade física, que fez com que o corpo do apóstolo fosse, para os Gálatas, “uma provação”; mas nada garante que essa enfermidade física esteja relacionada com este “anjo de Satanás” de que ele fala aos Coríntios). O fato de Paulo chamar a essa limitação que o apoquenta um “anjo de Satanás” deve ter a ver com o fato de a mentalidade judaica ligar as enfermidades aos “espíritos maus”. De acordo com outra interpretação, esse “espinho na carne” que é um “anjo de Satanás” poderia referir-se também aos obstáculos que Satanás põe a Paulo no que diz respeito ao anúncio do Evangelho.

Em todo o caso, o problema pessoal de Paulo mostra como a finitude e a fragilidade não são determinantes para a missão; o que é determinante é a graça de Deus… Com a graça de Deus, Paulo tudo pode, apesar da sua debilidade. Deus não eliminou o problema, apesar dos insistentes pedidos de Paulo; mas é Ele que dá a Paulo a força para continuar a sua missão, apesar dos limites que esse “espinho na carne” lhe impõe. Na verdade, o problema pessoal de que Paulo sofre dá testemunho de que Deus atua e manifesta o seu poder no mundo através de instrumentos débeis, finitos e limitados. No apóstolo – ser humano, vivendo na condição de finitude, de vulnerabilidade, de debilidade – manifesta-se ao mundo e aos homens a força de Deus e de Cristo.

ATUALIZAÇÃO

• O caso pessoal de Paulo diz-nos muito sobre os métodos de Deus… Para vir ao encontro dos homens e para lhes apresentar a sua proposta de salvação, Deus não utiliza métodos espetaculares, poderosos, majestosos, que se impõem de forma avassaladora e que deixam uma marca de estupefação e de espanto na memória dos povos; mas, quase sempre, Deus utiliza a fraqueza, a debilidade, a fragilidade, a simplicidade para nos dar a conhecer os seus caminhos. Nós, homens e mulheres do séc. XXI, deixamo-nos, facilmente, impressionar pelos grandes gestos, pelos cenários magnificentes, pelas roupagens sumtuosas, por tudo o que aparece envolvido num halo cintilante de riqueza, de prestígio social, de poder, de beleza; e, por outro lado, temos mais dificuldade em reparar naquilo que se apresenta pobre, humilde, simples, frágil, débil… A Palavra de Deus que hoje nos é proposta garante-nos que é na fraqueza que se revela a força de Deus. Precisamos de aprender a ver o mundo, os homens e as coisas com os olhos de Deus e a descobrir esse Deus que, na debilidade, na simplicidade, na pobreza, na fragilidade, vem ao nosso encontro e nos indica os caminhos da vida.

• A consciência de que as suas qualidades e defeitos não são determinantes para o sucesso da missão, pois o que é importante é a graça de Deus, deve levar o “profeta” a despir-se de qualquer sentimento de orgulho ou de auto-suficiência. O “profeta” deve sentir-se, apenas, um instrumento humano, frágil, débil e limitado, através do qual a força e a graça de Deus agem no mundo. Quando o “profeta” tem consciência desta realidade, percebe como são despropositadas e sem sentido quaisquer atitudes de vedetismo ou de busca de protagonismo, no cumprimento da missão… A missão do “profeta” não é atrair sobre si próprio as luzes da ribalta, as câmaras da televisão ou o olhar das multidões; a missão do “profeta” é servir de veículo humano à proposta libertadora de Deus para os homens.

• Como pano de fundo do nosso texto, está a polemica de Paulo com alguns cristãos que não o aceitavam. Ao longo de todo o seu percurso missionário, Paulo teve de lidar frequentemente com a incompreensão; e, muitas vezes, essa incompreensão veio até dos próprios irmãos na fé e dos membros dessas comunidades a quem Paulo tinha levado, com muito esforço, o anúncio libertador de Jesus. No entanto, a incompreensão nunca abalou a decisão e o entusiasmo de Paulo no anúncio da Boa Nova de Jesus… Ele sentia que Deus o tinha chamado a uma missão e que era preciso levar essa missão até ao fim, doesse a quem doesse… Frequentemente, temos de lidar com realidades semelhantes. Todos experimentamos já momentos de incompreensão e de oposição (que, muitas vezes, vêm do interior da nossa própria comunidade e que, por isso, magoam mais). É nessas alturas que o exemplo de Paulo deve brilhar diante dos nossos olhos e ajudar-nos a vencer o desânimo e a tentação de desistir.

• Neste texto de Paulo (como, aliás, em quase todos os textos do apóstolo), transparece a atitude de vida de um cristão para quem Cristo é, verdadeiramente, o centro da própria existência e que só vive em função de Cristo… Nada mais lhe interessa senão anunciar as propostas de Cristo e dar testemunho da graça salvadora de Cristo. Que lugar ocupa Cristo na minha vida? Que lugar ocupa Cristo nos meus projetos, nas minhas decisões, nas minhas opções, nas minhas atitudes?

Evangelho: Mc. 6,1-6 - AMBIENTE

O Evangelho de hoje fala-nos de uma visita à “terra” de Jesus. De acordo com Mc. 1,9, a “terra” de Jesus era Nazaré, uma pequena vila da Galileia situada a 22 Km. a oeste do Lago de Tiberíades. Esta povoação tipicamente agrícola nunca teve grande importância no universo na história do judaísmo… O Antigo Testamento ignora-a completamente; Flávio Josefo e os escritores rabínicos também não lhe fazem qualquer referência. Os contemporâneos de Jesus parecem conceder-lhe escassa consideração (cf. Jo. 1,46). Nazaré é, no entanto, a cidade onde Jesus cresceu e onde reside a sua família.

A cena principal que nos é relatada por Marcos passa-se na sinagoga de Nazaré, num sábado. Jesus, como qualquer outro membro da comunidade judaica, foi à sinagoga para participar no ofício sinagogal; e, fazendo uso do direito que todo o israelita adulto tinha, leu e comentou as Escrituras.

O episódio que nos é proposto integra a primeira parte do Evangelho segundo Marcos (cf. Mc. 1,14-8,30). Aí, Jesus é apresentado como o Messias que proclama, por toda a Galileia, o Reino de Deus. Na secção que vai de 3,7 a 6,6, contudo, Marcos refere-se especialmente à reação do Povo face à proclamação de Jesus… À medida que o “caminho do Reino” vai avançando, vão-se multiplicando as oposições e incompreensões face ao projeto que Jesus anuncia. O nosso texto deve ser entendido neste ambiente.

MENSAGEM

Os ensinamentos de Jesus na sinagoga, naquele sábado, deixam impressionados os habitantes de Nazaré, como já tinham deixado impressionados os fiéis da sinagoga de Cafarnaum (cf. Mc. 1,21-28). No entanto, os de Cafarnaum, depois de ouvir Jesus, reconheceram a sua autoridade mais do que divina (e que, segundo eles, era diferente da autoridade dos doutores da Lei); os de Nazaré vão chegar a conclusões distintas.

Depois de escutarem Jesus, na sinagoga, os seus conterrâneos traduzem a sua perplexidade através de várias perguntas… Duas das questões postas dizem respeito à origem e à qualidade dos ensinamentos de Jesus (“de onde lhe vem tudo isto? Que sabedoria é esta que lhe foi dada?” – v. 2); uma outra questão refere-se à qualificação das ações de Jesus (“e os prodigiosos milagres feitos por suas mãos?” – v. 2).

Numa espécie de contraponto à impressão que Jesus lhes deixou, eles recordam o seu ofício e a “normalidade” da sua família (v. 3a)… Para eles, Jesus é “o carpinteiro”: não é um “rabbi”, nunca estudou as Escrituras com nenhum mestre conceituado e não tem qualificações para dizer as coisas que diz. Por outro lado, eles conhecem a identidade da família de Jesus e não descobrem nela nada de extraordinário: Ele é o “filho de Maria” e os seus irmãos e irmãs são gente “normal”, que toda a gente conhece em Nazaré e que nunca revelaram qualidades excepcionais. Portanto, parece claro que o papel assumido por Jesus e as ações que Ele realizou são humanamente inexplicáveis.

A questão seguinte (que, no entanto, não aparece explicitamente formulada) é esta: estas capacidades extraordinárias que Jesus revela (e que não vêm certamente dos conhecimentos adquiridos no contacto com famosos mestres, nem do ambiente familiar) vêm de Deus ou do diabo? Desde o primeiro momento, os comentários dos habitantes de Nazaré deixam transparecer uma atitude negativa e um tom depreciativo na análise de Jesus. Nem sequer se referem a Jesus pelo próprio nome, mas usam sempre um pronome para falar d’Ele (Jesus é “este” ou “ele” - vs. 2-3). Depois, chamam-Lhe depreciativamente “o filho de Maria” (o costume era o filho ser conhecido em referência ao pai e não à mãe). Como cenário de fundo do pensamento dos habitantes de Nazaré está provavelmente a acusação feita a Jesus algum tempo antes pelos “doutores da Lei que haviam descido de Jerusalém e que afirmavam: «Ele tem Belzebu! É pelo chefe dos demônios que ele expulsa os demônios»“ (Mc. 3,22). Marcos conclui que os habitantes de Nazaré ficaram “escandalizados” (v. 3b) com Jesus (o verbo grego “scandalidzô”, aqui utilizado, significa muito mais do que o “ficar perplexo” das nossas traduções: significa “ofender”, “magoar”, “ferir suscetibilidades”). Há na vila uma espécie de indignação porque Jesus, apesar de ter sido desautorizado pelos mestres reconhecidos do judaísmo, continua a desenvolver a sua atividade à margem da instituição judaica. Ele põe em causa a religião tradicional, quando ensina coisas diferentes e de forma diferente dos mestres reconhecidos. Conclusão: Ele está fora da instituição judaica; o seu ensinamento não pode, portanto, vir de Deus, mas do diabo. Os conterrâneos de Jesus não conseguem reconhecer a presença de Deus naquilo que Jesus diz e faz.

Jesus responde aos seus concidadãos (v. 4) citando um conhecido provérbio, mas que Ele modifica, em parte (o original devia soar mais ou menos assim: “nenhum profeta é respeitado no seu lugar de origem, nenhum médico faz curas entre os seus conhecidos”). Nessa resposta, Jesus assume-Se como profeta – isto é, como um enviado de Deus, que atua em nome de Deus e que tem uma mensagem de Deus para oferecer aos homens. Os ensinamentos que Jesus propõe não vêm dos mestres judaicos, mas do próprio Deus; a vida que Ele oferece é a vida plena e verdadeira que Deus quer propor aos homens.

A recusa generalizada da proposta que Jesus traz coloca-o na linha dos grandes profetas de Israel. O Povo teve sempre dificuldade em reconhecer o Deus que vinha ao seu encontro na palavra e nos gestos proféticos. O fato de as propostas apresentadas por Jesus serem rejeitadas pelos líderes, pelo povo da sua terra, pelos seus “irmãos e irmãs” e até pelos da sua casa não invalida, portanto, a sua verdade e a sua procedência divina.

Porque é que Jesus “não podia ali fazer qualquer milagre” (vers. 5)? Deus oferece aos homens, através de Jesus, perspectivas de vida nova e eterna… No entanto, os homens são livres; se eles se mantêm fechados nos seus esquemas e preconceitos egoístas e rejeitam a vida que Deus lhes oferece, Jesus não pode fazer nada. Marcos observa, apesar de tudo, que Jesus “curou alguns doentes impondo-lhes as mãos”. Provavelmente, estes “doentes” são aqueles que manifestam uma certa abertura a Jesus mas que, de qualquer forma, não têm a coragem de cortar radicalmente com os mecanismos religiosos do judaísmo para descobrir a novidade radical do Reino que Jesus anuncia.

Marcos nota ainda a “surpresa” de Jesus pela falta de fé dos seus concidadãos (v. 6a). Esperava-se que, confrontados com a proposta nova de liberdade e de vida plena que Jesus apresenta, os seus interlocutores renunciassem à escravidão para abraçar com entusiasmo a nova realidade… No entanto, eles estão de tal forma acomodados e instalados, que preferem a vida velha da escravidão à novidade libertadora de Jesus.

Este fato decepcionante não impede, contudo, que Jesus continue a propor a Boa Nova do Reino a todos os homens (vers. 6b). Deus oferece, sem interrupção, a sua vida; ao homem resta acolher ou não esse oferecimento.

ATUALIZAÇÃO

O texto do Evangelho repete uma ideia que aparece também nas outras duas leituras deste domingo: Deus manifesta-Se aos homens na fraqueza e na fragilidade. Normalmente, Ele não se manifesta na força, no poder, nas qualidades que o mundo acha brilhantes e que os homens admiram e endeusam; mas, muitas vezes, Ele vem ao nosso encontro na fraqueza, na simplicidade, na debilidade, na pobreza, nas situações mais simples e banais, nas pessoas mais humildes e despretensiosas… É preciso que interiorizemos a lógica de Deus, para que não percamos a oportunidade de O encontrar, de perceber os seus desafios, de acolher a proposta de vida que Ele nos faz…

• Um dos elementos questionantes no episódio que o Evangelho deste domingo nos propõe é a atitude de fechamento a Deus e aos seus desafios, assumida pelos habitantes de Nazaré. Comodamente instalados nas suas certezas e preconceitos, eles decidiram que sabiam tudo sobre Deus e que Deus não podia estar no humilde carpinteiro que eles conheciam bem… Esperavam um Deus forte e majestoso, que se havia de impor de forma estrondosa, e assombrar os inimigos com a sua força; e Jesus não se encaixava nesse perfil. Preferiram renunciar a Deus, do que à imagem que d’Ele tinham construído. Há aqui um convite a não nos fecharmos nos nossos preconceitos e esquemas mentais bem definidos e arrumados, e a purificarmos continuamente, em diálogo com os irmãos que partilham a mesma fé, na escuta da Palavra revelada e na oração, a nossa perspectiva acerca de Deus.

• Para os habitantes de Nazaré Jesus era apenas “o carpinteiro” da terra, que nunca tinha estudado com grandes mestres e que tinha uma família conhecida de todos, que não se distinguia em nada das outras famílias que habitavam na vila; por isso, não estavam dispostos a conceder que esse Jesus – perfeitamente conhecido, julgado e catalogado – lhes trouxesse qualquer coisa de novo e de diferente… Isto deve fazer-nos pensar nos preconceitos com que, por vezes, abordamos os nossos irmãos, os julgamos, os catalogamos e etiquetamos… Seremos sempre justos na forma como julgamos os outros? Por vezes, os nossos preconceitos não nos impedirão de acolher o irmão e a riqueza que Ele nos traz?

• Jesus assume-Se como um profeta, isto é, alguém a quem Deus confiou uma missão e que testemunha no meio dos seus irmãos as propostas de Deus. A nossa identificação com Jesus faz de nós continuadores da missão que o Pai Lhe confiou. Sentimo-nos, como Jesus, profetas a quem Deus chamou e a quem enviou ao mundo para testemunharem a proposta libertadora que Deus quer oferecer a todos os homens? Nas nossas palavras e gestos ecoa, em cada momento, a proposta de salvação que Deus quer fazer a todos os homens?

• Apesar da incompreensão dos seus concidadãos, Jesus continuou, em absoluta fidelidade aos planos do Pai, a dar testemunho no meio dos homens do Reino de Deus. Rejeitado em Nazaré, Ele foi, como diz o nosso texto, percorrer as aldeias dos arredores, ensinando a dinâmica do Reino. O testemunho que Deus nos chama a dar cumpre-se, muitas vezes, no meio das incompreensões e oposições… Frequentemente, os discípulos de Jesus sentem-se desanimados e frustrados porque o seu testemunho não é entendido nem acolhido (nunca aconteceu pensarmos, depois de um trabalho esgotante e exigente, que estivemos a perder tempo?)… A atitude de Jesus convida-nos a nunca desanimar nem desistir: Deus tem os seus projetos e sabe como transformar um fracasso num êxito.

P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho

 
 

Basta‑te a minha graça

I. Na segunda leitura (1) da missa, São Paulo revela‑nos a sua profunda humildade. Depois de falar aos fiéis de Corinto dos seus trabalhos por Cristo e das visões e revelações que o Senhor lhe concedeu, declara‑lhes também a sua debilidade: Para que não me ensoberbeça, foi‑me dado um aguilhão na carne, um anjo de satanás, que me esbofeteia para que eu não me exalte.

Não sabemos com certeza a que se refere São Paulo quando fala desse aguilhão da carne. Alguns Padres (Santo Agostinho) pensam que se tratava de uma doença física particularmente dolorosa; outros (são João Crisóstomo) acham que se referia às tribulações que lhe causavam as contínuas perseguições que o atingiam; alguns (são Gregório Magno) julgam que aludia a tentações especialmente difíceis de repelir (2). Seja como for, tratava‑se de alguma coisa que humilhava o Apóstolo, que entravava de certo modo a sua tarefa de evangelizador.

São Paulo pediu ao Senhor por três vezes que retirasse dele esse obstáculo. E recebeu esta sublime resposta: Basta‑te a minha graça, pois a força resplandece na fraqueza. Para superar essa dificuldade, bastava‑lhe a ajuda de Deus, e, além disso, ela servia para manifestar o poder divino que lhe permitiria vencê‑la. Ao contar com a ajuda de Deus, tornava‑se mais forte, e isso fê‑lo exclamar: Por isso glorio‑me com muito gosto nas minhas fraquezas, nos opróbrios, nas necessidades, nas perseguições e angústias, por Cristo; pois, quando sou fraco, então sou forte. Na nossa fraqueza, experimentamos constantemente a necessidade de recorrer a Deus e à fortaleza que nos vem dEle. Quantas vezes o Senhor nos terá dito na intimidade do nosso coração: Basta‑te a minha graça, tens a minha ajuda para venceres nas provas e dificuldades!

Pode ser que, de vez em quando, a solidão, a fraqueza ou a tribulação nos atinjam de um modo particularmente vivo e doloroso: “Procura então o apoio dAquele que morreu e ressuscitou. Procura para ti abrigo nas chagas das suas mãos, dos seus pés, do seu lado aberto. E renovar‑se‑á a tua vontade de recomeçar, e reempreenderás o caminho com maior decisão e eficácia”3.

Por outro lado, as próprias dificuldades e fraquezas podem converter‑se num bem maior. São Tomás de Aquino, ao comentar essa passagem da Epístola de São Paulo, explica que Deus pode permitir algumas vezes certos males de ordem moral ou física para obter bens maiores ou mais necessários4. O Senhor nunca nos abandonará no meio das provações. A nossa própria debilidade ajuda‑nos a confiar mais, a procurar com maior presteza o refúgio divino, a pedir mais forças, a ser mais humildes: “Senhor, não te fies de mim! Eu, sim, é que me fio de Ti. E ao vislumbrarmos na nossa alma o amor, a compaixão, a ternura com que Cristo Jesus nos olha – porque Ele não nos abandona –, compreenderemos em toda a sua profundidade as palavras do apóstolo: Virtus in infirmitate perficitur, a virtude se fortalece na fraqueza (2Cor. 12,9); com fé no Senhor, apesar das nossas misérias – ou melhor, com as nossas misérias –, seremos fiéis ao nosso Pai‑Deus, e o poder divino brilhará, sustentando‑nos no meio da nossa fraqueza”5.

II. FOI‑ME DADO UM AGUILHÃO na carne, um anjo de Satanás que me esbofeteia... É como se São Paulo sentisse aqui, de uma maneira muito viva, as suas limitações, paralelamente à grandeza de Deus e da sua missão de Apóstolo que contemplara em diversas ocasiões. Por vezes, também nós podemos vislumbrar “metas generosas, metas de sinceridade, metas de perseverança..., e, não obstante, temos como que incrustada na alma, no mais profundo do que somos, uma espécie de raiz de debilidade, de falta de forças, de obscura impotência..., e isso nos deixa tristes e dizemos: não posso” (6). Vemos o que o Senhor espera de nós em determinada situação ou em face de certas circunstâncias, mas talvez nos sintamos fracos ou cansados perante as provas e dificuldades que acarretam e que temos de superar:

“A inteligência – iluminada pela fé – mostra‑te claramente não só o caminho, mas a diferença entre a maneira heróica e a maneira estúpida de percorrê‑lo. Sobretudo, põe diante de ti a grandeza e a formosura divina das tarefas que a Trindade deixa em nossas mãos.

“O sentimento, pelo contrário, apega‑se a tudo o que desprezas, mesmo que continues a considerá‑lo desprezível. É como se mil e uma insignificâncias estivessem esperando qualquer oportunidade, e logo que a tua pobre vontade se debilita – por cansaço físico ou por perda de sentido sobrenatural –, essas ninharias se amontoam e se agitam na tua imaginação, até formarem uma montanha que te oprime e te desanima: as asperezas do trabalho; a resistência em obedecer; a falta de meios; os fogos de artifício de uma vida regalada; pequenas e grandes tentações repugnantes; rajadas de sentimentalismo; a fadiga; o sabor amargo da mediocridade espiritual... E, às vezes, também o medo: medo porque sabes que Deus te quer santo e não o és.

“Permite‑me que te fale com crueza. Sobram‑te «motivos» para voltar atrás, e falta‑te arrojo para corresponder à graça que Ele te concede, porque te chamou para seres outro Cristo, «ipse Christus!» – o próprio Cristo. Esqueceste a admoestação do Senhor ao Apóstolo: «Basta‑te a minha graça», que é uma confirmação de que, se quiseres, podes”7.

Basta‑te a minha graça. São palavras que o Senhor dirige hoje a cada um de nós para que nos enchamos de fortaleza ante as provas que tenhamos pela frente. A nossa própria fraqueza servirá para nos gloriarmos no poder de Cristo, ensinar‑nos‑á a amar e a sentir a necessidade de estar muito perto de Jesus. As próprias derrotas, os projetos inacabados, levar‑nos‑ão a exclamar: Quando sou fraco, então sou forte, porque Cristo está comigo.

Quando a tentação, os contratempos ou o cansaço se tornarem maiores, o demônio tratará de insinuar‑nos a desconfiança, o desânimo, o descaminho. Por isso, devemos hoje aprender a lição que São Paulo nos dá: nessas situações, Cristo está especialmente presente com a sua ajuda; basta que recorramos a Ele. E também poderemos dizer com o Apóstolo: Glorio‑me com muito gosto nas minhas fraquezas, nos opróbrios, nas necessidades, nas perseguições e angústias, por Cristo...

III. SERIA TEMERÁRIO desejar a tentação ou provocá‑la, mas também seria um erro temê‑la, como se o Senhor não nos fosse proporcionar a sua assistência para vencê‑la. Podemos considerar confiadamente como dirigidas a nós mesmos as palavras do Salmo: Porque ele mandou aos seus anjos que te guardassem em todos os teus caminhos. / Eles te sustentarão nas suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra. / Pisarás sobre serpentes e víboras, calcarás aos pés o leão e o dragão. / Porque me amou, eu o livrarei; eu o defenderei, pois confessou o meu nome. / Quando me invocar, eu o atenderei; na tribulação, estarei com ele; hei de livrá‑lo e cobri‑lo de glória. / Favorecê‑lo‑ei com longa vida, e dar‑lhe‑ei a ver a minha salvação8.

Mas, ao mesmo tempo, o Senhor pede que estejamos prevenidos contra a tentação e que lancemos mão dos meios ao nosso alcance para vencê‑la: a oração e a mortificação voluntária; a fuga das ocasiões de pecado, pois aquele que ama o perigo, nele perecerá9; uma vida laboriosa de trabalho contínuo, pelo cumprimento exemplar dos deveres profissionais; um grande horror a todo o pecado, por pequeno que possa parecer; e, sobretudo, o esforço por crescer no amor a Cristo e a Santa Maria.

Combatemos com eficácia quando abrimos a alma de par em par ao diretor espiritual no momento em que começa a insinuar‑se a tentação da infidelidade, “pois manifestá‑la é já quase vencê‑la. Quem revela as suas tentações ao diretor espiritual pode estar certo de que Deus concede a este a graça necessária para dirigi‑lo bem [...].

“Não pensemos nunca que se combate a tentação discutindo com ela, nem sequer enfrentando‑a diretamente [...]. Mal se apresente, afastemos dela o olhar, para dirigi‑lo ao Senhor que vive dentro de nós e combate ao nosso lado, e que venceu o pecado; abracemo‑nos a Ele num ato de humilde submissão à sua vontade, de aceitação dessa cruz da tentação [...], de confiança nEle e de fé na sua proximidade, de súplica para que nos transmita a sua força. Deste modo, a tentação conduzir‑nos‑á à oração, à união com Deus e com Cristo: não será uma perda, mas um lucro. Deus faz concorrer todas as coisas para o bem dos que o amam (Rom 8, 28)”10.

Podemos tirar muito proveito das provas, tribulações e tentações, pois nelas demonstramos ao Senhor que precisamos dEle e o amamos. Elas avivarão o nosso amor e aumentarão as nossas virtudes, pois a ave não voa apenas pelo impulso das asas, mas também pela resistência do ar: de alguma maneira, precisamos dos obstáculos e das contrariedades para levantarmos vôo no amor. Quanto maior for a resistência do ambiente ou das nossas próprias fraquezas, mais ajudas e graças Deus nos dará. E a nossa Mãe do Céu estará sempre muito perto de nós nesses momentos de maior necessidade: não deixemos de recorrer à sua proteção maternal.

Francisco Fernández-Carvajal

(1) 2 Cor 12, 7‑10;

(2) cfr. Sagrada Bíblia, Epístolas de São Paulo aos Corintíos, EUNSA, Pamplona, 1984, vol. VII;

(3) Josemaría Escrivá, Via Sacra, 2ª ed., Quadrante, São Paulo, 1986, XIIª est., n. 2;

(4) São Tomás, Comentário à segunda carta aos Coríntios;

(5) Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 194;

(6) A. Garcia Dorronsoro, Apuntes de esperanza, Rialp, Madrid, 1974, pág. 123;

(7) Josemaría Escrivá, Sulco, n. 166;

(8) Sl 90, 11;

(9) Eclo 3, 27;

(10) B. Baur, Intimidade com Deus, pág. 121‑122.

 

 

Profetas desconcertantes!

Como discernir o verdadeiro do falso profeta? Temos de ser prudentes e atentos aos sinais dos tempos... Um profeta leva sempre uma mensagem de esperança. Por outro lado, a sua palavra deve necessariamente incomodar.

Evangelho: Mc 6,1-6

No Prólogo de São João podemos ler que, em relação a Cristo, o Verbo de Deus, “Ele veio para a sua casa, mas os seus não o receberam” (Jo 1,11). Com efeito, eis aqui o drama da Aliança de Deus e os homens; essa aliança é encontro, aceitação, abertura ao outro, transformação, novidade, e essa aliança só pode se expressar através dos profetas, e eles não caem nunca do céu; eles nascem sempre de baixo, na espessura da história humana. É por isso que é difícil reconhecê-los, apreciá-los e escutá-los. As três leituras de hoje nos apresentam profetas: Ezequiel, Paulo e Jesus de Nazaré. Que tipo de profetas eles são eles?

O profeta

Um ser humano ordinário. Nas três leituras de hoje, nos damos conta rapidamente que os profetas são, antes de tudo, seres humanos bem comuns, com seus limites e fragilidades. Ezequiel, um sacerdote que viveu no tempo de Nabucodonosor e do Exílio de Babilônia (598-587 a.C), é um profeta desconcertante, de genialidade diversa e complexa. Ele é como os israelitas do seu tempo, esmagados pela derrota, desesperados e deportados para a Babilônia. É de joelhos que ele toma consciência de que Deus acompanha seu povo na angústia e que tem necessidade dele para exprimir a sua presença: “Entrou em mim um espírito que me fez ficar de pé. Então eu pude ouvir aquele que falava comigo” (Ez 2,2).

É o mesmo Paulo que escreve a sua segunda carta aos Coríntios: “Eu estava tão preocupado e aflito que até chorava” (2 Co 2,4). Paulo toma consciência de sua pequenez humana perante a grandeza da missão à qual ele se sente chamado: “Para que eu não me inchasse de soberba por causa dessas revelações extraordinárias, foi me dado um espinho na carne (em grego: skolops), um anjo de Satanás para me espancar, a fim de que eu não me encha de soberba” (2 Co 12,7). Será que é um handicap físico, uma doença crônica ou seus adversários missionários eloquentes e autoritários que, com antecedência, ele havia chamado de “servidores de Satanás” (2 Co 11,13-15)? Não sabemos nada sobre isso! Uma coisa é certa: Paulo é muito humano e ele o experimenta na sua carne, (em grego: sarkos), que designa a fragilidade da existência humana.

Jesus de Nazaré não é também um homem comum? De maneira que mesmo a sua família achava que ele era perturbado: “Os parentes de Jesus foram segurá-lo, porque eles mesmos estavam dizendo que Jesus tinha ficado louco” (Mc 3,21). E no trecho que nós temos hoje o evangelista Marcos, retomando o que as pessoas da sua cidade diziam dele, escreve: “Esse homem não é o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E suas irmãs não moram aqui conosco?” (Mc 6,3). Dizer que Jesus é o carpinteiro, o filho de Maria, pode querer dizer duas coisas: 1) que seu pai, José, faleceu; se não Marcos haveria escrito que Jesus era o filho do carpinteiro ou, 2) que se trata de uma família de reputação duvidosa, pois, na época, não se dizia nunca que alguém era filho da sua mãe. Uma coisa é certa: Jesus de Nazaré foi um homem completamente comum, de um meio bem comum, de uma cidadezinha escura que fez que o evangelista João dissesse: “Natanael disse: ‘De Nazaré pode sair coisa boa?’” (Jo 1,46). 

O profeta incomoda

Um profeta leva sempre uma mensagem de esperança. Por outro lado, a sua palavra deve necessariamente incomodar. O profeta é aquele que anuncia as situações de injustiça, que questiona, que interpela e que convida à mudança, à novidade. Frequentemente nós somos reticentes às mudanças; atolamo-nos em velhos hábitos e desculpamos a nossa passividade apoiando-nos em doutrinas e regras que determinamos serem a Verdade. Porém, não há verdades totalmente acabadas, absolutas, imutáveis, inalteráveis, e para que lembremos Deus deve necessariamente passar por mulheres e por homens como nós. Daí a rejeição, a negação e a condenação dos profetas. O teólogo Michel Hubaut escreve: “Se Deus tivesse desejado que o homem pegasse o caminho errado como se diz, ele não teria conseguido fugir disso...”. Pois se há uma constatação na história da revelação judeu-cristã, ela é exatamente essa propensão do homem a querer encontrar Deus nas manifestações extraordinárias, milagrosas e grandiosas. E, ainda, na linha da história, percebemos que Deus prefere as teofanias do quotidiano mais do que as teofanias do grande espetáculo”. E, como prova, seu Filho nasceu como todo mundo: uma criança; ele se tornou carpinteiro como seu pai e ele foi crucificado como um vulgar bandido. Hubaut acrescenta: “Não podemos dizer que esse Messias veio lisonjear a espera das multidões”.

Contudo, todos os profetas sabem: a Palavra, a Boa nova que eles têm a anunciar será automaticamente mal recebida. A novidade perturba, incomoda. Ela impede de ficar na monotonia. A novidade suscita perplexidade, rejeição. O profeta Ezequiel experimentou-a: “Criatura humana, vou mandar você a Israel, a esse povo rebelde, que se rebelou contra mim. Eles e seus antepassados se revoltaram contra mim até o dia de hoje. Os filhos são arrogantes e têm coração de pedra” (Ez 2,3-4). São Paulo o expressa também desta maneira: “E é por isso que eu me alegro nas fraquezas, humilhações, necessidades, perseguições e angústias, por causa de Cristo. Pois quando sou fraco, então é que sou forte” (2 Co 12,10). E o evangelho de Marcos faz dizer a Jesus este célebre ditado: “Um profeta só não é estimado em sua própria pátria, entre seus parentes e em sua família” (Mc 6,4), pois é preciso reconhecê-lo, alguns dias a humanidade de Deus nos choca. Preferiríamos um Deus autoritário, todo-poderoso, que impõe as suas recompensas e os seus castigos... Felizmente, esse Deus não existe! 

Um verdadeiro profeta

Como discernir o verdadeiro do falso profeta? Temos de ser prudentes e atentos aos sinais dos tempos. Infelizmente, na Igreja atual, alguns acham que são verdadeiros profetas pela sua intransigência, pela sua severidade e pelo que eles falam. Mas, atenção! O fato de ser criticado, rejeitado ou ainda de deixar indiferentes às pessoas que me rodeiam, não fazem de mim automaticamente um profeta. A Palavra que eu levo deve ser uma Boa Nova, uma Palavra que liberta, que salva e que dá esperança. E é por isso que os verdadeiros profetas não são sempre aqueles que nós pensamos. Eles são dificilmente apoiados pelas instituições, mesmo pela Igreja... Pois a Igreja, ela também não gosta do que incomoda, não gosta de mudança, de novidade, e os profetas são frequentemente suspeitos. O teólogo francês Hyacinthe Vulliez escreve: “Quando queremos nos desfazer de um profeta é habitual tratá-lo de anormal, de atípico e mesmo de estrangeiro, o que permite distanciá-lo e mesmo fazê-lo desaparecer. Não gostamos da pessoa que tem um discurso diferente do convencional. Ele incomoda, ele faz sair da monotonia de sempre, e isso o pessoal não gosta!”

O verdadeiro profeta de hoje deve necessariamente ter a linguagem das mulheres e dos homens de hoje, caso contrário ele deixará indiferentes as pessoas mais vulneráveis da sociedade: os pobres, os pequenos, os desprezados, os feridos da vida. A sua palavra deve denunciar as injustiças que sofrem e lhes permitir de ter esperança. Pode ser que o verdadeiro profeta não seja católico, nem mesmo cristão. A sua pertença a uma confissão particular não tem nenhuma importância. O profeta é aquele que restaura a justiça, que devolve a dignidade aos excluídos e aos feridos da vida e que traz esperança num mundo melhor.

Concluindo, o versículo evangélico que diz: “E Jesus não pôde fazer milagres em Nazaré...” (Mc 6,5) corre o risco de nos surpreender. Nós temos lá a prova de que um milagre não é um passe de mágica ou um prodígio que vira as leis da natureza; o milagre é um sinal que fala da proximidade daquele que faz com quem vê. O que significa que para que o milagre, o sinal possa se realizar, é preciso uma inter-relação, uma fé, uma confiança entre quem a dá e quem a recebe, se não nem a Palavra nem o sinal poderão produzir seus frutos. Se isso foi verdadeiro no tempo de Jesus, assim também é ainda hoje.

Raymond Gravel

 

 

Rejeitado entre os seus

Jesus não é um sacerdote do Templo, ocupado em cuidar e promover a religião. Tampouco alguém o confunde com um Mestre da Lei, dedicado a defender a Torá de Moisés. Os camponeses da Galileia veem nos Seus gestos de cura e nas Suas palavras de fogo a atuação de um profeta movido pelo Espírito de Deus.

Jesus sabe que lhe espera uma vida difícil e conflituosa. Os dirigentes religiosos irão enfrentá-Lo. É o destino de todo profeta. Não suspeita, todavia, que será rejeitado precisamente entre os seus, os que melhor o conhecem desde criança.

Ao que parece, a rejeição de Jesus a Seu povo de Nazaré era muito comentada entre os primeiros cristãos. Três evangelistas recolhem o episódio com todos os detalhes. Segundo Marcos, Jesus chega a Nazaré acompanhado de discípulos e com fama de profeta curador. Os Seus vizinhos não sabem o que pensar.

Ao chegar sábado, Jesus entra na pequena sinagoga da povoação e «começa a ensinar». Seus vizinhos e familiares apenas o escutam. Entre eles nasce todo tipo de perguntas. Conhecem Jesus desde criança: é um vizinho a mais. Onde aprendeu essa mensagem surpreendente do reino de Deus? De quem recebeu essa força para curar? Marcos diz que Jesus «deixava-os desconcertados». Por quê?

Aqueles camponeses acreditam que sabem tudo de Jesus. Fizeram uma ideia Dele desde criança. Em lugar de acolhê-lo tal como se apresenta diante deles, ficam bloqueadospela imagem que têm Dele. Essa imagem impede-os de se abrirem ao mistério que se encerra em Jesus. Resistem a descobrir Nele a proximidade salvadora de Deus.

Mas há algo mais. Acolhê-Lo como profeta significa estar dispostos a escutar a mensagem que lhes dirige em nome de Deus. E isso pode trazer-lhes problemas. Eles têm a sua sinagoga, os seus livros sagrados e as suas tradições. Vivem com paz a sua religião. A presença profética de Jesus pode romper a tranquilidade da aldeia.

Os cristãos, temos imagens bastante diferentes de Jesus. Nem todas coincidem com a que tinham os que o conheceram de perto e o seguiram. Cada um de nós faz a sua ideia dele. Esta imagem condiciona a nossa forma de viver a fé. Se a nossa imagem de Jesus é pobre, parcial ou distorcida, a nossa fé será pobre, parcial ou alterada.

Por que nos esforçamos tão pouco em conhecer Jesus?

Por que nos escandaliza recordar os Seus traços humanos?

Por que resistimos a confessar que Deus se encarnou num profeta?

Intuímos talvez que a Sua vida profética nos obrigaria a transformar profundamente as nossas comunidades e a nossa vida?

José Antonio Pagola

 

 

Jesus participa da condição dos homens e mulheres comuns.

Um pouco mais ou um pouco menos, a grandeza, a fama e o poder nos fascinam. Fraqueza, pequenez e humildade são realidades que em geral tememos e evitamos. Os ídolos nos parecem modelos dignos de serem imitados, mesmo quando omitem desesperadamente a origem humilde e desprezada e desabam como um castelo de ilusões. Mas o caminho da humanização não passa por estas veredas. E, em Jesus Cristo, Deus define para sempre seu caminho: o ser humano comum e humilhado, sem nenhum outro título ou honra, é seu sacramento, seu interlocutor e seu embaixador no mundo.

Existem pessoas que são desprezadas simplesmente por causa do gênero ou pela orientação sexual: mulheres constantemente humilhadas por uma arcaica e violenta cultura machista; pessoas homoafetivas caçadas como feras perigosas ou abjetas. Existem também grupos humanos que são desprezados por questões étnicas e raciais: negros que carregam as marcas da escravidão como se dela fossem culpados, vistos sempre com suspeita e considerados inferiores; povos  indígenas catalogados como seres primitivos ou selvagens, exemplares exóticos de um tempo que não existe mais ou entraves para o excludente e predatório desenvolvimento branco.

Apesar dos títulos e imagens de poder que a história associou a Jesus, ele partilhou a sorte das pessoas desprezadas e marginalizadas. Jesus de Nazaré não fez coro com os soberbos e dos satisfeitos, nem se mostrou indiferente ao destino das pessoas humilhadas. Nasceu numa estrebaria, habitou numa cidade insignificante e numa região desprezada, foi trabalhador braçal, misturou-se a grupos sociais suspeitos, foi preso e executado entre ladrões.Em Nazaré, sua cidade Natal, ele era conhecido como um carpinteiro, e seus familiares eram pessoas muito humildes, gente muito comum.

No evangelho de hoje vemos a admiração e a inquietação dos conterrâneos de Jesus sobre a origem do seu carisma. Como conheciam Jesus desde pequeno, perguntavam-se: "Onde foi que arranjou tanta sabedoria? Esse homem não é o carpinteiro, o filho de Maria?..." Do ponto de vista da origem, Jesus não poderia ser o que dava a impressão de ser... A sabedoria não poderia vir de pessoas comuns e humildes como os habitantes de Nazaré. Por mais que o ensinamento e as ações de Jesus impressionassem, sua pertença a um povoado marginal e a um povo trabalhador era para eles como uma pedra de escândalo.

Jesus fica impressionado com a visão estreita dos seus conterrâneos, com a influência que a ideologia da superioridade das pessoas cultas e poderosas exerce sobre os humildes habitantes da sua aldeia. Por trás dessa influência maléfica estava a idéia da inferioridade e impotência dos pobres, da sua radical e eterna dependência de benfeitores poderosos. Como tantos outros, aquele povo simples havia interiorizado e assimilado sua própria insignificância!Mas, o que mais surpreende, é que parece que o escândalo atinge os próprios familiares e parentes de Jesus...

É isso que deduzimos do provérbio citado por Jesus: "Um profeta só não é estimado na sua pátria, entre seus parentes e familiares..." Aqueles que conheciam as raízes camponesas e as mãos calejadas de Jesus nos trabalhos da carpintaria não conseguiam reconhecer nele os traços do Profeta ou do Messias esperado. Para Jesus, o escândalo dos habitantes de Nazaré diante da sua origem humilde é falta de fé, pois a fé é abertura de mente que permite reconhecer a presença de Deus nas pessoas simples,é acolher as surpresas e a ação inusitada de Deus que se manifesta onde e quando menos se espera.

Chamando a atenção dos cristãos de Corinto, Paulo afirma que prefere orgulhar-se de suas fraquezas e não de seus méritos. "Eu me alegro nas fraquezas, humilhações, necessidades, perseguições e angústias por causa de Cristo." Ele tem a convicção de que a força de Deus se revela na humana fraqueza, e, por isso, não corre atrás de revelações e dons extraordinários. Aqueles que acreditam em Jesus Cristo seguem o caminho do amor que serve, do amor a fundo perdido, sem se importarem com o sucesso e o retorno. Sabem que seguem um servo, e não um patrão!

Jesus de Nazaré, carpinteiro numa aldeia insignificante, escândalo para os próprios conterrâneos e familiares... Ensina-nos a apreciar a fraqueza em vez do poder, a humildade em vez da soberba. Ajuda-nos a manter nossos olhos fixos em ti, nosso Senhor e Servo. Como tu, queremos confiar na liberdade e na força que nos vem do Espírito do Pai e da tua Palavra, e não no nosso próprio poder de convencimento e de pressão ou nas ações espetaculares. E que nós jamais esqueçamos que tu partilhas as nossas origens e não te envergonhas de nos chamar de irmãos e irmãs. Assim seja! Amém!

padre Itacir Brassiani msf

 

 

Quem sabe, um dia, o mundo será melhor

Diz uma canção: "Eu acredito que o mundo será melhor quando o menor que padece acreditar no menor". Essa convicção nos põe em contato com o Evangelho deste domingo.

Jesus volta a Nazaré, vilarejo onde morava sua família. É sábado, dia de celebração na comunidade. Como de costume, ele vai à sinagoga. Sua presença cria um clima estranho. As pessoas do povoado "admiram-se" dele. Já conhecem sua ação libertadora no meio do povo. Mas eles sabem, também, da opinião de escribas e fariseus que consideram Jesus um homem possuído por demônios. Aos olhos de muitos, Ele parece ser um homem suspeito. Agora ele está de volta a sua comunidade de origem. Que reação terá o povo da sinagoga?

Primeiro, as pessoas ficam "admiradas" com Jesus - parece que gostam dele. Em seguida, porém, eles mostram que essa admiração significa rejeição. Por que rejeitam Jesus? Porque, na opinião deles, um homem de origem humilde não pode ser importante. Por acaso ele não era igual a tantos outros daquele vilarejo? Um pobre de Nazaré seria capaz de coisas importantes? Além disso, sua metodologia de acolher impuros e excluídos não seria por acaso um sinal de que ele estava mesmo agindo como um demônio? Ele não andava convidando pecadores para seu grupo e não tinha "pisado na bola" ao aceitar de fazer refeição com eles?

O Evangelho diz que Jesus não pôde realizar ali milagre algum. Apenas curou alguns doentes. E "admirou-se" da falta de fé daquela gente. Agora é Jesus quem se admira! Admira-se de como podem as pessoas se deixar enganar tão facilmente. Como podem andar com a "cabeça feita" pelos poderosos que veem perigo em tudo o que não combina com seus próprios interesses?! Jesus lembra-lhes ainda um ditado conhecido: "Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares." Falar assim era uma maneira de acordar o povo: quem sabe, ele perceberia que os profetas nunca foram amados e aplaudidos porque a libertação sempre foi e sempre será um desafio exigente. Quem sabe, um dia, o mundo será melhor, porque o menor que padece acredita no menor!

padre Léo Zeno Konze

 

 

O Povo de Israel está no exílio (no sofrimento), mesmo assim, não se converteu! Esqueceu o amor de Deus e não aprendeu no sofrimento do exílio! Povo de cabeça dura e coração de pedra! Por isso, Deus enviou-lhe o profeta Ezequiel que anunciou, com fidelidade, a Palavra do Senhor. Palavra dura, por sinal!

No Evangelho vemos Jesus, rejeitado pelo povo de sua cidade – Nazaré – por ser demais conhecido e por não ter estudado nas escolas dos mestres da Lei e dos fariseus. Bela escusa, por sinal! Nem por isso, Jesus deixou de dar seu recado; mas, falta de fé impediu a realização de milagres.

A rejeição de Jesus na cidade de Nazaré é um símbolo da rejeição de todos nós: “Jesus veio para o que era seu e os seus não o receberam (...) O mundo foi feito por Ele, mas o mundo não o reconheceu (...) mas àqueles que o receberam deu-lhes a graça de se tornarem filhos de Deus (Jo. 1,6-12)”.

Como recebemos “os profetas” que Deus envia para nossas comunidades? O profeta, na maioria das vezes, tem recados duros a transmitir, exigências de conversão e nós resistimos a elas com escusas irrisórias (que fazem rir!).

O sofrimento de Paulo – um espinho cravado em sua carne - seriam problemas de saúde, de rejeição pelas comunidades, de armadilhas e calúnias inventadas por inimigos, dificuldades sem conta sua vida pastoral. Deus não facilita nunca o caminho dos profetas, dá-lhe a sua graça e isso é suficiente.

“Quer aceitem ou não, saberão que esteve entre eles um profeta”.

frei Carlos Zagonel

 

 

Cabeça dura

Diante de um pluralismo religioso abundante, deparamo-nos também com o posicionamento de rejeição não só da religião mas até de Deus. Há quem se pronuncia como crente mas vive como se Deus não existisse. Opõe-se até a valores propostos por pessoas religiosas, entendendo que se trata de assuntos só ligados à religião, mas, na verdade, e em primeiro lugar, são valores inerentes à natureza dos seres e ligados diretamente à vida e à dignidade da pessoa humana, como não matar um ser humano indefeso antes de ele nascer.

Jesus conviveu com muita rejeição de grupos à sua pessoa e a seus ensinamentos. Sua presença e proposta de vida contrariavam a conduta e o ensinamento de muitas lideranças. Por isso, foi perseguido e morto. Segui-lo requer do discípulo coragem, convicção e vida de fé coerente com o Evangelho. Há quem quer impor ao grupo religioso regras, até contrárias aos valores do mesmo, encarando a religião apenas como entidade de consumo ou seja, de ritos e buscas de vantagens econômicas, de superação de males físicos, psíquicos e sociais. De fato, Jesus curou muita gente desses males, mas não sem dar base à cura da alma. Não basta o bem estar na ordem material e física. É preciso a pessoa usar os meios adequados e ter conduta adequada à consecução de sua plena realização humana, sedimentada no amor vivenciado com a prática do projeto de Deus. A religião não é finalidade. É instrumento. Quanto mais ela se afinar com o projeto do Criador, apresentado pelo Filho de Deus, mais tem eficácia no seu conteúdo e nos seus propósitos. Jesus não instituiu à toa sua Igreja, para ela ser instrumento eficaz de apresentação do ideal de vida que leva a pessoa a conseguir, com grande facilitação, sua meta existencial.

O profeta Ezequiel já lembrava aos judeus rejeitadores da proposta divina: “Eu te envio aos israelitas, nação de rebeldes, que se afastaram de mim.... A estes filhos de cabeça dura e coração de pedra vou-te enviar” (2,3.4). A missão de Deus, aceita por quem tem fé é árdua, mas garantidora de sucesso. Se existem os que se opõem à ética, à moral de base à realização humana, à grandeza de caráter, ao respeito à dignidade da vida e da pessoa humana, como templo de Deus, à boa política, à moralidade pública, ao respeito e à promoção da família, à sensibilidade e inclusão dos rejeitados da vida... há também quem luta incansavelmente para apresentar o grande motor da propulsão do bem humano, com a fé transformadora da convivência e com os critérios da cidadania apresentados pelo Filho de Deus.

Os limites humanos, lembrados por Paulo, não devem ser desculpas para alguém rejeitar os valores religiosos que ajudam a construir uma civilização do amor e da justiça: “Foi espetado na minha carne um espinho, que é como um anjo de satanás a esbofetear-me...Mas ele disse-me: ‘Basta-te a minha graça’” (2 Coríntios 12,79). Encontramos limites humanos em qualquer organização, mesmo a religiosa, que não desmerecem o exemplo e os valores vividos por grandes parcelas e os inerentes à ação divina.

Muitos, mesmo vendo os prodígios realizados por Jesus, ficavam céticos por não terem uma fé baseada na aceitação do divino apresentado com o divino-humano de Jesus. Ele mesmo falou: “Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares” (Marcos 6,1-6). A fé, além de ser dom de Deus, precisa da correspondência de nossa parte.

dom José Alberto Moura

 

 

A expressão “santo de casa não faz milagres” é muito comum entre o povo quando se refere a pessoas conhecidas da comunidade ou membros da própria família que deve proferir uma palavra profética sobre determinada situação que precisa tomar novo rumo, precisa ser acertada, mudada.

Parece que essa expressão tem raiz e confirmação no evangelho de hoje que mostra uma situação em que Jesus é rejeitado pelos seus: estando em sua cidade, ensinando aos seus correligionários, compatriotas e familiares na sinagoga, estes ficam admirados com sua sabedoria, mas recusam-se a acreditar nele. Jesus então profere a sentença: “Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares”. E Jesus “ficou admirado com a falta de fé deles”.

Parece haver aqui dois equívocos: por um lado, prevalecia uma espécie de orgulho e vaidade que só levava a dar crédito em quem tivesse posses, conhecimento profundo das ciências, fosse de família rica, reconhecida, mestre no conhecimento da Escritura, parecendo que Deus chama somente esse tipo de pessoas para anunciar seu Reino. Por outro lado havia também um sentimento de inferioridade que levava as pessoas a se recusar ouvir uma palavra sábia de quem fosse de origem simples, pobre, iletrado, comum como os demais.

O que ocorria é que, para ser ouvido na assembléia, precisava ser pessoa que gozasse de reconhecimento social, de influência política, grande ‘religioso’.

Talvez seja essa também a nossa dificuldade, ainda hoje. Se a pessoa não tem influência política e econômica, não é ouvida. É muito difícil reconhecer a presença de Jesus e uma palavra profética num ‘Seu Zé’ ou numa ‘dona Maria’ que nos diz que precisamos olhar com mais cuidado para nossos irmãos mais pobres e sofredores. Que precisamos descer do trono e acolher o pequeno, o doente, o embriagado, o presidiário. E estes muitas vezes nos dão uma lição cristã que nos faz ficar envergonhados!

O que é que nos faz mudar de atitude? Uma fé autêntica em Jesus que se fez pobre para nos enriquecer com sua pobreza [cf. 2Cor. 8,9]. Acreditar, isto é, entregar-se a esse homem que passou trinta anos numa vida oculta, tão simples que, quando inicia sua missão e diz uma palavra profética, dizem dele: “Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria...?” Não se prevaleceu de ser igual a Deus, mas humilhou-se, fazendo-se um de nós [cf. Fl. 2,5-11].

Para quem não quer crer, a vida de Jesus nada revela. Jesus só transforma a vida daquele que dele se aproxima com humildade e simplicidade de coração. Ele não buscou aplausos, reconhecimento social, posses de bens e poder político. Ele buscou, acima de tudo, a vontade do Pai. É o que mais lhe interessava. E a vontade do Pai era salvar a todos, particularmente, os mais pequeninos (cf. Jo. 6,39).

É essa fé de Jesus que devemos alimentar em nós. Mais do que ter fé em Jesus, precisamos ter a fé que o animava. Aquele espírito de entrega, de comunhão, de sacrifício, de oferta de si, de acolhida, de encantamento e entusiasmo pelo Reino. Jesus não desanimava, mesmo quando não era aceito ou reconhecido. Continuava seu caminho. Tinha firmeza porque confiava no Pai.

Será que não está faltando em nós um pouco mais de humildade para reconhecer a ação de Deus que nos fala nos gestos e palavras dos simples e humildes, pessoas que nós conhecemos, que moram na nossa rua, participam de nossa comunidade, ou mesmo parentes nossos? Será que não nos está faltando um pouco desse espírito que animava a vida de Jesus para que nossa participação na transformação da comunidade e da sociedade seja mais eficaz? Será que o espírito de grandeza não nos quer invadir quando buscamos ou proferimos belos discursos, porém, vazios de atitudes evangélicas? Ou mesmo quando nos recusamos ouvir e prestar mais atenção aos “santos de casa” para acolhermos melhor a Palavra de Deus que nos transmitem?

padre Aureliano de Moura Lima, SDN

 

 

A profecia rejeitada na própria casa

No tempo atual, em que a imagem e o sensacionalismo aparentemente prevalecem, a Palavra de Deus deste domingo nos convida a refletir sobre o impacto da ação que parte da simplicidade e sobre a força que se esconde na fraqueza e nos pequenos.

Já no Antigo Testamento, o anúncio profético de Ezequiel é rejeitado por nações rebeldes que fechando o coração à profecia, rejeitam o próprio Deus. A Palavra é firme e quase ameaçadora: “Eu te envio a eles, e lhes dirás: Assim diz o Senhor Deus. Eles, quer ouçam, quer deixem de ouvir, porque são casa rebelde, hão de saber que esteve no meio deles um profeta.

Ezequiel vive num período em que seu povo já tinha se dispersado, vivia iludido com os anúncios dos deuses babilônicos e já não acreditava em si mesmo. O profeta emerge nesta situação como aquele que denuncia a descrença dos pequenos em si mesmos e no Deus que neles acredita e que anuncia a vitória deste Deus dos pobres.

Jesus, no Evangelho, revive a experiência de Ezequiel ao se deparar com a perplexidade dos seus conterrâneos. “Santo de casa não faz milagre!” A afirmação do dito popular parece se encaixar perfeitamente neste contexto e nos desafia a refletir sobre o valor que damos às pessoas iguais a nós que nos anunciam uma palavra libertadora e portadora do recado do Deus da vida.

De onde vem a sabedoria de Jesus? De onde vem a sabedoria dos pobres? Questões que reproduzem em nosso tempo a atitude escandalizada daqueles e daquelas que não acreditam em si mesmo nem em seus irmãos.

Há alguns dias fomos testemunhas do grande evento Rio +20 acontecido no Rio de Janeiro. Fóruns paralelos trouxeram a riqueza partilhada dos pobres como sinal profético diante da fragilidade das potências mundiais para enfrentar os danos no meio ambiente. Quem lhes deu crédito entre nós? Se de um lado se constatou uma grande esperança por parte dos movimentos mundiais de defesa do meio ambiente, do outro lado nos deparamos ainda com lixeiras expostas que revelam nossa dureza de coração e nossa resistência em acolher o apelo profético de salvar nossa mãe terra.

Jesus se admira da incredulidade de seu próprio povo e se vê impedido de realizar milagres entre os seus. Tal resistência não lhe intimidou. Ele parte para as regiões vizinhas e ali ensina a Boa Nova do Reino e realiza milagres anunciando o Reino de Deus.

Em nossos dias, a declaração final da Cúpula dos Povos como expressão paralela à Rio + 20, atualiza a ação profética de Jesus entre os seus e nos desafia a sair da neutralidade. O parágrafo abaixo, tirado desta declaração é um convite a nos perguntar em quem acreditamos em nosso tempo: na grandeza e aparência das grandes instituições ou na organização a partir dos pequenos.

Há vinte anos o Fórum Global, também realizado no Aterro do Flamengo, denunciou os riscos que a humanidade e a natureza corriam com a privatização e o neoliberalismo. Hoje afirmamos que, além de confirmar nossa análise, ocorreram retrocessos significativos em relação aos direitos humanos já reconhecidos. A Rio+20 repete o falido roteiro de falsas soluções defendidas pelos mesmos atores que provocaram a crise global. À medida que essa crise se aprofunda, mais as corporações avançam contra os direitos dos povos, a democracia e a natureza, sequestrando os bens comuns da humanidade para salvar o sistema econômico-financeiro. [...] As instituições financeiras multilaterais, as coalizões a serviço do sistema financeiro, como o G8/G20, a captura corporativa da ONU e a maioria dos governos demonstraram irresponsabilidade com o futuro da humanidade e do planeta e promoveram os interesses das corporações na conferencia oficial. Em contraste a isso, a vitalidade e a força das mobilizações e dos debates na Cúpula dos Povos fortaleceram a nossa convicção de que só o povo organizado e mobilizado pode libertar o mundo do controle das corporações e do capital financeiro.

Que a Palavra do Evangelho de hoje seja uma convocação a assumirmos a força escondida em nossa aparente fraqueza e nos ajude a viver a profecia como discípulos e discípulas de Jesus de Nazaré, começando em nossa  própria casa a educar-nos a novos hábitos e acolher a Palavra de vida que nos chama à conversão. Como Paulo, tenhamos a coragem de afirmar: “quando sou fraco, então, é que sou forte”.

irmã Luzia Ribeiro Furtado

 

 

Neste domingo, a Escritura nos mostra que a opção pelo projeto de Deus pode trazer indiferença e rejeição, injúrias e angústias. Percebemos que Jesus foi rejeitado em sua própria terra por ser trabalhador e filho de Maria, mulher simples da aldeia de Nazaré. Hoje, Jesus continua sendo rejeitados na figura dos pobres, miseráveis, oprimidos, caluniados, injuriados, excluídos, desprezados, pedintes, mendigos e tantos outros discriminados pela sociedade. Por isso, lembramos àqueles que desejam se tornar autênticos profetas com certeza, e com frequência, serão rejeitados pela sociedade injusta. Assim, aprendemos com Paulo que é nas perseguições e nas fraquezas que devemos parecer fortes, pois, se fizermos opção pelo projeto de Deus e se encarnarmos a realidade do povo, obviamente como Jesus, não seremos compreendidos e nem aceitos por muitos.

 

Esta narrativa de Marcos tem como núcleo a proclamação de Jesus: "Um profeta só não é valorizado na sua própria terra". É a sua rejeição pelos frequentadores da sinagoga e por seus familiares. É uma ruptura com as tradicionais estruturas sociorreligiosas de parentesco do judaísmo, que se afirma como povo eleito a partir dos vínculos carnais de consanguinidade, comprovados por genealogias.

Já João Batista em sua pregação advertia: "Produzi fruto de arrependimento e não penseis que basta dizer: 'Temos por pai Abraão'". Com Jesus a família fica caracterizada pela união em torno do cumprimento da vontade do Pai.

Todavia, no evangelho de Marcos, esta é a terceira e última vez que Jesus vai a uma sinagoga, cada vez tendo ocorrido um conflito com os chefes religiosos. Jesus exerce seu ministério na Galileia e territórios gentílicos vizinhos, tendo a "casa" como centro de irradiação da missão.

Percebe-se, bem, como os evangelhos deixam transparecer a dificuldade que os discípulos, e os demais que conviveram com Jesus, tiveram em compreender sua identidade.

Então, podemos perguntar: Quem é Jesus?

Durante cerca de trinta anos Jesus viveu com sua família, na Galileia, sem nada excepcional que chamasse a atenção sobre sua pessoa. É o Filho de Deus presente no mundo, em comunicação com as pessoas, certamente de maneira humilde, digna e com amor.

Jesus é a condição humana, na simplicidade do dia a dia, que é valorizada pelo Pai, o qual, em tudo que nela há de bom, justo e verdadeiro, a assume no seu amor e na sua vida eterna.

Importante ressaltar que, após ser batizado por João, Jesus durante cerca de três anos passa a revelar ao mundo este projeto vivificante do Pai. É o Reino de Deus presente entre nós. Ao fazer, com sabedoria, o seu anúncio profético do Reino, seus conterrâneos se admiravam, mas não o valorizaram, pois sempre o conheceram na sua simplicidade de carpinteiro, filho de Maria. Esta reação do povo indica que Jesus não tinha nenhuma origem davídica, pelo que, se fosse o caso, seria exaltado por todos.

Contudo, devemos esclarecer que o judaísmo tinha uma expectativa messiânica segundo a qual um dia viria um líder que, com carismas especiais, conduziria a nação judaica e a elevaria a um status de glória, riqueza e poder acima das demais nações. Era um ungido (messias, do hebraico; cristo, do grego) à semelhança de Davi, ungido rei, que, segundo a exaltação da tradição, teria criado um glorioso império, o que foi incorporado na memória do povo.

Deste modo, podemos entender que, ao longo do ministério de Jesus, os seus discípulos de origem do judaísmo começaram a ver nele este messias poderoso. Esta falta de compreensão foi frequentemente censurada pelo Mestre.

 Frente à nossa realidade podemos afirmar que o crer em Jesus é ver, na sua humildade e em seus atos de amor, a presença de Deus, cumprindo a vontade do Pai de comunicar a vida aos empobrecidos e marginalizados, os quais são assumidos como filhos, em Jesus. Portanto, o verdadeiro ato de fé é ver Deus, despido de poder, vivendo entre nós, humildemente, na plenitude do amor.

Assim, na segunda leitura, vemos Paulo testemunhar que a missão é feita com humildade e não com atos de poder, e, na segunda leitura, vemos também que, foi na simples condição da fragilidade humana, como "filho do homem", que Ezequiel foi enviado a profetizar a um povo rebelde.

diácono Miguel A. Teodoro

 

 

O profeta e sua gente

É necessário e importante que haja profetas em nosso tempo, mesmo se não forem reconhecidos e aceitos. Um dia vamos dizer que houve um profeta entre nós, e então se reconhecerá a verdade por ele anunciada. Ele mesmo pode ter a impressão de que sua palavra é inútil, suas atitudes, sem repercussão. No entanto, a história lhe fará justiça e dirá aos que vierem depois como foi necessária e importante a sua presença.

A graça de Deus faz surgir personalidades aqui e ali que marcam o seu tempo. Nem sempre são compreendidas e valorizadas, mas existem. O fato de serem discutidas mostra que sua presença não é inútil. Assim aconteceu com Jesus e seus seguidores, e continua acontecendo ainda hoje. Na realidade ninguém é indiferente diante de Jesus.

Nossa Igreja propiciou à nossa terra inúmeros profetas ao longo da história, gente que deixou marcas positivas e provocou mudanças sempre para melhor e em favor da vida do povo. E não apenas indivíduos. Há grupos que se posicionam diante da necessidade do ser humano excluído e ultrajado, no qual se vê a face desfigurada de Cristo, e se movem, agem, dedicam-se. Nossos tempos conhecem associações de fiéis católicos que renunciam a si mesmos, assumem a causa de Cristo e de seu Evangelho e entregam-se de corpo e alma, incansáveis, à prática do bem em favor dos outros.

Quando São Paulo diz: “Eu me gloriarei das minhas fraquezas, para que a força de Cristo habite em mim. Eis por que eu me alegro nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições e nas angústias sofridas por amor a Cristo”, cada um de nós se sente impulsionado a esquecer o cansaço e se entregar com coragem e perseverança à causa de Cristo em favor dos irmãos. O povo de Israel conheceu tempos de silêncio profético. A Igreja também os conhece. A ausência de personalidades, de palavras marcantes, de rumos definidos não significa que não haja profetas no meio do povo. Profetas ocultos, gente que se dedica a uma causa, que estende a mão e abraça, que reza e consola, que reclama e protesta. Às vezes não os reconhecemos porque são do nosso meio, são gente como nós, conhecemos sua família e sua história. O profeta não é necessariamente alguém extraordinário. O que importa é que ele é alguém em tudo semelhante aos seus irmãos e os compreende porque sofre com eles as mesmas provações, assim como o Sumo Sacerdote misericordioso da nova Aliança.

Um dia, o Espírito entrou no profeta Ezequiel, colocou-o de pé e o enviou para profetizar. O Espírito também nos foi dado e com ele o amor de Deus se derramou em nossos corações. Ele é sopro que move, vento que carrega, brisa suave. Não nos falte o Espírito que nos põe de pé e nos faz profetizar. Por que então um profeta só não é estimado em sua pátria, entre os seus parentes e familiares? O Evangelho dá a entender que não aceitamos gente igual a nós, ou que não temos fé. Pode acontecer, ampliando a questão, que os familiares não entendam a missão ou tenham medo dos perigos que a envolvem. Preocupam-se com o bem-estar de seu parente, querem um futuro honroso para seu filho, um bom casamento para a filha. Não entendem que alguém possa deixar tudo e correr atrás de um valor que não se vê. Não importa que não entendam a missão do profeta. Importa que ele a entenda

cônego Celso Pedro da Silva

 

 

Jesus voltava para Nazaré, a cidade de onde havia dado início ao seu ministério; voltava para o mesmo lugar, a sinagoga, onde outrora havia anunciado que o “reinado de Deus” não era mais apenas um sonho antigo, mas estava acontecendo de verdade. Naquela ocasião, comentando o texto de Isaías da liturgia do dia, Jesus havia proclamado que a esperança tão longamente vaticinada pelos profetas estava mais perto do que se poderia imaginar. Naquela ocasião a reação dos ouvintes foi tão dura que Jesus foi rejeitado, expulso da Sinagoga e correu o risco de ser morto com a morte dos infames: ser precipitado de um rochedo. Agora Jesus estava voltando no mesmo ambiente após um período de anúncio e milagres realizados em outras regiões da Galileia. Jesus estava mais uma vez junto dos seus. Contudo, antes Dele a sua fama O havia já precedido.

Como todo sábado o Senhor foi à Sinagoga, o lugar do encontro com Deus e com a comunidade religiosa da sua cidade. Era costume, após as cerimônias e ritos próprios do sábado, que se realizassem momentos de reflexão e ensino das Escrituras numa sala própria, adjacente àquela do culto. Desta vez Jesus não comentou os textos litúrgicos como havia feito em antecedência, mesmo assim as suas palavras continuaram marcando profundamente os ouvintes não tanto pela ciência Bíblica, quanto pela sabedoria que transparecia; não precisava interpretar as Escrituras, elas falavam por si próprias na pessoa de Jesus, o Verbo de Deus vivo. A sabedoria não é algo que se conquista com técnicas de estudo, é simplesmente a vida vista pelo lado mais autêntico, o mesmo lado que a Escritura mostra; é o mundo visto com a visão de Deus. A sabedoria apenas acontece na vida de um homem que vive com Deus, como bem diz o Salmista: «é o justo que profere palavras de sabedoria» (Sl. 37,30). A sabedoria começa a existir quando o tempo e a referência a valores absolutos nos permitem identificar e distinguir o que é essencial e o que é relativo. É por isso que a sabedoria é sempre associada, na Escritura, ao “coração de Deus”, é o que está dentro Dele.

Ora, o que escandalizou os ouvintes de Jesus foi justamente perceber isso; o Senhor falava uma linguagem diferente, os seus lábios pareciam expor o coração de Deus ao mundo dos ouvintes. Mas, como poderia um carpinteiro ter tanta sabedoria, tanta intimidade com o coração de Deus?

Como é atual essa situação que Jesus viveu! Quem sabe se junto com tantos conhecimentos tivéssemos também um pouco mais de sabedoria! Sim, um pouco mais de  sabedoria poderia ainda encantar o homem projetando-o além das metas que a ciência, e o conhecimento humano propõem.

Muitos conheciam as Escrituras na Sinagoga, mas poucos falavam com sabedoria, ela parecia ter desaparecido com o desaparecimento dos profetas em Israel e a substituição das palavras deles com ritos e cultos...

Essa era a situação. Todos haviam percebido algo diferente em Jesus, mas então... O trecho que estamos lendo parece deixar transparecer uma pergunta de fundo: porque não acreditaram mesmo que o coração deles tivesse intuído uma verdade superior a tudo o que conheciam? E ainda, o que é a “não-fé” que Jesus viu? Qual perverso mecanismo se desencadeia em nós quando impedimos a Deus de fazer para nós aquilo que Ele gostaria de fazer?

Talvez nunca achemos resposta, como não a encontraram os Evangelistas que nos transmitiram esse drama que recorre no interior de muitas pessoas, mas creio que seja importante percorrer o caminho que Marcos nos sugere. O conflito é evidente no íntimo daquelas pessoas, um conflito que não conseguem resolver com a humildade e manifestam em tom de agressão. Sim, pois nenhum homem era chamado com o nome da “mãe”; mesmo que o pai tivesse falecido o comum era chamar Jesus “filho de José”. Dizer  “filho de Maria” significava por em dúvida a paternidade de José, mesmo que ele tivesse já assumido legalmente a paternidade de Jesus. Significava jogar “lama” sobre a honra da mulher, Maria e do seu filho.

Poderemos arriscar uma hipótese daquilo que aconteceu no coração dos Nazarenos? Será possível encontrar para nós uma atitude que permita a Jesus de fazer para nós aquilo que Ele tanto deseja, a ponto de dar a sua vida, passo a passo? Com qual inimigo precisamos nos defrontar para deixar ao Senhor de ser o nosso Redentor e não cairmos na ilusão de sermos redentores de nós mesmos?

Talvez possamos encontrar auxilio num episódio narrado no Segundo livro de Reis (cap.5). Um comandante do exercito Sírio, Naamã era leproso. Uma menina lhe disse que um homem, Eliseu, poderia curá-lo. Naamã foi até a Samaria. Mas grande foi a sua decepção quando o Profeta lhe disse apenas: «vai lavar-te no rio Jordão». A reação indignada de Naamã está descrita nestes temos: «…Eu pensava que ele sairia a ter comigo, pôr-se-ia de pé, invocaria o nome do Senhor, seu Deus, moveria a mão sobre o lugar da lepra e restauraria o leproso…».

Pois aqui está a diferença entre a “pedra de construção” e a “pedra de tropeço” (em grego  “escândalo”). A mesma situação pode tornar-se ocasião de construir um relacionamento com Jesus ou uma dificuldade.

“Eu pensava…”, disse o comandante; de modo semelhante fizeram os habitantes de Nazaré, os quais já haviam criado em si uma imagem de Jesus, inclusive pela fama das curas realizadas em Cafarnaum, não muito longe de Nazaré. A fama, o preconceito, são imagens que criamos na nossa mente e que a conduzem, a influenciam a tal ponto que em nós pode nascer a presunção de entender como Deus irá agir. Tudo isto dificulta a compreensão plena de uma realidade que se apresente pelo que é, não por aquilo que imaginamos que precise ser. É assim que acabamos vendo, acabamos percebendo apenas uma parte, aquela que coincide com a nossa expectativa. Outros aspectos passam simplesmente despercebidos, desconsiderados porque as coisas não aconteceram como nós havíamos imaginado. Para Naamã era muito pouco dizer: «vai lavar-te»! A simplicidade das coisas de Deus nos deixa sempre atordoados, precisamos de coisas complexas, articuladas, difíceis para serem realizadas, sim, porque assim temos a certeza de que “fizemos algo difícil que nos mereceu a recompensa”.

Mas não é assim com Deus, a gratuidade é sem dúvida um sentimento bem mais difícil do que a conquista, cava bem mais fundo para nos dizer quem somos e até que ponto nos deixamos envolver. A conquista implica recompensa, é algo que podemos prever; a gratuidade somente se justifica com o amor que age em plena liberdade e, deixar-se amar é realmente algo novo. Não é obvio! Isso é que nos questiona lá no fundo de nós mesmos. Às vezes, aquilo que tanto buscamos está perto demais para que possamos acreditar que seja real, mas de fato é assim, e é isto que nos deixa confusos. Tal sensação dominou a simplicidade do coração daquelas pessoas. Eles conheciam a Jesus, sabiam tudo dele, a profissão, o parentesco, conheciam a inteira família. Tudo isto é figura do conhecimento que às vezes temos de Jesus: é real, verdadeiro, mas parcial, e isto infelizmente, o esquecemos com freqüência. Às vezes precisamos de um Deus demais diferente para dizermos que é Deus, e quando Ele escolhe a nossa limitação, quando Ele não rejeita o que nós somos mas se faz perto de nós, isto parece estranho e inverossímil. Os Nazarenos O rejeitaram justamente porque viram Jesus e não viram o mistério; viram o que lhes era possível ver, o que conheciam, mas não conseguiram transpor a própria experiência a qual, como uma armadilha, os prendeu àquilo que haviam visto. Bem, a fé implica necessariamente nesta capacidade de se libertar daquilo que já sabemos e conhecemos, a fim de que nos seja oferecido um mundo novo, desconhecido, aberto àquele infinito que já sentimos dentro de nós.

O limite nos faz sentir medo e, contemporaneamente, segurança; a fé nos projeta além do imaginado; não nos dá segurança, mas tira todo medo. Não é crendice tola, é atitude escolhida, é capacidade de arriscar por algo que está além do mundo que se consegue “conhecer”: é humildade aberta ao infinito.

O Evangelista descreve a sensação dos Nazarenos usando uma expressão não simples quanto ao seu significado e à história que traz consigo. Ele diz: «ficavam admirados ». A raiz do verbo indica um sentimento de medo diante de algo muito diferente do esperado. É uma reação que se encontra muitas vezes nos Evangelhos; é própria de quem sabe de estar diante de algo que está acima de quanto a mente pode imaginar. É um sentimento próprio do homem religioso, é o “temor de Deus”. Deste modo Marcos nos assegura a boa disposição religiosa dos Nazarenos, mas contemporaneamente a errônea decisão tomada diante deste sentimento. A maravilha diante do divino ou do desconhecido não é fé; é um simples reconhecimento –o que já por si próprio é positivo. Fé é ainda algo a mais, algo que Jesus não conseguiu ver. É uma decisão de se deixar envolver por aquilo que ainda não se conhece com a certeza de que será conhecido por um caminho diferente. Este mesmo sentimento, por exemplo, o encontramos em Maria quando, tendo perdido Jesus, O questiona: «Filho, porque nos fizeste isto?» (Lc. 2,48). Ora, a fé e a não fé, são originados pelo mesmo fato,ou seja de estar diante de algo não imaginado. É o modo como nos posicionamos diante do imprevisto que faz a diferença. Principalmente se o “imprevisto” nasce do modo de agir de Deus.

Os Nazarenos pretendiam reduzir o agir de Deus aos próprios critérios; Maria, -nos diz o Evangelista- «guardava tudo isto em seu coração» mesmo não compreendendo. A fé sabe que tudo tem sentido, simplesmente espera, “guardando”, como coisa preciosa, fatos que não dá para entender imediatamente, mas que possuem uma lógica, um sentido; situações e palavras conservadas cuidadosamente sabendo que o sentido será dado a conhecer como um dom e não como uma conquista. Fé é decisão de aderir, simplesmente aderir por confiar no amor Daquele que escolheu se fazer tão perto de nós a ponto de deixar-nos confusos.

A fé permite a Jesus de ser para nós o que sempre desejou ser, irmão, amigo, salvador. Laconicamente, o Evangelista nos diz: «Jesus não pôde», deixando transparecer a tristeza de Alguém cuja alegria é dar. «Jesus não pôde» por respeito, porque nunca Deus esmagou a liberdade do homem com o Seu poder, sim porque a fé é liberdade e nasce da liberdade.

padre Carlo

 

 

Neste 14º domingo do tempo comum, a Igreja coloca à nossa consideração a rejeição de Jesus por parte das pessoas de Nazaré. A sua passagem por Nazaré foi dolorosa. A que era a sua comunidade agora já não o é. Algo mudou. Os que antes o acolhiam, agora rejeitam-no. Como veremos depois, esta experiência de rejeição levou Jesus a tomar uma decisão e a mudar o seu agir. Desde que começaste a participar na comunidade algo mudou na tua relação com a família e os amigos? A participação na comunidade serviu-te para acolher e ter mais confiança nas pessoas, sobretudo nos mais humildes e nos mais pobres?

O contexto de ontem e de hoje

Ao longo das páginas do seu evangelho, Marcos indica que a presença e a ação de Jesus constituem uma fonte crescente de alegria para alguns e um motivo de rejeição para outros. Cresce o conflito, aparece o mistério de Deus que envolve a pessoa de Jesus. Com o capítulo 6º, encontramo-nos na narração diante de uma espécie de curva. As pessoas de Nazaré fecham-se perante Jesus (Mc. 6,1-6). E Jesus, perante esta postura de fechamento das pessoas da sua comunidade, abre-se às de outras comunidades. Dirige-se às pessoas da Galileia e envia os seus discípulos em missão, ensinando como deve ser a relação com as pessoas, de modo que seja verdadeira relação comunitária, que não exclua, como acontece com as pessoas de Nazaré (Mc. 6,7-13). Quando Marcos escreve o seu evangelho, as comunidades cristãs viviam uma situação difícil e sem horizontes. Humanamente falando não havia futuro para elas. A descrição do conflito que Jesus vive em Nazaré e o envio dos discípulos, que alarga a missão, torna-as criativas. Para os que crêem em Jesus não se pode estar numa situação sem horizontes.

Comentário do texto

Marcos 6,1-3

Reação das pessoas de Nazaré perante Jesus. É sempre bom regressar à nossa terra. Depois de uma larga ausência, também Jesus regressa e, como de costume, no dia de sábado vai a uma reunião da comunidade. Jesus não era o coordenador, mas apesar disto tomou a palavra, sinal de que as pessoas podiam participar e expressar a sua opinião. Mas as pessoas não gostaram do que Jesus disse e ficaram escandalizadas. Jesus, conhecido por elas desde criança, como tinha mudado tanto? As pessoas de Cafarnaum aceitaram o ensinamento de Jesus (Mc. 1,22) mas as de Nazaré ficaram escandalizadas e não o aceitaram. Qual a razão da recusa? “Não é este o carpinteiro, o filho de Maria?”. Não aceitavam o mistério de Deus presente numa pessoa tão comum como elas. Para poder falar de Deus deveria ser diferente delas! O acolhimento dado a Jesus não foi bom. As pessoas que deveriam ser as primeiras a aceitar a Boa Nova, são precisamente as primeiras a não a aceitar. O conflito não é só, portanto, com os de fora, mas também com os parentes e com as gentes de Nazaré. Eles não aceitam porque não conseguem entender o mistério que envolve a pessoa de Jesus. “De onde é que isto lhe vem e que sabedoria é esta que lhe foi dada? Como se operam tão grandes milagres por suas mãos? Não é Ele o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E as suas irmãs não estão aqui entre nós?”. E não conseguem acreditar.

A expressão “irmãos de Jesus” causa muita polêmica entre católicos e protestantes. Baseando-se neste e noutros textos, os protestantes dizem que Jesus teve muitos irmãos e irmãs e que Maria teve mais filhos. Nós, os católicos, dizemos que Maria não teve outros filhos. O que pensar de tudo isto? Em primeiro lugar, quer as posições dos católicos quer as dos protestantes, retiram o argumento da Bíblia e da antiga Tradição das respectivas Igrejas. Por isso não convém discutir estas questões com argumentos racionais, fruto das nossas idéias. Trata-se de convicções profundas, que têm a ver com a fé e o sentimento das pessoas. O argumento sustentado só por idéias não consegue desfazer uma convicção da fé que encontra as suas raízes no coração. Só irrita e desassossega. Mas ainda que não se esteja de acordo com a opinião do outro, devo contudo respeitá-la. Em segundo lugar, em vez de discutir sobre os textos, todos nós, católicos e protestantes, devemos unir-nos muito mais na luta em defesa da vida, criada por Deus, vida tão ultrajada pela pobreza, a injustiça, pela falta de fé. Devemos recordar outras frases de Jesus: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo. 10, 10); “para que todos sejam um, para que o mundo acredite que tu me enviaste” (Jo. 17, 21); “Não o proibais. Quem não está contra nós, está conosco” (Mc. 9,39-40).

 

Marcos 6,4-6

Reação de Jesus perante o comportamento das pessoas de Nazaré. Jesus sabe muito bem que “santos da casa não fazem milagres” e diz: “Um profeta só é desprezado na sua pátria, entre os seus parentes e em sua casa”. Com efeito, onde não há a aceitação da fé, as pessoas não podem fazer nada. O preconceito impede-o. Mesmo querendo, Jesus não pode fazer nada e permanece atónito perante a falta de fé dos seus concidadãos.

Informações acerca do evangelho de Marcos

Este ano litúrgico apresenta-nos de modo particular o evangelho de Marcos. Vale a pena dar algumas informações que nos ajudem a descobrir melhor a mensagem que Marcos nos quer comunicar.

O desenho do rosto de Deus na parede do evangelho de Marcos

Jesus morreu por volta dos 33 anos. Quando Marcos escreve o seu evangelho nos anos setenta, as comunidades cristãs viviam já dispersas pelo Império Romano. Alguns afirmam que Marcos escreveu para as comunidades de Itália. Outros afirmam que foi para as da Síria. É difícil saber com certeza. De qualquer forma, uma coisa é certa: não faltavam os problemas. O Império Romano perseguia os cristãos, a propaganda do Império infiltrava-se nas comunidades, os judeus da Palestina revoltavam-se contra a invasão romana. Existiam tensões internas devidas a diversas tendências, doutrinas, chefes...

Marcos escreve o seu evangelho para ajudar as comunidades a encontrar resposta para estes problemas e preocupações. Recolhe vários episódios e palavras de Jesus e une-os entre si como ladrilhos de uma parede. Os ladrilhos são já antigos e conhecidos. Vêm das comunidades onde foram transmitidos oralmente em reuniões e celebrações. O desenho formado pelos ladrilhos era novo. Vinha de Marcos e da sua experiência acerca de Jesus. Ele queria que as comunidades, lendo o que Jesus fez e disse, encontrassem resposta para estas perguntas: “Quem é Jesus para nós e quem somos nós para Jesus?”; “Como ser discípulo?”; “Como anunciar a Boa Nova de Deus, que nos revelou?”; “Como percorrer o caminho traçado por ele?”.

Três chaves para entender as divisões no evangelho de Marcos

1ª chave: O evangelho de Marcos foi escrito para ser lido e escutado em comunidade. Quando se lê a sós um livro, pode-se voltar atrás, para unir uma parte com a outra, mas quando se lê em comunidade e uma pessoa está diante de nós a ler o evangelho, não é possível dizer: “Pára! Lê outra vez. Não  entendi bem!”. Como veremos, um livro escrito para ser escutado nas celebrações comunitárias tem um modo diverso de dividir o tema relativamente a outro que é lido a sós.

2ª chave: O evangelho de Marcos é uma narração. Uma narração é como um rio. Atravessando o rio de barco, ninguém se dá conta da divisão das águas. O rio não tem divisões. É constituído por um só fluir, desde o princípio até ao fim. No rio, as divisões fazem-se desde as margens. Diz-se, por exemplo: “Que bela parte do rio a que vai desde aquela casa até à curva onde se encontra a palmeira, que está três curvas depois!”. Mas na água não se vê nenhuma divisão. A narração de Marcos flui como um rio. As suas divisões são encontradas por aqueles que as escutam e as encontram nas margens, como se fosse, nos lugares por onde Jesus passava, na geografia, nas pessoas que encontra, ao longo dos caminhos que percorre. Estas indicações à margem ajudam o leitor a caminhar com Jesus, passo a passo, da Galileia até Jerusalém, do lago até ao Calvário.

3ª chave: O evangelho de Marcos foi escrito para ser lido de uma só vez. Era assim que faziam os judeus com os livros mais pequenos do Antigo Testamento. Alguns entendidos afirmam que o evangelho de Marcos foi escrito para ser lido, todo inteiro, no decurso da longa vigília da noite de Páscoa. Por isso, a fim de que as pessoas que escutassem não ficassem cansadas, a leitura devia ser dividida e ter algumas pausas. Além disso, quando uma narração é longa, como a do evangelho de Marcos, a sua leitura deve ser interrompida a cada passo. Em certos momentos é necessário fazer uma pausa, de outra forma os ouvintes perdem-se. Estas pausas estavam já previstas pelo próprio autor da narração. E fazia-se entre as leituras longas dando alguns resumos prévios. Praticamente como acontece na televisão. Todos os dias, ao começar a telenovela são repetidas algumas cenas do episódio anterior. Quando termina são apresentadas algumas cenas do dia seguinte. Estes resumos são como os eixos ou articulações que unem o que foi lido com o que vai ser lido. Permitem parar e começar de novo sem interromper nem alterar a sequência da narração. Ajudam os que ouvem a colocar-se no rio da narração que flui. No evangelho de Marcos encontram-se vários resumos deste tipo ou pausas, que permitem descobrir e seguir o fio da Boa Notícia de Deus que Jesus nos revelou e que Marcos nos conta. No total trata-se de sete blocos ou leituras mais longas intercaladas de pequenos resumos ou articulações onde é possível fazer umas pausas.

frei Gilmar Vasques Carreira, Ofm

 

 

A liturgia deste domingo revela que Deus chama, continuamente, pessoas para serem testemunhas do seu projeto de salvação. Não interessa se essas pessoas são frágeis ou limitadas; a força de Deus revela-se através da fraqueza e da fragilidade desses instrumentos humanos que Deus escolhe e envia. A primeira leitura nos mostra que Deus sempre envia profetas para nos chamar à conversão, mesmo quando não queremos escutá-los. O próprio Ezequiel conta como foi chamado por Deus e as consequências de sua adesão: “o Espírito entrou em mim e fez-me levantar”. Portanto, é o Espírito que ilumina e orienta. O ato de alguém falar a Ezequiel, de chamá-lo, mostra-nos que a vocação vem de Deus. Ninguém chama a si mesmo. É Deus quem escolhe, convida e, obtida a resposta positiva, envia: “Eu te envio aos filhos de Israel”. Ezequiel caído, prostrado como todo povo exilado, recebe o espírito de profecia que o põe de pé e lhe permite discernir em meio a situações difíceis e obscuras o que Deus fala. Sua missão tem duplo sabor: experimenta a doçura do mel que brota da Palavra de Deus, mas esta mesma Palavra lhe causa amargura. Deve proclamá-la, sendo aceita ou não, mesmo rejeitada. Ser profeta é por em risco a própria vida. Na segunda leitura, Paulo relata aos Coríntios algumas das dificuldades com que se deparou ao optar pelo seguimento de Jesus. Paulo experimenta um “espinho na carne”: conflitos que quem segue Jesus encontra e enfrenta dentro e ao redor de si mesmo. Por dentro a pessoa se sente repleta de fraqueza e de necessidades. Por outro lado, há os conflitos que vêm de fora: “injúrias, perseguições e angústias sofridas por amor a Cristo”. Porém, podemos descobrir que a nossa força pode estar escondida em nossa própria fraqueza e na graça de Deus. No início da missão na Galileia, Jesus foi aceito com entusiasmo pela multidão que o ouvia e acolhia a Boa-Nova, sobretudo entre os pobres e doentes.

Mas ao mesmo tempo sofreu rejeição em sua terra natal, por parte de seus familiares e vizinhos. Seus conterrâneos esperavam um messias forte e dominador e não podiam imaginá-lo simples carpinteiro e filho e Maria. É o símbolo da não aceitação de um povo que mata os profetas enviados por Deus. Jesus vai a Nazaré e ensina na sinagoga. No início, quem se admira são os ouvintes, porém, tal admiração não os leva à fé em Jesus, e sim à rejeição, pois vêem nele uma “pedra de tropeço”. No final desse evangelho, é Jesus quem se surpreende com a falta de fé do povo, o que impede a realização de milagres, pois fora da fé um milagre perde o sentido. A Palavra de Jesus, neste domingo, nos convida a não depositarmos nossa confiança nos que chegam com aparência de grandeza. Jesus nos ensina a não ter medo de nossa fraqueza. Na sua trajetória, o fracasso mais absoluto se transforma em vitória e ressurreição. Jesus de Nazaré foi motivo de escândalo para os que ouviram só com os olhos humanos. A quem não quer crer, Ele nada revela. Mas a nós, reunidos na fé, Ele se revela em toda profundidade. A celebração é momento de assumir diante de Deus as nossas fragilidades, acreditando que só o que é assumido, pode ser transformado.

 

 

Como Jesus fazia milagres ao sábado,  os fariseus não aceitavam a Sua doutrina.

A liturgia da Palavra deste 14º domingo comum,  é um apelo de prevenção contra o pecado da Rejeição de Cristo, contra todos aqueles que se deixam levar por outras doutrinas que negam os ensinamentos de Cristo e da Sua Igreja.

Muitas vezes trata-se de uma auto-suficiência em matéria de Religião que pode levar a procurar uma Religião de conveniência, de uma religião mais fácil que se pode acobardar debaixo desta expressão: Tenho cá a minha fé!

Há por um lado o comodismo natural do ser humano e por outro, a divulgação, cada vez mais generalizada, de correntes  ideológico-filosóficas de tendência materialista. Deixar os braços cruzados ou caídos não é digno do cristão.

A 1ª leitura do livro do profeta Ezequiel diz-nos que, apesar das muitas infidelidades do povo eleito, o Senhor não o deixa só, ao abandono, no exílio. Envia-lhe o profeta Ezequiel, que falará em seu nome, e o põe de sobreaviso, iluminado pelo Espírito que entrou nele, a respeito dos que foram rebeldes: “Eles e seus pais foram-Me infiéis até ao dia de hoje” (1ª leitura).

O povo tem um profeta consigo e poderá converter-se ao Senhor e encontrar de novo a amizade perdida – a união com Deus - e esperar o seu perdão, como proclama o salmo responsorial: “Os nossos olhos estão postos no Senhor, até que se compadeça de nós”.

Na 2ª leitura, Paulo diz aos Coríntios, e hoje também a todos nós, que devemos estar atentos contra as tendências da nossa fraqueza humana, que também servem, como espinhos, para nos ajudarem a permanecer fiéis: “Basta-te a Minha graça, pois na fraqueza é que a minha força atua plenamente” (2ª leitura).

A tentação do triunfalismo espreita-nos a todo o momento, e esquecemo-nos facilmente de que  boa parte do mérito das nossas ações se deve ao Senhor. Devemos saber aceitar as dificuldades de cada dia como um chamamento do Senhor.

O Evangelho, é de são Marcos, e diz-nos que os habitantes de Nazaré se admiravam com a ciência de Jesus, dizendo entre si: «É lá possível que o filho do carpinteiro José, e de Maria, esteja tão familiarizado com as Escrituras Sagradas»?

Jesus faz milagres para manifestar o seu messianismo, mas porque os faz também ao sábado, é mal interpretado pelos seus ouvintes, que O consideram como simples carpinteiro e filho de José o carpinteiro: “Não é Ele o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão ? ... Não vivem aqui entre nós as Suas irmãs ?” (Evangelho).

Então, como agora, perante a infidelidade dos que não querem ver e seguir a verdade, temos que dizer muitas vezes como lhes disse Jesus: «Um profeta só é desprezado na sua terra, entre os parentes e em sua casa» (Evangelho).

Também ainda hoje, por orgulho muitos se recusam a receber Jesus como o profeta enviado por Deus, recusando aceitar a doutrina da Igreja que Ele fundou e encarregou de pregar por todo o mundo. O relacionamento de Jesus com o seu povo foi ao mesmo tempo  terreno e severo: “Quantas vezes quis recolher os teus filhinhos, como uma galinha recolhe os pintainhos sob as suas asas, e vós não quisestes!” (Mt. 23.37).

Como os seus pais se tinham comportado com os profetas, também os Israelitas se comportaram com Jesus; são um povo de rebeldes...são filhos obstinados e de coração duro. Muitas são as razões do fracasso e da rejeição do povo eleito. Antes de tudo, os erros da interpretação da Lei.

O povo sufocou sob a letra  um documento cheio de tensão escatológica; reduziu a missão e a figura do Messias às dimensões de um quadro demasiadamente humano e nacionalista. Algumas classes do povo acreditaram que podiam ser suficientes a si mesmas e fecharam-se a toda a iniciativa de Deus.

Cegos pela preocupação de vantagens terrenas, outros judeus  desprezaram os sinais que Deus lhes enviava.

O culto também foi deformado pelo formalismo,  e o templo tornou-se um lugar de prestação de contas culturais, sem uma verdadeira participação pessoal.  Neste contexto, o incidente de Nazaré assume um significado simbólico.

Jesus apresenta-se na sua cidade de residência, não como simples cidadão que faz uma visita à família; ele vai lá com os seus discípulos no pleno exercício da sua qualidade de Rabi, dotado de sabedoria e de uma autoridade fora do comum.

Essas suas qualidades excepcionais são postas em evidente contraste com a sua origem familiar; a sua gente “escandaliza-se com ele” e não o aceita como o que ele verdadeiramente é.

São Paulo disse: “Nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios” (1Cor. 1,23).

Grande parte dos judeus não reconheceu a Cristo, mas as razões que explicam esta recusa dizem respeito também a nós; estamos também continuamente em perigo de querermos salvar-nos sozinhos, de pôr a nossa confiança só nos recursos exteriores, de dar ao nosso culto mais formalismo do que vida interior, de restringir com as nossas interpretações demasiadamente humanas e ligadas a um determinado ambiente, a universalidade da nossa religião.

Sobretudo nós temos também  a tentação contínua de fazer cair os profetas, porque nos incomodam nas nossas posições alcançadas e destroem o nosso comodismo interesseiro.

Jesus veio criar tensões; a sua pessoa é sempre um sinal de contradição e a sua palavra exige opções e compromissos. No entanto, sabemos tomar as justas distâncias, sabemos colocar-nos em posições confortáveis, de maneira a não incomodar ninguém, para não arranjarmos conflitos e mal entendidos.

O cristão, mesmo que atormentado pela necessidade e pelo dever de combater contra todo o mal e as suas consequências, é sustentado cada dia por uma esperança que não desfalece para que possa dar  cumprimento ao plano da História da Salvação.

O Catecismo da Igreja Católica lembra-nos que o Filho de Deus é homem, mas não deixou de ser Deus:

470 – Uma vez que, na união misteriosa da Encarnação, «a natureza humana foi assumida, não absorvida» (GS. 22,2), a Igreja, no decorrer dos séculos, foi levada a confessar a plena realidade da alma humana, com as suas operações de inteligência e vontade, e do corpo humano de Cristo. Mas, paralelamente, a mesma Igreja teve de lembrar repetidamente que a natureza humana de Cristo pertence, de pleno direito, à pessoa divina do Filho de Deus que a assumiu. Tudo o que Ele fez e faz nela, depende de «um da Trindade». Portanto, o Filho de Deus comunica à sua humanidade o seu próprio modo de existir pessoal na Santíssima Trindade. E assim, em sua alma como em seu corpo, Cristo exprime humanamente os costumes divinos da Trindade.

Ora isto é para nos dizer que, embora conhecido apenas como o filho do carpinteiro, Jesus era o Filho de Deus, o enviado de Deus para nos trazer a salvação e a Sua doutrina é que nós devemos aceitar e seguir.

John Nascimento